ALGARVE INFORMATIVO #74
10 de setembro, 2016
Bonny The Gemini regressa aos palcos ainda mais arrojado festival dos perceves| festival verĂŁo azul | vinhos do algarve | dream first | dia de faro 1
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OPINIÃO 6- Daniel Pina 36 - Paulo Cunha 38 - José Graça 42- Mirian Tavares 44 - Augusto Lima
ATUALIDADE 8- Dia de Faro 18 - Festival dos Perceves 26 - Festival Verão Azul
ENTREVISTAS/ REPORTAGENS 46- Bonny The Gemini 56- Comissão Vitivinícola do Algarve 66- Dream First
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Os tropeções do costume no regresso às aulas Daniel Pina
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ois é verdade. As férias para os graúdos já tinham terminado há umas semanas, agora é a vez dos mais pequenos regressarem à sua labuta diária, que é como quem diz, voltarem aos bancos das escolas. Um arranque de ano letivo que, como é normal, e até seria estranho se assim não acontecesse, está a ser pautado pelos tropeções do costume. Com início marcado para 9 de setembro no que diz respeito ao primeiro ciclo, muitos se queixaram de imediato que era demasiado cedo, já para não falar nas férias de Natal que, pelos vistos, este ano vão dar muitas dores de cabeça aos pais portugueses. Mas o dia 9 já passou e, pasme-se, aulas nem vê-las. Aliás, as informações que me deram, já que a minha filhota mais velha entra este ano para a primária, é que as aulas de apresentação aconteceriam a 15 de setembro, restando esperar para ver se as aulas normais arrancam logo no dia seguinte (sexta-feira), ou se apenas na segunda-feira, 19 de setembro. Se tal se concretizar, o 9 de setembro transforma-se, num ápice, em 16 de setembro, ou seja, uma semana após a data inicialmente avançada por quem nos governa – bem ou mal é questão de perspetiva. Apesar disso, o Ministro da Educação continua a dizer que estão reunidas todas as condições para um arranque de ano letivo dentro da normalidade. Muito me admirava ele se dissesse o contrário. Do outro lado da barricada, os responsáveis sindicais não são meigos nas palavras, avançam com números alarmantes de professores que não foram colocados, que vão ficar no desemprego, ou com umas parcas horas de atividades extracurriculares. Ao mesmo tempo, muitos docentes assumem a vontade de deixar de dar aulas, estão completamente esgotados, numa constante pilha de nervos. Nada de admirar, infelizmente, pois passam os dias com crianças e jovens cada vez mais rebeldes e de língua afiada, sem qualquer
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respeito pela autoridade, de escassos valores cívicos. Já para não falar das múltiplas tarefas administrativas que lhes colocam no colo, papelada sem fim para tratar e que consome mais tempo do que o ato de ensinar, de transmitir conhecimentos às novas gerações. Enquanto isso, os pais andam numa roda-viva, não sabem quando é que começam as aulas, não sabem onde deixar os filhos enquanto vão trabalhar, não se entendem com o material escolar que é preciso comprar. O governo oferece os manuais escolares aos alunos do 1.º ano do 1.º ciclo, mas há muito mais onde gastar dinheiro. Por isso, a generalidade das autarquias decidiu oferecer os livros aos alunos dos restantes anos do 1.º ciclo, assim como as fichas escolares e outros materiais de consumo. O português, como é habitual, em vez de agradecer e bater palmas, divide-se nas suas opiniões. Uns tecem elogios aos presidentes de câmara por gastarem milhares de euros, e são mesmo muitos milhares de euros, a ajudar as famílias no sempre complicado início de ano letivo. Outros atacam os presidentes de câmara por estarem já em campanha eleitoral, já que as Autárquicas acontecem em 2017 e há que conquistar a simpatia dos munícipes. O mesmo de sempre. Se não ajudam, são acusados de desperdiçarem o erário público em viagens, luxos, festas e obras sem sentido. Se ajudam, são acusados de oportunistas, de estarem a aproveitar-se das crianças para ganhar votos. Váse lá entender a mentalidade dos portugueses. Eu, como não ligo muito à política, nem tenho partido, prefiro agradecer à Câmara Municipal de Loulé por oferecer os manuais escolares à minha filhota. É dinheiro que se poupa e, não esquecer, tempo que não se perde de livraria em livraria, de papelaria em papelaria, quase como se andássemos à caça de um tesouro perdido, neste caso, dos manuais esgotados . 6
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Faro comemorou o seu Dia do Município Assinalou-se, a 7 de setembro, mais um Dia do Município de Faro, data marcada pela homenagem a várias personalidades e coletividades do concelho, mas também pela abertura de um novo caminho municipal e por diversos momentos culturais. Entre eles, um destaque merecido para o lançamento da autobiografia do antigo presidente da Câmara Municipal de Faro, Negrão Belo, que encheu por completo os claustros do Museu Municipal de Faro. Texto:
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dia 7 de setembro voltou a ser de festa para o concelho de Faro, que ainda estava a recuperar do tremendo sucesso de mais uma edição do Festival F, com as comemorações do Dia do Município. Como de costume, as cerimónias oficiais começaram com o Içar da Bandeira, logo pelas 9h30, seguindose a tradicional Sessão Solene nos Paços do Município, que incluiu a justa homenagem a nove individualidades e coletividades do concelho. Perante um Salão Nobre completamente cheio de responsáveis municipais e regionais, bem como convidados especiais oriundos de outros pontos do planeta,
foram distinguidos a Companhia de Dança do Algarve, Eduardo Pinto Viegas, Fernanda Cinturão Pacheco Pires, Isaurindo Coelho Chorondo, Ludgero dos Santos Sequeira, Lurdes Baeta, Manuel Célio de Jesus da Conceição, Manuel Eurico Santos Mestre e Rui Isidro da Silva Machado. Foram também atribuídas Medalhas de Bons Serviços e Dedicação a Funcionários Municipais, sendo que, por entre os dois momentos, houve oportunidade para assistir a uma excelente atuação dos «Amar Guitarra», de João Cuña e Pedro Mendes. Na ocasião, Fernanda Cinturão Pacheco Pires, enfermeira aposentada do Departamento de Psiquiatria do Centro Hospitalar do
Rogério Bacalhau, presidente da Câmara Municipal de Faro
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Algarve e uma das responsáveis pela criação, em 1991, da ASMAL – Associação de Saúde Mental do Algarve, fez questão de partilhar a homenagem com João Pires, seu marido e companheiro de todas as jornadas, assim como com as equipas do Centro de Saúde Mental e a equipa técnica e dirigente da ASMAL. Também a jornalista da TVI Lurdes Baeta agradeceu a distinção e lembrou que Faro lhe deu “horizontes e cultura”. “Faro é uma cidade aberta, ao contrário do que se diz da província, porque todos os anos entram nela milhares de turistas. Aqui chegavam primeiro as modas, as músicas, a ALGARVE INFORMATIVO #74
cultura, mas o mundo passa pelas nossas ruas e eu fui atrás dele. Tenho Faro no meu coração, a minha família vive cá e estou muito orgulhosa por esta homenagem”, reconheceu Lurdes Baeta. Outro homenageado a usar da palavra foi Manuel «Necas» Mestre, fundador e presidente do Clube de Surf de Faro, distinguido com a Medalha de Mérito de Grau Ouro, que agradeceu a todos os que acreditaram nele e que o apoiaram no seu percurso. “Nunca me passou pela cabeça que uma distinção destas me fosse atribuída, o que 10
acarreta um aumento das minhas responsabilidades para com a cidade. Tentarei nunca desiludi-los e contribuir para que Faro evolua. Deixo também uma palavra para todos os dirigentes associativos que prescindem dos seus fins-de-semana e de muitas horas após os seus dias de trabalho para dar um contributo a esta cidade e aos seus atletas e sem qualquer remuneração financeira”, frisou Manuel Mestre. “Nesta sociedade em que estamos inseridos, de constante evolução e mutação, temos que ser pró-ativos, criativos, líderes, decisores, temos que nos saber fazer ouvir, mas, acima de tudo, devemos ter a capacidade de 11
saber ouvir e aproveitar as boas ideias que vão surgindo. Mesmo as más ideias podem ser alvo de reflexão e dar origem a excelentes ideias”. O presidente do Clube de Surf de Faro entende que a capital algarvia tem sofrido uma evolução positiva nos últimos anos sem perder a sua identidade, com mais turismo e oferta em todos os campos. No entanto, voltou a enfatizar a necessidade da Ilha de Faro possuir uma ponte com dois sentidos que permita o seu fácil, rápido e seguro acesso. “Faro vai deixando de ser uma cidade só de ALGARVE INFORMATIVO #74
serviços e de gentes locais e tem que criar mais massa humana, mais postos de trabalho, aumentar o rendimento e a qualidade de vida das suas famílias”, defendeu o dirigente associativo, apelando para que todas as instituições do concelho trabalhem em prol dos mesmos objetivos e “não se tentem bloquear numa demonstração tola de poder”. Ilda Pereira Silva, presidente da Assembleia Municipal de Faro, com Evgeniy Belyaev, da Companhia de Dança do Algarve
Rogério Bacalhau, presidente da Câmara Municipal de Faro, com Eduardo Pinto Viegas
Faro recuperou orgulho e futuro A finalizar, usou da palavra o presidente da Câmara Municipal de Faro, Rogério Bacalhau, que teceu primeiramente elogios aos funcionários da autarquia distinguidos na Sessão Solene, bem como aos farenses que têm ajudado ao desenvolvimento e projeção do concelho além-fronteiras. Depois, lembrou que Faro já não é um doente severo como sucedia há alguns anos. “Já não temos problemas que pareciam insanáveis em matéria financeira e orçamental. Recuperamos a boa imagem do município, mostrando que era possível cortar mais de 40 por cento da dívida total e, ao mesmo tempo, ganhar eficiência operacional. Naturalmente que os indicadores vitais de Faro radicam no esforço individual e coletivo dos seus habitantes, seja no mundo dos negócios e do trabalho, ou no plano
Paulo Neves, vereador da Câmara Municipal de Faro, com Fernanda Cinturão Pacheco Pires, da ASMAL
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educativo, cultural, desportivo e social”, salientou o edil. Rogério Bacalhau destacou as melhorias verificadas nos espaços públicos e no parque escolar do concelho e chamou a atenção para a maior dinâmica da baixa e do centro histórico de Faro. “As ações de regeneração urbana estão a cumprir a sua missão de alavanca da economia e do comércio local e o mesmo se passa com os eventos, como o «Alameda Beer Fest», o «Baixa Street Fest» ou o Festival F, que trouxeram para os farenses um indisfarçável orgulho por saberem que, afinal, o concelho também é capaz de ter animação de qualidade e de rivalizar com o que de melhor se faz em Portugal”, sublinhou, virando depois a atenção para a requalificação da rede de estradas do concelho. “Onde se viam buracos já se podem ver hoje caminhos asfaltados, estradas reparadas e avenidas sinalizadas. Fizemos o maior investimento em mais de uma década em betuminoso e aumentamos a rede local, enquanto a variante a Faro ia já afirmando a importância transcendental que justificou todas as exigências e demandas para que este
Cristina Ferreira, vereadora da Câmara Municipal de Faro, com Isaurindo Coelho Chorondo
Fernando Gomes, vereador da Câmara Municipal de Faro, com Ludgero dos Santos Pereira
António Mendonça, vereador da Câmara Municipal de Faro, com Lurdes Baeta
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dossier fosse finalmente desbloqueado”.
Teresa Correia, vereadora da Câmara Municipal de Faro, com Manuel Célio de Jesus da Conceição
Paulo Santos, vice-presidente da Câmara Municipal de Faro, com Manuel Mestre
O presidente da Câmara Municipal de Faro afirmou, porém, que muito há ainda por fazer e lembrou que, no passado dia 4 de julho, se começou a escrever um futuro novo para os farenses, quando a Assembleia Municipal aprovou, por unanimidade, a primeira revisão ao orçamento de 2016. “Teremos 4,7 milhões de euros para investir no concelho e devolver aos munícipes o fruto do seu esforço. É mais apoio ao comércio e às associações do concelho; mais recuperação de estradas, ruas e caminhos; melhor rede escolar, equipamentos de lazer, de desporto e outros; melhores condições para os nossos bombeiros e para o transporte escolar”, adiantou Rogério Bacalhau, referindo ainda que Faro se tem conseguido afirmar como uma excelente alternativa aos destinos turísticos tradicionais do Algarve que assentam a sua oferta do «sol e praia». “Faro tem património e cultura, mas não tem ainda o litoral que tanto deseja e que pode ter. Na verdade, há uma enorme diferença de qualidade entre a imagem que o centro da cidade oferece e a que é projetada pela zona ribeirinha. Veja-se o porto comercial que, de repente, já não
José António Cavaco, vereador da Câmara Municipal de Faro, com Rui Machado
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tem expetativas nem investimento. Veja-se a velha doca, com os barcos em doca seca, o lixo acumulado, os muros cheios de fissuras e as infiltrações de água nas artérias circundantes”, apontou o autarca. O antigo presidente da Câmara Municipal de Faro, João Negrão Belo, no lançamento das suas memórias, no Museu Municipal de Faro
Rogério Bacalhau lamentou, por isso, que Faro esteja a crescer a duas velocidades, com um desenvolvimento assinalável no casco urbano, e um litoral abandonado e a degradar-se. “Os farenses exigem, e com razão, que a DOCAPESCA atua já, independentemente da configuração de projetos futuros. Exigem ainda à Ministra do Mar e à Administração dos Portos de Sines e do Algarve que não deixem o porto comercial de Faro morrer e que ouçam as ideias que temos a esse respeito. Exigem igualmente ao governo que efetive a nova ponte para a Praia de Faro e que avance de uma vez por todas com o processo de realojamento dos pescadores e da definição do estatuto do núcleo da Culatra”, disparou, entendendo que gerir o litoral não se resume a demolir e proibir. “É criar condições para que o mar e a ria sejam uma mais-valia para o território e para as comunidades que devem servir. A nossa capacidade de crescer colocounos no mapa. A nossa especialização
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no turismo, cultura e ciência está a fortalecer. Saibamos todos nós valorizar as nossas potencialidades e dar o devido valor a Faro e aos farenses, aos que cá nasceram e aos que cá vivem”, concluiu Rogério Bacalhau. Terminada a Sessão Solene, foi tempo de descerrar a placa toponímica «Rua Dr. António de Noronha», junto à Pista Municipal de Atletismo. Após o almoço, as comemorações reataram com a abertura oficial, às 16h, do Caminho Municipal 520-1 «Estrada dos Valados», e com a inauguração da exposição «Relicários», do Arq.º Cabrita do Carmo, no Club Farense, às 17h. O programa do Dia do Município encerrou da melhor maneira, pelas 18h30, com a apresentação das memórias do antigo presidente da Câmara Municipal de Faro, Prof. João Negrão Belo, «Um Caráter Saudavelmente Rebelde», no Museu Municipal de Faro .
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Milhares de turistas encheram a barriga com o «ouro» de Vila do Bispo O primeiro fim-de-semana de setembro é sagrado para os apreciadores de perceves, que partem em peregrinação rumo a Vila do Bispo para se banquetearem com esta deliciosa iguaria. No festival promovido pela Associação de Marisqueiros de Vila do Bispo e Costa Vicentina há, porém, muito mais alternativas para encher a barriga e a música, como é natural, não falta. Texto: ALGARVE INFORMATIVO #74
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á muitos anos que Vila do Bispo é considerada a capital do perceve e, a atestar esse galardão, está o sucesso do V Festival do Perceve, evento que decorreu, nos dias 2, 3 e 4 de setembro, na Escola E.B. 2,3 de S. Vicente. Um espaço que, face à enorme adesão das edições anteriores, teve que ser aumentado, passando a incluir uma tenda gigante exclusiva para as cerca de 700 mesas e balcões de venda de comida, com as cozinhas logo ali ao lado. Quanto ao pavilhão da escola, passou a ser preenchido com um espaço de exposição de artesanato e produtos típicos da terra.
município do barlavento algarvio a nível gastronómico, logo a começar, claro está, pelo super cobiçado perceve. A ele juntavam-se, na ementa, as lapas grelhadas, mexilhões, moreia frita, navalheiras, salada de polvo, papas de xerém, papas de mexilhão e choco frito, portanto, a escolha era muita, fosse para comer num almoço mais tardio ou à hora do jantar. À noite, a refeição era acompanhada pela animação musical, que este ano esteve a cargo do Quarteto de Fado ao Sul, do grupo Jô-Kina & Bakorinhos, do grupo Albuhera, de Mr.Carly, Shoo e Pajó e do DJ Dope Boy.
Foram três dias em que milhares de visitantes tiverem ao seu dispor as várias iguarias que caracterizam este
A organização coube, uma vez mais, à Associação de Marisqueiros de Vila do Bispo e Costa Vicentina,
Bruno Dias, tesoureiro da Associação de Marisqueiros de Vila do Bispo e Costa Vicentina 19
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com o apoio logístico e financeiro da Câmara Municipal de Vila do Bispo, e o objetivo é o mesmo de sempre, promover uma das maiores iguarias gastronómicas do município. E se os perceves são abundantes, de facto, na Costa Vicentina, a sua apanha não é fácil e está condicionada legalmente. Numa labuta árdua, os marisqueiros descem as falésias para os apanhar, tarefa pouco aconselhável a amadores ou curiosos devido à inclinação das mesmas, e muito menos se deve fazê-lo sozinho. Isto porque, invariavelmente, a vida do marisqueiro que desce para apanhar perceves nas rochas depende do companheiro que fica em cima, junto à corda de segurança.
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Por estes dias, todavia, as atenções estão concentradas na montagem do Festival do Perceve e a azáfama era tremenda para dar vazão a tanta procura, pelo que tivemos que esperar alguns minutos até chegarmos à conversa com Bruno Dias, o tesoureiro da Associação, que prontamente confirmou a dificuldade da apanha deste marisco. “Estamos sempre dependentes das condições do mar e isso pode influenciar até a data do festival, que tentamos que aconteça no início de setembro, por coincidir igualmente com o final da época da apanha”, explica o jovem marisqueiro. “Temos que começar a preparar tudo com alguns meses de antecedência porque todos os anos aumenta o número de visitantes”, adianta o dirigente. Entre 800 a mil quilos de perceves é a quantidade base para se conseguir dar resposta a todas as solicitações,
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fácil ter um rendimento estável na apanha do perceve. “Há um defeso de três meses que estamos a tentar alterar de maneira a que seja cumprido em dois períodos diferentes, para não obrigar as pessoas a terem que arranjar trabalhos temporários nessa altura”.
tudo apanhado pelos mariscadores filiados na associação, que depois ajudam nas diversas tarefas do festival. Marisqueiros de todas as idades mas a maioria é malta nova, sangue novo, garante Bruno Dias, para “tentarmos levar esta profissão ainda mais longe”. “As pessoas não têm ideia do que é necessário fazer-se para terem os perceves nas suas mesas, desde a captura à escolha e à distribuição. Felizmente que há jovens com interesse em dar continuidade a esta atividade com milhares de anos”, salienta, embora reconheça que não é ALGARVE INFORMATIVO #74
Mesmo durante a época normal de captura do perceve, essa não é garantida, tudo dependendo das marés e do mar. “As nossas folgas são quando o mar quer”, diz, com um sorriso, pelo que é imperativo conhecer todos os segredos desta arte, conhecimentos transmitidos dos mais velhos para os mais novos. “Muitos de nós aprendemos com os nossos pais e avós e tentamos absorver o máximo possível no terreno, porque a experiência é fundamental. Como em qualquer atividade, há que dominar as técnicas”, frisa, ao mesmo tempo que garante que acidentes acontecem normalmente aos amadores. “Quem faz disto a sua vida adquire determinados conhecimentos que lhes permitem avaliar todas as situações. Agora, aquelas pessoas que vêm apanhar perceve de forma lúdica, não
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conhecem o mar e a rocha e acabam por ter acidentes”. Convém esclarecer que a captura de perceve está limitada a 10 quilos por dia, por mariscador, de 15 de setembro a 1 de março, e de 15 quilos diários no resto do ano, portanto, não é admirar que seja praticamente tudo vendido, quer a restaurantes e hotéis como a retalhistas. Também por isso, o Festival do Perceve acaba por ser um momento determinante para a associação angariar receitas para a sua atividade anual, na defesa dos interesses dos seus membros. “Somos 46 mariscadores com licença
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e estamos praticamente aqui 30 a trabalhar nestes dias, como voluntários. Apesar disso, temos que contratar algumas pessoas por causa da dimensão que o evento já alcançou, nomeadamente cozinheiros. Tivemos que meter mais mesas, acho que dobramos os lugares sentados, à volta de 700, e continua a ser difícil servir toda a gente com a rapidez que eles esperam”, admite Bruno Dias. “Este festival é um ícone do concelho e vêm cá milhares de pessoas comer o nosso «ouro», os perceves” concluiu o tesoureiro da Associação de Marisqueiros de Vila do Bispo e Costa Vicentina .
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FESTIVAL VERÃO AZUL REGRESSA AO ALGARVE Aproxima-se mais uma edição do Festival Verão Azul, evento organizado anualmente pela associação cultural «casaBranca» e dedicado à promoção e difusão da criação artística contemporânea, nacional e internacional, na região. Desta feita com um formato mais dilatada no tempo, de 17 de setembro a 6 de novembro, o festival dá continuidade ao trabalho de consolidação de parcerias intermunicipais e, para além da cidade de Lagos, estende-se este ano a Loulé e Faro. Texto: ALGARVE INFORMATIVO #74
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stá de regresso mais um Festival Verão Azul, este ano com arranque marcado para a cidade de Loulé através da inauguração da exposição de fotografia «Começar do Zero», na Casa do Castelo, com obras dos portugueses André Príncipe, André Uerba, Patrícia Almeida e Vasco Célio e do bósnio Andrej Djerkovic. A exposição estará patente até 22 de outubro, seguindo depois para o Centro Cultural de Lagos. Ainda no âmbito desta exposição será exibido, em ambas as cidades, «Traces of a Diary», de Marco Martins e André Príncipe, documentário concebido como um caderno de notas cinematográfico sobre o trabalho de alguns dos mais significativos
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fotógrafos japoneses contemporâneos. As propostas na área do cinema e vídeo passam ainda pela exibição do documentário de Helena Inverno e Verónica Castro «Um Elefante na Sala», em Loulé e Lagos, e «Deportado», de Nathalie Mansoux, em Lagos, paralelamente à sessão de curtas de Bill Domonkos, artista que combina animações computorizadas, fotografia e imagens de arquivo manipuladas. Loulé recebe igualmente «Atlas Loulé», de Ana Borralho & João Galante, uma coreografia social de resistência realizada com 100 pessoas de diferentes profissões da comunidade local. Da mesma dupla é «World of Interiors», performance-
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instalação que será apresentada no Teatro das Figuras e que é um objeto artístico que atravessa as fronteiras das artes visuais e performativas. Esta é mais uma proposta que convoca para palco pessoas das comunidades onde se apresenta, integrando um workshop com a duração de cinco dias. Em Faro marca presença a nova criação da coreógrafa Cláudia Dias, que trará ao Teatro das Figuras uma performance à laia de combate de boxe «Segunda-Feira: Atenção à Direita» onde se pretende reconstituir um combate, onde Cláudia e Jaime vão dar e levar na boca literal e metaforicamente, através de rounds de perguntas que questionam as suas (nossas) visões do mundo. Destaque ainda nas artes performativas para o espetáculo que Vera Mantero apresenta no Centro Cultural de Lagos - «Os Serrenhos do Caldeirão, exercícios em antropologia ficcional», obra que promove uma reflexão direta sobre o território ALGARVE INFORMATIVO #74
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algarvio e sobre desertificação/desumanização da Serra do Caldeirão. A música volta a ter um papel importante no Festival Verão Azul com a realização de concertos. Assim, a capital algarvia recebe Colin Stetson, saxofonista e compositor americano que ocupa um lugar único na cena musical contemporânea e cujo trabalho inclui colaborações com artistas como Tom Waits, Lou Reed e Laurie Anderson, Arcade Fire e TV on the Radio. Do Norte chegam a Lagos os «Live Low», quarteto que articula algum repertório do Cancioneiro e da música de tradição oral com elementos eletrónicos, num concerto que será o último de uma tournée que iniciam no Porto e passa por Lisboa, para promover o lançamento do álbum de estreia da banda, «Toada», editado pela «Lovers&Lollipops». Por Lagos passam igualmente os «Black Bombaim», num concerto que terá como convidado Rodrigo Amado, saxofonista luso e referência fundamental no jazz livre atual. Rodrigo Amado encerrará também o Festival com um concerto a solo na Galeria LAR, em Lagos. Como é habitual, o público infantojuvenil não foi esquecido e do programa faz parte «E se tudo fosse amarelo?», da coreógrafa e bailarina Sílvia Real e Grupo 23, um espetáculo protagonizado por crianças e que assenta em várias linguagens como a dança, o teatro, a música e a filosofia, para além
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de integrar uma Oficina de Improvisação Vocal e Instrumental para crianças. Joana Sá, pianista e compositora na área da música contemporânea, apresenta «Dentro da cabeça nem tudo é claro», uma
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singular performance musical para crianças a partir dos quatro anos fortemente marcada pelas dimensões musical, visual e textual. Para terminar, será exibido «O Rei e o Pássaro», filme
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de Paul Grimault com argumento de Jacques Prévert, considerado por muitos como uma obra-prima da animação francesa .
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Cidades com cultura Paulo Cunha
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endo o Algarve uma região que vive quase exclusivamente do turismo e para o turismo, e podendo o turismo ser considerado uma indústria que se serve de recursos naturais e/ou artificiais (aqueles que são criados pelo homem e entre estes os recursos culturais), não é pois de estranhar o forte investimento na animação cultural que, nos últimos anos, tem vindo a ser feito como forma de promoção local. Podendo uma Cidade ser interpretada de formas diferentes, consoante cada indivíduo, a sua formação, visão e reflexão, é lícito citar e parafrasear alguns autores que a consideram: - Um espaço multidimensional, e um lugar em que é possível uma mistura de interpretações mais ou menos corretas do mundo, do país e do próprio lugar. - Espaços naturais de acolhimento de instituições projetantes de inteligência e acumulação de saber; territórios estratégicos da inovação e criatividade; habitats da excelência da humanidade, centrados no conhecimento, na aprendizagem e na difusão do saber. - Um local de prestação de serviços, um lugar de troca de todas as naturezas, quer à sua própria população, quer à do exterior. Entendo por isso o esforço financeiro que várias cidades algarvias têm vindo a desenvolver na orçamentação da programação virada para a animação e o lazer, como forma de poder ter êxito no atual contexto de competição global. Sendo uma forma de gestão meritória, pois acaba por colocar as autarquias a substituir-se, no trabalho e no investimento, às entidades privadas que pouco ou nada têm investido na realização de eventos de média e grande escala no Algarve, vem assim por este meio ajudar – ainda que sazonalmente – a reforçar a identidade do local onde os eventos se realizam.
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Consubstancio e partilho a opinião de Ernâni Rodrigues Lopes na sua obra «O papel das cidades no desenvolvimento de Portugal»: “Uma cidade para ser bem-sucedida tem que criar condições para o seu desenvolvimento, sustentabilidade e competitividade, encontrando uma razão de ser, um caráter, um perfil próprio, uma atratividade, diversos fatores de diferenciação e capacidade sustentada de oferta de serviços, capacidades e competências.”. Sendo a época veranil quente por natureza a sul de Portugal, todos os eventos projetados para o exterior que privilegiem uma rápida assimilação, participação e fruição são garantia de sucesso em termos de afluência de público. No imediato, tudo o que tem o apoio da poderosa máquina que é o Marketing acaba por ter a aceitação desejada e esperada pelos promotores e produtores dos muitos e variados Festivais que povoam os verões nas cidades do barlavento e sotavento algarvio. Fico satisfeito que assim seja, pois vejo nos turistas e nos residentes algarvios, sinais de felicidade, regozijo e orgulho por constatarem que as “suas” cidades andam nas “bocas do mundo” pelas melhores razões! Fosse assim no resto do ano, em que as cidades algarvias tivessem na programação dos seus magníficos equipamentos culturais, um especial enfoque nas várias vertentes artísticas, privilegiando também o cariz eminentemente cultural, formativo e pedagógico de muito do que por cá se faz. Fosse assim… e os resultados far-seiam sentir da mesma forma que no verão! .
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A política de regresso José Graça
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Democracia é conhecida como o menos mau de todos os sistemas políticos, sendo que nem sempre ficamos convencidos do empenhamento dos seus atores na melhoria contínua dos sistemas através das suas atitudes e comportamentos… Em primeiro ligar, porque quem se dedica às causas comunitárias nem sempre teve a melhor formação familiar, não beneficiou de um sistema educativo amadurecido e vocacionado para preparar cidadãos de corpo inteiro e, quando procurou seguir exemplos, não fez as melhores escolhas ou não teve a sorte de encontrar o mentor certo. Depois, quando percebeu qual era o seu lugar no contexto ideológico reinante, escolhendo partido a tomar e rumo a seguir, perante as primeiras dificuldades ou obstáculos, possa ter vacilado optando pelo facilitismo do rebanho ao invés de manter-se coerente no idealismo que todos acarretamos dos momentos de infância e juventude. Para complementar este cenário pessimista, os tempos difíceis que atravessamos tanto podem exponenciar os piores defeitos individuais como consolidar as principais virtudes de cada um de nós. Quem já leva algumas décadas de experiência no tecido associativo ou no contacto frequente com a classe política, umas vezes de longe, outras integrado no sistema, acaba por descobrir a léguas quem anda por andar, colocando-se em bicos de pés sempre à espera da próxima oportunidade de alcandorar-se em qualquer coisa na sua carreira artística, ou ter a grata surpresa de distinguir a agulha no palheiro, descobrindo alguém bem formado, firme nos princípios e valores e verdadeiramente vocacionado para o serviço público, seja em que nível for! A Democracia até pode ser o menos mau de todos os sistemas políticos conhecidos, parafraseando a conhecida citação de Winston Churchill, mas a sua evolução depende muito da dedicação colocada pelos atores no desenvolvimento das suas atividades. Passada a pausa balnear, muitos regressam ao terreno anunciando catástrofes iminentes, outros apresentam propostas irrealistas, alguns procuram vincar posições negociais para os próximos debates. Quais são as
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vantagens deste comportamento, umas vezes irresponsável, tantas outras inacreditável?! Passados seis meses sobre a sua tomada de posse como Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa procurou desanuviar o ambiente tenso que se vivia nos setores da oposição de direita, agarrada ao passado e afastada do Poder por vontade popular. Infelizmente, o PSD e Pedro Passos Coelho não perceberam que era tempo de mudar e o CDS de Assunção Cristas não tem o poder suficiente para afastar-se do passado recente e assumir outro rumo... Pode ser que os resultados das Autárquicas de 2017 sejam mais eficazes do que o Presidente da República, pode ser que Passos Coelho entenda finalmente que está na hora de dar o lugar a outro, pode ser que Assunção Cristas consolide o seu poder interno no CDS, pode ser… Como sempre, a evolução da Democracia dependerá da soberana vontade popular, sabendo-se que a leitura política dos resultados locais acabará por ter uma influência mais alargada, concorrendo para naturais realinhamentos político-partidários visando as próximas eleições legislativas! Por outro lado, conhecendo-se a vontade governamental de aprofundar os mecanismos de descentralização, os autarcas eleitos nesse processo vão ser os protagonistas de uma verdadeira revolução em termos regionais, exigindo-se a maior responsabilidade na sua seleção e na elaboração das candidaturas aos órgãos autárquicos de nível municipal. Ainda não será a desejada regionalização administrativa constitucionalmente prevista desde 1976, mas é mais um passo, o passo possível. Voltaremos ao assunto! . NOTA – Poderá consultar os artigos anteriores sobre estas e outras matérias no meu blogue (www.terradosol.blogspot.com) ou na página www.facebook.com/josegraca1966 (Membro do Secretariado Regional do PS-Algarve e da Assembleia Intermunicipal do Algarve)
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Pentimento – o palimpsesto como obra de arte Mirian Tavares (considerações sobre a exposição do artista Ricardo Gritto, CECAL, Loulé)
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escritora norte-americana Lillian Hellman publicou uma espécie de autobiografia que intitulou de Pentimento, palavra que, segundo ela, designava uma pintura que poderia ter sido algo, mas que se transformou noutra coisa pelas mãos do próprio artista. Como se a sua ideia sobre o quadro fosse alterada, como se o artista hesitasse e decidisse dar novo rumo à obra: vemos uma mulher onde antes estava uma árvore ou uma estrada. No entanto, a imagem original fica lá registada, sob camadas de tinta e a nova configuração. Com o tempo a pintura começa a revelar aquilo que foi ocultado, a hesitação do artista, o percurso da obra: “That is all I mean about the people in this book. The paint has aged and I wanted to see what was there for me once, what is there for me now.” Cobrir algo não significa, necessariamente, perder de vista. O gesto oculta uma imagem que mais tarde vem a ser revelada pelas rachaduras na tinta, pelo sol que desgasta a tela, pelo tempo que passa. E o que Lilian Hellman queria era ver o percurso do pensamento, seu e dos outros, perscrutar a imagem que trazia consigo e a outra, que se inscreve no livro. Hellman constrói Pentimento como um palimpsesto – uma obra que utiliza alicerces de outra que já estava lá.
possibilidade do eterno recomeço. A arte começa com uma ideia que pode, ou não, se concretizar num gesto. E através do gesto, do processo de criação, o artista revela-se ao mundo e às coisas do mundo; revela a sua forma de ver e aquilo que é visto. O palimpsesto é um gesto ecológico - reutilizase uma superfície para que ela perdure – o significado pode ser alterado, mas continua presente apesar das alterações. O que ontem designava um reino, hoje designa uma cidade; o que era uma carta de amor transforma-se num tratado; o que era uma pintura esquecida num canto reaparece como uma obra nova. E o artista produz, incessantemente, novas significações e novas re(ve)lações. Porque a velatura oculta, mas a presença, mesmo invisível do original, permanece. E o que o artista faz é deixar entrever os caminhos do suporte e os descaminhos do seu processo de criação .
O próprio gesto da ocultação é já a revelação de um processo que implica reciclagem, que implica um retorno ao gesto básico e iniciático da arte: uma velatura sobre a superfície e a
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Isto é o Algarve! - Parte II Augusto Lima
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voltamos ao mesmo. Até quando? Todos os anos, os erros de quem governa se repetem, desprovidos de um mapa, de uma agenda, assertivamente determinada. Falo das obras, que não sendo de Santa Engrácia, ficam muitas delas por rematar ou veem a sua conclusão para tempo indeterminado com muitos atropelos e custos aos utilizadores dos espaços, das estradas. O Turismo é inegavelmente uma fonte segura de rendimento do nosso PIB. Já em 2014, uma matéria do Público reclamava que o Turismo valia mais para a economia, emprego, exportações e investimento em Portugal do que no resto da europa e mesmo no mundo. Um estudo do Conselho Mundial de Viagens e Turismo, com base em dados de 2013, avançava que enquanto o contributo para o Produto Interno Bruto (PIB) era de 5,8% em Portugal, na Europa era de 3,1%, e no mundo de 2,9%. Já o disse, Portugal pode ser o próximo País da Gula, com tanto e variado pecado gastronómico para deliciar o Mundo, mundo que anda em guerras e que trocou de paragens para veraneio. E nós, no Algarve, temos obviamente tudo ou quase tudo para conseguir amantes fiéis, ano após ano, mas não temos tudo… Falta-nos um ordenamento e registo de quantos ERB (Estabelecimentos de Restauração e Bebidas), um mapa populacional de técnicos de Restauração e Bebidas, uma rede viária e arquitetónica modernos e desvinculados de bulas numa construção assertiva, incluindo parques e espaços de lazer com manutenção permanente, de modo a empolgar, mas sem desvirtuar, o nosso território, preservando sempre o que foi feito e pode ser recuperado. A Gastronomia faz parte da História da Civilização, da história dos Países englobando costumes, tradições, folclore e religião e é a fórmula, saborosa, de dar a conhecer a nossa cultura, a nossa gente, através dos nossos produtos. Seria muito, muito importante, se houvesse uma valorização cada vez
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maior do que é nosso, nas ementas dos denominados Restaurantes Turísticos, apoiados em documentos escritos sobre a história do prato, a sua eventual evolução e do seu contributo para a génese do conceito, receituários compilados por estudos fidedignos. Durante muitos anos, França foi a capital da gula, o empório da gastronomia, o exemplo a seguir por um exército de cozinheiros e destino preferido de milhões de Gastrónomos e Foodies, janela de exportações em grandes projetos globais. Muito por azo dos Bascos, a Espanha, aqui bem perto, iniciou uma revolução gastronómica, declarando guerra à manteiga e enaltecendo o azeite, numa cozinha muito plástica, de cores vivas e sazonais, feita à volta dos produtos mediterrâneos e envolvendo as comunidades locais e os produtos endémicos e autóctones, apoiadas pior técnicas vanguardistas. E o mundo inteiro lhe dirigiu holofotes e sim, a Península Ibérica tornou-se a nova Capital do gosto, da Cozinha da Moda e trouxe fama e riqueza à Espanha e a muitos dos seus Artífices cozinheiros. Graças ao facto de a Gastronomia estar na moda, o mundo inteiro se preocupa em valorizar o que de melhor tem, e os Chefes ganharam um papel de destaque em revistas e programas de televisão. Portugal tem feito um bom trabalho de investigação, de reviver tradições, de valorizar os seus produtos, por mãos de Chefes e restauradores atentos ao fenómeno. Uma série de fatores permitiram, apesar da crise que lavra em metade do Mundo, que Portugal tenha conquistado, graças a um esforço glorio e teimoso de quem acredita, prémios, destaques e louvores como nunca tivemos. O Algarve tem um Mar de Tágides inspiradoras que bem podem derrotar o Adamastor da Sazonalidade proporcionar fama e glória, embrulhada numa Cozinha Mediterrânea de eleição. Urge incrementar, terminar com a precariedade do trabalho, da evolução das carreiras do Canal da Hospitalidade e da Restauração .
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Bonny The Gemini regressa aos palcos ainda mais arrojado Há sensivelmente um ano, Adilson Duarte, vulgo Bonny The Gemini, apresentou, no Cine-Teatro Louletano, «The Seven Show», a estreia do bailarino quarteirense como coreógrafo e produtor. Um espetáculo surpreendente, repleto de imagens, mensagens, danças e músicas de forte impacto emotivo. No final, em conversa com o jornalista, revelou que já estava a preparar um novo projeto, um género de diário, que seria ainda mais revolucionário. E é esse espetáculo que subirá ao palco desta mesma sala, no próximo 30 de setembro, e que fomos conhecer em primeira mão. Texto:
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estreia de «O Diário – A Utopia» de Bonny The Gemini está marcada para 30 de setembro, mais uma vez no CineTeatro Louletano, principal sala de espetáculo do concelho onde nasceu e de onde partiu à conquista do seu espaço como bailarino e coreógrafo profissional. Por isso, o artista, que na vida real é Adilson Duarte, filho de Quarteira, quase não tem tempo para respirar, com os dias cronometrados ao segundo, entre ensaios, gravações, mil e um preparativos, tudo para corresponder ao desafio lançado por quem o quis levar mais além. “A minha ideia sempre foi dar a conhecer a pessoa por detrás do Bonny e, no «Seven», expus os meus pecados. Agora, o objetivo é mostrar as minhas emoções como ser social, como indivíduo, como filho. Entretanto, como a «Utopia» de Thomas More está a completar os 500 anos da sua publicação, fiz uma junção com o meu Diário”, explica, lembrando que «Gemini» significa os dois lados da moeda, o equilíbrio entre o positivo e o negativo, duas formas distintas de observar o mesmo fenómeno. O Diário é, assim, o espelho de quem é Adilson Duarte na sociedade, o que defende e critica, as suas opiniões e convicções pessoais, num formato de entrevista onde lhe são lançadas cinco questões, cada uma delas dando o mote para uma emoção específica e de olhos postos na geração milénio,
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nos problemas que atormentam os jovens do século XXI. “A promiscuidade, as influências, o excesso de sexualidade na televisão, de catástrofe e negativismo. Quero fazer um contraponto entre a liberdade e o enclausuramento, qual será a melhor forma de nos libertarmos ou de continuarmos presos e não evoluirmos”, indica.
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Sem querer levantar em demasia a ponta do véu, Adilson adianta que o espetáculo em palco dará depois azo a um filme, que será colocado online, através da plataforma Vimeo, no início de outubro. Uma evolução, um upgrade, que é natural em relação a «The Seven Show», o seu primeiro trabalho como produtor, agora com os receios e inseguranças
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inerentes a uma estreia em nome próprio colocados para trás das costas. “Perdi o medo e isto é uma afirmação daquilo em que acredito como artista, de uma linha de espetáculo que quero criar. E isso passa por utilizar o meio visual, porque a entrevista será transmitida em modo de filme, como se fosse um canal de televisão, enquanto a história é ALGARVE INFORMATIVO #74
contada, ao vivo, pela dança”, revela o coreógrafo, acrescentando que estarão consigo em palco o DJ E-Klash e o baterista Ruben Azevedo, para além de duas bailarinas, sob a designação de «Kool Kids Band» Adivinha-se, então, um Diário ainda mais vibrante, mexido, irreverente, do que «The Seven Show», mas Adilson Duarte lidou bem com as fortes expetativas que se criaram em relação à sequela, ao novo produto de Bonny The Gemini. “Eu sou um criador e um recriador e, por vezes, inspiro-me em coisas que vejo ou ouço para produzir algo inovador. O «Seven» foi um arrumar da casa, um juntar tudo o que era negativo na minha vida, e tinha que o apresentar ao público de maneira arrojada, com beleza, cores. Foi difícil porque os medos e as inseguranças são maiores, mas eu olho para todos os meus trabalhos ALGARVE INFORMATIVO #74
como se não tivesse nada a perder. Encaro a minha vida com coragem, tento não me refugiar no medo”, salienta o quarteirense. Para o segundo espetáculo, Adilson decidiu, entretanto, envolver mais pessoas na criação do produto final, de modo a acrescentar outras visões e perspetivas, a tornar o objeto de arte mais sólido. “Não consegui levar o «The Seven Show» a mais palcos porque o espetáculo foi feito em freestyle, não coreografei nada. Metia a música e simplesmente dançava, deixavame levar pelas emoções do momento”, recorda, algo bem diferente de «O Diário – A Utopia», onde está tudo planificado, estudado, no sítio certo, enfim, com uma rede de segurança. “Procuro fazer sempre algo 50
OS ARTISTAS TÊM QUE AGARRAR NO DJ, NO BAILARINO, TÊM QUE CRIAR CONDIÇÕES PARA QUE ELES SE INSIRAM TAMBÉM DENTRO DA CULTURA. LAMENTAVELMENTE, EM PORTUGAL, SOMOS MUITO INDIVIDUALISTAS, ESTAMOS NUM PEDESTAL A EMPURRAR OS OUTROS PARA BAIXO. DEVÍAMOS, SIM, ALARGAR O PEDESTAL E PUXAR MAIS MALTA LÁ PARA CIMA.
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melhor, surpreender ainda mais as pessoas. A minha grande luta é inspirar os outros a fazer algo semelhante ao que se produz no estrangeiro. Os portugueses têm aquele lado de improviso, do desenrascar, no entanto, depois de cativarmos a atenção das pessoas, é preciso não a perdermos. Depois de virarem o binóculo para ti, temos que saber manter o interesse das pessoas e, para isso, tens que produzir o teu melhor”.
Alargar o pedestal e deixar cair o individualismo A espontaneidade de Adilson Duarte deu, de facto, nas vistas em «The Seven Show», mas o algarvio tem muito mais para dar aos portugueses, ficando mais maduro e seguro a cada ano que passa, à medida que vai explorando novos caminhos, quase como sucedeu com a seleção portuguesa no Europeu de Futebol. “Ninguém acreditava que íamos ser campeões mas, a cada vitória, fomos tendo mais garra, acreditando mais. Com este trabalho quero que as pessoas ganhem esperança e coragem, porque é assim que eu sou. Se as coisas correm mal hoje, amanhã podem correr melhor, e essa coragem e esperança fazem com que procuremos a nossa sorte com mais empenho e força”, considera o entrevistado. O negativismo foi, assim, vencido, ultrapassado, com «The Seven Show» e
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«O Diário – A Utopia» foca-se na esperança, na coragem e o público está recetivo a este espetáculo, a esta abordagem, acredita o experiente bailarino. “Danço há mais de 15 anos, a respirar o hip-hop, comecei na altura em que este estilo chegou a Portugal. Não havia internet na época, o que impedia uma maior difusão. Nos últimos dois anos, senti que as pessoas estão preparadas para estes conceitos mais inovadores, fora da caixa”, frisa, recordando que esta sonoridade entra pela casa dos portugueses todos os dias, a todas as horas, que é a sonoridade dominante do panorama atual. “Dos 15 aos 35 anos é a minha geração de eleição, é ela que vai fazer a transição de ideais, de maneiras de estar, de leituras e tolerâncias. O que os inspira mais no plano nacional é aquilo que se faz de mais parecido com o se produz no exterior, basta estudar os casos do Agir, David Carreira ou Richie Campbell, os artistas que estão a dar cartas no panorama musical português”. Neste sentido, Bonny The Gemini não tem dúvidas de que os jovens dos 15 aos 35 constituem a melhor geração que alguma vez Portugal teve. “São os mais qualificados a nível de formação académica, de preparação, de abertura ao mundo. É a primeira geração que tem a noção de que os portugueses são globais, de que podem ser aquilo que quiserem no mundo, e não só
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dentro das nossas fronteiras”, enfatiza, embora admita que a internacionalização de um bailarino lusitano não é pera-doce. “Os melhores bailarinos do mundo são de hip-hop, são os que ganham maiores cachets, os que dançam com os principais artistas internacionais. Em Portugal, nem sequer somos considerados profissionais, somos bailarinos de rua. Os artistas têm que agarrar no DJ, no bailarino, têm que criar condições para que eles se insiram também dentro da cultura. Lamentavelmente, em Portugal, somos muito individualistas, estamos num pedestal a empurrar os outros para baixo. Devíamos, sim, alargar o pedestal e puxar mais malta lá para cima”, refere Adilson Duarte.
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Todos estes pensamentos e muitos mais se podem encontrar em «O Diário – A Utopia», um retrato do mundo em que vive e que aprendeu a amar e a aceitar, a entender e a compreender, com os seus defeitos e virtudes, para depois se construir algo melhor. E quem for ver o espetáculo no dia 30 de setembro, no Cine-Teatro Louletano, não ficará, de certeza, indiferente. “As pessoas vão sair de lá aos saltos, porque vai ter muito boa música, mas também se vão identificar com alguma das histórias retratadas. Vais ser o branco ou o negro, o yang ou o ying, e vais sair do teatro curioso e inspirado, um pouco mais corajoso e, espero, um pouco mais alegre” .
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“A moderna viticultura não se compadece com romantismo ou paixão”, avisa Carlos Gracias Os vinhos do Algarve estiveram em evidência na mais recente edição da FATACIL, tendo sido entregues as medalhas aos vencedores do IX Concurso de Vinhos do Algarve, iniciativa da Comissão Vitivinícola do Algarve, em parceria com a Câmara Municipal de Lagoa e a Associação dos Escanções de Portugal. E porque estamos em plena época de vindimas, estivemos à conversa com Carlos Gracias, presidente da CVA, para saber os motivos do fulgor que os néctares algarvios têm conhecido na última década. Entrevista:
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na cidade de Lagoa que está localizada a sede da Comissão Vitivinícola do Algarve (CVA), presidida por Carlos Gracias desde 2010, ano de profunda reestruturação em virtude da alteração do quadro legislativo. Até essa data, a direção destas estruturas incluía um representante do Estado, passando posteriormente a serem associações totalmente de direito privado, com direções eleitas de três em três anos e com estatutos associativos. Entretanto, uma das exigências do DL 2012/2004 era que todas as Comissões Vitivinícolas estivessem devidamente acreditadas como certificadoras de produtos por via da norma ISO 17065. “Implementamos essas alterações e, em 2012, após um processo complicado, doloroso e custoso, fomos efetivamente reconhecidos como organismo de certificação”, conta Carlos Gracias, que é igualmente o responsável técnico da CVA e o coordenador da estrutura de certificação e controlo.
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Na prática, as Comissões Vitivinícolas foram constituídas para a certificação, defesa e garantia da genuinidade dos produtos que entram no mercado, sabendo-se que estamos perante um setor bastante legislado, aliás, é a única cultura cujo plantio está condicionado no espaço da União Europeia. “Quem quer entrar no setor, tem que primeiro adquirir autorizações de plantação para se instalar. Tudo começa com os contatos com o Instituto da Vinha e do Vinho (IVV) na parte da legalização comunitária da vinha, seguindo-se o trabalho da Comissão, com o controlo ALGARVE INFORMATIVO #74
das castas a implantar, as técnicas de cultura e de vinificação, a vertente produtiva”, indica Carlos Gracias, continuando com a explicação sucinta do processo. “O produto tem que ser analisado segundo cinco critérios: conformidade das castas; contas correntes; análise laboratorial; análise físico-química e sensorial; e rotulagem. O rótulo também tem que cumprir com a legislação, portanto, o controlo vai desde a uva até à garrafa”. Perante estes requisitos, em qualquer produto à venda no mercado com um selo oficial é possível saber-se a quinta e qual a parcela em que aquela uva foi plantada, para despistar doenças ou não conformidades com a legislação. Ou seja, não basta a uma pessoa ter dinheiro e vontade para produzir vinho, há que cumprir com uma série de procedimentos e, apesar da burocracia, Carlos Gracias revela que o número de produtores tem aumentado no Algarve nos últimos anos. “Em 2010, tínhamos cerca de 15 produtores instalados na região, já dobramos esse número a produzir efetivamente e mais estão a chegar. Este ano, foram cerca de 60 hectares atualizados ao abrigo do VITIS, um programa comunitário de apoio à reconversão das vinhas, e foram pedidas autorizações para mais 100 hectares”, indica o entrevistado. Uma burocracia que pode parecer excessiva à vista desarmada, mas 58
que é importante para a defesa da qualidade do produto final e até do próprio prestígio dos produtores e das regiões vitivinícolas. E, nesse aspeto, no Algarve existem quatro Denominações de Origem – Lagos, Lagoa, Portimão e Tavira e uma Indicação Geográfica Algarve, ou seja, cinco designações diferentes cuja garantia de qualidade há que preservar. “O vulgo vinho, o antigo vinho de mesa, não precisa passar por nenhum processo de controlo para entrar no mercado, mas a questão do prestígio e da notoriedade associada ao vinho tem-se vindo a desenvolver há bastante tempo. Somos assolados com vinhos de todo o mundo, sem denominação de origem ou indicação geográfica, vinhos com castas europeias de todo o tipo, com qualidade, mas que não têm este elã que se cria em torno do vinho”, observa o presidente da CVA. Algarve que possui, em números estimados, cerca de dois mil hectares de vinha cadastrada no IVV, com uma área de 500 hectares a comparticipar para os tais vinhos de Denominação de Origem e Indicação Geográfica. “Foram esses terrenos que, na década de 2000, foram reconvertidos e a antiga direção da Comissão realizou um bom trabalho na ajuda aos produtores com os projetos VITIS”, aponta Carlos Gracias, 59
lembrando igualmente que se assistiu a uma inversão no sistema de produção durante esse período, do cooperativo para o privado. “Começou por fechar a Adega Cooperativa de Tavira, depois foi a de Portimão, mais recentemente Lagos e a de Lagoa foi a única que se manteve em atividade, passando a designar-se Única – Adega Cooperativa do Algarve. Esta, contudo, por vicissitudes várias, também diminuiu a sua produção e deu-se o aparecimento das quintas”.
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Vinhos do Algarve brilham nos concursos Impossibilitados de entrarem numa adega cooperativa, alguns produtores arrendaram os seus terrenos, outros reconverteram as suas vinhas com fundos comunitários e começaram a produzir os seus vinhos, com adegas próprias ou, na maioria dos casos, num regime de prestação de serviço, conforme indica Carlos Gracias. “Construir uma adega de raiz pode custar à volta de um milhão de euros, atendendo às infraestruturas e aos equipamentos, pelo que há empresários com menores produções que recorrem a adegas já existentes e com uma forte capacidade instalada. Entregam as uvas e depois trazem o vinho para as suas quintas, para as suas salas de estágio e de barricas. É ALGARVE INFORMATIVO #74
uma forma de rentabilizar uma exploração vitícola sem grandes investimentos na parte das adegas”, sustenta o dirigente. Aproveitando as ajudas financeiras disponíveis, os empresários reconverteram as suas vinhas e aderiram igualmente às novas tecnologias e métodos de produção, para além de contratarem enólogos profissionais para produzir vinhos de qualidade superior e que todos os anos trazem para o Algarve medalhas de prestigiados concursos. “Os produtores, com o seu esforço e sacrifício, modernizaram as suas explorações, plantaram novas vinhas com as castas mais competitivas e adaptadas à região, chamaram a si os melhores enólogos, investiram em bons equipamentos e os resultados estão 60
à vista. O vinho do Algarve tem qualidade e, das cerca de 170 referências que existem atualmente, recebemos, anualmente, 40 a 50 medalhas em concursos, nacionais e internacionais, e que são feitos em provas cegas”, destaca Carlos Gracias, sem qualquer bairrismo. Qualidade que, depois, se traduz no preço médio mais elevado dos vinhos nacionais, ultrapassando, inclusive, os vinhos do Douro e Alentejo, tanto no canal HORECA como na distribuição. “É evidente que temos baixo volume, mas nós estamos apostados na qualidade, em detrimento da quantidade. Somos uma região periférica, temos excelentes características para a produção do vinho, desde o solo ao clima e exposição ao sol, passando pela influência mediterrânica e atlântica, o que nos permite ter
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produções muito especiais. Não é à toa que produtores de outras regiões se têm vindo a instalar no Algarve”, revela o entrevistado. Assim sendo, manter a elevada qualidade deve ser o objetivo primordial de todos os produtores do setor e o mercado regional responde à altura, garante Carlos Gracias. “O Algarve é uma região predominantemente turística, com quase 17 milhões de dormidas anuais, quase seis milhões de turistas a aterrar no Aeroporto Internacional de Faro, e só isso gera um manancial tremendo de oferta. Praticamente 85 por cento do vinho do Algarve é consumido no país e, dessa quantidade, 90 por cento é consumido na região”, indica, o que não significa que a presença em concursos internacionais não seja
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importante para alavancar a notoriedade dos vinhos algarvios. “E se cada turista que nos visita tivesse oportunidade de provar os nossos vinhos, esgotava-se rapidamente o nosso stock. Estamos a tentar convencer as estruturas locais da restauração, dos hotéis e dos aldeamentos para terem nem que seja uma referência algarvia nas suas cartas de vinhos. Aliás, é isso que acontece nas outras regiões vitivinícolas, ou há um certo bairrismo em relação à sua produção”.
Excesso de bairrismo não é bom Aposta na qualidade, não na quantidade, pelo que a produção bruta anual de vinho no Algarve ronda o milhão e 200 mil litros, sendo que parte
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dele é «despromovido» e entra no circuito comercial como «vinho de mesa» e não com Denominação de Origem e Indicação Geográfica. Ao nível de produtores, 20 a 30 por cento terão volumes superiores aos 100 mil litros, outros andarão na ordem dos 40 a 50 mil litros e outros ainda terão produções anuais em torno dos 10 a 20 mil litros. “Com produto de qualidade e preço condizente, é um volume que torna possível rentabilizar a exploração e criar marcas de referência”, considera Carlos Gracias. Quanto à ida a concursos nacionais e internacionais, a decisão cabe única e exclusivamente aos produtores, com a CVA a dedicar-se apenas à certificação técnica dos vinhos. “Fazemos alguma promoção conjunta, mas não nos substituímos
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ou sobrepomos aos produtores. O nosso objetivo é que eles façam o seu trabalho e vinguem por eles próprios. A Comissão incentiva os produtores à participação direta em certos eventos de promoção e, quando isso não acontece e a presença da região é importante, nós avançamos”, explica. Quanto à criação de marcas municipais, Carlos Gracias entende que as Câmaras Municipais devem proteger os produtores sedeados nos seus concelhos, mas não é apologista de se criarem mini bairrismos ou capelinhas. “Temos os Vinhos do Algarve, quatro DO, uma IG, é nisso que temos que trabalhar. Os municípios pretendem promover o seu território, enquanto o setor vitivinícola se preocupa mais com a vertente comercial, com as marcas, com a genuinidade do produto. Não há
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incompatibilidade, mas penso que devem ser as entidades competentes a promover os vinhos, com o apoio das autarquias”, afirma o presidente da CVA. Pela conversa com Carlos Gracias chega-se rapidamente a duas conclusões: por um lado, a produção de vinho não é para amadores, para apaixonados de vinho com meios financeiros para se aventurar neste setor; por outro lado, parece que a pujança dos vinhos do Algarve não é uma moda passageira, face aos produtores que estão ativos no mercado. Uma análise sucinta que é confirmada pelo entrevistado, que se socorre duma máxima muito utilizada mundialmente: “A moderna viticultura não se compadece com
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romantismo ou paixão. Há sempre uma paixão associada ao vinho, mas quem se mete nisto deve ter consciência de que é um setor muito complicado e altamente tecnológico e competitivo. Basta ver que os chineses já são os terceiros produtores de vinho do mundo e podem chegar ao topo no curto prazo. Temos a França e a Itália a disputarem normalmente os primeiros lugares, mas a China e os Estados Unidos estão a crescer bastante”, nota, aproveitando para lembrar que o consumo de vinho deve ser sempre feito com moderação. E como o mercado está em constante mutação, a Comissão Vitivinícola do ALGARVE INFORMATIVO #74
Algarve também tem que se adaptar aos tempos modernos e há projetos para tal em andamento. É disso exemplo uma candidatura ao Programa de Desenvolvimento Rural 2020 para informatizar todo o processo de certificação técnica dos produtos; para se criar uma laboratório de enologia de apoio aos produtores; para se publicar um livro com o ADN da região, as suas qualidades, história e tipicidades, bem como as quintas e adegas; e para a certificação do medronho. “É um projeto que vai dar maior solidez e consolidação à Comissão”, justifica Carlos Gracias .
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Sonhar através da dança
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Dream First - Ouvir a Dança é um projeto de inclusão pela arte, com apoio da SIC Esperança em parceria com Portugal Masters Golf, e que subiu aos palcos algarvios nos dias 2 e 9 de setembro, respetivamente no Cine-Teatro Louletano e no Auditório Municipal de Olhão. Um espetáculo onde os bailarinos são crianças em situação social vulnerável e adultos portadores de deficiência, dos concelhos de Loulé, Tavira e Olhão, e que se estrearam em palco pelas mãos da bailarina e coreógrafa Ana Borges, da associação corpodehoje. Texto:
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Associação corpodehoje surgiu da vontade de dar continuidade ao trabalho iniciado há 20 anos pela coreógrafa, bailarina e professora de dança Ana Borges, contando para tal com a presença de profissionais qualificados, mas mantendo igualmente contacto com estruturas e artistas independentes com ação criativa nas diferentes áreas artísticas, de modo a estabelecer formas de intercâmbio e de residências de criação. A par da vertente criativa, a associação procura investir fortemente no desenvolvimento do trabalho artístico com e para a
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comunidade, como forma de criar novos públicos e mais conscientes, para além de promover o interesse sobre questões relacionadas com a arte contemporânea e o corpo performativo. Por entre esta atividade regular surgiu o projeto «Dream First – Ouvir a Dança», um espetáculo de dança contemporânea cujos intérpretes são bailarinos perfeitamente amadores, mais do que isso, crianças e jovens em situação social vulnerável e adultos com deficiência mental. O processo criativo teve início em novembro de 2015, com crianças dos concelhos de Olhão e Tavira, de idades
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compreendidas entre os 6 e os 12 anos, e contou com o apoio da SIC Esperança, através do financiamento do Portugal Masters de Golfe, que todos os anos suporta um projeto de cariz social. “A SIC Esperança pediunos uma proposta para um projeto de inclusão social pela arte, a nossa ideia foi aprovada e recebemos igualmente o apoio das autarquias de Olhão e Loulé”, conta Ana Borges. ALGARVE INFORMATIVO #74
A primeira fase de formação decorreu até maio de 2016, com o espetáculo propriamente dito a ser desenhado nos meses de junho e julho, sendo que o principal objetivo era desenvolver competências sociais e relações de tolerância, compreensão, respeito, educação e entreajuda, por via da dança e da música. “São crianças que estão 70
inseridas em famílias com algumas dificuldades, em situações especialmente vulneráveis, e tentamos ajudá-las a conseguirem valorizar-se a si próprias e aos outros. Trabalhamos as relações interpessoais e a consciência dos próprios corpos e isso traz maior autoconfiança e autoestima”, refere a professora de dança e mentora do «Dream First». Numa segunda fase juntaram-se ao grupo cinco utentes da Fundação Irene Rolo portadores de deficiência mental,
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entidade que apoiou o projeto logisticamente, com o elenco a totalizar cerca de 24 pessoas. Ensaios eram a sério, várias horas por semana, divididos pelas cidades de Tavira, Olhão e Loulé, o que complicou sobremaneira a questão dos transportes, confessa a entrevistada. Isso não impediu, felizmente, que se tivesse chegado a bom porto e a temática geral de «Dream First – Ouvir a Dança» é que se deve acreditar sempre nos sonhos. “É o despertar para o lado da imaginação, do sonho, do
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desejo, daquilo que mais nos liga à vida, do que nos faz sentir mais felizes e do que pode contribuir para a felicidade dos outros. O espetáculo tem duas temáticas muito fortes e sempre presentes: por um lado, as questões técnicas da dança e música, da percussão corporal, do escutar a dança e dos movimentos que ela ALGARVE INFORMATIVO #74
tem; por outro lado, o alimentar e seguir o sonho, as emoções e sentimentos, a ligação entre as pessoas. Antes de mais nada, há que sonhar”, defende Ana Borges. A par da dança, o espetáculo contempla um momento final de conversa e reflexão com o público,
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de Olhão, dos Agrupamentos Alberto Iria e Paula Nogueira, e trabalhamos com todas as crianças daquelas idades, em várias sessões, sempre com o apoio das professoras e psicólogas, que nos informavam para as situações de maior risco social. Depois, explicamos às crianças que todos os nomes tinham sido colocados numa tômbola e que foram selecionados apenas alguns, portanto, elas nunca sentiram a tal ideia da exclusão, de serem diferentes das outras”, descreve Ana Borges.
para que se consiga sensibilizar quem está sentado na plateia para a importância dos sonhos, seja em crianças normais ou inseridas em contextos mais delicados socialmente. Mas, em qualquer momento, nunca se falou do eterno rótulo do «coitadinho», garante a fundadora da «corpodehoje». “Fomos inicialmente a duas escolas 73
A recetividade dos pais ao projeto foi uma questão mais delicada e, se uns incentivaram os filhos a participar, outros houve que não percebiam muito bem o que se pretendia fazer e impediram as crianças de entrar no espetáculo. “Mas, no dia 2 de setembro, os pais que foram ao Cine-Teatro Louletano choraram de emoção, de contentamento e de reconhecimento do trabalho que os filhos tinham desenvolvido. Mesmo as crianças que estavam envolvidas num projeto desta natureza pela primeira vez não tinham noção do que era estar em palco”, indica a bailarina. “Fomos mostrando vídeos de outros espetáculos de inclusão e do próprio «Dream First» depois de terminarem os ensaios, para eles verem como as coisas estavam a correr, mas não é um processo simples, porque alguns jovens são rebeldes, estão cansados e manifestam-se”.
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Ensinamentos que ficam para a vida Dificuldades à parte, à medida que os ensaios iam decorrendo, os jovens foram percebendo que tinham que funcionar em grupo e respeitando os outros, porque o comportamento de cada um influenciava o desempenho do todo. No final, Ana Borges era uma coreógrafa, uma professora satisfeita, contente. “Os jovens sentiram a responsabilidade de pisar o palco, de pessoas terem pago bilhete para os verem a dançar, e muitos agradecerem a oportunidade de participar no projeto. Houve mesmo alguns que, por via desta experiência, descobriram qual era o
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sonho deles”, destaca, sorridente, lembrando que também ela teve que perseguir o sonho de ser bailarina profissional. “Nasci na Figueira da Fiz, longe dos grandes centros de Lisboa e Porto, portanto, senti na pele as dificuldades para se conseguir concretizar as nossas ambições”. De acordo com as palavras de Ana Borges, compensaram, então, as muitas horas a repetir movimentos para que tudo saísse na perfeição. “Há frases-movimento em que todos os jovens estão a dançar igual e têm que perceber que têm que seguir o da frente, que devem estar atentos ao que os outros fazem, e não fazer apenas o que lhes apetece e ao seu próprio ritmo. Contudo, no meio do
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trabalho de grupo, há partes do espetáculo de maior autonomia, em que todos sabem o que devem fazer, mas não o momento exato e com que parceiro”, revela a bailarina, considerando que estes ensinamentos acabam por ficar para a vida de forma inconsciente. “É extremamente importante essa capacidade de colocá-los a decidir, porque a sociedade cada vez é mais feita para seguirmos padrões e valores que estão estabelecidos, dando pouco espaço para decisões próprias”, acrescenta. Visivelmente apaixonada pela causa social, Ana Borges garante que só transmitindo confiança a estas crianças é que elas depois confiam nos outros, e nelas próprias. “Estamos
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perante crianças que, muitas vezes, não têm voz, não são escutadas, não é dada importância às suas opiniões. Estar em palco é um ato de entrega, de humildade, não de egos, e essas noções são faladas com elas de forma natural, vão ficando dentro delas e, mais cedo ou mais tarde, vão-se revelar nas suas vidas”, evidencia. “Às vezes estamos a repreender alguém por ter feito algo incorreto no seio do grupo e, de repente, percebemos que não estão habituados a pensar no outro, não sabem que têm que respeitar os outros. São ensinamentos que recebem pela primeira vez, através da arte, do movimento, do ritmo, da dança. Transmitimos uma base para ficarem mais atentos ao que os rodeia” .
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