Skip to main content

Ultra Carnem - Book Preview

Page 1


Copyright © 2016 by Cesar Bravo

Ilustração da Guarda O Julgamento Final (detalhe), c. 1525-1530, de Lucas Cranach, o Velho Créditos ilustrações p.8 123RF (A. Abrignani) p. 14, 82, 176, 270 123RF (Luisa V. Fumi) p. 370 123RF (P. Guenette)

Os personagens e as situações desta obra são reais apenas no universo da ficção; não se referem a pessoas e fatos concretos, e não emitem opinão sobre eles.

Diretor Editorial

Christiano Menezes

Diretor Comercial Chico de Assis

Diretor de Novos Negócios

Marcel Souto Maior

Diretora de Estratégia Editorial Raquel Moritz

Gerente Comercial Fernando Madeira

Gerente de Marca Arthur Moraes

Gerente Editorial Marcia Heloisa

Editor

Bruno Dorigatti Capa e Projeto Gráfico Retina 78

Coordenador de Diagramação

Sergio Chaves

Preparação e Revisão Retina Conteúdo Finalização

Roberto Geronimo

Marketing Estratégico Ag. Mandíbula

Impressão e Acabamento Ipisis Gráfica

DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (cip) Angélica Ilacqua CRB-8/7057

Bravo, Cesar Ultra carnem : muito além da carne / Cesar Bravo. — Rio de Janeiro : DarkSide Books, 2016. 384 p.

ISBN 978-85-945-4015-7

1. Literatura brasileira 2. Terror I. Títuloa

16-0971

Índice para catálogo sistemático: 1. Literatura brasileira

[2016, 2024]

Todos os direitos desta edição reservados à DarkSide® Entretenimento ltda

Rua General Roca, 935/504 – Tijuca 20521-071 – Rio de Janeiro – RJ – Brasil www.darksidebooks.com

CDD B869

Para Bianca, a mulher mais forte que conheço.

PARTE I O ABANDONO

“De todos os lados somos pressionados, mas não desanimados; ficamos perplexos, mas não desesperados; somos perseguidos, mas não abandonados; abatidos, mas não destruídos.”

2 Coríntios 4:8-9

1Dom Giordano não gostava do que via. Ele amava crianças, Deus sabia que sim, mas aquele menino... Aquele garoto e seus pequenos olhos verdes não refletiam juventude. Giordano sacudiu levemente a cabeça, encontrando um quadro de Jesus Cristo preso à parede. A função de um padre não era julgar, nunca foi. Sua missão era fazer o melhor que pudesse com aqueles pobres desafortunados.

Encontrou o menino recolhido a um canto mais escuro da sala, a cabeça colada no queixo, os olhos fixos em algo que trocava entre as duas mãos pequenas e sujas. À distância segura de dois metros, a velha cigana que o trouxera estudava as expressões do padre. Como feito desde sua chegada naquele lugar, ela evitava pousar seus olhos no menino.

A casa sob a responsabilidade de Dom Giordano ficava em uma cidade interiorana chamada Três Rios, em um tempo em que bestas movidas a gasolina começavam a aparecer e causar os primeiros acidentes, enquanto substituíam as velhas carroças enferrujadas que circulavam pelo centro. No casarão, outras nove crianças faziam companhia ao padre — além de Suzana, uma boa alma que aceitara o emprego e levava o celibato a sério.

Com um suspiro, Giordano acenou brevemente a cabeça para sua estranha visitante. Mais estranho ainda era o fato de ela trazer-lhe uma criança. Ciganos eram reconhecidos como enigmáticos, ladrões e perigosos, mas sua maior característica era a arrogância. Portanto, não era natural que trouxessem um dos seus até o seio de uma instituição católica, mesmo um órfão, como provavelmente aquele garotinho era. Em um sinal de paz, Dom Giordano estendeu a mão para a velha cigana. Ela ergueu o braço sacolejando suas joias. Apertou seus olhos enrugados e os dedos do padre.

— Iolanda — disse ela, se apresentando.

— O que a traz aqui em uma noite de tanta chuva?

Perguntas redundantes, tão necessárias quanto as palavras em latim recitadas durante as missas e a educação que aqueles pequenos esqueceriam assim que deixassem o orfanato. Rituais: porque disso o mundo também era feito.

— Ele me traz aqui. É meu irmão. Pensei que a mulher tinha dito ao senhor.

Dom Giordano tornou a olhar para a criança. Em vez de considerar aquilo uma piada e sorrir, decidiu perguntar:

— Poderia me responder, em nome de Deus, como uma criança tão pequena possa ser seu irmão? Não quero ofendê-la, mas a senhora já passou dos sessenta, o que coloca sua mãe na casa dos... Oitenta? Noventa? Nunca ouvi falar em alguém que gerasse um filho nessa idade.

A cigana baixou o queixo e sorriu entredentes.

— Padres... Existe muita coisa por aí que o senhor não conhece. Mas eu não vim até aqui para discutir sua fé ou a minha. Preciso que fique com a criança. Preciso que faça isso ou eles vão matá-la.

Giordano chegou mais perto sem perguntar muito. Ciganos não costumavam dizer a verdade, então...

Apanhou o queixo do menino e forçou a subida dos olhos até que eles o encarassem. O garoto não relutou. Giordano aproximou seu rosto do dele e se concentrou na mancha azulada, contornada por um verde-lodo, que pendia sob o olho esquerdo do menino.

— Quem fez isso com o pobrezinho?

— Eu não sei, pode ter sido qualquer um. Ninguém quer o menino entre nós, ele está com um djin dentro dele.

Terminada a sondagem do menino, Giordano chegou mais perto da mulher.

— Eu não sei o que é um djin , mas os responsáveis por isso devem responder às autoridades. Entendo que educar uma criança exija certa força física, mas isso? Ele poderia ter ficado cego.

— Garanto que ele enxerga coisas que eu e você jamais sonharíamos em ver. É isso o que um djin permite. Ele abre os seus olhos. Vai ficar com o garoto ou não?

— Não é tão simples, sra. Iolanda. Preciso consultar nossa sede em São Paulo, a paróquia... Existem procedimentos. Eu não posso simplesmente acolher uma criança sabendo que ela possui uma família. Essa é uma casa para órfãos, para os abandonados e desgraçados.

— Ele é um desgraçado. E acabou de ser abandonado.

— Você disse que ele é seu irmão.

— Ele tem uma doença ruim, padre. Não quero mais conviver com isso.

O menino sorriu de soslaio, com uma sutileza que deixava dúvidas se aquilo era mesmo um sorriso. Giordano meneou a cabeça. Como um ser humano — mesmo uma cigana velha e mal-humorada — era capaz de abandonar uma criança indefesa?

— Vai ficar com ele ou não? — Iolanda repetiu.

— E eu tenho escolha?

Em vez de responder, Iolanda olhou para a porta fechada da sala. Do outro lado, os sons das crianças brincando começavam a atrapalhar

a seriedade da conversa. O padre pediu um instante a ela e caminhou até a porta. Girou a maçaneta e colocou apenas meio corpo para fora.

— Suzana? — chamou. Precisou repetir outras duas vezes até que a freira vencesse o corredor e chegasse até o padre. Estava um pouco ofegante, seu rosto avermelhado e úmido escapava pelo hábito negro mostrando todos os seus quarenta anos. — Faça esses meninos ficarem quietos. Pelo amor de Deus, o que deu a eles no jantar? Açúcar? Já passa das nove da noite.

— Estão agitados por causa da chuva. As crianças têm medo. E... — esticou o corpo até conseguir avistar o menino — estão curiosas. Nós vamos ficar com ele? — perguntou, observando o menino que permanecia acuado desde que chegara. Suzana foi a primeira a recebê-lo, ele e aquela mulher.

— Cuide para que fiquem quietos, sim? Suzana obedeceu. Retomou o corredor e foi juntando as crianças que encontrou pelo caminho. Duas estavam a três metros dela, tentando ouvir a conversa. Suzana apanhou a primeira pelo braço — um garoto de cabelos vermelhos — e sem muita resistência a arras tou até o dormitório. Não teve tanta sorte com a seguinte. Ágata resistiu, correu, disse que não iria dormir até que a bruxa fosse embora. Iolanda deve ter ouvido do lado de dentro, mas não ganhou novas rugas por isso. A freira acabou subornando Ágata com um pedacinho de paçoca que trazia consigo. Doces eram úteis com as crianças, tão ou mais que a palmatória.

— Desculpe — Giordano disse, recostando a porta. — Não sei o que deu nelas.

— São crianças, padre. Elas sabem quando alguma coisa não funciona direito no mundo. E eu preciso de uma resposta. Meu povo está deixando a cidade, eles não vão me esperar por muito tempo.

— Existem muitas crianças nessa casa. Temo que não vou conseguir alimentá-lo. Como deve saber, nossa paróquia ainda é pequena, e os órfãos não são benquistos pela gente da cidade.

— Percebo... — disse Iolanda. Em seguida, apanhou algo preso à cintura do vestido verde e brilhante. — Vamos facilitar nossa conversa, padre. Tenho uma quantia razoável aqui comigo, vai pagar os gastos com o menino até que ele tenha idade para decidir por si mesmo.

— Eu não...

Antes que Giordano terminasse a frase, havia uma sacola de couro estendida a ele.

— Pegue, não vai morder.

O tilintar das moedas continuou por algum tempo. Giordano apanhou o volume pesado, avaliou seu conteúdo e sentiu um leve tremor nos joelhos.

— Isso é...?

— Ouro. E tenho mais se precisar.

Uma das crianças escapou de Suzana e chorou do outro lado da porta. Um menino dessa vez. Reclamava que estava com fome e que um dos outros — Leonardo — tinha roubado seu jantar. Logo o padre não o ouvia mais. Todo aquele ouro... Ninguém precisaria ter fome por um bom tempo.

— O que a senhora trouxe é o bastante. Mas não podemos ficar com a criança até que eu tenha autorização da paróquia.

— Estou indo embora, padre. Trouxe dinheiro suficiente para que ele não dê custos ao seu orfanato. Isso é mais que esse menino merece. Pela primeira vez desde que chegaram, Iolanda olhou para o irmão; seu rosto ficou mais velho e triste quando fez isso. Ela tomou a direção da porta, passou pelo homem de batina e tocou a fechadura. Então, ouviu às suas costas:

— Onde posso encontrá-la? Caso aconteça alguma coisa com o menino... Ou pode me dar o endereço dos pais verdadeiros, se não se importar em dizer.

— Você não me encontra. A mim ou ao meu povo. Meus pais também estão longe dessa cidade, no lugar onde o menino os colocou. — Ela já estava virando a maçaneta, apressada em seguir seu caminho.

— Por favor, me diga onde estão!

Iolanda parou de caminhar. Olhou para o teto do casarão e disse, ainda de costas:

— No Inferno, padre. No Inferno.

2O menino continuou no canto direito da sala, em frente a uma mesa de cerejeira, enquanto o padre averiguava seus poucos pertences trazidos pela cigana. Estavam em uma mala cujo couro começava a partir. O menino não olhava para Giordano. Continuava recostado à parede, sentado, concentrado em suas mãos. Desde sua chegada, deve ter olhado diretamente para o padre uma ou duas vezes, mas não falou com ele.

Na mala havia roupas, dois pares surrados de sapatos e uma carta. Dom Giordano apanhou o envelope, colocou os óculos que estavam em seu peito, amparados por uma correntinha de prata, e leu, sem demonstrar surpresa ou comoção.

— Wladimir Lester. É esse o seu nome?

O menino suspirou um pouco do cansaço do dia e isso foi tudo.

— Nós precisamos conversar em voz alta. Não consigo ler seus pensamentos, filho.

O padre manteve a carta nas mãos e chegou um pouco mais perto do menino, que se encolheu ainda mais e ergueu os joelhos à frente do corpo.

— Não vou lhe fazer mal. Não somos selvagens como o seu povo. Mas você vai descobrir isso, certo? Sabe, Lester, existem mais crianças nessa casa, muitas delas. Serão seus amigos, seus irmãos. Somos uma grande família aqui no orfanato. — Tornou a olhar para o menino. Ele ainda estava um pouco úmido por causa da chuva. — E eu conheço algo que vai fazer você se sentir bem melhor, o que acha de um chocolate quente? Posso trazer um agora mesmo, o que me diz?

Como o menino não respondeu, Giordano tentou outra abordagem. O garoto trazia algo nas mãos e, desde que entrara, parecia interessado naquilo e em mais nada.

— Quero ver o que você tem aí.

Mais uma vez o menino se acuou. Colocou as mãos sobre o ventre e apertou o que quer que escondesse entre elas. Dessa vez, encarou Giordano. Os olhos apertados, como dois sóis eclipsados.

— Não vou tomar de você. Só quero ter certeza de que não é perigoso. O menino relaxou os ombros, mas não muito. Giordano conhecia o motivo. Crianças abandonadas são como animais selvagens, não demonstram amor, empatia ou confiança. É só depois de alimentá-los e oferecer-lhes algum conforto que tudo muda.

— Tenha calma, meu filho. Só quero dar uma olhada.

As mãos suadas do menino deixaram o ventre e continuaram unidas. Lester as colocou em frente ao rosto, abaixo do nariz, e olhou para o padre por cima delas.

— Vai me devolver?

— Prometo que sim. Só quero ver o que é.

Lester começou a esticar os braços lentamente. As mãos seguiram firmes na direção de Giordano e depois se afastaram uma da outra. A direita logo foi aberta, mas era a esquerda que escondia o segredo que tanto valia para aquele menino. Ele olhou mais uma vez para o padre, talvez testando sua confiança. Então, abriu a mão esquerda.

— O que é isso? — Giordano não pegou o segredo , não o faria até que o menino estivesse pronto para cedê-lo a ele.

Parecia um tubo de ensaio. Cerca de sete centímetros de vidro, tapado com uma rolha de cortiça. Seu conteúdo era algo muito vermelho, e líquido como água.

— Posso ver nas minhas mãos?

Lester torceu levemente o pescoço. Ergueu um pouco a sobrancelha esquerda.

— É minha tinta — ele disse. Em seguida, esperou que o padre tomasse o tubinho.

Giordano o levou para perto dos olhos, colocou o objeto entre eles e a luz mortiça do candelabro do teto. Vergou o tubinho para checar a consistência do líquido em seu interior.

Não negaria que sua primeira impressão é de que aquilo fosse sangue. Era tão vermelho, tão atraente. Além disso, estava quente depois de tanto tempo nas mãos do menino. Foi só depois de vergar o tubo algumas vezes que mudou de ideia.

— Vinho? O que uma criança tão pequena faz com vinho?

Do lado de fora, um trovão ribombou. Alguns meninos gritaram do outro lado da porta. O som chegou bem baixinho; deviam estar todos no dormitório. Lester não demonstrou aversão alguma pelo brilho fantasmagórico que iluminou as janelas ou pelo estrondo que se seguiu. Ele só parecia preocupado com o objeto nas mãos do padre. Era quase um cão que espera seu brinquedo preferido ser devolvido pelo dono.

— Não é vinho — ele respondeu. — Eu já disse que é uma tinta, minha tinta especial.

— Presente dos seus pais?

O garoto deu de ombros. De certa forma, o padre estava certo. Mas Lester não diria isso a ele.

— Eu gosto de pintar.

— Então gosta de desenhos?

— Odeio desenhos. Isso é coisa de mariquinha. Eu gosto de pintar. Gosto de colocar as cores em um quadro, entendeu?

— Ah, claro. Sou um padre abobalhado mesmo... Quer dizer que temos um artista entre nós? Deus, eu devia estar contente! Sabe o que minha mãe dizia sobre os artistas? Sobre os pintores?

Lester fez que não.

— Mamãe dizia que eles estão mais perto de Deus. Ela acreditava que nossa alma guarda todos os talentos e que alguém capaz de produzir uma obra de arte falava diretamente com o Senhor.

— Eu gosto de pintar. Me devolve? — pediu.

Giordano apreciava o peso do tubinho. A cor dentro dele. Era bonito, mas não era só isso. Também podia ser perigoso. Mesmo que o líquido em si não fizesse mal algum, o recipiente onde estava contido era feito de vidro. Crianças assustadas costumam fazer besteiras umas com as outras. Ainda assim, ele cedeu o frasco de volta a Lester. Não era uma boa ideia quebrar um laço de confiança no primeiro contato. E de qualquer forma, nos próximos dias, seus olhos estariam sobre o menino, evitando qualquer acidente.

— Eu disse que devolveria.

Lester o apanhou e, ainda sentado, esticou as pernas. Colocou o tubinho no bolso da frente, mas não sem antes envolvê-lo com um lenço de tecido verde. Tecido cigano, brilhante demais, atraente demais.

— Meu nome é Giordano, filho. Mas se quiser me chamar de padre como os outros meninos, não me oponho. Alguns me chamam de pai — disse o padre, oferecendo a mão para Lester.

Lester estendeu a mão direita e devolveu o cumprimento. Suas mãos eram frias como aço. Ele olhou ternamente para o homem à sua frente e disse:

— Acho que quero aquele chocolate.

Quase uma hora mais tarde, Dom Giordano ainda não tinha conseguido convencer o menino a sair de onde estava. Lester tomou o chocolate, mas depois disso não voltou a concordar com coisa alguma. Estava sentado à mesa agora, em uma cadeira de frente para o padre. Giordano não se importou que o menino ficasse por lá enquanto ele terminava de colocar suas anotações no livro de atas do orfanato. O registro escrito não era uma obrigação, mas o ajudava a manter a agenda em dia. Sua cabeça estava cheia demais. Seu corpo tinha pouco mais de cinquenta anos, mas seus órgãos e sua musculatura não sabiam disso.

— Agora vamos ler um pouco da palavra de Deus — disse. Fechou o livro de atas e apanhou outro de dentro de uma gaveta. Era uma Bíblia, com capa de couro e detalhes dourados na capa e nas bordas das páginas. Mostrou ao menino na ilusão de que o brilho metálico despertasse seu interesse. Ciganos eram pagãos, mas se o menino ficasse no orfanato seria evangelizado. — Por que não chega mais perto e me acompanha em uma leitura?

— Seu Deus não escreveu esse livro — Lester disse.

Giordano apertou o braço direito da cadeira com os dedos. Respirou mais fundo.

— Não in persona , minha criança. Mas Ele orientou os homens para que fizessem isso. Nós os chamamos de profetas. São pessoas boas que alcançaram a iluminação e conheceram os planos do Senhor.

— Eu acho que se Deus tivesse alguma coisa para dizer não escreveria em um livro.

Outro suspiro de Giordano. Aqueles diabinhos eram espertos. Por sorte, não eram mais espertos que um padre católico.

— Chamamos de inspiração, Lester. Diga-me, você nunca teve uma boa ideia sem que soubesse de onde ela veio? Nunca se pegou tentando resolver um problema quando de repente — estalou os dedos — a resposta apareceu bem na sua frente?

— Não sei...

— Tenho um exemplo melhor. Seus desenhos, seus quadros , como você diz. Eu não cheguei a vê-los, mas não duvido que sejam bons. De onde você pensa que vem a ideia? Elas não surgem do nada, do ar. Ideias são milagres de Deus, Lester.

— O meu povo não acredita nisso. Eles dizem que os espíritos trazem as ideias quando nós merecemos.

— O mesmo povo que deixou você aqui? — perguntou o padre. Cristianismo não se ensina com carinhos. A religião é uma estrada reta e dura, e muitas vezes, imposta. Giordano continuou:

— Eu não daria ouvidos ao que eles disseram. Nós vamos cuidar de você, Lester. E você vai amar a Deus sobre todas as coisas, vai amar mais a Deus do que a si mesmo.

— Mais do que eu amava minha mãe?

Pergunta difícil. Giordano ouvia os órfãos falando de suas mães o tempo todo, mas nunca era fácil. Acabou descarregando rapidamente o semblante.

— É muito difícil amar alguém mais do que a própria mãe. Porém, Deus nosso Senhor pede um amor diferente. Você vai aprender a amá-lo. O menino bocejou sem tentar controlar o ruído. Os olhos pesaram um pouco.

— Não precisamos ler a Bíblia hoje. Você está cansado, teve um dia estranho, precisa dormir um pouco. Amanhã conversaremos a respeito. Quando você acordar vai tomar café da manhã e conhecer as outras crianças. Hoje você dorme no quarto número oito, o único que tem só uma cama. Fica bem perto do quarto da madre Suzana e ela estará atenta se você precisar de alguma coisa.

Lester tornou a bocejar e finalmente concordou em sair da sala. Apanhou sua mala fazendo um esforço enorme para suportar o peso sozinho e esperou junto à porta vermelha. O padre trancou suas gavetas, apagou o candelabro do teto com um longo artefato de metal com um copinho na ponta e tomou a saída. Os passos foram diminuindo pelo corredor enquanto Lester arrastava sua mala pelo chão.

Lá fora, Deus disse algo barulhento nos céus.

ultra carnem

na disputa entre o céu e o inferno nós somos o prato principal.

Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Ultra Carnem - Book Preview by DarkSide® Books - Issuu