

FELIX S ALTENapresenta


A fábula DE UMA








FELIX S ALTENapresenta





FELIX S ALTEN
A fábula DE UMA VIDA NA FLOrESTA
Tradução de Petê Rissatti
1ª edição em capa dura
Tradução
Petê Rissatti
Revisão
Karine Ribeiro e Úrsula Antunes
Projeto Gráfico
Marina Avila
Capa
Jane Herkenhoff Imagens
Florais: Ilustradora Lisla
Folha de rosto: Janaina Medeiros
Foto de Felix Salten: Ferdinand Schmutzer, 1910 Animais na história: Canicula e RawPixel
2ª edição | 2025 | Geográfica
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Catalogação na fonte: Bibliotecária responsável: Angélica Ilacqua CRB-8/7057
Salten, Félix, 1869-1945
Bambi, a história de uma vida na floresta / Felix Salten ; tradução de Petê Rissatti.
– 2. ed. – São Caetano do Sul : Editora Wish, 2025.
224 p.
ISBN 978-65-5241-013-9
1. 1. Literatura infantojuvenil austríaca 2. Floresta 3. Animais I. Título II. Rissatti, Petê
25-1321

Índice para catálogo sistemático:
1.Ficção : Literatura austríaca 830
2. Literatura infantojuvenil 028.5
CDD 028.5
EDITORA WISH
www.editorawish.com.br
Redes Sociais: @editorawish
São Caetano do Sul - SP - Brasil
© Copyright 2019-. Este livro possui direitos de tradução e projeto gráfico e não pode ser distribuído ou reproduzido, ao todo ou parcialmente, sem prévia autorização por escrito da editora. Impresso em papel Pólen de reflorestamento.

Dedicatória da Editora
Para todos os que lutam por um ecossistema mais justo e harmonioso

su má rio

bambi
Capítulo 1 15
Capítulo 2 19
Capítulo 3 35
Capítulo 4 41
Capítulo 5 53
Capítulo 6 61
Capítulo 7 67
Capítulo 8 75
Capítulo 9 85
Capítulo 10 89
Capítulo 11 101
Capítulo 12 117
Capítulo 13 127
Capítulo 14 135
Capítulo 15 141
Capítulo 16 149
Capítulo 17 157
Capítulo 18 163
Capítulo 19 167
Capítulo 20 173
Capítulo 21 181
Capítulo 22 191
Capítulo 23 199
Capítulo 24 205
Capítulo 25 211
Capítulo 26 217
Extras
Prefácio do Tradutor 8
Biografia de Felix Salten 222

Prefácio do Tradutor
Bambi:
uma fábula infantil?
Quando lemos o nome do pequeno cervo que começa a descobrir a vida na floresta, a associação é quase óbvia: Bambi, desenho da Disney de 1942, entristece gerações há mais de 70 anos e, provavelmente, deve continuar seu legado por muito tempo. Todos se lembram do animalzinho que nasce em um dia quente e agitado e logo começa a fazer as primeiras descobertas, amigos, como o coelhinho Tambor, perde a mãe e é obrigado a crescer em meio às agruras do mundo selvagem. Não há como escapar dessa trama, que dificilmente não emociona os espectadores. Quando comentava com algumas pessoas que eu estava traduzindo o livro original, escrito pelo austríaco
Felix Salten (pseudônimo de Siegfried Salzmann), a expressão delas imediatamente mudava para um sorrisinho amarelo e olhos tristes. A lembrança do filme é muito candente em todos. Mas, além do nome e do percurso do pequeno herói, Bambi: uma vida na floresta pouco tem a ver com o belo desenho da

Disney. Ainda é uma fábula, ainda há animais falantes, ainda há coelho, mas a profundidade do texto é incomparável. Felix Salten, que, como muitos autores de sua geração, foi obrigado a ter um emprego administrativo para manter a vida enquanto exercitava a criatividade nos textos, foi um prolífico autor austríaco. Fazia parte do movimento modernista de Viena, com Hermann Bahr, Richard Beer-Hofmann, Hugo von Hofmannstahl e Arthur Schnitzler. Seu nome alcançou fama mundial com Bambi, mas ele escreveu romances adultos, contos, livros infantis, ensaios, textos jornalísticos, peças de teatro, roteiros para cinema, além de atuar como tradutor e editor de jornais e revistas. Na seara dos livros infantis, também fez bastante sucesso com Fünfzehn Hasen [Quinze coelhos], Bambis Kinder: Eine Familie im Walde [Os filhos de Bambi: uma família na floresta], Die Jugend des Eichhörnchens Perri [A juventude do esquilo Perri], Djibi das Kätzchen [Djibi, o gatinho], entre outros.
Nos prenúncios da Segunda Guerra Mundial, em 1935, Bambi e outros livros de Salten entraram na lista nazista dos “escritos prejudiciais e indesejáveis” (assim como Kafka e outros nomes importantes da literatura) e, em 1938, foge com sua mulher, a atriz Ottillie Metlz, para viver com a filha em Zurique, na Suíça, onde falece em 1945, aos 76 anos. Entre a parábola e o romance de formação (Bildungsroman), Bambi também mescla a visão trágica do mito, em que situações normais são narradas como eventos miraculosos, e um tanto do caráter belo e mais animado dos contos de fada.
Felix Salten consegue essa façanha no estilo da fábula e, em seu romance, mergulha de forma bastante poética em características do ser humano: a curiosidade infantil, a

alegria dos encontros; os cuidados maternos, de um lado, o abandono parental (em especial pelo pai), a morte e a “lei da selva” que vigora também entre nós, do outro. A profª.
Nelly Novaes Coelho, um dos grandes nomes da pesquisa em literatura infantil e infantojuvenil no Brasil, define fábula da seguinte forma:
Forma narrativa breve que, tal como o apólogo e a parábola, visa dar uma lição aos homens. Suas personagens são animais falantes que se comportam como humanos. Nela, as situações narradas denunciam sempre erros de comportamento que resultam na exploração do homem pelo homem.
E é aí que Felix Salten subverte, de alguma forma, o gênero, pois, apesar de realmente escrever sobre sentimentos, qualidades, defeitos e idiossincrasias totalmente humanos, o foco das angústias dos personagens de Bambi é Ele, essa entidade misteriosa cuja mão solta trovões, um dente gigante que machuca as árvores, que manda em cães e outros animais, mas que pode ser bondoso a quem ele se afeiçoa. É o homem contra o mundo animal, contra a natureza, em um primeiro grito marcadamente ecológico dentro da literatura.
E essas características, ainda que não tragam dificuldades diretas à tradução de um título como este, trazem questionamentos sobre o alcance da obra: como um título como Bambi, classificado em geral como um título infantil, toca tantas pessoas durante tanto tempo e gera produtos midiáticos que ampliam ainda mais sua abrangência? Pois, ainda que o desenho animado da Disney tenha internacionalizado

a história do pequeno cervo, o livro, lançado em 1923, já era um best-seller em 1942, quando o filme foi lançado.
Talvez a explicação esteja na crueza dos eventos e na riqueza de detalhes que Salten imprime em sua história, sem poupar os corações mais fracos. Bambi não é um texto exclusivamente para crianças. Talvez nem seja propriamente um texto para crianças. O autor consegue, com um texto poético, trazer uma visão extremamente dura – do ponto de vista humano – sobre a vida selvagem, que, hoje em dia, fere sensibilidades. Meu desejo durante a tradução foi, em várias vezes, informar no início do livro que “nenhum animal foi ferido durante a tradução desta obra”, pois a violência, ainda que também seja parte da natureza humana, é trazida ao reino da floresta sem floreiros, sem adocicar ou atenuar as agruras que os animais sofrem com as intempéries, as estações do ano e o próprio ciclo da vida, que se espelha no romance. O jornalista Martin Becker, em texto na seção Cultura do site da Rádio Alemanha (Deutschlandfunk), afirma que Bambi não é nem doce, tampouco fofinho, e comenta que o livro é uma realização acústica, com suas frases encaixadas com elegância, ritmo envolvente e descrições ricas e fantasiosas. Segundo Becker, na vida da floresta de Bambi existem dois lados: … a alegria tangível de conquistar, passo a passo, o mundo. E, por outro lado, há o medo: por que, pergunta Bambi à sua mãe, o furão precisa matar um camundongo? E vamos precisar matar também em algum momento?
Bambi é um livro feito de cisões, de fissuras. Como a própria vida – seja humana ou animal –, cada minuto traz possibilidades,

cada escolha traz consequências, e nenhuma decisão que tomamos se concretiza impunemente. Ele, que é o ser humano comparado a Deus, também pode ser uma representação dos governos, de chefes ou mesmo de pais castradores. E a libertação desse jugo também é retratada nesta fábula, quando Bambi finalmente enxerga – com ajuda do Velho cervo – que Ele não é Deus, mas outra criatura, como os animais da floresta. É libertador para Bambi ver o quanto o ser humano é mortal, como todos os amigos que ele viu perecer durante a vida, e entender que existe uma força superior que cria e julga igualmente o ser humano e os animais da floresta.
A trajetória de Bambi não é apenas uma trajetória de sobrevivência mas sim de aprendizado constante; no texto, inclusive, existe a personagem de Gobo, o cervo que é primo de Bambi, e pode ser interpretado de várias maneiras: como um adulto que não cresce e ainda acredita que o mundo é apenas belo, sem aprender nada com as próprias dificuldades. Gobo também pode ser visto como um elemento oprimido, assimilado pela cultura opressora – no caso, foi comparado aos judeus que sofreram o processo de assimilação, também no período da Segunda Guerra Mundial, e essa representação aparentemente infantil foi considerada pelo governo nazista como “indesejável”.
“Esqueçamos tudo o que sabemos sobre Bambi. O romance de Felix Salten é uma obra-prima que precisa ser redescoberta”, foi o que recomendou a editora Unionverlag, que relançava, em 2013, o texto original de Bambi na Alemanha, por ocasião dos 90 anos de existência do livro. Anos depois, a Editora Wish, por meio de financiamento coletivo e com

muita garra, lança Bambi: uma história da floresta, juntamente com Princesa Pocahontas, de Virginia Watson, com tradução de Carolina Caires Coelho, no box Filhos da floresta. Que os brasileiros redescubram Bambi, seus encantos e sua verdade, nesses tempos em que uma sombra se avulta sobre a nossa natureza e liberdade.
São Paulo, setembro de 2019
Petê Rissatti é tradutor técnico e editorial desde 2000, com atuação nas áreas jurídica e literária, nos idiomas inglês, alemão e espanhol. Trabalha para diversas editoras e grupos editoriais brasileiros, tendo traduzido autores como Franz Kafka, Friedrich Dürrenmatt, Stefan Zweig, Hans Fallada, Judith Schalansky, George R. R. Martin, Christopher Vogler, Veronica Roth, John Scalzi, Tomi Adeyemi e Rodrigo Fresán. Também atua como preparador, leitor crítico e redator de textos editoriais: orelhas, sinopses e quarta capas. Ministra oficinas de tradução (inglês-português) e leciona em cursos de graduação e pós-graduação em tradução na Estácio de Sá, na Faculdade Phorte e na Associação Alumni de São Paulo.
Referências
BECKER, Martin. “Bambi ist nicht süß und auch nicht nielich”. Deutschlandfunk Kultur. 9.5.2013. Disponível em <https://www.deutschlandfunkkultur.de/bambi-ist-nicht-suess-und-auch-nicht-niedlich.950. de.html?dram:article_id=244809>
BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Trad. Arlene Caetano. 16. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980. p. 45–52.
BUNZEL, Wolfgang. “Kaffeehaus und Literatur im Wien der Jahrhundertwende”, in: Hansers Sozialgeschichte der deutschen Literatur vom 16. Jahrhundert bis zur Gegenwart. v. 7. Org. Por York-Gothart Mix. Munique/ Viena: Carl Hanser Verlag. 2000, p. 292, 295.
COELHO, Nelly Novaes. O conto de fadas. Símbolos – Mitos – Arquétipos São Paulo: Paulinas, 2008. p. 136-137.
STRIGL, Daniela. “Ist eine Reh-Sozialisierung überhaupt möglich?”. Welt.de, 9.4.2013. Disponível em <https://www.welt.de/kultur/literarischewelt/article115109590/Ist-eine-Reh-Sozialisierung-ueberhaupt-moeglich.html>
ZIK, Howard. “The Zionist Who Wrote Bambi: Felix Salten”. JewishPress.com, 21.2.2016. Disponível em https://www.jewishpress.com/indepth/the-zionist-who-wrote-bambi-felix-salten/2016/02/21/>

Ba MBi
A fábula de uma vida na floresta

Ele veio ao mundo no meio da mata, em uma daquelas clareiras pequenas e escondidas da floresta que aparentemente ficam abertas por todos os lados, mas que por todos os lados estão protegidas.
Também havia pouco espaço lá, suficiente apenas para ele e sua mãe.
Ali, ele se ergueu, cambaleou alarmado sobre as pernas finas, fitou abobalhado com olhos turvos que nada viam, deixou a cabeça pender, tremia muito e ainda estava completamente aturdido.
— Que belo filhote! — gritou a pega.
Ela passara voando, atraída pelo gemido arfante que as dores arrancaram da mãe. Então, a pega se sentou em um galho próximo.
CAPÍTULO

— Que belo filhote! — gritou ela agora. Não recebeu resposta e se pôs a tagarelar. — Que surpreendente que já consiga ficar em pé e andar! Que interessante! Nunca vi uma coisa dessas na vida. Bem, claro, eu ainda sou jovem, saí há um ano do ninho, como a senhora talvez saiba. Mas eu acho maravilhoso. Tão criança… vem ao mundo neste segundo e já consegue ficar em pé. Acho elegante. Realmente acho tudo em vocês, corças1, muito elegante. E também já consegue correr…?
— Com certeza — respondeu a mãe, baixinho. — Mas a senhora vai me desculpar, não estou em condições de conversar. Tenho tanto a fazer agora… e, além do mais, ainda estou me sentindo um pouco fraca.
— Não se deixe prender por mim — disse a pega —, também não tenho muito tempo. Mas é que não se vê algo assim todo dia. Eu lhe digo, como essas coisas são desajeitadas e difíceis para nós. Não se pode tocar nos filhotes quando saem do ovo, ficam lá no ninho, desprotegidos, e precisam de alguém que cuide deles, alguém que cuide, estou lhe dizendo, disso a senhora certamente não fazia ideia. Que trabalho dá alimentá-los, que medo dá vigiá-los. Peço que a senhora pense em como é exaustivo precisar buscar comida para os filhotes e ao mesmo tempo cuidar para que nada aconteça com eles. Não conseguem fazer nada quando não há ninguém por perto. Eu não tenho razão? E quanto tempo é preciso esperar até que
1 A corça é um cervo pequeno que pesa até 35 quilos, enquanto os veados norte-americanos podem chegar a 150 quilos. Bambi, originalmente uma corça (Reh em alemão), foi adaptado para o cinema americano como um veado, com o cenário também alterado para as florestas da América do Norte, a fim de torná-lo mais familiar ao público dos EUA, já que a corça só é encontrada na Europa e Ásia. [N.E.]

possam se mexer, quanto tempo leva até que tenham penas e fiquem com uma aparência decente?
— Perdão — retrucou a mãe —, eu não estava ouvindo.
A pega saiu voando dali. Que idiota, pensou ela, elegante, mas idiota!
A mãe mal percebeu e se pôs a banhar com zelo o recém-nascido. Ela o lavava com a língua, e esse ato reunia tudo: higiene corporal, massagem quentinha e carinhos amorosos.
O pequeno cambaleava um pouco. Entre carinhos e lambidas que o tocavam com suavidade aqui e ali, ele se encolheu um pouco e ficou parado. Sua pelagem vermelha, que ainda estava um pouco desgrenhada, tinha finos salpicos brancos, e no rosto confuso de filhote ainda havia uma expressão profundamente sonolenta.
Ao redor cresciam avelaneiras, cornisos, abrunheiros e jovens sabugueiros. Altos bordos, faias e carvalhos formavam um teto verde sobre o bosque cerrado, e brotavam do solo

firme e marrom-escuro samambaias, ervilhacas e sálvia. Bem embaixo se aninhavam na terra as folhas de violeta, que já haviam florescido, e de morangos, que já haviam começado a florescer. A luz do sol matutino esgueirava-se pela folhagem densa como um fio diáfano dourado. A floresta inteira ecoava várias vozes, era cruzada por elas, bem como por uma agitação alegre. O papa-figo vibrava sem cessar, as pombas arrulhavam, as andorinhas piavam, os tentilhões batiam as asas, os abelharucos pipiavam. O que atravessava essa cantoria era o grito que os gaios soltavam, a provocação zombeteira das pegas, o rompante tom metálico do cacarejar estilhaçador dos faisões. Às vezes, o gritinho agudo de um pica-pau cruzava todos os cantos. O grasnado do falcão ressoava claro e penetrante sobre as copas das árvores, e o coro rouco dos corvos era ouvido o tempo todo.
O pequeno não entendia nenhum dos muitos cantos e gritos, nenhuma palavra daquelas conversas. Não ouvia nada delas. Também não percebia nenhum de todos os cheiros que a floresta exalava. Ouvia apenas o pequeno chiado que passava sobre seu saiote, enquanto era lavado, aquecido e beijado, e não sentia nenhum cheiro além do corpo da mãe próximo a ele. Bem aconchegado nessa proximidade benfazeja, buscou faminto ao redor e encontrou a fonte da vida.
Enquanto bebia, a mãe continuou a acarinhar o pequeno.
— Bambi — sussurrou ela.
Naquele momento, ela ergueu a cabeça, deixando as orelhas agirem, e respirou fundo.
Então, beijou novamente seu filhote, calma e feliz.
— Bambi — repetiu ela —, meu pequeno Bambi.

No começo do verão, as árvores estavam paradas sob o céu azul, mantinham os braços estendidos e recebiam a força que emanava do Sol. Nas sebes e arbustos do bosque, as flores se abriam, estrelas brancas, vermelhas ou amarelas. Em muitas, os botões dos frutos já se faziam visíveis, inúmeros, pendiam das finas pontas dos galhos, macios, firmes e decididos, e pareciam pequenos punhos cerrados. Do chão, vinham as estrelas coloridas de muitas e variegadas flores, e a terra brotava no fundo penumbroso da floresta em um colorido silencioso e fervilhante. Tudo tinha cheiro de folha fresca, de flores, de leiva úmida e madeira verde. Quando a manhã irrompia e quando o sol se punha, a floresta inteira ressoava com milhares de vozes,
CAPÍTULO

e, de manhã à noite, zumbiam abelhas, zuniam as vespas, a zoada retumbava pelo silêncio perfumado.
Assim foram os dias em que Bambi passou sua primeira infância.
Ele caminhava atrás de sua mãe em uma faixa estreita que passava pelo meio dos arbustos.
Como era agradável passear por ali. A folhagem densa acarinhava seu flanco com suavidade, curvando-se levemente para o lado. O caminho parecia bloqueado e obstruído dez vezes por todos os lados, ainda assim se avançava com a maior tranquilidade. Em todo canto havia essas vias, elas cortavam e cruzavam a floresta toda. A mãe conhecia todas elas, e quando Bambi às vezes era impedido por um arbusto como se fosse um muro verde intransponível, a mãe sempre encontrava, sem hesitar ou muito procurar, o local onde o caminho estava traçado.
Bambi perguntava. Ele amava fazer perguntas à mãe. Para ele, a coisa mais legal era perguntar e então ouvir a resposta que a mãe lhe dava. Bambi não se surpreendia por lhe ocorrerem tantas perguntas, uma atrás da outra, o tempo todo e sem descanso. Ele achava perfeitamente natural; ele se deliciava demais. Deliciava-o também esperar com curiosidade até a pergunta chegar. Se ela chegasse como queria, ele sempre ficava satisfeito com ela. Às vezes, claro, ele não a entendia, mas também era legal, porque sempre podia continuar perguntando, quando quisesse. Às vezes, não continuava com as perguntas, e também era legal, porque se punha a imaginar do seu jeito aquilo o que não entendia. Às vezes, ele sentia muito claramente que sua mãe não lhe oferecia uma resposta

completa, não lhe dizia tudo o que sabia de propósito. E isso era muito legal. Pois assim uma curiosidade muito especial permanecia dentro dele, uma ideia que lampejava nele de forma misteriosa e estimulante, uma espera na qual ele ficava ansioso e entusiasmado, tanto que se calava.
Então, ele perguntou:
— De quem é esse caminho, mãe?
A mãe respondeu:
— Nosso.
Bambi perguntou de novo:
— Meu e seu?
— Isso!
— Nosso?
— Isso!
— Só nosso?
— Não — respondeu a mãe. — Nosso, das corças…
— O que é isso, corça? — perguntou Bambi e riu.
A mãe olhou ao redor para encontrá-lo e também riu:
— Você é uma corça, e eu sou uma corça. Somos corças.
Entende?
Bambi deu um pulo alto, rindo.
— Sim, entendo. Eu sou um corço pequeno e você é uma corça grande. Não é?
A mãe meneou a cabeça para ele.
— Isso mesmo.
Bambi voltou a ficar sério:
— Existem outras corças além de mim e de você?
— Claro — disse a mãe. — Muitas.
— Onde elas ficam? — perguntou Bambi em voz alta.

— Aqui, em todo lugar.
— Mas… eu não vejo.
— Logo vai ver.
— Quando? — Bambi estacou por pura curiosidade.
— Logo. — A mãe continuou andando, tranquila.
Bambi seguiu-a. Ele se calou, pois estava ruminando o que isso poderia significar: “Logo”. Ele chegou à conclusão de que “logo” com certeza não era “já”. Mas ele não conseguia decidir em que momento esse “logo” terminava para ser “logo” e começava a virar “lento”. De repente, ele perguntou:
— Quem fez esse caminho?
— Nós — respondeu a mãe.
Bambi se surpreendeu:
— Nós? Você e eu?
A mãe disse:
— Bem, nós… as corças.
Bambi perguntou:
— Quais?
— Nós todas — disse a mãe.
Eles continuaram. Bambi estava satisfeito e teve vontade de pular fora do caminho, mas ele se manteve obediente ao lado da mãe. Diante deles, veio um farfalhar bem perto do chão. Com um movimento brusco, algo saiu de lá e se escondeu entre os galhos de samambaia e das folhas de alface-selvagem. Uma vozinha fina guinchou, lastimável, então tudo ficou em silêncio. Apenas as folhas e os talos de mato tremelicavam no lugar. Um furão havia caçado um camundongo. Nesse momento, ele passou às pressas, desviou para o lado e começou sua refeição.

— O que foi aquilo? — perguntou Bambi, agitado.
— Nada — tranquilizou a mãe.
— Mas… — tremeu Bambi —, mas… eu vi.
— Muito bem — disse a mãe —, não se assuste. O furão matou o camundongo.
Mas Bambi ficou terrivelmente assustado. Um terror grande e desconhecido envolveu seu coração. Demorou muito até que ele pudesse falar de novo. Então, ele perguntou:
— Por que ele matou o camundongo?
— Porque… — a mãe hesitou — … vamos mais rápido — disse ela, como se lhe tivesse ocorrido alguma coisa, e ela tivesse esquecido a pergunta. Ela começou a trotar. Bambi saiu aos pulos atrás dela.
Passou-se muito tempo; eles voltaram a andar tranquilamente. Por fim, Bambi perguntou, apreensivo:
— Vamos ter que matar um camundongo?
— Não — respondeu a mãe.
— Nunca? — perguntou Bambi.
— Nunca — foi a resposta.
— Por que não? — questionou Bambi, aliviado.
— Porque nós não matamos ninguém — disse simplesmente a mãe.
Bambi voltou a ficar empolgado.
De um jovem freixo que ficava próximo ao caminho, saiu um guincho alto. A mãe continuou sua caminhada sem dar atenção. Porém, Bambi estacou, todo curioso. Dois gaios enfrentavam-se lá em cima nos galhos por um ninho que haviam saqueado.
— Trate de dar o fora, seu malandro! — gritou um deles.

— Não fique nervosinho, seu maluco — retrucou o outro —, não tenho medo de você.
O primeiro vociferou.
— Procure outro ninho, seu ladrão! Eu esmago sua cabeça. — Ele estava fora de si. — Que maldade! — ralhou ele. — Que maldade!
O outro percebeu Bambi, sacudiu alguns galhos para baixo e chiou para ele:
— O que está olhando aqui, seu pirralho! Desapareça!
Intimidado, Bambi saiu aos pulos dali, alcançou a mãe, caminhou de novo atrás dela, obediente e apavorado, e achou que ela não havia notado que o deixara para trás.
Depois de um tempo, ele perguntou:
— Mãe… o que é isso, maldade?
A mãe respondeu:
— Não sei.
Bambi refletiu. Então voltou a falar:
— Mãe, por que aqueles dois estavam tão bravos um com o outro?
A mãe respondeu:
— Estavam brigando por comida.
Bambi voltou a perguntar:
— Nós também vamos brigar por comida um dia?
— Não — afirmou a mãe.
Bambi questionou:
— Por que não?
E a mãe lhe disse:
— Há o suficiente para nós todos.
Bambi quis saber mais uma coisa:

— Mãe…?
— O que foi?
— Nós vamos ficar bravos um com o outro?
— Não, meu filho — respondeu a mãe —, isso não existe entre a gente.
Eles continuaram. Lá adiante, ficou totalmente claro de uma vez, uma claridade radiante. O emaranhado verde de galhos e arbustos havia terminado, o caminho havia terminado. Apenas alguns passos e eles sairiam para a liberdade iluminada que se abria diante deles. Bambi quis saltar à frente, mas a mãe parou.
— O que foi? — gritou ele impaciente e já totalmente fascinado.
— A campina — disse a mãe.
— O que é isso, a campina? — quis saber Bambi.
A mãe o interrompeu.
— Você já vai ver. — Ela ficou séria e atenta. Sem se mover, manteve a cabeça alta, espreitando, tensa; testou o vento respirando profundamente e parecia muito austera.
— Está bem — disse ela por fim —, podemos sair.
O pequeno corço deu um salto, mas ela bloqueou seu caminho.
— Espere até eu chamá-lo.
Nesse momento, Bambi estacou, obediente.
— Isso mesmo — elogiou a mãe. — Agora, preste atenção no que vou dizer.
Bambi ouviu a agitação na voz da mãe e ficou muito tenso.
— Não é tão simples caminhar pela campina — continuou a mãe —, é uma coisa difícil e perigosa. Não me

pergunte por quê. Você vai aprender com o tempo. Por ora, faça exatamente o que eu disser. Está bem?
— Sim — prometeu Bambi.
— Muito bem. Eu saio primeiro, sozinha. Fique aqui e espere. E fique me olhando sempre. Não tire os olhos de mim nunca. Se você vir que estou correndo de volta para cá, dê meia-volta e corra o mais rápido que puder. Eu alcanço você — ela se calou, pareceu refletir, e continuou com insistência:
— Corra, corra o máximo que puder. Corra, de qualquer maneira… mesmo se acontecer alguma coisa… mesmo se me vir… se me vir indo ao chão… não preste atenção em mim, entendeu?… Seja lá o que veja ou ouça… continue, sem parar e o mais rápido possível…! Você promete que fará isso?
— Prometo — disse Bambi, baixinho.
— Mas se eu chamá-lo — falou a mãe —, você poderá ir. Lá fora, na campina, vai poder brincar. É bonito lá fora e você vai gostar. Só que… você precisa me prometer… que no primeiro grito meu você ficará ao meu lado. E pronto! Você me ouviu?
— Sim — respondeu Bambi, mais baixo ainda. A mãe falava com muita seriedade.
E continuou a falar:
— Lá fora… se eu gritar… nada de olhar ao redor, nada de perguntas, só venha atrás de mim como o vento! Preste atenção. Sem pensar, sem hesitar… imediatamente, quando eu começar a correr, significa que você deve fugir logo e não ficar parado até estarmos de novo lá dentro. Não vai se esquecer disso?
— Não — afirmou Bambi, apreensivo.

— Então, agora eu vou — avisou a mãe, parecendo um pouco mais calma.
Ela saiu. Bambi, que não tirava os olhos dela, viu como ela avançava devagar com passos altos. Cheio de expectativa, cheio de ansiedade e curiosidade, ele ficou ali, parado. Viu como a mãe espreitava ao redor, viu-a se encolher e ele mesmo se encolheu, pronto para sair aos saltos de volta à mata fechada.
Então, a mãe se acalmou de novo, e quando um minuto se passou, ela ficou feliz. Ela abaixou o pescoço, estendeu-o, olhou adiante satisfeita e gritou:
— Pode vir!
Bambi saiu em disparada. Uma alegria gigantesca tomou-o com uma força tão fascinante que esqueceu, de imediato, seu temor. Na mata fechada, ele vira apenas a copa verde das árvores sobre si e, além disso, somente às vezes, em pequenos vislumbres, salpicos azuis espalhados. Agora ele via o céu azul inteiro, alto e amplo, e aquilo o alegrou sem que ele soubesse o

motivo. Do sol, ele conhecera na floresta apenas raios largos e intermitentes, ou a suave chuva de luz que se refletia dourada entre os galhos. De repente, estava parado sob a força quente e ofuscante, cujo domínio absoluto o banhava, estava parado no meio do calor abençoado que lhe fazia fechar os olhos e abrir o coração. Bambi estava inebriado, totalmente fora de si, simplesmente encantado. Com desajeito, saltou alto três, quatro, cinco vezes ali mesmo onde estava. Não conseguia evitar, precisava saltar.
Sentiu desejo de pular bem alto. Suas pernas jovens estenderam-se com tamanha força, sua respiração era tão profunda e fácil, e ele bebia a respiração, bebia todo o cheiro da campina com uma empolgação tão impetuosa que precisava mesmo saltar. Bambi era um filhote. Se fosse uma criança humana, teria gritado de alegria. Mas era um filho de corça, e corças não gritam, ao menos não como as crianças humanas fazem. Então, ele gritou de alegria do seu jeito. Com as pernas, com o corpo todo, que girava no ar. Sua mãe ficou por perto e se alegrou. Viu que Bambi estava encantado. Viu que ele se lançava no ar, caía desajeitado no mesmo lugar, olhava perplexo e inebriado e, no momento seguinte, lançava-se de novo no ar, várias e várias vezes. Ela compreendeu que Bambi conhecia apenas os estreitos caminhos das corças da floresta, acostumara-se, nos poucos dias de sua existência, apenas ao confinamento da mata fechada e que, por isso, não saía do lugar, pois não entendia como correr livremente pela campina aberta. Ela se abaixou sobre as patas dianteiras estendidas, riu de Bambi por um segundo, deu um salto e correu em círculos,

de forma que os talos altos de mato farfalharam. Bambi assustou-se e permaneceu imóvel. Era um sinal de que devia voltar à mata fechada? “Não se preocupe comigo”, dissera a mãe, “nem com o que vir e ouvir; apenas siga em frente, o mais rápido possível!” Ele quis dar meia-volta e fugir, como lhe fora ordenado. Então, a mãe, de repente, chegou a galope em meio a um chiado maravilhoso, parou a dois passos dele, inclinou-se rindo e gritou:
— Venha comigo!
E, num repente, ela desapareceu. Bambi ficou embasbacado. O que era aquilo? Era mesmo sua mãe? E então ela voltou, tão rápida que o deixou zonzo, empurrou-o no flanco com o nariz e disse, apressada:
— Venha me pegar! — E fugiu de novo. Bambi partiu atrás dela. Alguns passos. Mas logo os passos se transformaram em saltinhos. Parecia estar voando, avançando sem esforço. Havia um espaço a cada passo, espaço a cada pulo, espaço, espaço. Bambi ficou feliz além da conta. O mato farfalhava em suas orelhas, e era lindo, tão macio, suave como seda quando passava por ele. Ele corria em círculos, lançava-se para lá e para cá e descrevia mais um círculo, voltava a se lançar e continuava a correr. A mãe parou um pouco, tomou fôlego e se virou para o lado em que Bambi saltitava. Ele estava a toda velocidade.
De repente, a corrida terminou. Ele parou, foi até a mãe com passinhos elegantes e olhou para ela com alegria. Então, caminharam lado a lado, cheios de contentamento. Desde que havia saído para a campina, Bambi vira o céu, o sol e a vastidão

verde apenas com o corpo, o céu apenas com o olhar ofuscado e inebriado, o sol com as costas banhadas de forma benfazeja e com a respiração cada vez mais forte. Agora desfrutava com os olhos, arrebatado pelas novas maravilhas a cada passo, o esplendor da campina. Não havia nenhum pedacinho de chão visível, como lá dentro, na floresta. Os talos cobriam cada palmo de chão, tocando-se e balançando na mais pura resplandescência, curvando-se suavemente para o lado a cada passo e erguendo-se em seguida como se nada houvesse passado. O campo verde era estrelado com margaridas brancas, com gordos botões violetas e vermelhos dos trevos em flor e com as flores pomposas de um dourado brilhante que o dente-de-leão elevava.
— Olha só, mãe — gritou Bambi —, uma flor está voando ali.
— Não é uma flor — disse a mãe —, é uma borboleta.
Bambi olhou embevecido a borboleta que se soltou com infinita delicadeza de um talo e pairou em voo vacilante. Então, Bambi viu que muitas daquelas tais borboletas voavam sobre a campina, aparentemente apressadas e, ainda assim, lentas, tremelicando para cima e para baixo, uma brincadeira que o entusiasmou. Pareciam realmente flores voadoras, flores engraçadas que não queriam ficar paradas em seu caule e tinham se afastado para dançar um pouquinho. Ou flores que pousavam com o pôr do sol, mas ainda não tinham um lugar e precisam buscar um, desciam e desapareciam, como se afundassem em algum lugar, mas logo voltavam a se erguer, ora apenas um pouco, ora mais alto para continuar sua busca, sem parar, pois os melhores lugares já estavam ocupados.

Bambi olhava para todas. Adoraria ver uma delas de perto, adoraria ficar frente a frente com uma delas, mas não conseguia. Elas pairavam sem parar, de um lado para o outro.
Ele ficou totalmente confuso.
Ele se deliciou quando olhou de novo para o chão, todas aquelas milhares de vidas ágeis que rastejavam embaixo dos cascos. Saltavam e brotavam para todos os lados, surgiam como um tumulto e uma confusão e voltavam a afundar no próximo segundo no solo verde de onde haviam subido.
— O que é isso, mãe? — perguntou.
— São os pequenos — respondeu a mãe.
— Olha só — gritou Bambi —, um pedacinho de mato está pulando aqui. Não… como pula alto!
— Não é mato — explicou a mãe —, é um bom gafanhoto.
— Por que ele pula assim?
— Porque chegamos aqui — comentou a mãe —, e ele tem medo.
— Ah! — Bambi voltou-se ao gafanhoto, que estava sentado sobre o disco branco de uma margarida. — Ah — disse Bambi suavemente. — O senhor não precisa ter medo, claro que não vamos fazer nada.
— Eu não tenho medo — retrucou o gafanhoto com a voz trêmula. — Só me assustei em um primeiro momento, pois estava falando com a minha mulher.
— Desculpe — disse Bambi, dócil. — Nós perturbamos o senhor.
— Não tem problema — rascou o gafanhoto. — Como são vocês, não tem problema. Mas nunca se sabe quem vem, e é preciso estar atento.

— Essa é a primeira vez na minha vida que venho até a campina — explicou Bambi. — A mãe me…
O gafanhoto ergueu-se com a cabeça estendida de um jeito petulante, fez uma expressão séria e murmurou:
— Não quero saber. Não tenho tempo de bater papo com você, preciso procurar minha mulher. Pula! — E assim ele se foi.
— Pula — disse Bambi, perplexo, e observou maravilhado o pulo alto com que ele desapareceu.
Bambi correu até a mãe:
— Ei… eu falei com ele!
— Com quem? — perguntou a mãe.
— Ora, com o gafanhoto — explicou Bambi —, eu falei com ele. Ele foi tão gentil comigo. E eu gosto muito dele. Ele é tão verde, e na ponta ele é tão transparente como nenhuma folha pode ser, nem a mais fina.
— São as asas.
— É? — Bambi continuou. — E ele tem aquela cara séria, cheia de pensamentos. Mas, apesar disso, ele foi muito gentil comigo. E como consegue pular! Deve ser pesado de montão. “Pula!”, ele fala, e pula tão alto que não dá mais para ver.
Ele continuou a falar. A conversa com o gafanhoto deixou Bambi agitado e um pouco cansado, pois era a primeira vez que ele falava com alguém estranho. Ele sentiu fome e se encostou em sua mãe para se alimentar.
Quando voltou a se acalmar e sonhou acordado por um tempinho, na pequena e doce embriaguez que o cercava todas

as vezes que era amamentado pela mãe, observou na confusão dos talos do mato uma flor clara que se movimentava. Bambi olhou com mais atenção. Não, não era uma flor, era uma borboleta. Bambi aproximou-se com cuidado.
A borboleta pendia preguiçosa em um talo e movia devagar suas asas.
— Por favor, fique no lugar! — Bambi pediu para ela.
— Por que tenho que ficar no lugar? Sou uma borboleta — respondeu o bichinho, surpreso.
— Ah, fique apenas um pouquinho no lugar — pediu
Bambi —, faz tempo que estou querendo ver a senhora de perto. Faça esse favorzinho.
— Que seja — disse a borboleta —, mas só um pouco.
Bambi parou diante dela.
— Como a senhora é bonita — vozeou ele, encantado —, que maravilhosa! Como uma flor!
— Quê? — A borboleta bateu as asas. — Como uma flor? Ora, em meus círculos todos falam que somos mais bonitas que as flores.
Bambi ficou perplexo.
— É mesmo — gaguejou —, muito mais bonita… me perdoe… eu só quis dizer…
— Para mim tanto faz o que você quis dizer — retrucou a borboleta. Ela curvou seu corpo estreito de um jeito afetado e brincou vaidosa com as antenas delicadas.
Bambi observou-a, encantado.
— Como a senhora é delicada — disse ele —, fina e delicada! E que magníficas essas asas brancas!

A borboleta estendeu bem as asas, em seguida as ergueu de um jeito que ficaram bem juntas, parecendo uma vela de barco estendida.
— Ah — gritou Bambi —, agora eu entendo por que a senhora é mais bonita que as flores. Além disso, a senhora pode voar, e as flores não podem. Porque elas crescem presas no caule, é por isso.
A borboleta ergueu-se.
— Chega — disse ela. — Eu posso voar! — Ela alçou voo tão levemente que mal era possível perceber e entender. Suas asas brancas moveram-se com suavidade, graciosas, então ela pairou no ar ensolarado. — Só fiquei parada tanto tempo por você — disse ela e balançou para cima e para baixo diante de Bambi —, mas agora eu vou embora. Assim era a campina.

No fundo da mata cerrada havia um lugarzinho que pertencia à mãe de Bambi. Ficava apenas a alguns passos além do estreito caminho das corças que cruzava a floresta, mas era difícil de encontrar quando não se conhecia a pequena passagem em meio aos arbustos fechados. Uma toca bem estreita, tão estreita que havia espaço apenas para Bambi e sua mãe, e tão baixa que a mãe de Bambi, quando estava em pé, escondia a cabeça em meio aos galhos. Avelaneira, tojo e corniso cresciam ali entremeados e capturavam a pouca luz do sol que atravessava a copa das árvores, de forma que ele nunca conseguia chegar ao solo. Ali, naquela toca, Bambi viera ao mundo e ali era o lar dele e de sua mãe.
CAPÍTULO

Nesse momento, a mãe estava deitada na terra e dormia. Bambi também havia cochilado um pouco. Mas, de repente, ficou totalmente animado. Ele se levantou e olhou ao redor.
Ali dentro, as sombras eram tão fortes que estava quase escuro. A floresta sussurrava baixinho. Aqui e ali, os abelharucos piavam, lá e cá ressoava a gargalhada clara de um pica-pau ou o chamado inamistoso de um corvo. No mais, tudo estava silencioso, em todo canto. Apenas o ar fervia no calor da tarde e, com muita atenção, era possível ouvir o fervilhar. Ali dentro, nos arbustos entremeados, estava abafado. Bambi olhou para a mãe deitada:
— Você está dormindo?
Não, a mãe não estava dormindo. Despertou assim que Bambi se levantou.
— O que vamos fazer agora? — perguntou Bambi.
— Nada — respondeu a mãe —, ficaremos aqui onde estamos. Deite-se bonitinho e durma.
Mas Bambi não estava com vontade de dormir.
— Venha — pediu ele —, venha para a campina.
A mãe ergueu a cabeça:
— Para a campina? Agora… para a campina…? — ela falou com tal surpresa e tão cheia de temor que Bambi ficou muito ansioso.
— Não podemos ir para a campina…? — questionou ele, hesitante.
— Não — respondeu a mãe e parecia muito decidida.
— Não, agora não é possível.
— Por quê? — Bambi observou que havia algo de misterioso ali. Ele ficou ainda mais ansioso, ao mesmo tempo

que isso o instigou a saber de tudo. — Por que não podemos ir para a campina agora?
— Você vai saber de tudo mais tarde, quando for mais velho… — apaziguou a mãe.
Bambi insistiu:
— É melhor me falar agora.
— Mais tarde — repetiu a mãe. — Agora você ainda é um filhotinho — continuou ela com suavidade —, e com filhotinhos não se fala dessas coisas. — Então, ela ficou totalmente séria. — Agora… para a campina… não posso nem pensar numa coisa dessas. À luz do dia…!
— Mas — contestou Bambi —, quando fomos da outra vez à campina, era dia claro também.
— É diferente — explicou a mãe —, era de manhãzinha.
— Só podemos ir até lá de manhãzinha? — Bambi estava curioso demais.
A mãe era paciente.
— Somente de manhãzinha ou no finzinho da tarde… ou à noite.
— E nunca durante o dia? Nunca…?
A mãe hesitou.
— Não — disse ela por fim —, às vezes… alguns de nós vão também durante o dia. Mas em momentos especiais… não posso explicar isso para você assim… você é pequenino demais… alguns vão…, mas com isso correm o maior perigo…
— Por que eles correm perigo? — Bambi ficou muito tenso. Contudo, a mãe não queria abrir totalmente o jogo.
— Eles correm mesmo perigo… Ouça, meu filho, você ainda não consegue compreender essas coisas…
Bambi achava que podia compreender tudo, só não entendia por que a mãe não queria contar exatamente o que acontecia. Mas ele se calou.

— Precisamos viver assim — continuou a mãe —, todos nós. Se nós amamos o dia… e nós amamos o dia, principalmente na infância… precisamos viver assim, ficando quietinhos durante o dia. Podemos andar por aí apenas à noite e de manhãzinha. Entendeu?
— Entendi!
— Então, meu filho, é por isso que agora precisamos ficar aqui, onde estamos. Aqui ficamos seguros. Sim! E agora deite-se aí de novo e durma.
Mas Bambi não queria se deitar naquele momento.

— Por que ficamos seguros aqui? — quis saber ele.
— Porque os ramos nos vigiam, porque os galhos nos arbustos estalam, porque os galhos no chão quebram e nos alertam, porque a folha seca do ano passado se espalha pela terra e crepita para nos dar um sinal… porque o gaio e a pega também, elas vigiam, e porque com isso nós sabemos de longe quando alguém está vindo…
— O que é isso — questionou Bambi —, a folha do ano passado?
— Venha, sente-se aqui comigo — disse a mãe —, quero explicar uma coisa. — Então, Bambi se sentou, curioso, aconchegou-se na mãe, e ela lhe contou que as árvores não permanecem sempre verdes, que o sol e o tempo bonito desaparecem. Então, o frio chega, as folhas ficam amarelas com a geada, marrons e vermelhas, e devagar elas caem, de forma que tanto as árvores como os arbustos estendem seus galhos nus para o céu e parecem completamente empobrecidos. Contudo, as folhas secas ficam no solo, e quando um pé as toca, elas estalam. Prestam um serviço excelente, pois são muito alertas e vigilantes. Ainda agora, no meio do verão, muitas delas se escondem embaixo do matinho rasteiro e alertam de longe de qualquer perigo.
Bambi apertou-se ainda mais contra o corpo da mãe. Ele esqueceu a campina. Estava muito confortável ficar ali sentado, ouvindo o que a mãe lhe contava.
Então, quando a mãe silenciou, ele ficou pensando. Achou muito gentil da parte das boas e velhas folhas que elas cuidassem deles de forma tão diligente, embora estivessem murchas e congeladas e já tivessem passado por tantas coisas.

Ele imaginou o que realmente poderia ser o perigo do qual a mãe sempre falava. Mas tanto pensamento o deixou cansado; ao redor deles ainda reinava o silêncio, ouvia-se apenas como o ar fervilhava com o calor. E ele adormeceu.


Certa noite, quando ele saiu na campina novamente com sua mãe, achou que conhecia tudo o que havia para ver e ouvir. Só que lhe pareceu que não era assim tão bem-informado quanto pensou.
No início foi como da primeira vez. Bambi pôde brincar de pegar com a mãe. Ele correu em círculos, e o espaço amplo, o céu alto, o ar livre o encheram de novo com tamanho encantamento que ele ficou maluquinho. Depois de um tempo, percebeu que a mãe parou. Ele estacou no meio de uma curva, tão de repente que suas quatro pernas escorregaram, uma para cada lado. Para se manter em uma posição decente, ele deu um pulo alto e ficou em pé. Mais adiante, a mãe parecia estar falando com alguém, mas não dava para enxergar quem era no meio do matagal. Curioso, Bambi se
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aproximou. Na confusão de talos de mato, bem perto da mãe, moviam-se duas longas orelhas. Eram marrom-acinzentadas e belamente desenhadas com listras pretas. Bambi parou com tudo, mas a mãe disse:
— Venha cá, esse é nosso amigo coelho… venha com calma e se apresente.
Bambi aproximou-se imediatamente. Lá estava o coelho, sentado, e parecia muito honesto. Suas longas orelhas, curvadas como colheres, estendiam-se poderosas para o alto e voltavam a cair, amolecidas, como se atacadas por uma fraqueza repentina. Bambi ficou um pouco pensativo quando encarou os fios de bigode que se espalhavam tão rígidos e retos ao redor da boca do coelho. Mas ele percebeu que o coelho tinha um rosto muito suave, feições bondosas, e que, com olhos grandes e redondos, lançava olhares mansos para o mundo. Ele parecia mesmo um amigo, o coelho. O pensamento fugaz de Bambi desapareceu de pronto. Estranhamente, até mesmo a reverência que havia sentido no início se perdeu por completo e de imediato.
— Boa noite, senhorito — cumprimentou o coelho com cortesia meticulosa.
Bambi apenas meneou a cabeça como o cumprimento. Não sabia por quê, mas apenas balançou a cabeça. Muito educado, muito polido, mas um pouco desdenhoso. Não sabia como ser diferente. Talvez tivesse nascido desse jeito.
— Que belo principezinho — disse o coelho à mãe. Ele observou Bambi com cuidado, erguendo logo uma das orelhas de colher, depois a outra, então as duas ao mesmo tempo e, às
vezes, deixava as duas caírem, rápida e molemente, o que não agradava a Bambi. Esse gesto parecia dizer: não vale a pena. Enquanto isso, o coelho continuou a observar Bambi tranquilamente, com olhos grandes e redondos. O nariz e a boca, com seu belo bigode, moviam-se sem parar, como alguém que mexe o nariz e os lábios para tentar evitar um espirro. Bambi teve de rir.

Então, o coelho também riu com vontade, apenas seus olhos ficaram mais pensativos.
— Meus parabéns — disse ele à mãe —, dou meus sinceros parabéns à senhora pelo filho. Sim, sim, sim… será um portentoso príncipe… sim, sim, sim, isso já se vê.
Ele se ergueu e parou em pé nas patas traseiras, e Bambi se surpreendeu muito. Depois de espiar ao redor com orelhas erguidas e nariz movendo-se de forma incrível, voltou a se sentar com delicadeza sobre as quatro patas.

— Sim, agora me despeço da senhora e do senhorito — disse ele —, tenho ainda muito o que fazer hoje à noite… humildemente me despeço. — Ele deu meia-volta e saiu a saltitar, com orelhas abaixadas que lhe chegavam até os ombros.
— Boa noite — gritou Bambi atrás dele.
A mãe sorriu:
— O bom coelho… tão simples e tão humilde. O mundo não é fácil para ele. — Havia simpatia nas palavras dela.
Bambi passeou um pouco e deixou a mãe se alimentar. Ele esperava reencontrar seus conhecidos da primeira vez e também estava pronto para conhecer outros. Pois sem saber muito bem o que lhe faltava de verdade, havia uma expectativa constante dentro dele. De repente, ele ouviu de longe um leve farfalhar na campina, sentiu uma batida leve e ciciada no chão. Ele olhou para frente. Lá adiante, na outra margem da floresta, algo deslizava pelo matagal. Um ser… não… dois!
Bambi deu uma olhada rápida para a mãe, mas ela não se importava com nada, mantendo a cabeça afundada no mato. Mas, lá adiante, havia uma caçada em círculos, exatamente como ele correu em círculos antes. Bambi ficou tão perplexo que deu um passo para trás, como se quisesse fugir. Então, sua mãe ficou atenta e ergueu a cabeça.
— O que houve? — gritou ela.
Mas Bambi estava sem fala, não encontrava palavras e apenas murmurou:
— Lá… lá….
A mãe olhou ao longe.
— Ah, sim — disse ela —, é minha prima, e com certeza ela também tem um bebê… não, ela tem dois.

A mãe falou com muito entusiasmo, então ficou séria:
— Não… Ena tem dois filhos…realmente dois…
Bambi parou e ficou à espreita. Lá adiante viu uma forma que parecia exatamente sua mãe. Ele não a havia reparado antes. Ele viu como lá à frente o matagal se movia em círculos duplos, mas apenas as costas vermelhas ficavam visíveis, finas faixas vermelhas.
— Venha — disse a mãe —, vamos lá, temos companhia para você. — Bambi quis correr, mas como a mãe seguiu bem devagar e espiava todos os lados a cada passo, ele também se conteve. Mas ele estava na maior das agitações e muito impaciente.
A mãe continuou a falar.
— Eu já tinha achado que deveríamos ter encontrado Ena. Onde ela está se escondendo?, pensei. E eu sabia que ela também tinha tido bebê. Ora, era fácil de adivinhar. Mas são dois bebês…
Eles foram percebidos muito tempo antes, e os outros foram encontrá-los. Bambi teve de cumprimentar a tia, mas ele só tinha olhos para seus filhotes.
A tia era muito amigável.
— Sim — ela falou para ele. — Este é Gobo, e esta é Faline. Vocês podem sempre brincar juntos.
Os filhotes ficaram estáticos, silenciosos, e se encararam. Gobo bem perto de Faline, Bambi entre eles. Nenhum deles se movia. Eles ficaram parados e se olhavam.
— Deixe-os — disse a mãe —, logo ficarão amigos.
— Que filhote lindo — comentou tia Ena —, de verdade, muito lindo mesmo. Tão forte, e que postura boa…

— Ora, não é nada mal — respondeu a mãe, tímida. — É preciso ficar contente. Mas você, Ena, com duas crianças…
— Sim, é isso, é isso mesmo — disse Ena. — Você sabe, minha querida, eu já tive alguns filhos…
A mãe disse:
— Bambi é meu primeiro…
— Veja só — confortou Ena —, talvez da próxima vez venha diferente para você também…
Os filhotes ainda estavam parados e se observavam. Nenhum disse palavra. De repente, Faline deu um salto e correu. Aquela situação já tinha ficado chata demais para ela.
No mesmo instante, Bambi se pôs a correr atrás dela. Gobo logo seguiu. Eles correram em meios-círculos, viraram-se num repente, tombavam uns sobre os outros, caçavam-se para lá e para cá. Era maravilhoso. Então, quando pararam sem avisar, um pouco sem fôlego, já estavam totalmente à vontade. Começaram a tagarelar.
Bambi contou que havia falado com o bom gafanhoto e com a borboleta albina.
— Você também falou com o besouro-rosa? — perguntou Faline.
Não, Bambi não havia falado com o besouro-rosa. Ele não o conhecia, não sabia quem era.
— Eu falo sempre com ele — explicou Faline, um pouco atrevida.
— O gaio me xingou — comentou Bambi.
— Sério? — Gobo surpreendeu-se. — O gaio fez isso com você? — Gobo ficou um pouco surpreso e era extremamente tímido. — Bem — observou ele —, o porco-espinho

espetou meu nariz. — Mas ele comentou isso de um jeito quase indiferente.
— Quem é o porco-espinho? — quis saber Bambi, feliz. Para ele, parecia maravilhoso estar ali, ter amigos e ouvir tantas coisas empolgantes.
— O porco-espinho é uma criatura terrível — gritou Faline. — Cheio de espinhos grandes no corpo inteiro… e muito malvado!
— Não, você acha que ele é malvado? — perguntou
Gobo. — Ele não faz mal a ninguém.
— Ora? — retrucou Faline rapidamente. — Ele não espetou você, por acaso?
— Ah, foi só porque eu quis falar com ele — contestou Gobo —, e apenas um pouquinho. Não doeu muito.
Bambi virou-se para Gobo:
— Por que ele não quis que você falasse com ele?
— Ele não quer falar com ninguém — intrometeu-se Faline. — Assim que alguém chega perto dele, ele se enrola todo, e aí você só vê seus espinhos por todos os lados. Nossa mãe diz que ele é um desses que não quer ter nada a ver com o mundo.
Gobo falou:
— Talvez ele só tenha medo.
Mas Faline era a entendida:
— A mãe diz que a gente não deve se meter com alguém assim.
Bambi começou a falar baixinho para Gobo:
— Você sabe o que é… o perigo?
Nesse momento, os dois outros ficaram sérios, e todos os três esticaram os pescoços de uma vez.

Gobo refletiu. Ele estava se esforçando de verdade para pensar, pois ele viu como Bambi esperava a resposta com curiosidade.
— O perigo… — sussurrou ele — … o perigo… é uma coisa muito ruim…
— É — insistiu Bambi, ansioso —, uma coisa muito ruim… mas o quê?
Os três estavam tremendo de medo.
De repente, Faline deu um grito e falou, feliz:
— Perigo é… quando alguém precisa sair correndo…
Ela deu um salto, pois não queria ficar ali com medo. Bambi e Gobo pularam logo em seguida atrás dela. Começaram de novo a brincar, rolando na seda verde e farfalhante da campina, e esqueceram imediatamente a pergunta séria. Depois de um tempo, pararam e ficaram juntos como antes para conversar. Olharam para as mães mais adiante. Elas também eram gentis uma com a outra, comiam um pouco e se entretinham em uma conversa tranquila.
Tia Ena ergueu a cabeça e chamou seus filhotes:
— Gobo! Faline! Logo precisamos ir…
A mãe de Bambi também chamou:
— Agora, venha… já é hora.
— Só mais um pouco — pediu Faline, bravia —, um pouquinho.
Bambi implorou:
— Vamos ficar mais! Por favor! Está tão legal!
E Gobo repetiu, tímido:
— Está tão legal… só mais um pouco.
Os três falaram ao mesmo tempo.

Ena olhou para a mãe:
— Bem, eu não disse? Agora eles não querem mais se separar.
Então, uma coisa aconteceu, e foi muito maior do que tudo o que Bambi havia vivenciado até aquele dia. Da floresta veio um som de passos batendo na terra. Ramos estalavam, galhos farfalhavam, e antes que se pudesse afiar os ouvidos, algo saiu da mata fechada. Algo que vinha barulhando e crepitando com outra coisa ciciando logo atrás. Como o vento de uma tempestade, eles partiram em disparada, descrevendo um círculo largo na campina, e mergulharam de volta na floresta, onde se ouviu o galope, depois eles saíram novamente da mata e estacaram a vinte passos de distância um do outro.
Bambi os observava e não se movia. Pareciam com a mãe e com a tia Ena. Mas sobre a cabeça cintilava a coroa de chifres, com pérolas marrons e pontas brancas claras. Bambi ficou totalmente atordoado, olhando de um para o outro. Um era menor, e sua coroa também era mais modesta. Mas o outro tinha uma beleza autoritária. Trazia a cabeça erguida, e acima se elevava a coroa que reluzia do escuro para a claridade, era decorada com o esplendor de muitas pérolas pretas e marrons e tinha as pontas brancas cintilantes estendidas. — Ó! — gritou Faline, maravilhada.
Gobo repetiu baixinho: — Ó!
Mas Bambi nada disse. Ele estava perplexo e mudo. Nesse momento, os dois se moveram, separaram-se, cada um para um lado, e voltaram devagar para dentro da

floresta. O mais poderoso chegou bem perto dos filhotes, passando pela mãe e pela tia Ena. Em esplendor silencioso, ele continuou caminhando, levando a cabeça nobre erguida, e não dignou sequer um olhar para ninguém ali.
Os filhotes não ousaram respirar até ele desaparecer na mata. Eles se olharam, mas, bem nesse instante, as portas verdes da floresta se fecharam atrás dele.
Faline foi a primeira a romper o silêncio:
— Quem era aquele? — gritou ela. Mas sua vozinha desafiadora tremia.
Gobo repetiu, mas mal se podia ouvi-lo:
— Quem era aquele?
Bambi ficou em silêncio.
Tia Ena disse, solene:
— Aqueles eram os pais.
Não se falou mais nada, e eles se separaram. Tia Ena levou os filhotes dali para o próximo arbusto. Era o caminho deles. Bambi precisou atravessar a campina inteira com a mãe até o carvalho para chegar à estrada costumeira. Ele ficou calado por muito tempo. Por fim, perguntou:
— Eles não nos viram?
A mãe entendeu o que ele quis dizer e respondeu:
— Viram. Eles veem tudo.
Bambi sentiu uma inquietação; ele estava evitando fazer perguntas, mas aquele fato o pressionava demais. E começou:
— … Por quê… — e se calou.
A mãe ajudou-o:
— O que você quer dizer, meu filho?
— Por que não ficaram conosco?
— Não ficam conosco — respondeu a mãe —, apenas às vezes…
Bambi continuou:
— Por que não falaram conosco?
A mãe respondeu:
— Agora não falam conosco… apenas às vezes… é preciso esperar até eles virem, e é preciso esperar até que falem conosco… quando quiserem.

Com a mente confusa, Bambi quis saber:
— Meu pai vai falar comigo?
— Com certeza, meu filho — a mãe lhe prometeu —, quando você for um adulto, ele falará com você e, às vezes, você poderá ficar com ele.
Bambi continuou calado ao lado da mãe, seus sentidos todos preenchidos pela aparição do pai. Como ele é bonito!,

pensou ele nesse momento e mais algumas vezes: Como ele é bonito!
Como se a mãe pudesse ouvir seus pensamentos, ela comentou:
— Se você continuar vivo, meu filho, se for esperto, evitar o perigo, então também será tão forte e tão belo quanto o pai, e carregará uma coroa daquelas, como ele carrega. Bambi respirou fundo. Seu coração encheu-se de alegria e expectativa.





Descubra a Floresta Como Nunca Antes Vista
Sinta a floresta despertar com Bambi: o calor do cuidado materno, a curiosidade vibrante, a alegria das brincadeiras com Faline e Gobo, a doçura do primeiro amor. Mas o mundo idílico escurece. O frio traz o silêncio da fome, a perda rasga a inocência, e o cheiro do medo se espalha com a presença d’Ele, o caçador.
Em uma narrativa emocionante, madura e encantadora, Bambi precisará enfrentar uma jornada cheia de dificuldades para se tornar o Príncipe da Floresta.


clássico de 1923 que inspirou a adaptação cinematográfica

