Skip to main content

ALGARVE INFORMATIVO #84

Page 1

ALGARVE INFORMATIVO 19 de novembro, 2016

#84

ACTA leva a cena história trágica de

Catarina Eufémia

Fica no Singelo | Escola de Hotelaria e Turismo do Algarve ALGARVE INFORMATIVO #84 1 Vítor Guerreiro três anos ao leme de São Brás | Ricardo Melo Gouveia


ALGARVE INFORMATIVO #84

2


3

ALGARVE INFORMATIVO #84


OPINIÃO 8 - Daniel Pina 38 - Paulo Cunha 40 - Mirian Tavares 42 - Cristiano Cabrita 44 - António Manuel Ribeiro 46 - Augusto Lima

ATUALIDADE 10 - Mulheres Bombeiro juntas em São Brás de Alportel 28 - Vítor Guerreiro

ENTREVISTAS/ REPORTAGENS 18 - Ricardo Melo Gouveia 48 - Escola de Hotelaria e Turismo do Algarve 60 - ACTA estreia CATARINA 70 - Fica no Singelo

ALGARVE INFORMATIVO #84

4


5

ALGARVE INFORMATIVO #84


ALGARVE INFORMATIVO #84

6


7

ALGARVE INFORMATIVO #84


Afinal, a dança contemporânea é boa… Daniel Pina

A

dmito que, antes de ter criado o «Algarve Informativo», não era grande consumidor de produtos culturais. Quer dizer. Literatura sempre foi um bom vício e, felizmente, continua a ser, agora não em papel, mas em formato digital. De cinema e música sempre fui também um ávido consumidor. Porém, cultura pura e dura, aquela que normalmente associamos ao teatro, dança, pintura, escultura, não fazia parte do meu quotidiano. Consumia aquilo que todos nós consumimos no nosso dia-a-dia de forma inconsciente. A exceção era o teatro, do qual ainda fazia uma ou outra reportagem nos tempos da velha senhora, mas normalmente sobre teatro de revista e ai entramos da velha discussão entre o que é Cultura e Entretenimento. A dança sempre ficou para trás, porque não interessava, em termos jornalísticos, à minha anterior entidade patronal, a não ser que fosse algum festival de ranchos folclóricos ou espetáculo de casino. E assim se foi aprofundando o meu alheamento desta nobre arte. Se calhar a culpa não era só minha, digo para me sentir menos mal. Naquele tempo, a dança encaixava normalmente em três gavetas da minha cabeça: a popular e tradicional dos bailaricos e ranchos folclóricos; a clássica dos grandiosos ballets russos; e a contemporânea, aquela onde meia dúzia de pessoas de roupas brancas ou pretas faziam movimentos estranhos num palco vazio, com música atmosférica e uma tela escura como pano de fundo. Como esta última não me aliciava particularmente, muito menos me cativavam o «Lago dos Cisnes» ou o «Quebra-Nozes», a dança ia ficando no esquecimento. Com o tempo, o bicho papão da dança contemporânea foi ganhando força na minha mente, que até é relativamente bem informada, mas todos sabemos como é difícil desconstruir as opiniões menos positivas que formamos sobre alguma coisa. Mas isso tem acontecido nos últimos tempos, para minha agradável satisfação. Não porque a minha mente ficou mais aberta a novas experiências, ou porque a minha sensibilidade artística tenha ficado mais refinada, mas porque, julgo eu que não sou especialista na matéria, a dança contemporânea se foi adaptando à própria contemporaneidade lusitana. De repente, os coreógrafos deixaram de conceber produtos extraordinariamente eruditos e

ALGARVE INFORMATIVO #84

sofisticados, apenas para cabecinhas ultra pensadoras, começaram a ir recuperar as raízes e tradições portuguesas, a misturá-las com os sons e movimentos da atualidade, e o resultado parece estar a agradar bastante ao público português. A mim, pelo menos, proporcionou-me recentemente duas excelentes noites a assistir a dança contemporânea, algo que seria impensável há meia dúzia de anos. A primeira aconteceu em outubro, no Auditório Municipal de Olhão, com a «Terra Chã» da Companhia de Dança Contemporânea de Évora, onde Nélia Pinheiro combinou o cante alentejano com os sonetos de Florbela Espanca e a dança contemporânea, e que bela noite foi. A força das palavras de Florbela Espanca transmitida pelos movimentos e expressões faciais dos bailarinos da companhia, um cenário a transportar-nos para os campos agrícolas alentejanos, a música moderna mixada com o cante alentejano. Uma noite, sem dúvida, muito bem passada. Embalado pela boa experiência, não hesitei em rumar, na noite de 18 de novembro, a Loulé para assistir a «Fica no Singelo», da Companhia Clara Andermatt. Desta vez, o desafio era trazer as danças e músicas tradicionais portuguesas, as tais que estamos habituados a ver em ranchos folclóricos, para a dança contemporânea. Mais uma vez, cenário envolvente, com tudo à vista, os instrumentos, as cadeiras, as roupas espalhadas pelo chão, ninguém saia e entrava de cena para trocar de figurino. A música ambiente dava lugar à música interpretada e cantada ao vivo, pelos músicos e pelos próprios bailarinos. Os ritmos começavam lentos, subiam de tom, tornavam-se frenéticos, colocando em palco todas as nossas raízes. E eu dava por mim de máquina em punho, no fundo da plateia, a dançar ao ritmo da música enquanto tirava fotografias. E o público, não duvido, também ia mexendo as pernas nas suas cadeiras, com os fandangos, os corridinhos, as valsas mandadas, numa roupagem século XXI irresistível. No fim, largos minutos com casa cheia, toda de pé, a bater palmas de forma entusiástica, sem querer deixar os bailarinos sair de cena. Afinal, a dança contemporânea até é boa, sai eu do Cine-Teatro Louletano a pensar .

8


9

ALGARVE INFORMATIVO #84


Mulheres bombeiro de todo o país reuniram-se em São Brás de Alportel São Brás de Alportel foi palco, no dia 12 de novembro, do V Encontro Nacional Mulher Bombeiro, uma jornada de convívio que incluiu uma tertúlia, um passeio pela beleza e história do concelho algarvio e um almoço convívio que, como de costume, se prolongou pela tarde adentro. Um merecido momento para enaltecer o empenho e a dedicação que estas mulheres, esposas, mães, donas de casa, profissionais liberais, empresárias, dão à sociedade civil no seu dia-a-dia, de sorriso nos lábios e sem pedirem nada em troca. Texto:

Fotografia:

ALGARVE INFORMATIVO #84

10


O

Algarve recebeu pela primeira vez, no dia 12 de novembro, um encontro nacional da mulher bombeiro e a quinta edição deste evento trouxe mais de duas centenas de mulheres a São Brás de Alportel, provenientes de todos os pontos de Portugal Continental e, inclusive, do Arquipélago dos Açores. O encontro, organizado pela Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de São Brás de Alportel, assinalou o fim de um ano intenso de trabalho operacional, marcado por diversas vicissitudes que todas estas mulheres encaram com garra, competência e muita coragem no desempenho do seu serviço como bombeiras. O primeiro momento do dia teve como palco o Cineteatro São Brás, onde as participantes prestaram uma sentida homenagem à companheira Dulce Serra, que faleceu, em fevereiro deste ano, vítima de complicações pós-parto. Logo após, subiram ao palco as entidades oficiais para darem início formal ao Encontro, com o presidente da Assembleia Geral dos Bombeiros Voluntários de São Brás de Alportel, Tomás Nunes, a lembrar que esta associação é pioneira na integração de mulheres no seu corpo ativo. “É uma das poucas corporações do país que já teve uma mulher a liderar a sua direção. Aqui, ser mulher, ser bombeira, nas suas diversas funções, é constituir um pilar essencial para o seu engrandecimento, para o seu enriquecimento humano. Tenham orgulho nas vossas fardas, que nós temos muita honra em ter-vos connosco”, frisou.

Tomás Nunes

Acácio Martins

11

ALGARVE INFORMATIVO #84


A antiga presidente da Direção dos Bombeiros de São Brás de Alportel, Nídia Amaro

Para o Presidente da Direção da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de São Brás de Alportel, Acácio Martins, a presença de elementos femininos nos corpos de bombeiros é cada vez mais uma realidade positiva e necessária, refletindo o equilíbrio que também se alcança, todos os dias, na estrutura da sociedade. “Traduz o empenho crescente das mulheres no voluntariado, que antes possuía um domínio excessivamente masculino. Todos os dias, a qualquer hora do dia ou da noite, as mulheres bombeiro têm a missão de arriscar a própria vida para salvar os outros e têm vindo, igualmente, a ocupar novas posições nos bombeiros, em funções de chefia, de comando e nos órgãos dirigentes”, destacou Acácio Martins, indicando que a direção desta associação é constituída por cerca de 40 por cento de mulheres. ALGARVE INFORMATIVO #84

O também Vereador da Câmara Municipal de São Brás de Alportel recordou que os quartéis de antigamente dos bombeiros só tinham condições para integrar homens e que, neste concelho, a camarata feminina só surgiu em 2005, pelas mãos da Presidente de Direção da época, Nídia Amaro. “As mulheres são uma maisvalia dentro de um corpo de bombeiros, pela sua sensibilidade, pela sua entrega e pela sua forma de estar, que influenciam comportamentos e promovem um bom ambiente”, considerou ainda. “O espaço de igualdade e justiça na comparação entre homem e mulher ganha-se com a pro-atividade, a integração e o respeito pelo próximo, independentemente do género, crença ou religião. O caminho de todos os bombeiros é exigente e com muitos desafios pela frente, mas nada é mais gratificante do que a 12


entrega total à tarefa tão nobre de ser voluntário pela paz e pela vida do próximo”. Fazendo uso de dados de dezembro de 2015 da Liga dos Bombeiros Portugueses, Vítor Martins, Comandante do Corpo de Bombeiros Voluntários de São Brás de Alportel, indicou existirem 460 corpos a nível nacional, compostos por 30 mil operacionais, entre os quais seis mil mulheres, a que apelidou de «supermulheres». “Carregam o peso da responsabilidade nos ombros e, mesmo assim, ostentam o sorriso mais genuíno no rosto, por saberem que são capazes de tudo, todos os dias”, justificou, antes de passar a palavra a David Gonçalves, presidente da Junta de Freguesia de São Brás de Alportel, que depressa destacou a passagem de Nídia Amaro pelos bombeiros são-brasenses. “A mulher bombeiro simboliza o esforço e a dedicação à causa e tem exatamente o mesmo valor que os seus colegas masculinos”, reforçou. A abertura oficial do V Encontro Nacional da Mulher Bombeiro terminou 13

Vítor Martins

David Gonçalves

Vítor Guerreiro

ALGARVE INFORMATIVO #84


A vereadora Marlene Guerreiro conduziu a tertúlia «Nós Somos Mulher Bombeiro»

com a intervenção de Vítor Guerreiro, presidente da Câmara Municipal de São Brás de Alportel, que prontamente aceitou o desafio de se trazer este evento para o concelho, deixando uma palavra de apreço e gratidão à comissão organizadora. “Espero que passem aqui momentos felizes, inesquecíveis, de partilha, alegria e convívio. Ser bombeiro não é uma tarefa fácil, ser mulher bombeiro, certamente que é ainda mais difícil, porque é sobre vós que recai normalmente a responsabilidade de gerir a casa e os filhos, mas vocês conseguem conciliar tudo isso. São um grande exemplo que deve ser seguido por todas as pessoas e nós, autarcas, sem dúvida que temos a vida mais facilitada por contarmos com as corporações de bombeiros”, sublinhou Vítor Guerreiro.

«Nós Somos Mulher Bombeiro», com algumas convidadas especiais a abordarem os desafios inerentes às funções em áreas tão distintas como um comando distrital, uma equipa especial de bombeiros ou o mundo de uma equipa sapadoura. Após a tertúlia, seguiu-se um passeio pelo Centro Histórico de São Brás de Alportel e a manhã terminou com um almoço convívio no Quartel de Bombeiros, onde se procedeu igualmente à entrega dos prémios referentes ao Concurso «Mostra Fotográfica». Imagens que já receberam milhares de visualizações e apreciações na internet e que traduzem fortemente o carisma destas mulheres e homens que diariamente estão ao serviço de todas as comunidades, na prestação dos cuidados do socorro e salvamento .

O evento prosseguiu com a realização de uma tertúlia subordinada ao tema ALGARVE INFORMATIVO #84

14


15

ALGARVE INFORMATIVO #84


ALGARVE INFORMATIVO #84

16


17

ALGARVE INFORMATIVO #84


ENTREVISTA

RICARDO MELO GOUVEIA QUER SER O NÚMERO 1 DO MUNDO TEXTO E FOTOGRAFIA: DANIEL PINA Ricardo Melo Gouveia é o primeiro golfista português de sempre a participar no mítico DP World Tour Championship, no Dubai, Emirados Árabes Unidos, que reúne os 60 golfistas mais bem classificados do European Tour e alguns praticantes internacionais. Carimbado está também o passaporte para a edição de 2017 do European Tour mas se, hoje, o algarvio é um valor confirmado , em junho de 2015, Ricardo Melo Gouveia ainda era apenas uma estrela em ascensão. Este é mais um episódio da caminhada para o centenário, em que recordamos a entrevista publicada no número 18 da Revista Algarve Informativo.

ALGARVE INFORMATIVO #84

18


19

ALGARVE INFORMATIVO #84


R

icardo melo gouveia quer ser, dentro de alguns anos, o número 1 do ranking mundial de golfe e, apesar de estar atualmente no 195.º lugar (30 postos acima de Tiger Woods), parecem não restar dúvidas de que, salvo algum contratempo de grande dimensão, possui argumentos para andar pelo topo da nata mundial. Isso mesmo atestam a vitória no torneio do Challenge Tour realizado em Griesbach, na Alemanha, e o segundo lugar alcançado logo na semana seguinte, desta vez no torneio disputado na Eslováquia, a que se soma outra vitória no Challenge Tour em finais de 2014. Dois excelentes resultados que garantem, quase que a 100 por cento, a presença no European Tour, a liga dos campeões do golfe do velho continente, na próxima temporada, mas o jovem de 23 anos que ALGARVE INFORMATIVO #84

trocou Lisboa pelo Algarve com apenas três anos de idade, quer terminar a época do topo do Challenge Tour, posição que ocupa de momento. Depois de um treino logo pela manhã no Oceânico Laguna, com os amigos Ricardo Santos e Pedro Figueiredo, aproveitámos um descanso nas horas de maior calor para ficarmos a conhecer um pouco melhor Ricardo Melo Gouveia, que estudou em Faro até ao 12.º ano, antes de rumar aos Estados Unidos da América para se formar em Gestão. Concluído o curso, regressou ao Algarve em meados de 2015 e tornouse profissional de golfe, logo com resultados positivos. “Fiz o meu percurso enquanto jovem no Clube de Golfe de Vilamoura e, aos 11 anos, 20


comecei a integrar as seleções nacionais, mas foi nos Estados Unidos que dei um maior salto enquanto golfista”, explica, reconhecendo que não era um craque enquanto jovem. “Tinha ganho o campeonato nacional de amadores em 2009 mas as principais conquistas aconteceram em final de setembro, início de outubro, do ano passado, quando fiquei em segundo lugar na primeira fase, em primeiro na segunda fase das Escolas de Qualificação e ganhei um torneio do Challenge Tour”, indica. Golfe que surgiu por influência do pai, que sempre tinha praticado desporto em Lisboa e, quando a família se mudou para o Algarve, decidiu experimentar esta modalidade. Ricardo Melo Gouveia ia atrás e via-o a bater bolas com grande entusiasmo, até que o pai lhe deu uns tacos para tentar a sua sorte, aos seis anos. Sobre o salto evolutivo que deu na estadia em terras do Tio Sam, atribui à sua maior maturidade como pessoa e não à existência de melhores condições de treino. “Aprendi a viver sozinho, a desenrascar-me por mim próprio e, na segunda universidade onde estive, encontrei um treinador bastante bom que me ensinou coisas a que, até à data, não dava a devida importância. São pormenores que ainda estou a aperfeiçoar e que me ajudaram imenso no meu jogo”, enaltece. Óbvio que nem todos os amadores, por muito talento que tenham, conseguem fazer a transição com sucesso para o escalão dos profissionais e Ricardo Melo Gouveia teve a sorte de ter à sua volta uma equipa com fisioterapeuta, 21

preparador físico, treinador, gerente de carreira. “Está tudo muito bem estruturado e isso permite que eu me foque apenas no golfe e que consiga atingir os melhores resultados. A passagem para profissional exige alguns sacrifícios financeiros e o meu pai foi fundamental quando ainda não tinha patrocinadores. Só graças a ele é que consegui ir disputar torneios no estrangeiro antes de começar a ganhar dinheiro para pagar eu próprio as viagens e alojamento”, salienta o jovem, acrescentando que os objetivos já estavam definidos há bastante tempo e que nunca pensou em permanecer como amador por anos a fio. “Sempre quis fazer carreira do golfe e o meu pai deu-me o empurrão financeiro inicial, mas felizmente que os resultados apareceram logo em 2015. Hoje, apesar de ainda viver em casa dos meus pais, sou financeiramente independente”. Um apoio inicial que não esteve condicionado pelo sucesso escolar, esclarece Ricardo Melo Gouveia, ainda que os pais sejam apologistas de que educação nunca é demais, opinião essa partilhada pelo entrevistado.

Passaporte carimbado para o European Tour Ricardo Melo Gouveia queria ser profissional de golfe e sonha ser o número 1 do mundo, mas tal exige mais do sacrifícios financeiros. Nada de noitadas com a namorada e os amigos, álcool e tabaco são proibidos, uma alimentação saudável e ALGARVE INFORMATIVO #84


equilibrada é regra de ouro, descansar o suficiente, proteger o corpo sempre que possível e, como é óbvio, estes cuidados não são para ter apenas em semanas de torneios. “Quando se quer muito uma coisa, esses fatores não são um problema. O Algarve é conhecido pela animação noturna e pelas praias, distrações não faltam, é uma realidade, mas eu sou uma pessoa bastante focada e dedicada, seio o que quero para o meu futuro e não me custa nada estar aqui o dia todo a treinar. O mais complicado é mesmo o calor intenso, mas treino logo de manhãzinha até às 10h, 10h30, 11h, depois faço a preparação física no ginásio e descanso um pouco nas horas de maior calor e, ao final do dia, regresso ao campo”, descreve. ALGARVE INFORMATIVO #84

Dedicação e cabecinha no sítio não faltam a Ricardo Melo Gouveia, mas o próprio ficou surpreendido com a rapidez com que surgiram as primeiras vitórias em torneios importantes. “Tornei-me profissional em julho e ganhei logo um torneio do Challenge Tour, o que não é habitual. Fui jogando cada vez melhor, tenho-me mantido sempre no topo e, este ano, os resultados já não causam tanta surpresa. Mostrei à concorrência que tenho jogo para vencer de forma consistente e estou confiante que vou atingir as metas definidas”, indica, acrescentando que terminou 2015 em 47.º lugar do ranking do Challenge Tour porque jogou apenas nove torneios, ao passo que os outros golfistas disputaram mais de duas dezenas. “Este ano estou em primeiro do ranking e estou, virtualmente, no European Tour na próxima temporada”. A subida à Liga dos Campeões do Golfe é, como se adivinha, a grande ambição de todos os profissionais, mas tal não é fácil, assegura Ricardo Melo Gouveia, seja qual caminho se siga. “Se ficarmos nos 15 primeiros lugares do Challenge Tour, a segunda divisão, conseguimos o cartão do European Tour. A outra forma é passar pela Escola de Qualificação, composta por três fases, e os primeiros 25 no final também sobem. Eu já tenho 84 mil euros e, nos últimos quatro anos, o 15.º classificado do Challenge Tour andava pelos 78 mil, portanto, em princípio, já estou garantido no European Tour”, revela, orgulhoso, ao mesmo 22


tempo que avisa que a competitividade é muito mais feroz no resto da Europa. “Em Portugal há diversos jogadores de qualidade mas, lá fora, a quantidade é bastante maior, o que torna mais difícil o ganhar torneios e ter acesso ao European Tour. É preciso todas as semanas jogar muito bem durante quatro dias para se vencer, as coisas felizmente têm-me corrido bem e acredito que os meus colegas portugueses também têm qualidade para isso”. Ricardo Melo Gouveia está consciente, porém, que o golfe é feito de boas e más fases e nada garante que consiga manter este nível exibicional para sempre, o que obriga a um trabalho constante e a um aperfeiçoamento contínuo. “O ideal é prolongar as boas fases o máximo de tempo possível e ultrapassar rapidamente as más fases”, afiança, aproveitando para sublinhar o apoio que a Federação 23

Portuguesa de Golfe tem prestado para o fomentar desta modalidade nas novas gerações e combater o rótulo de desporto elitista. “Há já alguns anos que a FPG vai às escolas e centros comerciais realizar workshops para divulgar o golfe e nós também temos que contribuir nessa matéria, atingindo bons resultados para que os mais jovens se sintam motivados para seguir as nossas pisadas”.

O sangue novo da Team Portugal Já lá vai então o tempo em que um jovem tinha que fazer a sua caminhada além-fronteiras para se tornar um golfista de elite, como foi o caso de Filipe Lima, mas Ricardo Melo Gouveia entende que o meio empresarial tem que se chegar mais à frente e apoiar os ALGARVE INFORMATIVO #84


atletas quando estes ainda não são estrelas. “Senti bastante dificuldades em arranjar patrocínios quando passei para profissional e fica-se com a sensação de que, em Portugal, há medo de correr riscos. Faltam pessoas com mais visão e vontade de arriscar para ajudar os jogadores jovens e muitos não fazem a transição de amador para profissional por falta de suporte financeiro. Uma semana no Challenge Tour custa entre 1500 e dois mil euros e nem todas as famílias têm possibilidade de assumir essas despesas para os seus filhos”, constata o número 1 do ranking. O problema é que, mesmo que os atletas consigam pagar do seu bolso a participação em alguns torneios, ir a todos já é praticamente impossível, o que os coloca de imediato em desvantagem perante a concorrência, pois têm menos hipóteses para conquistar os pontos necessários para escalarem no ranking. “O golfe é um desporto que vai crescer cada vez mais em Portugal e queremos ter mais jogadores no topo, ao contrário do que tem sucedido no passado recente. Enquanto estávamos nas seleções nacionais, as despesas eram todas da responsabilidade da FPG e, se assim não fosse, eu, o Pedro Figueiredo, o Ricardo Santos e outros não teríamos tido oportunidade para ganhar experiência internacional e crescer como atletas. Só que, quando acabava o amadorismo, não havia uma continuidade desse apoio”. E é precisamente para facilitar esta transição que surgiu o TEAM PORTUGAL, um projeto da Federação Portuguesa de Golfe que ajuda os jogadores no plano ALGARVE INFORMATIVO #84

financeiro e a arranjar-lhes convites para participarem em torneios internacionais. “O João Carlota é um membro a tempo inteiro, eu estou envolvido mais numa visão de promoção lá fora, mas são iniciativas desta natureza que precisamos no nosso país. Se não houver apoios, o desporto em Portugal continuará a ser todo ofuscado pelo futebol”, desabafa Ricardo Melo Gouveia numa rara semana livre de torneios, mas a agenda será ainda mais preenchida quando estiver a competir no European Tour. “Os campos são, no geral, mais difíceis e isso vai requerer, não que trabalhe mais, mas que afine pormenores que são essenciais para me conseguir manter nesse patamar. Estou no primeiro lugar do ranking do Challenge Tour e o intuito é terminar a época no topo da classificação, porque as pessoas só se vão lembrar de quem acabou em número 1 e isso também influencia a nível de confiança e de patrocínios”, justifica, concluindo: “O meu objetivo é competir o máximo de tempo possível, ao mais alto nível, tenho o apoio total da minha família, da minha equipa técnica e da minha namorada, que tem desempenhado um papel fundamental na minha carreira e me tem dado uma estabilidade emocional bastante importante. Estou no caminho certo, estou a trabalhar bem, sei o que preciso fazer para melhorar o meu jogo e a meta é ser o melhor do mundo” . A caminho do centenário: Entrevista publicada no número 18 da Revista Algarve Informativo, em 26 de junho de 2015 24


25

ALGARVE INFORMATIVO #84


ALGARVE INFORMATIVO #84

26


27

ALGARVE INFORMATIVO #84


Três anos de Vítor Guerreiro e sua equipa ao leme de São Brás de Alportel Cumpriram-se, no passado dia 18 de outubro, três anos que Vítor Guerreiro assumiu a presidência da Câmara Municipal de São Brás de Alportel, motivo pelo qual o edil e seus vereadores – Marlene Guerreiro e Acácio Martins – convidaram a comunicação social para um breve balanço de como tem corrido a gestão autárquica neste período. Uma conversa informal onde não faltaram alguns temas quentes que marcam a atualidade de São Brás de Alportel, mas os elementos do executivo municipal a tudo responderam de forma pronta e transparente. Texto:

Fotografia:

ALGARVE INFORMATIVO #84

28


O

presidente da Câmara Municipal de São Brás de Alportel, Vítor Guerreiro, acompanhado pelos vereadores Marlene Guerreiro e Acácio Martins e pelo presidente da Junta de Freguesia de São Brás de Alportel, David Gonçalves, recebeu diversos elementos da comunicação social para fazer uma breve análise do ano 2016, das obras em curso e dos projetos em andamento, mas também do que está na calha para o derradeiro ano do mandato. Uma conversa informal, entre um copo de sumo de laranja natural e um doce local, onde depressa ficou evidente que o apoio às famílias é uma prioridade para a autarquia são-brasense, comprovado por medidas como o «Vale + Natalidade», através do qual se atribuíram vales a cerca de 50 famílias cujos filhos nasceram no concelho; ou o «Vale + Educação», com o apoio inicial a todos os jovens do 1.º ciclo a ser alargado em 2016/2017, passando a abranger todas as crianças inscritas no 1.º e 2.º ciclos, num total de mais de mil vales entregues; mas também pela redução de IMI para as famílias. Reforçado foi o projeto «Mão Amiga», com o objetivo de dar mais dignidade e conforto às casas de quem mais precisa. “A construção de sanitários, o arranjo de telhados e a adaptação das casas para pessoas com mobilidade reduzida são algumas das intervenções prioritárias deste programa que já chegou a 30 famílias, num investimento que ronda os 150 mil euros”, revelou

29

Vítor Guerreiro, lembrando ainda que, nestes três anos, foram também atribuídas 14 casas a famílias carenciadas do município. Alargou-se igualmente a resposta da Loja Social, com entrega de alimentos e bens de primeira necessidade a cerca de 200 famílias, já para não esquecer o Banco Municipal de Medicamentos, o Fundo Social de Emergência e a abertura do Balneário Social. São Brás tem procurado, no passado recente, ser acessível para todos e exemplo disso são os mais de cinco quilómetros de passeios acessíveis, o circuito acessível na Escola Secundária José Belchior Viegas e na Escola EB 2,3 Poeta Bernardo de Passos, as passadeiras acessíveis no Parque Escolar, bem como noutros pontos do concelho, e a plataforma acessível no emblemático Jardim da Verbena. Não admira, por isso, que São Brás tenha conquistado o Prémio Nacional de Mobilidade em Bicicleta, em 2016. No âmbito das Comemorações do Centenário do Município foram concretizadas diversas iniciativas (exposições de rua, um ciclo de conferências, mais de uma dezena de publicações de autor e o Encontro «São Brás de Alportel: Tradições e Memórias») e dinamizou-se a recriação histórica «São Bráz d’Alportel 1914 – Uma Viagem no Tempo», que veio para ficar, com periodicidade bienal, integrando, em 2017, o Programa Cultural 365 Algarve. “Mas também organizamos

ALGARVE INFORMATIVO #84


O presidente da Câmara Municipal de São Brás de Alportel, Vítor Guerreiro

mais um Calçadas – A Arte sai à rua, uma noite com uma atmosfera especial, celebrada no mês de agosto, com momentos de música, dança, contos, fotografia, pintura e artesanato, entre muitas outras manifestações artísticas. É um evento que tem como objetivo dar a conhecer a riqueza criativa da comunidade sãobrasense e abrir as portas do burgo antigo da vila”, destacou Vítor Guerreiro, voltando a enfatizar a aposta da autarquia na divulgação de criações artísticas e espaços de cultura e o apoio na organização de eventos culturais. Ainda em torno do património, desta vez do edificado, nota de realce para a aprovação da Área de Reabilitação Urbana (ARU) no Centro Histórico de São Brás de Alportel, que disponibiliza ALGARVE INFORMATIVO #84

um instrumento útil para todos os atores locais e potenciais investidores, assumindo-se como ponto de partida para um novo ciclo a nível de planeamento e gestão urbanística do Centro Histórico. “Acima de tudo, com a delimitação da ARU, pretende-se reforçar a atratividade e qualidade deste espaço nobre da vila. O Plano de Ação e Regeneração Urbana (PARU) de São Brás de Alportel foi aprovado recentemente, com financiamento de 65 por cento pelo Programa Operacional Regional CRESC Algarve 2020 e é o terceiro do Algarve com maior dotação financeira”, salientou o edil. A requalificação do Largo de São Sebastião, que teve início no dia 16 30


de novembro, é o primeiro projeto a ser concretizado, com um custo total de 315 mil e 450,94 euros, a que se seguirá a requalificação do 1.º troço da Avenida da Liberdade, no final de 2017, e a requalificação da Rua Gago Coutinho, prevista para o ano de 2018. Entre os projetos previstos no plano estão ainda a reabilitação do quarteirão 4 Olhos, na Avenida da Liberdade, a valorização do Miradouro do Adro da Igreja, as obras de conservação de edifícios do Centro Histórico e um conjunto de intervenções de reabilitação por parte de proprietários particulares também do Centro Histórico.

Atentos à qualidade ambiental e eficiência energética Mais obras foram concluídas em 2016, no âmbito do Projeto Memórias da Terra «Da fonte Nova ao Lavadouro», nomeadamente as reabilitações na Fonte Velha (Campina), Fonte do Concelho (Mealhas), Poço Madruga (Parises), Fonte Nova e Lavadouro (Centro Histórico), Poço Novo (Parises), Fonte da Várzea do Velho e Fonte do Corgo dos Griséus (Parises), Pocinho do Monte e Fonte do Cerro do Malhão (Cabeça do Velho) e Fonte do Ti Viegas (Javali). Foram ainda criados percursos pedestres no Peral e Javali e reparado o antigo Calvário em Desbarato, num investimento superior a 150 mil euros, com financiamento de 60 por cento proveniente de fundos comunitários do PRODER. Mas 2016 viu também o término da última fase da Circular Norte

31

– Fase 3.2, no valor de 997 mil euros, com financiamento comunitário a 65 por cento, assim ficando concluído o anel de circulação. A autarquia são-brasense continua, entretanto, a investir na qualidade ambiental e na eficiência energética, com a aprovação da candidatura «Promoção da Reciclagem Multimaterial e Valorização Orgânica de Resíduos Urbanos» ao Programa Operacional Sustentabilidade e Eficiência no Uso de Recursos – POSEUR, cujo principal objetivo é o incremento da recolha seletiva de resíduos no concelho. O investimento, superior a 449 mil euros, contará com um financiamento de 85 por cento e prevê a aquisição de equipamentos diversos e a realização de campanhas de Educação Ambiental. Realce ainda, nesta matéria, para a aquisição de uma nova frota de veículos ecológicos, com nove bicicletas disponíveis nos diversos serviços da autarquia, a aquisição de nova viatura de recolha de resíduos e a instalação de painéis de energia solar em todos os equipamentos municipais e no Parque Escolar. Estando inserido em plena Serra do Caldeirão, a prevenção de incêndios florestais é encarada com seriedade pela autarquia, que continua a investir no Plano de Ação na Prevenção de Incêndios Florestais, composto por 15 eixos principais que visam prevenir potenciais situações de risco. “Este plano reflete um trabalho contínuo coordenado pelo

ALGARVE INFORMATIVO #84


Os vereadores Acácio Martins e Marlene Guerreiro

Gabinete Municipal de Proteção Civil e Defesa da Floresta, em estreita proximidade com a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários, a Guarda Nacional Republicana e a Associação de Produtores Florestais da Serra do Caldeirão, uma parceria fundamental nesta missão”, explicou o vereador Acácio Martins, que realçou o protocolo firmado com o Exército – Regimento de Infantaria n.º 1 de Tavira, desde 2013, o Plano de Estabilização de Emergência e a manutenção e ampliação da rede de caminhos na zona serrana. Na vertente do empreendedorismo, a Câmara Municipal de São Brás de Alportel definiu um conjunto de apoios que cede às empresas e empresários locais no segmento de promoção e divulgação. Nota mais para o Gabinete ALGARVE INFORMATIVO #84

do Empreendedor, serviço municipal gratuito que presta apoio e acompanhamento aos empreendedores locais, mas muitos eventos são organizados ao longo do ano para a promoção do desenvolvimento económico e turístico do concelho, entre eles a Noite de Prata e a Noite Vermelha e, sobretudo, a Feira da Serra. O maior evento de promoção da cultura, gastronomia, tradições e projetos inovadores na região celebrou, este ano, as bodas de prata com um recinto alargado, novos espaços de animação e bastantes novidades e, em 2017, deverá ser alargado para quatro dias. “Muitos dos nossos produtores e empresas dão-se a conhecer neste grande 32


certame e abrem, dessa forma, a sua carteira de clientes, arranjando negócios para todo o ano. Começamos a ser cada vez mais procurados por turistas e para isso temos que agradecer também ao tecido empresarial, por apostarem em produtos e serviços diferenciados que captam visitantes. São Brás de Alportel possui cerca de 400 camas em alojamento local, o que é bastante positivo para a dimensão do nosso concelho”, frisou Vítor Guerreiro. Turismo que não tem praia, mas tem natureza e saúde, gastronomia e cultura, com Marlene Guerreiro a assegurar que São Brás de Alportel não pretende tornar-se um destino de massas. “Em São Brás não há época baixa, não há um restaurante ou alojamento que feche, temos uma procura constante e equilibrada, o que é bastante importante para a economia local. E muitos dos turistas que nos visitam acabam por se tornar residentes, o que nos honra imenso”, indicou a vice-presidente da Câmara Municipal.

Enfoque no Desporto e Educação São Brás de Alportel foi um dos concelhos pioneiros a implementar o Orçamento Participativo e, depois de concluída a requalificação da Entrada Nascente (obra vencedora em 2015), vai avançar em breve o Parque das Amendoeiras, na Avenida da Liberdade, que foi o projeto vencedor na edição de 33

2016 e concretizará um novo espaço verde no coração da vila. “Quanto à edição deste ano do Orçamento Participativo, o projeto vencedor foi a nova fase da execução da Rede de Passeios Acessíveis, envolvendo as Ruas Machados dos Santos e Matos Proença, numa intervenção que vem alargar a zona de circulação para pessoas com mobilidade condicionada no centro urbano”, adiantou Vítor Guerreiro. No campo do desporto muito tem sido feito nestes três anos, como a construção do skate parque, do Street Workout «Parque das Águas» e da pista de atletismo em terra batida, tendo sido apresentado recentemente o projeto «Semear o Boccia». E, do desporto para a edução, a manutenção do Parque Escolar tem sido constante em São Brás de Alportel, com aquisição de novos equipamentos e melhorias em todos os estabelecimentos de ensino do concelho. “A autarquia adquiriu também cinco viaturas destinadas ao sector da educação, cultura e serviços gerais, no valor global de 165 mil e 190,50 euros, para garantir um transporte de qualidade e segurança a centenas de crianças e jovens. É de referir que a carrinha destinada ao Projeto «Livros sobre Rodas» desempenha um importante papel na promoção do livro e da leitura, tornando mais próxima esta oferta”, salientou Vítor Guerreiro. E para que muito do que é feito seja possível, o executivo municipal não ALGARVE INFORMATIVO #84


esqueceu o importante contributo do associativismo local, de modo que, em 2016, foram atribuídos mais de 300 mil euros a 15 associações locais, bem como apoio logístico e de transporte para inúmeras iniciativas. Do mesmo modo, o município disponibilizou mais seis espaços físicos para o alojamento da Associação das Terras e das Gentes da Dieta Mediterrânica, Xdream Blasius, Grupo de Aceleras de São Brás de Alportel e ao Bike Clube de São Brás de Alportel, Cante Andarilho e aos Marafados do TT. Depois de aprovado em reunião de Câmara Municipal, o Orçamento para 2017 de São Brás de Alportel deverá rondar os 12 milhões de euros, com algumas «bolsas» para conseguir agarrar oportunidades de investimento quando elas aparecem. “É pouco, mas conseguimos continuar a fazer obra e honrando sempre os nossos compromissos financeiros, porque só fazemos aquilo que sabemos que temos dinheiro para pagar”, apontou o presidente da autarquia. Nem tudo são rosas, contudo, e Vítor Guerreiro reconhece que há algumas questões que continuam a preocupar o executivo por si liderado, mas que fogem à sua área de intervenção. “Uma delas é o funcionamento do Centro de Medicina e Reabilitação do Sul e temos estado em diálogo direto, desde setembro, com o Ministro da Saúde, que nos garantiu que a unidade de saúde é uma prioridade para o governo e que deve laborar a 100 por cento. Está a definir o modelo de gestão, já mandou abrir os concursos para a aquisição de

ALGARVE INFORMATIVO #84

ajudas técnicas e de material médico e já fez o levantamento dos grandes investimentos que devem ser efetuados no Centro. Até provas em contrário, as coisas estão no bom caminho e esperemos que, até final do ano, seja apresentado o modelo de gestão e o CMR Sul volte a funcionar na sua plenitude”, revelou Vítor Guerreiro.

34


Outra preocupação prende-se com a requalificação da EN 2 e a ligação de São Brás de Alportel à Via do Infante, com a retificação de algumas curvas, a colocação de rotundas na zona dos Machados e do Corro da Burra. “É uma batalha essencial para o desenvolvimento do concelho, porque são nove quilómetros de curvas”, reforça o autarca, falando igualmente 35

dos projetos para se melhor aproveitar o Parque de Manobras do Instituto da Mobilidade e dos Transportes localizado no concelho. Após a conversa com a comunicação social, seguiu-se um passeio em bicicleta elétrica pelas principais ruas da vila, com as energias recuperadas logo de seguida com o almoço no Restaurante Sabores do Campo .

ALGARVE INFORMATIVO #84


ALGARVE INFORMATIVO #84

36


37

ALGARVE INFORMATIVO #84


Procuro consciência cívica! Sabem onde está?... Paulo Cunha

C

usta-me ir atrás de «cidadãos», seja a pé ou locomovido, e vê-los deitar para o chão aquilo que depois de utilizado, e já sem utilidade, se tornou lixo, conspurcando assim corredores, elevadores, passeios, caminhos, estradas e jardins. Custa-me ver «cidadãos» a levar os seus «animais de estimação» à rua para dejetarem as fezes que, entregues à sua sorte, irão ser pisadas por incautos e distraídos transeuntes. Custa-me ver «cidadãos» a atirar pelas janelas das suas casas, «restos» e beatas que sujarão as varandas dos vizinhos que, não tendo culpa do efeito da força da gravidade, receberão do «céu» as indesejadas oferendas. Custa-me ver as finas areias e as cálidas águas da orla marinha, manchadas e cobertas de matérias e materiais expelidos e abandonados por grupos de «cidadãos» que, individual ou corporativamente, usam o mar como tapete para esconder a sua porcaria não biodegradável. Custa-me constatar que, conhecendo o efeito dos gases nocivos que são enviados para a atmosfera, continuamos a eleger «cidadãos» que patrocinam e potenciam tais atos, como se o amanhã não importasse. Enfim… custa-me viver entre gente que pela sua total falta de cumprimento dos deveres de cidadania, apenas usa o epíteto de cidadão por usufruir dos seus direitos! Perante tantas discrepâncias entre o que é defendido pelos teóricos e ideólogos da Escola Democrática como sendo as premissas básicas para o desenvolvimento e formação interpessoal/social dos cidadãos e o que é, quotidianamente, observado na prática e na vivência diária entre várias gerações, coloca-se a questão sobre o que é que está a correr mal na passagem e assimilação dos pressupostos e do conteúdo da mensagem. Por isso se pretende e deseja que a Educação para a Cidadania capacite as novas gerações a saberem ouvir; a saberem debater/argumentar; a autodisciplinarem a sua participação; a aceitarem pontos de vista diferentes dos seus; a interpretarem reações; a serem sensíveis a sentimentos; a evitarem situações de conflito; a negociarem; a resolverem conflitos; a criarem empatia com os outros; a analisarem pontos fracos/pontos fortes nos outros; a apreciarem

ALGARVE INFORMATIVO #84

qualidades e competências; a trabalharem com os outros; a partilharem saberes; a empenharem-se na resolução de dificuldades dos outros; a cooperarem na busca de soluções para situações ou problemas; a participarem em projetos coletivos; a avaliarem criticamente o desempenho dos outros; a adaptarem-se a situações comunicacionais diversas; a relacionarem-se corretamente com os seus pares e com os adultos; a consciencializarem-se da importância do indivíduo no bem-estar coletivo; a serem sensíveis ao sofrimento físico e emocional; a aceitarem a diferença; a implicarem-se na defesa do ambiente; a tomarem posição perante as agressões ao ambiente; a participarem na definição de regras de funcionamento e convivência; a descobrirem a importância ou a simbologia das heranças culturais da sua comunidade; a compreenderem o funcionamento e a finalidade de instituições ou organizações. Posto isto, ponho-me a pensar para que servirão tantos, tão importantes e inestimáveis objetivos comportamentais, quando o atual ensino centrado no “saber para o ter”, por oposição ao “saber para o ser”, não lhes dá o devido crédito e valor? Para que se sintam mudanças relevantes e consequentes nas nossas vidas é necessário redefinir e recentrar as prioridades familiares e sociais. Porque nada acontece por acaso e tudo aquilo que nos apoquenta e nos “tira do sério” acaba por ser o efeito da erosão e do descrédito a que hoje chegou o ensino de, e para os valores. Pois é… a falta de cultura cívica custa-me e também a muitos de vós que, “comendo e não gostando”, lá vamos calando e, assim, consentindo. Se todos fizermos a nossa (pequena) parte no seio familiar, as consequências, por certo, far-se-ão sentir de forma efetiva e consequente na interação social de todos nós. Para que, de uma vez por todas, deixemos de barafustar e maldizer as razões que nos afastam e possamos - finalmente - louvar os ideais solidários que nos aproximam… Os tais que nos farão reencontrar o prazer de viver em comunidade!.

38


39

ALGARVE INFORMATIVO #84


Costa Pinheiro: Figurações Mirian Tavares Exposição na Galeria TREM De 24 de novembro a 3 de fevereiro de 2017

O

aluno, muito admirado, pergunta: mas ele é mesmo o Costa Pinheiro, autor daquela imagem do Fernando Pessoa que tinha no meu livro do Liceu? O curso de Artes Visuais da UAlg tinha sido criado há um ano e contávamos, entre os professores, com a presença do artista Costa Pinheiro que, generosamente, aceitou partilhar connosco aquela recém-iniciada aventura. Durante os anos em que deu aulas, parecia um miúdo a mais entre os alunos e alunas que chegavam entusiasmados. Andava por ali a orientá-los, a questioná-los e a provocar cada um deles com propostas, com ideias de ocupação de espaço público, com planos que se tornavam objetos artísticos. Muitos dos alunos não faziam ideia que tinham à sua frente um dos maiores artistas portugueses do séc. XX um homem cuja obra o ultrapassou, porque se confundiu com a própria história de um país que crescia e que mudava.

anos 70 retoma a pintura e cria as séries mais emblemáticas que fazem parte do imaginário de Portugal, desde efígies de reis às personificações do grande fingidor Fernando Pessoa. Talvez o artista encontrasse no poeta uma tradução possível de si mesmo. Expor a sua obra é uma maneira de homenageá-lo pelo seu trabalho como artista e como pedagogo, no sentido mais literal do termo: preceptor, aquele que conduz às crianças à escola. Costa Pinheiro conduziu muitos alunos e alunas, e conduziu também, de forma discreta, pequenas-grandes revoluções artísticas que marcaram o seu tempo e que perduram na sua obra. Que é intemporal e que permanece. Porque ele será sempre o artista e o autor das imagens que ilustravam livros do liceu e que tanta admiração provocava entre os alunos e que tanta admiração provoca entre aqueles, que como nós, temos o privilégio de (re)visitar as suas inesquecíveis figurações .

A sua pintura, e as suas ideias, eram grandes demais para um país que naqueles anos 60 vivia sob a ditadura salazarista. Mudou-se para Munique onde passou da pintura gestual para uma figuração discreta, quase geométrica, que viria a marcar a sua pintura até ao fim da vida. No final dos anos 60, abandona por uns tempos o suporte que ainda hoje o identifica, a tela, e investe num universo mais conceptual, criando cidades imaginárias e móveis, como se fossem brinquedos que os habitantes, qual crianças, reconstruíam e remontavam à sua maneira. O projeto Citymobil era uma utopia que foi muito bem aceite pela crítica, e pela Academia alemã, que reconheceu muito cedo o grande artista e pensador. Na segunda metade dos

ALGARVE INFORMATIVO #84

40


41

ALGARVE INFORMATIVO #84


O assalto ao Algarve; os juros da dívida portuguesa e o «declínio» da democracia Cristiano Cabrita REGIONAL - FACTO DA SEMANA:

O

Algarve prepara-se para ser, novamente, assaltado. Perdoem-me a metáfora, mas é a melhor maneira que tenho para descrever o que o próximo Orçamento de Estado reserva para esta região, no que concerne ao alojamento local (AL). Como é do domínio público, o OE 2017 aumentará o imposto sobre os AL de 0,15 para 0,35, supostamente para «harmonizar» os regimes de tributação do arrendamento para turistas e do arrendamento habitacional. Primeiro ponto: comparar o tipo de serviço que é prestado pelos AL com o arrendamento tradicional é, pelas razões sobejamente conhecidas, uma perfeita distorção. Segundo ponto: abordar juridicamente este assunto, sem atender às especificidades do Algarve, é outro erro. Na verdade, nos últimos dois anos, cerca de metade dos 34 mil novos registos dos AL tiveram origem na região algarvia. A legalização desta actividade teve duas consequências muito simples: aumento da receita fiscal e aumento da qualidade dos serviços oferecidos ao turista. Ora, o Governo quer agora a meio do jogo mudar as regras e castigar centenas de empresários algarvios que, na sua maioria, gerem negócios de carácter familiar. É caso para dizer: mãos ao alto, isto é um assalto! NACIONAL - FACTO DA SEMANA: Há quem defenda que a notícia mais importante desta semana é o facto do produto interno bruto (PIB) português ter crescido 1,6% no terceiro trimestre deste ano, face ao período homólogo de 2015. Eu não partilho deste ponto de vista, nem entro em exaltações desmesuradas. Desde logo, porque o Governo havia sublinhado que a economia cresceria 2,6% em 2016 devido ao aumento do consumo interno. Ficou, portanto, aquém das expectativas. Depois, porque em termos práticos é preciso analisar esta questão com ponderação. Há que tentar perceber se este crescimento é sustentado ou se é residual. Ou seja, o aumento das exportações de bens e serviços é sinal de vitalidade económica ou é apenas um efeito colateral de uma expansão atípica? Dou o exemplo do aumento das receitas provenientes do Turismo (que no Inverno tendem a baixar) ou a exportação de energia para Espanha e França (que diminuirá assim que sejam resolvidos os problemas de controlo ambiental que actualmente assolam as 21 das 58 centrais nucleares localizadas naqueles países).

Em segundo lugar, o crescimento das exportações é fruto de política governamental (essencial para perceber se existe continuidade) ou resulta apenas do esforço das empresas nacionais? Em terceiro lugar, que tipo de consumo privado é este? E o investimento? Vamos, então, esperar para analisar com outro rigor os dados avançados pelo INE. Prossigamos com o sinal mais relevante da semana, que passou despercebido para a maioria das pessoas: no que concerne ao rendimento das obrigações do Tesouro a 10 anos, os juros da dívida portuguesa atingiram ontem um novo máximo de nove meses cifrando-se nos 3,84%. Este sim, é um dado importante e… preocupante. INTERNACIONAL - FACTO DA SEMANA Preocupo-me, também, com a existência de condições fracturantes que são desfavoráveis para a democracia. Não, não tem nada a ver com o que sucedeu nos EUA, embora a nova Administração Trump possa vir a contribuir para esta fractura. O debate sobre o «declínio» da democracia já dura há uma década e está, em parte, relacionado com o ressurgimento dos autoritarismos, do terrorismo internacional, do fundamentalismo islâmico e do extremismo religioso. Na minha perspectiva, o problema não está (somente) nestes «inimigos externos». No limite, assistiu-se a um decréscimo da «qualidade da democracia» no ocidente. Os cidadãos sentem-se cada vez mais alheados deste processo com reflexos efectivos: as taxas de abstenção nas eleições são na ordem dos 50%; a falta de legitimidade democrática da União Europeia gera desconfiança; o crescimento da extrema-direita na Europa é real; a crise dos refugiados continua; o discurso populista ganha fôlego e o erguer de uma cortina de «veludo» pela Rússia, no leste europeu, faz-nos recuar ao período da guerra-fria. Enfim, preocupo-me. Destaque da semana Positivo: Portugal foi eleito, pela 3ª vez consecutiva, o melhor destino de golfe do Mundo. Para isso, muito contribuíram os campos de Golfe do Algarve, nomeadamente o resort Quinta do Lago, que foi considerado, pela segunda vez consecutiva, o melhor Venue de Golfe da Europa. Negativo: Miguel Veiga, um dos fundadores do PSD, deixou-nos. Fica a sua memória pelo que fez em prol da liberdade e da democracia. Um abraço e até para a semana .

ALGARVE INFORMATIVO #84

42


43

ALGARVE INFORMATIVO #84


Como o tempo, cinzento António Manuel Ribeiro

Q

uando George W. Bush ganhou pela primeira vez a presidência americana em 2001, o semanário Expresso tinha uma coluna dedicada aos seus dislates sob o título «Bushices», e recordo uma em que o PR americano dizia: “Se isto fosse uma ditadura era mais fácil governar”. Sem esquecer a forma vergonhosa como foi reeleito em 2005, quando a contagem dos votos foi suspensa na Florida, governada pelo irmão, e ele ganhou por uma unha negra – nos EUA a democracia tem leituras apropriadas ao momento, incluindo o colégio eleitoral espécie de filtro para manter muito igual. Bem gritou Neil Young “Lets’ Impeach The President” no disco «Living With War» (2006), tendo como resultado directo a proibição do CD em algumas cadeias de vendas de discos. A América é assim, a maior democracia do mundo, dizem. E é, em tamanho. Ganhou o Trump, habituemo-nos às Trumpices. O problema não é o homem, é o estado a que isto chegou, lá, por cá e um pouco por aí, gente vulgar a ocupar o lugar. Trump reflecte o american dream, o tipo que faz fortuna, aproveitou as oportunidades (não se sabe sobre quantos esqueletos) e por essa via é famoso e aceite – chegar à Casa Branca faz parte de alguns trajectos, ontem Bush, hoje Trump. Foi o americano médio, pobre e vergado ao sonho do burro com uma cenoura à frente que o elegeu. É assim por muitos outros locais, a democracia funciona, claro, mas reflecte o seu pior, a mediocridade, o alheamento, o basismo e o direito de tudo isto ser exercido. Oiço que o homem não está preparado, parece que não, apesar da fanfarronice na entrevista ao «60 Minutes». Mas como muitos daqueles que construíram fortuna cilindrando o território à volta, não precisa, e se precisar compra. São as corporações que vão continuar a governar a América, e quando algo sair dos eixos o congresso votará com o cruzamento de votos o consenso, se necessário for.

ALGARVE INFORMATIVO #84

Quem deu a vitória a Trump foi a América profunda, mulheres incluídas e até a população negra, que ele tanto atacara – o marketing faz o resto –, o povo dos estados empobrecidos e endividados, que viram as suas indústrias serem deslocalizadas para a China e conhecem o desemprego e a miséria – Phillipp Meyer em «Ferrugem Americana» (Bertrand, 2009), traça um retrato terrífico de um país em decomposição – que esperam que as coisas voltem a ficar nos sítios certos. Ficarão? A América quer sonhar que é possível e um nãopolítico entoou o que a maioria queria ouvir traduzido em alguma esperança. Nada a estranhar, foi o medo. Como a América não é só as elites de Nova Iorque e Los Angeles, Trump ganhou. Foi o partido democrata, Hillary Clinton, que deu a vitória a Trump, mas tenho dúvidas que se ela tivesse ganho notaríamos diferenças além das bordoadas. Nunca gostei de Obama, de quem tantos pensadores lusos já sentem saudades. Não vi diferença, vi continuidade e adiamentos. Obama parecia uma máquina de ressonância vocal, um ventríloquo, se preferirem. Guantanamo continua no mesmo sítio e Putin cresceu sem uma conferência entre homens crescidos. As guerras continuam em todo o globo, Obama foi um moderado incapaz. As saudades que lhe dispensam revelam que o mal menor leva a essa incógnita que deu a Casa Branca a um homem de sucesso que sabe como ludibriar legalmente a máquina dos impostos. Nada mal como currículo. Hoje não indico um disco mas uma discografia, a de Leonard Cohen. Não sei se a tenho toda, incluindo o último são 17. Mais três livros. E uma nota final: é triste a pobreza intelectual destas homenagens. Cansa, alguns dias depois, referirem o cantautor canadiano como génio, poeta, filósofo, eterno apaixonado e etc, quando a sua obra, muito regular apesar da idade, estar esquecida nas ondas da rádio .

44


45

ALGARVE INFORMATIVO #84


Como lidar com as reclamações dos clientes Augusto Lima

S

upostamente, os donos, gerentes e responsáveis vários dos ERB (Estabelecimento de Restauração e Bebidas), seriam aqueles que deveriam saber como o negócio deles deveria se comportar, ter noção do que se passa, da forma como é servido, de que é feito, como está confecionado. Por isto tudo afirmo que o cliente nem sempre tem razão ou deveria. Mas não pense que tudo está bem, se não se recebe reclamações. Até pode estar, mas muitos clientes insatisfeitos não reclamam diretamente e vão gastar na próxima vez o seu dinheiro na concorrência e até podem falar mal desse negócio, ajudando a sua má reputação. Desculpas não se dão, evitam-se, diz-se, mas em caso de reclamação pessoal, aceite a crítica como uma dádiva, pois clientes insatisfeitos ajudam-nos a melhorar. Reclamação é sinónimo de insatisfação, mas não necessariamente o fim do mundo ou a possibilidade de perder o cliente. Saber lidar com a crítica, de receber uma reclamação, de a incentivar até, é um aspeto importante e muito descorado pelos responsáveis dos ERB. Em primeira instância, a reclamação é ouvida pelo profissional de mesa, que deve estar preparado para a receber de forma prazenteira e instruído para responder, antes de ouvir, rebatendo se necessário de forma assertiva com informação profissional, o que demonstra sempre, profissionalismo, conhecimento e preparação, qualidades que o cliente admira, espera e procura. O valor das relações humanas é, inequivocamente, a diferença entre o cliente, após reclamar, voltar ou não o fazer, podendo até ir mais longe, utilizando a internet para desabafar e quase sempre de modo dilatado no que diz respeito á verdade.

Deve sempre: Saber ouvir – compreender a razão da reclamação; Com calma explicar se possível e sempre com a verdade o porquê do problema; Nunca ser agressivo. Com isso, perderia qualquer razão; Não dar razão sem razão, explicando com conhecimento de causa o porquê do sucedido; Dar sempre uma solução – saber negociar é a solução imprescindível para a satisfação do cliente. Depois de servir a encomenda, pergunte sempre se está tudo bem, mas não o faça com a atitude de quem o faz por fazer. Pergunte a opinião dele, cliente. Se gosta da forma como o prato está cozinhado, se o uso dos temperos agrada, se a temperatura da comida é a que mais gosta, se costuma comer sempre o mesmo, se gosta de surpresas. Tudo isto deixará o profissional de mesa em posição de, num próximo pedido ou mesmo visita do cliente, o poder satisfazer e ajudar de forma a conseguir uma qualidade superior. Cliente satisfeito não reclama. Sugere . (Presidente da Associação dos Cozinheiros e Pasteleiros do Algarve)

Como deve então o profissional de mesa agir?

ALGARVE INFORMATIVO #84

46


47

ALGARVE INFORMATIVO #84


Paula Vicente lidera Escola de Hotelaria e Turismo do Algarve no arranque de um novo ciclo Paula Vicente é, desde 1 de setembro, a nova Diretora da Escola de Hotelaria e Turismo do Algarve e começou o exercício das novas funções logo com uma boa notícia: o brilharete que quatro alunos fizeram nos XXIX Concursos Europeus de Hotelaria e Turismo. Mas também com as obras que estão a requalificar e modernizar diversas zonas da casa-mãe desta prestigiada escola, em Faro. O início de um novo ciclo que coincide com um dos melhores momentos de sempre do turismo algarvio e, já se sabe, não basta ter bom clima, paisagens deslumbrantes e infraestruturas de luxo à espera dos turistas, é preciso ter profissionais de excelência para os receber. E grande parte deles sai, sem dúvida, dos polos de Faro, Portimão e Vila Real de Santo António da Escola de Hotelaria e Turismo do Algarve. Texto:

Fotografia:

ALGARVE INFORMATIVO #84

48


49

ALGARVE INFORMATIVO #84


P

aula Vicente assumiu a direção da Escola de Hotelaria e Turismo do Algarve no passado dia 1 de setembro, coincidindo precisamente com o arranque do ano letivo 2015/2016. Uma casa que conhece há década e meia, pelo que não lhe foi estranho o excelente desempenho protagonizado recentemente pelos alunos Mariana Rita, Mircea Coban, Duarte Oliveira e Alexandra Martins, na 29ª Edição dos Concursos Europeus de Hotelaria e Turismo, organizados pela AEHT – Associação Europeia de Escolas de Hotelaria e Turismo. “Foi uma forma bastante agradável de começar o ano letivo, com três alunos de Faro e uma aluna de Vila Real de Santo António a conquistarem duas medalhas de ouro e duas de prata. Quando vamos às competições internacionais, queremos que eles façam sempre o seu melhor e que deixem uma boa imagem e estes quatro prémios dão-nos muito orgulho, porque realçam a qualidade da formação das nossas escolas, o empenho dos alunos e o trabalho de equipa que aqui é realizado”, reconhece a diretora, após uma breve visita guiada às obras que estão em curso na unidade de Faro. Os prémios conquistados pelos alunos da EHTA têm sido muitos, de facto, ao longo dos anos, numa instituição de créditos reconhecidos internamente e além-fronteiras, de modo que as vagas disponíveis para os vários cursos são normalmente preenchidas na totalidade. Um crescendo de interessados e candidatos que é confirmado por Paula Vicente. “Este ano temos 17 turmas, 340 alunos só aqui na escola de Faro, o que significa que as pessoas reconhecem o ALGARVE INFORMATIVO #84

nosso valor e também a necessidade de formação na área do turismo. O curso mais procurado continua a ser o da Cozinha, mas tem crescido bastante a vertente de Receção e Housekeeping, assim como da Restauração e Bebidas. Também temos muitos candidatos que procuram a área do Turismo, cursos de ano e meio com uma componente prática bastante importante”, descreve. A maioria dos cursos são de nível 4, ou seja, para alunos que chegam com o 9.º ano de escolaridade e que, após três anos de aprendizagem, ficam com a equivalência ao 12.º ano e acesso ao ensino superior ou à profissão que escolheram, mas existem também cursos de nível 5, de especialização tecnológica pós-12.º ano de escolaridade, lembra Paula Vicente. “Pessoas das mais variadas formações académicas, que têm cursos, licenciaturas e mestrados, que já estiveram no mercado de trabalho e que decidem voltar a estudar, durante ano e meio, findo o que, às vezes, até fazem uma reconversão profissional, mudam o rumo à sua vida”, observa a entrevistada. “Alguns cursos são vocacionados para quem trabalha neste ramo e pretende requalificar-se, outros são para o público em geral, para os amadores que querem fazer um workshop de cozinha para fazer uma surpresa lá em casa”, exemplifica. Longe vai o tempo, porém, em que os cursos de nível 4 eram a solução perfeita para os alunos que não encaixavam bem no ensino formal e que viam, assim, uma maneira menos 50


complicada de concluírem o ensino secundário. “Aqui não facilitamos, é um engano completo pensar-se que é mais simples tirar o 12.º numa escola de hotelaria e turismo. Os alunos têm muitas disciplinas e um sistema de avaliação das aprendizagens que é rigoroso, portanto, se se descuidarem, se não tiverem um bom aproveitamento, a conclusão do curso fica mais dificultada. É fácil para quem está focado, para os miúdos que sabem que têm que trabalhar arduamente para conseguirem depois uma profissão de qualidade”, afiança a diretora. “São muitas horas na escola e têm dois estágios de junho a setembro, ou seja, enquanto os amigos estão na praia, durante o Verão, eles estão a trabalhar. Mas ficam com outra componente prática, conhecem a realidade das empresas e do setor e fortalecem as suas competências”, acrescenta. 51

Prática e teoria que são igualmente importantes e cruciais, frisa Paula Vicente, não sendo possível ser um bom profissional se não se dominar ambas as vertentes, dai haver um equilíbrio entre as duas em todo o plano curricular da Escola de Hotelaria e Turismo do Algarve. “Para além disso, trabalhamos muito com eles no plano das soft skills – a imagem, a apresentação, a hospitalidade, o receber os clientes. Nem tudo é português, matemática ou inglês, preto no branco, há um conjunto de pormenores que vamos desenvolvendo com eles porque, no fundo, eles são bastante novos, chegam aqui com 14 ou 15 anos”, justifica. Sendo a oferta pedagógica rica e abrangente, há também a preocupação de que esteja atualizada, até porque ALGARVE INFORMATIVO #84


estamos perante profissões onde os conhecimentos científicos, as ferramentas e os métodos de trabalho têm evoluído bastante no passado recente. Isso mesmo confirma Paula Vicente, com o Departamento de Formação do Turismo de Portugal a estar, presentemente, a avaliar e rever todos os conteúdos pedagógicos. “Este ano letivo iniciámos, por exemplo, o francês como segundo idioma, para responder às necessidades do mercado de trabalho, da mesma forma que, no passado, isso tinha acontecido com o espanhol. Somos flexíveis e queremos acompanhar a mudança, as coisas não podem parar no tempo”, salienta.

Ninguém começa a carreira por cima Faro é, sem dúvida, a casa-mãe da Escola de Hotelaria e Turismo do Algarve, ALGARVE INFORMATIVO #84

mas os polos de Portimão e Vila Real de Santo António nunca foram, nem serão, negligenciados ou colocados em segundo plano. Prova disso é que a Escola de Portimão deverá mudar de edifício num futuro próximo, para se dar melhores condições aos alunos, docentes e funcionários. No que toca à oferta formativa, o nível 4 é igual nas três escolas, com as diferenças a notarem-se, essencialmente, nos cursos vocacionados para quem já possui a escolaridade mínima obrigatória. “A escola de Faro, por uma questão de dimensão, consegue abrir mais cursos, e mais variados. Portimão abre sempre a Gestão Hoteleira, Restauração e Bebidas, tem uma grande tradição nessa área e estão a fazer um excelente trabalho. Em Vila Real de Santo António, por outro lado, apostamos sempre em Gestão e Produção de Cozinha. Acabamos por dar cobertura a todo o Algarve de uma 52


forma equilibrada”, considera Paula Vicente. Convém frisar que os alunos da Escola de Hotelaria e Turismo do Algarve chegam de todos os pontos do país, para o que ajuda o facto das unidades de Faro e Portimão terem residência escolar. Depois, findos os três anos de formação, a empregabilidade está praticamente assegurada, com cerca de 87 por cento dos alunos a terem um posto de trabalho à sua espera, às vezes até garantido aquando do estágio de Verão do segundo ano de curso. E isto porque os empresários já perceberam que não basta ter um destino de eleição e infraestruturas, hotéis, restaurantes, de qualidade, há que ter também recursos humanos de excelência. “É essa a função da EHTA, colocar no mercado de

trabalho pessoas que enalteçam o nosso turismo e a nossa região. Têmse dinamizado inúmeras atividades e iniciativas para se combater a sazonalidade e para atrair visitantes durante o Inverno e isso obriga os estabelecimentos a ter funcionários o ano inteiro e a prolongar-se a nossa época alta. Há muita gente com contratos até final de novembro, o que significa que a atividade ainda mexe”, verifica, com satisfação. Paula Vicente dá o exemplo do evento que a EHTA vai realizar nos próximos dias, o «III Tourism Trade Show», reconhecendo que, em anos anteriores, havia dificuldade em ter empresários locais presentes por já terem encerrado a sua época. “Este ano, temos mais de 40 expositores de

O auditório da Escola de Hotelaria e Turismo do Algarve, em Faro, preparado para receber um grupo de visitantes

53

ALGARVE INFORMATIVO #84


A azáfama é constante na cozinha da Escola de Hotelaria e Turismo do Algarve

muitas áreas da hotelaria e turismo, o que demonstra que ainda estão abertos e com as suas equipas em atividade”, afirma a entrevistada. O que se nota, contudo, é que a procura de profissionais qualificados está a ser maior do que a capacidade de resposta das escolas de hotelaria, existindo algumas áreas mais carentes, para além de surgirem novas funções à medida que a própria indústria vai evoluindo. “Na Alojamento fazem falta pessoas nas vertentes dos Andares, Receção e Housekeeping, com competências específicas e atuais. Para a Restauração e Bebidas também pedem bastante gente”, indica.

diretor de hotel ou chefe de cozinha. “É fruto da juventude chegarem cá com expetativas elevadas e esperamos que atinjam todos os seus objetivos, mas é uma caminhada que demora alguns anos a percorrer. Acabamos por puxá-los um bocadinho para a terra para perceberem que, se um dia quiserem saber mandar, primeiro têm que saber fazer”, aponta Paula Vicente, garantindo que, face à componente prática dos cursos, os alunos depressa constatam que têm mesmo que começar do zero e que todas as peças da máquina são importantes.

Mudança de mentalidade nota-se, entretanto, nos próprios alunos, que sabem que não podem começar uma carreira por cima, logo pelo cargo de

Alunos não faltam e formadores também não, com uma equipa de formadores internos nas áreas da Cozinha e do Restaurante/Bar, a que

ALGARVE INFORMATIVO #84

54


se juntam outros contratados para cada ano letivo. “Não gostamos de estar sempre com as mesmas pessoas, porque elas também têm as suas vidas para lá da Escola, por isso, apostamos regularmente em sangue novo. Alguns dos novos formadores até são exalunos, conhecem bem a cultura desta casa, fizeram um percurso muito interessante no mercado de trabalho, em Portugal e no estrangeiro, e agora querem transmitir essa experiência aos mais novos”, destaca a Diretora da Escola de Hotelaria e Turismo do Algarve, cujas instalações se encontram, conforme referido anteriormente, em remodelações. “O edifício é do Séc. XVI, o que, por si só, obriga a uma forte manutenção. Desta feita, estamos a realizar intervenções nas instalações da área técnica, da cozinha, do internato

55 55

dos alunos. Depois dessas obras, teremos melhorias na decoração do restaurante e do bar de aplicação e da receção”, adianta. “Estamos aqui há 20 anos e queremos dar um ar novo à nossa escola. É um novo ciclo”. Cuidados que são importantes porque a Escola não está fechada sobre si mesma, recebendo diversos eventos de empresas e de organismos públicos, para além de promover alguns dias temáticos de portas abertas à comunidade. “Se aceitássemos todos os pedidos que recebemos, todos os dias teríamos serviços dessa natureza, mas isso não se coaduna com a atividade letiva, que tem timings que devem ser respeitados. Mas são muitos os almoços, apresentações de produtos,

ALGARVE ALGARVEINFORMATIVO INFORMATIVO#84 #84


Um dos quartos da estalagem da Escola de Hotelaria e Turismo do Algarve, em Faro

seminários e a nossa estalagem tem 14 quartos, que também foram recentemente remodelados”, revela a entrevistada. Está mais que visto que estes jovens alunos estão num contato permanente com o mundo exterior, em contexto real de trabalho, não admirando, por isso, o brilharete que fazem nos concursos internacionais e a sua rápida empregabilidade. “Esta abertura permite que tenham uma tamanha prática que eles nem se apercebem. Na semana passada tivemos cá um grupo de 120 franceses e eles tiveram, claro, que praticar o francês. Esta semana já tivemos um grupo de suecos, e isto vale ouro para eles”, reconhece, aproveitando para abordar outra novidade do presente ano letivo, o

ALGARVE INFORMATIVO #84

«Senior Tourism Academy». “É uma aposta do Turismo de Portugal que existe nas 12 Escolas de Hotelaria e Turismo, destinado a pessoas com mais de 55 anos que têm disponibilidade e interesse em fazer mais alguma coisa. São várias propostas de formação de curta duração em áreas transversais como o empreendedorismo, as redes sociais, a higiene e qualidade de vida, entre outras”. Quanto ao futuro, a grande prioridade é abrir ainda mais a escola ao mercado e dar a conhecer o que é feito no seu interior. “Este é um trabalho contínuo que já vem detrás, que está a dar frutos, e queremos que os empresários saibam que estamos cá para os apoiar” .

56


57

ALGARVE INFORMATIVO #84


ALGARVE INFORMATIVO #84

58


59

ALGARVE INFORMATIVO #84


História trágica de Catarina Eufémia no Teatro Lethes Estreou, no dia 18 de novembro, a 71ª produção da ACTA – A Companhia de Teatro do Algarve, que recorda a trágica morte de Catarina Eufémia, ceifeira assinada por um tenente da GNR, em pleno Estado Novo, na sequência de uma greve de assalariadas rurais. Mais de 60 anos volvidos, Luís Vicente inspirou-se num poema de Sophia de Mello Breyner, desafiou o escritor Jacinto Lucas Pires e estava criado o enredo de «Catarina». Texto:

Fotografia:

ALGARVE INFORMATIVO #84

60


61

ALGARVE INFORMATIVO #84


A

ACTA – A Companhia de Teatro do Algarve leva a cena, pelas mãos de Luís Vicente, mais uma extraordinária produção, a 71ª da sua longa história de sucesso, intitulada «Catarina» e que transporta a assistência para o pico do Estado Novo, mais concretamente para a Primavera de 1954, para os escaldantes campos de trigo de Baleizão, distrito de Beja. Com a plateia do Teatro Lethes a ser totalmente removida para dar lugar a um palco de maior dimensão, à imagem das arenas da antiguidade, o público está sentado nos camarins que circundam o centro da ação e assistem de perto à história de Catarina Eufémia, ceifeira de 26 anos, analfabeta, mãe de três filhos.

ALGARVE INFORMATIVO #84

Uma mulher igual a tantas outras, com a diferença que esta insurgiu-se contra o regime salazarista e reivindicou, para si e para as suas colegas, o mesmo salário que auferiam os homens. Na sequência de uma greve de assalariadas rurais, acabou por ser assassinada a tiro por um tenente da GNR, tornando-se num ícone do Partido Comunista Português da resistência no Alentejo ao antigo regime. A ideia de pegar nesta história já andava a matutar a cabeça de Luís Vicente há algum tempo, o desejo de relacionar o desiderato trágico de Catarina Eufémia e Antígona de Sófocles, explicado em certa parte pelo poema de Sophia de Mello Breyner

62


de nome, precisamente, «Catarina Eufémia», e que recordava que o primeiro tema da reflexão grega era a justiça. O passo seguinte foi falar com o escritor Jacinto Lucas Pires, perguntar-lhe se estaria interessado em elaborar um texto sobre o tema, e a resposta não tardou, aliás, disse-lhe logo que não era necessário contatar mais ninguém. “Uns tempos depois, mandou-me 11 páginas de texto, era mesmo o que pretendia, e fomos trabalhando em conjunto. Alterou-se muito pouco, foram-se apenas acrescentando alguns pormenores ao longo da narrativa que ele escreveu, não mais do que isso, porque houve um entendimento perfeito acerca do assunto desde o primeiro instante”, salienta Luís Vicente, diretor da ACTA e encenador de «Catarina». O entusiasmo em torno de «Catarina» depressa alastrou ao elenco, o que fez com que o espetáculo crescesse de forma bastante rápida e sem sobressaltos. Uma empatia com a personagem que levou mesmo vários atores a visitar Baleizão, a terra de Catarina, onde tudo aconteceu. “Vieram de lá com a confirmação do que já tínhamos sentido durante os ensaios, que se vivia ali uma energia diferente.

63

ALGARVE INFORMATIVO #84


Não estamos propriamente interessados em traçar a história de uma camponesa, analfabeta, de 26 anos, que foi assassinada por um tenente da GNR durante o período da ditadura salazarista. Se a Catarina era militante ou não do PCP é um problema de outra ordem, para nós, a real questão é o que esta heroína trágica significa no quadro da justiça, ou na ausência dela, e isso é um problema de todos os tempos”, considera o experiente ator. Um tema, de facto, bastante atual, talvez mais do que se poderia imaginar, e Luís Vicente apenas pretende fornecer mais um elemento para a reflexão sobre esta matéria. “Há uns anos, quando encenei a «Antígona»,

ALGARVE INFORMATIVO #84

com o texto do Sófocles e uns acrescentos da María Zambrano, já estava em causa a conflitualidade entre o direito natural e o direito legislado. Na «Catarina», emerge um outro tipo de problemática em relação à justiça, porque nós seguimos a padronização que está instituída e a Catarina rebelou-se contra uma situação. A figura central da oposição dela era o latifundiário, curiosamente, veio a morrer nos braços do latifundiário, com este a dizer ao tenente da GNR: ‘o que é que você me fez? Desapareça já daqui que já matou uma mulher, o que quer fazer mais?’. É este tipo de conflitualidade que nos interessa explorar”, explica o entrevistado.

64


Descortinar os limites do ser humano na afirmação da justiça, ou na sua ausência, é algo que nunca será consensual, mas isso não impede de Luís Vicente de ter as suas opiniões, e bem fortes, recordando-se, de imediato, das palavras do presidente do conselho de administração de um dos grupos económicos mais poderosos do mundo. “Quando esta «besta» diz que é o banqueiro que faz o trabalho de Deus, há aqui uma soberba que importa corrigir. Uma pessoa destas tem que ser afastada, do meu ponto de vista, do convívio da humanidade. Não significa isto que tenhamos que estar sempre todos de acordo uns com os outros, que haja uma uniformização nos olhares e pontos de vista, mas alguém que diz aquilo não tem o direito de fazer parte do mesmo universo que eu faço”,

65

dispara, enquanto, nos bastidores, se afinavam as vozes para o ensaio geral.

Um espetáculo para refletir, não para divertir «Catarina» é, pois, uma peça à imagem da ACTA, muito longe do entretenimento preferido por outros encenadores, comparação que causa logo uma subida de voz em Luís Vicente. “O divertimento não faz parte do meu universo, detesto espetáculos divertidos. O divertimento causa-me aborrecimento, tédio, eu quero peças com conteúdo”, esclarece, embora não tenha nada contra quem opta por conceber produtos mais popularuchos e para as massas. E, apesar da crise que continua a

ALGARVE INFORMATIVO #84


afetar a cultura em Portugal, «Catarina» é uma grande produção, com 24 pessoas em cena, mais uma égua, a que se somam seis técnicos. “Só conseguimos fazer isto porque há trabalho pro bono, e muito bom, nomeadamente do António Alves Pereira, um maestro absolutamente extraordinário que sabe disto como eu próprio não imaginava que ele soubesse. Participam também alunos do curso de Artes, na vertente de Interpretação, da Escola Tomás Cabreira. A égua tem vindo a ser treinada há dois meses para vir para aqui e foi o Centro Hípico Equinostrum que nos facilitou tudo isso, não só com o animal, mas com o instrutor”, destaca. Rostos conhecidos de outras peças vão-se ver em cena no Teatro Lethes, casos de Luís Vicente, que desempenha o papel do famigerado Tenente da GNR, Elisabete Martins, Glória Fernandes e Luís Manhita, a que se juntam as canções interpretadas ao vivo das «Moçoilas». Quanto a «Catarina», é interpretada pela bracarense Ana Cris. “Não é muito conhecida, mas é bastante respeitada e conceituada no teatro, com um currículo admirável, apesar de só ter 27 anos”, indica, acrescentando que o espetáculo estará em exibição até 4 de dezembro, de quinta-feira a domingo, num total de 11 ALGARVE INFORMATIVO #84

66


representações. Uma futura tournée é que se afigura mais complicada, devido às questões logísticas que o envolvem. “Este espetáculo esteve para estrear no Dona Maria II, depois no Teatro da Trindade, mas chegamos à conclusão que não era possível, porque a remoção da plateia é uma coisa bastante complicada e com custos muito agravados. Também não é fácil acomodar um animal nestes espaços, portanto, optamos por fazê-lo apenas no Lethes”, sublinha o entrevistado. Colocando de parte todas estas considerações técnicas e as habituais dores de cabeça dum diretor de companhia teatral, Luís Vicente mantém todo o entusiasmo em torno de «Catarina», até porque muitos dos

67

jovens que participam nele nunca tinham ouvido falar em Catarina Eufémia e na sua relação com Antígona, que foi abordada por Sophia de Mello Breyner. “Não é um espetáculo que vise fazer uma apologia política no sentido estrito do termo, o que me interessa é perceber o tipo de relação que existe entre estas duas heroínas trágicas no contexto em que vivemos atualmente, em que medida é que isto nos pode esclarecer acerca de alguns problemas que assolam a nossa vida. E também é importante não radicalizarmos os pontos de vista e termos uma atitude aberta sobre as coisas porque, no fundo, o que todos nós procuramos, todos os dias, é justiça, justiça, justiça…” .

ALGARVE INFORMATIVO #84


ALGARVE INFORMATIVO #84

68


69

ALGARVE INFORMATIVO #84


Danças e músicas tradicionais portuguesas transportadas para os tempos modernos

ALGARVE INFORMATIVO #84

70


O Cine-Teatro Louletano recebeu, no dia 18 de novembro, mais uma estreia absoluta em palcos algarvios, desta vez do consagrado espetáculo «Fica no Singelo», da Companhia Clara Andermatt. Ao longo de 75 minutos, as danças e músicas tradicionais portugueses apresentaram-se com uma roupagem mais contemporânea e, no final, o público foi desafiado a abandonar o papel de simples espetador e participar num baile com os profissionais desta nobre arte. Texto:

71

Fotografia:

ALGARVE INFORMATIVO #84


A

prestigiada Companhia Clara Andermatt trouxe, no dia 18 de novembro, ao CineTeatro Louletano, o aclamado espetáculo de dança e música «Fica no Singelo», que estreou em finais de 2013 e foi rapidamente considerado pela crítica, e pelo público, como uma das propostas artísticas mais importantes e consistentes apresentadas em Portugal nos últimos anos na área da dança contemporânea. O projeto surgiu da vontade em trabalhar as danças e músicas tradicionais portuguesas e dar-lhe uma vertente mais atual, mas também tudo o que se relacionasse com a cultura popular, as celebrações ALGARVE INFORMATIVO #84

72


religiosas, toda a sonoridade e musicalidade existente no trabalho rural e muito mais. “Reuni um grupo de bailarinos e de músicos e enveredámos por esta viagem às nossas raízes”, indica a bailarina e coreógrafa. “Vimos muita coisa, debruçamonos bastante sobre o espólio que o Jacobetty deixou e transportamos tudo para os dias atuais, para a nossa geração. Na sua essência e alma, as coisas são as mesmas, aquilo que os encontros e os bailes proporcionavam também acontece nos tempos modernos”, explica Clara Andermatt. O sucesso, esse, foi instantâneo, o público aderiu bastante,

73

ALGARVE INFORMATIVO #84


ALGARVE INFORMATIVO #84

74


identificando-se com o conceito de «Fica no Singelo», com a alma do espetáculo, com as memórias enraizadas do corridinho, do fandango, das valsas mandadas de Melides. “Viajamos para uma vertente contemporânea, mas as nossas raízes permaneceram evidentes e as pessoas reconhecem o que estão a observar em palco”, justifica, satisfeita por verificar que muitas danças do antigamente continuam a cativar os mais novos, como se constata pela adesão das novas gerações aos Ranchos e Grupos Folclóricos. “Acho que a «PédeXumbo» teve um papel fundamental, com o seu festival «Andanças», para reviver de uma outra maneira uma tradição que, a nível da dança e do folclore, estava um pouco compartimentada e estereotipada. Sentimos, de uma forma transversal, que as pessoas estão a dar mais valor ao nosso património, às nossas tradições, e

75

a tentar descortinar onde está o seu conteúdo mesmo verdadeiro, que tem a ver com a alegria e a comunhão”, considera a entrevistada. Olha-se, então, de modo mais ativo e participativo para a nossa história, para um passado que não está morto, antes pelo contrário, está vivo, em crescimento, em desenvolvimento, na opinião de Clara Andermatt. Claro que, quando se recuperam as tradições e se tenta dar-lhes uma «roupagem» mais moderna, à século XXI, há sempre alguns puristas que não acham grande piada à ideia, mas isso não se passou com «Fica no Singelo», acredita a responsável da companhia. “Naturalmente que haverá algumas críticas à transformação que fizemos, mas o que sentimos da parte do público é uma vontade sintomática de

ALGARVE INFORMATIVO #84


que as coisas perdurem e de uma maneira que nos entra diretamente na alma. Tivemos o cuidado de não levar o espetáculo para um sítio abstrato e, efetivamente, conhece-se e reconhece-se a sua origem. As coisas estão lá, identificadas, e até são digeridas e apreendidas de uma forma mais epidérmica, que nos toca”, descreve, sorridente. Uma «reviravolta» que segue na mesma direção, não para um lugar indefinido, porque as tradições não podem ficar no esquecimento, ou numa vitrine, fora do alcance do cidadão comum, da pessoa anónima. Aliás, no final de «Fica no Singelo» acontece um baile onde todos podem experimentar as danças que inspiraram o espetáculo e a participação dos espetadores tem sido bastante agradável. “Quem fica para o baile ALGARVE INFORMATIVO #84

consegue entender melhor de onde partiu e para onde foi o espetáculo”, frisa, acrescentando que os portugueses têm respondido bem à maior oferta cultural que tem existido no passado recente. “As pessoas sentem curiosidade, porque também foram educadas nesse sentido. Há todo um trabalho de vários anos que está a ser desenvolvido e que leva público às salas de espetáculo. A descentralização foi importante, as autarquias têm investido bastante na cultura, os teatros e auditórios recebem cada vez mais público, é um caminho que está a dar os seus frutos. Claro que queremos sempre mais, mais programação, mais teatros equipados, maior diversidade, para que as pessoas tenham mais opções de escolha” .

76


77

ALGARVE INFORMATIVO #84


ALGARVE INFORMATIVO #84

78


79

ALGARVE INFORMATIVO #84


ALGARVE INFORMATIVO #84

80


81

ALGARVE INFORMATIVO #84


DIRETOR: Daniel Alexandre Tavares Curto dos Reis e Pina (danielpina@sapo.pt) CPJ 5852 Telefone: 919 266 930 EDITOR: Daniel Alexandre Tavares Curto dos Reis e Pina SEDE DA REDAÇÃO: Rua Estrada de Faro, Vivenda Tomizé, N.º 12P, 8135-157 Almancil Email: algarveinformativo@sapo.pt Web: www.algarveinformativo.blogspot.pt PROPRIETÁRIO: Daniel Alexandre Tavares Curto dos Reis e Pina Contribuinte N.º 211192279 Registado na Entidade Reguladora para a Comunicação Social com o nº 126782 PERIODICIDADE: Semanal CONCEÇÃO GRÁFICA E PAGINAÇÃO: Daniel Pina FOTO DE CAPA: Daniel Pina

A ALGARVE INFORMATIVO é uma revista regional generalista, pluralista, independente e vocacionada para a divulgação das boas práticas e histórias positivas que têm lugar na região do Algarve. A ALGARVE INFORMATIVO é uma revista independente de quaisquer poderes políticos, económicos, sociais, religiosos ou culturais, defendendo esse espírito de independência também em relação aos seus próprios anunciantes e colaboradores. A ALGARVE INFORMATIVO promove o acesso livre dos seus leitores à informação e defende ativamente a liberdade de expressão. A ALGARVE INFORMATIVO defende igualmente as causas da cidadania, das liberdades fundamentais e da democracia, de um ambiente saudável e sustentável, da língua portuguesa, do incitamento à participação da sociedade civil na resolução dos problemas da comunidade, concedendo voz a todas as correntes, nunca perdendo nem renunciando à capacidade de crítica. A ALGARVE INFORMATIVO rege-se pelos princípios da deontologia dos jornalistas e da ética profissional, pelo que afirma que quaisquer leis limitadoras da liberdade de expressão terão sempre a firme oposição desta revista e dos seus profissionais. A ALGARVE INFORMATIVO é uma revista feita por jornalistas profissionais e não um simples recetáculo de notas de imprensa e informações oficiais, optando preferencialmente por entrevistas e reportagens da sua própria responsabilidade, mesmo que, para tal, incorra em custos acrescidos de produção dos seus conteúdos. A ALGARVE INFORMATIVO rege-se pelo princípio da objetividade e da independência no que diz respeito aos seus conteúdos noticiosos em todos os suportes. As suas notícias narram, relacionam e analisam os factos, para cujo apuramento serão ouvidas as diversas partes envolvidas. A ALGARVE INFORMATIVO é uma revista tolerante e aberta a todas as opiniões, embora se reserve o direito de não publicar opiniões que considere ofensivas. A opinião publicada será sempre assinada por quem a produz, sejam jornalistas da Algarve Informativo ou colunistas externos.

ALGARVE INFORMATIVO #84

82


83

ALGARVE INFORMATIVO #84


ALGARVE INFORMATIVO #84

84


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
ALGARVE INFORMATIVO #84 by Algarve Informativo - Issuu