Elas fizeram do maior tabu da humanidade sua vocação
Juliette Cazes
COVEIRAS MEMÓRIAS DESENTERRADAS
pionnières du monde funéraire !
Copyright © Éditions du Trésor, 2024 Todos os direitos reservados. Fotografia de Josephine Smith (página 3) tirada por Jim Fitzpatrick.
Tradução para a língua portuguesa © Débora Isidoro, 2026 Conto "Mortos em Mármore", de Edith Nesbit, com tradução de Marcia Heloisa, publicado primeiramente na edição Vitorianas Macabras (DarkSide Books, 2020).
Diretor Editorial Christiano Menezes Diretor de Novos Negócios Chico de Assis Diretor de Planejamento Marcel Souto Maior Diretor Comercial Gilberto Capelo Gerente de Marca Arthur Moraes Editora e Diretora de Estratégia Editorial Raquel Moritz Editora Assistente Jéssica Reinaldo Capa e Projeto Gráfico Retina 78
Coordenador de Diagramação Sergio Chaves Designer Assistente Jefferson Cortinove Preparação Rebeca Benjamim Revisão Solaine Chioro Vinícius Fernandes Retina Conteúdo Finalização Sandro Tagliamento Marketing Estratégico Ag. Mandíbula Impressão e Acabamento Ipsis Gráfica
DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP) Jéssica de Oliveira Molinari — CRB-8/9852
Cazes, Juliette Coveiras: memórias desenterradas / Juliette Cazes ; tradução de Débora Isidoro. –– Rio de Janeiro : DarkSide Books, 2026. 128 p. ISBN: 978-65-5598-613-6 Título original: Pionnières du monde funéraire 1. Cemitérios - Histórias 2. Coveiras I. Título II. Isidoro, Débora 25-0611
CDD 393 Índice para catálogo sistemático: 1. Cemitérios - Histórias
[2026] Todos os direitos desta edição reservados à DarkSide® Entretenimento ltda. Rua General Roca, 935/504 – Tijuca 20521-071 – Rio de Janeiro – RJ – Brasil www.darksidebooks.com
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UM RELATO HISTÓRICO
Juliette Cazes
COVEIRAS TRADUÇÃO
DÉBORA ISIDORO
“À medida que as mulheres ascendem ao poder, os obstáculos caem. Quando a sociedade vir o que as mulheres são capazes de fazer, quando as mulheres virem o que são capazes de fazer, haverá mais mulheres fazendo coisas, e todos nós seremos melhores por isso.” Sandra Day O’Connor, O’Connor, 1990
SUMARIO COVEIRAS: MEMÓRIAS DESENTERRADAS
1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12.
“Mamãe, olha, é uma mulher!” .10 Elizabeth Thorn, uma pá de mortes .16 A sete palmos de terra .24 Jeanne Garnier, a viúva dos moribundos .32 Embalsamadoras, as aventureiras do bisturi .40 Frances G. Lee e suas miniaturas criminalísticas .48 Artesania de mãos dadas com a morte .56 Henrietta Duterte, a abolicionista, e os caixões .64 Higienizadoras: entre o puro e o impuro .70 As mulheres do fogo e das cinzas .78 Lágrimas de devoção não libertam .86 Lençóis de invisibilidade e empatia morta .94
Extra. “Mortos em Mármore”, conto de Edith Nesbit .98 Bibliografia .118 Agradecimentos e reflexões .124 Sobre a autora .127
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Juliette Cazes
COVEIRAS MEMÓRIAS DESENTERRADAS
“MAMÃE, OLHA, É UMA MULHER!”
Chove sobre o para-brisa do carro fúnebre dentro do qual estou neste dia de novembro. O defunto está no caixão, e meus colegas e eu nos dirigimos à pequena igreja de um povoado na Borgonha. Aproveitamos o trajeto para ajeitar os trajes sóbrios. Quando chegamos, uma multidão nos aguardava sob a chuva que se tornou mais fina, como se quisesse facilitar nossa tarefa. Assim que descemos do automóvel para dispor os livros de presença e arrumar as flores sobre a escada da igreja, ouço um garotinho dizer no meio das pessoas: “Mamãe, olha, é uma mulher!”. Muitas vezes ouvi sussurros igualmente surpresos durante minhas atuações públicas desde que comecei a trabalhar na indústria funerária,* seja em um cortejo, como dessa vez, ou indo buscar um *
De 2020 a 2023, depois de obter o diploma nacional de conselheira funerária e mestre de cerimônias, tive a oportunidade de exercer diversas atividades (incluindo agente de cortejo, agente de velório e coveira), tanto na cidade quanto na área rural.
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defunto no local da morte. As pessoas esperam encontrar mulheres atuando como recepcionista ou agente familiar nos serviços que organizam cerimônias fúnebres, não em campo. E não se pode condená-las por pensarem de tal maneira, pois essa é a realidade há muito tempo, e muitas pessoas que não conhecem bem a área ainda não imaginam mulheres desempenhando outras funções. Muito menos lidando diretamente com os restos mortais. Para me sentir menos sozinha neste mundo dos mortos onde eu atuava, comecei a procurar nomes femininos aos quais pudesse me apegar quando me sentisse sobrecarregada. Personalidades nas quais todas as mulheres da área também pudessem se reconhecer. Porque é meio assustador não ter ninguém com quem se identificar. Claro, quando você quer viver uma aventura, pode se inspirar em Alexandra David-Néel. E, quando escreve, você pode sonhar que vai ser a próxima Agatha Christie. Mas percebi que, quando se quer encontrar mulheres famosas de verdade na história funerária… é impossível pensar em um exemplo sequer! Foi essa falta de representação feminina no círculo funerário real (você as encontra na mitologia, mas eu queria algo concreto) que me levou a pesquisar o assunto. No entanto, logo me deparei com dois grandes problemas. O primeiro é que, de maneira geral, o trabalho das mulheres nos séculos XIX e XX foi pouco documentado, porque não era considerado digno de interesse. Mas esses dois séculos têm uma grande importância para quem estuda a questão funerária, uma vez que foi um período crucial de transição no qual surgiram as agências funerárias na França e no mundo ocidental. Cuidar dos defuntos se tornou então uma atividade profissional, quando antes era só uma tarefa doméstica ou uma missão delegada aos religiosos. Mas, quando se trata da falta de registros do trabalho das mulheres, as profissões funerárias não são exceções à regra.
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O segundo problema que encontrei durante minhas pesquisas é que muitos documentos administrativos desapareceram conforme as funerárias familiares faliram e foram absorvidas pelos grandes grupos funerários no século XX. Dados valiosos que poderiam ter sido muito úteis, se eu pudesse consultá-los, mas que não estavam mais disponíveis. Então, tive que me contentar com um corpus documental relativamente pequeno. Se nos Estados Unidos os nomes de algumas pioneiras do mundo funerário foram capazes de resistir ao teste do tempo, na França a situação foi bem diferente. Ainda assim, consegui desenterrar algumas fotografias antigas, bem como faturas onde constavam nomes de mulheres, porém não muito mais além disso. Nas fotos, vi silhuetas delgadas, cobertas por longos vestidos, posando em frente às placas das agências funerárias, e imaginava quem poderiam ser aquelas mulheres. Esposas? Filhas? Empregadas? Mistério. Provavelmente, um pouco de tudo isso ao mesmo tempo. De vez em quando, eu deduzia que uma ou outra era casada com o proprietário, sobretudo quando havia crianças pequenas agarradas às saias e ela segurava o braço do homem no centro da foto. Muito raramente, me deparei com a sombra de mulheres nos registros de funerárias de administração familiar que haviam sido estabelecidas muito tempo atrás. Nunca citadas pelo primeiro nome, elas eram descritas apenas por frases cifradas e curtas, como “a esposa do chefe” ou “senhora chefe”, como pude ler — este último tratamento sugeria que a senhora em questão tinha um sólido conhecimento sobre os assuntos financeiros do negócio. Pesquisar as mulheres na indústria funerária não foi, portanto, uma tarefa fácil. Essas pioneiras, cujas reputações raramente atravessaram as fronteiras de seu país, ou mesmo da pequena cidade onde viviam, merecem que seus trabalhos ganhem destaque, considerando
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o que realizaram na época. Esse é o objetivo deste livro, que é também uma oportunidade para falar de forma mais ampla sobre o papel fundamental das mulheres nos ritos fúnebres, porque muitas vezes elas são as mais esquecidas nas publicações que fazem referência ao campo. De fato, foi impossível, para mim, retratar as figuras relevantes que consegui rastrear sem mencionar todas as anônimas cujo papel em relação aos mortos era determinado por seu gênero. Agora, embarque comigo em uma jornada fascinante pelo mundo e pelo tempo. Convido você a conhecer os destinos extraordinários dessas mulheres — coveiras, embalsamadoras, carpideiras, empresárias pioneiras no ramo das atividades funerárias… — que dedicaram a vida a cuidar dos mortos para que os vivos pudessem chorar seu luto.
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Em um mundo que foge da morte, elas correram para os seus braços. Juliette Cazes resgata mulheres extraordinárias que transformaram o maior tabu da humanidade em vocação, gravando seus nomes na eternidade. Pioneiras como embalsamadoras, diretoras de funerárias e tanatopraxistas, elas escolheram ficar diante da perda, romper barreiras, desafiar preconceitos e reinventar o luto, tornando-o mais humano, digno e empático para quem permanece. Este não é apenas um livro sobre a morte. É um buraco que cavamos juntos para encontrar um grito de vida. Surpreendente, comovente e inspirador, prova que só encarando o fim descobrimos o verdadeiro sentido de existir.