ALGARVE INFORMATIVO 3 de dezembro, 2016
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ANDRÉ GUERREIRO quer recuperar um Algarve que está esquecido Sérgio Godinho deu concerto único em Loulé | Vasco Célio INFORMATIVO #86 251 anos de Associação de Saúde Mental do Algarve |ALGARVE Artur Lara Ramos
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10 - André Guerreiro 18 - 25 anos de ASMAL 30 - Artur Lara Ramos 46 - Sérgio Godinho em Loulé 54 - Vasco Célio 66 - Leonel Pereira
OPINIÃO 8 - Daniel Pina 40 - Paulo Cunha 42 - José Graça 44 - Augusto Lima
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As miúdas tomaram conta da casa… Daniel Pina
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á por casa, as miúdas tomaram conta das operações. Primeiro, não descansaram enquanto os pais não escreveram as cartas para o Pai Natal com os seus pedidos, o que pode ser uma verdadeira epopeia dramática quando não conseguimos perceber que raio de prendas é que elas estão a tentar descrever-nos: “É a boneca que faz isto e depois mexe aquilo e nós fazemos aqueloutro” ou “é aquela casa que tem isto e nós depois montamos aquilo e as bonecas fazem aquela cena” e por aí adiante. Ao fim de várias tentativas, lá finalizamos a lista, para depois dividir o mal pelas aldeias, ou seja, decidir que pai, tio, avô ou padrinho compra cada item da cartinha para o Pai Natal. Mas o sossego não termina, porque depois é a azáfama de montar a árvore de Natal. E o presépio, claro. E lá vamos nós desenterrar do sótão ou da garagem as caixas com a árvore, as bolas, luzes e fitas, mas também a serradura e o palheiro, o Menino Jesus, Maria e José, a vaca, o burro e os três Reis Magos. Presépios que, de facto, são uma tradição de luxo no Algarve, com Vila Real de Santo António a dar nas vistas com um cenário com mais de quatro mil e 500 figuras. Mas também Lagos, Silves, Albufeira, Portimão, Alte e outros locais da região têm os seus presépios merecedores de uma visita, assim haja tempo, e o tempo também ajude, para levar as miúdas. Já para não falar dos presépios vivos, como acontece este ano na Guia ou no concelho de Castro Marim, por exemplo. Pelo meio desta azáfama natalícia entram em cena os testes da filhota mais velha, que entrou para o primeiro ano de escolaridade. E lá recebemos nós em casa a ementa da festa, como que a dizer para perdermos umas horinhas a estudar com os miúdos. Posto isto, como não conseguimos arranjar bilhetes para a Vila dos Heróis, em Quarteira, vamos divertir-nos a valer, este domingo, com exercícios de oralidade; identificação de vogais e ditongos; divisão silábica; leitura e ordenação de palavras e frases; escrita de palavras e frases com as letras p, t, l e d; escrita de números por ordem crescente e decrescente; aplicação dos sinais <, =, >; somas; decomposição
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de números; figuras geométricas, lados e vértices; e aplicação dos sinais pertence e não pertence. Já estão a imaginar o divertimento que vai ser. Upa! Upa! O mais complicado vai ser conseguir estudar com a filhota mais nova, de três anos, sempre a fazer perguntas e a querer participar na sessão de estudos. É a tal idade dos porquês, acho eu, que sou massacrado cada vez que vou sair de casa em serviço. “Onde é que vais?”, “Vais a qual sítio?”, “A que cidade vais?”, tudo de rajada que nem dá tempo para uma pessoa responder. Finalmente, enquanto ela está a recuperar o fôlego, digo que vou falar com uma pessoa, ou tirar fotografias a um teatro, ou ver uns senhores a cantar. E lá começa, claro, nova dose de perguntas. “O que é que o senhor fez?”, “Quem é que vai cantar?”, “Onde é que é o teatro?”. Com esta rotina a repetir-se todos os dias, não há, de facto, muito tempo livre para olharmos para as notícias que enchem as primeiras páginas dos jornais. Mas deu para ver que Fidel Castro morreu e que agora querem fazer do senhor um herói, um grande estadista, um defensor dos direitos do seu povo. E que o Duarte Lima, pelos vistos, vai ser julgado em Portugal pelos crimes que alegadamente cometeu no Brasil. Primeiro, protestou que não queria ser julgado no Brasil, agora, fizeram-lhe a vontade, reclama que não quer ser julgado em Portugal. Enfim. Também parece que Paulo Macedo vai ser o novo administrador da Caixa Geral de Depósitos, o tal senhor que meteu a Direção Geral de Impostos na linha e que cortou na dívida da Saúde. E dizem que o Ronaldo e o Mourinho foram apanhados no enredo do Football Leaks. E acho que o Benfica perdeu com o Marítimo, precisamente no dia em que era notícia nos jornais desportivos por ser uma das poucas equipas da Europa que liderava o campeonato sem qualquer derrota. E para mais não tenho tempo, que as miúdas já se levantaram, ainda o galo está a dormir, e andam a correr pela casa toda .
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André Guerreiro quer recuperar um Algarve que está esquecido De repente, André Guerreiro ficou «mais conhecido que o burro do cigano», com direito até a participação num programa da tarde da SIC, tudo por causa de uns vídeos publicados na internet onde recupera algumas das tradições orais do Algarve. Mas esta paixão pelas raízes culturais do antigamente fazem parte da vida do jovem de São Bartolomeu de Messines desde tenra idade, não fosse ele também membro do rancho folclórico local e conselheiro técnico da Federação do Folclore Português. Texto:
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atural de São Bartolomeu de Messines, André Guerreiro, acabado de completar 20 anos, passa a maior parte do tempo em Beja, onde está a tirar o curso de «Culturas Regadas» na Escola Superior Agrária de Beja. A agenda do jovem tornou-se, contudo, bem mais agitada nos últimos tempos por causa de uns vídeos colocados na plataforma online vimeo, do projeto «A Música Portuguesa a gostar dela própria», onde interpreta lengalengas e outras tradições orais e da música popular algarvia. “Desde ALGARVE INFORMATIVO #86
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os 15 anos que faço gravações com as pessoas mais idosas do concelho, por pensar que seria uma pena perder-se todos os saberes que elas possuem, as recordações das coisas que faziam antigamente. Comecei a pedirlhes também peças de roupa que usavam na sua juventude”, conta em início de conversa. Entretanto, a entrevista, que decorria numa esplanada de café perto da Junta de Freguesia de São Bartolomeu de Messines, é interrompida por breves minutos para André cumprimentar a 10
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senhora Noémia, uma interrupção que viria a repetir-se porque, de facto, toda a gente parece conhecer o jovem e o jovem também é rápido em dar o «boa tarde» a toda a gente. “Como eu não tinha muita experiência com estas coisas de gravações de vídeo, falei com o Tiago Pereira, do projeto «A Música Portuguesa a gostar dela própria», e desde ai nunca mais parámos. As ALGARVE INFORMATIVO #86
lengalengas já sabia, as pessoas gostaram imenso daquilo, até fui à televisão”, retoma a conversa, garantindo que sempre foi muito ligado aos mais idosos. “Há pessoas que ninguém lhes chega ao pé, nem os filhos. Vou visitar muita gente ao lar, dá-me dó elas estarem lá sozinhas”, revela, com tristeza bem patente na voz. 12
precisamente porque os mais novos não se interessam por elas. “Por isso é que digo sempre às pessoas aqui da freguesia que, se conhecerem alguém com esses conhecimentos antigos, me digam. Nunca fiz diferenciação entre jovens e velhos, sempre me dei com toda a gente e sempre fui acarinhado por todos”, garante o «André do Acordeão» ou o «André do Carnaval», como também é conhecido na zona.
Membro do Rancho Folclórico de Messines, André Guerreiro toca, canta, dança, ao mesmo tempo que é conselheiro técnico na Federação de Folclore Português, e cedo constatou que a sua geração só se preocupa com os computadores, telemóveis e internet. Talvez por isso, muitas tradições se tenham perdido no passado recente, 13
De repente, mais uma interrupção, desta vez é o senhor Sebastião que quer saber das novidades. Retomada a conversa, André Guerreiro afiança que ainda persistem muitas destas tradições antigas em Messines, basta procurar por elas. “Ainda há dias fomos gravar uma senhora de 94 anos. Vou descobrindo mais pessoas porque ando muito no terreno”, indica, lembrando que, no princípio, eram os bailes de roda que o cativavam. Depois, foi decorando as lengalengas que lhe ensinavam e tem um verdadeiro manancial na sua memória. Espólio que inclui igualmente formas de dançar de outros tempos, andamentos de música que estavam perdidos no esquecimento. “Eu e o Tiago gravamos, por exemplo, um cantar de saias que as senhoras faziam quando iam para o Alto Alentejo. Ando frequentemente por Messines, São Marcos da Serra, Azilheira e alguns desses senhores viram-se na internet e já me pediram para voltar, querem-me apresentar outras ALGARVE INFORMATIVO #86
pessoas. É gratificante saber que os mais antigos dão valor a esta recolha, que contam aquilo que sabem sem qualquer problema”, destaca o entrevistado. Fama nunca quis, mas dela já não se safa, porque assim é a aldeia global no século XXI, das novas ferramentas de comunicação, do mundo digital. “O meu objetivo é redescobrir as pessoas para um Algarve que está esquecido. Pensam que a região é só praia e golfe, mas temos um interior que é bastante diferente do litoral. Do mesmo modo que o nosso folclore não é apenas corridinhos com pernas no ar, isso foi algo que o Estado Novo impingiu aos ranchos”, sublinha André Guerreiro, desafiando os jovens a mergulharem, também eles, nestas pesquisas e recolhas de conhecimentos antigos. “Caso contrário, perdem-se num ápice”, assegura. ALGARVE INFORMATIVO #86
O resultado desta paixão de André Guerreiro são muitas gravações e inúmeras peças de roupa que vai recebendo dos idosos do concelho de Silves e o próprio Rancho Folclórico de São Bartolomeu de Messines fica beneficiado, ao ver o seu repertório, musical e etnográfico, mais enriquecido. “Pode até haver alguém, no futuro, que se interesse em escrever um livro sobre as tradições do concelho de Silves e da freguesia de Messines com tudo aquilo que tenho pesquisado. Para alguma coisa há-de servir, com certeza. Quanto a mim, sou exatamente o mesmo, não tenho vaidades nenhumas, mesmo que digam que sou mais conhecido que o burro do cigano”, conclui, com um sorriso .
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Hรก 25 anos a apoiar as pessoas com doenรงa mental ALGARVE INFORMATIVO #86
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A ASMAL – Associação de Saúde Mental do Algarve assinala, em 2016, as suas bodas de prata, completando 25 anos a promover o apoio e a integração social da pessoa com problemas de saúde mental. Uma tarefa que não tem sido fácil, porque a saúde mental continua a ser encarada como o parente pobre dos cuidados de saúde, com respostas manifestamente insuficientes face às necessidades da população e com poucos financiamentos disponíveis para se avançar com novos projetos. Apesar disso, os responsáveis por esta IPSS mantêm a esperança num futuro melhor, até porque, segundo dados recentes, 1/3 dos portugueses sofre de algum tipo de doença mental. Texto:
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no Loteamento Industrial de Loulé que se encontra a sede da ASMAL – Associação de Saúde Mental do Algarve, uma estrutura, de facto, imponente, com amplo espaço para a prossecução de várias valências, com particular destaque para o Centro de Educação, Formação e Integração Profissional do Algarve e para o Centro de Reabilitação Profissional. Contudo, embora tenha sido inaugurada em 2009, a colocação da primeira pedra data de 1997, seguindose um longo período à espera de financiamento para se avançar com a obra. A esta instalação juntaram-se, mais recentemente, dois Fórum Sócio Ocupacionais, um em Faro e outro em Almancil, e a Unidade de Vida Apoiada de Almancil.
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Em todas as valências, o objetivo é o mesmo, apoiar e integrar socialmente as pessoas que sofram de problemas de saúde mental, mas isso implica uma batalha diária, com poucos meios, travada por técnicos e dirigentes com
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verdadeiro amor à camisola, garante Leonarda Silva, vice-presidente da Direção e Diretora Técnica da ASMAL, que dá como exemplo o doloroso processo até ficar concluída a obra do local onde decorria esta conversa. “Tínhamos projetado inicialmente dois edifícios, este da reabilitação profissional e, ao lado, um fórum sócio ocupacional, mas só conseguimos financiamento para um deles”, relata, acrescentando que a associação começou a sua atividade efetiva em 1991, ou seja, há precisamente um quarto de século. Na génese da ASMAL esteve a consciência, por parte de um conjunto de técnicos e profissionais de saúde, da necessidade de se intervir na reabilitação pessoal e social de cidadãos com doenças mental, por falta de respostas adequadas na região. “As pessoas eram internadas no Centro de Saúde Mental e compensadas do ponto de vista clínico mas, depois, não havia uma
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Leonarda Silva, vice-presidente e Diretora Técnica da ASMAL, e Ana Carvalho
estrutura de retaguarda que facultasse a componente da sua reabilitação e integração. O departamento respondia durante a fase aguda da doença mental, de evolução prolongada e tendencialmente crónica, as pessoas regressavam a casa e depois não existia um seguimento”, recorda Leonarda Silva, confirmando que a ASMAL foi fundada por um grupo multidisciplinar com psicólogos, psiquiatras, terapeutas ocupacionais, enfermeiros e assistentes sociais. Doença de foro mental que é bem diferente de deficiência mental, cognitiva ou psicomotora, mas esta Instituição Particular de Solidariedade Social foi, no decorrer dos anos, alargando o âmbito da sua intervenção, de forma a abranger, também, pessoas com deficiências e incapacidades. “Convém lembrar que a doença mental pode surgir em qualquer 21
idade e o mais comum é aparecer no final da adolescência e no início da idade adulta. Ninguém está livre de desenvolver uma doença mental e cada vez há mais casos em Portugal. Aliás, um estudo recente indica que um terço dos portugueses desenvolve, ao longo da sua vida, um tipo de doença mental”, indica, preocupada, falando em situações de esquizofrenia, psicoses maníacodepressivas, depressões endógenas e outras. “Consegue-se uma compensação clínica através da psicofarmacologia e, depois, nós trabalhamos a parte da reabilitação pessoal, social e profissional, sempre que possível”, aponta a entrevistada. Claro que, numa sociedade perfeita, esta responsabilidade recairia sobre o poder central mas, como se sabe, o Estado não tem capacidade de ALGARVE INFORMATIVO #86
que a ASMAL está a tentar implementar uma unidade residencial no barlavento algarvio, possuindo, inclusive, um terreno para esse efeito em Lagos. “O problema é que estas respostas convêm serem edificadas de raiz para cumprirem com todos os requisitos preconizados na lei e estamos a tentar obter fontes de financiamento para arrancar com a obra”.
resposta para acudir a tantos necessitados e mesmo as IPSS existentes sentem tremendas dificuldades no terreno, sobretudo no que toca a estruturas residenciais. “No Algarve, há duas unidades de vida apoiada, duas residências para pessoas com doença mental de evolução prolongada, que não têm familiares ou cuja família não tem condições para cuidar delas, e estamos a falar de uma capacidade de internamento de 20 camas em cada uma. Temos uma lista de espera infindável para este tipo de resposta”, reconhece Leonarda Silva, adiantando ALGARVE INFORMATIVO #86
Escassez de respostas que se notam também ao nível da infância e adolescência, não existindo nenhuma estrutura deste tipo no Algarve. Isto apesar de a ASMAL ter já construído, junto à sua sede, no Loteamento Industrial de Loulé, uma unidade socio ocupacional para jovens dos 13 aos 17 anos. “Obtivemos meios financeiros através do PRODER, edificamos, possui todo o equipamento necessário para iniciar o seu funcionamento, temos técnicos com formação específica para esse tipo de público e ainda não conseguimos estabelecer um apoio de colaboração para abrirmos as portas”, revela.
Preparar utentes para o mercado de trabalho Conforme já se percebeu, as dificuldades são muitas, mas isso não impede a ASMAL de servir população de toda a região, muito por conta do 22
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Centro de Reabilitação Profissional, vocacionado para pessoas com doença mental ou outras deficiências e incapacidades. Ali se faz reabilitação profissional, mas também qualificação profissional e escolar, ou seja, são cursos que conferem uma dupla certificação, tanto ao nível do 9.º ano de escolaridade para quem não o possui, como profissional de nível 2. “Temos formação de cozinha, pastelaria, empregada de andares, jardinagem, armazém e assistente administrativo. Para tal, somos tutelados pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional, e os cursos têm, para além da formação no centro, outra em contexto real de trabalho. Depois, promovemos o apoio à colocação e acompanhamos a integração, ou seja, não abandonamos as pessoas no final da formação”, afirma a vice-presidente da associação.
componente de formação em contexto de trabalho é extremamente importante, são cerca de mil e 200 horas ao longo das quais os empresários vão avaliando a capacidade de trabalho destas pessoas. Também existem medidas ativas de emprego, contratos emprego-inserção, estágios de inserção, com financiamento por parte do Estado, o que é aliciante para as empresas. Porém, a integração não é fácil, até porque temos um nível de desemprego elevado na população portuguesa”, observa. “Se houver algum problema, existe um canal de comunicação aberto entre os empresários e a instituição e atuamos de imediato, para que não haja necessidade da pessoa interromper o seu percurso profissional”, acrescenta.
Resta saber se o mercado de trabalho está preparado para receber estes homens e mulheres, ao que Leonarda Silva responde afirmativamente. “Esta
A ASMAL é também credenciada pelo IEFP para dar resposta a pessoas com deficiências, incapacidades e doença mental que estão inscritas
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nos Centros de Emprego, fazendo posteriormente uma orientação para a qualificação e para o emprego, o apoio à colocação e o acompanhamento póscolocação. Em simultâneo, a associação é também Centro Prescritor de Ajudas Técnica para os Centros de Emprego do Algarve. “Este ano tivemos uma média mensal de 88 formandos na parte da reabilitação profissional, 92 encaminhamentos para informação, avaliação e orientação para a qualificação e emprego e ajudas técnicas, mais de 30 pessoas para apoio à colocação e 20 para acompanhamento pós-colocação”, indica Leonarda Silva.
Novas Oportunidades, com 1059 inscritos. Contudo, a ASMAL está à espera de financiamento desde o arranque desta valência, no início de 2014, estando a funcionar através de meios próprios. “Este centro tem estado sempre com uma grande interrogação em termos da sua continuidade, porque não abrem linhas de financiamento. Agora vão ser todos reconvertidos em Centros Qualifica e estamos expetantes em relação ao futuro. Se vier financiamento, continuamos, caso contrário, seremos obrigados a deixar cair a valência”, lamenta a dirigente.
Em Loulé encontra-se ainda um Centro para a Qualificação e Ensino Profissional, que deram continuidade aos Centros de
Trabalhar com doentes mentais significa trabalhar também com as suas famílias, uma valência não financiada
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da ASMAL mas que é fundamental. “As pessoas não têm informação nenhuma e, por vezes, têm modos de atuar errados em termos de reabilitação. De igual modo sentem-se completamente desprotegidas e desapoiadas, pensam que os familiares têm determinados comportamentos por serem maus, não percebem que há coisas que são fruto da doença”, sublinha Leonarda Silva, com este trabalho a ser feito de forma individual, mas também através de grupos de ajuda e reuniões de famílias, para fomentar a partilha de experiências. “E, quando os anos vão passando, começam a pensar o que acontecerá aos filhos quando já não estiverem cá para os ajudar. As pessoas vivem numa angústia enorme”.
Tratamentos são para o resto da vida Se grande parte do trabalho é realizado na sede da ASMAL, não menos importantes são os fóruns sócio
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ocupacionais localizados em Faro e Almancil, o primeiro acompanhando cerca de 40 pessoas com doença mental e o de Almancil respondendo a 30 casos, de forma diária. Nestes locais lida-se com homens e mulheres com um nível de deterioração que não permite a inserção no mercado de trabalho e onde uma equipa multidisciplinar procura promover a sua valorização pessoal e integração social, através de atividades como cerâmica e artesanato; reciclagem de materiais; confeção e decoração de objetos artísticos; pintura, escultura e modelagem; informática e multimédia; educação ambiental; educação física, natação, ténis e canoagem; atividades ao ar livre e da vida diária; desenvolvimento pessoal e social; treino de aptidões sociais e grupos de ajuda mútua; jogos pedagógicos e de relaxamento; música e expressão dramática; entre outras. “Todas estas pessoas têm programas individuais de reabilitação, desenhados de acordo com as necessidades de cada um, à
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semelhança do que acontece na integração profissional. Ninguém é igual a ninguém, as problemáticas são muito diferentes e até podem mudar, no mesmo indivíduo, ao longo da sua vida”, salienta a vice-presidente da ASMAL. As únicas certezas no meio disto tudo é que, quanto mais cedo se iniciar esta intervenção, melhor, e que não há curas milagrosas de um momento para o outro. “Muitas vezes, a medicação é para o resto da vida e é extremamente importante o acompanhamento, na retaguarda, dos seus psiquiatras. Quando as pessoas alteram a terapêutica que lhes foi prescrita, ficam descompensadas e, em certos casos, é necessário recorrer ao internamento. É uma complicação”, desabafa Leonarda Silva. “O nosso programa ajuda a componente da reabilitação, mas com a parte farmacológica associada, só que
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estamos a falar de pessoas adultas e não os podemos obrigar a tomar os medicamentos”. Feitas as contas, são algumas centenas as pessoas que a ASMAL acompanha no seu dia-a-dia, umas utilizando fontes de financiamento provenientes do Estado, outras através de fundos próprios da associação, pelo que não é fácil gerir o orçamento, quando os meios financeiros são escassos. “Temos uma gestão criteriosa e rigorosa para evitar gastos desnecessários e os eventos que organizamos ao longo do ano são importantes para angariarmos fundos, por mais pequenos que sejam os donativos. Infelizmente, ainda existe um estigma associado à saúde mental. Quase todas as pessoas têm, na sua família, um caso de doença mental, mas não querem falar do
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assunto, sentem uma certa vergonha, não é algo que se aceite de ânimo leve”, reconhece a entrevistada, adiantando que os apoios e protocolos também ficam mais complicados quando envolvem diferentes ministérios do poder central. Prova disso é que as unidades residenciais e os fóruns socio ocupacionais direcionados para pessoas com doença mental terão que ser inseridos na Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados e o processo tem sido longo e conturbado. “A Saúde Mental ficou de fora quando se constituiu essa rede e ainda falta sair legislação que defina as fontes de financiamento para a sua integração”, 27
indica Leonarda Silva, mantendo a esperança que a situação mude no curto prazo. “A incidência de doença mental está a aumentar, também em virtude da crise económica que o país atravessou, e vai ter que se olhar para estas questões como deve ser. Temos projetos em espera por falta de financiamento e o nosso trabalho, nestes 25 anos, tem sido uma luta permanente. A saúde mental é bastante exigente e fazemos imenso com os poucos recursos que temos, porque cada técnico dá muito de si. É preciso amor à camisola, subscrever a causa e lutar por ela”, termina Leonarda Silva .
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Artur Lara Ramos diz o adeus final à Associação de Atletismo do Algarve A Associação de Atletismo do Algarve vai a votos, no dia 18 de dezembro, para eleger uma nova direção para os próximos quatro anos, num momento que marca a saída de presidente de Artur Lara Ramos. Aos 69 anos de idade, com mais de meio século dedicado à modalidade, o antigo professor de educação física desempenhou praticamente todos os cargos dirigentes ligados ao atletismo, deu o pontapé de saída para o mítico Cross das Amendoeiras e viu crescer os grandes atletas e treinadores da atualidade. Agora, porém, chegou a hora de dar lugar aos mais novos, com a confiança de que o seu sucessor, seja ele qual for, terá capacidade para levar o barco por adiante, assim haja coragem para lutar pelas mudanças que são necessárias implementar. Texto:
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no quinto andar do número 119 da Rua Ataíde de Oliveira, em Faro, que está localizada a sede da Associação de Atletismo do Algarve, Entidade de Utilidade Pública criada há 53 anos e da qual é indissociável o nome de Artur Lara Ramos. Enquanto atleta, foi campeão em diversas modalidades, do atletismo ao ténis de mesa, rugby, futebol e hóquei em patins. Depois, terminada a carreira desportiva, foi professor de educação física, treinador, Diretor Técnico Regional do Algarve, Diretor Técnico Nacional, Relações Públicas da Federação Portuguesa de Atletismo, Selecionador Nacional e presidente da Associação de Atletismo do Algarve durante vários mandatos, uma caminhada ao alcance de muito poucos e que chegará ao fim, no dia 18 de dezembro, quando transmitir o testemunho ao seu sucessor.
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O percurso no Algarve iniciou-se em 1975, depois de concluir a vida militar, em Tancos, numa altura em que era coordenador das pistas de atletismo do Distrito de Santarém da então Direção Geral dos Desportos. Veio dar aulas para a Escola Secundária de Olhão, depois, no Liceu João de Deus e na Escola EB 2,3 D. Afonso III, em Faro, e novamente em Olhão, na Escola EB 2,3 Prof. Paula Nogueira. Em simultâneo, estava ligado à Associação de Atletismo do Algarve como Diretor Técnico Regional e deu aulas de Educação Física na Universidade do Algarve e no INUAF, em Loulé. “Estavam na Associação grandes senhores como o António Noronha, o Fortes Rodrigues, o Franquelim Marques e outros e, em 1977, deu-se, na minha opinião, o ponto mais alto da nossa história, com a ALGARVE INFORMATIVO #86
criação do Cross Internacional das Amendoeiras que, no dia 5 de fevereiro de 2017, vai completar 40 anos de existência”, recorda. Enquanto folheia o álbum de memórias, Artur Lara Ramos considera que as pessoas devem sair dos seus cargos nos momentos oportunos e admite que muito mais poderia ter feito nos seus mandatos, mas os fundos e meios sempre foram escassos na Associação de Atletismo do Algarve. “Na época, fui treinar o Liceu Nacional de Faro e fomos várias vezes campeões nacionais, tínhamos uma equipa fabulosa. Na Farauto também fomos campeões nacionais da terceira e segunda divisão e, no Imortal, passaram por lá o Carlos Lopes, Ezequiel Canário, Rafael Marques, José Frias e Aldino Viegas, ou seja, tivemos sempre equipas bastante fortes no corta-mato. O Benfica e o Sporting eram esteios inultrapassáveis e nós ficamos duas vezes em terceiro lugar”, conta, lembrando alguns dos seus triunfos enquanto treinador. Para o desenvolvimento do atletismo no Algarve muito contribuiu o Cross das Amendoeiras, nas Açoteias, em Albufeira, nomeado em três ocasiões como a melhor prova do género do mundo, o que levou mesmo a pista a receber uma edição do Campeonato do Mundo de Cross, em 2000. “A nossa associação possui, sem sombra de dúvidas, o melhor currículo no plano nacional, pois organizamos um Campeonato do Mundo de Cross, um Campeonato do Mundo de Estrada, um Campeonato do Mundo Militar, 32
um Campeonato do Mundo Trabalhador, um Campeonato do Mundo Universitário, dois Campeonatos do Mundo Federado, um Campeonato do Mundo para Deficientes, um Campeonato da Europa de Cross, mais de uma vintena de Taças da Europa de Cross. Isto ajudou a crescer o atletismo, mas também outras modalidades”, garante Artur Lara Ramos, recordando como tudo começou, em 1977. “Fez-se um protocolo entre a Direção Geral de Desportos e a Aldeia das Açoteias para reservar, durante cinco meses, 40 camas para atletas e o futebol depressa seguiu o exemplo e ali começaram a realizar os seus estágios. Foi ali que os juniores que ganharam os Campeonatos do Mundo de Futebol de Riade e Lisboa treinaram, a par de grandes equipas do norte da Europa”.
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Seniores praticamente desapareceram Artur Lara Ramos participou diretamente na construção da Pista das Açoteias, a primeira de Portugal fora da cidade de Lisboa, bem diferente do cenário atual, em que o Algarve está muito servido destas infraestruturas. Hoje, o Complexo Desportivo de Vila Real de Santo António é uma referência a nível mundial, mas existem também excelentes pistas em Faro, Quarteira, Loulé, Lagoa e Lagos, aponta o entrevistado. “O grande problema do Algarve, e não só, passa pelos treinadores, porque a formação ministrada pela Federação Portuguesa de Atletismo não serve, é muito superficial. Depois, falta um acompanhamento posterior do que ALGARVE INFORMATIVO #86
Artur Lara Ramos com o Diretor Técnico Regional do Algarve Rui Costa
os treinadores fizeram para poderem subir de escalão, limitam-se a fazer novos cursos. Os melhores treinadores da nossa época áurea estão idosos e o Moniz Pereira, inclusive, já morreu. Foi o grande obreiro de todo o meio-fundo português e ensinou-me imenso, não só da parte teórica e prática, mas sobre a maneira como devemos estar na vida, a disciplina que devemos ter no nosso dia-a-dia”, indica. Assim sendo, segundo o ainda presidente da Associação de Atletismo do Algarve, há muitos treinadores bastante competentes no que toca à formação das classes mais jovens, mas falta-lhes algo mais para lidar com atletas seniores de alta competição. A esse cenário somam-se os reduzidos meios financeiros que chegam da ALGARVE INFORMATIVO #86
Federação Portuguesa de Atletismo, daí que muitas competições organizadas na região só foram possíveis devido às excelentes relações de Artur Lara Ramos com grande parte dos autarcas algarvios. “Alguns foram meus alunos, outros conhecia-os há vários anos, e isso ajudou a associação a obter apoios para as provas e a chamar a atenção do atletismo internacional. Veja-se que pelo Complexo Desportivo de Vila Real de Santo António passam todos os grandes atletas olímpicos, os vencedores das medalhas, seleções inteiras de grandes potências europeias”, destaca o entrevistado, o que contribui, de forma decisiva, para combater a sazonalidade do turismo algarvio.
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De infraestruturas desportivas está o Algarve bem servido, nos treinadores a história é, então, diferente, mas é um problema que se repete noutros pontos do país e que depois se repercute na qualidade dos próprios atletas. “A associação decidiu, neste mandato, apostar nos Iniciados de segunda época e nos Juvenis, porque temos um Diretor Técnico Regional dos melhores de Portugal, o Rui Costa, e que gosta realmente daquilo que faz. Traçamos um plano a quatro anos, com três ou quatro estágios com treinadores nacionais de gabarito, e conquistamos 12 medalhas nos Campeonatos Juvenis. Temos praticamente 90 competições oficiais ao longo do ano e a época está parada durante quase três meses, ou seja, há fins-de-semana com quatro provas. É impossível dar a mesma assistência a todos os atletas porque não temos dinheiro, nem meios humanos, para isso”, desabafa. Artur Lara Ramos prevê, assim, que a travessia do deserto do atletismo sénior algarvio dure mais alguns anos e, nesse entretanto, há que apostar forte na formação de treinadores e atletas, para aumentar a qualidade dos praticantes. “As pessoas olham normalmente para o número de participantes e se uma prova de estrada tiver 200 inscritos, acham que é muita gente. No entanto, se formos espremer aquilo tudo, há meia-dúzia de seniores federados com qualidade. Foi um erro, na minha opinião, meter todos os atletas acima dos 35 anos na categoria de Veteranos, devia ser apenas acima dos 40”, defende o entrevistado. “Enquanto isso 35
não mudar, as provas são quase todas ganhas pelos Veteranos e isso não estimula o resto dos praticantes. No meu tempo, seniores eramos todos a partir dos 20 anos até morrermos”, lembra, com um sorriso. Esta realidade acaba por afetar igualmente o escalão júnior, também ele diminuto na região, dai a aposta da Associação de Atletismo do Algarve nos juvenis, para evitar que, quando mudem de camada, rumem a Lisboa para defender as cores do Benfica e Sporting. “Neste momento, a Ana Cabecinha é a nossa melhor atleta, de longe, e temos uma boa fornada de juvenis e juniores do Clube Oriental de Pechão, precisamente porque o seu treinador, o Paulo Murta, sabe o que está a fazer, mesmo tratando-se de uma disciplina difícil como a marcha”, enaltece o dirigente, que não é apologista da partida de jovens adolescentes para representar clubes longe das suas famílias. “Eu tive essa experiência quando troquei o Porto pelo Sporting, mas já tinha 18 anos. Todavia, quando eles chegam a juniores, não os podemos travar de rumar a Lisboa”.
Muita coisa tem que mudar De maior ou menor qualidade, atletas não faltam, de facto, no Algarve, com 898 inscritos em 2016, pertencentes a 31 clubes, mas Artur Lara Ramos lembra que a vocação das associações, e das federações ALGARVE INFORMATIVO #86
desportivas, é a qualidade e os resultados, e não propriamente o volume de praticantes. “Clubes existem muitos no Algarve e com boas condições de trabalho, nada comparáveis às do meu tempo de atleta ou de treinador do Liceu Nacional de Faro. Só que o interesse dos atletas hoje é menor, antigamente não havia playstations, internet ou Facebook”, afirma o entrevistado. “Quando estava no Porto, levantava-me às seis horas da manhã, ia para o Estádio das Antes treinar, a relva ainda estava gelada, e depois ia para a universidade. Voltamos ao mesmo problema, faltam treinadores para motivar os atletas, mas penso que a época desportiva também é demasiado longa”, acrescenta. Artur Lara Ramos acredita, assim, que há um número excessivo de provas e, para além disso, nem sempre os clubes escolhem as melhores para participar, criticando a opção dos emblemas algarvios em ir a competições de pista coberta. “A mais próxima está no Pombal, depois, é em Braga, pelo que a deslocação da equipa custa imenso dinheiro. Não temos condições para isso e devíamos focar-nos nas provas ao ar livre”, entende, apontando depois a mira ao calendário desportivo. “Quando era treinador, os meus atletas só faziam provas de 15 em 15 dias, no máximo, porque precisavam estar em condições no que toca à velocidade, resistência e tudo o mais. Agora, todos os fins-desemana há competições e os putos, claro, gostam é de correr. Qualquer dia temos mais provas do que atletas”, dispara.
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Um reflexo imediato deste problema é que, com várias provas a acontecer em simultâneo, os atletas têm que escolher em qual correm e isso leva à diminuição do número de participantes nas competições. E Artur Lara Ramos nem quer falar do recente fenómeno do trail running, que não considera atletismo. “Claro que é uma corrida, mas é um desporto de aventura, não pode estar sob a alçada das associações de atletismo. As marchas-corridas dinamizadas pelos clubes também são uma forma de animação, mas essas já se encaixam com maior naturalidade no atletismo, enquanto não fizerem uma federação específica”. Muito trabalho foi feito pelas equipas lideradas por Artur Lara Ramos, mas muito mais há ainda para fazer e o entrevistado não está otimista em relação ao futuro. “As duas listas têm capacidade, experiência e valor para mudarem isto tudo, se tiverem coragem para tal. Convidaram-me para ir para a Federação mas respondi logo que não, prefiro continuar com as amizades que tenho. Como é possível uma associação ter menos atletas que um clube nosso? Como é que existem 22 associações em Portugal, se há tão pouco dinheiro para o atletismo? Como é que uma associação com 100 atletas recebe o mesmo financiamento base que outra com mil ou dois mil atletas? Os fundos têm que ser melhor distribuídos”, reivindica, sem papas na língua, em final de conversa . 36
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Há tantas formas de sermos humanos! Paulo Cunha
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epois de consultar os significados da palavra «humanidade» num dicionário, dois chamaram-me particularmente a atenção pelo facto de ambos derivarem da mesma palavra, mas andarem cada dez mais desencontrados; são eles: «natureza humana» e «benevolência e compaixão». Oiço falar, cada vez mais, da necessidade de restabelecer os valores humanistas como forma de lutar contra o crescente egocentrismo capitalista em que a sociedade (dita) evoluída todos os dias mergulha. Oiço!... Mas será essa a doutrina que ora vinga? Aquela que defende que a organização social deve desenvolver-se a partir do bem-estar humano, por oposição ao consumismo, a tudo aquilo que é superficial, ao narcisismo, bem como a tudo aquilo que não é próprio da dignidade humana?... Não. Antes pelo contrário! Assistimos assim a um verdadeiro atentado ao desenvolvimento integral da humanidade através duma crescente «coisificação» do homem enquanto produtor e/ou consumidor. É comummente aceite que a melhor forma de avaliar uma sociedade é aferir a forma como trata os seus pobres e necessitados. Desvalidos que, transformados e tratados como coisas, são frequentemente esquecidos pelos vários segmentos duma sociedade onde, cedo, se aprende a respeitar, a idolatrar e a aspirar os vários tipos de poder. O crescente hedonismo «coisifica» o homem, tornando-se um sinal do trágico destino da humanidade: a banalização da vida, a perda de valores éticos e morais, invertendo a prioridade da «coisa» sobre a vida. Esta forma perversa de exploração de determinadas classes sociais por outras, a que assistimos em vários locais do globo, só é superável pelo facto do homem possuir em si a capacidade de revolucionar a sua forma de estar no mundo. E é na soma dessas revoluções interiores que se ALGARVE INFORMATIVO #86
operará a grande revolução, feita por homens de palavra transformada em ação. Tomando como símbolo/ícone alguns homens e mulheres que têm passado pela nossa vida e, através de revoluções pacíficas, tiveram/têm o condão de deixar nas suas ações, descendência, continuo esperançado que consigamos ter mais comportamentos humanizados (benevolência e compaixão) uns para com os outros. São esses os meus heróis, os tais que tiveram o condão de semear em muitos de nós sementes de mudança interior. Mahatma Gandhi, Madre Teresa de Calcutá, Dalai Lama, Nelson Mandela, José Mujica, Papa Francisco, entre tantos outros (anónimos e desconhecidos) que - através de palavras transformadas em ações - nos têm mostrado que o verdadeiro poder reside na forma como todos os dias nos mudam a vida para melhor. Assisti há pouco tempo a um programa em que os humanos são caracterizados através da qualidade e quantidade de humanismo que colocam nas suas atitudes em prol da humanidade, tendo-me deparado com uma resposta à questão sobre qual era o sentido/significado da vida, que, verdadeiramente, me arrebatou! “Manter a inocência e o sorriso de criança pela vida fora!”, uma resposta simples mas que condensa em si tudo aquilo que é realmente importante no nosso curto e efémero percurso. Temos permitido que uma vida conduzida e direcionada para uma, cada vez maior, humanização e glorificação dos bens materiais nos aprisione e nos arrede do que realmente interessa: eu, tu, ele, nós, vós, eles… humanos iguais nos deveres e nos direitos. Mas, afinal de contas, terão as novas gerações que continuar a ser e a viver como nós… ou poderão, nas suas diferenças, vir a tratar e a ser tratadas como gente (humana)? Continuo, esperançado, a acreditar que sim! .
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Aqui, come-se bem… José Graça
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a edição de 2017, o Guia Michelin apresenta nove novas estrelas portuguesas, constituindo um novo recorde no firmamento da gastronomia nacional, mas lançando um desafio neste bom momento da cozinha portuguesa… No total, são 21 restaurantes que passam a ostentar a insígnia de excelência do Guia Michelin, algo inédito nos 43 anos de história do livrinho vermelho, que apresenta-se como guia de viagens obrigatória dos gastrónomos mais exigentes, sempre prontos a atravessar fronteiras para descobrir uma nova receita ou as artes inovadoras dos chefs que estão na moda. Antes deles, os inspetores do Guia Michelin já passaram por lá inúmeras vezes, na maior parte delas completamente incógnitos, prontos para comprovarem opiniões de outros colegas, mas acima de tudo para apreciarem com os seus próprios sentidos histórias, relatos e segredos que passam apenas entre os verdadeiros apreciadores da boa comida e dos mais refinados néctares! Apesar das suas limitações geográficas, Portugal detém um potencial enorme na sua gastronomia variada, assente em produtos da terra cultivados com métodos ancestrais, no melhor peixe do mundo ou numa panóplia de sobremesas descendente das nossas tradições conventuais e das travessias dos oceanos. Mostrando-se fundamental que o nosso património gastronómico fosse valorizado, defendido e divulgado, o Governo consagrou em 26 de julho de 2000 a Gastronomia como “parte integrante do património cultural português”, através de resolução de Conselho de Ministros, por iniciativa do algarvio Vítor Neto, ao tempo secretário de Estado do Turismo. Aliás, ainda antes disso, o trabalho desenvolvido pelas escolas de hotelaria e turismo do INFTUR, atualmente integradas na rede escolar do Turismo de Portugal, foi determinante para a qualificação de uma nova geração de cozinheiros e chefs, tecnicamente bem capacitados e abertos à mudança,
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preparados para pensar os pratos, recuperar temperos e tirar receitas dos baús das mães e das avós, sem medo dos desafios ou de enfrentar o desconhecido… Finalmente, a inscrição da Dieta Mediterrânica na lista representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO, no dia 4 de dezembro de 2013, foi a cereja em cima do bolo, representando um estilo de vida milenar marcado pela trilogia e rituais dos alimentos sagrados - pão, azeite e vinho, pelas convivialidades e festividades cíclicas, mas sobretudo por um modelo de alimentação saudável assente em produtos de proximidade, frescos e de cada época do ano, reconhecida pela Organização Mundial de Saúde como um padrão alimentar de excelência. Não sendo apenas gastronomia de elevada qualidade, a Dieta Mediterrânica pode ser o elo de ligação entre as gentes do Algarve e da bacia do mare nostrum, contribuindo para amenizar os efeitos da sazonalidade e atrair turistas de outras paragens, que procuram boa comida, vinhos excelentes, férias tranquilas e momentos de lazer como só o Algarve sabe proporcionar. Não menos importante, a gastronomia e a restauração são capazes de dar um forte contributo para o equilíbrio da nossa balança comercial, para a criação e manutenção de emprego qualificado em territórios de baixa densidade, contrariando o despovoamento do interior serrano da região e gerando circuitos de produção e consumo com efeito multiplicador na economia local. Mais do que o brilho das estrelas Michelin, ainda concentradas nos concelhos do litoral ou nos principais centros urbanos e turísticos, estou certo que esta tendência para a valorização da nossa gastronomia poderá ser um forte contributo para diversificar destinos e criar novos fatores de atratividade. Porque aqui, come-se bem… e vive-se melhor! . (Membro do Secretariado Regional do PS-Algarve e da Assembleia Intermunicipal do Algarve)
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Há mais Chefes que Cozinheiros Augusto Lima
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sto é uma informação para os Media em geral e pessoas desatentas, confusas e estúpidas! Cansei-me de ver jornalistas e comentadores chamar Chefes a Cozinheiros e mesmo aprendizes de Cozinheiro. Já chega de dizer e escrever asneiras, alimentando egos falsos e egocêntricos e confundindo clientes e amigos da Cozinha. Ainda muito recentemente, no Festival da Batata Doce de Aljezur, vi escrito a palavra Chefe para designar uma sorridente menina que não ostentava mais de dezassete anos, dezoito ou vinte que fossem. Ao chamar-se a um aluno, exaluno, recém-formado (muitas vezes não mais que dois meses) de Chefe, pressupõe-se chamar o quê, a alguém com idade, experiência e saber? Erro claro, por falta de informação ou, pior, negligência profissional da parte do apresentador / comentador / difusor / etc, e erro para a Cozinheira, que mostrou ser irresponsável, presunçosa e estúpida, claro!
Chamar de Chefe a alguém que cozinha, só porque cozinha, é despropositado, errado e estúpido. O normal, correto, devido é chamar de Cozinheiro – aquele que Cozinha, que exerce a função de Cozinheiro, seja de forma amadora, lá em casa ou profissionalmente. Vamos lembrar as diferentes posições possíveis de alcançar por alguém que exerce a profissão de Cozinheiro? Cozinheiro de 3.ª ou ajudante Cozinheiro de 2ª Cozinheiro de 1.ª Chefe de partida Sub Chefe Cozinha – que substitui o Chefe, na sua ausência e que se prepara para desempenhar funções de Chefe de Cozinha Chefe Cozinha – que pode exercer também o cargo de Chefe Executivo Outra coisa:
Chefe de Cozinha não é uma profissão, Cozinha é. Chefe de Cozinha é um cargo, etapa, posição na vida de alguém que exerce a profissão de Cozinheiro. Experiência e saber, excluindo cérebros geniais e gente sobredotada, é sinónimo de tempo, de aprendizagem, do saber saber, saber fazer, saber estar e ser. Chefe define um indivíduo que lidera, gere, organiza uma equipa. No desporto, de forma comum, chama-se treinador, num pelotão de soldados, um graduado, seja Sargento ou Tenente e em Cozinha, como em muitas outras profissões, dá-se o nome de Chefe àquele que chefia o grupo de trabalho. Em cozinha, como em outras profissões, também se apelidam carinhosa e respeitosamente de Chefe, o indivíduo decano, sénior, com experiência e profissionalismo, que pela postura, convicção, talento, mestria, se notabilizou na prática da sua profissão. ALGARVE INFORMATIVO #86
Em Portugal, a palavra portuguesa a usar é Chefe, Chef é uma palavra comum a ingleses e franceses. Cheff não existe. E ainda outra coisa: Não existem Escolas de Chefes de Cozinha – existem escolas e Cursos que preparam Cozinheiros e os dotam de ferramentas de trabalho que, aproveitadas e assimiladas, servirão de grande utilidade quando um Cozinheiro desempenhar funções de Chefia. E ainda outra: Chefes são ou deveriam ser Líderes, Exemplos (em tudo).
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Canções imortais de Sérgio Godinho levaram Cine-Teatro Louletano ao rubro
O Cine-Teatro assistiu, no dia 30 de novembro, a um espetáculo extraordinário onde as canções de Sérgio Godinho ganharam vida com uma sonoridade diferente, acompanhadas pelo piano de Filipe Raposo e pelo Ensemble de Flautas de Loulé dirigido por Ana Figueiras. As expetativas eram elevadas e foram correspondidas na íntegra, comprovando, mais uma vez, a plasticidade dos poemas de Sérgio Godinho, canções que atravessam as gerações, mensagens que se mantêm atuais. Texto:
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érgio Godinho regressou ao Cine-Teatro Louletano, no dia 30 de novembro, desta vez para um espetáculo inédito em que diversos temas do seu repertório foram reinventados e interpretados pelo pianista Filipe Raposo e pelo Ensemble de Flautas de Loulé, dirigido por Ana Figueiras. Era a estreia absoluta de uma formação com estas características sonoras e os algarvios responderam à altura, para mais uma casa cheia da principal sala de espetáculos do concelho de Loulé. A presença do Ensemble de Flautas de Loulé foi, efetivamente, uma estreia absoluta, mas Sérgio Godinho e Filipe Raposo já tinham tocado juntos em dois espetáculos no Teatro São Luís, somente com voz e piano, algo que o cantor e compositor ainda não tinha experimentado. “O Filipe é um excelente pianista, tem a linguagem clássica mas, ao mesmo tempo, a escola do jazz e da improvisação, e repetimos depois o concerto num festival literário em Óbidos. Entretanto, surgiu o convite para uma atuação no Cine-Teatro Louletano, com alunos do Conservatório de Música de Loulé, e aceitamos o desafio com toda a alegria. Apraz-me muito interagir com forças da cultura local”, referiu Sérgio Godinho, na véspera do espetáculo. Os arranjos para este concerto foram concebidos por Filipe Raposo, com a seleção de temas efetuada em conjunto com Sérgio Godinho, tendo havido, de facto, a preocupação de escolher as canções que melhor se adaptariam a
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um acompanhamento tão específico como este. E o resultado foi surpreendente e cativante, conforme constataram as centenas de algarvios nesta noite chuvosa, que vibraram intensamente com «O galo é o dono dos ovos», «O elixir da eterna juventude», «Fotos do fogo», «Dancemos no mundo» ou «Cuidado com as imitações», entre outros temas incontornáveis dos mais de 40 anos de carreira de Sérgio Godinho. “São 10 temas com o Ensemble e outros 10 só comigo e com o Filipe, dentro do repertório que temos praticado. O Filipe ficou bastante contente por abraçar um novo desafio e eu estou sempre a dar novas roupagens aos meus temas. Este ano já toquei também com a Orquestra de Jazz de Matosinhos, na Casa da Música e na Avenida dos Aliados, e com a Orquestra Filarmónica de Águeda, com 70 elementos de sopro. As minhas canções são muito plásticas”, justifica o entrevistado. Esta vontade constante de se reinventar não é sinónimo de não querer cair na rotina, mas sim o reflexo de ímpetos naturais de Sérgio Godinho em olhar para as canções de outra maneira. “Um quadro está pendurado numa parede e está assim feito para a eternidade, enquanto as artes performativas estão sempre a ser transformadas. Quantas encenações houve do Frei Luís de Sousa, do Hamlet, todas diferentes”, questiona este artista que é transversal a diversas gerações, cativando públicos de todas as 48
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idades. “Não é um fenómeno voluntário, penso que é uma consequência natural daquilo que faço. A vivacidade e noção de ritmo são bastante importantes para mim e isso atrai pessoas de vários quadrantes, embora as gerações mais recentes tenham outros interesses, e acho muito bem que assim seja”. Satisfeito está, então, Sérgio Godinho com o facto da música estar em permanente renovação, ainda mais num país pequeno como Portugal. “É notável que existam tantos géneros e com tantos novos executantes e compositores. Desde o fado até ao jazz, pop, pop/rock e hip-hop, há pessoas a compor, a interpretar e a renovar os estilos”, observa, garantindo que o convívio entre os «dinossauros» da música popular e os novos valores é perfeitamente pacífico. “Não gosto muito da palavra «geração», porque há gente do meu tempo que envelheceu de uma maneira e outros que o fizeram de maneira distinta. Por isso, estou sempre recetivo a estes projetos, normalmente por iniciativa de outros. Foram os Clã, por exemplo, que vieram ter comigo e se propuseram fazer um espetáculo conjunto, que deu
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origem a um disco ao vivo chamado «Afinidades»”, recorda. Entretanto, 2017 será um ano cheio de novidades, com o lançamento, em fevereiro, do primeiro romance de Sérgio Godinho, estando, inclusive, outro já escrito. Novo disco será também editado no próximo ano, com o artista muito dividido entre a música e a matéria literária .
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“Está no meu ADN olhar para o mundo onde vivo e registar esses momentos em fotografias”, explica Vasco Célio Vasco Célio é um dos mais reputados fotógrafos da atualidade nacional, especializado nas áreas do turismo e lifestyle, a par das exposições de autor, onde partilha o seu olhar sobre aquilo que o rodeia. Loulé é a casa-mãe, onde está sedeado o estúdio Stills, mas o dia-a-dia é passado um pouco por todo o país, mas também por Angola e Moçambique, onde é peça-chave em importantes revistas de economia e turismo. Texto:
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os 41 anos, Vasco Célio é, sem dúvida, um dos mais talentosos e requisitados fotógrafos da sua geração, com os primeiros passos a serem dados no fotojornalismo, mas evoluindo rapidamente para outras áreas de interesse, nomeadamente o lifestyle, turismo, viagens, economia e gastronomia. Uma caminhada bemsucedida que gerou, em 2013, uma daquelas oportunidades que se devem agarrar num ápice, sem pensar muito tempo, antes que elas desapareçam, e que o leva a passar algumas temporadas em Angola e Moçambique. “Um empresário angolano, o Nuno Fernandes, conheceu o meu trabalho e desafiou-me para colaborar numa revista nova que ia lançar sobre viagens e lifestyle – Rota e Sabores – um segmento onde a Stills está bem confortável dado o nosso trajeto no Algarve. Contudo, quando cheguei a Angola, deparei-me com umas necessidades muito maiores do que estava à espera na área da fotografia”, relata Vasco Célio. Confrontado com essa carência, houve que dar formação e reestruturar a equipa de fotógrafos do grupo editorial e para isso muito contribuiu a experiência da própria Stills nas vertentes de edição e arquivo. “O nosso valor acrescentado é o facto de termos um grande arquivo fotográfico, essencialmente do Algarve, mas de muitas outras temáticas, e estamos em vias de criar um banco de imagens online. Claro que ninguém fica rico com isto e recorremos a alguns fundos europeus para fazermos essa transposição do papel, slide e negativos
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para o formato digital, mas temos uma parceria bastante próxima com estas revistas de Angola e Moçambique, que são revistas premium, de grande referência”, explica o entrevistado. Uma parceria à distância que só é possível na era digital, confirma Vasco Célio, que só recentemente abandonou por completo a fotografia analógica. Contudo, a raiz de tudo continua a ser a gravação de fotografia por via da luz, antigamente através dos sais de prata numa película fotossensível, e nem sempre é fácil transmitir essas noções a quem já cresceu na era digital. “Controlávamos como a impressão era feita, como é que ia ser revelada a fotografia, a escolha do tipo de filme, pensávamos em tudo. Agora, carregase num botão, olha-se para o visor na traseira da máquina, espreita-se a fotografia e acha-se que está bom ou mau, há um acesso imediato ao resultado final”, observa. Um acesso às novas ferramentas de captura de imagem que é ainda mais fácil quando falamos nos telemóveis de última geração e as suas potentes máquinas fotográficas e softwares de edição, mas Vasco Célio nada tem contra eles. “Tenho amigos que querem promover os seus produtos e serviços nas redes sociais e nos sítios de internet e não podem andar com um fotógrafo constantemente atrás deles. Ao invés de adquirirem uma máquina, digo-lhes sempre para comprarem um bom telemóvel e para aprenderem a lidar com as suas ALGARVE INFORMATIVO #86
aplicações. Quando precisarem de um produto com mais qualidade, então, sim, contratem um fotógrafo”, aponta, e é nesse segmento que a Stills se posicionou, na fotografia de elevada qualidade para empresas de topo. “Há 20 anos, provavelmente estava eu e mais quatro ou cinco fotógrafos no mercado, hoje, somos nós e mais 30 ou 40 fotógrafos e a qualidade da concorrência é bastante superior. A nossa luta é estar num patamar superior e, para isso, temos um pacote tecnológico único no país, com conhecimentos e tecnologias de ponta”, reforça Vasco Célio. Neste cenário, o Algarve continua a representar uma fatia importante para o volume de negócios da Stills, mas deixou de ser o local que garante a sustentabilidade económica do estúdio, devido à reduzida dimensão e
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capacidade financeira do mercado. “Vou fazer um trabalho, com 30, 40 ou 50 mil euros de equipamento às costas. No estúdio tenho mais uns milhares de euros em equipamento de pós-produção digital e dois técnicos altamente especializados para garantir que o produto sai daqui nas melhores condições possíveis. Óbvio que não posso levar 200 euros por este género de serviço, nem quero, o que nos obriga a procurar clientes noutras zonas do país ou noutras partes do globo”, justifica. Isto significa que o fotógrafo tem que estar preparado para andar em constantes viagens, sem saber muito bem onde vai estar na semana seguinte, mas a própria Stills evoluiu no sentido de alugar o equipamento de ponta que possui, o que implica muitas viagens de norte a sul de
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Portugal. “Eu, com uma mala, cinco objetivas, duas câmaras fotográficas, um computador e um leitor de cartões, posso andar na estrada durante seis meses. Desde que tenha energia elétrica para recarregar as baterias, sou autossuficiente”, garante, acrescentando que nem a falta de internet nalguns locais prejudica a realização dos trabalhos. “Em Maputo, por exemplo, posso estar um mês no escritório a coordenar a edição da revista, ou ir para o exterior e estar uma semana sem internet, só serve mesmo para receber mensagens de telemóvel. Nem consegues receber emails com anexos”, recorda Vasco Célio. “Ao fim de dois dias habituas-te à falta de internet, não ligas o telefone, lês um livro, pintas, desenhas, fazes outra coisa qualquer à noite”.
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Paparazzi nunca! Os primeiros passos de Vasco Célio foram, porém, bem diferentes, no fotojornalismo puro e duro, até se cansar dessa rotina, sobretudo após o aparecimento dos paparazzis. Na época, Vasco e seus colegas trabalhavam com diversas revistas corde-rosa de dimensão nacional que, de repente, começaram a encomendar serviços dessa natureza, o que nunca encaixou bem na personalidade do entrevistado. “Dizer não a esses trabalhos é uma decisão economicamente difícil, porque nos permitem ter algum desafogo financeiro, mas voltámos costas a isso porque não concordava com essa mudança de estratégia dessas
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revistas. Não acho que se deva lidar com a vida das pessoas dessa maneira, mas há quem o faça porque há quem consuma esse produto”, afirma Vasco. A decisão não causou grande transtorno a Vasco Célio e à Stills porque, entretanto, surgiram diversas revistas a quererem realizar reportagens sobre hotéis e restaurantes, muitos deles localizados no triângulo dourado Vilamoura/Quinta do Lago/Vale do Lobo, e a evolução para o turismo, viagens e lifestyle foi natural. “Acredito que faria bastante bem moda, mas nunca vou investir muito tempo da minha vida nesse segmento porque não temos indústria têxtil no Algarve. As revistas pagam mal, não têm capacidade económica para suportar um estilista, cabeleireiro, maquilhador, assistentes, fotógrafos. Isso seria possível em Lisboa ou Porto mas, mesmo ai, os meios são reduzidos, pois só há quatro ou cinco marcas de roupa em Portugal que investem realmente em campanhas e catálogos”, observa, daí que muitos fotógrafos rumem a Paris e Londres em busca dessa indústria. Ora, estando numa região turística por excelência, a ascensão da Stills foi rápida. Depois, dá-se o fenómeno gourmet, o Algarve é a região de Portugal com mais estrelas Michelin e, quando se começa a dar mais atenção à comida, todos os olhos se centram em espaços como o Vila Joya, Henrique Leis ou São Gabriel, verdadeiras referências a nível europeu. “Estive sempre ao lado dessa corrente e trabalhei de perto com esses empresários e isso tornou o nosso negócio mais rentável. O que fazemos no Festival do Vila Joya é único no mundo e ALGARVE INFORMATIVO #86
ainda agora vendemos uma foto para uma revista de luxo da Austrália. Estou muito feliz por ter sido escolhido, mas também trabalhei imenso para poder fazer parte daquela equipa”, aponta, sem falsas modéstias. Escolher o melhor caminho a percorrer é, pois, um dos segredos do sucesso, mas também decidir o que não se pretende mesmo fazer e ter coragem para recusar essas solicitações, algo que se conquista com a experiência, à medida que os cabelos brancos vão aparecendo. “Há projetos que vou passando para trás porque não me sentiria bem comigo próprio se fizesse o que certos clientes pretendem”, justifica, recordando que as exposições de autor remontam aos passos iniciais da sua carreira, em 1993, na primeira Primavera Fotográfica organizada pela Casa da Cultura de Loulé e pelo Instituto da Juventude de Faro. “Adoro o trabalho que estou a realizar com as revistas de Angola e Moçambique, mas também está no meu ADN olhar para o mundo onde vivo e decidir ir para um determinado sítio fazer imagens sobre um tema específico, ou sobre aquelas pessoas ou cidade. Para isso, não posso ter nenhuma revista à espera das minhas fotografias, nem estar a pensar num layout, ou num cliente que vai vender aquele produto, ou no Facebook, sites ou catálogos. Tudo se resume a pensar por pensar”, refere Vasco Célio. Uma faceta mais artística para a qual foram importantes as regras aprendidas durante os tempos do 60
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fotojornalismo, garante o entrevistado. “O saberes antecipar o momento, o estares preparado para qualquer circunstância, para as condições que encontrares no terreno. O fotojornalismo deu-me a capacidade de improvisar a situação, o dar à volta quando não temos as condições técnicas perfeitas para tirar uma fotografia”, reconhece Vasco Célio, lembrando o sangue, suor e lágrimas que deixou no terreno, desde campos de futebol a florestas a arder. “Para mim, não há desculpas para não se fazer uma coisa bem-feita. Temos que olhar para a nossa culpa para corrigir os erros e, na próxima vez, fazermos melhor”, acrescenta. Apesar de andar numa roda-viva em Portugal de lés-a-lés e no continente africano, projetos continuam a existir para o futuro e já estão a ser preparados há bastante tempo. “Andamos, desde março, a planear revistas que vão ser publicadas no segundo semestre de 2017, portanto, já sei mais ou menos como vai ser a minha vida em algumas áreas. Em termos comerciais, a Stills tem muitos trabalhos em curso, outros que vão demorar vários meses para serem realizados. O livro «Algarve Mediterrâneo» da Maria Manuela Valadão levou, por exemplo, quatro anos a ser feito”, indica, adiantando que está na forja um álbum fotográfico sobre a Mãe Soberana, em parceria com mais dois colegas de profissão. “É um trabalho que fiz em 2007 e 2008, que foi agora revisto por um teórico ligado ao culto da Mãe Soberana e estamos a escolher a empresa para efetuar o layout”. Aos compromissos comerciais somamse os projetos pessoais, as tais exposições ALGARVE INFORMATIVO #86
de autor, estando uma patente em Lagos, no âmbito do Festival Verão Azul, da Casa Branca, a sucessora de «My Paradise is better than yours», realizado para um projeto de música de João Frade e Carlos Barreto. “As «Odes» são o resultado de um trabalho que vou fazendo por onde passo, coisas que vou fotografando no quotidiano, que têm uma lógica na minha cabeça, que nunca venderei para uma revista, publicidade ou banco de imagens, e que vou desenvolver mais profundamente em 2017. Também ando a fazer um outro sobre as Ilhas Barreiras há vários anos. É no caminho da vida que vou descobrindo tudo isto”, explica, concluindo com a ideia que a fotografia está a entrar numa excelente fase, mesmo que poucas pessoas ainda se tenham apercebido disso . 62
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LEONEL PEREIRA CONTINUA A COLECIONAR PRÉMIOS Numa altura em que os chefs ainda não estavam na moda, o jovem Leonel Pereira queria ser barman, mas acabou por ir parar à cozinha de um hotel e ainda bem que assim aconteceu. Estava descoberto um talento inato para a culinária mas, com pouca vontade para seguir as pisadas da «velha guarda», frequentou as melhores escolas internacionais e tornou-se um dos mais conceituados chefes de cozinha da Europa. Abriu diversas unidades hoteleiras, comandou verdadeiros exércitos no Grupo Pestana, liderou os restaurantes das Pousadas de Portugal, brilhou no Grupo Starwood, até que, finalmente, abraçou o desafio do São Gabriel, na Quinta do Lago. A vontade de abrandar o ritmo, porém, não se concretizou, porque a Estrela Michelin e os vários prémios conquistados a nível nacional são sinónimo de intensa azáfama no restaurante que, salvo alguma mudança inesperada de planos, será a «casa» deste alcoutenejo durante os próximos anos. TEXTO E FOTOGRAFIA: DANIEL PINA ALGARVE INFORMATIVO #86
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o pico do mês de agosto, Leonel Pereira não tem mãos a medir no Restaurante São Gabriel, situado à entrada da Quinta do Lago, mas nada que apoquente este alcoutenejo, nascido no Martim Longo há 45 anos, que muito cedo se habituou a viver a mil à hora e a liderar extensas equipas nos hotéis de luxo por onde passou. A formação básica tirou na Escola de Hotelaria do Algarve, pelos 17 anos, antes de rumar a França para frequentar o Instituto Le Nôtre e a Academia Alain Ducasse, seguindo-se o Culinary Institute of America, mas a cozinha nem sequer foi a sua primeira opção quando decidiu começar a trabalhar. “Ao contrário de alguns colegas meus que gostam de ser politicamente corretos e que dizem que nasceram agarrados aos tachos, eu poderia ter sido engenheiro, como queria o meu pai, ou ser barman, como era a minha vontade. ALGARVE INFORMATIVO #86
Cai na cozinha de paraquedas”, assume. A verdade é que, como algarvio da serra que é, acalentava os mesmos sonhos dos seus amigos de infância, ir trabalhar para o litoral e tentar a sua sorte junto das turistas que chegavam ao Algarve provenientes do Reino Unido e da Escandinávia. Na tarde do dia 1 de março de 1987, sai do motocross da Cortelha diretamente para o Hotel Quinta do Lago, onde ia entrar ao serviço só que, entretanto, a sua vaga na copa do bar tinha sido preenchida na parte da manhã. Foi parar então à cozinha e as primeiras duas semanas foram de grande vontade em ir embora, acreditando que o seu futuro não era lavar tachos e panelas. “Aquilo era dominado pela «velha guarda», a quem se deve o não crescimento dos cozinheiros durante anos e anos, porque as pessoas eram escolhidas a dedo pelo grau de idiotice e, como as 68
equipas eram constituídas por indivíduos sem formação académica, o que prevalecia era não ensinar nada aos mais novos, para não colocarem os seus postos de trabalho em risco”, dispara, deixando de imediato antever que a entrevista seria tudo menos politicamente correta. “Desde os 17 anos que tenho bem marcado na minha cabeça que «velha guarda» significa ignorância, mas diziam-me que tinha jeito e acabei por me apaixonar pela cozinha”. Ora, como na época a bibliografia da especialidade era toda francesa, Leonel Pereira não pensou duas vezes em partir para França, país onde se encontravam os principais chefs do mundo, até se deixarem ultrapassar pelos vizinhos espanhóis nos últimos anos, “provavelmente por causa do narcisismo e prepotência dos franceses”, na opinião do entrevistado, lembrando que era bastante irreverente na altura. “Não alinhava pelo perfil típico de chefe de cozinha, gordo, de bigode, que bebia cinco litros de vinho tinto por dia. Eu tinha cabelo comprido e tatuagens, usava brincos e, nos primeiros tempos, até dizia às namoradas que era barman. Aliás, devo ter sido dos primeiros a usar calças às bolas e às flores, fora do tradicional xadrez, que quase que me dá vómitos, e só cortei o cabelo há cinco anos, quando nasceu a minha filha. Antes disso, tive altos cargos executivos e ia às reuniões com rabo-de-cavalo”, recorda, sorridente. Um arranque de carreira onde foi fulcral o apoio da família, face aos elevados custos dos cursos que frequentou no estrangeiro, onde chegou a pagar, por exemplo, 450 contos por semana no Instituto Le Nôtre. Mas o gosto que Leonel Pereira demonstrava pela cozinha levou os 69
pais a fazerem um sacrifício adicional para lhe proporcionaram as necessárias ferramentas para ter sucesso e o alcoutenejo tirou ali várias pósgraduações culinárias. “Devo ter 14 certificados do Le Nôtre, é muito dinheiro que está ali investido. Sou um produto de estudo académico, ao contrário de alguns colegas que são autodidatas e que os admiro bastante por isso. O meu amigo José Avillez estudou marketing, faz coisas fantásticas na cozinha e tem dado um estalo a muita gente em Portugal”.
Muitos prémios e pouco tempo para descansar Com objetivos perfeitamente traçados desde tenra idade, Leonel Pereira garante que ser proprietário de um restaurante, ao virar dos 40 anos, inclusive ter uma estrela Michelin, fazia parte dos seus planos de médio e longo prazo. E, sem meias palavras, assegura que já conquistou prémios bastante mais importantes para ele do que o prestigiado galardão que todos os restaurantes almejam pendurar nas suas portas. Antes disso, desejava ser chefe executivo de um grande hotel e de uma companhia internacional, dentro e fora de Portugal, para provar que era capaz de liderar equipas em qualquer parte do mundo e noutras línguas que não o português. “Aos 25, 30 e 35 anos, sentia que tinha formação a mais para ser um mero dono de um restaurante com 12 funcionários”, justifica, acrescentando que o seu primeiro cargo como chefe executivo aconteceu no Hotel Alvor, ALGARVE INFORMATIVO #86
quando este passou da Salvor para o Grupo Pestana. “Foi o meu primeiro desafio e, aos 28 anos, fui o chefe mais novo em Portugal a assumir um grande cargo, depois de já ter sido subchefe no Oriente Express. Entretanto, passei de liderar 60 pessoas, em quatro ou cinco restaurantes, no Hotel Alvor e fui abrir o Le Meridien no Brasil, com 600 quartos e 140 cozinheiros. Ganhamos vários prémios e, ao fim de um ano, fui promovido para diretor de F&B do Grupo Pestana, um passo que, de facto, não estava nos meus planos”, conta Leonel Pereira. ALGARVE INFORMATIVO #86
Como Chefe Corporativo e Diretor de F&B abre todos os hotéis do Grupo Pestana no Brasil, o exército de funcionários aumenta ainda mais e, em sentido contrário, passa cada vez menos tempo na cozinha, aquela que era a sua verdadeira paixão. “Tinha entre 250 a 300 cozinheiros às minhas ordens, mais 250 ou 300 empregados de sala e bar, divididos por sete estados brasileiros e andava a maior parte do tempo de fato e gravata e mala de executivo na mão, de reunião em reunião. Por causa disso, encostei a administração à parede para me darem um restaurante de luxo onde pudesse mostrar a minha cozinha contemporânea e vanguardista”, revela. O repto é aceite pelo próprio Dionísio Pestana, que coloca nas suas mãos o restaurante «Cais da Ribeira», no Rio de Janeiro, e Leonel Pereira é eleito, em 2003 e 2004, o chefe revelação do Brasil, sendo o único português até à data a conseguir arrecadar este prémio. “Foi uma projeção mediática difícil de controlar num país com 200 milhões de pessoas e onde a imprensa é fortíssima. A partir desse momento, nunca mais consegui passar despercebido”, indica, sem falsas modéstias, admitindo que poucas recordações guarda desse período dos 32 aos 36 anos, tal a violência do trabalho. “Pedi para sair do grupo, mas foi-me dado o projeto das Pousadas de Portugal, ou seja, mudo de liderar sete unidades em sete estados, para liderar 43 unidades em Portugal. Queria descansar, mas saiu70
me o tiro pela culatra”, nota, com um sorriso. “Ainda fui abrir o Convento do Carmo a Salvador, a primeira pousada fora do país, na qualidade de Chefe Corporativo e Diretor de F&B”. O ritmo de vida teimava em não abrandar, Leonel Pereira continua a comandar perto de 500 cozinheiros e funcionários de sala e bar, mas o conceito gastronómico mudou, como é natural. “No Brasil, introduzi a comida portuguesa nos vários hotéis Pestana e procurei ter bons subchefes para tratar da gastronomia local. Nas Pousadas de Portugal, predominava a gastronomia tipicamente portuguesa, mas também a regional, que era quase intocável, porque as pessoas olham para as pousadas como uma extensão das suas próprias casas”, indica, aproveitando para esclarecer que as Pousadas de Portugal estavam divididas em diversos segmentos, desde as Históricas e as Históricas de Design às Regionais. “As
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sete ou oito unidades de Design eram a minha cara, onde eu melhor me enquadrava em termos de arquitetura e ambiente, e nessas ousei mais, cometi as minhas extravagâncias e coloquei as pessoas a comer de outra maneira. O cliente conservador vai para as pousadas mais típicas, os clientes vanguardistas vão para as pousadas do Souto Moura, Carrilho da Graça e outros arquitetos famosos, mas nunca ultrapassei os limites, até porque a pessoa que tinha estado à frente do projeto antes de mim teve problemas sérios com os diretores. Procurei não cometer os mesmos erros e, para além disso, eu estava, hierarquicamente, acima dos diretores das pousadas. Quando queria mudar alguma coisa, eles resistiam um pouco mas eu dava um murro na mesa e eles sabiam que eu tinha as costas quentes”.
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Nouvelle Cuisine falhou mas deixou frutos Mais quatro anos se passaram neste aliciante projeto, num período em que o país escancarou as portas à gastronomia gourmet, sendo que a nouvelle cuisine não teve vida fácil em Portugal, para tristeza do próprio Leonel Pereira. “Só chocou os conservadores, só que há países em que esses constituem a larga maioria da população. Ainda hoje há pessoas que perguntam se o meu restaurante é daqueles que servem coisinhas pequenas, onde se paga muito e se passa fome, mas esta noite vou ter cá clientes a comer um menu de 15 pratos, para a semana tenho clientes para um menu de 20 pratos. Claro que, para isso, tenho que calcular, cientificamente, o que cada pessoa consegue comer e dividir por 20 pratos o
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que eles estão habituados a comer em dois”, salienta um dos proprietários do São Gabriel. “No fim do jantar, dizem que as vidas deles mudaram, que foi uma experiência inesquecível, apesar de pagaram 100 euros por pessoa”, acrescenta. Falar da nouvelle cuisine desperta novamente o espírito politicamente incorreto de Leonel Pereira, ao ver tantos “idiotas”, falarem sobre este movimento nascido em França sem terem qualquer conhecimento sobre a matéria. “Esta cozinha espanhola que se pratica atualmente, que foi chamada de «el booleana», resultou da inteligência do Ferran Adrià, que conseguiu aquilo que os franceses Roger Vergé, Paul Bocuse, Alain Ducasse não conseguiram há 20 anos. Na altura foi um choque tremendo, mas as técnicas de confeção estão lá todas e, agora, temos uma série de máquinas para nos ajudar que antes não existiam. Foi uma experiência 72
falhada mas que deixou os seus frutos”, defende o assumido seguidor e admirador desses conceituados chefs gauleses. “Hoje, tenho uma máquina onde cozinho um leitão durante 30 horas e aquilo parece um jacuzzi, controla-se a temperatura da água, a comida está dentro de um saco, sem contato direto com a água, e em movimento, ou seja, para além de estar a ser cozinhado, ainda está a ser massajado”. De facto, as inovações tecnológicas são constantes, o que obriga um chef a frequentar congressos e feiras internacionais para estar a par das novas técnicas e também conhecer produtos que, antigamente, estavam reservados para a alta indústria e que agora estão ao dispor dos cozinheiros. “Temos que saber decifrar o que é um ácido ascórbico, que a unidade mais pequena da proteína é o aminoácido e que é isto que o nosso metabolismo assimila. A formação de um cozinheiro mudou por completo e, felizmente, a «velha guarda» tem os dias contados. São pessoas com 60 e tal, 70 anos, uns reformados, outros à beira disso, e há que dar lugar às novas gerações”. E como a vida profissional de Leonel Pereira tem sido feita de projetos de três ou quatro anos, sai das Pousadas de Portugal e ingressa na companhia norteamericana Starwood, proprietária dos hotéis Sheraton. “Temos que deixar trabalho feito, objetivos cumpridos e com provas dadas e isso leva entre três a quatro anos. No Sheraton só querem chefes executivos com formação académica superior e fiquei com o projeto do «Panorama», que foi considerado várias vezes restaurante do ano. Aliás, foi a primeira vez que um 73
restaurante de luxo dentro de um hotel funcionou e tinha casa cheia”, destaca, lamentando que, com o agravar da crise financeira internacional, tenha sido dado ordens para se cortar nos custos, mesmo que isso se repercutisse na qualidade. “Nessa altura, o chef tem que «os» ter no lugar para dizer: ‘isto é vosso, fiquem com ele, que eu vou-me embora’. Já não se podia comprar camarão a 80 euros o quilo, tinha-se que introduzir uma carta de grelhados e eu não tinha lata para dizer aos clientes que a comida era tão boa como antigamente, quando não o era. Sempre fui muito bem pago, atingi valores quase impensáveis, mas o meu ordenado nunca foi o mais importante para mim, nem nunca fiz exigências salariais para ir para este ou para aquele lugar”.
O drama dos concursos medíocres Sem nunca ter medo de sair de cargos onde estava perfeitamente consolidado e de abraçar novos projetos, Leonel Pereira abandona o Grupo Starwood e chega, finalmente, ao São Gabriel, onde o anterior proprietário andava à procura de um chef que dominasse a alta gastronomia. Dois anos depois, a fasquia sobe ao tornar-se um dos sócios, juntamente com Delfim João, do restaurante de luxo situado à entrada da Quinta do Lago e o objetivo atual, diz, sem rodeios, é simplesmente ser um cozinheiro e andar de jaleca todos os dias. “Já sabia que o restaurante, ao ter um patrão novo, ia perder a estrela ALGARVE INFORMATIVO #86
Michelin, são assim as regras do Guia, independentemente de quem é o chefe de cozinha. Por isso, a estrela Michelin não foi recuperada, foi ganha, e é bastante raro isso acontecer logo no primeiro ano de atividade. É um prémio que nos interessa porque traz clientes devido ao seu mediatismo, gostamos de o ter, mas o nosso grau de exigência e os objetivos são exatamente os mesmos”, garante. Qualidade não falta e é sobejamente reconhecida ao São Gabriel, que em 2014 já tinha conquistado o «Garfo de Ouro» do Guia «Boa Casa Boa Mesa» do Expresso e, em 2015, recebeu o «Chef do Ano» e o «Garfo de Platina», único caso em Portugal. A Revista Vinhos e a Revista Wines também consideraram Leonel Pereira como o «Chef do Ano», o mesmo acontecendo com o blog «Mesa Marcada», onde vai alternando o primeiro e segundo lugar com o amigo José Avillez, mas garante que não vive a pensar nos prémios, preferindo ser mais «low-profile». “Em primeiro lugar está a qualidade, depois o sabor e a minha equipa e só depois é que estou eu”, aponta, daí recusar-se terminantemente a participar nos concursos televisivos de chefes de cozinha que agora estão na moda. “Acho que alguns dos meus colegas são bastante exagerados nas suas posturas e sou um crítico fortíssimo desses programas, porque estão a transmitir uma ideia errada do que é o mundo da cozinha e, com isso, a influenciar negativamente as pessoas. Há homens e mulheres com 30 e 40 anos que deixam as suas profissões a pensar que ainda vão ser alguém na cozinha”, acusa, sem papas na língua. Críticas afiadas que têm também como destinatários alguns autodenominados ALGARVE INFORMATIVO #86
chefes executivos, só porque gerem a cozinha de um restaurante. “Para se ser chefe executivo é preciso ter mais do que uma operação e qualquer miúdo de 24 ou 25 anos, que ainda não sabe fazer uma maionese nem um bechamel, já anda armado em chef. A crise fez com que muitos patrões não tenham dinheiro para pagar aos verdadeiros chefs e contratem pessoas fraquitas, que desenrascam o serviço e poem aquilo a andar e que 74
depois querem mostrar aos amigos e às famílias que já gerem”, analisa, continuando com o seu desabafo: “Ainda há dias estava um puto de Faro a falar numa reportagem na televisão e dizia «20 anos, chef de cozinha». Por amor de Deus. Ser-se chef é uma consequência de liderar e gerir muitas coisas e há pessoas que não são líderes nem gestores de nada, não sabem fazer uma ficha técnica, muitos nem matemática sabem”.
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Quem conhece Leonel Pereira sabe que ele sempre foi assim, sem meias palavras, sem medo de ferir sensibilidades alheias, mesmo quando os intervenientes dos ditos concursos até são seus amigos. “Por causa desses programas, aparecem pessoas de 40 anos a estagiar em cozinhas e, se lhe damos um berro, ficam ofendidos, dizem logo que têm filhos, que não têm idade para aturar essas coisas. Se uma pessoa tem jeito para a cozinha, ALGARVE INFORMATIVO #86
que convide os amigos para almoçar ou jantar, agora, acharem que ainda vão brilhar numa cozinha, com 35 ou 40 anos, acordem, por favor”. Opinião menos polémica tem em relação a eventos que reúnem vários chefs e chegou mesmo a participar, há uns anos, na produção do livro «Cataplana Experience», de Fátima Moura. Quanto ao «Algarve Chefs Week», nunca quis integrar o elenco devido à má experiência que teve no «Lisboa Chefs Week». “O meu restaurante em Lisboa era 100 euros por pessoa, como no São Gabriel, e o diretor cismava que tinha que ter aquele evento, por servir 500 ou 600 refeições a 19,90 euros, o que arrebentava com a equipa. Depois, quem ia àquele evento, nunca mais voltava ao restaurante, era um bando de idiotas que pensava que, por menos de 20 euros, comia uma refeição de 100 euros. De qualquer modo, não podíamos baixar muito a qualidade, portanto, era uma perda de dinheiro e um desgaste brutal, a fazer comida para enfarta brutos ao almoço e jantar”, recorda, motivo mais que suficiente para ficar com o «Week» atravessado na garganta. “Alguns nem água bebiam, porque era paga à parte. Depois, iam para blogues de gastronomia deitar abaixo quem estava do outro lado com 16 e 18 horas de trabalho por dia”, reitera, irritado. Ora, a propósito de críticos, não resistimos a perguntar a opinião sobre o que foi escrito há algumas semanas, em Inglaterra, sobre a gastronomia portuguesa e algarvia. “Isso só mostra a ignorância de quem escreveu e acho que se deu importância a mais a esse tipo. Se ele tinha três milhões de leitores, passou a ter quatro, pelo que o objetivo dele foi ALGARVE INFORMATIVO #86
alcançado”, observa o alcoutenejo. “Fiquei escandalizado, conheço bem o Nuno Mendes, a pessoa que ele arrasou, conheço muito bem o meu país de lés-a-lés, devido ao projeto das Pousadas de Portugal, mas nem me preocupei em comentar aquelas baboseiras”. Mais a sério, e porque a conversa ia longa e havia que começar a preparar o restaurante para a azáfama do jantar, perguntamos se o São Gabriel seria outro projeto de três ou quatro anos ou um local para assentar arraiais durante mais tempo. “Se Deus quiser e tudo correr bem, a ideia é ficar por cá e consolidar cada vez mais o São Gabriel. Já fizemos obras na esplanada e criámos uma entrada separada para o Thai, o que implicou um investimento de 100 mil euros. No ano que vem teremos um bar novo e a sala com outras cadeiras e decoração. O São Gabriel está fantástico, com um nível de satisfação a rondar os 99,9 por cento, cada vez nos visitam mais clientes e com mais regularidade, fruto de um trabalho mesa a mesa”, descreve, adiantando que o principal intuito é crescer nos meses mais fracos do turismo algarvio e reduzir a sazonalidade da região. “O Algarve não pode fechar durante seis meses e o caminho passa pela qualidade, por divulgar o que de bom temos, por inovar e inventar eventos”, aconselha, antes de arregaçar as mangas e fazer aquilo que realmente gosta, estar de volta do fogão, na cozinha . A caminho do centenário: Reportagem publicada no número 19 da Revista Algarve Informativo, em 4 de julho de 2015
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