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A Casa de Vidro - Book Preview

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SARAH PEKKANEN

ESPECIALISTAS LITERÁRIAS NA ANATOMIA DO SUSPENSE


house of glass

Copyright © 2024 by Sarah Pekkanen. Todos os direitos reservados. Esta é uma obra de ficção. Todos os personagens, organizações e eventos retratados neste romance são produtos da imaginação da autora ou usados de forma ficcional.

Tradução para a língua portuguesa © Marcella de Melo Silva, 2026

Diretor Editorial Christiano Menezes Diretor de Novos Negócios Chico de Assis Diretor de Planejamento Marcel Souto Maior Diretor Comercial Gilberto Capelo Diretora de Estratégia Editorial Raquel Moritz Gerente de Marca Arthur Moraes Gerente Editorial Bruno Dorigatti Editor Paulo Raviere Editor Assistente Lucio Medeiros

Capa e Projeto Gráfico Retina 78 Coordenador de Diagramação Sergio Chaves Designer Assistente Jefferson Cortinove Preparação Liana Amaral Revisão Fabiano Calixto Natália Agra Finalização Roberto Geronimo Marketing Estratégico Ag. Mandíbula Impressão e Acabamento Braspor

DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP) Jéssica de Oliveira Molinari CRB-8/9852

Pekkanen, Sarah A casa de vidro / Sarah Pekkanen ; tradução de Marcella de Melo Silva. - Rio de Janeiro : DarkSide Books, 2026. 352 p. (Coleção ELAS) ISBN: 978-65-5598-603-7 Título original: House of Glass 1. Ficção norte-americana I. Título II. Silva, Marcella de Melo III. Série 26-0163

CDD 813 Índice para catálogo sistemático: 1. Ficção norte-americana

[2026] Todos os direitos desta edição reservados à DarkSide® Entretenimento ltda. Rua General Roca, 935/504 – Tijuca 20521-071 – Rio de Janeiro – RJ – Brasil www.darksidebooks.com


A CASA

SARAH PEKKANEN

DE VIDRO

T R A D U ÇÃO M ARC EL L A D E ME LO S I LVA


Para Jamie Desjardins, com gratidão


As brincadeiras das crianças não são apenas brincadeiras e deveriam ser consideradas suas atividades mais sérias. — montaigne


SARAH PEKKANEN A CASA DE VIDRO

CAPÍTULO UM

Terças-feiras às 16h30. Essa é a rotina dela. Postada em um pedaço encardido da calçada perto do movimentado cruzamento das ruas 16 e K, observo os pedestres que se aproximam. Minha nova cliente chegará em sete minutos. Nem preciso encontrá-la hoje. Tudo o que tenho de fazer é avaliá-la visualmente para saber se poderei trabalhar com ela. A ideia faz meus ombros se curvarem para a frente, como se, por instinto, eu estivesse adotando uma versão da posição fetal. Até poderia me recusar a atender essa cliente. Poderia alegar que é impossível ser neutra porque o frenesi da mídia em torno da morte suspeita da babá de sua família já influenciou minhas impressões, mas isso significaria mentir para Charles, que é o mais próximo que tenho de um pai. “Você sabe que odeio pedir favores, Stella”, disse Charles na semana passada, sentado à minha frente, na mesa de seu restaurante italiano favorito. Com um rápido movimento de punho, desdobrou o pesado guardanapo branco, um estalo seco pontuava suas palavras. Talvez um lembrete de que, em todos esses anos em que o conheço, ele nunca tenha me pedido um único favor? “Não sei se posso ajudá-la”, disse a Charles. “Você é a única pessoa que pode. Ela precisa que você seja a voz dela, Stella.” Dizer não ao homem que proporcionou minha carreira, que me acompanhou até o altar e que me deu apoio durante a dissolução do meu casamento não é uma opção. Então, aqui estou eu esperando. 11


Minha nova cliente não notará minha presença, uma morena de 38 anos com um vestido preto e botas até o joelho, aparentando estar distraída com o telefone, assim como metade das pessoas nessa região de poderosos de Washington, dc. Faltam dois minutos para ela chegar. Enquanto o sol brando de outubro se esconde atrás de uma nuvem, roubando o calor do ar, uma buzina com um som anasalado dispara atrás de mim. Quase pulo de susto. Viro-me depressa para encarar o motorista e, quando volto a focar a atenção, minha cliente está dobrando a esquina a uns dez metros de distância, com o suéter azul abotoado até o pescoço e os cabelos ruivos cacheados esparramados pelos ombros. Seu rosto tem uma expressão indiferente. Ela é miúda, ainda menor do que eu esperava. Parece mais uma criança de 7 anos do que uma de 9. A mãe — alta, de aparência frágil e carregando uma bolsa que custa mais do que alguns carros — segura a mão da minha cliente enquanto se aproximam do destino: um prédio de pedra cinza com o endereço exposto de modo discreto em uma placa de latão. Lá dentro fica o consultório da principal psiquiatra infantil de Washington, dc. Em alguns instantes, elas desaparecerão pelas portas e serão engolidas pelo prédio. Ela é apenas uma criança, lembro a mim mesma. Uma criança que passou por mais coisas no último mês do que algumas pessoas passam na vida toda. Sou boa no que faço. Quem sabe os sistemas e as estratégias que desenvolvi me ajudem a dar conta da tarefa. Vou poder fazer um favor para Charles, para variar. A poucos passos da entrada do prédio do terapeuta, a pequena Rose Barclay para. Ela solta a mão da mãe e aponta para seu sapato. A sra. Barclay assente com a cabeça, ocupando-se de tirar os grandes óculos de sol e guardá-los em um estojo enquanto Rose se abaixa. Com os olhos franzidos, estico o pescoço para a frente. As pessoas passam por Rose como água ao redor de uma pedra, mas ninguém parece notar o que ela está fazendo. 12


Rose não está arrumando a fivela de seus sapatos Mary Jane pretos e brilhantes, como eu supunha. Ela está esticando a mão esquerda para o lado, em busca de alguma coisa. Me inclino para a frente, atraída para mais perto dela. Tudo acontece tão rápido que quase acaba antes que eu perceba o que ela fez. Se eu estivesse no ângulo errado — se estivesse observando do outro lado da rua ou de dentro do prédio — nunca teria notado. Rose se endireita e desliza a mão esquerda para dentro do bolso do suéter enquanto a mão direita alcança a mão da mãe. Agora a prova já se foi, está oculta. Mas eu vi. Eu sei o que essa garotinha de ar tímido recolheu da calçada e guardou escondido. Um caco de vidro em forma de adaga, que se aguçava até formar uma ponta de aparência maligna.

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SARAH PEKKANEN A CASA DE VIDRO

CAPÍTULO DOIS

Minha primeira regra para encontrar um cliente novo: que seja sempre no território deles. Às vezes, isso significa uma pista de skate, ou cadeiras coladas na manicure, ou o quintal de casa, enquanto jogam uma bola de tênis para seu golden retriever. Em geral, há comida envolvida. É raro que meus clientes queiram me fazer confidências logo no início do processo, então comer pizza ou nachos propicia espaço para o silêncio. Nunca faço muita pressão durante o primeiro encontro. É tudo uma questão de estabelecer confiança. Quando chega o momento de atender meus clientes, toda a confiança que eles tinham nos adultos já foi destruída. Sempre que os juízes das varas de família se deparam com os casos de guarda mais brutais e complicados — aqueles em que nenhuma solução parece possível —, eles nomeiam alguém como eu: uma curadora especial, ou um guardião ad litem. Nós representamos as crianças. Minha área específica de atuação são os adolescentes. Nunca aceito clientes com menos de 12 anos. Mas Charles — ou Juiz Huxley, como é mais conhecido — quer que eu descumpra essa regra. Uma de suas colegas é a juíza que conduz o processo de Barclay, e ela está com dificuldades para encontrar o advogado certo para Rose. Dou uma última olhada no prédio cinza em que Rose desapareceu momentos atrás. Ela está em um espaço seguro, sendo atendida por um profissional muito capacitado. Sua mãe está presente. 14


Então, de quem a garota acha que precisa se proteger com um caco de vidro que pode servir de faca? Meu Uber encosta no meio-fio. “Stella?”, pergunta o motorista enquanto me acomodo no banco de trás, e confirmo com a cabeça. Ele aumenta o volume do rádio e a voz modulada de um repórter da npr flui pelos alto-falantes. Fico aliviada que o motorista não queira puxar conversa. Preciso me recompor antes de chegar ao meu próximo destino, outro prédio de escritórios perto da Catedral Nacional. Esse compromisso é pessoal. Fico olhando pela janela à medida que o motorista segue na direção norte por ruas congestionadas, murmurando por entre os dentes quando fica preso atrás de um Tesla estacionado de modo irregular. Sinto minha mente sobrecarregada, com uma dúzia de pensamentos discordantes zunindo por ela. Pego meu celular para enviar uma mensagem de texto para Marco, meu futuro ex-marido, e logo descarto a ideia. Ele sabe que estou indo e não vai se atrasar. Como todos os sócios de seu prestigioso escritório de advocacia, ele divide seus dias em intervalos de seis minutos para fins de cobrança, o que faz com que ele seja muito consciente do tempo. Saio do Uber às 17 horas em ponto, dirigindo-me a um prédio insosso de tijolos aparentes que já testemunhou uma boa cota de desilusões. Dispenso o elevador e subo as escadas até o quarto andar, e entro na pequena recepção da suíte 402. Marco está esperando, recostado em uma cadeira, sorrindo para algo em seu telefone. Ainda fico sem fôlego só de vê-lo. Suas raízes italianas se revelam nos cabelos escuros e lustrosos, pele bronzeada e olhos que adquirem a cor âmbar quando tocados pelo sol. Nosso tom de pele é tão parecido que já nos perguntaram mais de uma vez se éramos parentes. “Só um daqueles casais de velhinhos que começam a ficar parecidos”, brincava Marco. Ele se levanta e põe a mão em meu ombro ao se inclinar para beijar minha bochecha. Começo a passar os braços em volta dele, mas ele se afasta antes que eu consiga abraçá-lo de verdade. Nós dois falamos ao mesmo tempo; são nossas palavras que se entrelaçam, não nossos corpos. 15


Tento fazer uma piada: “Que surpresa encontrar você aqui”. Marco usa um clichê de dc: “Como estava o trânsito?”. Ele aponta para a mesa de centro, onde duas pilhas de documentos encimados por canetas azuis idênticas aguardam. “Lakshmi já trouxe a papelada.” Pisco com força. Tudo está acontecendo bem rápido. “Então, tudo o que temos que fazer é assinar?” Ele assente com a cabeça e me entrega um dos finos maços de papel. Ao contrário dos divórcios com que me deparo no trabalho, o que Marco e eu estamos passando é o mais amigável possível. Nosso maior desentendimento ocorreu quando Marco insistiu em me dar a casinha geminada que havíamos comprado juntos perto da divisa do Distrito. Nós dois sabemos o motivo: ele ganha vinte vezes mais do que eu. Eu aceitei a casa, mas insisti para que ele levasse nossa máquina chique de café expresso. Foi um sacrifício maior do que parece; adoro uma bela xícara de café. Hesito, depois rabisco meu nome na parte inferior da página final do nosso acordo de divórcio. Quando levanto os olhos, Marco está tampando sua caneta. Lakshmi entra na sala de espera. “Oi, Stella. Já está tudo pronto?” Faço que sim, meus olhos se desviam de seus olhos simpáticos. Essa é a etapa final da dissolução de nosso casamento. Depois que Lakshmi arquivar os papéis, receberei uma carta pelo correio notificando que nosso divórcio consensual foi deferido. Meu olhar vagueia pela caixa de lenços de papel sobre a mesa de centro. Ao lado dela, há uma escultura de uma águia em pleno voo, com as asas estendidas. Reconheço o simbolismo: lenços de papel para o luto de um fim, o pássaro como uma imagem de esperança para o futuro. Marco e eu nos casamos em um dia cristalino de inverno há quase dez anos, bem quando a primeira neve da estação começou a cair. Mesmo antes de fazer os votos que disse com todo o meu coração, eu sabia que acabaríamos aqui. Era apenas uma questão de quando.

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SARAH PEKKANEN A CASA DE VIDRO

CAPÍTULO TRÊS

Marco e eu ocupamos dois bancos no bar de um restaurante mexicano informal em Tenleytown. Sempre cavalheiro, ele puxa meu banco antes de se sentar. Desde que nos conhecemos na faculdade de direito da Universidade George Washington, estamos compilando uma lista de nossos restaurantes favoritos na cidade. Esse aqui não entrou na lista, mas as margaritas são boas e o lugar era conveniente. Além disso, Marco me disse que não pode ficar para o jantar. Pedimos duas margaritas picantes com gelo, sem sal. Um barman nos traz uma cesta de batatas fritas crocantes e um prato de molho quente junto com nossas bebidas. Observo o auxiliar do barman cortar limões com uma faca pequena, a lâmina atravessando com suavidade a casca verde da fruta. A faca é apenas um pouco maior do que o pedaço de vidro que Rose Barclay colocou no bolso. “É sempre o marido”, diz Marco, continuando a conversa que começamos enquanto caminhávamos até aqui. “Ian Barclay engravidou a babá. Ela estava grávida de dois meses, certo?” “Mais ou menos seis semanas.” “Então ele tentou eliminar o problema.” “A esposa também tinha motivos de sobra”, contraponho. “Ciúme. Raiva. E mais, Beth Barclay é quem tem todo o dinheiro. E se a babá viesse atrás dela para chantagear ou pedir pensão alimentícia?” 17


“Então, por que Beth não matou o marido e a babá?”, pergunta Marco. “Os dois a traíram.” Dou de ombros e passo uma batata frita no molho. “Crimes passionais desafiam a lógica. Se ela fez mesmo isso, é bem provável que não tenha planejado. Há maneiras mais sutis de matar alguém do que empurrá-la por uma janela do terceiro andar.” Faço uma pausa, lamentando a leviandade de minhas palavras ao me lembrar da expressão vazia de Rose. Ela estava no quintal ajudando a avó a colher tomates da horta quando tudo aconteceu. Rose pode ter visto sua babá despencando no ar. Ela teria ouvido a pancada fatal do crânio contra o pátio de pedra. “Os pais estavam na casa, certo? Então, de quem é o álibi mais forte?”, Marco quer saber. No mês seguinte à morte da babá, a cobertura da mídia diminuiu, mas não faltam trechos de notícias antigas sobre o que a polícia chamou de “morte suspeita”. Passei os últimos dias mergulhada em pesquisas, por isso conto a Marco o que sei: Beth Barclay alegou estar em seu escritório no segundo andar, escrevendo um e-mail para os outros membros que, junto com ela, ocupam a diretoria do Kennedy Center. Pelos alto-falantes do computador, ela ouvia música clássica, como costumava fazer quando trabalhava, e insistiu que esse som mascarou o do vidro da janela quebrando no andar de cima. A polícia verificou que Beth enviou um e-mail por volta do instante em que a babá caiu. O marido de Beth, Ian, estava ao telefone com um funcionário de sua empresa de paisagismo; seu escritório fica no final do corredor, perto do de Beth. Ele usa AirPods com cancelamento de ruído durante suas ligações e afirma que não ouviu nada até encerrar a ligação e ouvir sua mãe gritando. Esse telefonema também foi verificado. Tanto Ian quanto Beth acionaram seus advogados assim que ficou claro que a polícia considerava os dois suspeitos e se recusaram a fazer o teste no detector de mentiras, segundo vários veículos de imprensa. Recentemente, a polícia encerrou a investigação em andamento, de modo que o caso agora é considerado arquivado. E tanto Ian quanto Beth estão brigando pela custódia física e legal exclusiva de Rose. 18


“Digamos que você tenha empurrado a babá. Com que rapidez você conseguiria ir da janela do terceiro andar até um dos escritórios do segundo andar?”, Marco especula. E então sorri. “A quem estou perguntando? Sei que você vai descobrir.” Também sorrio, e a tristeza que senti no escritório de nossa mediadora começa a desaparecer. Sempre discuti meus casos com Marco. Seu temperamento equilibrado e sua natureza contemplativa são duas de suas muitas qualidades admiráveis. Não compartilhamos mais uma casa ou uma vida, mas ainda temos isso: uma amizade profunda. Uma conexão duradoura. Um tipo diferente de amor. “Outro?”, pergunta o barman. Olho para baixo e percebo que já esvaziei minha margarita. “Claro.” O copo de Marco está quase cheio, o que não é do feitio dele. Ele adora um bom drinque. Franzo a testa e examino mais detalhes. Faço o que aprendi a fazer em meus casos, quando quase todo mundo que encontro mente para mim para promover seus próprios interesses — ou mentiras. Procuro pelo que não é dito. Seu sinal revelador. Ele tamborila as pontas dos dedos no balcão de madeira; não afrouxou a gravata, como costuma fazer no final de um dia de trabalho. Em vez de se reclinar no encosto curvo e confortável da banqueta, ele está sentado ereto. A linguagem corporal de Marco revela o que suas palavras escondem: algo está afligindo seus pensamentos. Procuro a fonte de sua inquietação. “Está tudo bem no trabalho?” Ele dá de ombros. “Tudo bem. Você sabe, o de sempre.” O senso de autoestima de Marco não vem dos acordos de oito dígitos que conduz. Ele se orgulha mais de oferecer assistência jurídica gratuita para mulheres vítimas de violência e de doar uma fatia de seu salário para instituições de caridade que atendem crianças carentes. Sua verdadeira prioridade são as pessoas, sobretudo a família. Essa é uma das coisas que mais amo nele. Não foi só o Marco que ganhei quando nos casamos. Desde o início, sua numerosa família ítalo-americana me acolheu nas reuniões: todos falando ao mesmo tempo, a mesa repleta de comida, alguém sempre enchendo sua taça de vinho, discussões amigáveis e risadas que se propagam como ondas. 19


Se Marco não está preocupado com alguma coisa no trabalho, talvez tenha a ver com a família. Sua irmã mais velha está grávida do quarto filho — uma gravidez de alto risco devido ao diabetes. Mas, da última vez que ouvi, tudo corria bem. Sua mãe sentiu dores no peito há poucos dias. Os médicos fizeram exames e disseram que eram apenas gases. Só que médicos não são infalíveis. “O aniversário de 70 anos da mamãe está quase chegando”, arrisco. “O plano ainda é o Inn em Little Washington?” Os dedos de Marco aceleram o ritmo. Bingo. “Ah, sim… Na verdade, eu esperava que pudéssemos conversar sobre isso.” Meu coração acelera, ecoando o ritmo staccato das pontas dos dedos dele. A mãe de Marco há muito tempo fala em comemorar o aniversário na cobiçada mesa da cozinha do único restaurante com três estrelas Michelin na região de dc. A reserva foi efetuada há quase um ano. Embora o pai dele tenha falecido pouco depois do nosso casamento, seus quatro irmãos, bem como seus cônjuges, estarão todos presentes. Eu também fui convidada. Eles ainda me consideram da família. Me preparo para as próximas palavras de Marco. “Conheci uma pessoa”, diz ele. Lembro-me dele sorrindo para algo em seu telefone quando entrei no saguão da mediadora e da maneira como recusou meu convite para jantar hoje à noite. Ele não estaria me dizendo isso se o novo relacionamento não fosse sério — sério o suficiente para que a mulher que ele quer levar para o tão esperado jantar em família não seja eu, uma ex-mulher que ainda chama a ex-sogra de “mãe”. Essa conta não é tão difícil de fazer. Não importa quantas cadeiras a mesa comporte, não haverá espaço suficiente para nós duas. Marco já encontrou a esperança que a estátua da águia no escritório da mediadora prometia. Não posso culpá-lo. Estamos separados há mais de um ano. Faço o que precisa ser feito. Sorrio e mantenho contato visual. Não deixar escapar um único tique ou pista. Meu trabalho me ensinou a mentir de forma convincente. 20


“Estou feliz por você.” Levanto meu copo em um brinde. “Ela é uma mulher de sorte. Leve-a pro jantar. Entregarei meu presente pra sua mãe em um outro momento.” Marco sorri, sua postura enfim relaxa. “Obrigado por entender.” No dia do nosso casamento, eu estava tão apaixonada que achei que poderíamos superar qualquer coisa. Mas havia uma coisa que nenhum dos dois estava disposto a ceder. Uma barreira que só se aprofundava com o tempo. Marco queria ter filhos. Eu não. Mais do que isso, eu não podia. Não física, mas emocionalmente. Um terapeuta me disse uma vez que pessoas que tiveram uma infância como a minha tendem a seguir dois caminhos. Ou tentam dar a seus filhos o tipo de criação que gostariam de ter tido, ou evitam ter filhos e ponto. Marco esperava que eu mudasse de opinião sobre a maternidade. Enquanto eu esperava que nosso amor fosse suficiente. Desvio meu olhar do dele, observando a faca cortar outro limão.

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SARAH PEKKANEN A CASA DE VIDRO

CAPÍTULO QUATRO

Os altos portões de ferro se abrem e piso de leve no pedal do acelerador, manobrando pela sinuosa estrada particular em direção à propriedade Barclay em Potomac, Maryland. Essa casa colonial histórica e seus oito hectares de terra foram comprados por 12 milhões de dólares, de acordo com registros públicos. E isso foi antes de os Barclay reformarem a mansão e acrescentarem um celeiro de madeira de demolição e um galpão de dois andares. A propriedade está nos nomes de Ian e Beth Barclay, mas foi a fortuna que Beth herdou que permitiu que a comprassem. Tomo outro gole de café aromatizado com avelã de minha caneca térmica. Estou me sentindo um pouco indisposta — não dormi bem ontem à noite depois das notícias de Marco — e preciso estar alerta. A partir de hoje, sou oficialmente a advogada de Rose Barclay. Chegou a hora de conhecer minha mais nova cliente. Ao me aproximar da casa, estico o pescoço tentando vislumbrar a área onde a babá foi empurrada — ou caiu. No entanto, minha visão é bloqueada por uma grande escavadeira estacionada ao lado da casa, com sua garra de metal gigante esperando para prender e esmagar. Desvio meu olhar para a casa. Lembra algo de um lugar esquecido pelo tempo, com sua construção de pedra serpentina verde-acinzentada e ampla varanda frontal. A casa é cercada por frondosos carvalhos e cedros, mas nenhum galho caído ou mancha marrom macula a 22


vastidão esmeralda do gramado. Arbustos exuberantes de hortênsias azuis, com tufos de flores do tamanho de bolas de boliche, forram os canteiros ao redor da varanda dianteira. Estaciono meu Jeep em frente à garagem e verifico se trago tudo de que preciso. Meu telefone está com 100% de carga e tem uma boa câmera, pois nunca sei quando precisarei documentar algo. Na minha bolsa a tiracolo, acomodei meu laptop e um bloco de notas amarelo novinho. Minha preciosa caneta Montblanc — um presente de Marco — está em um bolso interno. Saio do carro e inspiro o ar puro. É difícil acreditar que este lugar fica a menos de trinta minutos da agitação e da fuligem de Washington. Nada da correria do trânsito e do alarido das buzinas: tudo o que ouço aqui é o canto dos pássaros. Subo os degraus da varanda e toco a campainha. Beth Barclay abre a porta um instante depois, como se estivesse pairando por perto. A polícia nunca a considerou oficialmente como suspeita do assassinato; mas é impossível não avaliar seu porte esbelto de bailarina, com 1,89 de altura. Forte o suficiente para empurrar a jovem babá, de corpo miúdo, pelo frágil vidro de uma janela centenária? Sem dúvida. “Srta. Hudson?”, ela pergunta, embora eu tenha dado meu nome no interfone do portão. “Me chame de Stella.” Estendo a mão. Ela a segura. Seu aperto é firme. “Seja bem-vinda. Eu sou Beth.” Ela tem a mesma pele clara, traços delicados e cabelos ruivos da filha. Os anos, no entanto, esmaeceram um pouco da vitalidade das cores de Beth. Passo pela porta de entrada e sinto meus olhos se arregalarem de modo involuntário. É como se eu tivesse aterrissado em outra época. Desde os pisos de madeira escura com tábuas estreitas até os radiadores a vapor cinza-aço e as portas de correr embutidas com fechaduras originais, é como se esta casa estivesse preservada em perfeito estado há um século, esperando que os Barclay a ocupassem. 23


A maioria das grandes reformas de casas antigas envolve derrubar paredes para criar uma planta baixa aberta e usar truques arquitetônicos para trazer luz e circulação. Os Barclay não fizeram nada disso. Em vez de buscarem o futuro, eles voltaram para o passado. O piso tem uma leve inclinação e os tetos são baixos. O corredor é revestido de papel com uma padronagem florida marfim, e o aparador mais parece uma antiguidade, com pernas delicadas e detalhes de latão. Acima dele, uma aquarela numa moldura dourada com ornamentos que poderia ter saído da parede de algum museu. “Gostaria de tomar um café ou talvez uma água com gás?”, Beth oferece. Apesar de tudo pelo que passou — uma dupla traição, uma morte em sua casa, um escândalo público e um divórcio iminente — seus modos são impecáveis, sua voz é suave e refinada. Está vestindo calças bem ajustadas em um tom de camelo e um suéter creme com um lenço que parece Hermès vintage amarrado no pescoço; porém consigo perceber a profunda tensão em seus olhos e nas linhas tênues ao redor de sua boca. Beth parece uma mulher à beira de uma erupção ou de um colapso. Talvez ambos. Balanço a cabeça. “Não, obrigada.” “Então.” As mãos unidas de Beth se retorcem. “Não sei bem como isso funciona.” Eu sorrio de uma forma que espero tranquilizá-la. “Tudo que preciso fazer hoje é conhecer a Rose. Você pode ficar conosco o tempo todo.” Beth não parece feliz; mas, pensando bem, a maioria das pessoas também não fica feliz diante de um advogado que pode decidir que o melhor para o filho é ter o mínimo de contato com elas. “Vou estar muito presente nas próximas semanas, por isso é importante que Rose se sinta confortável comigo”, continuo. Meu trabalho exige que eu avalie todos os aspectos do mundo de Rose e busque diferentes visões das pessoas que ela conhece antes de apresentar ao tribunal minha recomendação em relação à custódia. “Entendo.” Beth indica a escada, de balaustrada de madeira espessa e entalhes intrincados. “Ela está no quarto dela.” “Só uma pergunta primeiro. O que Rose sabe sobre o divórcio?” 24


“Ela sabe que eu e o pai dela estamos nos divorciando e que nós dois disputamos a guarda.” É inevitável pensar que é uma carga emocional enorme para se colocar nos ombros de uma criança pequena. Ao seguir Beth até a escada, paro e espio uma sala de estar formal à minha esquerda. Os móveis estão agrupados em torno de uma lareira simples de tijolos — parece ser outra estrutura original da casa — e um grande piano preto está à espera, com partituras repousando no suporte acima das teclas. Me lembro que Rose toca. Ela deve ser muito boa para sua idade. Há um jogo de chá de prata na mesa de centro, e o tapete é tecido em tons de azul escuro e bordô. O cômodo parece estéril, como se tivesse sido arrumado, mas nunca realmente habitado. Tem mais alguma coisa estranha nessa casa, mas não consigo identificar direito. Há um peso no ar, como se, por alguma razão, a gravidade fosse mais forte dentro dos limites dessas paredes. Talvez a raiva e a comoção e a tristeza alastradas por aqui estejam me afetando. Subimos as escadas, com a madeira centenária rangendo a cada passo dado. Acompanhando cada degrau, em simetria, há uma série de fotos de Rose, desde a infância até os dias de hoje. Fico impressionada com o fato de Rose estar sorrindo em apenas duas das fotos. Há algo de estranhamente adulto nos olhos da menina, mesmo quando ainda era um bebê. Quero fazer uma pausa e estudar as fotografias — há outro detalhe esquisito provocando meu cérebro —, mas Beth está se distanciando de mim bem rápido. É difícil acompanhá-la; parece até que minhas pernas são de chumbo. Quando nos aproximamos do patamar do segundo andar, meu olhar é atraído para a parte traseira da casa. Uma janela dá vista para o terreno. A babá teria caído por aquela vidraça, com o rosto cheio de terror, os braços estendidos. Tento reprimir um arrepio. Se eu fosse os Barclay, me mudaria dali o mais rápido possível. Parece estranho que, dado o horror do divórcio que os aguarda, eles ainda estejam vivendo sob o mesmo teto. Charles, entretanto, explicou o motivo: os Barclay concordaram em vender a casa, e Ian Barclay está honrando o acordo pré-nupcial que assinou, sem agir de forma ardilosa para pleitear pensão alimentícia ou 25


uma parte da herança de Beth, de modo que o impasse não tem nada a ver com dinheiro. Cada um sairá do casamento com os mesmos bens que possuía antes da união. Porém nem Beth nem Ian querem abrir mão da chance de ganhar a custódia integral de Rose — e eles veem sair da casa como uma jogada de xadrez vencida. Sinto um aperto no peito. O destino de uma criança indefesa está em minhas mãos, e não tenho ideia se estou preparada para consertar o que parece ser para ela um futuro impossível de ser vencido. Mais de meia dúzia de portas com maçanetas redondas de latão se alinham no segundo andar, e todas estão fechadas. Fico imaginando o que há por trás delas. Não há outras janelas visíveis no corredor e o espaço é mal iluminado. Beth passa por duas portas, depois se detém na terceira e bate com os nós dos dedos nela. Com os pulmões contraídos, inspiro bem fundo. Esta é a minha primeira chance de olhar além da superfície, de ver o que todas as matérias de tabloides e programas de tv não puderam ver. Beth abre a porta. O que se revela é um quarto arrumado com paredes pintadas de rosa suave. Uma cadeira de balanço de madeira ocupa um canto e, sobre a cama de dossel, há uma grande boneca de pano que parece ter sido feita à imagem da Rose — até os olhos azuis arregalados e as sardas. “Rose? Tem uma pessoa que gostaria que você conhecesse.” Não gostei muito da escolha de palavras de Beth. Há uma implicação de propriedade nelas, como se eu estivesse aqui como convidada de Beth. Para que eu possa fazer meu trabalho, Rose não pode pensar que estou tomando partido de um dos pais. Estou aqui para servi-la, não para servir os adultos em sua vida. Rose se vira de sua mesa de madeira branca, onde está lendo um livro. Vejo o título na sobrecapa: Anne de Green Gables. “Oi, Rose.” Mantenho um tom ameno. “Meu nome é Stella Hudson.” Ela está olhando para baixo. Sem dar o menor sinal de que tenha me ouvido. “Sou advogada, Rose. E adivinhe só? Estou aqui pra trabalhar pra você.” Ela não reage. 26


Às vezes, meus clientes ficam felizes por eu ter chegado. Eles estão desesperados para que alguém finalmente os ouça. Outros são resistentes. Só neste ano, uma garota de 15 anos bateu a porta na minha cara, por pouco não prendendo minha mão, e um garoto de 17 anos me xingou, com uma veia saliente na testa e a voz subindo com um tom grave — pouco antes de cair de joelhos e começar a chorar. Não tenho ideia de como Rose se sente com minha presença. “Sei que tem muita coisa acontecendo com você agora, e talvez seja tudo muito confuso”, prossigo. “Vou passar algum tempo com você e seus pais nas próximas semanas para ajudá-la a descobrir o que a fará mais feliz.” Hoje Rose está usando um vestido de veludo verde; os cachos ruivos soltos estão arrumados para trás com uma faixa combinando. De perto, vejo um punhado de sardas em seu nariz e bochechas. Mais uma vez, fico admirada com sua aparência jovem e inocente — e com a formalidade com que está vestida. Fico imaginando onde ela guardou o caco de vidro. “Gostei do seu quarto.” Olho em volta e vejo uma fita azul de uma exposição de cavalos, uma estante alta de madeira branca e uma pintura de uma cena de jardim em outra moldura dourada grande e ornamentada. “Esse quadro é tão bonito e tranquilo. Deve ser agradável ficar olhando pra ele.” Mantenho meu tom gentil e afável enquanto admiro as flores cor-de-rosa e o cachorrinho que espreita de trás de uma árvore. “Não vi o cachorro no início… É quase como se ele estivesse brincando de esconde-esconde.” Não faço uma única pergunta porque sei que Rose não vai responder. Ela não consegue falar.

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SARAH PEKKANEN A CASA DE VIDRO

CAPÍTULO CINCO

É como se Rose tivesse se dividido em duas pessoas quando viu sua babá morrer: a menina de antes — uma aluna talentosa com o vocabulário de uma criança muito mais velha. E a criança sem expressão que está sentada diante de mim agora, sofrendo de mutismo traumático. Rose consultou os melhores médicos da região. Ninguém sabe dizer quando ela voltará a falar. Pode ser em um dia ou em seis meses. Beth se senta na beira da cama da filha, torcendo as mãos mais uma vez. Classifico o gesto como um tique nervoso. Beth talvez pense que eu não entendo o que sua filha está passando, mas sou uma das poucas pessoas que entendem. Há diferentes tipos de mutismo que afetam as crianças. Algumas crianças não conseguem falar em determinados ambientes, como na escola. Isso é chamado de mutismo seletivo. Esse tipo de situação também pode surgir após um trauma cerebral ou cirurgia. Rose sofre de uma condição que é muito mais rara e não é bem compreendida: mutismo traumático. O início é abrupto e avassalador e, como o nome sugere, acontece após um trauma grave. Um caso documentado envolveu uma garota que foi mutilada por um cachorro e ficou sem falar por seis semanas. Outro caso — não documentado — ocorreu quando uma garota descobriu o corpo de sua mãe. Essa garota era eu. 28


Eu era um pouco mais nova do que Rose quando tive a sensação de que minha garganta se fechava em torno de minhas palavras, bloqueando-as. Não consegui falar por meses depois de ver a forma sem vida de minha mãe no chão da sala de estar. Charles sabe disso; é por isso que me convidou para trabalhar com Rose. Ele acredita que estou em uma posição única para entendê-la. No meu tempo de criança, o mutismo traumático não era nem um pouco compreendido. Algumas pessoas acreditavam que meu objetivo era desafiá-los, e que eu tinha plenas condições de falar. Talvez se me castigassem, eu falaria. Trato de logo afastar essa lembrança. Passo os próximos minutos falando sobre um cavalo que conheci chamado Pacino, que adorava hortelã, então admiro a fileira de pequenos tsurus de origami perfeitos que decoram o alto de sua estante. “Foi a Rose que os fez”, conta Beth. Quando agradeço a Rose por me deixar ver seu quarto, ela não dá nenhuma indicação de que tenha me ouvido. “Voltarei amanhã pra conversar com seu pai, então provavelmente te verei de novo”, digo a Rose. Beth percebe minha deixa e se levanta. Observo quando ela se aproxima e dá um beijo na testa de Rose, dizendo à filha que voltará em um instante. Rose volta a pegar seu livro, mas a sobrecapa se desprende da capa do livro e vejo o título impresso na lombada. A primeira palavra não é Anne. É O. É um truque antigo usar sobrecapas diferentes para esconder livros e camuflar o que se está lendo. Eu tinha uma amiga no ensino fundamental que fazia isso com os livros da Judy Blume para enganar sua mãe rigorosa. Se o livro em que Rose está tão absorta não é Anne de Green Gables, então qual é? Não posso me demorar mais. Beth está na porta, olhando para mim com expectativa. Eu a sigo enquanto ela refaz nosso caminho escada abaixo. Quando chegamos à entrada, ela começa a se dirigir para a porta da frente. Pergunto depressa: “Será que posso aceitar aquele copo de água agora?” 29


Não estou com sede. Quero dar uma olhada em mais detalhes da casa dos Barclay. Além disso, terei a chance de conversar mais com Beth. A cozinha fica na parte de trás da casa. Caminhamos pelo corredor estreito, passando por uma pequena biblioteca com uma parede de pedra exposta e prateleiras do chão ao teto, além de vários outros cômodos com portas fechadas. Vejo movimentação acontecendo no quintal pelas vidraças transparentes das portas deslizantes da cozinha que dão para o pátio. Estacionado em um dos lados do quintal, há um caminhão de serviço com o nome da empresa em letras grandes — trinity windows — e, abaixo dele, uma linha de texto que diz Acrílico: A Escolha Segura e Cristalina para as Casas Modernas. Pelo canto do olho, vejo Beth abrir um guarda-louça de madeira escura e tirar um copo azul, enchendo-o com água filtrada de uma torneirinha na lateral da pia funda. Reparo as bancadas de cimento, os puxadores de cobre dos armários, o piso de pedra. As reformas de luxo modernas tendem a incorporar produtos como painéis solares ou azulejos esmaltados nas paredes, mas todos os materiais que vi nesta casa já existiam há um século. Volto a atenção para dois homens que descarregam uma placa do que parece ser vidro — mas deve ser acrílico — da traseira do caminhão, carregando-o pela rampa em direção à casa. “Stella?” Olho para Beth e vejo que ela está segurando o copo de água. Quando pego o copo, ele me parece estranho na mão. Muito mais leve do que eu esperava. Examino-o mais de perto e percebo que não é vidro, embora seja idêntico. É o tipo de acrílico que é à prova de estilhaços. Sei disso porque a irmã de Marco, que está grávida do quarto filho, passou a usá-lo quando seus filhos derrubaram copos demais da mesa da cozinha. É um detalhe moderno e destoante em uma casa que parece congelada no tempo. Meus olhos se voltam para o caminhão de novo. Ele está cheio de formas imensas e retangulares. Dezenas de folhas de acrílico. O suficiente para cada janela dessa casa enorme. 30


“Bom, a manhã está agitada. E Rose precisa voltar aos seus deveres da escola.” “Deveres?”, repito. É um sábado, e não consigo imaginar que uma criança na terceira série tenha tanto dever de casa. “Minha sogra está dando aulas em casa para Rose. Achamos que seria melhor tirá-la da escola por um tempo, já que tudo…” A voz de Beth vai sumindo. “Obrigada por ter vindo.” Ela está me dispensando. Sorri, mas a expressão não chega a seus olhos. Seu comportamento é incomum. Em regra, os pais estão desesperados para me agradar, para mostrar o quanto são competentes e gentis. Ou para insinuar alguma coisa maldosa sobre o outro pai. Beth busca o copo em minha mão, embora eu tenha tomado apenas alguns goles. Eu o entrego. Ela então começa a se dirigir à porta da frente. Eu a sigo com relutância. Tem alguma coisa me perturbando lá no fundo da minha mente. Uma série de pistas que guardei e que formam algo que está além do meu alcance. Logo antes de chegarmos à porta da frente, dou uma olhadela na imponente escadaria sinuosa. Quando subi, estava distraída com a expressão melancólica de Rose nas fotos, o que me impediu de perceber o outro detalhe que eu havia guardado em meu subconsciente — até agora. Minha pele se arrepia quando me dou conta. As fotos estão descobertas nas molduras. Sem a proteção de uma camada de vidro. Esfrego as pontas dos dedos, ainda sentindo a surpreendente leveza do copo de acrílico. Nesse momento, enxergo além de minhas observações iniciais, percebendo os detalhes que não vi: não há lustres de cristal pendurados no teto. Não há espelhos no quarto de Rose ou no corredor. Não há guarda-louças com vidros transparentes. E os funcionários estão substituindo todas as janelas antigas por folhas de plástico translúcido. Nada nesta casa é feito de vidro.

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UMA CASA ONDE NADA É TRANSPARENTE Rose inspira cuidados. Objetos de vidro e pontiagudos ficam longe de seu alcance, a fim de evitar que a garota se envolva em algum acidente, como no passado. Para complicar, atualmente ela está incapacitada de falar, traumatizada após testemunhar a morte trágica e suspeita de sua babá. Enquanto a advogada Stella Hudson tenta desvendar o que a pequena Rose viu, ela percebe que a menina pode não ser apenas uma vítima, mas alguém com um controle perturbador sobre o caos ao seu redor. Nesta Casa de Vidro, em que nada é transparente, o que será que ainda não conseguimos enxergar?


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A Casa de Vidro - Book Preview by DarkSide® Books - Issuu