“Uma leitura diabolicamente planejada e deliciosamente sombria.” Lucy Foley, autora de A ÚLTIMA FESTA
ALICE FEENEY
ESPECIALISTAS LITERÁRIAS NA ANATOMIA DO SUSPENSE
beautiful ugly
Copyright © 2024 by Diggi Books Ltd. Todos os direitos reservados. Ilustração do mapa Rhys Davies Esta é uma obra de ficção. Todos os personagens, organizações e eventos retratados neste romance são produtos da imaginação da autora ou usados de forma ficcional. Tradução para a língua portuguesa © Letícia Ribeiro Carvalho, 2026
Diretor Editorial Christiano Menezes Diretor de Novos Negócios Chico de Assis Diretor de Planejamento Marcel Souto Maior Diretor Comercial Gilberto Capelo Diretora de Estratégia Editorial Raquel Moritz Gerente de Marca Arthur Moraes Gerente Editorial Bruno Dorigatti Editor Paulo Raviere Editor Assistente Lucio Medeiros
Capa e Projeto Gráfico Retina 78 Coordenador de Diagramação Sergio Chaves Designer Assistente Jefferson Cortinove Preparação Catarina Tolentino Revisão Bárbara Parente Retina Conteúdo Finalização Roberto Geronimo Marketing Estratégico Ag. Mandíbula Impressão e Acabamento Braspor
DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP) Jéssica de Oliveira Molinari CRB-8/9852
Feeney, Alice Belas imperfeições / Alice Feeney ; tradução de Leticia Carvalho. - Rio de Janeiro : DarkSide Books, 2026. 304 p. (Coleção ELAS) ISBN: 978-65-5598-602-0 Título original: Beautiful Ugly 1. Ficção inglesa I. Título II. Carvalho, Leticia III. Série 26-0162
CDD 823 Índice para catálogo sistemático: 1. Ficção inglesa
[2026] Todos os direitos desta edição reservados à DarkSide® Entretenimento ltda. Rua General Roca, 935/504 – Tijuca 20521-071 – Rio de Janeiro – RJ – Brasil www.darksidebooks.com
ALICE FEENEY
TRAD U Ç ÃO L ETÍ CIA R I BEI R O C A R VA LH O
Para Christine, a editora dos sonhos. “Estamos prontos para iniciar a transmissão.”
ALICE FEENEY
ILHA DE AMBERLY BELAS IMPERFEIÇÕES
ALICE FEENEY BELAS IMPERFEIÇÕES
CASADOS E FELIZES
Se tudo de que precisamos é amor, por que sempre queremos mais? Digito o número dela. De novo. Por fim, ela atende. “Estou a caminho, quase aí”, diz minha esposa sem que eu precise perguntar. Consigo ouvir que ela está dirigindo, então ela está vindo para casa, mas esse quase aí soa como uma mentira. Ela tem tido o hábito de distorcer a verdade para algo mais agradável nos últimos tempos. “Você disse que estaria aqui”, respondo, parecendo uma criança petulante em vez de um homem adulto. “Isso é importante para mim.” “Eu sei, me desculpe. Logo estarei aí, prometo. Estou levando peixe e fritas.” Peixe e fritas é como comemoramos quase todas as grandes datas. É o que comemos no nosso primeiro encontro, quando ficamos noivos, no dia em que consegui um agente e quando compramos a casa dos nossos sonhos. Estou meio que apaixonado por este antigo chalé com teto de palha no litoral sul, a pouco mais de uma hora de Londres, mas a um milhão de quilômetros da cidade. Hoje em dia, nossos únicos vizinhos são ovelhas. Esta noite, peixe e fritas era como eu esperava que pudéssemos comemorar meu primeiro best-seller do New York Times, regado a uma garrafa de champanhe que venho guardando há cinco anos. Minha editora nos Estados Unidos disse que ligaria se a notícia fosse boa, mas são quase 21h (16h em Nova York) e ela não entrou em contato. Ninguém entrou. 11
“Soube de alguma coisa?”, pergunta Abby. Ouço-a ligar os limpadores de para-brisa e imagino a chuva escorrendo pelo vidro como lágrimas. “Ainda não.” “Bem, desligue o telefone ou eles não vão conseguir falar”, diz ela e desliga. Abby deveria estar ao meu lado quando recebi a ligação, mas chegou tarde em casa. De novo. Ela ama o que faz — trabalhar como jornalista investigativa e encontrar boas histórias sobre pessoas más. Homens, sobretudo. A vida inteira da minha esposa foi mapeada por sua bússola moral e um desejo insaciável de expor irregularidades, mas me preocupo com a possibilidade de que ela chateie alguém que não deveria. Abby tem recebido ameaças anônimas enviadas ao jornal onde trabalha. Ela ficou tão paranoica que começou a gravar todas as suas ligações, mas ainda assim não desiste. Minha esposa conta histórias que importam, tentando salvar o mundo dele mesmo. Eu conto histórias que importam para mim. Meus livros sempre foram um lugar para me esconder dentro de mim mesmo quando o mundo real fica pesado demais. O casamento é feito de um milhão de momentos belos e imperfeitos costurados em uma tapeçaria de memórias compartilhadas, todas vistas e lembradas de maneiras ligeiramente diferentes, como duas pessoas olhando para a mesma pintura de cantos opostos de uma sala. Eu não acreditava no amor quando era mais jovem. Não havia amor suficiente em nossa casa quando era pequeno, então passei a infância me escondendo dentro de livros e sonhando em escrever os meus próprios. Com base no relacionamento dos meus pais, casados e felizes era um paradoxo, então casamento era outra coisa em que eu não acreditava. Até conhecer Abby. Ela mudou a maneira como eu via o mundo e mudou minha opinião a respeito do amor. Ela me fez sentir coisas que não sabia que era capaz de sentir, e eu nunca poderia amar ninguém como amo minha esposa. Quando começamos a namorar, não conseguíamos tirar as mãos um do outro. Se eu fechar os olhos e me concentrar, ainda me lembro da primeira vez que ela me deixou tocá-la. Seu rosto perfeito, a maciez da sua pele, o delicado perfume floral de seu cabelo escuro e brilhante, o gosto da sua boca, a maneira como ela ofegava quando nos entregamos ao amor. 12
Costumávamos ficar acordados a noite toda, às vezes só para conversar, para contar nossas histórias um ao outro. Manter a chama acesa quando se está casado há tanto tempo não é fácil. Eu tento, mas o que é importante muda à medida que envelhecemos. Pelo menos, eu acho que muda. Mudou para mim. O que temos agora é tudo o que eu sempre quis. Columbo entra no quarto, abanando o rabo como se não me visse há dias, mesmo tendo menos de cinco minutos desde que adormeceu na cozinha. Ele se senta ao meu lado e encara o telefone na minha mão como se também estivesse esperando que ele tocasse. Prefiro cachorros a humanos. Cachorros são leais. Minha esposa fez uma surpresa para mim, comprando o Columbo quando ele era filhote. Ela disse que achava que eu precisava de companhia e somos inseparáveis desde então. Abby se preocupa com o tempo que passo sozinho e parece não entender que prefiro a solidão. Preciso de silêncio para escrever e, se não consigo escrever, sinto como se não conseguisse respirar. Além disso, minhas personagens me fazem companhia e as prefiro a pessoas reais também. Minhas personagens não mentem — pelo menos, não para mim —, mas, antes da Abby, não havia ninguém em quem eu pudesse confiar. As pessoas raramente fazem o que dizem que farão ou o que deveriam fazer. A única coisa que não gosto em ficar só é a quantidade de tempo que sou obrigado a passar comigo mesmo. Meu caminho para me tornar um autor best-seller foi, no mínimo, acidentado. Sou um caso de sucesso do dia para noite que levou dez anos para ser construído e, por muito tempo, me senti como o coadjuvante da minha própria vida. Foram anos de obscuridade, críticas de merda, vendas decepcionantes e dispensas de várias editoras. Estava prestes a desistir, mas então conheci minha esposa e ela me apresentou à minha agente dos sonhos. Tudo mudou depois disso, então posso dizer que lhe devo tudo. Escrever livros é a única coisa que me faz verdadeiramente feliz. Sei que o trabalho da Abby é importante e que meu ofício é só inventar coisas, mas eu queria muito que ela estivesse ao meu lado esta noite. Se meu último livro for mesmo um dos mais vendidos da lista do New York Times, talvez ela possa se orgulhar de mim de novo. Olhar para mim como antes. 13
Meu celular vibra e o nome da minha editora aparece na tela. Meus dedos tremem enquanto atendo a ligação. “Grady, sou eu”, diz Elizabeth. Não consigo dizer pelo tom neutro dela se as notícias são boas. “Estamos todos aqui, toda a equipe editorial. A Kitty também está na linha.” “Oi, Grady!” A alegria na voz da minha agente encerra o suspense e me surpreendo quando começo a chorar. Lágrimas grandes, grossas rolam pelo meu rosto, e fico aliviado por ninguém — exceto um grande labrador preto — poder me ver. O cachorro olha para cima como se estivesse preocupado. Minha editora continua, sem conseguir disfarçar a empolgação. “Então, como você sabe, tem havido muita agitação em torno deste livro e estamos todos muito felizes por termos trabalhado nele. Nós amamos você e amamos seus livros, o que torna ainda mais maravilhoso poder dizer que… você está na lista dos mais vendidos do New York Times.” Há celebração e gritos do outro lado da linha. Minhas pernas parecem ceder e vou me dobrando em direção ao chão até me sentar de pernas cruzadas, como a criança que sonhava em ser escritora tantos anos atrás. Columbo abana o rabo e lambe meu rosto, e embora eu aprecie sua ilimitada afeição, gostaria que minha esposa estivesse aqui. Meu sucesso ainda me parece surreal e não reconheço minha própria vida neste momento. Parece bom demais para ser verdade. O que me faz pensar que talvez não seja. “Isso é real?”, sussurro. “Sim!”, grita minha agente. “Não acredito”, digo, sem conseguir esconder a hesitação na minha voz. “Obrigado, obrigado, obrigado. Isso significa muito para mim, eu…” Parece que não consigo falar. Estou tomado pela gratidão e pela surpresa. “Você ainda está aí, Grady?”, pergunta minha agente. “Sim. Apenas estou tão…” Demoro um pouco para encontrar a palavra certa. “Feliz”, digo por fim, como se experimentasse essa emoção desconhecida para ver se ainda me serve. Acho que preciso me acostumar com ela. “Obrigado. A todos vocês. Estou completamente emocionado e muito agradecido.” 14
Acho que este pode ser o melhor dia da minha vida e queria compartilhá-lo com ela. Em vez disso, somos só eu e o cachorro, e ele já voltou a dormir. Faço o meu melhor para agradecer de forma adequada a todas as pessoas que tornaram este sonho realidade: minha agente incrível, minha editora maravilhosa, minha assessora de imprensa brilhante, as fantásticas equipes de vendas e marketing. Então, a ligação pela qual esperei uma eternidade termina e, de repente, tudo fica em silêncio. Silêncio demais. Estou sozinho outra vez. Sirvo-me de um pouco de uísque de uma das garrafas boas e fico sentado em silêncio, absorvendo a notícia. Quero guardar este momento especial e guardá-lo o máximo que puder. Quando me recomponho, ligo para minha esposa. Quero surpreendê-la. Consigo imaginar o celular da Abby preso ao painel do carro, exibindo sua jornada em um mapa em movimento, como sempre. O telefone mal toca e ela atende. “E então?”, ela pergunta, sua voz transbordando expectativa. Gostaria de poder ver seu rosto. “Você está falando com o autor de um best-seller do New York Times.” Ela grita. “Meu Deus! Eu sabia. Estou tão orgulhosa de você!” Consigo ouvir emoção genuína em sua voz e imagino que minha esposa, que nunca chora, possa estar chorando. “Eu te amo”, ela diz. Não me lembro da última vez que dissemos que nos amávamos. Costumávamos dizer isso todos os dias. Gosto do som das palavras dela e de como elas me fazem sentir. Como quando você ouve uma música antiga que não ouvia há anos no rádio, uma que você costumava amar. “Estou quase chegando em casa”, diz ela, interrompendo minha confusão de pensamentos nostálgicos. “Tire o champanhe e…” Ouço o som de freios cantando, depois silêncio. “O que aconteceu?”, pergunto. “Você está bem? Consegue me ouvir?” O silêncio continua, mas então ouço sua voz de novo. “Estou bem, mas… tem uma mulher caída na estrada.” “O quê? Você atropelou ela?” “Não! Claro que não. Ela já estava lá, por isso parei”, diz Abby. “Onde você está agora?” “Estou na estrada do penhasco. Vou sair e ver se…” 15
“Não!”, eu berro. “Como assim, não? Não posso deixá-la caída no meio da via, ela pode se machucar.” “Então chame a polícia. Você está quase em casa. Não saia do carro.” “Se está preocupado com o peixe e as fritas esfriarem…” “Estou preocupado com você.” Ela suspira e ouço o leve clique quando ela solta o cinto de segurança. “Acho que você leu livros demais do Stephen King…” Acho que fazer a coisa certa nem sempre é a coisa certa a se fazer. “Por favor, não saia do carro”, digo. “E se fosse eu na estrada? Você não gostaria que alguém parasse e ajudasse?” “Espere, não desligue!” “Tudo bem, se isso te faz sentir melhor.” Nunca foi possível mudar a opinião da minha esposa sobre nada. Quanto mais você insiste para que ela não faça algo, mais determinada ela fica a fazê-lo. Abby abre a porta do carro. “Eu te amo”, ela diz mais uma vez. Quando penso em responder, já é tarde demais. Ela deve ter deixado o celular preso no painel, porque tudo o que consigo ouvir é o som dos seus passos se afastando do aparelho. Um minuto se passa, depois outro. Ainda consigo ouvir a seta e os limpadores de para-brisa. Cinco minutos depois, a ligação ainda está ativa, mas não consigo ouvir a Abby. Você já soube que algo terrível estava prestes a acontecer antes mesmo de acontecer? Ou sentiu um medo avassalador e inexplicável de que alguém que você ama estivesse em perigo? Estou segurando o celular junto ao ouvido e comecei a andar de um lado para o outro. “Você consegue me ouvir?”, pergunto, mas ela não responde. Então ouço passos de novo. Parece que Abby vai voltar para o carro, mas ela continua sem responder. A única coisa que consigo ouvir é o som de alguém respirando. 16
Não parece ser minha esposa. Um momento atrás, eu estava mais feliz do que nunca. Agora estou paralisado de medo. Este é o pior melhor dia da minha vida. Sei em que trecho da estrada ela está. Leva direto para a costa e não fica longe de casa. O prédio mais próximo fica a um quilômetro de distância, não há ninguém por perto para quem eu possa pedir ajuda. Começo a andar. Depois corro. Continuo segurando o telefone no ouvido com uma das mãos, sem fôlego, mas chamando seu nome. Ela não responde. A noite está muito escura, muito fria, muito úmida. Não há postes de luz no campo, apenas sombras. Tudo o que consigo ver é um céu cor de grafite salpicado de estrelas, uma silhueta de campos de um lado da estrada e um mar banhado pela lua do outro. Tudo o que ouço são as ondas quebrando no penhasco e minha própria respiração ofegante. Vejo o carro dela estacionado na beira da estrada e diminuo a velocidade, absorvendo a cena. Os faróis ainda estão acesos, as setas piscando e a porta do motorista está aberta. Mas Abby não está aqui. Também não há sinal de uma pessoa caída na estrada. Nenhum sinal de vida. Eu me viro, olhando para a escuridão, para as ruas vazias e colinas ondulantes. Grito o nome dela e ouço minha voz ecoar no telefone preso ao painel. Ela ainda está na ligação. Só que não está. O peixe e as fritas ainda estão no banco do passageiro, junto com a bolsa de Abby. Olho dentro dela, mas nada parece ter sido roubado. A única coisa estranha no carro é uma pequena caixa de presente branca. Abro a tampa e vejo uma boneca antiga bastante assustadora, com cabelos escuros brilhantes, vestida com um casaco vermelho. Seus grandes olhos azuis de vidro parecem me encarar, e sua boca foi costurada. Olho ao redor mais uma vez, mas tudo está quieto, silencioso e escuro. “Onde você está?”, berro. Mas Abby não responde. Minha esposa desapareceu.
17
UM ANO DEPOIS…
ALICE FEENEY BELAS IMPERFEIÇÕES
CRUZ-CREDO
“Você está com uma aparência horrível. Cruz-credo, mal te reconheci”, diz minha agente quando entro em seu escritório. Parece uma expressão tão esquisita. Será que cruz-credo pode ser bom? “É bom te ver também”, digo a ela. “Não estou te insultando, estou te descrevendo.” Kitty Goldman nunca doura a pílula. Ela me dá um abraço e depois volta a se sentar atrás de sua mesa, onde sempre pareceu mais à vontade. Vejo que algumas rugas a mais ousaram decorar seu rosto desde a última vez que nos encontramos e gosto que ela não tente esconder a idade. O que você vê é o que é, mas nem todo mundo a vê como eu. Poucas pessoas chegam tão perto. Nunca soube a idade exata de Kitty — é uma das muitas perguntas que não ouso fazer —, mas se eu tivesse que chutar, diria que tem uns setenta e poucos anos. Ela está usando um terninho de tweed rosa e cheira a perfume. Chanel, acho. Ela olha por cima dos seus óculos de grife. “E vejo que trouxe o Columbo com você”, diz ela, olhando para o labrador preto se acomodando em seu tapete de aparência cara. “Sim. Desculpe. Espero que não seja um problema. Não tenho ninguém que possa ficar de olho nele e não posso deixá-lo sozinho no hotel durante o dia.” 19
E lá está — a inclinação de cabeça por pena. A pena com a qual me familiarizei tanto se instala em seu rosto e tenho que desviar o olhar. Faz um ano que minha esposa desapareceu. Todos que sabem o que aconteceu me olham assim agora e não aguento mais. Cansei de ouvir as pessoas dizendo: “Lamento muito por sua perda”. Tenho certeza de que lamentam por um tempo, até esquecerem tudo e seguirem com suas vidas. E por que não deveriam? Elas não perderam a razão de viver. No caso, esse seria eu. Olho para os meus sapatos, sem engraxar e muito gastos no salto. Kitty liga para sua mais nova assistente — sentada bem do lado de fora do escritório — e pede que ela nos traga chá e biscoitos. Desde que Abby desapareceu, esqueço de comer com frequência. Também não consigo escrever e tenho dificuldade para dormir. Meus pesadelos são sempre os mesmos e sinto como se não conseguisse respirar quando acordo. Não perdi apenas minha esposa. Eu tinha tudo o que sempre quis e perdi tudo. Ainda não sei o que aconteceu com Abby. Nem sequer sei se ela está viva. É isso, mais do que qualquer coisa, o não saber, que me mantém acordado à noite. Passeio o olhar pelo escritório decorado de maneira tão linda, fazendo qualquer coisa para evitar o olhar de Kitty e as perguntas que sei que virão. Não parece um escritório. É muito mais estiloso, como uma minibiblioteca ou algo do tipo que se encontra em um hotel boutique, projetado por alguém com gosto refinado. Observo todas as estantes de madeira sob medida, abarrotadas de livros de seus clientes — incluindo os meus. Fui o maior cliente da Kitty por um tempo. Nos últimos tempos, ela tem escritores mais novos, mais jovens, mais ávidos e, para ser franco, melhores em sua lista. Aqueles que ainda sabem escrever. Meus olhos vagam até encontrarem a foto emoldurada de Abby na mesa de Kitty. Eu me perguntava se ela ainda estaria lá ou se ela a teria escondido em uma gaveta. Algumas pessoas acham que esconder a dor a fará desaparecer, mas, na minha experiência, isso só faz com que doa mais. O luto é sempre seu; não é algo que você pode compartilhar, mas 20
pelo menos há alguém que pensa em Abby com a mesma frequência que eu. Kitty é madrinha da minha esposa e, às vezes, penso que só tenho uma agente porque Abby implorou para que ela me representasse. Kitty Goldman é uma das maiores agentes literárias do país. Ela aceitou me representar há dez anos, quando eu ainda era um (mais ou menos) jovem autor. Minha carreira não estava indo a lugar nenhum, exceto por uma série de becos sem saída, mas ela viu algo na minha escrita que ninguém mais enxergou e se arriscou. O resultado foram cinco mais vendidos no Reino Unido e vários prêmios. Kitty vendeu os direitos de tradução dos meus livros em quarenta países, então, no ano passado, tive meu primeiro best-seller do New York Times nos Estados Unidos. Tudo parece ter sido um sonho agora. Incapaz de escrever por tanto tempo e com todos os meus pertences num depósito, é surreal ver um livro com o nome Grady Green na capa de novo. Será que algum dia haverá outro? O problema de chegar ao topo é que só resta uma direção: para baixo. “Como você está?”, pergunta Kitty, me arrancando da autopiedade. É uma pergunta simples, mas não sei bem como responder. A polícia desistiu de procurar por Abby algumas semanas depois que seu carro foi localizado abandonado, apesar de terem encontrado o casaco vermelho que ela usava. Um passeador de cães o encontrou a cerca de um quilômetro da costa no dia seguinte ao seu desaparecimento. Estava encharcado e muito rasgado. Minha esposa está “desaparecida” há mais de um ano, mas — de acordo com a lei — não pode ser dada como morta antes de sete anos. Quando outras pessoas perdem um ente querido, há um enterro ou algum tipo de cerimônia. Mas não para mim. E não para Abby. Os desaparecidos não são iguais aos que partiram. As pessoas me dizem que preciso seguir em frente, mas como? Sem algum tipo de encerramento, estou preso em um limbo triste e solitário, desesperado para saber a verdade, mas apavorado com o que ela pode ser. Nunca fui bom com finanças — Abby sempre cuidou dessa parte das coisas — e quando verifiquei nossa conta conjunta depois que ela desapareceu, havia uma grande quantia faltando. De acordo com os extratos que eu nunca tinha me dado ao trabalho de conferir antes, ela havia feito vários saques grandes nos meses anteriores ao seu desaparecimento. Nós 21
nos endividamos demais quando compramos a casa e não tive condições de pagar a hipoteca sozinho. Sem novos contratos de publicação, fui forçado a vendê-la por muito menos do que valia em um momento em que o mercado imobiliário estava em queda. O que significa que eu ainda devo dinheiro ao banco. Também vendi a maior parte dos nossos móveis para tentar sobreviver e, depois, aluguei um apartamento em Londres por alguns meses, pelo qual paguei uma quantia exorbitante a um proprietário que sabia que eu estava desesperado. Achei que uma mudança de ares poderia ajudar, mas não ajudou. Em vez disso, só sugou o pouco dinheiro que me restava. Agora estou morando em um hotel vagabundo, sobrevivendo com os royalties dos meus livros anteriores, incapaz de escrever outro. Sem condições de fazer qualquer outra coisa além de ficar obcecado com o que aconteceu naquela noite. Minha vida vem se desmantelando desde então. “Estou bem”, minto, tentando dar um sorriso fraco e poupando nós dois da verdade. A versão sorridente de mim mesmo que eu costumava apresentar ao resto do mundo é alguém que não reconheço nem lembro. Fingir é mais difícil do que costumava ser. “Como você está?”, pergunto. Kitty ergue uma sobrancelha como se visse o meu verdadeiro eu, apesar dos meus esforços para ser alguém melhor. Ela desempenhou o papel de mãe na minha vida mais de uma vez, principalmente nos dias que se seguiram ao ocorrido. Eu não tinha mais ninguém a quem recorrer e, como madrinha da minha esposa, Kitty ficou igualmente devastada com o desaparecimento de Abby. Ser agente é um negócio estranho e muito mais complexo do que a maioria das pessoas imagina. Exige que uma pessoa desempenhe vários papéis: primeiro leitor, editor, gerente, terapeuta, mãe de aluguel, chefe e amiga. Minha agente é a única pessoa em quem ainda confio. “Você não parece bem”, ela responde. Tento me ver através dos olhos dela; não é uma imagem bonita. Dou de ombros, em parte como um pedido de desculpas, em parte em desespero. “Tenho tido problemas para dormir desde…” “Dá pra ver. As olheiras e a expressão vazia meio que entregam. E você emagreceu. Estou preocupada com você, Grady.” 22
Eu também estaria preocupado comigo se não estivesse tão cansado. Meses de insônia me transformaram em minha sombra e existo num torpor nebuloso que me arrasta. Não me lembro como é não estar exausto, confuso, perdido. Preciso pra ontem de um corte de cabelo e minhas roupas parecem que deveriam estar em um brechó de caridade. Como se fosse um sinal, o botão do meu paletó cai em cima da mesa de Kitty fazendo um barulhinho triste. É como se minhas roupas estivessem tentando dizer o que eu não consigo: estou desmoronando. Kitty encara o botão e seu rosto diz o que ela não fala. Então, sua assistente bate na porta de vidro antes de entrar com uma bandeja com chá. “Chamei você para vir aqui hoje porque precisamos conversar”, diz Kitty quando ficamos sozinhos. “Precisamos conversar” nunca é um bom começo para nenhuma conversa. Acho que ela vai me tirar da lista de clientes dela. Eu não a culpo. Quando ela pensa em mim, deve pensar na afilhada desaparecida, e isso não deve ser fácil. Além disso, se não estou ganhando dinheiro, ela também não está. Quinze por cento de nada é nada. Se eu fosse ela, também cortaria todos os laços comigo: um escritor que não consegue escrever é uma das criaturas mais tristes do mundo. Pigarreio como um estudante nervoso. “Sei que não escrevo nada que você possa vender há algum tempo, mas…” “Sua editora quer o adiantamento de volta”, interrompe Kitty. “Foi um contrato de dois livros e como nunca entregamos um segundo romance…” “Não tenho como devolver. Não tenho mais nada.” “Eu já imaginava isso, então mandei eles se foderem, mas acho que precisamos bolar um plano”, é sua resposta e fico aliviado em saber que ela ainda está do meu lado. Ainda lutando por mim. A única que já lutou. “Não é fácil escrever no pior hotel da cidade. Fico acordado quase todas as noites por causa de bêbados passando pela minha janela, e durante o dia tudo o que ouço é o trânsito e as obras. As paredes são finas como papel, e há interrupções e barulho constantes”, conto, me sentindo tão patético quanto pareço. Nunca entendi autores que escolhem escrever em cafés ou em qualquer lugar com outras pessoas ou distrações. Preciso de silêncio. 23
“O que aconteceu com o apartamento?” Encolho os ombros mais uma vez. “Eu não conseguia mais pagar o aluguel.” Sua testa se franze em uma expressão preocupada. “Por que você não me contou? Estou com medo de perguntar, mas em que pé está o livro novo?” Só escrevi um capítulo e o reescrevi pelo menos cem vezes. “Está… indo”, minto. “Há algo que você possa compartilhar comigo?” Só tenho mil palavras. De acordo com meu contrato, preciso de mais noventa e nove mil. Concordo com a cabeça. “Logo mais, eu acho.” “Ou até mesmo uma proposta ou sinopse, se tiver uma?” Não tenho ideia do que acontece depois do primeiro capítulo e acho que provavelmente preciso deletá-lo e começar de novo. “Claro”, eu respondo. O celular da Kitty toca e ela o encara como se a chamada a tivesse ofendido. “Desculpe, preciso atender.” “Sem problemas.” Ela faz uma cara de puro desgosto e pega o telefone. “Se essa é a sua melhor oferta, não vamos perder mais tempo. Morro de inveja de todas as pessoas que nunca te conheceram. Seis dígitos ou vai se foder pra lá”, esbraveja e desliga. Kitty gosta de mandar as pessoas se foderem. Sempre tive medo de que ela me dissesse isso um dia. “Onde estávamos?”, pergunta ela, com a voz já serena e amigável. Com delicadeza, ela cutuca a lateral dos óculos como se eles não estivessem alinhados. Estão. “Ah, sim. Você estava fingindo que o romance está progredindo, enquanto suspeito que não escreveu uma palavra desde a última vez em que nos falamos.” Tento não sorrir. Ou chorar. Ainda é desconfortável alguém que me conheça tão bem. “Acho que precisamos de algo mais forte do que o chá hoje”, diz Kitty, pegando uma garrafa de uísque escocês de aparência cara e servindo dois copos. “Trabalhamos juntos há muito tempo e sempre tentei fazer o que acredito ser melhor para você, para seus livros e para sua carreira.” É isso. Aí vem. O discurso de 24
despedida. Ela desistiu de mim e como posso culpá-la se eu desisti de mim mesmo? Kitty tem a reputação de ser implacável e de dispensar autores assim que eles param de fazer sucesso, como se temesse que o fracasso possa ser contagioso e infecte o resto de sua lista de clientes. Dito isso, ela nunca foi nada menos do que gentil comigo. Até agora. Kitty enfia a mão na gaveta da escrivaninha e me pergunto se está prestes a rasgar meu contrato na minha frente. “Pensei muito nisso nas últimas semanas e meses…” “Sei que posso escrever outro livro.” Deixo as palavras escaparem e elas soam quase verdadeiras. “Eu também”, concorda. “E quero ajudar você.” Kitty coloca uma foto Polaroid na mesa. É de uma antiga cabana de madeira cercada por árvores altas. “Quando um cliente meu morreu, alguns anos atrás, ele me deixou isto em testamento”, diz ela, batendo na foto com a unha feita. Rosa para combinar com o terninho de tweed. “Era a cabana de escrita dele nas Terras Altas da Escócia.” Receio que a resposta correta esteja me escapando. “Sorte sua?” “Não tive a chance de visitá-la pessoalmente desde que ele a deixou para mim. Tem chão até a Escócia e não tiro férias há cinco anos, mas me disseram que a cabana tem uma bela vista e com certeza Charlie achou que era um lugar produtivo.” Franzo a testa. “Charles Whittaker”, ela emenda, como se eu pudesse não saber quem ele é quando o mundo inteiro sabe quem é. Charles Whittaker costumava ser um dos maiores best-sellers do ramo, mas não publicava um livro novo há anos. Muitas vezes me perguntei o que aconteceu com ele. “Charlie sempre disse que seu décimo romance seria o melhor, mas ele morreu antes de escrevê-lo e era uma alma reservada, não me disse sequer o título. Ele escreveu vários sucessos naquela cabana quando estava no auge da carreira, mas agora ela está lá, vazia. Você estaria me fazendo um favor, sério.” Eu a encaro. “Você quer que eu vá para a Escócia?” “Não se você preferir ficar naquela porcaria de hotel. E devo ressaltar que este pequeno refúgio não fica no continente. Fica na Ilha de Amberly.” “Nunca ouvi falar.” 25
“Esse é um dos muitos motivos pelos quais Charles tinha tanto apreço pelo lugar — é bem longe dos lugares mais batidos. Não vai ter nenhum barulho. Nenhuma interrupção. Nenhuma distração. Ele precisava que o mundo estivesse em silêncio para escrever, assim como você. Não conseguia escrever uma palavra quando a vida estava no talo.” “Eu… não sei o que dizer.” “Diga que sim. A cabana significa acomodação gratuita até você se recuperar.” “Talvez eu só precise pensar…” “Claro. Talvez não seja uma boa ideia.” Ela cutuca os óculos de grife mais uma vez, me olhando por cima deles, e temo tê-la ofendido. “É muito tranquilo e pacífico — ao menos na aparência —, mas, ao que tudo indica, é um pouco isolado. E a vida rural não é para todos. Não há muitas pessoas na ilha…” “Parece perfeito. Você sabe que preciso de silêncio para escrever, mas não tenho conseguido, com tudo…” “Não tenho certeza. Talvez tenha sido errado da minha parte sugerir isso.” Ela guarda a foto de volta na escrivaninha, bate a gaveta e coloca um cigarro entre os lábios. “Você não se importa, não é?”, pergunta, acendendo-o antes que eu possa responder. Balanço a cabeça, mesmo me importando e apesar de fumar em escritórios ser ilegal há vários anos. “Não quero interferir nem piorar as coisas”, diz Kitty, exalando uma nuvem de fumaça. “E me preocupo que meus outros autores sintam ciúmes se descobrirem. Não ofereci o lugar a mais ninguém e você sabe como alguns autores podem ficar: com ciúmes. Paranoicos. Malucos.” “Não vou contar a ninguém. Acho uma ideia maravilhosa.” “Ótimo. Então está resolvido.” Ela bate a cinza da ponta do cigarro em um pequeno troféu de prata de agente do ano em sua mesa. “Tire três meses. Leve o cachorro — ele vai adorar lá. Descanse, ande, leia, durma… e quem sabe, talvez você até consiga escrever. Vou pedir para os editores darem um tempo por enquanto. Existem muitas outras editoras por aí, você me escreve um livro novo e eu encontro uma para você. Eu sei que você consegue.” “Não sei se consigo escrever sem ela.” Kitty me encara e, então, olha para a foto de Abby em sua mesa. 26
A inclinação de cabeça indicando compaixão retorna e sua voz se suaviza. “Você já passou tempo demais enlutado, Grady. Por mais que me parta o coração dizer isso, não acho que Abby vá voltar. Ela se foi e você precisa tentar seguir em frente. Eu também.” Suas palavras machucam a nós dois. Vejo as lágrimas em seus olhos antes que ela pisque para dissipá-las. Eu quero escrever outro livro. Só não sei se consigo depois do que aconteceu. O luto é um ladrão paciente e rouba muito mais do que as pessoas que nunca o conheceram imaginam. Minha esposa disse uma vez que eu só era feliz mesmo quando escrevia e estou começando a achar que isso pode ser verdade, porque nunca me senti tão destruído quanto agora. Ser escritor era o melhor trabalho do mundo até deixar de ser. Talvez seja disso que preciso para poder voltar a escrever. Não consigo encontrar as palavras certas, então digo a mais simples. “Obrigado.” Kitty assente e abre a gaveta da escrivaninha uma vez mais, desta vez tirando um talão de cheques. Nem sabia que essas coisas ainda existiam. “O que você está fazendo?”, pergunto. “O que parece? Estou te fazendo um cheque para que você possa comprar um casaco novo com botões que não caiam — pode esfriar bastante nas Terras Altas nesta época do ano — e quero ter certeza de que você tem dinheiro suficiente para comer e alimentar o Columbo.” Ela assina o cheque e o desliza sobre a mesa. É uma quantia bem generosa do seu próprio dinheiro. “Você pode me pagar quando vendermos o próximo livro. Enviarei por e-mail todos os detalhes sobre Amberly e instruções de como encontrar a cabana. Agora dê o fora do meu escritório”, ela ordena com uma piscadela. Tenho 40 anos, mas estou com lágrimas nos olhos. “Obrigado, de verdade.” “O sucesso, com frequência, é o resultado de uma série de fracassos. Tente se lembrar disso. Nunca se aprende nada com o sucesso, mas o fracasso pode te ensinar tudo a respeito de uma pessoa. Em especial, sobre si próprio. Eu acredito em você”, diz Kitty. Fico tão feliz em ouvi-la dizer isso. Também me entristece porque ela não deveria. 27
A AUTORA DE DELE E DELA RETORNA COM UM THRILLER ENVOLVENTE E SOMBRIO Um ano após o desaparecimento da esposa, o escritor Grady Green continua devastado pela perda. Incapaz de dormir e de escrever, ele recebe uma oferta irrecusável para passar uma temporada em uma bela ilha no litoral da Escócia. Nesse santuário de pedra, entre estranhos habitantes e o silêncio da natureza, ele vê o impossível: uma mulher idêntica a sua esposa. Em Belas Imperfeições, Alice Feeney cria uma atmosfera sombria na qual são exploradas as paranoias e expectativas entre casais. Até onde estamos dispostos a ir para que nossa vontade prevaleça?