ALGARVE INFORMATIVO 12 de novembro, 2016
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JOÃO DE BRITO partiu de Faro para ser ator profissional, mas nunca cortou o cordão umbilical com o Algarve ALGARVE INFORMATIVO #83 1 Vítor Aleixo| Bento Algarvio |Storm & The Sun | Sandra & Miriam
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OPINIÃO 6 - Daniel Pina 38 - Paulo Cunha 40 - Paulo Bernardo 42 - Mirian Tavares 46 - Cristiano Cabrita 48 - António Manuel Ribeiro 50 - Augusto Lima
ATUALIDADE 8 - Meia Maratona Tavira
ENTREVISTAS/ REPORTAGENS 16 - Bento Algarvio 26 - Sandra e Mirian 52 - Vítor Aleixo 62 - João de Brito 74 - Storm & The Sun
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Vivem-se tempos estranhos na Democracia… Daniel Pina
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ois é! Contra todas as expetativas e prognósticos dos especialistas, Donald Trump vai ser mesmo o próximo inquilino da Casa Branca. Embora não seja um dos tais especialistas, seja em política ou relações internacionais, a verdade é que também fiquei preocupado. Diziam que Hillary Clinton não tinha perfil para ser presidente dos Estados Unidos da América. Talvez. Mas Donald Trump não tem, de certeza, esse perfil, portanto, na minha opinião, havendo dois maus candidatos ao trono do poder, era uma simples questão de escolher o mal menor. Eu, por mim, preferia quatro anos com um presidente «assim-assim», sem sal e pimenta, que iria dar continuidade às políticas vigentes, do que ter um presidente «salve-se quem puder», um verdadeiro cowboy à moda antiga, um autêntico Lucky Luke, não mais rápido do que a sua própria sombra, mas mais rápido do que os seus assessores e conselheiros a disparar alarvidades de cada vez que abre a boca. A maioria dos norte-americanos optou, porém, por eleger Donald Trump e, agora, temos dois malucos das ideias à frente das duas mais poderosas nações do mundo. É um género de regresso aos tempos da Guerra Fria, com EUA de um lado e a Rússia do outro. Só nos resta rogar aos céus que Trump e Putin não se desentendam à séria nos próximos quatro anos, caso contrário, carregam nos botões mágicos que têm nos seus gabinetes e desatam misseis a voar pelos céus. E a vitória de Donald Trump foi esmagadora, aliás, até dava dó quando visualizávamos graficamente os resultados das eleições no mapa dos Estados Unidos da América. Uma tareia forte e feia, de tal modo que Hillary Clinton levou algumas horas a digerir a derrota antes de falar à nação. Depois, vem-se a saber que, afinal de contas, Hillary até teve mais votos do que Trump ALGARVE INFORMATIVO #83
e instalou-se em mim uma sensação de deja vu. Onde é que eu já vi isto há pouco tempo? Num país que é um verdadeiro bastião da igualdade de direitos, que tanto lutou pela abolição da escravatura e pelo direito das mulheres ao voto, chegamos à conclusão que todos os americanos têm, supostamente, os mesmos direitos, mas que os seus votos não valem todos o mesmo. E assim chega à cadeira do poder um homem que não foi eleito pela maioria dos eleitores. Assim como António Costa chegou a Primeiro-Ministro de Portugal sem ter recebido a preferência da maioria dos portugueses. Anda sempre tudo a lamentar-se que as pessoas não votam, que estão a desligar-se cada vez mais da política, que não acreditam nos partidos. Repetem-se os apelos para que todos tenhamos uma maior consciência política e participação ativa no nosso país que, depois, são contrariados pelos atos e pelas manobras de bastidores. A política é, sempre foi, e sempre será, um jogo de interesses que beneficia sempre os mais poderosos e prejudica, invariavelmente, os mais desprotegidos. Nos Estados Unidos falaram mais forte os velhos interesses – que tinham estado de mãos atadas durante os mandatos de Barack Obama – para colocar Donald Trump na Casa Branca. Em Portugal, arranjou-se uma geringonça para colocar António Costa no Palácio de São Bento. Assim vai andando a Democracia no século XXI e eu pergunto-me para que vale, de facto, irmos votar, se a vontade da maioria já não conta para nada .
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Artur Lara Ramos, presidente da Associação de Atletismo do Algarve, José Pedro Batista, da Liberty Seguros, Jorge Botelho, presidente da Câmara Municipal de Tavira, e José Barradas e Sérgio Jesus, da Casa do Povo de Santo Estevão
Tavira organiza Meia Maratona para ajudar a combater a sazonalidade Catapultar o nome de Tavira para a alta-roda do atletismo nacional, atrair praticantes e suas famílias ao concelho e ajudar a combater a sazonalidade algarvia durante a época baixa são os grandes objetivos da Meia Maratona de Tavira-CPSE-Liberty Seguros que se realiza no dia 20 de novembro. A uma semana do evento, as inscrições já superam as expetativas da organização e prevê-se um fim-de-semana desportivo intenso em Tavira, acompanhado por muita atividade cultural e pela rica gastronomia da Dieta Mediterrânica. Texto:
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oi publicamente apresentada, no dia 11 de novembro, a II Meia Maratona de Tavira – CPSE – Liberty Seguros, que terá lugar a 20 do corrente mês, a partir das 10h. A organização pertence à Casa do Povo de Santo Estevão, em parceria com a autarquia local, e a corrida tem como cenário a deslumbrante cidade de Tavira, comunidade representativa de Portugal junto da UNESCO para a Dieta Mediterrânica, considerada Património Cultural Imaterial da Humanidade, com toda a sua riqueza patrimonial e ambiental. Com partida e chegada da Praça da República, o percurso conduzirá os atletas pelas ruas milenares de fachadas brancas até à requalificada zona das Quatros Águas, Ria Gilão abaixo, em pleno Parque Natural da Ria Formosa, reconhecido internacionalmente pela sua biodiversidade e paisagem, por entre salinas e sapais. O trajeto passa igualmente por entre conventos, igrejas e casas apalaçadas, outra característica da cidade de Tavira, até ao Vale Formoso e Asseca, rio acima. O regresso é feito pela Ponte de São Domingos, Jardim da Alagoa, Porta Nova, Ponte dos Descobrimentos e Rua José Pires Padinha, até terminar na Praça da Republica. “Aquando do desenho do percurso, procurou-se construir um itinerário interessante para os atletas e minimizar os transtornos para a população, bem
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como possibilitar o fácil acesso do público a diversas zonas de passagem. Ao longo do percurso haverá, inclusive, diversos locais com músicos a tocar ao vivo”, revelou José Barradas, presidente da direção da Casa do Povo de Santo Estevão. Como é tradicional neste género de eventos, existirão três opções de modo a ir de encontro aos gostos dos participantes. Assim, a vertente principal é a Meia Maratona de 21,097 quilómetros, mas haverá também uma Mini Maratona com 12,5 quilómetros e uma Marcha Familiar Solidária com 7,5 quilómetros. Nas duas primeiras vertentes existem prémios monetários para os primeiros classificados e para a equipa com mais atletas inscritos, assim como para o melhor atleta de Tavira, num total de três mil e 500 euros de Prize Money. A última vertente é direcionada à população em geral com o intuito de fomentar a prática desportiva, e é de cariz solidário, já que as receitas provenientes das inscrições serão doadas a duas Instituições Particulares de Solidariedade Social do concelho de Tavira, designadamente à Casa do Povo da Luz de Tavira e ao Centro Social de Santo Estevão. “Como se pretende que o evento atraia famílias inteiras, existirá junto à meta, na Praça da Republica, uma zona destinada aos mais pequenos e às caras-metades dos atletas,
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com muita animação, stands com material de running, desde o vestuário ao calçado, e suplementos nutricionais associados à modalidade”, referiu José Barradas. As inscrições para a Meia e Mini Maratonas podem ser realizadas até dia 19 de novembro no site www.cronosport.pt, ao passo que a inscrição na Marcha Familiar Solidária pode ser feita no Pavilhão Municipal Dr. Eduardo Mansinho ou junto do Projeto Municipal Todos a Caminhar. E, de acordo com José Barradas, a mais de uma semana de distância do evento, já estavam inscritos cerca de 350 atletas na Meia-Maratona, sendo a expetativa que se ultrapasse os 600 que, além de portugueses de diferentes pontos do país, vêm também de Espanha, França, Alemanha e Inglaterra. Já na Caminhada, a fasquia está colocada nas três centenas de participantes. Confiante no sucesso do evento está Jorge Botelho, presidente da Câmara Municipal de Tavira, lembrando que a Casa do Povo de Santo Estevão colabora há vários anos com a autarquia na projeção de uma cultura desportiva para todos. “Em 2009, quando chegámos à Câmara Municipal, o número de pessoas que praticava desporto através de programas municipais era de 300. O último número que possuímos ronda os dois mil e 500, o que significa cerca de 10 por cento da população do concelho. Há muito poucas terras
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em Portugal que tenham tanta gente envolvida com o desporto em projetos municipais”, destacou o edil. “Tenho a certeza que o rigor e a competência vão ser uma realidade nesta organização e é isso que os atletas procuram”. O atletismo está, de facto, a crescer em Tavira, com dois clubes em evidência – Pégada e Santa Luziense – com o Onda Sólida a aumentar também a sua projeção nos últimos anos, o que satisfaz o responsável autárquico. Jorge Botelho aproveitou igualmente a conferência de imprensa para agradecer publicamente o apoio concedido, mais uma vez, pela Liberty Seguros e demais patrocinadores, comprovando que o espetro desportivo de Tavira tem vindo a evoluir positivamente. “Pela prática desportiva que temos e pelas facilidades que a autarquia concede aos clubes que aqui gravitam. Colocamos todos os meios municipais à disposição dos clubes e isso permite que eles tenham grandes poupanças nas questões logísticas no seu dia-adia. Neste evento, somos também parceiros monetários porque queremos projetar o concelho de Tavira num desporto saudável como é a Meia Maratona”, enfatizou. Um fim-de-semana em que não estará apenas em foco o desporto, lembrou Jorge Botelho, pois não
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faltarão eventos para todos os gostos e idades. “No sábado e domingo vamos ter vários concertos de música clássica nas igrejas da cidade. No sábado de manhã teremos um Juramento de Bandeira, um ato de grande simbolismo nacional que encherá a Praça da República de militares. Tavira é isto mesmo, uma enorme vontade de fazer coisas para que os residentes e visitantes tenham sempre alternativas para ocuparem o seu tempo”, salientou o presidente da Câmara Municipal de Tavira. “A região precisa ter cada vez mais eventos que combatam a sazonalidade, só que o Algarve todo o ano não acontece simplesmente por se dizer coisas,
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mas por concretizá-las, e Tavira está a fazer a sua quota-parte”. A Meia Maratona de Tavira conta com o apoio principal da Liberty Seguros, Ozadi Running Hotel, bem como do Município de Tavira, das Freguesias de Tavira e Luz de Tavira e Santo Estevão, entre outros, contando ainda com a estreita colaboração da Associação de Atletismo do Algarve. Na organização do evento participam cerca de 100 voluntários, a par da colaboração imprescindível das forças segurança, GNR e PSP, e da Cruz Vermelha Portuguesa .
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Bento Algarvio pendura as luvas em 2017, mas vai continuar ligado ao boxe Desde os 15 anos que a vida de António João Bento tem sido dedicada ao boxe e, apesar dos habituais altos e baixos da carreira de qualquer atleta profissional, ninguém duvida que é o melhor pugilista português de todos os tempos. Agora, ultrapassada a fasquia dos 40, o campeão mundial e europeu de pesos superplumas e ligeiros prepara o abandono dos ringues pela porta alta, mas isso não significa que seja o adeus à nobre arte de esgrimir com as luvas de Bento Algarvio. Texto:
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s últimos tempos de António João Bento têm sido divididos entre o seu Algarve, que o viu nasceu para a vida e para o desporto, e a América Latina, onde tem realizado diversos combates de boxe profissional. E foi precisamente uns dias antes de atravessar novamente o Atlântico, desta feita com destino a Buenos Aires, que estivemos à conversa com «Bento Algarvio» no restaurante que possui junto ao Centro de Ciência Viva de Faro. Na agenda está, para 18 de novembro, um combate de preparação e aclimatização à Argentina e, no dia 3 de dezembro, vai disputar o título mundial da WPC, em pesos ligeiros, contra um adversário do Uruguai. “A preparação está a decorrer de acordo com os planos, embora seja cada vez mais difícil arranjar adversários ou colegas à altura, em Portugal, para fazer os tais combates de treino. Na Argentina, há mais atletas, melhores condições, é um universo completamente diferente”, explica Bento Algarvio. Quase a completar 42 anos de idade, o consagrado pugilista tem pela frente mais uma dura batalha, que deverá ser das últimas, pois pensa retirar-se dos ringues no primeiro semestre de 2017. Tal não significa que seja o adeus ao boxe, isso é impossível para um homem que praticamente cresceu dentro do quadrilátero, daí que o próximo passo da sua carreira esteja decidido: ser manager de atletas e promotor de eventos, para além de abrir uma rede de escolas de boxe. “Para esta gala da Argentina vou levar já um atleta da minha equipa. Em fevereiro, a «Bento Promoções» vai ALGARVE INFORMATIVO #83
organizar uma grande gala em Lisboa e, em abril, outra em Beja”, revela. De mente colocada nos próximos desafios profissionais, António João Bento esclarece que nunca pensou em ser treinador, preferindo, sim, abrir escolas de boxe com o seu nome, à 18
imagem da sua filosofia de vida e modo de estar no desporto, existindo, inclusive, parcerias para alargar a rede ao estrangeiro. “Não podemos ficar à espera que os jovens venham para o boxe, nós é que temos que ir ao encontro deles, das novas gerações. Para isso, temos que mudar a mentalidade que ainda existe de 19
que o boxe é um desporto violento. Antes pelo contrário, o boxe torna os jovens menos agressivos no seu dia-adia, porque descarregam as energias nos treinos e dentro do ringue, com regras. Tornam-se mais responsáveis e respeitadores do próximo”, garante o entrevistado. ALGARVE INFORMATIVO #83
A primeira unidade da «Escolas Bento Algarvio» deve nascer em São Brás de Alportel, na Fábrica do Fitness, onde tem um ringue e um ginásio preparados para avançar assim que termine a carreira de pugilista. Na Argentina está outra programada para arrancar, numa parceria com a Comissão Mundial de Boxe, por existirem muitas crianças com vontade de praticar este desporto, mas sem condições financeiras para ir para um ginásio tradicional. “Os jovens, se estiverem ocupados com o desporto, não andam por caminhos nefastos nem aceitam os convites de amigos que andam na má vida. O problema é que, em Portugal, se não tiverem dinheiro, não podem treinar, e eu quero acabar com essa mentalidade no boxe. Ao mesmo tempo, quero ajudar os próprios miúdos na sua educação, com ALGARVE INFORMATIVO #83
um género de acompanhamento pósescolar. Na América Latina, os miúdos vão para as escolas de boxe mas, antes de começarem a treinar, têm que fazer os trabalhos de casa, com o apoio de auxiliares de educação”. O projeto é ambicioso e António João Bento sabe, de antemão, que não poderá contar com grandes ajudas financeiras das câmaras municipais, pois elas próprias sentem dificuldades para gerir os seus orçamentos anuais. “Felizmente, ainda há pessoas e empresas que gostam de ajudar os mais carenciados e as associações, que não pensam apenas nos seus lucros. No estrangeiro, acredito que seja mais fácil obter apoios estatais”, afirma. Por outro lado, assegura que 20
não faltam bons treinadores em Portugal e que comprar equipamento é fácil, o problema é o resto da estrutura, ginásios, preparadores físicos, psicólogos, nutricionistas. “O principal, porém, é ter alguém que cuide como deve ser da carreira dos atletas, caso contrário, são apenas mais um no meio da multidão. Todos os pugilistas sonham em combater no estrangeiro, mas depois vão lá fora, são «carne para canhão» e não ganham dinheiro nenhum, porque os empresários não têm qualificações à altura, nem sequer bons contatos”, dispara, sem meias-palavras.
Desporto tornou-se um negócio puro e duro Bento Algarvio fala sem rodeios sobre esta temática porque também sentiu na pele o resultado dos maus conselhos, das decisões erradas daqueles que, supostamente, deviam estar a ajudar a sua carreira profissional. Apesar disso, foi campeão mundial por diversas organizações internacionais, jogou em 35 países, é reconhecido em qualquer parte do planeta, até mais do que em Portugal. “Já estamos habituados aos portugueses não acompanharem o boxe, não saberem que têm campeões na sua terra, não estarem com atenção ao que vai acontecendo neste desporto. Na Argentina fui considerado o Atleta Ligeiro do Ano, em 2015, e este ano, se conquistar o título de dezembro, devo revalidar esse galardão. Portugal sempre se preocupou mais com os de fora do que com os de dentro”, desabafa. Não admira, por isso, que o boxe vá vivendo por ciclos no nosso país, 21
alternando fases em que se fala muito desta modalidade, com outras em que está votada ao total esquecimento. Nada que surpreenda Bento Algarvio, daí querer apostar nas novas gerações, apoiar os mais novos a entrar para o boxe. No entanto, reconhece que o desporto profissional cada vez mais é um negócio e que os carolas do antigamente são isso mesmo, uma relíquia de outros tempos. “No futebol não há carolas, exceto nos clubes das distritais, e mesmo assim alguns dirigentes e treinadores querem receber os seus salários. O dinheiro é que move tudo e isso obrigou-me, infelizmente, a fazer grande parte dos meus combates no estrangeiro. Portugal é um país maravilhoso para se viver e se passar férias, para se ganhar dinheiro é complicado e, no desporto, isso ainda é mais complicado”, salienta. Essa é parte da explicação para António João Bento não se tornar treinador de boxe, pois limitar-se-ia a ficar à espera que alguém convidasse um dos seus atletas para jogar. “Eu tenho outras ambições e sei que sou capaz de voar mais alto e de pôr atletas agenciados por mim a combater em qualquer parte do mundo. Os miúdos, quando chegam aos 21, 22 anos, já não estudam, têm os seus trabalhos e os horários nem sempre são compatíveis com as rotinas dos treinos. Os métodos atuais não funcionam e o normal é desmotivarem-se e acabarem por desistir”, observa, lembrando que organizar galas de boxe se tornou mais dispendioso nos tempos atuais, o que impede uma maior rodagem dos ALGARVE INFORMATIVO #83
atletas. “Por isso é que há tantas associações que montam um ginásio e fazem sessões de boxe para ganharem meia dúzia de tostões. O boxe, assim, não anda para a frente”. Como se percebe, o boxe é um mundo complexo e António João Bento não quer misturar a sua carreira de atleta profissional com a de manager e promotor de eventos. “A organização de uma gala não é só meter atletas em cima de um ringue e eles andarem à pancadaria uns com os outros. Depois dizem que aquilo é boxe só porque tinham umas luvas vestidas? Tem que se montar um espetáculo grandioso e que seja atrativo, com boas entradas dos atletas, com música, luz e raparigas dos rounds”, considera, sempre ao ataque, como é seu apanágio enquanto pugilista. Uma faceta que podia ter abraçado para cedo, só que as solicitações para combater continuam a aparecer, mas é chegado, de facto, o momento certo para seguir em frente, para bem do próprio boxe português, diriam alguns. “A mente de alguns empresários, treinadores e dirigentes é muito pequena, conseguem ver a árvore, mas não o bosque que está atrás dela. Há treinadores que foram grandes atletas há 30 anos e que, hoje, continuam a usar os mesmos métodos de treino. Isso é errado. Hoje, conhecemos o corpo humano de maneira diferente, a ciência evoluiu tremendamente e as pessoas têm que acompanhar a mudança”, aponta Bento Algarvio, confiante no sucesso do seu projeto. “Portugal, e o Algarve ainda mais, tem um clima fantástico para se treinar, locais ALGARVE INFORMATIVO #83
espetaculares e sem qualquer poluição. As pessoas são boas hospitaleiras, a comida é excelente, temos todos os ingredientes para se fazer bons atletas, falta é um bom cozinheiro”, compara. O sonho estava na agenda há alguns anos, mas o algarvio confessa que lhe foram aparecendo obstáculos pelo caminho, uns que podia enfrentar de frente, noutros, teve que dar uma 22
grande volta para os contornar. “O único português que os presidentes das principais organizações mundiais de boxe conhecem é o «Bento Algarvio», portanto, não é fácil chegarmos a uma gala no estrangeiro, com 60 mil espetadores, e ganhar ao atleta da casa. Algumas pessoas até ficam espantadas por haver boxe em Portugal. Isso tem que mudar”, indica, com um murro da mesa. “Os norte-americanos vão buscar imensos argentinos, brasileiros e 23
mexicanos para combater nas suas galas e eles não valem nada comparados com os portugueses, mas esses países são verdadeiras fábricas de pugilistas. Nós temos atletas com enorme raça e vontade de vencer, autênticos guerreiros, que depois são enganados ao longo das suas carreiras, da mesma maneira que eu também fui. A diferença é que, alguns deles, desistem no boxe e eu nunca baixei os braços” . ALGARVE INFORMATIVO #83
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SANDRA & MIRIAM Uma história de amor, coragem e esperança Há histórias que são fáceis de contar, mesmo que, bem espremidas, pouco sumo tenham, mas já se sabe que os portugueses nem sempre gostam de pensar em assuntos demasiado sérios. Por isso, há histórias que merecem ser relatadas, lutas que se travam no dia-a-dia e que deveriam ser do conhecimento público, mas que passam relativamente despercebidas, até que uma figura pública, um artista ou ator famoso, empreste o seu nome e rosto à causa. Vidas que mudaram de um momento para o outro, como as de Sandra e Miriam, uma ex-auxiliar de creche e a sua filha de oito anos, que desde os oito meses de idade sofre de paralisia cerebral depois de ter tido contato com o vírus do herpes. E este é daqueles casos que não são fáceis de contar, nem sequer de ouvir e escrever sobre eles, mas que precisam ser narrados, por serem verdadeiros exemplos de amor, coragem e esperança. Uma história diferente em tempo de Natal, mas que só é possível graças à ajuda de muitas pessoas anónimas, de associações, de empresas, de estabelecimentos comerciais, que querem ajudar a Sandra e a Miriam a sonharem com um futuro um pouco mais risonho. Entrevista: Daniel Pina ALGARVE INFORMATIVO #83
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Miriam com o fisioterapeuta Rui Marcelo
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ia após dia, semana após semana, a rotina de Miriam Freitas tem sido praticamente a mesma há quase dois anos, desde que começou a ser acompanhada pela clínica Rehab4life, em Faro. Entre terapia da fala, terapia ocupacional, fisioterapia, hidroterapia, reflexologia, acupuntura e hipoterapia, a agenda desta criança de apenas oito anos reserva pouco tempo para qualquer outra atividade, nem sequer para as habituais brincadeiras das meninas da sua idade. Mas, infelizmente, Miriam não é uma criança como as outras. É verdade que nasceu igual à esmagadora maioria dos bebés, com perfeita saúde, ALGARVE INFORMATIVO #83
depois de uma gravidez sem quaisquer sobressaltos, mas quis o destino que, aos oito meses e meio, estivesse em contato com o vírus do herpes e adoecesse com uma encefalite herpética. O malfadado destino, um destino que, muitas vezes, nos deixa de boca aberta, sem conseguirmos descortinar que motivos encerra nos seus meandros, apesar de crescermos a ouvir que «Deus escreve direito por linhas tortas». Linhas, neste caso, bastante tortas, pois o vírus que apanhou através de um simples beijinho na mão provocou lesões cerebrais gravíssimas e assim ficou 28
Miriam sem andar, sem falar, sem poder brincar, sem poder sequer ter os mesmos sonhos e desejos que todos os outros meninos e meninas. E, no fatídico momento em que o diagnóstico foi conhecido, começou uma dura batalha diária, sem fim à vista, mas com a esperança de que, no futuro, a sua história se comece a escrever por linhas mais direitas.
Miriam com a madrinha Dulce Félix
Um dia que ditou o começo da nova vida de Miriam Freitas mas também o fim de qualquer existência normal de Sandra Domingos, uma alentejana de 38 anos a residir em São Brás de Alportel, uma mãe que abdicou dos seus sonhos, dos planos que tinha para a vida, do próprio trabalho, para estar 24 horas por dia ao lado da sua filha. “Um simples beijinho na mão, que depois a Miriam, como qualquer bebé normal, levou à boca, colocou-a no hospital e depressa percebemos que as nossas vidas nunca mais seriam as mesmas”, diz-nos Sandra, enquanto Miriam iniciava mais uma sessão com o fisioterapeuta Rui Marcelo. Uma notícia terrível que nenhum pai está preparado para receber, depois dum parto sem qualquer incidente, depois de saber que Miriam era uma bebé cheia de saúde e energia, um choque psicológico brutal, quase físico, o arrancar do tapete debaixo dos nossos pés, um mundo que desaba por completo. “Ela nunca teve 29
sequer uma febre dos dentes e, de um dia para o outro, tudo mudou. Na altura ainda vivia com o pai da Miriam mas, desde que ela fez um ano, estamos as duas sozinhas nesta luta”, revela, com amargura, sem se alongar mais na explicação. Uma explicação que, na verdade, nem é preciso dar, pois nem todos conseguem lidar com uma situação destas da mesma maneira. “A Miriam tornou-se tudo para mim, tive que aceitar o novo mundo em que vivia. Qualquer pai faz os seus planos com o pressuposto de que o filho vai nascer saudável e tudo isso se altera. Temos que desistir dos objetivos que tínhamos delineado, mudar as prioridades, mas habituamo-nos a isso, temos que nos habituar”. E no mundo moderno em que vivemos, da livre circulação da informação, nem sequer houve a possibilidade de acalentar falsas ALGARVE INFORMATIVO #83
Miriam com o fisioterapeuta Mário Afonso numa sessão de Hidroterapia
esperanças, de pensar que o problema era menos grave do que aparentava, de almejar ainda ter uma vida rotineira, lembra Sandra Domingos. “Explicaramnos logo que as células dum lado do cérebro tinham sido completamente destruídas e que, do outro hemisfério cerebral, só uma parte foi poupada. Sabíamos que a Miriam ia ser uma criança diferente e que, com o tempo, poderiam aparecer mais limitações. Passado um ano, o vírus reativou-se e esteve duas semanas sem ver nem ouvir mas, graças a Deus, conseguiu recuperar os sentidos”, relata a mãe, com uma serenidade só possível devido às muitas vezes em que teve que contar a história. “A Miriam não anda nem fala, usa fraldas, depende totalmente de mim e só recentemente começou a dizer ALGARVE INFORMATIVO #83
algumas palavras, o «mãe», o «não» e o «ai», principalmente quando refila com os terapeutas por não querer trabalhar”. Mudanças que começaram logo por Sandra tirar uma baixa na creche onde era auxiliar para poder acompanhar Miriam em todos os tratamentos e por alugar um apartamento num prédio com elevador e rampa para cadeira de rodas. Uma casa que também precisa de amplo espaço para Miriam dar alguns passos no andarilho, apesar de ter luxação nas ancas, e para circular com facilidade numa cadeira própria. Mas Sandra enfrentou o problema de frente desde o primeiro minuto e nunca lhe passou pela cabeça colocar a filha numa instituição e só estar com 30
ela à noite. “Nos primeiros três anos era o avô que a acompanhava nas terapias e a levava à escola mas, quando viemos para a Rehab4life, optei por tirar baixa do trabalho”, indica, confessando que não tem sido fácil travar esta luta sem um ordenado fixo ao fim do mês e com escassas ajudas da parte do Estado. “Tomamos conhecimento do projeto de recolha de caricas e tampinhas, apresentamos a causa da Miriam e é graças a isso que temos conseguido pagar os tratamentos. Há meses que as despesas chegam perto dos dois mil euros, sem falar no material ortopédico e nas cadeiras de rodas, que temos que mudar regularmente porque ela vai crescendo como uma menina normal”.
Uma vida dependente da ajuda dos outros Não admira, por isso, a felicidade de Sandra quando receberam um donativo da Associação de Beneficência Algarvia de Newark, sinal de que a sociedade civil já vai abrindo os olhos a esta realidade, uma realidade que, bem vistas as coisas, pode tornar-se a realidade de qualquer um de nós, assim o dite o tal malfadado destino que tantas vezes nos deixa em nocaute. “Temos recebido apoio de algumas associações que conhecem a fundo o
Miriam com a terapeuta Bárbara Guerreiro numa sessão de reflexologia
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essas verbas não são certas, há meses em que não são suficientes para cobrir as despesas com os tratamentos, daí a importância de eventos que são organizados em prol da Miriam”, destaca Sandra. Eventos como uma marcha solidária que aconteceu esta sextafeira, em São Brás de Alportel, e que partiu da iniciativa das escolas Miriam com a terapeuta Adriana Pires numa sessão de Terapia Ocupacional deste concelho, ou como a Gala de Natal da Academia de Dança do Algarve, que teve lugar no mesmo dia, em Loulé, mas Sandra Domingos enaltece igualmente o contributo da madrinha Dulce Félix, atleta de fundo e corta-mato, e do padrinho Dino Santiago, cantor. Eventos que vivem muito, como é natural, da presença da própria Miriam, pois é importante que as pessoas saibam quem estão a auxiliar. “Tornase complicado gerir o dia-a-dia da Miriam, as Miriam a fazer acupuntura com o Dr. Paulo terapias, as recolhas e entregas das tampas, os caso da Miriam – a Sopro de Carinho do eventos, não sobra tempo para mais Porto, a ACCA e o Rotary Clube de Estoi – nada. Contudo, existem muitas o resto das ajudas provém da recolha pessoas a aproveitarem-se dos das tampinhas e das caricas. Contudo, problemas dos filhos, criam páginas
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Miriam com a terapeuta Telma Lopes numa sessão de Terapia da Fala
no Facebook a pedirem ajuda para isto e para aquilo e nem sempre a realidade é aquela que transmitem. Por isso, gosto que a Miriam esteja presente nos eventos, para que vejam que ela existe de verdade, que contatem com as suas limitações, que a conheçam pessoalmente”, explica. Menos complicado tornou-se o acesso a profissionais especializados para realizar os tratamentos necessários, como é o caso da clínica Rehab4life de Faro, onde os progressos têm sido assinaláveis, mas até onde pode chegar a Miriam, perguntamos, de forma hesitante, uma pergunta simples mas nem sempre de fácil resposta. “Tudo depende da Miriam, porque os médicos, na altura, apresentaram um diagnóstico 33
totalmente oposto ao que ela tem conseguido fazer. Diziam que seria uma criança 100 por cento atrasada mental, quem olhava para ela davalhe dois ou três anos de vida, mas a sua evolução tem-nos dado esperança. Os terapeutas são bons, a equipa trabalha de forma excelente com ela, mas isso só é possível quando a Miriam colabora com eles”, reconhece, explicando que a filha, às vezes, também faz as suas birras, quase como se fosse uma criança normal. “Ela tem dias de mau-feitio e, se entende que não quer fazer o tratamento, não é fácil dar-lhe a volta. Mas são birras que nos deixam também contentes, porque significam que tem uma personalidade própria,
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que não é um vegetal como muitos diziam que iria ser”.
Sem tempo para choros e depressões As emoções aumentam, a voz de Sandra já vai tremendo aqui e ali, por muito que esteja habituada a falar sobre este assunto. Do outro lado da porta, até parece que Miriam está a ouvir a conversa, a personalidade malandra dá um ar da sua graça, pelos vistos não lhe apetece fazer um exercício. Pausa-se a conversa, acalma-se o estado de espírito, tentamos tirar algumas fotografias. Mas Miriam parece, realmente, estar num dos tais dias de malandrice, ou talvez estranhe a pessoa nova que tem pela frente. De sorriso nos lábios, mas rosto para baixo, não facilita a tarefa do fotógrafo. Contudo, mal este desvia a câmara para ver como estão a ficar as fotos, levanta logo o rosto, o tal sorriso traquinas, um cenário que qualquer pai já presenciou quando tenta tirar fotografias aos seus filhos. Com Sandra mais recomposta, regressamos à conversa, mas a entrevistada não esconde os sentimentos que a inundam constantemente. Sentimentos que são mais fortes numa mãe do que num pai. Foi na sua barriga que Miriam andou e cresceu durante nove meses. Foi de dentro dela que saiu uma bebé saudável. Foi com ela ao colo que chorou de felicidade. Foram muitas as noites acordadas nos primeiros meses a dar o leite, a tratar das cólicas, a ver se estava a respirar bem, se estava a dormir serenamente. Hoje, no entanto, chora ALGARVE INFORMATIVO #83
por outros motivos, mas por pouco tempo, não se podem gastar minutos em lamentos, eles não servem para nada, e muito menos à frente da Miriam. “Há dias em que sinto que estou no fundo do buraco, mas vejo a força da Miriam, o modo como ela luta para cada dia fazer mais um bocadinho, e tenho que erguer a cabeça. É preciso fazer as contas, ver se há dinheiro para pagar os tratamentos, para comprar os materiais, arranjar mais tampas, organizar mais eventos. As depressões vamos empurrando para um cantinho, não posso estar triste ou chorar ao lado da Miriam, porque ela sente isso tudo e a recuperação torna-se mais difícil. Depois, quando ela está a dormir à noite, dou-me 15, 20 minutos para deitar tudo cá para fora, para chorar, gritar, berrar, o que for preciso para me levantar no dia seguinte com um sorriso nos lábios”. E com a mesma naturalidade com que fala dos progressos de Miriam, Sandra confirma que a sua vida pessoal praticamente deixou de existir, os passatempos de que podia ter gostado antigamente perderam todo o sentido, até ir beber um café com as amigas é raro de acontecer. É quase como aqueles convites que recebemos para festas, com o nosso nome e mais um convidado. Neste caso, é «Miriam + uma», porque Sandra vive em função da e para a filha e nem podia ser de outra forma quando se é mãe. “O meu objetivo de vida tornou-se a recuperação da Miriam, mas tenho amigas espetaculares e uma filha 100 por cento, já foi a um bar e portou-se 34
lindamente”, garante, ciente de que a opção que tomou é para o resto da vida e não como aquelas mulheres que decidem colocar uma parte da sua vida em pausa durante alguns anos para apostar, por exemplo, na carreira profissional. “É difícil deixar a Miriam com alguém porque tem crises de epilepsia. Mesmo que fique um pouco com o avô, estou sempre a ligar de cinco em cinco minutos para saber se está tudo bem”. Com a hora de fisioterapia a chegar ao fim, é tempo de falar do futuro próximo e Sandra Domingos indica que Miriam está à espera de ser operada à anca e que, após o desnível existente ser corrigido, abre-se a esperança de poder dar mais passos sem dor. “Estamos também a tentar comprar um computador especial em que, através do seu olhar, podemos perceber mais coisas sobre ela. A Miriam 35
diz algumas palavras, mas quando quer, portanto, tudo depende da força de vontade dela. Hoje, podemos não ter nada mas, amanhã, ela pode fazer qualquer coisa que nos faz ganhar logo a semana. Não peço uma recuperação a 100 por cento, mas podemos sonhar com 70 ou 80, e é essa esperança que me dá muita força a mim, como mãe”, afirma, de novo com as lágrimas a darem sinal de quererem regressar. Era o momento certo para terminarmos a conversa, com a certeza, porém, de que vamos ouvir mais da Miriam, e da Sandra, e também com a esperança de que Deus comece a escrever certo por linhas tortas o mais brevemente possível . Reportagem publicada no número 37 da Revista Algarve Informativo, no dia 12 de dezembro de 2015 ALGARVE INFORMATIVO #83
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Só se desilude quem anda iludido! Paulo Cunha
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á cerca de oito anos, também numa quartafeira, ao deslocar-me para o meu local de trabalho tive o grato prazer de ouvir através do rádio do carro, a notícia de que tinha sido eleito para presidente dos EUA, Barack Obama. Pela sua carreira académica e profissional, pelo seu percurso cívico e político e pelas promessas eleitorais, na altura inspirou-me confiança e esperança. Confesso que me deixou também feliz ver alguém de origem africana a ocupar o lugar, pois os cargos também se fazem e constroem de simbolismo. Os anos passaram e, com altos e baixos, nos dois mandatos possíveis fez o que soube, o que podia e o que lhe permitiram fazer. Esperando uma passagem de testemunho que continuasse a manter a esperança de ver esta superpotência como um garante de equilíbrio, defesa e manutenção de uma paz global, o mundo assistiu - mais uma vez - às habituais lutas internas nas «primárias» partidárias, onde Republicanos e Democratas escolheram os candidatos que, no entender dos seus apoiantes, preenchiam os requisitos para se apresentar nas eleições de 8 de novembro de 2016. Com a encenação já esperada, cedo se percebeu que os dados do jogo já rolavam há muito e o jogo parecia padecer dos vícios habituais. Estruturas oligárquicas onde feudos construídos ao longo de vários mandatos ditavam as regras, em paralelo com o descomunal poderio económico que fazia entrar a mensagem de um mediático candidato até no mais recôndito e pobre lar da «underclass». Hoje, no «day after» eleitoral, a cena repetiu-se: saí de casa e a caminho do trabalho, às 8h30, ouvi o locutor a anunciar a vitória do candidato republicano, tendo, ao contrário do que me aconteceu há quase uma década, sentido um choque emocional tão grande que fiquei com a sensação que me tinham batido (à má fila) por trás da viatura…, tendo de imediato sustido a respiração e apagado a emissão radiofónica. “Um baque próprio dum basbaque!”, pensei! Felizmente lá me animei quando ao chegar à sala de aula percebi que muitos jovens debatiam, de forma ativa, o resultado que, por certo, virá também a influenciar as suas
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vidas. A preocupação era generalizada e transversal. Parecia que todos tínhamos acordado para um pesadelo! Quase como todos os meus amigos, gente informada e interventiva, também a mim me apeteceu exorcizar publicamente, em tom de catarse, os demónios que me assaltavam o espírito, pois não é todos os dias que se goram as mais previsíveis expectativas face ao humanamente desejável. “Mas isso somos nós, gente educada e formatada para esperar e aceitar mudanças graduais em prol da defesa, evolução e preservação da humanidade… “, matutei. Assim sendo, lá me contive nas esperadas, copiadas e replicadas múltiplas explicações para um fenómeno que tornou hoje cada um de nós também um comentador político. Não, não é fácil aceitar a vitória de alguém que, mostrando nos atos e nas palavras ser uma pessoa que não respeita os mais básicos direitos e deveres humanos, a defesa e a preservação do meioambiente e as conquistas evolutivas e socias, virá a ser o líder do outrora apelidado «mundo livre»! Bem sei que deveria estar mais atento aos sinais da história recente, que tem dado à demagogia e ao populismo um poder emergente e viral, aproveitando-se dos alvos preferenciais dos países onde as assimetrias socioeconómicas são uma realidade, ainda que muitas vezes encapotada. Eleitores com parcas e vergonhosas condições de vida, ou sem instrução básica, ou abandonados e ostracizados na 3ª idade, são a mola que impulsiona este recorrente desejo de mudança, catapultado pelas palavras de todos aqueles que para chegar ao poder já perderam toda e qualquer tipo de vergonha e pudor. É uma verdade irrefutável: se nada fizermos para mudar o atual sistema político, independentemente das cores e dos lados, muitas surpresas aí virão, pois o cansaço, a desilusão e a ira acumulados terão que explodir nalgum momento. É só uma questão de tempo… e o tempo não é para ilusões, tão ao gosto de muitos políticos da velha guarda. Pelos jovens, os tais que hoje me mostraram (mais uma vez) que a educação e a instrução são a solução, é tempo de agir! .
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Trumpolias e Clivagens Paulo Bernardo
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livagem, segundo a psicologia, é um mecanismo de defesa em que a pessoa tende a pensar em extremos: ou és profundamente bom ou profundamente mau. E nós, nos últimos tempos, temos vivido uma clivagem em relação às eleições nos Estados Unidos: temos um candidato muito bom e um que não vale nada. Vivemos assim estes tempos. Não se consegue ter uma opinião sem ser contaminada. Pessoalmente, gostava que a Hillary tivesse ganho, não é muito difícil justificar, contudo, como não voto nos Estados Unidos, nada conta a minha motivação. Também nunca pensei que o Trump ganhasse, mesmo na noite eleitoral em que estive num evento a convite da embaixada dos Estados Unidos, e o sentimento era que a Hillary era a próxima presidente, havendo mesmo algum sentimento de brincadeira em relação a Trump. Nunca gostei dele, possivelmente ele também nunca gostou de mim. Não gosto do seu ar prepotente, pelo menos o que passa na TV. Contudo, durante a noite de insónias eleitorais, comecei a fazer alguma retrospetiva do que se foi ouvindo no último ano nos Estados Unidos, e o que foi ouvido era uma simpatia de uma grande parte de quem ia falando pelo Trump, o que me parecia muito estranho, sentimento esse vivido desde o homem mais simples, até ao com mais responsabilidade e grau académico. Tudo muito estranho para mim, todavia, aparentemente simples para uma grande faixa dos norte-americanos. Com a sua vitória surgiu logo um conjunto de vira-casacas que ontem falava mal e hoje até já gosta. A chamada clivagem, mais uma vez. O racional não acontece.
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Sendo agora mais prático, e segundo o que vou apurando, Hillary era bastante detestada por muitos norte americanos, representava a velha política, os vícios antigos, tudo de mau da política, mais uma vez, a clivagem. Não sei se é assim, mas era o que se sentia. Ao contrário, Trump, pelo seu ar de chico esperto, transmite aquilo que gostamos de ouvir lá e cá. O homem rico, que não necessita da política para nada, até vai abdicar do ordenado de presidente, o homem que conhece o mundo, sabe como é difícil trabalhar. Foi pelos mesmos motivos que Berlusconi ganhou as eleições em Itália. É isto que se pede na rua também em Portugal. A história que os políticos são todos iguais, bom era alguém que conhecesses a realidade, que soubesse como é difícil a vida cá fora, sem as mordomias da política. Assim, não podemos clivar e temos sim que pensar e ver como podemos antecipar esta falta de políticos a sério. O primeiro ponto é participar pois, se todos o fizermos, a amostragem de políticos é maior. Segundo ponto, não se abster. Trump pode ser a melhor coisa para todos nós pois pode fazer o mundo abrir os olhos e ver que o caminho que as organizações políticas estão a tomar não é o melhor. Os extremismos ganham margem porque são os que se sentem motivados para fazer algo. Vamos ficando tranquilos pelo trabalho dos nossos antepassados e vamos criticando quando ganha A ou B e depois mudamos de canal, como se a vida fosse uma novela. Caso não se mude de atitude, vamos tendo surpresas destas a cada eleição. Depois, chegará a nova Idade Média. Entretanto, vamos vivendo as Trumpolias .
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A beleza da permanência Mirian Tavares
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ntão eu disse ao Jesse, ou melhor, repeti uma coisa que eu tinha aprendido na universidade: que a segunda vez que você vê uma coisa é na verdade a primeira vez. Você precisa saber como a coisa termina antes de poder apreciar sua beleza desde o início". Marquei esta frase no livro do David Gilmour, O Clube do filme, presente de um dos manos, que li na cama, antes de deixar o sono tomar conta de mim. Marquei porque me lembrei de algo que fazia quando era mais nova, lia o final dos livros, antes de ler o meio. Dava-me uma angústia tão grande não saber como acabavam! Ficava sempre mais descansada e aí sim, lia o livro todo com renovado prazer. Uma grande maluquice, bem sei. Como sei que nem tudo pode ser lido de trás para frente, que temos de nos arriscar sem saber o final. Há quem viva retrospetivamente, há quem não goze o momento para mais tarde dizer: eu era feliz e não sabia. Eu gosto de saber o fim dos livros, e dos filmes, mas isso não me tira o prazer da leitura ou do visionamento. Dá-me uma sensação de reconhecimento, de alguma omnisciência talvez. Gostava de ver a última página da vida, saber o que vai se passar, sentirme tranquila. Mas, na verdade, além disso não ser possível, não me parece que seja sequer vantajoso. Há coisas que demandam um tempo específico, e há desvios que os livros e os filmes não podem conter. Porque a vida é mais surpreendente e inexata.
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Gosto de segundos encontros, que acabam sendo os primeiros. Claro que nos segundos encontros não dá para passar as páginas rapidamente e espreitar o final, mas dá para saber se vai haver um terceiro, quarto...E gosto de apreciar a beleza da descoberta lenta e gradual do outro, da entrega, quando existe entrega e de um certo nervoso miudinho, as tais borboletas no estômago (que soam melhor em inglês). Não sei se é preciso ver o fim para apreciar tudo à distância. Mas ver algo pela segunda vez é sempre melhor, porque nos dá tempo de apreciar verdadeiramente o que temos diante de nós, sem atropelos ou falsas expectativas. Da segunda vez já se sabe, e o saber é a melhor forma de gozar plenamente o novo, que nesse caso, torna-se um velho conhecido. Já não leio o fim dos livros, como fazia antes. Aprendi a esperar e a ler tudo na ordem certa sem me precipitar para o final. Mas continuo a marcar frases que me dizem coisas, que podiam ter sido escritas por mim, como esta do Gilmour, que me faz pensar na (re)descoberta quotidiana das coisas e no encanto do já visto e conhecido. Somos levados a buscar sempre o novo e acabamos por nos esquecer de apreciar a beleza do que temos, todos os dias, ao pé de nós .
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A legitimidade de Trump e os três Pedros Cristiano Cabrita
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om esta crónica de opinião dou início a uma colaboração semanal com o Algarve Informativo. Dá-me um gosto redobrado escrever aqui. Primeiro, porque considero que o Daniel Pina tem feito, ao longo dos últimos anos, um excelente trabalho jornalístico. Depois, porque é uma publicação do Algarve. Este privilégio, caros amigos, para um algarvio, não tem preço. A crónica será dividida em três partes, se quisermos três pontos de vista. Abordarei a política regional, nacional e internacional, por esta ordem. Este «arrumo» não está condicionado por qualquer tipo de critério de importância. Creio, apenas, que esta ordem facilita a leitura para quem está do outro lado. E isso é o mais importante. Acresce que, no final de cada crónica, enunciarei o destaque da semana. Por último, todas as opiniões aqui expressas são, naturalmente, da minha inteira responsabilidade. Mas como tudo tem uma excepção, as circunstâncias eleitorais nos EUA ditam que hoje inicie a minha abordagem pela componente internacional. Não o podia deixar de fazer, tendo em conta a importância do que aconteceu no outro lado do Atlântico. Para a semana retomarei a ideia original.
INTERNACIONAL Facto da semana: Donald Trump é o 45.º Presidente dos EUA. Ponto final parágrafo. A democracia é isto e os resultados devem ser aceites. Não vale a pena fomentar discussões fúteis sobre os porquês, as legitimidades e os supostos «erros» dos «malucos» dos americanos. Há que seguir em frente. Aliás, Trump tem hoje mais legitimidade para exercer o cargo do que teve, por exemplo, George W. Bush em 2000. Convém não esquecer que, na altura, Bush foi eleito por apenas 537 votos. Sim, leu bem: 537 votos que resultaram de uma recontagem polémica na Flórida. Na prática, este resultado faria com que Bush conquistasse 271 votos eleitorais, contra apenas 266 de Al Gore. Na última terça-feira, Trump alcançou 290 votos eleitorais contra os 228 de Hillary -, mais do que os 270 necessários (num total de 538). Sim,
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claro, Bush (- 500 mil votos que Gore) e Trump (- 200 mil votos que Clinton) nunca teriam sido eleitos se o escrutínio fosse por sufrágio universal. Mas o que vale são os votos eleitorais. Portanto, não sejamos condescendentes com quem não precisa. A grande questão que se coloca agora é tentar perceber se o programa eleitoral de Trump vai ser cumprido à risca e qual o impacto que terá na sociedade norte-americana e, muito importante, junto dos seus parceiros internacionais. Aguardemos.
NACIONAL Facto da semana: O Governo anda à deriva. As licenciaturas imaginárias fruto de deriva psicopática fazem carreira na «gerigonça» e passam incólumes. O Ministro da Educação mente descaradamente com quantos dentes tem e por lá continua. Pergunta que todos fazemos: como é que alguém como o Tiago Rodrigues, que sabe o que custa tirar um curso superior, compactuou com esta farsa? Vale tudo, ou quase tudo. E enquanto o camarada Mário Nogueira não organizar umas manifestações aqui e acolá (só para inglês ver), lá se vai aguentando na cadeira do poder. Por enquanto, claro está. O caso da Caixa Geral de Depósitos começa a ganhar bolor e as explicações do Primeiro-ministro são tudo menos objectivas. António Costa irrita-se com os jornalistas e, sem ser questionado, faz questão de frisar que Mário Centeno não sai. Pois claro. Porque é que deveria de sair quando o Orçamento de Estado mais parece um manto de retalhos? Porque é que o senhor Ministro deveria de sair quando os indicadores económicos são o que são? Não sei bem porquê, mas estranhei a reacção intempestiva de Costa. Onde há fumo… Pedro Passos Coelho e o PSD. Não acredito nas recentes «derivas», nos «grupos de reflexão», nos «projectos» e nos «pseudocandidatos» que estão a ser surgir no seio do maior partido da oposição. É nas alturas de adversidade que devem ser dados os maiores sinais
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de união. É uma lição que serve para a vida pessoal, profissional ou partidária. Posto isto, creio que a legitimidade democrática determina que devemos apresentar alternativas em espaço e tempo próprios. Seja no PSD, seja noutro qualquer partido. Para todos os efeitos, convém recordar, Pedro Passos Coelho ganhou as últimas eleições legislativas e os «balanços» só devem ser feitos, do meu ponto de vista, a seguir às autárquicas. E aí sim, que os candidatos a líderes se apresentem e que sejam escrutinados. Quantos mais melhor, porque é um sinal de vitalidade e rejuvenescimento partidário. Os ciclos políticos são assim mesmo. Até lá, sugiro que os militantes sociais-democratas remem para o mesmo lado e com toda a força possível. Pedro Santana Lopes, Cristas e as sondagens. Ponto de partida: o ex-primeiro ministro português é, para mim, o melhor candidato do PSD à Câmara Municipal de Lisboa. Por várias razões. Primeiro, porque creio que o PSD precisa de apresentar um candidato próprio à CML. Depois, porque esse candidato tem que conseguir ganhar. Quando digo ganhar, não é tentar fazer o melhor possível e depois logo se vê. É para ganhar mesmo. E isso só se consegue com um peso pesado como PSL. Obviamente que este raciocínio só faz sentido se PSL aceitar o desafio, o que não está garantido. Dito isto, creio que a direcção do PSD só tomará uma decisão em Fevereiro/Março do ano que vem e basear-se-á naquilo que as sondagens ditarem. Ou seja, se as sondagens aconselharem uma coligação para Lisboa com o CDS, então Assunção Cristas tomará a dianteira. Não é um cenário que me agrade particularmente, mas uma vitória poderia mudar muita coisa. Fernando Medina abriu o flanco e há que aproveitar e capitalizar o descontentamento dos lisboetas face aos problemas que se verificam nos transportes públicos, na segurança e nas infindáveis obras que têm assolado a capital. Diria que todos fazem figas. O PSD para que as obras se arrastem, se possível, até Setembro. O PS para que tudo esteja a brilhar até Maio/Junho. Vamos ver quem é que ganha a corrida ao tempo.
REGIONAL Facto da semana: Pedro Marques, o Ministro do Planeamento e das Infraestruturas, veio ao Algarve, mais concretamente à sede da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR), em Faro, assinar
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com pompa e circunstância os contratos dos Planos de Acção de Regeneração Urbana (PARU) no âmbito do CRESC ALGARVE 2020. Saiu de lá com uma mensagem muito clara por parte da maioria dos autarcas algarvios: “Senhor Ministro, a reabilitação urbana é importante, mas o que é para ser resolvido de imediato são os problemas que os municípios têm diariamente com as obras na EN125”. Albufeira, Lagos, Faro, Olhão, São Brás, entre outros, precisam de respostas concretas. Pessoalmente, não acredito que este problema se resolva rapidamente. Aliás, este é o mesmo Ministro que considerou recentemente que a ligação ferroviária ao Aeroporto de Faro não é uma prioridade. Está tudo dito. A propósito do Aeroporto de Faro. A sua direcção tem vindo a apresentar a oferta de novos voos e destinos – a chamada Operação de Inverno IATA 2016/2017. O aeroporto vai disponibilizar 230 saídas semanais e mais nove rotas. Estrategicamente, é brilhante e deve ser sublinhado este esforço. Portanto, é um sinal positivo que é dado pelo aeroporto e pelos seus parceiros: Região de Turismo do Algarve e Associação de Turismo do Algarve. Agora, o lado negativo que muitos algarvios querem ver resolvido o quanto antes: é imperativo garantir uma rota entre Faro e Lisboa que não seja alvo de monopólio por parte da TAP. Por exemplo, é mais barato viajar de Faro para Londres, Porto, Bruxelas ou Paris do que é viajar para Lisboa e isto é inaceitável. A rever. Destaque da semana: A Web Summit de Lisboa pela projecção internacional e pelo impacto económico que trouxe (e trará, espera-se) ao país e a Lisboa. Parabéns ao ex-secretário de Estado, Leonardo Mathias e ao exvice-primeiro-ministro, Paulo Portas, que, a 23 de Setembro de 2015, assinaram o acordo que permitiu trazer o evento para Portugal. Parabéns também ao actual Secretário de Estado da Indústria, João Vasconcelos, que desempenhou muito bem o seu papel. Jovem, inteligente, dinâmico, há muito ligado ao empreendedorismo, fez (e bem) da Web Summit uma rampa de lançamento para voos mais altos dentro do Governo e da estrutura partidária socialista. Para acompanhar. Um abraço e até para a semana . *Doutorado em Ciência Política e Relações Internacionais. É Investigador no CIEP – Centro de investigação do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa. Escreve com o antigo acordo ortográfico.
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A semântica do vernáculo António Manuel Ribeiro
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screvi «Vernáculo», poema, em 2006, entrando nas páginas do meu livro de poesia inédita «O Momento A Seguir», editado no final desse ano. Lembram-se de quem estava há um ano no poder? O longo poema reflectia o estado de um país sem rumo, entregue à manipulação propagandística, um país que estrebuchava nos cafés de estrada, nas conversas de rua numa terra por aí, quando me olhavam como «o gajo de Lisboa» e começavam a desabafar. Ouvia esse mesmo país quando andava às compras numa grande superfície e os queixumes das mulheres – as gestoras de cada casa – acusavam o castigo e o sacrifício imposto por «eles». Quando sete anos depois o poema se transformou na canção «Vernáculo (para um homem comum)» e o incêndio se propagou como fósforo em palha seca, houve quem acordasse para o retrato fiel da nação, a tragédia nacional que se abatera sobre nós, pela terceira vez desde o «25 de Abril» – estávamos de novo na bancarrota: vivíamos com um Jaguar (em leasing) à porta da barraca alcatifada. Chovia lá dentro mas andávamos a discutir a cor do papel de parede. «Vernáculo (para um homem comum)» é um sucesso escondido, um dos meus grandes sucessos como autor, mas está proibido de se ouvir na rádio, incluindo aquelas estações e programas de gente rebelde, modernaças e dirigidas à juventude, alternativos e até underground – não passa. Felizmente hoje as redes sociais funcionam, ainda funcionam, para o bem e para o mal, e se oficialmente não há censura em Portugal existe o esquecimento. É a quarta canção, que eu saiba, que viu o lápis da censura em democracia. Em 1982 descobri que «Chamem-me Narciso» e «Fim De Vida», ambas do LP de ruptura «Persona Non Grata», tinham entrado num índex, segundo uma publicação da época do semanário Expresso, continuando o fervor da Inquisição ou das fogueiras nazis alimentadas por literatura desviante. Em 1988, a ALGARVE INFORMATIVO #83
canção «Na Tua Cama» teve igual destino, porque, como dizia o sempre bem-humorado António Manuel Rolo Duarte, meu editor que partiu cedo demais, “os homens não se fazem na cama, pá, mas na tropa”, aludindo aos versos “na tua cama/fui de rapaz até homem”. O silêncio é poder, um poder fraco, sem fecundidade, mas que as sociedades actuais e os políticos descartáveis que as governam promovem como outrora o respeitinho: bater palmas no sítio certo e calar, falar de bola e de outras banalidades, esquecer. Haveria um milhão de coisas para vos dizer nesta manhã de sábado, fiquemos por aqui. A semântica do poder é manobrar palavras que ninguém guarda na ansiedade dos dias de manta curta, um puxa-puxa entre o queixo e os pés. Propaganda no ar e a malta cansa-se, “estou cansado, pá/cansado e parado por dentro/sem vontade de escolher um rumo/sem vontade de fugir/sem vontade de ficar…”. O poder, assessorado por empresas de marketing e comunicação, sabe que a desistência, a fadiga e a frustração tomam conta do assunto. Uma crise gerida com aspirinas vai trazer pneumonia, mas há quem ache que esse é o nosso destino (ou cultura) desde Alcácer Quibir. A manhã acordou chuvosa, e o sono quebrou-se com as bátegas a chocarem nos estores – a natureza dizia levanta-te, e eu segui o conselho. A terra cheira a terra e as rosas perderam pétalas sob a força da água. Bom dia. Um disco: «A Multitude Of Angels» de Keith Jarrett, registo de quatro concertos por cidades italianas, comprado ontem com o entusiasmo de um puto na semana que antecedia o Natal. Como ainda não o ouvi nada posso dizer-vos, mas o Keith é uma das minhas companhias, “music is your friend until the end”, sussurrava Jim Morrison em 1967. Com este registo a discografia que possuo deste enorme pianista sobre para 83 obras . 48
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Criticar comida é a mais subjetiva de todas as opiniões Augusto Lima
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ai-se a um restaurante para comer, é verdade, mas, acreditem, há muitos outros assuntos que não comida, que interferem na hora de avaliar o todo e existe uma substancial, colossal mesmo, em alguns casos, diferença entre um crítico gastronómico e um normal cliente. Convém ainda referir que a crítica a um prato de comida é a mais subjetiva de todas as opiniões pois, em se tratando de comida à carta, cada prato é cozinhado uma vez e de cada uma delas é único e diferente, por todas as condicionantes envolventes. O segredo está em uniformizar o gosto (se é que é possível) e os procedimentos, como temperaturas, manufatores, etc. Já vi gostar de coisas que acharia de imediato repugnantes e já vi o contrário acontecer. A diferença entre Criticar com o intuito de Destrui e fazê-lo de forma Construtiva é, por vezes, tão-somente a agressividade com que falamos ou escrevemos. Muitas são feitas por pessoas sem conhecimento real de causa e, outras ainda, apenas com o fito único de demolir o trabalho de alguém. Em qualquer dos casos, o criticado deve retirar das censuras tudo aquilo que o pode fazer crescer e melhorar. O resto deve ser esquecido. Em Restauração, nunca sabemos quem está sentado na nossa sala, avaliando o nosso desempenho. Pode ser um crítico, um futuro empregador, o nosso desconhecido colega de cozinha, sala ou empresário, ou mesmo um olheiro, averiguando o espaço na perspetiva de ali realizar um serviço. Num ERB (Estabelecimento de Restauração e bebida), os últimos clientes, inclusive os que chegam fora de horas, devem ser tão bem recebidos/tratados como os primeiros, de sorriso franco e verdadeiro desempenho profissional. Maioritariamente, as críticas começam com as primeiras questões, as que se prendem com a sinalização, limpeza e ementa informativa no exterior, para depois debruçarem-se sobre a receção. A indiferença, a rudeza ou mesmo o snobismo retira de imediato pontos e faz recuar qualquer alma bemintencionada. Eu, nos meus espaços ou onde trabalho, digo sempre em bom som – Olá, seja bem-vindo, e menciono o nome do restaurante ou espaço. O acolhimento determinará se o possível cliente irá querer gastar o seu dinheiro ali ou num outro sitio qualquer. Reclamar deve exigir sempre bom senso e espera o criticado beber informação importante para poder avançar, alterando o que está errado.
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Dizem os entendidos que três visitas são necessárias para se avaliar condignamente um restaurante, pois existem inúmeros aspetos que se melhoram todos os dias, como o saber estar pessoal e profissional dos empregados ou detalhes relacionados com temperaturas, termos e aspetos ligados ao confecionamento das iguarias, ou ainda pequenos detalhes associados à limpeza, adereços, musica, luz, espaços essenciais como o wc, ementas, carta de vinhos, e um sem numero de outros detalhes. Já vi gente reclamar por tudo e por nada, sem razão alguma. Já vi Restaurantes serem reclamados pelos motivos que eles próprios realçam, como símbolos do espaço (procedimentos, metodologias), por realmente terem razão, por coisas sem a mínima importância e ainda por coisas extremamente importantes. Quando se pede legumes, os clientes esperam que venham com cor, al dente, quentes ou frios, conforme o caso – Mas para muitos clientes, alimentos al dente estão crus; e depois temos os pratos óbvios – de uma salada montanheira pedida ao meio dia, espera-se encontrar tomate, pimento e cebola acabados de cortar e não cozinhados pelo frio, calor ou acidez e com sabor a cebola cortada há dois dias. Quando se apregoa Peixe fresco, ele tem de ser da lota, da rede do pescador, ter cheiro a maresia; se fala de Carnes frescas, elas devem ter procedência legítima, estarem bem acondicionadas, bem cozinhadas. – Mas o que é isso de estar no ponto? Líquido rosado não é sangue. Produtos caseiros têm origem local, manufaturadas individualmente, de pequena produção, com características próprias; Locais, querem dizer a menos de 100 Km; Regional quer dizer original no processo de fabrico, com produtos autóctones; Legítimo, quer dizer original, sem sombra de dúvida, acobertado para comprovação em caso de necessidade por atestado passado pelo emissor do produto; Cozinheiro é um técnico de cozinha (conhece os alimentos e sabe cozinhalo a preceito segundo os métodos mais adequados. Parafraseando, quem não quer receber críticas, faz de tudo para as evitar . (Presidente da Associação de Cozinheiros e Pasteleiros do Algarve)
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“LOULÉ ESTÁ BEM SINTONIZADO COM AS NECESSIDADES DO NOSSO MUNDO CONTEMPORÂNEO”, CONSIDERA VÍTOR ALEIXO O Acordo de Paris entrou em vigor no passado dia 4 de novembro e a histórica data serviu de incentivo para uma conversa com Vítor Aleixo, presidente da Câmara Municipal de Loulé e um dos autarcas portugueses mais empenhados na defesa do ambiente e na luta pela sustentabilidade do planeta, enfim, por deixarmos aos nossos filhos e netos um mundo em melhor estado do que aquele em que o encontramos. Mas a conversa serviu igualmente para abordar o desperdício alimentar e outras batalhas que o executivo louletano tem travado nestes três anos. Texto: ALGARVE INFORMATIVO #83
Fotografia:
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Sol já se tinha posto naquele final de tarde em Loulé mas a agenda do autarca Vítor Aleixo ainda tinha muitos compromissos pela frente. Apesar disso, o cansaço foi colocado de lado ao constatar que a conversa ia girar em torno de temas que lhe tocam fundo, isto é, o ambiente, a preocupação com um futuro sustentável, a adoção de comportamentos éticos e socialmente responsáveis para com o próximo, mas também para com esta «casa» gigante em que todos habitamos. “São assuntos que qualquer cidadão comum deve acompanhar e basta estar atento, ler os jornais, ver a televisão, para observar aquilo que se passa, todos os anos, mesmo à nossa volta. Facilmente se percebe que o clima tem vindo a mudar muito rapidamente e a minha geração recorda-se de um tempo em que chovia mais suavemente e durante mais meses ao longo do ano, ao invés de uma pluviosidade tão torrencial e concentrada no tempo. Lembramo-nos de Verões quentes, mas não tão secos, nem com temperaturas tão altas. De Outonos e Invernos mais frios e, agora, observamos temperaturas atipicamente altas. Os períodos de seca tornaram-se mais fortes, originando maiores perigos de incêndios florestais”, aponta o presidente da Câmara Municipal de Loulé, visivelmente preocupado com o rumo que o planeta está a seguir. Toda esta informação existe há algum tempo e está disponível para quem se mostrar interessado, mas os decisores políticos demoraram a despertar para uma nova realidade que tem consequências negativas diretas no dia-a-
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dia dos cidadãos e das comunidades. Vítor Aleixo, porém, já acompanhava atentamente esta matéria há vários anos, pelo que não foi de estranhar que, assim que assumiu a presidência do maior concelho do Algarve, tivesse jogado mãos ao trabalho. “Uma das frentes decisivas da batalha pela adaptação às alterações climáticas vai ser, sem dúvida alguma, ao nível local. Nós temos o dever e a 54
responsabilidade de pensar na qualidade de vida dos nossos munícipes, de prover um meio-ambiente protegido, de educar os cidadãos para a sustentabilidade ambiental. Cabe ao decisor político local dar o exemplo e promover políticas que apontem nesse sentido”, frisa o entrevistado, daí Loulé ter abraçado prontamente o projeto «Climadapt» para se elaborar uma
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estratégia municipal de adaptação às alterações climáticas. Uma batalha nem sempre fácil, porque muitas das suas medidas não são facilmente visíveis a olho nu e os portugueses estão habituados às cerimónias de inauguração de grandes infraestruturas ou estradas e aos eventos vistosos. Vítor Aleixo acredita, ALGARVE INFORMATIVO #83
contudo, que há um despertar da consciência cívica para a proteção e preservação dos valores naturais. Mesmo assim, a Câmara Municipal de Loulé é uma das poucas que está na linha da frente com um programa de educação ambiental reconhecido a nível nacional. “Somos um Município ECO XXI e, em 2015, lideramos o ranking nacional com uma estratégia de desenvolvimento sustentável que cumpre elevados padrões de sensibilização para a educação ambiental nas escolas. É verdade que não é uma obra material, mas todos nós sabemos que o período de dotação das infraestruturas físicas – escolas, rede de esgotos, abastecimento de luz e água, estradas, equipamentos culturais e desportivos – praticamente está concluído. Foi um paradigma de gestão autárquica que está a chegar ao fim e começamos a transitar para outra
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ordem de preocupações na gestão das autarquias”, entende. A adaptação às alterações climáticas é uma forte preocupação, então, da Câmara Municipal de Loulé, assim como as cidades saudáveis e as cidades educadoras e as novas formas de economia, que já não assenta, somente, no sol e praia, mas também na natureza, no património histórico, na memória coletiva, na cultura. “Há um novo conjunto de problemas que, no passado, só muito residualmente preocupavam um gestor autárquico e que hoje ganham uma importância crescente. Loulé é um município que está bem sintonizado com as necessidades do nosso mundo contemporâneo e está a ser reconhecido, na região e no país, por
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estar na vanguarda dos novos temas da gestão autárquica”, evidencia o edil. Como públicos-alvo desta forte sensibilização estão os mais novos e o concelho de Loulé possui dois centros de educação ambiental, um em Loulé e outro na Pena, na freguesia de Salir, por onde passam centenas de crianças para desfrutar do trabalho de excelência desempenhado por técnicas da autarquia há seis ou sete anos. “Foi uma boa herança do anterior executivo que mantivemos e onde temos investido ainda mais, porque os jovens são os mais abertos à mudança de comportamentos. São eles que irão continuar aquilo que nós fazemos e são os primeiros interessados em que o mundo tenha qualidade, seja habitável e sustentável. Para isso, não podemos ter uma atitude predadora de recursos que são fisicamente finitos, mas sim uma atitude de consumo consciente e responsável”, defende Vítor Aleixo.
Em prol dos modos suaves de mobilidade A par destes centros de educação ambiental, o trabalho é realizado nas próprias escolas, mercê de professores bastante sensíveis para esta temática, mas também através de vários eventos culturais que acontecem no concelho, como é exemplo o recente espetáculo «Mão Verde» de Capicua e Pedro Geraldes. Há, todavia, medidas mais concretas, de efeitos mais imediatos, tais como a oferta de bicicletas aos estabelecimentos de ensino e a
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funcionários da autarquia, ou o programa de bicicletas partilhadas em execução em Vilamoura e Vila Sol. “É preciso ter consciência que estamos a começar um trabalho do qual não sairemos no médio e longo prazo. O esforço para nos adaptarmos às adaptações climáticas é para várias gerações, porque os desafios são bastante exigentes. Temos uma estratégia aprovada da qual resultaram 28 medidas práticas, algumas das quais estamos a estruturar e implementar”, frisa Vítor Aleixo. A promoção da mobilidade suave, neste caso ciclável, é apenas uma dessas medidas, tendo sido já marcada uma sinalética adequada no pavimento para que os cidadãos compreendam que, nas cidades, devem reduzir a velocidade e que as bicicletas também têm os seus direitos e vão partilhar as vias urbanas com os automóveis. “Sempre que possível, vamos marcar corredores próprios para as bicicletas e aumentaremos o número das ciclovias, estando para breve a primeira dentro da cidade de Loulé. Ciclovias que já construímos, neste executivo, também em Vale de Lobo”, lembra o entrevistado, reconhecendo que há constrangimentos físicos a ultrapassar na prossecução deste programa. “É um processo longo durante o qual vão ser feitas várias intervenções dentro das cidades e vilas, vamos dar melhores condições para a mobilidade a pé, em passeios mais generosos e seguros, e vamos convidar o cidadão a trocar, sempre ALGARVE INFORMATIVO #83
que possível, o seu automóvel pelos percursos de bicicleta, a pé ou de transporte coletivo em meio urbano. Não se esqueça que os circuitos urbanos de autocarro alargaram muito recentemente a sua área de cobertura”, reforça Vítor Aleixo. Loulé não é, no entanto, uma ilha, está rodeado por outros concelhos, de modo que algumas destas medidas só terão resultado efetivo se forem acompanhadas pelos outros autarcas, pois há muitos louletanos a trabalhar nos municípios vizinhos e vice-versa. “Vejo que todos os meus colegas estão preocupados com estas questões, se calhar cada um ao seu ritmo próprio, mas todos mobilizados para a promoção dos modos suaves de mobilidade. A mobilidade tem que ser descarbonizada, porque os veículos motorizados são responsáveis por praticamente metade da emissão de CO2 para a atmosfera com efeito de estufa”, apela, convicto de que o cidadão comum também está de olhos abertos para este problema. “Cada vez que há uma chuva torrencial, destrutiva, que faz vítimas mortais, como aconteceu o ano passado em Loulé, que provoca danos imensos como em Albufeira, em 2015, o cidadão sabe que estes fenómenos são uma ameaça à vida humana e que há que encontrar respostas. As pessoas estão preparadas para mudar os seus hábitos de consumo e de mobilidade, mas tem que haver alguém que tome a iniciativa, sejam os decisores políticos, sejam os cidadãos”.
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Convicções Sim! Modas passageiras Não! Outra batalha em que a Câmara Municipal de Loulé está fortemente empenhada prende-se com o desperdício alimentar e ainda há poucas semanas foi lançada uma coleção de quatro histórias ilustradas sobre este tema para distribuir por todas as crianças do primeiro ciclo do concelho. Isto porque estima-se que um terço dos produtos utilizados para confeção de alimentos seja desperdiçado, uma situação insustentável para Vítor Aleixo. “Não podemos permitir que existam toneladas de alimentos que são jogados para o lixo, quando há famílias com carências alimentares. Não obstante a produção excessiva e o desperdício brutal de alimentos, continuam a existir pessoas que passam fome, muitas vezes de uma forma silenciosa e pouco visível”, critica. Uma das respostas da autarquia louletana foi a adesão ao programa internacional «Zero Desperdício Alimentar», à semelhança do vizinho concelho de São Brás de Alportel, mas existe igualmente o projeto «Refood», mais concentrado em Almancil. E tudo isto, garante, não são uma moda passageira. “Comigo, aqui há objetivos que correspondem a convicções políticas e éticas e a sua execução será prosseguida de uma forma sistemática e permanente. O mesmo acontece
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com o Turismo Criativo – com Loulé a ser o único município português a fazer parte de uma rede internacional –, um turismo que tem agregado as nossas maiores tradições culturais, as heranças que recebemos das gerações que nos antecederam. São frentes de gestão autárquicas que, muitas vezes, são imateriais, mas não tenho dúvidas que são bastante valiosas”, salienta Vítor Aleixo. Adaptação às alterações climáticas, mudança de estilos de vida, diminuir o consumismo e a pegada de carbono, fomentar o convívio entre os cidadãos, promover a qualidade do espaço urbano, são os novos temas na agenda do presidente da Câmara Municipal de Loulé, que não escondia a satisfação pelo seu concelho ter sido considerado aquele com maior dinamismo
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económico no plano nacional, segundo estudos da Marktest. “Temos a área empresarial mais importante a sul do país, que se foi estruturando e organizando com os anos e hoje emerge como a grande realidade económica logística e de serviços do Algarve. São também colossais os investimentos privados e públicos em curso e Loulé cada vez é mais reconhecido como um bom lugar para viver, trabalhar e investir. Mas há que perceber que quatro anos são manifestamente insuficientes para concretizarmos todos os nossos objetivos, tais como novos equipamentos para a cultura e desporto, novos estacionamentos públicos e melhores meios urbanos, sempre gerindo com grande sentido de responsabilidade e forte solidariedade social” . ALGARVE INFORMATIVO #83
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João de Brito brilha no teatro dançado de «Novo_Título Provisório» O ator farense João de Brito regressou aos palcos algarvios, nos dias 7 e 8 de novembro, com «Novo_Título Provisório», um cruzamento entre teatro e dança idealizado pela encenadora Yola Pinto que encantou dezenas de crianças no CineTeatro Louletano. No final, João de Brito falou do espetáculo e das novas produções do LAMA prestes a ir a cena, mas também das eternas dificuldades de se ser ator profissional e de se viver em exclusivo da cultura. Texto:
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Cine-Teatro Louletano recebeu, nas manhãs de 7 e 8 de novembro, «Novo_Título Provisório», um espetáculo que combina o teatro físico e a dança, da responsabilidade de Yola Pinto e interpretado pelo farense João de Brito. Com dezenas de crianças sentadas em pleno palco, o corpo humano é o centro desta exploração de memórias das diversas partes que o constituem, do novo que, de repente, deixa de ser novo, das dicotomias clássico/contemporâneo, objeto renovado/objeto transformado, natural/adquirido. 50 minutos percorridos num ritmo frenético, intercalado por breves pausas, um jogo de luzes bem conseguido, imagens de vídeo num painel de ecrãs, música e sons a acompanharem os textos, mas também os momentos de reflexão, motivando igualmente a
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participação natural dos jovens espetadores. João de Brito colabora, desde 2010, com o Serviço Educativo da Culturgest – Fundação Caixa Geral de Depósitos e, quando surgiu a hipótese de voltar a trabalhar com a encenadora Yola Pinto, abraçou de imediato o novo desafio, dando assim resposta à vontade de fazer um espetáculo mais físico, com um lado de dança mais saliente do que o do teatro. “Nos primeiros e-mails em que conversamos sobre o projeto, o assunto era sempre «Novo», que se tornou o título provisório. Começamos a esmiuçar os caminhos a seguir e escolhemos precisamente o conceito do «novo», de ser volátil, de rapidamente desaparecer, de deixar de ser «novo» ao fim de cinco segundos. Não pensamos em
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conceber um produto especificamente direcionado para crianças e tem sido muito bem recebido por pessoas de todas as idades, porque fazemos sessões para escolas, mas também para famílias”, conta o ator, enquanto a equipa de produção ia desmontando o palco. O objetivo é que os espetadores regressem a casa e se questionem sobre a forma como podem ser melhores, que não consumam o mundo apenas da maneira como ele lhes é apresentado, prossegue João de Brito nas explicações, confessando que a tarefa nem sempre é fácil quando não existe um texto dramático previamente concebido. “Quando se faz uma criação de raiz, é mais fácil levantar cenas do que colá-las, do que ter um fio condutor, porque o espetáculo não pode ser demasiado abstrato. Por isso, tiramos o tapete aos espetadores, mas
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damos-lhe logo um bocadinho para ganhar solidez. Aqui, começamos com uma pessoa que nasce, que vai desabrochando, mostrando um membro, depois outro, começa a andar enquanto descobre o próprio corpo, diz as primeiras palavras e frases, que são logo de questionamento”, descreve. Uma narrativa que inclui pormenores reais da existência de João de Brito, como as suas peripécias de jogador de basquetebol, baixinho, que tinha que descobrir truques para ultrapassar os adversários mais altos do que ele.
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Outros, porém, são totalmente inventados, como o simples beber de um gole de água que o transforma num super-herói, ideias, jogos de imaginação que se foram perdendo nas novas gerações, sempre agarrados aos telemóveis, gadgets e consolas de última geração. “No meu tempo, com paus fazíamos um arco e flechas, um carro, uma pista de comboios, e queremos que os miúdos não percam essa sua veia imaginativa”, frisa. “O mundo evolui, eu próprio tenho um telemóvel e computador sofisticado, mas há que haver um equilíbrio e quase sempre a culpa de isso não acontecer é dos pais. Não têm tempo ou paciência para os filhos, distribuem umas playstation e eles ficam entretidos”. Quem também não quer perder muito tempo a imaginar enredos e situações são os adultos, o público,
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que, na ótica de João de Brito, querem a papinha toda feita. “Estão habituados às narrativas lineares, às histórias fáceis de seguir, porque querem estar na sua zona de conforto. O problema é que passem esses traços para os miúdos, o que é mau, porque os jovens têm tanta criatividade, conseguem ver coisas que não nos passam pela cabeça”, observa o ator, garantindo sentir-se confortável a trabalhar mesmo em cima do público jovem. “Não acredito em espetáculos de massas para crianças. Em Lisboa, faz-se muito bom teatro para a infância em alguns serviços educativos, do CCB, da Culturgest, do Teatro Maria Matos ou do São Luís, e costumam ser atuações para uma ou duas turmas, no máximo 90 ou 100 pessoas. Preferimos partir para vários espetáculos, do que trazê-las todas ao mesmo tempo, porque
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Não é impossível ser ator no Algarve, mas é bastante difícil
Yola Pinto entendeu que, com as minhas características de ator, eu conseguia chegar aos sítios que ela desejava. Isto é um espetáculo físico com um ator a dançar, sem pretensões de ser bailarino, desenhado por uma coreógrafa”, salienta o farense.
Ator de formação, João de Brito teve que se adaptar a este teatro mais físico, de movimentos constantes, desenfreados, frenéticos, onde os gestos falam, por vezes, mais alto do que as palavras, mas o trajeto tem sido bem-sucedido, com textos mais ou menos dramáticos, mais ou menos lineares. “Como é óbvio, não tenho a técnica de bailarino, não fiz esse caminho, mas possuo alguma fisicalidade. Eu tinha uma grande vontade de fazer um solo de dança e a
Mais complicado foi conter as expressões, a mímica de João de Brito, admite, com um sorriso, sabendo-se que, no bailado, normalmente os protagonistas assumem uma postura mais sóbria, austera, séria. “É algo que está intrínseco em mim e que gera algumas «lutas» com a Yola, que quer que eu coloque menos expressão em certos momentos, mas gerou-se um casamento profissional muito feliz entre nós dois.
estão mais próximas dos atores, distraem-se menos e a mensagem passa melhor”, entende o entrevistado.
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Funcionamos bastante bem a trabalhar e nem precisamos falar muito”, garante. “Ela aproveita o melhor que eu tenho desse lado mais teatral, lima outras partes e já estamos a pensar noutro projeto, mas com os dois em palco”, adianta. Projetos que são mais fáceis de montar em Lisboa, o que levou João de Brito a trocar Faro pela capital em 2004, perseguindo assim o sonho de ser ator profissional. As dificuldades, porém, não são exclusivas do Algarve. “Isto de abandonar o seio familiar, os amigos, começar tudo do zero numa cidade bem maior, não é fácil. No Algarve, não é impossível ser ator, mas é bastante difícil. Há duas companhias profissionais na região, três, vá, duas e meia, e mesmo nelas o dinheiro é limitado e não permite ter muita gente efetiva. A solução é fazer espetáculos com menos pessoas, mas isso acontece em qualquer sítio”, aponta. A diferença é que, em Lisboa, há uma maior variedade de opções para os atores, tais como a televisão, publicidade, locuções, dar aulas de expressão dramática ou corporal, algo que não se verifica noutros pontos do país. “Há muita gente que se safa a dar aulas, mas é complicado, de tal modo que alguns amigos e conhecidos equacionam ir para cidades onde, efetivamente, a concorrência é maior, mas também existem mais oportunidades”, relata, esclarecendo que nunca cortou o cordão umbilical com o seu Algarve. “Em 2010, criei o LAMA e tento fazer digressões o mais ALGARVE INFORMATIVO #83
amplas possível, da mesma maneira que tento que os outros projetos em que participo também venham ao Algarve”. A sobrevivência do artista, neste caso, do ator, é então estar envolvido em vários projetos em simultâneo, até porque a moda dos espetáculos pagos com as receitas de bilheteira não resulta, nem garante paz de alma 68
a quem neles participa. “Mesmo espetáculos para massas e com muitas caras conhecidas no elenco não são sinónimo de sucesso. Às vezes, fazemos espetáculos para 20 pessoas, cada um paga cinco euros, depois, há ainda uns quantos que pedem convites, não dá para viver assim. Sinto que o Algarve cresceu nesse aspeto e as câmaras municipais estão a voltar a apoiar as associações”, enaltece João de Brito. 69
“Percebem que a cultura faz um distrito, uma região e um país. Depois, há companhias profissionais que são associações sem fins lucrativos, portanto, não concordo muito com essa distinção entre teatro amador e profissional. No LAMA, ganho ao projeto, não tenho um ordenado fixo, mas trabalhamos como profissionais”.
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aparece tudo ao mesmo tempo. O que conta é o percurso, não apenas o produto final e não há resultados rápidos no teatro. Há um ou outro que tem sucesso mais depressa, ligado à televisão, por participar numa novela, mas isso são as exceções à regra”, afiança o entrevistado. “Alguns amigos dizem que sou maluco por estar em todas as frentes, mas tem que ser mesmo assim, porque só vivo disto e não tenho pais ricos. Quando estamos numa fase menos boa, é pensar nas nossas origens, de onde viemos, até onde já chegamos, e isso ajuda-nos a não desistir”.
Uma mudança de mentalidade que se deve, na opinião de João de Brito, à crise financeira que atingiu Portugal e que obrigou as autarquias a olharem mais para a prata da casa. Apesar disso, o conselho é o mesmo de sempre: as pessoas têm que saber mesmo o que querem fazer nas suas vidas. “Há fases duras, de menos trabalho, depois ALGARVE INFORMATIVO #83
E porque o «novo» já não é novo, o LAMA estreou, no dia 8 de outubro, em Silves, «Leôncio e Lena», projeto que ganhou um apoio financeiro da Rede Azul. A peça irá, de janeiro a março de 2017, percorrer todos os outros teatros e auditórios municipais pertencentes a essa rede. Outro apoio foi conquistado, do programa «365 Algarve», para o espetáculo «Carripana», uma coprodução com o Teatro de São Luís, de Lisboa. A isso soma-se uma criação pedida pela Câmara Municipal de Faro para ir a cena, na baixa da cidade, no dia 3 de dezembro, e antes disso João de Brito começa ensaios com o projeto «Ruínas», de uma companhia de Montemor-o-Novo. “O trabalho gera trabalho, vamos conhecendo novas pessoas, que gostam do que fazemos, funciona tudo em rede”, conclui, antes de ir ajudar na desmontagem do palco do Cine-Teatro Louletano e partir para novas paragens . 70
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Sara Badalo e Pedro Matos juntos num «Storm & The Sun» que dá gosto ouvir Das influências do jazz de Sara Badalo e do hardcore de Pedro Matos nasceu o projeto «Storm & The Sun» e o tema de apresentação – Moaning – já está a dar que falar nas redes sociais e no you tube. O objetivo, por isso, é avançar rapidamente para estúdio para gravar um EP, numa sonoridade que combina o folk, gospel e o blues, e com uma forte vertente visual associada. Nós, por cá, não nos cansamos de ouvir «Moaning» e esperamos ansiosamente por mais. Texto:
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ponto de encontro foi o ambiente country do restaurante/bar do Karting de Almancil, para ficarmos a conhecer «Storm & The Sun», o novo projeto de Sara Badalo e Pedro Matos, dois músicos jovens mas que andam neste mundo há vários anos. Sara cresceu embalada pelo jazz, Pedro está mais ligado ao hardcore, conheceram-se, apaixonaram-se, ALGARVE INFORMATIVO #83
beberam das influências um do outro e, de forma natural e espontânea, se começou a escutar uma nova sonoridade pelos cantos da casa. “Fomos gravando no telemóvel as músicas que iam aparecendo, mostramos a amigos, que nos incentivaram para seguir em frente porque tinha bastante qualidade. Decidimos acatar esses conselhos e fomos uma semana para Grândola,
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estúdio”, recorda Sara Badalo. “Davanos prazer tocar música o dia todo, íamos para a praia com a guitarra, a meio da noite fugíamos para o cimo de um monte com a guitarra e um amplificador e tocávamos para os morcegos”, prossegue a letrista e vocalista, retratando uma imagem que estamos habituados a ver nos filmes de Hollywood mas que raramente acontece na vida real.
fechados numa casinha, para alinhavar as coisas”, conta Pedro Matos. Uma espécie de retiro que não teve nada de espiritual nem foi para grandes meditações, mas para trabalho intenso. “Levamos guitarras, amplificadores, computador e teclado. A nossa intenção era tirarmos umas pequenas férias, porque eu tinha terminado a faculdade, mas montamos praticamente um 77
Num instante gravaram 10 temas, no meio do monte, perto de uma igreja, e todos os típicos sons noturnos ficaram registados no telemóvel, sons que, depois, já em estúdio, tentaram reproduzir. “Ouvem-se os grilos e o vento e gostamos imenso do efeito que deu às músicas, mas não foi uma coisa planeada”, admite Pedro Matos, com Sara Badalo a reconhecer que, à primeira vista, o jazz e o hardcore não são estilos muito compatíveis. “Contudo, ambos têm uma grande vontade de exprimir emoções. No jazz antigo, por vezes a forma não é a mais correta e os acordes não são os mais bonitos, mas isso não é o mais importante. Nós queremos que a nossa música expluda, que transmita emoções, que seja um pouco interventiva e que fale dos problemas atuais”, explica Sara. Os dois universos musicais acabaram por se unir num ponto intermédio, com uma banda de folk/gospel/blues, um estilo que não é muito popular em Portugal, mas essas considerações comerciais ou as modas do momento não apoquentam a dupla. “Claro que ALGARVE INFORMATIVO #83
queremos que a nossa música chegue ao maior número de pessoas possíveis, mas não pensámos nisso quando estávamos a compor. Seguiu um rumo diferente do que estava habituado a fazer em «Devil in Me», talvez mais parecido com «Sam Alone & The Gravediggers», mais minimalista, mas o resultado final tem sido bem aceite. Atualmente, também vemos cantoras pop com músicas folk ou country, está tudo descaracterizado, é tudo camaleão”, analisa Pedro Matos. Natural foi igualmente a opção por cantarem em inglês, a língua que Sara Badalo está mais acostumada a usar nos projetos em que está envolvida, faz parte do seu vocabulário do dia-a-dia. “Quando estou a cantar, também estou a pensar, no meu subconsciente, em inglês”, confirma a vocalista, embora isso não impeça que também componham na sua língua materna, esclarece Pedro Matos. “Foinos feito o convite para criarmos uma música para um filme, que teria que ser em português, e fizemos algo semelhante a «Storm & The Sun» e que não nos soa totalmente estranho ALGARVE INFORMATIVO #83
quando ouvimos, portanto, é possível que venhamos a repetir a experiência no futuro”.
Nada de letras fúteis e sentimentos banais Está visto que, para além do amor, existe muita química artística entre Sara Badalo e Pedro Matos, que num instante compõem letras e melodias,
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mas nem tudo é perfeito, confessam, numa autocrítica assumida. “Na parte de gravar e produzir somos mais lentos, tudo o resto é bastante simples para nós. Ir para estúdio, adicionar instrumentos, todo esse processo implica distanciar-nos daquilo que fomos inicialmente”, justificam. Já em casa, podem surgir alguns acordes da guitarra de Pedro e Sara depressa escreve e põe voz em cima do som, noutras situações, é Sara que começa a
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cantar uma letra com uma melodia e depois surge o instrumental. “Não temos regras estipuladas. Aliás, às vezes começo a fazer uma música e a Sara diz-me logo que ainda temos outras para concluir e eu já estou metido numa nova”, conta Pedro com uma risada. “Eu funciono melhor sob pressão, quando tenho um prazo para terminar alguma coisa. Sou um pouco insegura e quero estar sempre a mudar e experimentar outra coisa para o resultado ser melhor, o Pedro é mais assertivo e transmite-me bastante confiança”, diz-nos Sara. Pelo discurso da dupla depressa percebemos que as letras de Storm & The Sun não caem em saco roto, que têm sumo quando se espremem, que não são banais e incoerentes, como, infelizmente, acontece em muitos projetos musicais que andam por aí na berra. “Não transmitimos a nossa ALGARVE INFORMATIVO #83
mensagem de forma fácil e direta, queremos que as pessoas pensem. Mesmo nos temas onde abordamos o amor, não o fazemos de forma fútil. Há lutas e dificuldades implícitas no amor, há sentimentos de perda por que todos passamos na vida, falo do papel que devemos desempenhar na nossa sociedade. Os temas acabam por ser um pouco interventivos, mas falam também do amor e da natureza”, descreve a responsável pelas letras, com Pedro Matos a acrescentar que não existe uma narrativa comum a todas as músicas, pelo que todas podem ser escutadas de forma isolada e aleatória. Ora, apesar de já terem material suficiente para o álbum de estreia, a intenção da dupla é lançar um EP com apenas cinco músicas e a justificação é simples. “Atualmente, tudo é consumido de forma bastante rápida e só ouvimos um tema de cada banda no you tube ou numa playlist, não é como um filme que vemos do princípio ao fim. Perdeu-se o hábito de se comprar um disco e ouvir todo de seguida nos auscultadores”, lamenta Pedro Matos, avisando que os músicos têm que se adaptar às novas realidades de consumo. “Mesmo um EP requer demasiado tempo às pessoas, às vezes é preferível ir lançando temas um a um no you tube, com vídeos associados”, acrescenta. “A imagem vai ser uma aposta forte dos Storm & The Sun e temos parcerias com alguns realizadores para criarmos vídeos fortes, com bons conceitos”. A estratégia surge pelo gosto comum que os dois têm pelo cinema e, cada vez ALGARVE INFORMATIVO #83
que criam uma música, têm sempre uma imagem associada a ela, umas mais fáceis de transpor para a realidade do que outras. “Vai ser difícil, mas gostaríamos que a maior parte dos temas tivessem videoclips para ilustrar o lado visual da música”, reforça Pedro Matos, indicando que estão atualmente a trabalhar com a realizadora algarvia Vera Casaca, o também algarvio André Badalo é outro nome na calha e está prestes a estrear «Breed Me», um vídeo do lisboeta Bruno Mira. Em palco, entretanto, a dupla pode dar lugar a formações mais alargadas, com músicos convidados, consoante o local e o tipo de concerto. “A nossa música permite que alguns espetáculos sejam mais intimistas, a dois, ou com produções de maior dimensão, com banda e num ambiente gospel. Acaba por ser mais interessante para o público, que encontra sempre algo diferente nos concertos”, sublinha Sara Badalo. “Estamos aqui para ir à luta e o público vai aumentar de atuação para atuação, como foi a minha experiência no hardcore. De braços cruzados é que não podemos ficar, porque ninguém vai buscar os artistas às salas de ensaio, por muito talento que tenham. O EP vai estar cá fora no primeiro trimestre de 2017 e estamos em conversações com algumas editoras que se mostraram interessados no nosso trabalho”, finaliza Pedro Matos . *agradecimento especial ao Karting de Almancil pela cedência do espaço para a realização da entrevista
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DIRETOR: Daniel Alexandre Tavares Curto dos Reis e Pina (danielpina@sapo.pt) CPJ 5852 Telefone: 919 266 930 EDITOR: Daniel Alexandre Tavares Curto dos Reis e Pina SEDE DA REDAÇÃO: Rua Estrada de Faro, Vivenda Tomizé, N.º 12P, 8135-157 Almancil Email: algarveinformativo@sapo.pt Web: www.algarveinformativo.blogspot.pt PROPRIETÁRIO: Daniel Alexandre Tavares Curto dos Reis e Pina Contribuinte N.º 211192279 Registado na Entidade Reguladora para a Comunicação Social com o nº 126782 PERIODICIDADE: Semanal CONCEÇÃO GRÁFICA E PAGINAÇÃO: Daniel Pina FOTO DE CAPA: Daniel Pina
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