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ALGARVE INFORMATIVO #69

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ALGARVE INFORMATIVO 6 de agosto, 2016

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Tavira rendeu-se aos fantásticos

DEOLINDA Festival Al-Buhera| Feira da Serra | Festa da Ria Formosa LucíaINFORMATIVO #69 1 Hélder Joaquim Gonçalves | Castro Marim honra Paco de ALGARVE


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OPINIÃO 8 - Daniel Pina 38 - Paulo Bernardo 40 - José Graça 44 - Mirian Tavares 46 - Augusto Lima

REPORTAGENS 10 - Feira da Serra 22 - Festival Al-Buhera 30 - Festa da Ria Formosa

ENTREVISTAS 50 - Deolinda 60 - Festival de Lucía 70 - Hélder Joaquim Gonçalves

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As tias, as bichas e as meninas da 125! Daniel Pina

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anhamos o Europeu de futebol, mais uma carrada de medalhas noutras modalidades, escapamos às sanções da União Europeia, saiunos o euromilhões dos 15 por cento de desconto nas portagens do Via do Infante e, por isso, o Algarve está cada vez mais cheio de gente. Uns são louros naturais de olhos azuis e sotaque britânico, alemão ou escandinavo, outros louros oxigenados de olhos acastanhados e com sotaque da zona do Estoril, Cascais e Sintra, misturados com alguns simpáticos bimbos do norte e uns tantos espanhóis de língua acelerada e franceses com grande galo por terem perdido o Euro. Muitos portugueses rumaram então ao sul para um merecido descanso, deles, não dos algarvios, mas parece que, para variar, deixaram as carteiras em casa, também para o merecido descanso, porque continuam sempre a queixar-se que está tudo caro. Se calhar por isso vai a malta toda a correr para os Modelos e Continentes, depois de andarem o ano inteiro a acumular saldo nos cartões para agora descontar à fartazana. Com todo este movimento, lá voltamos a apanhar com as críticas ferozes de que, na terra deles, é-se logo atendido nas caixas dos supermercados, que é uma pouca-vergonha ter tão poucas caixeiras de serviço, ou tão poucos empregados na peixaria e no talho, como se a praia fosse fugir ou a piscina do bloco de apartamentos mudasse de sítio durante a sua ausência. Praias onde as velhotas e as «tias» continuam a deixar os guarda-sóis espetados na areia de um dia para o outro e coitado do herege que se atrever a pousar a toalha dentro do seu raio de ação, porque aquele bocado de areia já tem dono. Mas este sentimento de posse das «tias» - que uma pessoa percebe logo onde estão pelos gritos com que falam com as amigas ao telefone – nota-se inclusive nas filas do supermercado, como já me aconteceu por diversas vezes. De facto, ainda o cliente à minha frente está a ser atendido, já as «tias» apressadas começam a despejar os carrinhos de compras para a passadeira, quase soterrando os meus produtos, e empilham, empilham e empilham. Coitadas, com quem elas se foram meter, logo eu que não perco uma oportunidade para descarregar nessa malta que, quando atravessa a fronteira do Alentejo para o Algarve, parece que reencarnam no Rei de Espanha, na Rainha de Inglaterra ou no Príncipe do Mónaco. Ou, então, quando se deparam com o Castelo

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de Paderne, pensam que o Algarve ainda está cheio de mouros. - “Olhe que eu não sou tão gordo como a senhora, mas ainda ocupo algum espaço”, mando eu sem meias palavras. - “Não precisa ficar nervoso, eu não toquei nas suas coisas”, lá responde a «tia», ainda a decidir se eu a chamei gorda ou não. - “Oh minha senhora, se eu me enervasse de cada vez que apanho com cromos, passava metade do Verão aos estalos e aos pontapés”. Mas, como zona turística que somos, já estamos habituados a lidar com estas situações algumas semanas por ano e até são uma boa fonte de entretenimento, mais barato, inclusive, do que uma ida ao cinema ou ao teatro de revista. E como não conseguimos acabar com a porcaria das portagens na Via do Infante, bichas não faltam na EN 125, a tal ruela que atravessa vilas e cidades, com dezenas de rotundas, semáforos e cruzamentos manhosos que, de tantos em tantos quilómetros, nos brinda com filas enormes de trânsito. São os camiões, as carrinhas, as camionetas e os autocarros que não se conseguem ultrapassar em lado nenhum, pelo menos em segurança; são os velhos a 50km/h a apreciar a vista; são as autocaravanas dos estrangeiros que, de repente, guinam para as bermas porque os bifes querem ir comprar laranjas; são os táxis e carrinhas dos transfers num verdadeiro rali em direção ao Aeroporto de Faro. No meio deste safari lá vou eu tranquilamente porque, casado e com duas filhotas, não estou disposto a arriscar a vida só para não me atrasar para uma entrevista. E é nestes constantes para/arranque que me apercebo que, volta e meia, as famosas «meninas da 125» desaparecem de vista, o que me levanta sempre as mesmas questões: Estarão elas com algum cliente? Terão sido apanhadas em flagrante pelas autoridades quando estavam a desempenhar a sua atividade de profissional liberal? Estarão com o período? Depois, no trajeto de regresso, lá as vejo com os seus tiques característicos, umas a ajeitar as mamas dentro dos soutiens, outras a retocar a maquilhagem, outras a meter as nádegas para dentro dos calções diminutos. Enfim, é o agosto algarvio! .

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Marlene Guerreiro, vice-presidente da Câmara Municipal de São Brás de Alportel, a apresentadora Olívia Ortiz e Vítor Guerreiro, presidente da Câmara Municipal de São Brás de Alportel, no final do São Brás Fashion

Feira da Serra foi um sucesso e vai ter mais um dia em 2017 A completar as suas bodas de prata, a Feira da Serra, que aconteceu em São Brás de Alportel, de 29 a 31 de julho, bateu todos os recordes de visitantes e, sob o signo da inovação, já se ficou a saber que, em 2017, o evento terá mais um dia. Animação musical de qualidade para todos os gostos e idades, as artes e ofícios típicas deste concelho do interior algarvio ao vivo, a gastronomia de sonhar por mais, tudo contribuiu para o sucesso da Feira da Serra, provando mais uma vez que o Algarve não se limita ao seu litoral. Texto: ALGARVE INFORMATIVO #69

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s 28 mil visitantes da Feira da Serra de São Brás de Alportel, num acréscimo de 11 por cento face ao ano passado, comprovaram o sucesso desta 25ª edição que surgiu num recinto ampliado e renovado, com novas propostas de animação, experiências desafiantes para todas as idades e revelações surpreendentes sobre projetos inovadores. Foi uma merecida homenagem a um quarto de século de história deste evento que decorreu de 29 a 31 de julho e que superou as expetativas da comunidade são-brasense e de um público já fiel à iniciativa. A grande aposta numa oferta ainda mais diversificada de atividades, a ALGARVE INFORMATIVO #69

garantia de animação constante para toda a família, novidades surpreendentes e a possibilidade de viver novas experiências, foram os ingredientes chave desta edição muito especial, possível graças ao envolvimento da comunidade sãobrasense, à participação de empresas locais e regionais, associações, entidades e aos patrocinadores. Com 15 diferentes espaços e cinco palcos de animação, a 25ª edição da Feira da Serra foi um êxito demonstrado pela afluência de visitantes e, acima de tudo, pelo bom funcionamento dos serviços, responsáveis pela manutenção do recinto e pela organização do evento, tarefa assegurada em exclusivo pelos colaboradores da Câmara Municipal, sem esquecer o 12


imprescindível apoio dos jovens voluntários que todos os anos integram a organização. Lançando sementes para um futuro cada vez mais promissor, a organização da Feira da Serra de São Brás de Alportel anunciou já uma edição mais alargada para 2017, com o acréscimo de um dia extra à agenda do certame, apresentando-se na 26ª edição no formato «inovador» de quatro dias, de 27 a 30 de julho. A abrir com «chave d’ouro», a inauguração da Feira da Serra contou com a presença do Ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, do Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Luís Carneiro, do Secretário de

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Estado das Pescas, José Apolinário, do Presidente da Região de Turismo do Algarve, Desidério Silva e da Diretora Regional de Cultura, Alexandra Gonçalves, entre inúmeros outros representantes de diversas entidades locais e regionais. Organizada pela Câmara Municipal de São Brás de Alportel, a Feira da Serra marcou a diferença por, nas suas bodas de prata, tornar-se totalmente acessível, ou seja, qualquer visitante com mobilidade reduzida ou com dificuldades de locomoção podia chegar a todos os setores da Feira da Serra. Setores que eram, de facto, 15

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muitos, logo a começar pelo «Espaço Inovação», onde os projetos mais inovadores, com base nos recursos tradicionais da região, ganharam palco. Novo foi também o «Espaço Terra», com empresas e projetos na área da agricultura, energia, silvicultura, pedra e de todo um conjunto de equipamentos amigos do ambiente. No «Palco Calçadas», ao estilo café concerto, ficou a conhecer-se alguns projetos musicais que marcarão presença na edição deste ano do Calçadas – A Arte sai à Rua. Os desportos radicais tiveram também um palco próprio neste certame, com skaters, patinadores, praticantes de acrobacias em BMX, artes marciais a proporcionarem demonstrações arrojadas no «Palco Radical». A finalizar as novidades, a 25ª Feira da Serra convidou ainda a momentos de lazer e relaxamento do «SPA Serrano», composto por diferentes tipos de massagens, tratamentos holísticos e de beleza. E, para melhor ver tantas

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novidades, houve um aliciante extra este ano, um Balão de Ar Quente de onde se conseguia vislumbrar todo o recinto de uma perspetiva diferente e divertida. A par dos novos espaços temáticos, mantiveram-se os habituais de outras edições, com destaque para a «Praça do Município», uma verdadeira montra turística do melhor que São Brás de Alportel tem para oferecer aos seus visitantes. O «Sítio dos Ofícios» levou-nos numa viagem ao passado pelas mãos dos mestres que trabalhavam ao vivo os ofícios de outros tempos, desde o moer do trigo e fiar do linho ao trabalhar

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da palma e do esparto, ao concerto do calçado. Na «Aldeia Serrana» podiam adquirir-se as peças do genuíno artesanato, feitas com os materiais da região, por mãos que conhecem a mestria do tempo, e apreciar os bons produtos da Serra do Caldeirão, como os doces regionais, o mel, a aguardente, os licores, os gelados caseiros, o pão de noz, de cebola ou de sementes. Como não se consegue apreciar todas estas sensações de estômago vazio, a boa gastronomia esteve uma vez mais presente no «Encontro de Sabores», com seis espaços de restauração e três tasquinhas à portuguesa. Ali perto reunia-se o associativismo local, no «Encontro de Saberes», mas também os sabores típicos da Serra do Caldeirão

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no «Mercado vai à Feira». O Picadeiro foi o espaço predileto dos apaixonados pela arte equestre e os animais da Serra passearam pelo «Sítio dos Animais», com coelhos, tartarugas, patos, galinhas, cabras, porcos, burros e até camelos, convidados especiais desta edição. Os mais pequenos tiveram direito ao seu cantinho especial, o «Sítio dos Curiosos», onde um mundo de brincadeiras e atividades os esperava. E como feira sem música não é a mesma coisa, este ano subiram ao Palco Principal Aurea, Emanuel e ÁTOA, para além do sempre bem-sucedido «São Brás Fashion», realizado em parceria com a ACRAL .

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Festival Al-Buhera animou baixa de Albufeira A Praça dos Pescadores, em Albufeira, recebeu mais uma edição do Festival AlBuhera, verdadeira mostra das artes e ofícios e do tecido empresarial e associativo da capital do turismo algarvio. Largos milhares de visitantes acorreram ao certame, adquiriram produtos únicos e deliciaram-se com uma animação musical variada e com grandes nomes do panorama nacional. Texto: Fotografia: e

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e 27 a 31 de julho, a Praça dos Pecadores, na baixa de Albufeira, animou-se com mais uma edição do carismático Festival AlBuhera, certame que reúne miúdos e graúdos, residentes e visitantes, nacionais e estrangeiros, para ver de perto a mostra de artesanato e de gastronomia, com especial destaque para a doçaria regional. Foram mais de 60 stands onde era possível comprar peças únicas elaboradas pelas mãos dos artesãos locais, desde bordados a bijutaria, passando pela escultura ou pintura, comprovando que nem só de turismo vive o concelho de Albufeira. Como é habitual, o primeiro dia do certame contou com a visita do presidente da Autarquia, Carlos Silva e Sousa, acompanhado por membros do

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executivo, que entregaram os certificados de participação a todos os expositores presentes. “Este é um dos eventos que tem perdurado no calendário do Município pelo seu forte cariz cultural, que divulga o que de melhor se faz em Albufeira, no Algarve e em Portugal, quer em termos de artesanato e gastronomia, quer a nível musical. É um momento de convívio com ingredientes que são bastante simpáticos, daí que haja muitos artesãos e pequenos empresários de outros pontos do país que fazem questão de aqui estar para divulgar aquilo que fazem”, referiu Carlos Silva e Sousa, enquanto se ouviu, em pano de fundo, a música tradicional portuguesa de José Praia e dos Aquaviva. Para o edil, não existem dúvidas de

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que este é um dos eventos mais acarinhados pelas gentes de Albufeira e acredita que os próprios turistas gostam de ver os algarvios como eles são na sua essência. “Ao ar livre, nestas noites maravilhosas de Albufeira, junto à Praia dos Pescadores, melhor do que isto não pode haver”, destaca Carlos Silva e Sousa, acrescentando que o Festival AlBuhera é um importante dínamo da economia local. “Há que divulgar e mostrar as coisas bonitas que os nossos artesãos fazem e basta dar uma volta pela feira para constatar que existem aqui produtos de enorme qualidade. Os nossos artesãos merecem todo o nosso apoio, porque há artes que não se devem deixar perder no tempo e, desta forma, estamos igualmente a promover a nossa cultura”. Produção nacional que é também

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característica do cartaz musical, com atrações como José Cid, Viviane, Diogo Piçarra, Richie Campbell e Dengaz & Ahya Band a animarem os residentes e turistas, a par de artistas locais como a banda Al’Mouraria, Beto Kalulu e os Compotas e a tradicional Banda Alhada. “Quem está na área do turismo tem que pensar cada vez mais em valorizar aquilo que nós somos. A concorrência é feroz e as pessoas buscam destinos paradisíacos assentes na natureza – e nós temos as melhores praias que eu conheço – mas também procuram cultura e isso é uma forma de diferenciar os destinos”, reforçou Carlos Silva e Sousa .

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Festa da Ria Formosa voltou a bater recordes Depois dos 70 mil visitantes de 2015, a Festa da Ria Formosa voltou a bater recordes e atraiu, de 28 de julho a 7 de agosto, mais de 100 mil pessoas ao Parque de São Francisco, entre portugueses, emigrantes e turistas estrangeiros adeptos dos melhores bivalves e frutos do mar. O evento é organizado pela VIVMAR – Associação dos Viveiristas e Mariscadores da Ria Formosa e a receita de sucesso é para manter, até porque os resultados estão à vista e o certame não para de crescer de ano para ano. Texto:

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Parque de São Francisco, em Faro, recebeu, de 28 de julho a 7 de agosto, a 23ª edição da Festa da Ria Formosa, com os ingredientes do costume, ou seja, entrada livre, música baseada nos artistas da terra e, acima de tudo, claro, o melhor marisco oriundo da Ria Formosa, mas também outras especialidades regionais confecionadas com base nas receitas e tradições destes homens e mulheres do mar. O evento é da responsabilidade da VIVMAR – Associação dos Viveiristas e Mariscadores da Ria Formosa, contando com o apoio da Câmara Municipal de Faro, e o ritmo de crescimento tem sido avassalador, tanto que, este ano, o espaço teve que ser ampliado já com o certame em andamento, face à afluência

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de público, desde os locais aos turistas portugueses e estrangeiros de todos os pontos do globo. A iniciativa assenta na capacidade de atração e agregação em torno daqueles que genuinamente trabalham na e para a Ria Formosa e é, sem dúvida, o evento gastronómico de maior afluência no concelho de Faro e um dos maiores do sul do país, com os números de 2016 a deverem ultrapassar os 100 mil visitantes. “Há 23 anos que a história de repete, de ano para ano corre sempre melhor”, atesta Vítor Lourenço, presidente da VIVMAR, adiantando que a maior parte dos restaurantes presentes na Festa são associados. “É gente que vive do mar e que, ao longo do tempo, se foi aperfeiçoando na

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cozinha. Hoje, são autênticos cozinheiros de luxo”, acrescenta, sorridente, perante um Largo de São Francisco a rebentar pelas costuras. Festa da Ria Formosa que é o balão de oxigénio para toda a atividade anual da VIVMAR, a principal fonte de receita para que consiga manter a sua sede e uma funcionária a tempo inteiro, de modo a prestar o apoio necessário aos seus associados. “O objetivo é manter em atividade os próprios viveiristas e mariscadores, divulgar os produtos que capturam na Ria Formosa e arranjar formas de os escoar. Quem percebe do assunto sabe que as nossas amêijoas são as melhores do mundo, o mesmo se passando com o lingueirão. Por isso é que as pessoas, mesmo os estrangeiros, provam e voltam todos os anos, porque não encontram estes mariscos em mais parte nenhuma”, garante Vítor Lourenço, com orgulho. Ora, como os frutos da Ria Formosa são de excelência, os mariscadores e viveiristas

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conhecimento, pois a qualidade é imperativa, e a tabela de preços é definida pela própria VIVMAR para que seja acessível e para que qualquer pessoa possa consumir o que quiser sem ter que pagar como se estivesse num restaurante de luxo”, justifica.

fizeram questão de estar à altura da matéria-prima e foram desenvolvendo técnicas de cozinha e receitas próprias que tornam ainda mais irresistíveis estes pratos. “Isto tem funcionado quase como uma Escola de Hotelaria. Já tinham visto os pais e os avós na cozinha mas, à medida que o evento foi crescendo, eles foram-se tornando cada vez melhores também”, afirma, garantindo que, aqui, ninguém se queixa de preços. “Ninguém entra na Festa com produtos sem o nosso ALGARVE INFORMATIVO #69

E por falar em preços, a Festa da Ria Formosa é um dos poucos eventos do Verão algarvio que é de livre entrada, política que tem sido seguida desde a primeira edição e que tem constituído uma mais-valia para o êxito do certame gastronómico. “Nunca concordamos com essa história de se ter que pagar bilhete à porta. Estou na VIVMAR há 23 anos e, no dia em que eu me for embora, tenho a certeza que quem cá ficar mantém as entradas livres. Nunca iremos abdicar disso, porque esta festa é do povo, não há aqui ganância de sacar dinheiro”, assegura o presidente da associação.

Preocupados com os «tubarões» em terra Uma festa do povo onde os cabeças de cartaz são, efetivamente, os frutos da Ria Formosa, daí que a 34


organização aposte em artistas locais e regionais e não nos grandes nomes do panorama nacional e internacional, como é apanágio noutros festivais. “Em 2015 tivemos, pela primeira vez, os IRIS, que já é uma banda de peso nacional, mas essa atuação foi patrocinada por uma empresa. Este ano voltamos a ter os IRIS, mais a Rosinha e «Quem é o BOB», também patrocinados, porque fogem um pouco à verba que temos disponível para pagar aos artistas”, explica Vítor Lourenço, acreditando que este ano se vai bater a barreira dos 100 mil visitantes. “Ao fim de poucos dias tivemos que alugar mais 200 mesas, mas as nossas receitas financeiras são exatamente as mesmas. Os stands pagam um valor para aqui estarem, os patrocinadores a mesma coisa para puderem vender os seus produtos e, com esse bolo, temos que pagar tudo, limpeza, segurança, artistas”. Com um orçamento abaixo dos 100 mil euros, Vítor Lourenço assegura que quem verdadeiramente tira proveito da Festa da Ria Formosa são os viveiristas e mariscadores que estão nos stands, mas o dirigente salienta ainda a forte componente social do evento, ao apontar para a quantidade de pessoas que trabalha em cada restaurante. “Tudo bem que são apenas 11 dias, mas este evento dá, em muitos casos, para equilibrar a economia de imensas famílias”, destaca, indicando

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igualmente que há uma nova fornada de jovens a dedicar-se a esta atividade. “Quem trabalha nisto não vive bem, mas ganha o suficiente para sobreviver. A nossa grande preocupação sempre foi manter a Ria Formosa limpa, foi para isso que nasceu a VIVMAR: para preservar a Ria, manter estes postos de trabalho, aumentar esse número se for possível e divulgar os produtos”. Em tom mais preocupado, Vítor Lourenço avisa que este modo de vida só pode desaparecer se, “pela ganância do dinheiro, algumas pessoas destruírem a Ria Formosa”, numa clara alusão à polémica da exploração de petróleo ao largo da costa algarvia. “Os tubarões no mar não incomodam muito os pescadores, o problema são os da terra. Espero que isso nunca seja autorizado, porque as riquezas provenientes do petróleo não vão para o povo, vão só para algumas pessoas, para os tais tubarões. A Ria Formosa e o clima são as nossas riquezas, não precisamos de petróleo para nada”, salienta .

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Sanções da Comissão Europeia – Afinal havia outra Paulo Bernardo

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s últimos tempos têm sido profícuos em notícias contraditórias entre as sanções e as não sanções por termos falhado as metas para a saída do Procedimento por Défice Excessivo. Tendo como grandes defensores o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, e um grupo de famosos cá do burgo que tudo fizeram e pediram pelas alminhas que tal acontecesse. Contudo, e após três horas de discussão, a Comissão Europeia decidiu cancelar as multas a Portugal pelo incumprimento das metas do défice público de 2015. Uma boa notícia que deixou um grupo de Miguéis Vasconcelos completamente enfurecidos e tristes por Portugal não ter sido penalizado. Até aqui nada de novo e é um facto que todos sabem e espero que os tenha deixado satisfeitos. Contudo, aquele senhor de ar estranho que é presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, não deixou de nos perseguir e fazer tudo o que possa para que os tecnocratas não eleitos da Europa façam o que têm à mão para nos prejudicar e é aqui que a história começa. Estando eu a estudar os fundos a que as empresas e outras entidades portuguesas se possam candidatar diretamente a Bruxelas, ou seja, fundos que são diretamente geridos pela máquina de técnicos pagos por todos nós mas não eleitos, apenas lá colocados, uns por favor, outros por lobby, deparei-me com uma situação bastante grave e que tem sido ignorada, não sei se de propósito, se por desconhecimento.

candidaturas encabeçadas por entidades portuguesas. Arranja-se sempre uma situação para que a candidatura não avance, o que faz com que não se recebam os fundos e que os parceiros de outros estados membros deixem de querer participar em projetos conjuntos com entidades portuguesas. Assim, e para além da publicidade negativa para as entidades nacionais, pois partese do princípio de que, se as candidaturas não são aprovadas, é por que nós não temos capacidade para fazer o trabalho, estamos também a perder competitividade em relação aos outros parceiros dos estados membros. Por último, a concorrência passa a olhar para nós como pouco credíveis. Sendo este facto muito grave, não vejo que esteja a acontecer algo para que seja alterado e daqui a uns tempos vamos ouvir dizer que, por incompetência das entidades de Portugal, tivemos que devolver X milhões de euros para a Comunidade Europeia porque não tivemos capacidade para executar. Se não temos capacidade para executar, diminuem os valores para próximas fases, se diminuem os valores e não nos dão acesso, perdemos competitividade, se perdemos competitividade não conseguimos cumprir o deficit, se não cumprimos o deficit, levamos com sanções. Pois, afinal havia outra .

A situação é a seguinte: as instituições portuguesas, quer públicas, quer privadas, não estão a conseguir aceder aos fundos que lhe estão afetos mas que Bruxelas não liberta, ou seja, os tecnocratas de Bruxelas estão a bloquear as

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As próximas batalhas José Graça

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s recentes sondagens de opinião assustaram as lideranças dos partidos vencedores das eleições legislativas de 2015, afastados do poder executivo por vontade popular e da realidade por manifesta incompetência em apreenderem o dinamismo imparável da sociedade e do mundo… Estabilizada a solução governativa dos partidos das esquerdas, o CDS percebeu rapidamente que o prazo de validade de Paulo Portas estava esgotado (…e o apelo do setor privado era bem aliciante, sublinhese!) e Assunção Cristas afirmou-se na ausência de outros interessados em fazer a travessia do deserto. Pelo contrário, Passos Coelho foi completamente cilindrado pelo furacão Marcelo nas Presidenciais e optou vegetar pelos corredores de São Bento enquanto os barões vão disputando o espaço mediático até às Autárquicas. O tempo dirá quem tomou a melhor decisão no tempo certo! Perante esta agitação, aos partidos que suportam esta solução governativa resta encararem com serenidade os desafios colocados pela situação económica e financeira de Portugal, enfrentarem as incógnitas da evolução internacional e manterem o rumo definido nos acordos entre o Partido Socialista, Bloco de Esquerda e Partido Comunista Português, fazendo assumindo com responsabilidades os necessários acertos decorrentes de alterações conjunturais inesperadas que o interesse nacional exija. E não é pouco! Porém, há compromissos assumidos na Agenda para a Década e no programa de Governo que não podem ser descurados, devendo ser procurados os compromissos indispensáveis para melhorar e implementar as soluções preconizadas, nomeadamente em matéria de legislação autárquica e na capacitação dos poderes locais e regionais para desenvolverem as suas atribuições e competências. Não é a primeira vez que abordamos esta temática e, certamente, não será a última! O processo de descentralização em curso e de aprofundamento da democracia local, visando a clarificação e o reforço das competências das Comunidades Intermunicipais em várias áreas de intervenção da Administração Central, a descentralização de competências para os Municípios e a fixação do novo modelo de financiamento dos

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municípios, assentando este em novas formas de participação destes na receitas gerais do Estado e na participação na receita de diversos impostos de âmbito nacional, gerando a nível local, quer diretamente, quer através de derramas, é um verdadeiro desígnio nacional. De igual forma, o programa de Governo pretende um reforço substancial do papel das Freguesias, pois estas, além de competências próprias, dispõem de competências delegadas pelos Municípios nos domínios dos interesses próprios das populações que representam, nomeadamente no âmbito dos serviços e das atividades de proximidade e do apoio direto às comunidades locais, nos termos da Lei n.º 75/2013, de 12 de setembro, que importa consolidar. Em concreto, pretende-se que as freguesias exerçam “poderes em domínios que hoje lhes são atribuídos por delegação municipal” reforçando as competências próprias das freguesias através da transferência de competências atualmente objeto de delegação, parecendo-nos recomendável que uma revisão da carta de missão preveja o papel da DMAGP neste domínio estratégico, auxiliando o Executivo Municipal na definição das competências municipais a transferir. A contestação social decorrente da clarificação do Código do IMI, relacionada com a necessidade de ultrapassar dificuldades interpretativas que surgiram com redações anteriores deste Código, mostra bem as dificuldades que este processo de descentralização enfrenta, mas é necessário que haja coragem e determinação para dar mais este conjunto de passos para edificar uma Administração Pública mais justa e solidária e garantir uma gestão eficaz e equilibrada regionalmente dos recursos públicos, fortalecendo a coesão social e o desenvolvimento sustentável de Portugal! . NOTA – Poderá consultar os artigos anteriores sobre estas e outras matérias no meu blogue (www.terradosol.blogspot.com) ou na página www.facebook.com/josegraca1966 (Membro do Secretariado Regional do PS-Algarve e da Assembleia Intermunicipal do Algarve) 40


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Lost in translation Mirian Tavares "Yo creo que desde muy pequeño mi desdicha y mi dicha al mismo tiempo fue el no aceptar las cosas como dadas. A mí no me bastaba con que me dijeran que eso era una mesa, o que la palabra "madre" era la palabra "madre" y ahí se acaba todo. Al contrario, en el objeto mesa y en la palabra madre empezaba para mi un itinerario misterioso que a veces llegaba a franquear y en el que a veces me estrellaba. Julio Cortázar

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alter, o jardineiro, vira-se para mim e pergunta: fala francês, não fala? Queria que eu servisse de intérprete porque estava a tentar explicar a um francês que a sua moto, há uma semana no mecânico, ainda não estava pronta. E conclui, Portugal é mesmo assim. Uma frase que pode abarcar um mundo de pensamentos, de ideias e de estereótipos. Portugal é mesmo assim significa, nesse caso específico, que o mecânico prometeu e não cumpriu e que estamos em agosto e que todos querem mesmo é descansar e que, se calhar, a moto até fica pronta hoje. Para um estrangeiro, sobretudo se fala uma língua de origem latina, não é muito complicado perceber a língua portuguesa. Já perceber o português em si exige tempo e muito trabalho de tradução. Porque uma língua não é composta apenas de palavras, mas é feita de gestos, de sentidos, de desvios, de regras e de hábitos instalados, dificilmente traduzíveis. Ezra Pound defendia uma tradução mais interpretativa da poesia, pois sabia que trocar uma palavra por outra, sobretudo na escrita poética, não traduz na plenitude o ritmo, a ambiguidade e a riqueza que qualquer palavra adquire num poema. A tradução, nesse caso, não é uma traição ao original, mas uma escolha consciente do tradutor que deve ser, preferencialmente, um poeta capaz de captar, e de manter, a força do texto original numa língua para a qual não foi concebido. O mundo global em que vivemos dá-nos a falsa sensação de que podemos entender-nos todos,

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basta arranhar o inglês, língua franca, e usar alguns gestos que ajudam a melhor compreensão de uma frase num contexto. No entanto, perdemos imenso do sentido primevo, ou fundamental, das palavras, pois a alma do que se diz não é traduzível. Talvez seja traduzível apenas como um poema que necessita primeiro ser sentido e interpretado para a seguir ser vertido numa língua outra. Para se perceber o outro, o estrangeiro, o que não domina a minha língua e cuja língua não domino, precisamos ouvir de facto. Com atenção e disponibilidade; com o espírito aberto à experiência do novo som, dos sentidos que se desarrumam e voltam a arrumarse dentro de nós. O escritor argentino Julio Cortázar gostava imenso das palavras e de inventar, para cada uma, novas significações: a palavra mesa não se esgota na descodificação daquilo que ela representa, mas é uma palavra composta de sons específicos, de nuances, de variações. Não acredito que exista a tradução plena de uma língua para outra, acredito ainda que há palavras que ficam melhor, ou que funcionam efetivamente, apenas em determinada língua. Mesmo entre a mesma língua, como é o caso do português de Portugal e do Brasil, há imensos desvios e descaminhos. Traduzir o outro é muito mais que conhecer a língua que ele fala: é, sobretudo, abrir-se para que o seu mundo nos invada e para que, ao beber as palavras, também possamos sorver os gestos e emprenharmo-nos dos múltiplos sentidos .

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Valorização Augusto Lima

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m Restauração/Cozinha, como em qualquer outro ofício, os artesãos que nele exercem têm dois modos de atuar perante o seu trabalho: ou são profissionais ou amadores e pode-se ser profissional sem contudo dominar por completo a arte, tanto como se ser um amador de tal modo comprometido que parece um profissional. E ser-se profissional parece já não ser a mesma coisa que aqui há uns anos atrás e se puder com assertividade referir a diferença entre um Técnico especializado e um profissional. Um profissional deve saber exprimir-se e se fazer entender; deve saber a diferença entre o prioritário e o que a prazo se deve fazer; deve ser pró-ativo. As oportunidades estão aí, todos os dias, todos os segundos, à espreita de opiniões e conceitos diferentes; deve saber ser, estar, parecer. A farda é sinónimo de brio profissional, sabemos e queremos que assim continue. Já perdi o número de vezes que vi e não consigo quantificar as que ainda verei, cozinheiros (as) a despejarem lixo, fardados (até me podem dizer que depois a farda vai para lavar. Irá?), ou a fumarem, fardados. Ser manipulador de alimentos obriga a ter que usar uma farda apropriada e limpa para o efeito, certo?

não é obra do acaso. Não confundamos aqui coisas aparentemente brilhantes mas com a vida de uma borboleta, curta. O profissional de Cozinha não espera uma resposta consensual de – Está bom! Espera um – Uau, isto está mesmo bom! E mesmo assim sabe, interiormente que podia ser melhor, estar muito melhor. O profissional de Cozinha não espera agradecimentos. É sua obrigação apresentar um trabalho exemplar; não copia, não bajula, não improvisa, não deixa á deriva. Perder tempo é coisa que não diz, pois o Tempo é demasiado precioso para ser menosprezado. Um profissional é claro, objetivo, assertivo, inquisitivo, rigoroso, ditador até. Em Cozinha, vendem-se experiências e prazeres, não comida; Em Cozinha, goza-se, não se trabalha; Em Cozinha, o relógio é uma ferramenta de trabalho, não o apito para sair; Em Cozinha, o respeito que se tem por quem come é imenso, não quantificado; Em Cozinha, valorizar-nos é obrigação, não conformidade . * Presidente da Associação de Cozinheiros e Pasteleiros do Algarve

Um profissional deve saber valorizar-se e ao seu trabalho. E quando aqui falo em Restauração, relembro que ela implica a existência de dois lados, os Restauradores/empregadores e os empregados, que se querem ambos profissionais. Toda a causa tem um efeito. O que parece nem sempre é e um profissional deve saber que operando com ética, valorizando o seu código de competências, irá por certo ter sucesso. Como alguém já disse, o sucesso tem muito trabalho e

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Tavira rendeu-se aos fantásticos

Deolinda Um dia depois de terem inaugurado o Festival da Sardinha de Portimão, os Deolinda subiram ao palco do Palácio da Galeria, em Tavira, e «partiram a louça toda». Ana Bacalhau é uma força da natureza, faz o que quer do público e perto de mil pessoas renderam-se por completo a uma banda que demonstra, ao vivo, a razão porque tem sucesso um pouco por todo o mundo. Na bagagem trouxeram o mais recente trabalho discográfico «Outras Histórias», mas também os hits incontornáveis de «Canção ao Lado», «Dois Selos e Um Carimbo» e «Mundo Pequenino» puseram toda a gente a cantar num dos melhores concertos de que tenho memória por terras algarvias. Texto: ALGARVE INFORMATIVO #69

Fotografia: 50


Fotografia: Isabel Pinto

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az por esta altura uma década que os irmãos Pedro da Silva Martins e Luís José Martins, a prima Ana Bacalhau e José Pedro Leitão, casado com Ana Bacalhau, decidiram juntar-se para passar da pauta para a realidade quatro canções escritas por Pedro. Estava lançada a primeira pedra para mais um projeto de sucesso cantado na língua de Camões e que alia a música popular portuguesa à sonoridade mais contemporânea do pop. E, 10 anos e quatro discos depois, os algarvios voltaram a ter oportunidade de assistir ao vivo aos «Deolinda», no dia 3 de agosto, no Festival da Sardinha de Portimão e, a 4 de agosto, no «Verão de Tavira», no mágico Palácio da Galeria. “Para nós é uma grande alegria regressar ao Algarve, somos sempre muito bem-recebidos e, depois de

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termos apresentado o «Outras Histórias» em auditórios em Lagoa e Loulé, voltámos agora para concertos ao ar livre, mais enérgicos, e onde não foram esquecidos os sucessos dos discos anteriores”, afirmou José Pedro Leitão, contrabaixista dos Deolinda. Papel importante para a projeção dos Deolinda foi a compilação «Novos Talentos» da FNAC, que incluiu, na sua edição de 2007, o tema «Contado ninguém acredita», abrindo as portas para que, em abril do ano seguinte, fosse editado o álbum de estreia do quarteto, «Canção ao Lado». A banda rapidamente ascendeu aos tops de venda nacionais e chegou à quádrupla platina, ou seja, melhor início seria difícil de imaginar. Mas foi ainda melhor porque, em 2009, o disco é

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lançado no mercado europeu e dispara para o quarto lugar da World Music Charts Europe, o que motivou uma digressão que levou a música dos Deolinda a países como a Holanda, Alemanha e Suíça. Face ao tremendo sucesso alcançado em tão pouco tempo, as expetativas eram elevadas para o segundo trabalho discográfico, que foi lançado em 2010, de nome «Dois Selos e Um Carimbo». Os fãs não ficaram defraudados e a crítica internacional rendeu-se ao talento dos Deolinda, com a revista francesa «Monocle» a considerar a banda como uma das mais importantes referências culturais da lusofonia no mundo. Não foi surpresa, portanto, que o disco tenha entrado diretamente para n.º 1 do top de vendas português e conquistado mais um galardão de dupla 53

platina, sendo eleito 2.º melhor disco do ano pela revista Blitz. No estrangeiro, as opiniões não eram muito diferentes e «Dois Selos e Um Carimbo» ficou entre os 10 melhores discos de World Music de 2010, de acordo com o jornal inglês «Sunday Times». De olhar colocado no passado, José Pedro Leitão confessa que o êxito dos Deolinda foi uma completa surpresa, até porque os quatro elementos estavam todos envolvidos noutras bandas e este seria um projeto secundário. “Tocávamos simplesmente pelo prazer de estarmos juntos, porque somos todos familiares. Fomos fazendo paulatinamente o nosso caminho e, depois de sair o primeiro disco, percebemos que a música dos ALGARVE INFORMATIVO #69


Deolinda chegava a muitas pessoas. Mais para a frente, descobrimos que, no estrangeiro, também acompanhavam a nossa música e, daí a darmos centenas de concertos um pouco por todo o mundo e recebermos uma série de galardões que nos orgulham, foi um percurso de sonho que aconteceu num instante”, analisa o entrevistado, explicando que só quando se iniciou a promoção de «Outras Histórias» é que tiveram noção que já tinha decorrido uma década desde aquele encontro de família para gravar quatro canções. Música popular portuguesa, fado e pop misturados num cocktail que surgiu na altura certa, quando se deu o aparecimento da world music, mas José Pedro Leitão garante que nada foi planeado ou premeditado. “Queríamos apenas tocar música popular e verificouse uma grande apetência do público

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para ouvir a nossa proposta. Estávamos numa fase em que se cantava mais em inglês, em que, se calhar, andávamos um bocadinho arredados das nossas tradições, e houve uma nova geração que começou a olhar para a música portuguesa sem pudor e com o devido valor que ela deve ter. Hoje, volvidos 10 anos, vemos com muita felicidade que a música portuguesa está em excelente forma, que esgota salas de espetáculo em todo o lado, que toca em inúmeros países, seja a ligada ao fado ou aquela mais virada para a música tradicional”.

Música continua a «tocar» nas pessoas O sucesso dos Deolinda foi praticamente simultâneo em Portugal

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e além-fronteiras, com os estrangeiros a serem seduzidos por uma música portuguesa com uma roupagem mais contemporânea e urbano. Entretanto, a canção «Parva que Sou», estreada nos quatro concertos feitos nos Coliseus de Lisboa e Porto, em Janeiro de 2011, tornou-se, num ápice, num verdadeiro hino de uma geração descontente com a situação que se vivia em Portugal na época, inspirando o movimento «Geração à Rasca» que, a 12 de Março de 2011, realizou as maiores manifestações não vinculadas a partidos políticos desde a Revolução dos Cravos. “Tínhamos quatro temas novos em mangas e decidimos utilizar esse nos concertos dos Coliseus porque era o que estava mais finalizado. A música fala sobre as dificuldades de uma personagem mais jovem em prosseguir a sua vida de trabalho depois de 55

estudar e, infelizmente, essa história tocou fundo em muita gente. Logo nos primeiros concertos as pessoas levantavam-se para aplaudir, por se identificarem com essa situação ou por terem familiares ou amigos nela”, conta José Pedro Leitão. O músico lembra, porém, que a consciência social sempre esteve presente nas letras dos Deolinda, ainda que, talvez, com um bocadinho mais de humor. “A «Parva que Sou», por ser mais contemplativa, fechada e triste, levou a que as pessoas refletissem mais sobre o significado da letra”, indica. Um tema que tem acompanhado desde então os Deolinda, quase uma banda sonora de uma realidade que, infelizmente, ainda acontece nos dias que correm, mas que comprovou que a música, ALGARVE INFORMATIVO #69


apesar de todas as dificuldades por que atravessa a Cultura, ainda toca nas pessoas. “Significa que aquilo que fazemos é válido e esperamos é que aquela música deixe de fazer sentido, porque isso quer dizer que a vida está melhor em Portugal”, afirma José Pedro Leitão. Embalados por mais esse êxito tremendo, é editado um DVD ao vivo nos Coliseus que serviu de arranque para nova digressão europeia e, depois do «Sunday Times», foi a vez do «The Times» descrever os Deolinda como uma das grandes bandas da Europa, rótulo que ficou mais uma vez patente no terceiro disco, «Mundo Pequenino», lançado em março de 2013. E do outro lado do Atlântico, após o primeiro espetáculo realizado em terras brasileiras, a revista «Pergunte ao Pop» não hesitou em nomear «Mundo

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Pequenino» como o melhor disco internacional de 2013, em dezembro. Sucessos atrás de sucessos e, num instante, os Deolinda chegaram à década de existência, na estrada, como gostam, com mais um álbum, «Outras Histórias», onde se nota uma faceta mais pop, como já se tinha sentido no seu antecessor. “Alargamos o caminho em termos de sonoridade, com canções talvez menos próximas do fado e mais perto do pop, e mais diversificadas no que toca aos ritmos. O «Corzinha de Verão» tem um balanço swing, quase jazz. A «Canção Aranha» é um balanço mais bossa-nova. Acho que a nossa experiência de estrada e de vida foi abrindo os nossos horizontes e empurrando os nossos limites, ao ponto de termos o DJ Riot, dos Buraka Som Sistema, a fazer o beat

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para uma música do disco”, descreve José Pedro Leitão. E como os dois concertos de Portimão e Tavira são registos diferentes daqueles de Lagoa e Loulé, questionamos o músico em que formato a banda se sente mais confortável em palco. “Num auditório cria-se um ambiente mais íntimo e a música acaba por ter mais espaço e musicalidade. Ao ar livre, são concertos fantásticos com muita gente e bastante energia, tudo a cantar as músicas e a bater palmas. Acho que fazer auditórios no Inverno e festivais no Verão é perfeito”, responde o contrabaixista, garantindo que trabalhar em família funciona na perfeição no caso dos Deolinda. “Não houve aquela fase inicial de conhecimento mútuo dentro de uma banda, por isso, conseguimos

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focar-nos diretamente na parte do trabalho. Claro que, num processo criativo, há opiniões divergentes, mas tentamos sempre chegar a um consenso e perceber o que é melhor para a banda”, frisa José Pedro Leitão. Após uma década na estrada, está mais que provado que o sucesso dos Deolinda não foi um acaso da sorte e estão lançadas as fundações para uma carreira ainda mais longa, embora nunca haja garantias neste meio. “O principal é sermos honestos com nós próprios e fazermos o melhor que conseguirmos com as músicas sobre as quais nos debruçamos. Manter o foco na música é o mais importante para o futuro e esperemos que o público nos continue a acompanhar”.

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Festival de Lucía honra as mulheres e traz Mariza a Castro Marim Por entre os habituais festivais de música que acontecem de lés-a-lés do Algarve durante o mês de agosto, um deles chama a atenção pela sua singularidade, o Festival de Lucía, uma homenagem ao génio da guitarra Paco de Lucía, mas também à sua mãe, nascida em Castro Marim. Vai ser, de facto, uma noite diferente a que vai iluminar o Revelim de Santo António a 20 de agosto e que tem a diva do fado, Mariza, como Madrinha e Embaixadora. Texto: 61

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Paco de Lucía e a mãe, Lucía

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ste ano, Castro Marim dispara para os holofotes mediáticos do agosto algarvio mais cedo, antes mesmo de arrancar mais uma edição dos Dias Medievais de Castro Marim. Isto porque o Revelim de Santo António vai ser palco de uma homenagem inédita ao eterno génio da guitarra e mestre absoluto do flamenco contemporâneo, Paco de Lucía, cuja mãe nasceu ali bem perto, no Monte Francisco. Foi com base nesta profunda e sempre assumida ligação que o «Festival de Lucía» nasceu, não só para recordar um homem para quem a guitarra nunca teve segredos, mas também para homenagear as

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mulheres, através da memória de sua mãe, cuja alegria e semblante lusitano sempre o inspiraram. E se a ideia já andava na mente do executivo camarário há alguns anos, coube ao produtor e realizador de cinema e televisão Ivan Dias chegar-se à frente com uma proposta de contornos mais concretos. “Vim a Castro Marim, em 2015, fazer um filme sobre o concelho para ser posteriormente exposto no «Mercado da Ribeira by Time Out», por ocasião de um espetáculo da herança de Paco de Lucía. Eu e a vice-presidente Filomena Sintra depressa ficamos entusiasmados com a possibilidade de pegar neste baluarte da cultura mundial e cuja

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mãe nasceu aqui no Monte Francisco”, explica o mentor do festival.

associada ao Paco de Lucía, na zona onde nasceu a sua mãe”, conta Filomena Sintra.

Paco de Lucía que, em 2005, atuou precisamente em Castro Marim e o seu percurso foi sempre acompanhado atentamente pelos responsáveis autárquicos desde concelho do extremo do sotavento algarvio, fosse pela sua qualidade inegável enquanto artista, fosse pela particularidade da mãe ter ali as suas origens. “Ele fazia visitas a Castro Marim, que nos honravam imenso, mas a comunidade local nunca despertou para a valorização desse grande ícone. Neste novo mandato, programamos, desde o início, fazer um projeto, uma intervenção, uma obra pública,

Dá-se, então, o contato com Ivan Dias, que estava envolvido diretamente com a última banda de Paco de Lucía e com os espetáculos realizados, não só em Lisboa, mas também no México, Espanha, Rússia, um pouco por todo o mundo. “Trouxemos a primeira edição do Clazz, um festival de jazz latino, para Lisboa, para o Time Out Market, mas entendi que era preciso ligar mais o Paco de Lucía a Portugal. Como a mãe era daqui, quisemos aproveitar a infraestrutura do Mercado da Ribeira para colocar imagens de Castro Marim num

Filomena Sintra, vice-presidente da Câmara Municipal de Castro Marim, com o produtor e realizador Ivan Dias

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O trio de Pedro Jóia, constituído por João Frade, Pedro Jóia e Norton Daiello

écran gigante enquanto os músicos tocavam. Foram 20 retratos animados do quotidiano da terra e o impacto foi de tal dimensão que ficou logo a vontade de trazer para aqui o espetáculo”, explica Ivan Dias. O Festival de Lucía tem, então, a sua primeira edição no dia 20 de agosto e pretende, na ótica de Filomena Sintra, afirmar ainda mais Castro Marim pela sua cultura. “O Município já tinha pensado em organizar um festival de guitarras, mas depois faltava-nos a ligação aos grandes músicos que faziam um justo tributo ao Paco de Lucía, e isso tornou-se possível com esta parceria com o Ivan Dias”, confirma a vice-presidente da Câmara Municipal de Castro Marim. Por seu lado, Ivan Dias destaca que o festival é dedicado à mulher e que quem é homenageado, em primeira instância, é Lucía, a mãe, a castromarinense.

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“Não queríamos apenas um festival de cruzamento de guitarras. O Paco cruzou a sua guitarra com as linguagens de todo o mundo, do jazz ao flamenco e à música clássica, era um eterno insatisfeito com a qualidade e um virtuoso, mas nós pretendíamos ir um pouco mais além”.

Pontapé de saída perfeito Um dia antes do Festival de Lucía, será lançado oficialmente o DVD «La Herencia de Paco de Lucía», gravado ao vivo no Revelim de Santo António, em 2015, e já na altura os músicos deixaram o seu agradecimento, em bom espanhol, à mãe e à terra que tinham parido o seu mestre. E o amor profundo que o génio da guitarra tinha pela mãe e

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por Castro Marim não eram, de facto, segredo para ninguém, de tal modo que um dos seus discos se chama «Castro Marim». Uma homenagem que será interpretada, em palco, pelo trio de Pedro Jóia, um discípulo de Paco de Lucía, mas a ideia era associar, todos os anos, a voz feminina à guitarra e assim aparece Mariza no cartaz. “Ela é uma admiradora confessa do Paco e o Pedro Jóia faz parte da formação atual da Mariza, portanto, melhor «cozinhado» era impossível”, aponta Ivan Dias. Mariza que não será apenas a voz feminina da primeira edição do Festival de Lucía, pois a fadista cedo manifestou a vontade de ter um envolvimento mais forte ao evento. “Já foi embaixadora do fado

Património Imaterial da Humanidade. A partir de agora, acredito que vai ser uma embaixadora de Castro Marim e uma madrinha deste festival, vai levá-los sempre com ela para onde quer que vá”, refere Ivan Dias. “A Mariza esteve há poucos dias em Castro Marim para conhecer melhor o espírito da terra, para respirar este ar, e não sei se terá feito o mesmo noutro espetáculo qualquer da sua carreira”, reforça o produtor. Uma ligação que, como se adivinha, encanta os responsáveis autárquicos de Castro Marim, num pontapé de saída perfeito para um evento que se pretende ser duradouro e bastante dinâmico. “Este festival será,

Mariza é a Madrinha do Festival de Lucía

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O espetáculo «La Herencia de Paco de Lucía» realizado, em 2015, no Revelim de Santo António, foi o ano zero do Festival de Lucía

seguramente, acima das expetativas do que alguma vez tínhamos pensado e só acontece graças ao Ivan. Uma diva como a Mariza vir a Castro Marim associar-se a algo que não conhece, que vai começar do zero, numa entrega tão pessoal, é fantástico”, destaca, adiantando que o Revelim de Santo António será a sede deste festival, agora e no futuro. “A exceção será 2017 porque vamos realizar, em paralelo com o Festival de Lucía, um grande espetáculo com a Mariza”, justifica Filomena Sintra. Ivan Dias levanta mais um pouco da ponta do véu e revela que a

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edição de 2017 vai ter outra atração especial, Javier Limón, atual produtor de Mariza, mas também o produtor de Paco de Lucía nos últimos 16 anos da sua vida. “Ele é de Huelva, tem uma imensidão de Grammy no seu currículo, é professor de música nos Estados Unidos, e vai trazer a sua guitarra a Castro Marim para contar histórias do Paco de Lucía com a Mariza. São tudo pessoas que têm ligação direta e forte ao Paco de Lucía, nada aqui é artificial, e a ideia é que se mantenha esta traça genuína e à homenagem à mulher”, finalizam Filomena Sintra e Ivan Dias .

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«FADO MAIOR» de Hélder Joaquim Gonçalves No nosso périplo habitual pela cena literária algarvia, damos a conhecer, desta feita, uma obra diferente, um livro composto por letras feitas de raiz para o fado. Falamos de «Fado Maior», a estreia como escritor de Hélder Joaquim Gonçalves, com quem estivemos à conversa numa bela manhã de Verão na movimentada cidade de Portimão. Texto:

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odos os dias são publicados livros em Portugal, uns de poesia, outros de prosa, dos típicos romances aos contos, mas um livro composto por letras para fado é algo mais raro, daí termos rumado a Portimão para conversar com Hélder Joaquim Gonçalves, professor de português e autor de «Fado Maior». Ouvinte atento da canção nacional, Património Imaterial da Humanidade, o portimonense é cliente regular de alguns restaurantes que organizam noites de fado, às vezes até canta, simplesmente por gosto, no puro

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amadorismo, sem pretensões de se afirmar fadista. “Cada vez se canta mais o fado, há muitas vozes novas por aí, mas apercebi-me que todas têm o mesmo repertório. De um modo geral, todos os fadistas cantam os mesmos temas”, aponta Hélder Joaquim Gonçalves, enquanto se bebia um café na Casa Inglesa. Explicando que o fado tradicional é um acervo de cerca de 200 melodias a que todos recorrem com frequência, desde os nomes mais consagrados aos novos talentos, cada um depois

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adaptando-as à sua maneira de cantar, Hélder conta que, por brincadeira, resolveu fazer umas quadras para cantar no Restaurante O Cangalho, junto ao Zoo de Lagos, onde costuma levar alguns alunos estrangeiros a quem ensina português. “Os músicos gostaram das minhas letras e uma fadista até me pediu para lhe escrever duas canções, foi uma surpresa. Eu sempre me dei bem com a escrita, escrever razoavelmente bem foi um dos meus trunfos enquanto estudante, mas nunca tive o hábito de guardar aquilo que fazia”, relata o entrevistado. A rotina mudou, de facto, com estas letras para fados tradicionais, de modo que, quando já tinha à volta de uma dúzia, e face aos incentivos de amigos, decidiu que seria interessante colocá-las à disposição de outros fadistas. “No início, havia fadistas que andavam de casa em casa a cantar e existiam letristas que escreviam para eles. O David Mourão Ferreira fez muitas letras para a Amália, outros musicaram uma série de poemas da literatura português mas, depois, não sei o que aconteceu, deixou-se de fazer isto”, observa Hélder Joaquim Gonçalves. “Pelo que vejo, agora são os fadistas, casos do Camané, Mariza, Ana Moura, Aldina Duarte ou Carlos do Carmo, que convidam

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alguns poetas para escrever para eles, mas são situações pontuais”. Uma dessas escritoras é Maria do Rosário Pedreira, que teceu largos elogios a Hélder Joaquim Gonçalves, mas a própria considera que fazer letras para fados é um hobbie, algo que faz apenas quando solicitada. E para essa realidade se calhar contribuiu, durante muitos anos, a imagem de que o fado é tristonho, só fala de dramas e de saudade e que só interessa a pessoas de idade mais avançada. “Hoje, felizmente, há cada vez mais jovens nos espetáculos de fado, deixou de haver esse estigma. O Camané costuma dizer que, quando era jovem, tinha vergonha de contar aos amigos que gostava de fado, pensava que isso não seria bem aceite. Mas isso mudou”, destaca, acreditando que o reconhecimento do fado como Património Imaterial da Humanidade foi decisivo para essa alteração de mentalidade. Se é verdade que os mais jovens já cantam e consomem fado, isso não significa, porém, que tenham aparecido novos escritores a produzir letras para a canção nacional, até porque o fado obriga à presença da rima. “Ora, atualmente, não é muito usual os poetas escreverem em rima. Como eu me desenrasco a cantar ALGARVE INFORMATIVO #69


Dou-te um fado como asa, O meu peito como casa, Dou-te os braços como abrigo; Dou-te os meus versos que escrevo, Os que a escrever não me atrevo, Os que eu quero e não consigo. e tocar a viola, faço as letras diretamente sobre as melodias. Escrevo cantarolando, o que facilita imenso a construção do texto”, revela. “Claro que há palavras que têm mais musicalidade do que outras, mas o processo é bastante intuitivo para mim. O livro tem a indicação das músicas que serviram de base à criação de cada letra, mas elas não ficam cativas, reféns, daqueles temas. Existem basicamente quadras, quintilhas, sextilhas e decassílabos e para todas estas formas poéticas há dezenas e dezenas de músicas onde se encaixem perfeitamente”, esclarece. Se dominar a técnica foi fácil para Hélder Joaquim Gonçalves, resta saber de que falam as suas letras, de onde provem a inspiração. “Às vezes, de uma coisa que ouço ou leio, noutras, daquilo que vejo, de uma palavra ou frase que acho interessante. Sobre a história da tristeza e da saudade, apareceram umas teorias de que o fado tem que mudar, tem que ser mais alegre. Pergunto, então, se devíamos acabar

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com o género literário da tragédia e ficarmos só com a comédia”, questiona o professor. “O facto de se cantar uma música que tem um certo clima triste não significa que sejamos todos uns desgraçados. É uma forma de expressão como outra qualquer e nós andamos há 800 anos a cantar a saudade. Desde a criação do Condado Portucalense que andamos em guerras com gente de fora. Com os Descobrimentos, partimos nas naus. Depois, foi a Guerra Colonial e a Emigração. Somos um país propício a este sentimento, não vejo qual é o mal de se assumir a saudade”.

Ficou o bichinho para mais Para Hélder Joaquim Gonçalves, um fadista não é mais do que um ator que está a dar corpo e voz a um sentimento profundo que emana das letras, da saudade típica do fado, e essa interpretação é mais genuína quando as letras

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apelam, de facto, para uma maior interioridade, para estados de alma mais profundos. Não admira, por isso, que os estrageiros adorem o fado quando, na maior parte das vezes, não percebem o que está a ser dito. “É algo que não ouvem noutras partes do mundo e essa linguagem da expressão dos sentimentos não precisa ser compreendida palavra por palavra”, concorda o autor de «Fado Maior», cuja edição física foi o prémio resultante de um concurso de poesia da Associação Portuguesa de Pais de Crianças Diminuídas Mentais de Setúbal a que concorreu. “A editora «Lua de Marfim» tem uma parceria com a associação e assim consegui ter o livro sem quaisquer custos”, indica. Pouco preocupado com o retorno financeiro, Hélder Joaquim Gonçalves aguarda agora, calmamente, para perceber qual a aceitação deste livro sui-generis, mas garante que tem outras letras preparadas para o que o futuro reservar. “A apresentação do livro vai ser em setembro, no «Cangalho», numa sessão de fado especial em que todos os temas cantados serão com letras do «Fado Maior». Estou desejando que chegue a altura, para me sentar e ouvir alguém cantar aquilo que eu escrevi. De resto, não é o dinheiro que me 75

move, sei que ninguém enriquece com os livros”, afirma. Entretanto, ficou o bichinho para outra aventura literária, até porque, em 2017, será o seu último ano como professor e, depois, terá mais tempo livre para escrever. “A ver se aparece outro concurso que me garanta a edição da obra”, diz, com um sorriso, enquanto se prepara para participar num semana dedicada aos livros a acontecer, nos próximos dias, em Lagos .

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DIRETOR: Daniel Alexandre Tavares Curto dos Reis e Pina (danielpina@sapo.pt) CPJ 5852 EDITOR: Daniel Alexandre Tavares Curto dos Reis e Pina SEDE DA REDAÇÃO: Rua Estrada de Faro, Vivenda Tomizé, N.º 12P, 8135-157 Almancil Telefone: 919 266 930 Email: algarveinformativo@sapo.pt Web: www.algarveinformativo.blogspot.pt PROPRIETÁRIO: Daniel Alexandre Tavares Curto dos Reis e Pina Contribuinte N.º 211192279 Registado na Entidade Reguladora para a Comunicação Social com o nº 126782 PERIODICIDADE: Semanal CONCEÇÃO GRÁFICA E PAGINAÇÃO: Daniel Pina FOTOGRAFIA DE CAPA: Isabel Pinto

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