DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP (CIP)) Jéssica de Oliveira Molinari - CRB-8/9852 Hill, Susan A mulher de preto / Susan Hill ; tradução de Mariana Serpa; ilustrações de Andy English. –– Rio de Janeiro : DarkSide Books, 2026. 192 p. : il. ISBN 978-65-5598-611-2 Título original: The Woman in Black 1. Ficção inglesa 2. Horror I. Título II. Serpa, Mariana III. English, Andy 24-2900
CDD 823
Índice para catálogo sistemático: 1. Ficção inglesa inglesa
THE WOMAN IN BLACK Texto © Susan Hill, 1983, 2011 Xilogravuras © Andy English, 2011 Todos os direitos reservados Traduzido para a língua portuguesa © Mariana Serpa, 2026 Impressão: Braspor Fazenda Macabra Reverendo Menezes Pastora Moritz Coveiro Assis Caseiro Moraes
Leitura Sagrada Isadora Torres Jessica Reinaldo Solaine Chioro Tinhoso e Ventura
Direção de Arte Macabra Coord. de Diagramação Sergio Chaves
Colaboradores Jefferson Cortinove Thaila Nagazawa A toda Família DarkSide
Todos os direitos desta edição reservados à DarkSide® Entretenimento Ltda. • darksidebooks.com Macabra Filmes Ltda. • macabra.tv TM
© 2026 MACABRA/ DARKSIDE
Tradução: Mariana Serpa
Sumário
1. Noite de Natal 2. O nevoeiro londrino 3. A viagem rumo ao norte 4. O funeral da sra.Drablow 5. Do outro lado da Trilha 6. O som da carruagem 7. Sr. Jerome tem medo 8. Aranha 9. No quarto infantil 10. Assobie que eu vou ao seu encontro 11. Um maço de cartas 12. A mulher de preto
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Sobre a autora
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Noite de Natal Eram nove e meia da noite de Natal. Ao cruzar o extenso hall de entrada do Retiro do Monge, passando da sala de jantar — onde minha família acabara de saborear a primeira ceia festiva — em direção à sala de estar, onde todos se reuniam junto à lareira, eu parei e, como faço todas as noites, fui até a porta da frente, abri-a e dei um passo para fora. Sempre gostei de sorver o ar da noite, de sentir os aromas, seja o perfume suave e adocicado das flores no verão, o odor intenso das fogueiras e da terra úmida no outono, ou o cheiro torpente do gelo e da neve no inverno. Gosto de olhar o céu, de ver se ele está estrelado ou na mais completa escuridão, de observar o breu à minha frente; gosto de ouvir os crocitos dos animais noturnos, os gemidos da brisa ondulante, o tamborilar da chuva nas árvores; gosto de sentir o vento que sobe a encosta, vindo das pastagens do vale junto ao rio.
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Nessa noite, logo farejei, com o coração leve, a mudança do tempo. Tinha chovido a semana inteira, uma chuva gélida e um nevoeiro baixo pairando sobre a casa e os arredores. Das janelas se via no máximo um ou dois metros de jardim. Um tempo frio, desgraçado, parecia que não clareava nunca. Caminhar não tinha a menor graça, era impossível caçar por conta da cerração, e os cachorros estavam rabugentos e imundos de lama. Dentro de casa, as lâmpadas passavam o dia acesas, e as paredes da despensa, do porão e do anexo exalavam um fedor úmido, com o fogo fraco das lareiras crepitando sobre o lúgubre borralho. Faz muitos anos que sinto meu espírito reagir de forma desmedida às mudanças do clima, e confesso que, se não fosse pelo ar de alegria e agitação que predominava no resto da casa, eu já estaria deprimido, envolto em sombras e letargia, incapaz de saborear a vida como se deve e irritado com meus próprios melindres. Já em Esmé, o tempo inclemente desperta uma afrontosa animação, de modo que os preparativos de Natal esse ano foram mais extensos e vigorosos que de costume. Afastei-me um pouco das sombras da casa para olhar a noite enluarada. O Retiro do Monge fica no topo de uma encosta suave de pouco mais de cem metros, assentada no vale onde o pequeno rio Nee traça, do norte para o sul, seu curso sinuoso por esta área rural fértil e isolada. Lá embaixo há pastos entremeados com pequenos grupos de árvores, mas, na parte de trás, se estende por vários quilômetros um trecho bem diferente, uma charneca de arbustos densos, um pedaço de terra inculta no meio do lavradio. Estamos a apenas três quilômetros de um vilarejo de tamanho razoável e a onze da cidade principal, mesmo assim existe um ar de isolamento que nos faz sentir bem afastados da civilização. 14
A primeira vez que vi o Retiro do Monge foi em uma tarde de verão, na carruagem do sr. Bentley. O sr. Bentley era meu chefe, mas havia pouco tempo eu adquirira sociedade na firma de advocacia em que trabalhava desde jovem (e onde, de fato, permaneci por toda a minha vida profissional). Naquela época ele já chegava à idade de querer soltar as rédeas, e começou a transferir pouco a pouco as responsabilidades às minhas mãos, embora continuasse a visitar nossos escritórios em Londres pelo menos uma vez por semana, o que fez até morrer, aos 82 anos. Mas passava cada vez mais tempo vivendo no campo. Não era homem de caça e pesca; em vez disso, abraçara os papéis de juiz auxiliar do vilarejo, administrador de vários condados e integrante do conselho e da diretoria paroquiais. Eu fiquei ao mesmo tempo feliz e aliviado quando ele enfim firmou sociedade comigo, depois de tantos anos, mas também acreditava que a posição me fosse mais do que devida, pois já cumprira minha justa cota de trabalho duro e carregara boa parte do fardo da responsabilidade de conduzir a firma, com um retorno, a meu ver, inadequado — pelo menos em termos de posição. Pois bem, estava eu com o sr. Bentley em uma tarde de domingo, contemplando a vista do relvado lânguido e verde para além das sebes altas de espinheiro, enquanto ele conduzia a carruagem de volta, em um ritmo tranquilo, à sua mansão meio feiosa e exageradamente imponente. Para mim, era raro ficar sentado sem fazer nada. Em Londres eu vivia para o trabalho, à parte minha coleção de aquarelas e as poucas horas livres que passava no estúdio. Aos 35 anos, eu era viúvo havia doze. Não tinha o menor apreço pela vida social e, embora de modo geral gozasse de boa saúde, tendia a sofrer de doenças dos nervos, como resultado das experiências que relatarei. Verdade seja dita, eu estava envelhecendo muito 15
antes do tempo, virando um homem sombrio, pálido, fechado — um verdadeiro sem graça. Comentei com o sr. Bentley que o dia estava muito gostoso e tranquilo, ao que ele me olhou de esguelha e disse: “Bem que você podia vir para essas bandas… por que não? Um bom chalezinho… por ali, talvez?”, e apontou com o chicote para um pequeno vilarejo assentado em uma curva do rio mais abaixo, as paredes brancas das casas sorvendo o sol da tarde. “Saia da cidade uma sexta-feira dessas, crie gosto pelas caminhadas, farte-se de ar fresco e bons ovos cremosos.” A ideia tinha seu charme, mas era um charme distante, que não guardava qualquer relação aparente comigo, então limitei-me a sorrir, sentindo o aroma suave da grama florida e observando a poeira que a carruagem levantava, e não pensei mais a respeito daquilo. Até que chegamos a um trecho da estrada que cruzava com uma casa de pedras de proporções perfeitas, erguida no alto de uma encosta com vista panorâmica, abarcando todo o vale e se estendendo por vários quilômetros de colinas azul-arroxeadas. Naquele instante, fui capturado por algo que não sei descrever com precisão, uma emoção, um desejo — não, mais que isso, uma percepção, uma certeza que simplesmente me envolveu —, e tudo ficou tão claro e evidente que gritei quase sem querer para que o sr. Bentley parasse, pulei da carruagem ainda em movimento e comecei a subir a encosta, erguendo o olhar primeiro para a casa, tão elegante, tão apropriada àquele local, uma casa modesta e ao mesmo tempo imponente, e depois para o gramado adiante. Eu não me lembrava de ter estado ali antes, mas tive a profunda convicção de que voltaria outra vez, de que a casa já era minha, já estava invisivelmente atrelada a mim. 16
De um dos lados, um córrego traçava seu caminho por entre as margens rumo ao prado à frente, de onde seguia sinuoso rumo ao rio. Da carruagem, o sr. Bentley me encarava com curiosidade. “Belo lugar”, disse ele. Eu fiz que sim com a cabeça, mas, incapaz de comunicar minhas extremas emoções, dei-lhe as costas e subi mais alguns metros pela colina, de onde pude ver a entrada do velho pomar que havia atrás da casa, tomado de grama alta, terminando em um emaranhado de arbustos no canto oposto. Mais adiante, vislumbrei o perímetro de um descampado rústico. A sensação de convicção que descrevi ainda me assomava e recordo que já estava me assustando, pois nunca fui um homem imaginativo nem fantasioso, e certamente não era dado a visões do futuro. Para ser franco, desde minhas experiências anteriores, eu passara a evitar toda contemplação de qualquer assunto minimamente impalpável, e me aferrava ao prosaico, ao visível e tangível. Apesar disso, vi-me bastante incapaz de escapar da crença — não, mais do que isso, da plena certeza — de que aquela casa um dia seria minha; de que cedo ou tarde, embora não fizesse ideia de quando, eu seria seu proprietário. Quando enfim aceitei e admiti o fato, fui no mesmo instante envolvido por uma profunda paz, um contentamento, uma sensação que havia muitos anos eu não sentia, e com o coração leve retornei à carruagem, onde o sr. Bentley me aguardava um tanto intrigado. A emoção avassaladora que eu vivenciara no Retiro do Monge permaneceu comigo, embora não conscientemente, depois daquela tarde em que deixei o interior e voltei para Londres. Cheguei a dizer ao sr. Bentley que, se algum dia ele soubesse que a casa estivesse à venda, eu adoraria ser informado. 17
E foi o que ele fez, uns anos depois. Contatei os corretores no mesmo dia, e dali a poucas horas, sem nem ao menos visitar a casa outra vez, fiz uma oferta que foi aceita. Poucos meses antes, eu havia conhecido Esmé Ainley. Nossa afeição mútua vinha crescendo em um ritmo constante, mas, atormentado como sempre fora por minha natureza indecisa em todas as questões de ordem pessoal e emocional, eu andava quieto quanto às minhas intenções em relação ao futuro. Tive a sensatez, contudo, de tomar a notícia do Retiro do Monge como um bom presságio. Na semana seguinte, oficializei a compra da propriedade, viajei para o interior com Esmé e a pedi em casamento em meio às árvores do velho pomar. Essa proposta também foi aceita, e logo já estávamos casados e morando no Retiro do Monge. Nesse momento, acreditei de verdade ter enfim me afastado da longa sombra lançada pelos eventos do passado, e senti no rosto e no aperto de mão caloroso do sr. Bentley que ele acreditava nisso também, e que ele próprio havia tirado um peso dos ombros. Ele sempre se culpara, pelo menos em parte, pelo que acontecera comigo — foi ele, afinal de contas, quem me enviou naquela primeira viagem a Crythin Gifford, à Casa do Pântano das Enguias e ao funeral da sra. Drablow. Mas tudo isso não podia estar mais distante de meus pensamentos, pelo menos os conscientes, enquanto eu permanecia ali parado junto à porta de minha casa, sorvendo o ar fresco dessa noite de Natal. Já fazia uns catorze anos que o Retiro do Monge se transformara no mais alegre dos lares — meu, de Esmé e de seus quatro filhos, frutos de seu casamento com o capitão Ainley. No início eu só vinha para cá aos fins de semana e feriados, mas a vida e os negócios em Londres começaram a me dar nos nervos desde o dia em que comprei a casa, e eu me apeguei à ideia de migrar em definitivo para o interior na primeira oportunidade que tivesse. 18
Pois agora era nesse lar feliz que minha família passava mais um Natal. Dentro de instantes eu abriria a porta da frente e ouviria o burburinho na sala de estar — a menos que fosse convocado subitamente por minha esposa, preocupada com o resfriado que eu poderia pegar. Fazia mesmo um tempo muito frio e límpido, finalmente. O céu estava cravejado de estrelas, e um halo de névoa gélida circundava a lua cheia. A umidade e a cerração da semana anterior haviam evaporado feito gatunos no meio da noite, os caminhos e as paredes de pedra da casa refletiam um brilho pálido, e minha respiração pairava esfumaçada no ar. No andar de cima, nos quartos do sótão, os três meninos de Isobel — netos de Esmé — dormiam, com as meias de Natal amarradas aos pés de suas camas. Eles não veriam neve pela manhã, mas o dia de Natal pelo menos traria um contorno feliz e luminoso. Havia algo no ar essa noite, alguma coisa, uma relembrança de minha infância, suponho que somada a uma influência dos meninos, que me deixava empolgado, por mais velho que eu fosse. Que minha paz de espírito estava prestes a ser perturbada, despertando lembranças que eu pensava estarem enterradas para sempre, eu naturalmente não fazia ideia. Voltar a conviver de perto, ainda que somente no curso de vívidas lembranças e sonhos, com um pavor tão horripilante ao meu espírito me parecia até então impossível. Dei uma última olhada para a escuridão fria, soltei um suspiro de satisfação, chamei os cachorros e entrei em casa, ansiando nada além de um cachimbo e um copo de bom uísque puro malte junto à lareira crepitante, na feliz companhia de minha família. Ao cruzar o hall e adentrar a sala, senti uma onda de bem-estar, emoção que vivenciei com frequência durante minha vida no Retiro do Monge e que naturalmente leva a outra, de profunda gratidão. E de fato agradeci, ao 19
ver minha família protegida em torno do fogaréu que Oliver, naquele exato momento, alimentava, erguendo as ferozes labaredas a uma altura perigosa, com a adição de um galho de uma antiga macieira do pomar que fora derrubada no outono anterior. Oliver é o mais velho dos filhos de Esmé, e nessa época, como hoje em dia, guardava grande semelhança com sua irmã Isobel (sentada ao lado do marido, o barbudo Aubrey Pearce) e com seu irmão de idade mais próxima, Will. Os três têm feições tipicamente inglesas, o rosto sincero e levemente arredondado, e cabelos, sobrancelhas e cílios castanho-claros — a cor dos cabelos da mãe, antes dos fios grisalhos. Nessa época, Isobel tinha apenas 24 anos, mas já era mãe de três filhos pequenos e parecia apta a produzir mais. Tinha o ar seguro e anafado de uma matrona e um pendor para olhar e fiscalizar tanto seus filhos quanto seu marido e os irmãos. Era a filha mais sensível e responsável do mundo, afetuosa e encantadora, e parecia ter encontrado no tranquilo e ponderado Aubrey Pearce o parceiro ideal. Às vezes, porém, eu pegava Esmé olhando a moça com um ar melancólico, e, em mais de uma ocasião, ela chegou a verbalizar, com muita delicadeza, somente para mim, seu desejo de que Isobel fosse um pouco menos séria, um pouco mais animada, até mesmo frívola. Com toda a honestidade, eu jamais desejaria isso. Não desejaria nada que agitasse a superfície desse mar tão sereno e impassível. Oliver Ainley, à época com 19 anos, e seu irmão, Will, somente catorze meses mais novo, eram jovens igualmente sérios e de alma sóbria, mas, por enquanto, ainda gozavam de toda a exuberância dos pirralhos, e, de fato, Oliver aos poucos indícios de maturidade para um rapaz cursando o primeiro ano de Cambridge e destinado, se prevalecesse o meu conselho, a uma carreira na advocacia. Will estava deitado de bruços junto ao fogo, o rosto cintilante, o queixo apoiado 20
nas mãos. Oliver estava a seu lado, e de vez em quando os dois começavam uma briga de pernas, com chutes e empurrões, acompanhados de súbitas gargalhadas, como se tivessem 10 anos de idade outra vez. Edmund, o mais novo dos irmãos Ainley, estava meio à parte, como era de hábito, afastado dos outros, não por hostilidade ou mau humor, mas por uma reserva e rabugice inatas, um certo desejo de privacidade que sempre o destacara do restante da família de Esmé, assim como ele diferia dos outros na aparência, tendo a pele clara, o nariz comprido, cabelos muito pretos e olhos azuis. Edmund nessa época tinha 15 anos. Era o que eu menos conhecia; quase não o compreendia, ficava desconfortável na sua presença, e mesmo assim, por mais estranho que fosse, talvez o amasse mais profundamente do que a todos os outros. A sala de estar do Retiro do Monge é comprida e rebaixada; nas extremidades há janelas altas, que agora estão com as cortinas fechadas, mas recebem boa iluminação durante o dia, tanto do lado norte quanto do sul. Naquela noite, festões e guirlandas de folhas frescas, colhidas à tarde por Esmé e Isobel, pendiam sobre o console da lareira de pedras, e, entremeadas às folhas, havia frutinhas e fitas vermelhas e douradas. No outro canto da sala estava a árvore, toda enfeitada e iluminada, abrigando uma pilha de presentes. Havia flores também, vasos de crisântemos brancos, e no centro da sala, em uma mesa redonda, uma pirâmide de frutas douradas e uma travessa de laranjas espetadas com cravos preenchiam o ar de uma fragrância picante, que misturada à da lenha e da fumaça compunha o verdadeiro aroma do Natal. Eu me sentei em minha poltrona, afastei-a um pouco do fogo e iniciei o lento e apaziguante processo de acender meu cachimbo. Na mesma hora, percebi que havia interrompido uma conversa animada, e que Oliver e Will, pelo menos, estavam impacientes para retomá-la. 21
“Bom”, eu disse, às primeiras tragadas cautelosas de tabaco, “o que está se passando?” A pausa se alongou, e Esmé balançou a cabeça, sorrindo por sobre o bordado. “Ora…” Oliver então se levantou e saiu correndo pela sala, apagando todas as luzes, exceto as da árvore de Natal, de modo que quando retornou ao seu lugar só havia o brilho da lareira para nos iluminar, e Esmé foi forçada a deixar a costura de lado — mas não sem um resmungo de protesto. “Se é para fazer, vamos fazer direito”, disse Oliver, satisfeito. “Ora, rapazes…” “Anda logo, Will, está na sua vez, não está?” “Não, agora é o Edmund.” “Arrá”, disse o irmão Ainley mais moço, com a voz estranha e grave. “Olha que eu falo, e se eu falar…!” “Precisamos mesmo deixar as luzes apagadas?”, perguntou Isobel, como se falasse com criancinhas bem mais novas. “Sim, maninha, se você quiser criar uma atmosfera autêntica.” “Mas eu não sei bem se quero.” Oliver gemeu baixinho. “Então vamos lá, alguém continua.” Esmé se aproximou de mim. “Eles estão contando histórias de fantasma.” “Pois é”, disse Will, com a voz trêmula de tanta empolgação e pelas risadas. “O melhor passatempo da noite de Natal. É uma tradição antiga!” “A casa de campo isolada, os convidados reunidos junto à lareira, uma sala escura, o vento uivando na janela…” Oliver soltou outro gemido. 22
“Andem, vamos logo com isso”, soltou Aubrey, em seu tom fleumático e bem-humorado. E assim eles fizeram, com Oliver, Edmund e Will competindo pela história mais horripilante, todas recheadas de efeitos dramáticos e gritos fingidos de terror. Os três se superaram nos extremos da criatividade, acrescentando cada vez mais agonia aos relatos. Falaram de castelos desabitados com paredes gotejantes, de monastérios em ruínas sob o luar, de quartos trancados e masmorras secretas, de ossários úmidos e cemitérios malcuidados, de passos em escadas rangentes e dedos batendo em janelas, de uivos e gritos, ganidos e passos sorrateiros, correntes tilintando, monges encapuzados e cavaleiros sem cabeça, nevoeiros cortantes e ventanias súbitas, espectros fantasmagóricos e criaturas envoltas em mortalhas, vampiros e caça-sangues, morcegos, ratos e aranhas, homens encontrados ao amanhecer e mulheres delirantes de cabelos brancos, corpos desaparecidos e herdeiros malditos. As histórias foram ficando cada vez mais macabras, violentas e absurdas, e logo os gritos e arquejos deram lugar a gargalhadas sufocantes, à medida que cada um, até a delicada Isobel, contribuía com detalhes pavorosos. Logo de início eu simpatizei, me diverti, mas enquanto ficava ali sentado junto à lareira, ouvindo tudo, comecei a me sentir apartado do grupo, um estranho naquele círculo. Tentei suprimir meu desconforto crescente, conter o fluxo de lembranças que vinha surgindo. Era só uma brincadeira da juventude, um jogo animado e inocente para ocasiões festivas, e também uma tradição antiga, como Will bem observara, sem nada que pudesse me transtornar ou atormentar, nada que suscitasse a minha desaprovação. Eu não queria ser estraga-prazeres, um velho chato e antipático, desejava participar daquilo, que nada mais era do que um passatempo. Travei uma 23
amarga batalha interna, com a cabeça virada contra a luz para que ninguém notasse minha expressão, que eu sabia que já começava a denunciar meu desconforto. Então, acompanhando um derradeiro uivo de Edmund, o tronco que ardia na lareira desabou de repente, espargindo fagulhas e cinzas pelo ar, e o fogo se apagou, deixando todos nós quase na escuridão total. O silêncio reinou na sala. Eu senti um calafrio. Quis me levantar e sair acendendo as luzes todas outra vez, ver o brilho colorido da decoração natalina, ver o fogo ardendo alegre; eu queria afastar o arrepio que tinha se instalado em mim e a sensação de pavor que me apertava o peito. Mas não conseguia me mexer, pois o medo havia me paralisado por uns instantes, como sempre acontecera; uma sensação bastante familiar, embora estivesse esquecida havia muito tempo. “Vem, padrasto, está na sua vez”, disse Edmund, e no mesmo instante os outros começaram a se agitar, e o silêncio foi quebrado por seus apelos, aos quais até Esmé se juntou. “Não, não”, respondi, tentando soar jocoso. “Daqui não vai sair nada.” “Ah, Arthur…” “O senhor deve conhecer pelo menos uma história de assombração, padrasto, todo mundo conhece alguma…” Ah, sim, de fato. Durante todo o tempo em que fiquei ouvindo aqueles causos macabros, pavorosos, os uivos e gemidos das crianças, a única coisa que me passava pela cabeça, e a única que eu poderia ter dito, era: “Não, não, vocês não têm a menor ideia. Isso tudo é baboseira, fantasia, a coisa não é assim. Não é tão sangrento, cruel, horripilante… não é assim, tão… tão ridículo. A verdade é bem diferente, muito mais terrível”. “Vai, padrasto.” “Não seja um velho estraga-prazeres.” 24
“Arthur?” “Conte uma história, padrasto, o senhor não vai decepcionar a gente, vai?” Eu me levantei, incapaz de suportar aquilo. “Me desculpem por frustrar vocês”, disse, “mas não tenho nenhuma história para contar!” Então, mais que depressa, saí da sala e da casa. Uns quinze minutos depois, voltei a mim e percebi que estava no matagal diante do pomar, com o coração acelerado e a respiração ofegante. Em um frenesi de agitação, eu saíra caminhando, e agora, percebendo que teria de fazer um esforço para me acalmar, sentei-me em uma velha pedra coberta de musgos, inspirei fundo, contei até dez e soltei o ar, e fui repetindo essa respiração até sentir o corpo menos tenso, os batimentos mais regulares e a mente mais organizada. Dali a mais um pouco, consegui perceber meu entorno outra vez, distinguir a claridade do céu e o brilho das estrelas, sentir o ar frio e a grama firme e gelada sob os meus pés. Atrás de mim, na casa, eu sabia que havia deixado minha família consternada e confusa, pois eles me viam como um homem equilibrado, de emoções previsíveis. O motivo de algumas historinhas bobas terem despertado minha aparente reprovação e provocado uma reação tão ríspida, todos deviam estar sem entender, e logo eu teria de retornar à casa, pedir desculpas e me empenhar para que esquecêssemos o ocorrido, renovando um pouco do ar de alegria. O que eu não conseguiria era explicar. Não. Eu me alegraria, retornaria à normalidade, nem que fosse pelo bem de minha amada esposa, mas nada além disso. Eles haviam me criticado por ser estraga-prazeres, tentaram me convencer a contar a tal história de terror que eu, certamente, como todo mundo, tinha para contar. E estavam certos. Pois eu 25
tinha uma história, sim; uma história verdadeira, uma história de maldade e aparições, medo e confusão, horror e tragédia. Mas não era uma história para ser contada como passatempo, ao redor da lareira em uma noite de Natal. Eu sempre soube, em meu coração, que aquela experiência jamais me abandonaria, que já estava entrelaçada às fibras do meu corpo, compunham uma parte inextricável de meu passado, mas esperava nunca mais ter que relembrá-la por completo de forma consciente. Tal e qual uma ferida antiga, de vez em quando ela me trazia uma pontada de dor, mas isso era cada vez mais raro, cada vez menos doloroso, na medida em que os anos se passaram e minha felicidade, sanidade e harmonia foram restabelecidas. Nos últimos tempos, essa sensação mais parecia o leve tremular das águas de um lago, a mera lembrança de uma lembrança. Agora, naquela noite, ela tornou a ocupar meus pensamentos a ponto de excluir todo o resto. Eu sabia que não teria sossego, que ficaria acordado, suando frio, revisitando aquela época, aqueles eventos, aqueles lugares. Assim aconteceu durante anos, todas as noites. Eu me levantei e retomei minha caminhada. O dia seguinte era dia de Natal. Será que eu não podia me livrar disso pelo menos nesse dia abençoado? Não haveria um jeito de afastar as lembranças e os efeitos que elas exerciam sobre mim, pelo menos temporariamente, como um analgésico ou um bálsamo aplacam a dor de uma ferida? Então, parado ali entre as árvores frutíferas, que o luar revestia de um tom prateado, lembrei que a única forma de expulsar antigos fantasmas que insistem em nos assombrar é exorcizando-os. Pois bem, os meus seriam, então, exorcizados. Eu precisava contar minha história, não em voz alta, junto à lareira, não como uma diversão para ouvintes ociosos — ela era séria 26
demais, verdadeira demais para isso. Mas deveria botá-la no papel, com todo o cuidado e nos mínimos detalhes. Eu escreveria minha própria história de terror. Assim, talvez, pudesse enfim me libertar e aproveitar os anos de vida que ainda me restavam. De imediato resolvi que seria, pelo menos enquanto eu vivesse, uma história apenas para os meus olhos. Era eu quem tinha sido assombrado e que havia sofrido — não o único, não, mas certamente, a meu ver, o único ainda vivo, o único que, a julgar por minha agitação essa noite, ainda era profundamente afetado por aqueles eventos, e, portanto, era apenas de mim que o fantasma teria de ser extirpado. Ergui os olhos para a lua e para a Estrela Polar, com seu brilho tão intenso. Noite de Natal. Então entoei uma oração simples e sincera, pedindo paz de espírito, força e firmeza para resistir na feitura do que seria, para mim, a tarefa mais torturante, e pedindo uma bênção sobre minha família, para que todos conseguíssemos descansar naquela noite. Pois, embora eu já tivesse recobrado o controle de minhas emoções, temia as horas de escuridão que estavam por vir. Em resposta a meus apelos, recebi na mesma hora a lembrança de uns versos poéticos, versos que um dia eu soubera de cor, mas que havia muito estavam esquecidos. Mais tarde, recitei-os em voz alta para Esmé, que logo identificou de onde vinham. Dizem que, ao se aproximar o Natal de Nosso Salvador, O galo, pássaro da alvorada, canta a noite toda: E aí, se diz, nenhum espírito ousa sair do túmulo. As noites são saudáveis; nenhum astro vaticina; Nenhuma fada encanta, nem feiticeira enfeitiça; Tão santo e cheio de graça é esse tempo. 27
Enquanto entoava os versos, fui sendo envolvido por uma imensa paz e me senti inteiro outra vez, embora tenso com minha resolução. Depois do feriado, quando a família toda fosse embora e eu estivesse a sós com Esmé, começaria a escrever minha história. Quando retornei à casa, Isobel e Aubrey haviam subido, sorrateiros, para compartilhar o prazer de encher de presentes as meias dos filhos pequenos; Edmund estava lendo; Oliver e Will se encontravam no outro extremo da casa, na antiga sala de jogos que abrigava uma mesa de bilhar surrada; e Esmé arrumava a sala de estar antes de ir para o quarto. Sobre o incidente daquela noite, não foi dita uma palavra, embora ela tivesse o semblante aflito, e eu precisei inventar uma indigestão repentina para justificar meu comportamento abrupto. Fui até a lareira, apaguei o resto do fogo e esvaziei o cachimbo no cantinho, sentindo-me tranquilo e sereno outra vez, não mais agitado pelos terrores solitários que talvez fosse enfrentar, dormindo ou acordado, quando caísse a madrugada. O dia seguinte era dia de Natal, e eu o aguardava ansioso e satisfeito, pois seria um momento de alegria familiar, felicidade, amor e amizade, diversão e gargalhadas. Depois disso, eu teria muito trabalho a fazer.
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