Skip to main content

Não é Ela - Book Preview

Page 1

O novo romance da autora best-seller de A Garota Perfeita

NÃO É ELA

MARY KUBICA


MARY KUBICA

ESPECIALISTAS LITERÁRIAS NA ANATOMIA DO SUSPENSE


IT’S NOT HER

by Mary Kubica Copyright © 2026 Mary Kyrychenko Mediante acordo com a autora. Todos os direitos reservados. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e incidentes são produto da imaginação da autora ou usados de forma ficcional. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, negócios, empresas, eventos ou locais é mera coincidência. Tradução para a língua portuguesa © Bruna Miranda, 2026

Diretor Editorial Christiano Menezes Diretor de Novos Negócios Chico de Assis Diretor de Planejamento Marcel Souto Maior Diretor Comercial Gilberto Capelo Diretora de Estratégia Editorial Raquel Moritz Gerente de Marca Arthur Moraes Gerente Editorial Bruno Dorigatti Editor Paulo Raviere Editor Assistente Lucio Medeiros

Capa e Projeto Gráfico Retina 78 Coordenador de Diagramação Sergio Chaves Designer Assistente Jefferson Cortinove Preparação Catarina Tolentino Revisão Bárbara Parente Natália Agra Finalização Sandro Tagliamento Marketing Estratégico Ag. Mandíbula Impressão e Acabamento Braspor

DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP) Jéssica de Oliveira Molinari CRB-8/9852

Kubica, Mary Não é ela / Mary Kubica; tradução de Bruna Miranda. - Rio de Janeiro : DarkSide Books, 2026. 320 p. (Coleção ELAS) ISBN: 978-65-5598-604-4 Título original: It’s Not Her 1 . Ficção norte-americana I. Título II. Miranda, Bruna III. Série 26-0164

CDD 813 Índice para catálogo sistemático: 1. Ficção norte-americana

[2026] Todos os direitos desta edição reservados à DarkSide® Entretenimento ltda. Rua General Roca, 935/504 – Tijuca 20521-071 – Rio de Janeiro – RJ – Brasil www.darksidebooks.com


mary kubica

NÃO E ELA TRAD U Ç ÃO BR U N A M I R A N DA


Para todos que já se sentiram sozinhos.


MARY KUBICA NÃO É ELA

Courtney

Estou em pé na pia da cozinha, lavando louça, quando a ouço gritar. Meus joelhos travam e, de repente, fico ereta e inspiro rápido. Ergo meu olhar da pia cheia de água quente e sabão, um prato escorrega das minhas mãos molhadas e cai na cuba. A água se espalha. Fico parada ali, firme, esperando em vão o barulho agonizante soar de novo, ou ouvir outra coisa, algo que explique aquele som, como pneus cantando, o guincho dos freios de um carro, o pastor alemão do bairro (aquele que Cass e Mae têm medo) latindo, ou a voz da Emily gritando para checar se Mae está bem. Mas não ouço nada, apenas silêncio, o que me preocupa tanto quanto o grito. Poucos segundos atrás, a minha sobrinha Mae estava aqui na cabana que alugamos. Ela e a Cass fizeram uma noite do pijama ontem, dormiram na cama de casal sob os beirais do sótão, ficaram acordadas até muito tarde vendo dvds de filmes da Disney e tagarelando sobre coisas que meninas de 10 anos conversam. Adormeci antes delas, acordei por volta das três da manhã para checar como estavam e as vi dormindo com a tv ainda ligada. Antes de Mae ir embora para a sua própria cabana, elas ficaram paradas na porta da frente, rindo e se despedindo com as mãos e rostos melados de xarope. Fiquei parada na cozinha ao lado, observando-as, admirando a amizade das duas. Cass e Mae são mais do que primas; são melhores amigas, 9


quase irmãs. Depois que Mae foi embora, me ocupei limpando a pequena cozinha, pedindo para Cass ir arrumar a bagunça da sua noite do pijama, e ela obedeceu e seguiu para o sótão, onde o grito da Mae não chega. Sou a única na cabana que consegue ouvi-lo, e agradeço a Deus por isso, porque o barulho é tortura, se projeta pela propriedade, entra pelas janelas abertas, me abalando e me eviscerando — apesar de eu não saber o motivo, além do fato de nunca ter ouvido a Mae gritar assim. Toco na torneira da pia e a fecho, secando minhas mãos em uma toalha enquanto corro em direção à porta da frente. Primeiro, vejo Mae pela janela aberta, e meu coração acelera porque ela está correndo ladeira abaixo, entre as árvores, de volta em nossa direção, mais rápido do que suas perninhas curtas permitem. Seus braços balançam, seu cabelo cobre o rosto porque o vento sopra por trás. No meio do caminho, ela tropeça em algo, seus pés saem do chão e ela paira no ar por alguns segundos antes de cair com tudo na terra. Não é uma queda macia. O chão não é de grama, mas sim uma cama de pinhas e terra. Parece doloroso, entretanto, Mae não fica caída ali chorando, como eu esperaria que fizesse, como Cass talvez faria. Em vez disso, ela se levanta tão rápido quanto caiu, olha por cima do ombro na direção da sua cabana antes de se virar de novo e correr em minha direção. Saio e deixo a porta de tela se fechar atrás de mim. Mae se choca contra mim, seus braços envolvem a minha cintura. “O que foi, Mae? O que aconteceu?”, pergunto enquanto ela enfia seu rosto na minha barriga, chorando, as mãos apertando firme as minhas costas como se quisesse desaparecer dentro de mim. Meus olhos analisam a propriedade, procurando por sinais de algo errado — um carro (um sequestrador?) se afastando ou um pastor alemão correndo —, mas não vejo nada. A cabana onde estamos passando férias fica ao norte de Wisconsin, a mais de cinco horas de distância de casa. Fica à beira de um lago e é uma das oito cabanas em vários hectares. O lago fica tranquilo de manhã; os únicos acordados ali além de mim mesma e as meninas são pescadores nas suas canoas, como Elliott, meu marido, que acordou cedo hoje de manhã e foi pescar antes que qualquer uma de nós acordássemos, na esperança de trazer algo para o jantar. 10


Ouço o barulho da porta atrás de mim. “O que aconteceu?”, pergunta Cass, e me viro para vê-la andando em minha direção, hesitante e ansiosa, parando atrás de mim na varanda enquanto abraço Mae. “Não sei”, digo. “O que aconteceu, Mae?”, insisto, dobrando os joelhos para ficar na altura dela, mas Mae não responde, apenas se agarra em mim, suas mãos pegajosas envolvendo meu pescoço, puxando sem querer o meu cabelo, e só quando as tiro dali, com muito esforço, e a seguro na minha frente, é que vejo que suas mãos estão cobertas de sangue. “O que é isso? Isso aconteceu quando você caiu?”, pergunto, lembrando de como ela caiu há poucos segundos. Ela deve ter caído em uma pedra ou raiz de árvore. Seguro suas mãos nas minhas, examinando-as, procurando por uma ferida aberta antes de tirar uma mecha de cabelo dos seus olhos. Mas Mae apenas balança a cabeça, limpando seu nariz na manga do pijama antes de voltar seu olhar para sua cabana de novo, e depois, ela se senta no chão, abraça os joelhos contra o peito e balança para a frente e para trás. Ergo o meu olhar. Deixo meus olhos viajarem até a cabana vizinha da Emily e Nolan, que mal consigo ver entre as árvores. Quando chegamos no lago alguns dias atrás, fiquei com inveja daquela cabana. Emily não tinha apenas alugado a maior casa da propriedade — o que não me surpreendeu porque ela tem três filhos, dois são adolescentes e preferem morrer do que dividir um quarto —, como tinha mais privacidade do que os outros ali. A cabana, que já foi a casa principal do resort, fica afastada, permitindo que ela se sente no deque com seu café e contemple o lago tranquilo sem ter um estranho de outra cabana por perto, observando-a e ouvindo suas conversas. “A sua mãe está ali, Mae? Na cabana?”, pergunto sobre a minha cunhada, Emily, e dessa vez, a menina assente com a cabeça. “Vem se sentar com a Mae”, digo para Cass, olhando por cima do ombro. “Fique com ela até eu voltar. Quero ter certeza de que está tudo bem.” Cass assente ao assumir meu lugar ao lado de sua prima, sua mão repousando nas costas da Mae como se fosse dez anos mais velha. Quando começo a atravessar a floresta em direção à cabana de Emily e Nolan, acelerando o passo por instinto, sinto uma inquietação tomar conta de mim, mas consigo contê-la, dizendo a mim mesma que não é nada grave, que Mae provavelmente os viu brigando de novo e ficou 11


assustada ou chateada. Foi uma reação exagerada. Emily e Nolan não estão muito bem. Ele está desempregado há quase seis meses, e isso o afeta bastante, nas finanças e no casamento. Ele trabalha com empresas de tecnologia e se tornou quase impossível arranjar um emprego nesse setor hoje em dia; as empresas estão fazendo demissões em massa. Nolan disse que parece os Jogos Vorazes. Recentemente, Emily e Nolan têm conversado sobre a possibilidade de vender a casa (a casa dos sonhos deles, aquela aonde eles iriam se aposentar) e se mudar para um lugar menor, mas não conseguem chegar a um acordo porque não conseguem mais concordar em nada. Brigam o tempo todo, mas eu tinha esperança de que algumas semanas na floresta com a família e longe das pressões do dia a dia fossem ajudar, porém, eu os ouvi discutindo ontem à tarde, e pelo visto, as coisas estavam longe de estar resolvidas. Ao passar pelos pinheiros, surge a cabana, uma visão de paz e tranquilidade no topo de uma pequena colina — garantindo a melhor vista do lago, outra coisa que invejo —, com toalhas de praia esticadas no corrimão do deque para secar. No entanto, a porta da frente aberta me causa estranheza, pois a Emily a mantém sempre fechada para evitar que mosquitos entrem. Nesta região mais ao norte de Wisconsin, a temperatura cai para cerca de 10ºC à noite, e fica por volta dos 23ºC durante o dia. Agora, deve estar próximo de 13ºC. Subo a colina e a brisa leve abre o meu robe antes que eu pegue o cinto para amarrá-lo. Por baixo, estou vestindo uma calça de pijama leve e uma camisola. Não estou acordada há tempo o bastante para ter tomado banho, colocado um sutiã ou penteado o cabelo, mas apenas o suficiente para me levantar da cama, relutante, quando Cass apareceu aos pés dela há cerca de uma hora, perguntando se eu poderia fazer panquecas. Na hora, vi Mae parada do lado de fora do quarto, seu rosto esperançoso parcialmente visível na brecha da porta, e eu sabia que não podia dizer não. É estranho Emily ter deixado a porta aberta. Mesmo se ela e Nolan estivessem brigando, ela teria fechado a porta, e teria ido atrás de Mae se soubesse que ela estava nervosa. Eu acelero o passo de novo, me perguntando se algo ruim poderia ter acontecido, se alguém na cabana estava doente ou ferido. Penso em Reese, a filha mais velha, que tem 17 anos. Ela tem estado mal-humorada e retraída a viagem inteira. Emily pegou o celular de Reese 12


outro dia porque estava preocupada com a filha. Ela leu as mensagens quando Reese não estava por perto. Quero mrr, disse Reese em uma mensagem para uma amiga. Eu não sabia o que significava, mas Emily me contou, quando estávamos no deque, ela com um semblante preocupado, com medo, e meu coração praticamente parou ao pensar na Cass, no auge dos seus 10 anos, e como eu não estava preparada para lidar com a ansiedade e a incerteza da quase adolescência dela. Quero morrer. Você acha que ela estava falando sério ou era só para chamar atenção?, perguntei, tentando confortar Emily, aliviar a tensão no ar, mas agora eu me arrependo de não ter levado isso mais a sério. O que eu devia ter feito era sugerir que Reese conversasse com um terapeuta, ou algo assim, quando eles voltassem para casa. Eu devia ter checado se a minha terapeuta estava disponível para uma consulta a distância naquele mesmo dia, mesmo que não tivesse funcionado por causa do sinal da internet aqui. Subo os degraus do deque e entro na cabana, chamando por Emily, que não responde. Deixo a porta da frente aberta ao passar, entro na sala principal que é uma combinação de sala de estar, sala de jantar e cozinha. Assim como a nossa cabana, esta é rústica e antiga, com estofamento xadrez nos móveis surrados e painéis de madeira nas paredes. A deles, no entanto, é o dobro do tamanho, com uma varanda privativa e um segundo andar inteiro em vez do loft que temos na nossa, acessível apenas por uma escada — o que é ótimo para Cass, mas não muito prático para Elliott ou para mim, pois quando subimos lá sempre batemos a cabeça no teto baixo e inclinado. “Emily?”, eu chamo de novo ao entrar. Fico atenta, tentando ouvi-los. O primeiro andar está vazio, a tv desligada. Há um cheiro estranho no ar que não reconheço. No primeiro momento, está silencioso, então ouço um som fraco e estranho vindo lá de cima, como o rangido de um colchão de alguém se virando na cama. Paro de andar e de repente me sinto desconfortável ao imaginar Nolan, meu irmão, saindo da cama e descendo as escadas, sonolento e vestindo apenas cueca boxer, e me encontrando parada ali na sala. Penso em Mae e em como ela estava assustada quando voltou correndo até a nossa cabana, mas o que quer que a tenha assustado pode ter acontecido antes mesmo de ela chegar lá. 13


Há muitos animais na região. Alguns moradores relataram ter visto ursos na floresta, não muito longe daqui. Outro dia, quando passeávamos, vimos o que pensamos serem pegadas de coiotes no chão. Se Mae tivesse visto algo assim no caminho de volta para casa, ficaria com medo — o que quer dizer que Emily, Nolan e as outras crianças poderiam estar dormindo ainda. Enfio a mão no bolso do meu robe para pegar meu celular e tentar ligar para Emily, algo que eu devia ter feito antes de entrar na cabana deles. Olho para o celular; o sinal aqui é bem fraco, mas por milagre, estou com duas barras. Acho o nome de Emily na minha lista de contatos e clico nele antes de levar o celular à orelha. Pouco depois, ouço o barulho de um celular vindo da varanda, e agora vejo que a porta que leva até lá está entreaberta. O celular de Emily, talvez a própria Emily, está lá fora. Tiro o celular da minha orelha. Devagar, atravesso a sala em direção à varanda, agarro a maçaneta e puxo a porta. Ao dar um passo para a frente e entrar na varanda, eu vejo. Dou um passo para trás, mas meu cérebro precisa de um segundo para processar o que estou vendo e para eu perceber o que é. O sangue está tão escuro que se mistura com os painéis de madeira, e eu preciso olhar duas vezes para perceber que não estou vendo nós na madeira, mas sangue. Na cama, onde estão mais evidentes, as manchas de sangue na colcha branca parecem respingos de um pincel numa tela. O ar some dos meus pulmões. O choque me paralisa, parte de mim tenta entender o que estou vendo, e me fazer acreditar que alguém se cortou com um abridor de garrafa ou uma faca e correu para o hospital, o que explicaria a porta entreaberta, apesar da quantidade de sangue nas paredes e na cama. O hospital mais próximo fica a cerca de vinte a trinta quilômetros de distância. Me pergunto se Nolan e Emily iriam ao hospital sem nos avisar. Me pergunto se eles planejavam ligar no caminho, mas Emily esqueceu o celular e Nolan estava sem sinal. Mas aí eu vejo através das telas das portas da varanda, uma delas solta ao vento, o Volkswagen preto e sujo estacionado bem na entrada da garagem. O carro ainda está aqui, o que significa que não foram a lugar nenhum. 14


Eles ainda estão na cabana. Sinto um nó na garganta. Fica cada vez mais difícil respirar enquanto meus olhos percorrem o quarto. De relance, a varanda parece vazia, então vejo pés descalços esticados no chão, pendurados na extremidade da cama, e percebo que a varanda não está vazia como eu pensava. Meu coração acelera. Levo uma mão à boca ao sentir que, por instinto, me aproximo em vez de me afastar, ao ver que os pés estão sem cor, uma pigmentação muito diferente da de pés saudáveis. A pele está arroxeada, quase no mesmo tom do esmalte malva nas unhas, que eu sei, antes mesmo de ver o seu rosto, que é Emily porque fomos fazer as unhas juntas antes de viajarmos, e eu a ajudei a escolher essa cor, igual à minha. Dou a volta na cama, pensando inocentemente que posso ajudá-la, que ainda posso salvá-la. “Emily?”, pergunto, a palavra sai da minha boca, leviana e insignificante, e então a vejo e meus joelhos cedem, e preciso me segurar no estrado da cama para me manter em pé. Emily está morta. O sangue debaixo do seu corpo deixa isso claro. Ninguém poderia perder esse tanto de sangue e ainda sobreviver. Ela está completamente imóvel, deitada no chão da varanda telada, no canto da cama, como se tivesse sido pega tentando fugir ou se esconder. Seu peito não sobe ou desce, indicando que está respirando, que ainda está viva. Seu rosto está caído para o lado — seu pescoço não está em um ângulo normal —, então consigo ver a palidez de seu rosto e um olho meio aberto e turvo. Um dos braços está dobrado em um ângulo impossível, o ombro deslocado, e sua boca entreaberta, como se estivesse dado seu último suspiro, ou um grito final. Seu celular estava fora de alcance, com uma mensagem de chamada perdida minha na tela. O medo me paralisa. Apesar de todas as células do meu corpo me dizerem para sair correndo dali, para voltar à nossa cabana, trancar a porta e ligar para a polícia, não consigo me mexer. Hesito por um instante, porém, isso é o suficiente. É tarde demais. Antes que consiga me mexer, tenho a sensação de não estar mais sozinha. Talvez por perceber algo se movendo na minha visão periférica, ou o barulho do chão rangendo.

15


MARY KUBICA NÃO É ELA

Reese

Sete dias atrás Estamos no meio do nada. Faz horas que saímos da rodovia, horas que vimos algo normal, tipo um McDonald’s. Começamos em uma estrada de mão dupla cercada de fazendas — ouvindo a playlist da Emily, também conhecida como as mesmas cinco músicas em um loop eterno até eu querer morrer —, e agora estamos em outra estrada de mão dupla cercada por árvores. Estamos de fato dentro de uma floresta. Há árvores por todos os lados; são tantas que você nem sabe quem ou o que vive ali. Às vezes, vemos algumas estradas de cascalho que se transformam em marcas de pneu e placas de “Propriedade Privada” ou “Entrada Proibida”, e é assim que sabemos que alguém mora ali dentro. Quando alguns prédios aparecem, são sinistros pra caralho. Parecem aqueles grandes armazéns de metal (que parecem o lugar perfeito pra esconder um corpo), ou uma lanchonete de beira de estrada anunciando seu prato especial de sexta-feira, cujos estacionamentos estão cheios de motocicletas e carros com duas cores que parecem saídos da década de 1980. Esse parece o tipo de lugar que aparece no jornal, onde pessoas desaparecem para sempre. 16


Os pais estão nos bancos da frente brigando porque Nolan está perdido. Nolan sempre se perde porque fica viajando e não presta atenção para onde vai. Quando finalmente percebe isso, já perdeu, tipo, três curvas que devia ter feito, e o gps está péssimo porque o sinal aqui é uma merda, então ninguém sabe mais onde estamos. Estamos em uma estrada aleatória, praticamente sozinhos, cercados por árvores. De vez em quando alguém passa indo na direção oposta, mas apenas Ford Broncos e caminhonetes grandes. Não são como nós. Há algum tempo, uma caminhonete surgiu atrás de nós e passou voando, os vidros com tanto fumê que não consegui ver o rosto do motorista. Ele ficou na nossa traseira por um tempo, indo de um lado pro outro e fazendo o motor roncar, e todo mundo ficou desconfortável. “Só acelera, pai”, eu disse, quando Emily falou pra ele encostar o carro e deixar o homem passar. Nolan não fez nenhum dos dois, teimoso, argumentando que se o outro motorista quisesse, ele poderia ultrapassar, que foi o que fez, eventualmente, buzinando forte e nos mostrando o dedo. Quando ficou na nossa frente, nos cortando, vi que no vidro traseiro havia um daqueles adesivos de para-choque do Calvin com as calças abaixadas e fazendo xixi com a bunda de fora, e outro com a silhueta de uma mulher com peitos gigantes que dizia Sua mãe gosta de montar aqui, se isso for alguma indicação do tipo de lugar onde estamos. Mae perguntou o que isso queria dizer. Sua mãe gosta de montar aqui. Emily está chateada com Nolan por estarmos perdidos. Ela acha que ele é incompetente. Ela não deixa passar nada. Ela não está com raiva por estarmos perdidos, mas a ansiedade já bateu e ela acha que algo ruim vai acontecer, que talvez a gente vá morrer aqui ou algo assim, e se morrermos, vai ser culpa dele. “Se você estivesse prestando mais atenção, isso não teria acontecido”, diz ela. “Você acha que eu queria fazer a gente se perder? Que eu estava tentando me perder? Caramba, Emily, às vezes você perde a chance de ficar calada.” Emily fica tensa. Ela olha pra o celular, checando se a tia Courtney mandou mensagem, mas não adianta porque não há sinal de celular, que 17


de alguma forma também é culpa do Nolan (talvez se estivéssemos na estrada certa, teríamos sinal). Emily podia deixar isso pra lá, mas não. Em vez disso, ela diz algo sobre como o vovô, que descanse em paz, costumava usar um mapa de verdade quando eles saíam de férias, então nunca se perdiam porque não precisavam que a Siri dissesse pra onde ir, não dependiam da tecnologia moderna, ele achava o caminho usando apenas o seu cérebro. Em seguida, pra realmente enfatizar o seu ponto, ela conta a história de quando estávamos indo pra cidade — quando Nolan estava dirigindo até a cidade — e a Siri nos fez dar uma volta pelas regiões mais perigosas de Chicago porque era a rota mais rápida, como se o Google Maps tivesse uma opção de evitar áreas de alta criminalidade. Na época eu achei engraçado, mas Emily achou que a gente ia morrer. Ela ficava gritando pra gente fechar as janelas e trancar as portas. “Você quer dirigir?”, pergunta Nolan agora. “Aqui, você pode dirigir.” Ao dizer isso, ele joga o carro no acostamento tão de repente que eu deslizo no banco traseiro e esbarro na Mae. Deslizamos sobre o cascalho da estrada e paramos. Como não estou usando cinto de segurança, quando Nolan pisa no freio e estaciona o carro, sou jogada pra frente e bato nas costas do banco da Emily. “Pode dirigir então, já que faz isso muito melhor do que eu.” Porém, ele não tira o cinto ou sai do carro, e é assim que eu — e todo mundo ali — sabe que ele está blefando. Nolan sabe que, se Emily dirigir, vamos andar dez quilômetros a menos do limite de velocidade e as mãos dela nunca sairão da posição correta, e ninguém quer isso porque se ficarmos mais tempo do que o necessário neste carro, alguém pode acabar morrendo. “Dá pra vocês pararem com isso?”, pergunto, sentindo minha paciência acabar. “Será que podem, sei lá, parar com essa merda e agir como adultos?” Emily não fala nada, mas olha por cima do ombro pra mim, um olhar decepcionado no rosto, o que não é muito diferente de como ela costuma me olhar. Porque eu disse merda na frente da Mae. Porque eu disse merda. Porque eu não fiquei do lado dela, em vez disso, fiquei neutra como a Suíça. Se eu tivesse dito apenas pra Nolan agir como adulto, teria 18


sido diferente. Eu talvez tivesse me safado. Emily fica bonita sorrindo — seu cabelo loiro curto e ondulado, com uma franja que não funciona na maioria das pessoas, seus olhos azuis-claros que lhe dão uma aparência gentil —, mas na maior parte do tempo só vejo sua raiva e sua cara de cu, e as linhas de expressão que, com certeza, ela culpa Nolan e a mim por estarem mais profundas. Ela era feliz antes. Eu lembro. Mais ou menos. Desvio o olhar e mando uma mensagem pra minha amiga, Skylar. Digito Quero mrr, e aperto enviar. É o último verão antes do nosso último ano da escola. Eu e Skylar passamos meses planejando passar o verão fazendo coisas como ir pras dunas em Indiana, ou ir de trem pra praia em Oak Street. Em vez disso, estou aqui com esses perdedores. A Mae é ok, mas odeio o resto. O meu irmão, Wyatt, está sentado no banco traseiro sozinho, e ele não tirou os olhos do celular a viagem inteira, e sei que deve estar vendo pornografia, mas toda vez que Emily pergunta o que ele está fazendo, ele diz nada. Não é nada. Ele está mentindo pra ela. Porque é isso que ele sempre faz, mentir. Mas como ele é um dos melhores alunos da turma desde o jardim de infância, e provavelmente vai ganhar uma bolsa de estudos completa pra jogar beisebol na faculdade, eles acham que ele é o filho perfeito. Ele pode fazer qualquer coisa. Quando Nolan engata a marcha de novo e volta pra estrada, Emily começa a murmurar algumas coisas como, “eles vão chegar lá primeiro”, e “eu disse pra Courtney que chegaríamos às três”, como se isso fosse relevante, como se alguém se importasse. “O quê, você acha que eles vão embora se não chegarmos às três?”, pergunto, e ela me lança outro olhar severo por cima do ombro. Dessa vez, Emily encontra o meu olhar antes dos seus olhos descerem pelo meu pescoço até as minhas roupas. Ela não gosta do que eu estou vestindo, algo que ela me disse antes de sairmos que se eu me vestisse como uma puta, as pessoas vão achar que eu sou uma. É isso que você quer que as pessoas pensem? Que você é uma puta? Estávamos paradas na cozinha quando ela me perguntou isso. Eu não sabia o que dizer, então fiquei em silêncio. Achei que ela fosse retirar o que disse, que ia perceber, seja pelo meu silêncio ou pela minha expressão de choque, que aquelas palavras 19


doeram de verdade, então iria pedir desculpa ou algo assim, mas isso não aconteceu. Em sua defesa, ela não começou essa discussão com esse argumento. Ela começou dizendo “Você não vai usar isso. Por favor, vai trocar de roupa”, e quando eu disse que não, ela mudou a abordagem. “Coloca o cinto de segurança”, diz ela, e quero perguntar por que deveria e o que ela vai fazer se eu não obedecer, mas, em vez disso, coloco o meu cinto, prendendo a fivela com vontade, o cinto me segurando no banco como uma refém, que é exatamente o que sou. Uma prisioneira. Em menos de um ano terei 18 anos e finalmente vou embora daqui. Se eu sobreviver. Mudei de ideia, mando pra Skylar ao pegar meu celular depois que a Emily se virou pra frente de novo pra encarar a floresta diante de nós. Quero matar alguém. A mensagem começa a ser enviada, a linha azul cresce no topo da tela até chegar em cerca de 80% e então para, porque perco o sinal do celular de novo. Que sorte. A mensagem não é enviada. Eu deixo a mensagem ali até aparecer a opção de deletá-la.

20


MARY KUBICA NÃO É ELA

Courtney

Eu dou meia-volta, tremendo de medo, antecipando a dor, levando uma mão ao rosto. Meus ouvidos estão zumbindo, ouço meu coração batendo forte. Cass e Mae estão em pé na sala de estar, logo depois da porta da frente, a luz fraca que entrava pelas minipersianas de plástico criava linhas em seus rostos e braços. Meus joelhos tremem de alívio ao ver que são Cass e Mae ali, e não a pessoa que fez isso com Emily. Corro da varanda até elas, e deste ângulo vejo gotas de sangue na sala de estar, algo que não tinha visto antes. “O que raios vocês estão fazendo aqui?”, questiono, sem fôlego, num sussurro forçado. Dou um passo na direção delas, mantendo-as longe para não verem o corpo nem o sangue, irritada com elas porque estou com medo, porque Emily não se cortou por acidente com uma faca. Alguém a matou, e a julgar pelas manchas de sangue na parede e na cama, foi algo violento e intenso. “Eu disse para vocês ficarem lá e me esperarem. Vocês não deviam estar aqui.” Me viro de repente, o pânico na minha voz sai como raiva, e ao olhar para baixo vejo que estou segurando meu celular com tanta força que os nós dos meus dedos estão brancos. O rosto de Mae está pálido. Seu corpo está tremendo, seus olhos olham para algo atrás de mim que meu corpo está bloqueando. Cass 21


está atrás dela, tomada por culpa e vergonha. “Desculpa”, diz ela, com seu lábio inferior tremendo porque eu não costumo ficar irritada ou gritar e xingar, seja em casa ou em público. Os olhos dela, arregalados e cheios de lágrimas encontram os meus. “Tentei impedi-la. Eu disse que não era pra gente sair, que era pra gente…” Eu não a deixo terminar a frase. Balanço a cabeça e ela fica em silêncio. Só consigo pensar em levar essas meninas para fora dessa cabana, não deixar que elas vejam o que vi, mantê-las a salvo. Se elas vissem o corpo ou o sangue de Emily nas paredes, chão ou colcha da cama, ficariam traumatizadas. Elas teriam pesadelos. Nunca iriam esquecer a imagem do corpo deformado e sem cor de Emily no chão, cercado de sangue, ficaria gravada nas suas mentes e as acompanharia pela vida toda. Um momento marcante. Porém, ao olhar para Mae, pálida como um fantasma ali naquele salão, percebo que ela já tinha visto aquela cena. A sua mãe está na cabana, Mae?, perguntei mais cedo e ela confirmou. Sim. Emily estava lá. Mae viu Emily morta. É por isso que ela gritou, angustiada, por isso ela saiu correndo até nós, e penso em como deve ter sido para ela, andando inocentemente, passando pela porta da frente com o seu travesseiro debaixo do braço, cheirando a panquecas e calda, o cabelo bagunçado e os olhos sonolentos, ansiosa para contar para Emily sobre a noite do pijama, e a encontrou assim. Mae deve ter ido até o corpo da mãe. Deve ter tocado nela, talvez balançado seu corpo e tentado acordá-la. Não era o sangue de Mae nas mãos dela. Era o sangue da Emily. “Sua mãe está machucada, Mae”, digo, indo na direção delas, passando meus braços pelos seus ombros para guiá-las para fora da casa. Falo baixo porque não sei quem mais está na cabana conosco. Não sei se estamos a salvo. Não sei se estamos a sós. Não sei se quem matou Emily ainda está aqui, observando e ouvindo tudo. Não sei se os outros estão vivos ou mortos. Minha voz treme quando eu sussurro “Precisamos voltar para casa e ligar para alguém vir ajudá-la.” “Mas você está com o seu celular. Não pode ligar?”, pergunta Cass, gesticulando para o aparelho, tentando ajudar, mas não estava ajudando. 22


“Não tenho sinal aqui”, minto, colocando meu celular no bolso do meu robe, e Cass acredita. “Machucada como?” “Eu não sei, querida. Vamos chamar uma ambulância para alguém vir ajudá-la. Vamos.” “Onde ela está?” “Na varanda. Vem, vamos indo. Precisamos pedir ajuda.” Com muito esforço, viro o corpo de Mae para ela encarar a porta. Coloco uma mão nas costas dela, a empurro para a frente e ela anda, seguindo Cass, que começa a andar de costas para trás. Logo, é Cass, ainda olhando para a cabana, que o vê primeiro. De onde estou, vejo a reação no rosto de Cass como se fosse em câmera lenta a forma como seus olhos se arregalam e ela inspira fundo de repente, o sangue sumindo do seu rosto, que fica pálido; e seu corpo inteiro fica enrijecido antes de ela soltar um grito de arrepiar, daqueles que só se veem em filmes de terror. Minhas pernas fraquejam. Meu coração bate forte no meu peito e lateja no meu pescoço, me deixando tonta e nervosa. Eu não devia olhar. Sei que não devia porque há algo horrível atrás de mim. Eu devia empurrar as meninas na direção oposta e correr para longe daquilo que assustou Cass. Em vez disso, me viro por instinto e vejo com os meus próprios olhos, pressionando uma mão contra a boca para conter um grito.

23


MARY KUBICA NÃO É ELA

Reese

Quando finalmente chegamos, Emily e Nolan não estão se falando. O clima está pesado no carro, como se fosse algo tangível. Daria pra cortar com uma faca. Nolan está com raiva. Ele bate os dedos no volante no ritmo da música (eu acho que o que ele queria mesmo fazer é bater em alguém, talvez nela), que não é mais a música de Emily e sim a dele; algo techno e eletrônico que com certeza ele só escolheu pra irritá-la, que é praticamente o que queriam dizer nos seus votos de casamento quando prometeram se amar e cuidar um do outro pra sempre. Ou não. Emily, por outro lado, está triste. Ela olha pela janela, seu reflexo aparece no retrovisor. Seu olhar está vazio. Ela não fala nada há uns trinta quilômetros, nem uma palavra. “O que foi, mãe?”, pergunta Mae. “Nada, querida. Só estou cansada”, responde Emily, sem olhar pra trás. A última coisa que Nolan disse, antes de ela se calar, sussurrando pra não ouvirmos, mas eu ouvi: “Essa viagem seria muito melhor se você tivesse ficado em casa”. Fiquei com pena dela, mas ao mesmo tempo não. Porque Emily também não é inocente nessa história. Os dois sabem o que estão fazendo. 24


Porém, o silêncio é uma tortura. E todos sofremos por causa disso. Era melhor quando estavam brigando. A situação continua a piorar quando chegamos no estacionamento do resort — o termo resort é um eufemismo porque, pra mim, resort é algo chique e este lugar é o oposto. Fico sentada no banco traseiro do carro, processando o fato de que tenho que passar duas semanas aqui. Duas semanas. É uma eternidade. Não sei como ou se vou sobreviver. A floresta é densa, nos protegendo ali e, ao mesmo tempo, bloqueando o sol, o que acaba com a minha esperança de voltar para casa com um bronzeado, a única coisa para a qual eu estava ansiosa nessa viagem. Há um parquinho triste na beira do lago, parece algo tão velho quanto Emily e Nolan; um balanço de metal com dois assentos patéticos e um escorregador sem graça, ao lado de um carrossel enferrujado que com certeza vai dar tétano a alguém. Na beira do lago há uma caixa de areia com alguns brinquedos de plástico quebrados e uma criança correndo por ali com uma fralda de banho imensa sob os olhos vigilantes da mãe. O lago é bonito, mas a praia que me prometeram não existe; há grama e árvores indo até a beira da água, onde há um píer torto, que quase entra na água. Vejo Emily olhando pra ele, e eu sei que ela já está preparando um sermão sobre como ela não quer que Mae vá sozinha pro píer, como se Mae não tivesse 10 anos, como se ela não soubesse nadar. Mas como ela é a bebê da casa, Emily a trata como tal, e Mae se aproveita disso. “Olha como é bonito”, comenta Emily, encontrando sua voz de novo, apesar de ser falsa e forçada, como se estivesse tentando convencer a si mesma tanto quanto a nós. Ano passado fomos surfar e fazer mergulho com tartarugas marinhas no Havaí, pegar sol nas praias de areia quente, mas este ano estamos apertados com dinheiro porque Nolan foi demitido e ainda não achou outro trabalho, sem falar que o seguro-desemprego dele acabou há algumas semanas e está meio incerto se ainda teremos plano de saúde. Eu não devia saber disso, mas sei, porque Emily não para de falar que ele precisa se movimentar mais pra achar um emprego. Ela foi mais sutil no começo (Como está o currículo? Você quer que eu dê uma olhada?), mas outro dia a ouvi dizer que algumas lojas do shopping estavam contratando. Imagina. De engenheiro de software a vendedor ganhando salário mínimo 25


na Gap. Vi a reação dele quando Emily disse aquilo, como se quisesse estrangulá-la. Como se não tivesse um diploma do mit. Você está de palhaçada com a minha cara?, perguntou ele. Eles estavam parados na cozinha onde qualquer um poderia vê-los e ouvi-los. O quê?, perguntou ela em resposta. Achei que eles poderiam ter benefícios e assim você teria algo a fazer até aparecer coisa melhor. Eles brigaram, gritando um com o outro no quarto, com a porta fechada, como se houvesse um isolamento acústico. Ele gritava sobre como ela o humilhava, e ela sobre como ele era um inútil e que ela não podia sustentar a família sozinha. Peguei Mae e fomos tomar sorvete. Ela não precisava ouvir aquela merda. Agora, nosso carro segue pela estrada sinuosa de terra entre as árvores até a nossa cabana, formando uma nuvem de poeira ao passar. A cabana tem um tom verde-acinzentado e fica um pouco mais afastada do lago, em uma colina, com árvores por todos os lados. É maior do que as outras, mas isso não quer dizer muita coisa porque as outras são minúsculas. Este lugar foi ideia do tio Elliott. Ele sugeriu que viéssemos pra cá, porque ele já tinha estado antes e havia gostado, então eu posso jogar a culpa nele. É culpa dele. Se ele não tivesse sugerido, não teríamos vindo. Nolan estaciona o carro, saímos e imediatamente somos atacados por um enxame de mosquitos famintos. Damos a volta no carro pra pegar nossas malas, todos reclamando. “Nem consigo andar direito. Minhas pernas estão dormentes.” “Podemos entrar logo? Temos que tirar as malas agora? Preciso fazer xixi.” “Peguem umas malas e podemos entrar.” “Essa não é minha. É do Wyatt. Faz ele carregar.” “Saiam da minha frente se não quiserem que eu faça xixi aqui mesmo.” “Dá pra todo mundo relaxar, por favor? Estamos de férias.” Subimos os degraus até uma varanda pequena onde Nolan destranca e abre a porta. Um a um, entramos na cabana escura e surrada, todos ansiosos pra entrar, o que é um grande erro porque logo percebo que não sei o que é pior, ficar presa no carro por cinco horas ou estar aqui. 26


MARY KUBICA NÃO É ELA

Courtney

É o Nolan. Meu irmão mais velho. Ele está morto. Seu corpo inerte está caído no topo das escadas e, no começo, é difícil vê-lo por causa do ângulo e porque está mais escuro lá em cima, coberto pelas sombras, onde a luz fraca não chega. Ele está deitado de lado, seus olhos vazios e sem vida, encarando pelos balaústres em direção ao primeiro andar. Um filete de sangue escorre pelo canto de sua boca, descendo pela lateral do rosto e secando ali. Há uma vermelhidão na têmpora dele. Eu tropeço para trás e sinto o gosto de vômito na boca. Atrás de mim, Cass continua gritando, mas Mae faz um ruído mais baixo, algo que se parece mais com o gemido de um animal acuado sendo perseguido por um predador. Tiro meu olhar do Nolan e me viro para ver que as pernas de Mae estão tremendo e ela fez xixi nas calças. Ela está vestindo uma calça de pijama peluda com estampa de nuvens que não ajuda a esconder o xixi, que se espalha e deixa o tecido mais escuro. “Feche os olhos. Não olhe para lá, Mae. Não olhe para ele.” Retruco e coloco a mão sobre os seus olhos e a empurro pela porta aberta, empurrando Cass também, que estava atrás dela. Cass tropeça no batente da porta e se segura pouco antes de cair no chão. “O que… o que era aquilo? O que ele tava fazendo? O que aconteceu com ele?”, o timbre de sua voz sobe até ficar agudo e esganiçado. 27


Do lado de fora, tiro meu foco de Mae. Pego as mãos das duas meninas, digo para andarem rápido apesar de estarem paralisadas, os pés firmes na entrada, olhos fixos no corpo do Nolan do outro lado da porta aberta. Eu tenho que praticamente arrastá-las pelos degraus, puxando-as pelas mãos e dizendo “Ele está machucado, Cass. Temos que pedir ajuda.” Enquanto tento me manter firme apesar de não conseguir pensar em outra coisa além dos olhos vazios e sem vida de Emily e do Nolan. “Precisamos ligar para alguém. Rápido. Vem.” Descemos a colina correndo até a nossa cabana, escorregando sobre os pinhões e nozes no chão, eu segurando firme as mãos suadas das meninas, puxando-as porque seus passos são mais curtos e mais devagar do que os meus. Olho por cima do ombro, analisando as janelas da cabana. Por causa do ângulo da luz do sol, é quase impossível ver o que está lá dentro. Imagino alguém ali atrás, observando a gente. Penso na Reese e Wyatt, a irmã e o irmão mais velhos de Mae, e fico repleta de culpa. Lembro do barulho que ouvi na entrada que parecia um colchão rangendo sob o peso de alguém. E se eles estiverem lá em cima? E se alguém, a pessoa que fez isso com Emily e Nolan, também estiver lá? Eu devia ter procurado por eles para checar se estavam bem, se precisavam de ajuda. Em vez disso, corro e puxo as meninas enquanto digo “Quase lá. Continuem correndo.” Minha voz está repleta de choque e medo e tento acalmar a culpa que sinto por ter ido embora dizendo a mim mesma que preciso salvar Cass e Mae. Não posso salvar todas as crianças de uma vez. Se eu tivesse ido procurar Reese e Wyatt, Cass e Mae poderiam estar em perigo. Alguém poderia tê-las machucado ou pior. Estou puxando com tanta força que Mae tropeça para a frente e cai de quatro no chão, gemendo de dor. A colina é íngreme e as pernas dela não conseguem acompanhar. Solto a mão de Cass e digo para ela continuar correndo sem nós e entrar em casa. A nossa cabana fica na base da colina, cercada por meia dúzia de outras cabanas bem próximas, separadas por árvores que dão um pouco de privacidade, mas ainda conseguimos sentir o cheiro da comida do vizinho e ouvir as conversas uns dos outros. “Vem, Mae”, digo, me virando para ela, ajudando-a a se levantar. 28


Quando eu e Mae começamos a correr atrás de Cass, nossa cabana logo à frente seria um porto seguro se chegarmos a tempo, me viro para as árvores de novo e deixo meu olhar passear da porta da entrada para a janela do segundo andar e, desta vez, imagino um rosto pálido e irreconhecível olhando por uma brecha na cortina.

29


TODA FAMÍLIA ESCONDE SEGREDOS SINISTROS Courtney Gray planejou passar dias tranquilos na companhia de seus familiares, em um resort bucólico à beira de um belo lago. No entanto, sua paz é violentamente interrompida por um grito vindo da cabana de seu irmão. Ao chegar lá, ela se depara com os corpos sem vida dele e da cunhada. Inspirado em um crime real ocorrido nos anos 1980, Não é Ela é um viciante suspense de Mary Kubica. Ao ver seu mundo desmoronar, Courtney se questiona se conhece mesmo as pessoas com quem divide a vida. E tem apenas uma certeza: ninguém é totalmente inocente nessa história.


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook