#213
ALGARVE INFORMATIVO Revista semanal - 3 de agosto, 2019
FEIRA DA SERRA DE SÃO BRÁS DE ALPORTEL| ARTE DOCE DE LAGOS | AL SUR EM LAGOA ALGARVE INFORMATIVO #213 FESTA1 DA RIA FORMOSA DE FARO |GRAND JETÉ INTERNATIONAL DANCE AWARDS EM LAGOA
ALGARVE INFORMATIVO #213
2
3
ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
4
5
ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
6
7
ALGARVE INFORMATIVO #213
CONTEÚDOS #213 3 DE AGOSTO, 2019 58
HISTÓRIAS 16 - Apresentação FATACIL 2019 22 - Cidade Romana de Balsa 30 - IPDJ assinou contratos PRID 38 - Águas do Algarve 48 - Arqueologia em Vila do Bispo 58 - Feira da Serra de São Brás de Alportel 78 - Feira Concurso Arte Doce 90 - Festa da Ria Formosa 102 - David Fonseca em Lagos 114 - Grand Jeté International Dance Awards 2019 128 - Al Sur em Lagoa 136 - Cine-Teatro Louletano apresenta nova temporada
78
114
OPINIÃO 146 - Mirian Tavares 148 - Ana Isabel Soares 150 - Adília César 152 - Fábio Jesuíno 154 - Fernando Esteves Pinto ALGARVE INFORMATIVO #213
8
9
ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
10
11
ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
12
13
ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
14
15
ALGARVE INFORMATIVO #213
FATACIL É UMA MARCA IDENTITÁRIA DE LAGOA E APRESENTA VÁRIAS NOVIDADES NA SUA 40.ª EDIÇÃO Texto: Daniel Pina | Fotografia: Daniel Piina
Emídio Paias, Luís Encarnação e Mário Dias
erca de um milhão de euros é quanto custa levar a cabo mais uma edição da FATACIL – Feira de Artesanato, Turismo, Agricultura, Comércio e Indústria de Lagoa, a 40.ª, de 16 a 25 de agosto, um ALGARVE INFORMATIVO #213
evento que constitui uma marca identitária do concelho, e de toda a região, dando a conhecer o que de melhor se faz no sul do país. Ao todo serão 800 expositores numa área que este ano aumentou para 60 mil metros quadrados, com muito artesanato ao vivo, gastronomia regional, provas de 16
vinho do Algarve, divulgação dos saberes e sabores algarvios, exposições de animais, folclore genuíno, espetáculos equestres, animação infantil, roda gigante, uma tenda tecnológica e, claro, um cartaz musical de luxo que inclui Xutos & Pontapés (também eles a comemorar os 40 anos de existência), Calema, Wet Bed Gang, João Pedro Pais, Matias Damásio, Quim Barreiros, Blaya, Jorge Palma, Mariza c/ a Orquestra Clássica do Sul e Richie Campbell. Motivos não faltam, por isso, para visitar a FATACIL, um evento que, reconheceu Luís Encarnação, presidente da Câmara Municipal de Lagoa, teve os seus altos e baixos ao longo dos anos. “Há cinco anos encontrámos uma feira que estava a definhar, a perder a sua pujança e notoriedade, a perder expositores e visitantes. Conseguimos inverter esse percurso e, em 2019, foi-lhe atribuído o Prémio Cinco Estrelas Regiões, no 17
âmbito das Feiras, Festas e Romarias, e foi finalista nos Iberian Festival Awards”, destacou o edil lagoense durante a conferência de imprensa que teve lugar, no dia 1 de agosto, no Parque Municipal de Exposições de Lagoa. «40 edições, 40 novidades» é o mote para 2019, porque se pretende “reinventar constantemente a feira, para que ela nunca adormeça e envelheça”, adiantou Luís Encarnação, uma feira generalista, para toda a família e que dificilmente se consegue percorrer toda, a fundo, em apenas um dia. “Cerca de 20 por cento dos visitantes são crianças até aos 12 anos, mais 10 a 15 por cento são jovens até aos 18 anos, daí que seja necessário ter atenção a esta parte substancial do nosso público”, acrescentou. Quanto às novidades, provavelmente a mais notória será a mudança de localização do Palco Principal, que passará a ficar no ALGARVE INFORMATIVO #213
relvado do Estádio Capitão Josino da Costa, o que permite que o anterior espaço seja ocupado por expositores. De volta aos mais jovens, o cartaz musical tens nomes que piscam o olho às novas gerações, como Calema, Wet Bed Bang e Blaya, mas haverá igualmente uma fun zone e uma tenda tecnológica com videojogos, simuladores, recursos tecnológicos educativos, you tubers, streamers e top players. A segurança é outra prioridade e o aumento da área total da feira permitirá que as pessoas circulem com mais espaço e comodidade, com a FATACIL a subir a sua capacidade máxima diária para 25 mil visitantes. “Em 2018 estivemos perto de alcançar os 180 mil visitantes e acreditamos que esse número poderá ser ultrapassado este ano. Para isso vamos ter também mais lugares de estacionamento, mais bilheteiras em funcionamento e formas ALGARVE INFORMATIVO #213
mais rápidas de entrar no recinto”, revelou Luís Encarnação, sem esquecer, claro, a questão ambiental. “Vamos procurar reduzir substancialmente o plástico presente na feira, com a estreia dos copos reutilizáveis em todos os pontos de venda de bebidas, águas e refrigerantes”. Na origem da feira esteve o artesanato, motivo pelo qual ele vai continuar a ser uma das «meninas dos olhos» da FATACIL, contando para isso com o apoio da Associação de Artesãos do Algarve. “O objetivo é separar o trigo do joio e queremos ter artesãos, e não comerciantes de artesanato, e de preferência a trabalhar ao vivo nas atividades tradicionais. À semelhança do que vem acontecendo ao longo dos últimos anos, quem o fizer, na prática vai estar de forma gratuita no certame, pois no final vamos devolver18
lhes o dinheiro da inscrição. E vamos ter uma forte presença dos produtos endógenos do Algarve, no espaço «Amar a Terra» e no setor agropecuário”, declarou o presidente da Câmara Municipal de Lagoa. “Nos 10 dias da feira, os nossos visitantes vão também degustar os melhores vinhos do Algarve e de Lagoa, que estão entre os melhores vinhos de Portugal e do Mundo, a julgar pelos prémios que conquistam todos os anos. E a FATACIL é cada vez mais procurada por expositores de outros pontos do país para dar a conhecer os seus produtos e serviços”, reforça o edil. Parceiro desde a primeira hora na organização deste evento é a Direção Regional de Agricultura e Pescas do Algarve, por entender que é uma “montra excecional e de referência para um conjunto de atividades económicas da região e do país, bem como dos produtos regionais e endógenos do Algarve”, justificou Mário Dias, Diretor Regional Adjunto, adiantando que esta tenda institucional albergará outras estruturas, como o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas, a Direção Regional de Cultura do Algarve, a Direção Regional de Alimentação e Veterinária, as «Águas do Algarve» e a Docapesca. “Teremos também um espaço dedicado aos grupos de ação local para que possam apresentar os seus projetos, porque desenvolvem hoje um papel insubstituível na promoção do desenvolvimento do interior e das zonas de baixa densidade. Vamos dar muita importância aos produtos regionais da serra, do barrocal e do litoral, os frutos secos, a doçaria tradicional, os enchidos, os produtos do mar e algum artesanato 19
associado à dinâmica do interior”, salientou Mário Dias, não esquecendo igualmente as raças autóctones do Algarve, como a cabra algarvia e a raça churra. “Espécies que estamos a tentar que não se percam e se mantenham ativas”. O setor equestre continuará a ser um dos grandes destaques da FATACIL, sempre com estreias de artistas de renome internacional e com o cavalo lusitano em evidência, conforme evidenciou o responsável Emídio Paias. “Somos uma referência internacional, graças aos programas que temos apresentado nos últimos anos, com estreias absolutas em Portugal, cavaleiros que têm atuado nos melhores palcos da Europa e do Mundo. O espetáculo de abertura, no sábado, vai incluir diversas escolas de equitação do Algarve; vamos ter provas de equitação de trabalho com Campeões do Mundo e da Europa; batismos equestres com alunos de cinco escolas da região; um duelo ibérico de campeões de equitação de trabalho, acompanhados por guitarristas conceituados; e um campeão nacional de dressage a dar uma lição ao vivo com um cavalo”, descreveu Emídio Paias. Quanto a preços, o bilhete individual custa quatro euros, o bilhete de família (quatro pessoas) tem o valor de 14 euros, as crianças até aos 12 anos não pagam e há uma pulseira para os 10 dias no valor de 25 euros. E quem nasceu a 21 de julho de 1980, o dia da primeira Feira Regional de Lagoa, a antecessora da FATACIL, tem entrada gratuita . ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
20
21
ALGARVE INFORMATIVO #213
MUNICÍPIO DE TAVIRA, UNIVERSIDADE DO ALGARVE E DIREÇÃO REGIONAL DE CULTURA DO ALGARVE UNEM-SE PARA SALVAGUARDAR BALSA Texto: Daniel Pina | Fotografia: Daniel Piina
Adriana Freire Nogueira, Jorge Botelho e Paulo Águas
oi celebrado, no dia 26 de julho, um protocolo de colaboração entre a Câmara Municipal de Tavira, a Universidade do Algarve e a Direção Regional de Cultura do Algarve com vista ao desenvolvimento de ALGARVE INFORMATIVO #213
projetos conjuntos de cariz científico, técnico e formativo no âmbito do património arqueológico, histórico e natural da Balsa. O projeto plurianual «Balsa, recuperação e divulgação de uma cidade romana do Sudoeste Ibérico» constitui o elemento estruturante para a prossecução de 22
medidas de salvaguarda e valorização, tendo como objetivos resgatar a memória e o conhecimento do que resta de uma das cidades históricas mais emblemáticas do Algarve, contribuir para a sua requalificação, e promover a formação da comunidade geral e da população escolar em particular. Na ocasião, Paulo Águas, reitor da Universidade do Algarve, lembrou que foi aprovada uma candidatura ao CRESC Algarve 2020 por parte do Centro de Estudos de Arqueologia, Artes e Ciências do Património, cujo investigador responsável será o professor João Pedro Bernardes. “As escavações vão decorrer de 19 de agosto até 6 de setembro, num projeto que procura, no fundo, conhecer melhor as origens do Algarve num sítio que, pela sua localização geográfica, tem um peso bastante importante para sabermos o que fomos e o que somos”, 23
destacou, acreditando que a UAlg está, desta forma, a dar um contributo para o enriquecimento e desenvolvimento social e cultural da região. “Com este tipo de atividades todos nós aprendemos e crescemos e a universidade não pode ficar fechada nos seus campi, dentro dos seus edifícios, no interior dos seus muros. Esta nossa postura é bem visível na vertente da arqueologia, seja agora em Tavira, na Torre de Aires, seja em Cacela ou na Boca do Rio”, frisou, sublinhando ainda que o presente protocolo não é um memorando de intenções, mas sim a formalização de algo que já está a acontecer no terreno. A assinatura do presente protocolo vem ao encontro de um forte desejo da Direção Regional da Cultura do Algarve e “das gentes de Tavira que sempre acarinharam e que sentiram ALGARVE INFORMATIVO #213
necessidade de proteger o que resta de Balsa”, afirmou Adriana Freire Nogueira, adiantando que a DRCAlg também irá participar na vertente de investigação. “As três entidades possuem pessoas qualificadas que vão acompanhar os trabalhos em Balsa e vai existir um Dia Aberto para o público conhecer as escavações. Estamos empenhados neste protocolo com todo o seu coração e vontade de ver acontecer, porque há muitos anos que ouço falar em Balsa. Há uma enorme curiosidade para ver o que sairá deste primeiro campo-escola e é bom verificar que o Algarve recebe pessoas que não vêm apenas atraídas pelo sol e mar, mas também pela investigação e arqueologia”, indicou a Diretora Regional de Cultura do Algarve. Satisfeito com a concretização deste protocolo mostrou-se igualmente Jorge Botelho, Presidente da Câmara Municipal ALGARVE INFORMATIVO #213
de Tavira, porque “não sabemos verdadeiramente qual a dimensão daquela cidade, mas sabemos que é bastante importante no contexto da presença romana no sul de Portugal”. “Esperamos que os trabalhos decorram bem e que sejam absolutamente conclusivos, para que possamos depois avançar para mais escavações arqueológicas, de forma a termos no Algarve, e no concelho de Tavira, uma cidade-romana em contínua investigação”, defendeu o autarca, lamentando um tempo em que, por não existir uma consciencialização arqueológica tão vincada, se realizaram alguns procedimentos menos corretos em prejuízo da história e cultura locais. “Achamos que ainda há lá muita coisa para descobrir, que é um ativo bastante importante para o conhecimento sobre nós próprios e da nossa civilização, dos nossos 24
antepassados, da história do Algarve e da cultura marítima associada a esse período”. Jorge Botelho manifestou que sempre foi intenção da autarquia tavirense o alargamento da zona de proteção especial de Balsa de forma preventiva, de modo a evitar a delapidação desse património, a que se seguiriam depois os trabalhos de prospeção e investigação. “Desejo que Tavira seja uma referência com umas escavações produtivas, com um registo importante e com um trabalho em contínuo que possa trazer à descoberta uma cidade de Balsa que possa ser visitável, partilhável e editável, com um
25
museu integrado que seja um ex-líbris. Juntando-se as vontades as coisas acontecem”, destacou o presidente da Câmara Municipal de Tavira, que anseia que o próximo quadro comunitário contemple apoios financeiros para que os trabalhos prossigam ininterruptamente em Balsa. “Se não houver dinheiro da União Europeia, temos que dizer ao governo, seja ele qual for, que Balsa é prioritária e estratégica a nível nacional”, reforçou. A celebração deste protocolo prevê então a realização de prospeções geofísicas, trabalhos arqueológicos, estudos científicos, musealização e
ALGARVE INFORMATIVO #213
divulgação. Compete à Direção Regional de Cultura do Algarve participar na investigação científica, efetuar acompanhamento técnico, colaborar na definição de medidas de proteção e salvaguarda das estruturas arqueológicas, apoiar e articular soluções de musealização e divulgação do património. A Universidade do Algarve fica encarregue de criar um projeto plurianual de investigação arqueológica e científica, bem como participar no planeamento da conservação e do restauro de materiais. A autarquia tavirense, por sua vez, será responsável pela participação da equipa técnica nas atividades arqueológicas, na conservação e restauro do espólio e na musealização. Compete ainda ao Município de Tavira dinamizar ações de ALGARVE INFORMATIVO #213
informação, promover a criação de um espaço museológico e prestar apoio logístico na realização das escavações. A cidade romana da Balsa, situada na freguesia da Luz de Tavira, encontra-se classificada como imóvel de interesse público. Esta estende-se ao longo da zona ribeirinha da Ria Formosa e abrange várias propriedades e área de domínio público marítimo, onde foram descobertas várias necrópoles, cetárias (grandes tanques para a realização de preparados de peixe), vestígios de edifícios com pavimentos de mosaicos, condutas de água e inscrições alusivas à construção de um circo .
26
27
ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
28
29
ALGARVE INFORMATIVO #213
PRID JÁ ALAVANCOU 1,3 MILHÕES DE EUROS DE INVESTIMENTO EM REABILITAÇÃO DE INSTALAÇÕES DESPORTIVAS NO ALGARVE Texto: Daniel Pina | Fotografia: Daniel Pina
Rogério Bacalhau, Sónia Paixão e Custódio Moreno
Instituto Português do Desporto e Juventude assinou, no dia 25 de julho, na Direção Regional ALGARVE INFORMATIVO #213 #212
do Algarve, em Faro, 11 contratosprograma de apoio financeiro a clubes algarvios, no âmbito da edição de 2019 do PRID – Programa de Reabilitação de Instalações Desportivas. O programa da Secretaria de Estado da Juventude e do Desporto é implementado pelo IPDJ e já 30
vai na sua terceira edição, tendo como objetivo contribuir para a modernização e reabilitação de instalações desportivas ao serviço das populações. Ao PRID podem-se candidatar clubes e associações desportivas de base local, com o IPDJ a descrevê-lo como um instrumento fundamental para o desenvolvimento desportivo do movimento associativo, tendo do Algarve surgido 24 candidaturas, das quais 11 mereceram resposta positiva da tutela central, nomeadamente: Teia D’Impulsos – Associação Cultural, Social e Desportiva; Jujutsu Clube de Faro; Estrela Desportiva de Bensafrim; Portimonense Sporting Clube; União Desportiva e Recreativa Sambrasense; Grupo Desportivo de Alcoutim; Associação 31
Farense 1910; Judo Clube do Algarve; Juventude Clube Aljezurense; Ginásio Clube O Olhanense; e Grupo Desportivo de Lagoa. Com um custo elegível de 652 mil e 556 euros em obras que vão desde a substituição de relvados e pisos desportivos e reabilitação de balneários à conservação de coberturas e substituição de vedações e de iluminação, a comparticipação do IPDJ atinge os 200 mil euros, como resultado de um trabalho de análise dos projetos feito em estreita colaboração com os clubes desportivos e com o apoio das respetivas autarquias. E é fruto desta relação de extrema proximidade que Custódio Moreno, Diretor Regional do IPDJ de Faro, faz uma constatação: “Precisamos todos de nos ajudar uns aos outros porque o Algarve, neste momento, ALGARVE INFORMATIVO #212 #213
corre a duas velocidades. A parte técnica evoluiu imenso, mas temos de aumentar o nível de formação ao nível do dirigismo. Temos excelentes dirigentes, com muita paixão e amor à camisola, com uma tremenda dedicação, mas hoje precisamos de um pouco mais, porque as exigências administrativas são cada vez maiores”, declarou, em tom informal, perante uma plateia repleta de dirigentes e autarcas. Lealdade, compromisso, responsabilidade, tudo isso garantiu Custódio Moreno aos presentes na cerimónia de assinatura dos contratosprograma de um PRID que “colocou os dirigentes do IPDJ a conversarem ainda mais com as câmaras municipais e clubes”. “Nós sabemos que a maior fatia do bolo destas obras é da responsabilidade das autarquias e dos
ALGARVE INFORMATIVO #213
clubes, mas o IPDJ é aquela colherada e empurrão que faltavam para que alguns projetos fossem para a frente”, afirmou, dando o exemplo concreto da substituição da pala da bancada do Estádio Municipal de Silves, que voou há uns anos devido a um tornado que assolou a antiga capital algarvia. “Quando surgiu este programa o assunto resolveu-se num mês, mas nem todos os casos são assim tão rápidos de solucionar, como é óbvio. Havia necessidade de se olhar para os clubes e melhorar o património que eles possuem e que estava a precisar de intervenções, quando alguns dirigentes nem sequer têm dinheiro para comprar um saco de bolas. Estamos numa época de parcerias, de cooperação, em que ninguém pode trabalhar sozinho. Mal vai a entidade, a autarquia ou o clube que acha que não precisa de ninguém
32
para resolver as coisas”, avisou Custódio Moreno. Na sessão esteve Rogério Bacalhau, Presidente da Câmara Municipal de Faro, que garantiu que a maior parte das autarquias se esforça por apoiar os seus clubes e associações desportivas, sendo que o PRID tem a particularidade de colocar os vários agentes envolvidos em conversações mais estreitas. “Hoje, dificilmente se inventa qualquer coisa, geralmente adequamos algo que já existe às nossas realidades. O IPDJ faz aqui um esforço financeiro para apoiar os clubes e associações a realizar obras nas suas instalações, em sintonia com as autarquias. E a verdade é que, infelizmente, nem sempre se dá a devida importância ao trabalho de formação que os clubes e associações realizam junto das crianças e dos 33
jovens”, sublinhou o edil farense. “O normal é olhar-se apenas para a competição, para o nível profissional, mas o maior mérito da vossa atuação é pegar nos jovens e iniciá-los numa modalidade, relacionarem-se com eles, transmitirem-lhes os princípios da disciplina e da responsabilidade, algo que depois terá repercussão no resto das suas vidas”, elogiou Rogério Bacalhau. A pasta do PRID está, desde setembro de 2018, nas mãos de Sónia Paixão, VicePresidente do Conselho Diretivo do IPDJ, um programa proposto por Vítor Pataco, Presidente do IPDJ, ao atual governo socialista liderado por António Costa, e que vai ao encontro de uma necessidade devidamente identificada. “Temos em todo o país instalações desportivas construídas há várias décadas e, da ALGARVE INFORMATIVO #213
parte da administração central não houve, durante muitos e muitos anos, um programa desta índole. Com estas três edições aconteceu um investimento do IPDJ de 4,2 milhões de euros na reabilitação de infraestruturas desportivas, que alavancaram um total ALGARVE INFORMATIVO #213
de 15 milhões de euros”, evidenciou a dirigente. No plano do Algarve, os números também são significativos, com os 416 mil euros investidos pelo IPDJ a originarem intervenções no valor de 1,3 milhões de euros. “E, de acordo com o número de candidaturas que são 34
apresentadas, no Algarve e no resto de Portugal, há ainda imenso por fazer”. Sónia Paixão falou ainda de um novo paradigma na política desportiva nacional que o IPDJ tem o compromisso de levar a cabo e que é consubstanciado em 35
medidas como o Programa Nacional Desporto Para Todos, ao qual os clubes e associações já se podem candidatar desde há três anos, com as candidaturas a serem depois avaliadas, no terreno, pelos vários Diretores Regionais do IPDJ. Mas existe também o Programa Clube Top, “que ainda não é a nossa pérola, ainda não está como gostaríamos que estivesse, mas estamos a percorrer esse caminho porque a realidade local carece deste apoio”. “E, por via do Programa Nacional da Ética Desportiva, pretendemos levar a cabo um conjunto de ações de sensibilização junto de treinadores e pais para valorizar o fairplay no desporto, com os clubes a poderem também candidatar-se à Bandeira da Ética e a poderem introduzir o Cartão Branco”, reforçou. A Vice-Presidente do Conselho de Administração do IPDJ enalteceu ainda o papel das autarquias na promoção do desporto nos seus territórios e no apoio ao dirigismo associativo. “Se a pequena ignição do IPDJ consegue triplicar o montante global do PRID, sabemos que isso se deve em grande medida ao esforço dos autarcas” . ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
36
37
ALGARVE INFORMATIVO #213
ÁGUAS DO ALGARVE E ESTADO PORTUGUÊS CELEBRARAM NOVO CONTRATO DE CONCESSÃO Texto: Daniel Pina | Fotografia: Daniel Pina
Ministro do Ambiente e da Transição Energética, João Pedro Matos Fernandes, e o presidente do ALGARVE INFORMATIVO #213
Conselho de Administração da «Águas do Algarve», Joaquim Peres, assinaram, no dia 24 de julho, na sede da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve, em Faro, o contrato de concessão que junta os sistemas de abastecimento de água e de 38
João Nuno Mendes, Presidente do Conselho de Administração da «Águas de Portugal»
saneamento de águas residuais. O sistema multimunicipal de abastecimento de água e saneamento de águas residuais, criado pelo Decreto-Lei 93/2019, de 15 de julho, atribui deste modo por 30 anos a concessão à «Águas do Algarve», que tem como acionistas a AdP - Águas de Portugal e os municípios de Albufeira, Alcoutim, Aljezur, Castro Marim, Faro, Lagoa, Lagos, Loulé, Monchique, Olhão, Portimão, São Brás de Alportel, Silves, Tavira, Vila do Bispo e Vila Real de Santo António. O novo projeto de concessão integra as barragens de Odeleite e Beliche, decisivas para o abastecimento de água na região, viabilizando a sua transferência da APA para as «Águas do Algarve». 39
O projeto desta nova concessão prevê o financiamento de 300 milhões de euros para investimentos, dos quais cerca de metade se destinam a conservação e reabilitação de infraestruturas de abastecimento de água e saneamento de águas residuais, tendo como principais objetivos: enfrentar as alterações climáticas e a seca; capacitar financeiramente a empresa para investir; conservar e reabilitar as infraestruturas; aumentar a cobertura e atendimento, bem como a qualidade e desempenho operacional; entre outros. No total, as operações da «Águas do Algarve» abrangem uma população de cerca de 450 mil ALGARVE INFORMATIVO #213
António Eusébio, João Pedro Matos Fernandes, Isabel Soares, Joaquim Peres e João Nuno Mendes
habitantes (em época baixa) que, no caso do serviço de abastecimento de água, são servidos através de mais de 490 quilómetros de condutas adutoras, 31 Estações Elevatórias e quatro Estações de Tratamento de Águas (ETA). Já na operação de saneamento de águas residuais existem mais de 210 quilómetros de condutas, 191 Estações Elevatórias e 65 Estações de Tratamento de Águas Residuais (ETAR), entre as quais as duas maiores ETAR da região do Algarve, responsáveis pelo tratamento de um terço das águas residuais tratadas na região – a ETAR da Companheira (Portimão) e a ETAR de Faro-Olhão, em funcionamento desde 2018 – conforme destacou o presidente do Conselho de Administração ALGARVE INFORMATIVO #213
da «Águas de Portugal». “Durante todo este processo houve uma grande preocupação dos municípios do Algarve com o custo da água que se iria praticar e temos uma tarifa socialmente aceitável. Precisávamos encontrar também um prazo que nos permitisse fazer face à dívida financeira da empresa, que atingia, no final do ano, 219 milhões de euros, o que é perfeitamente razoável num quadro de um prazo de concessão alargado; e identificámos um valor de investimento para este período”, descreveu João Nuno Mendes, lembrando que, dos 300 milhões de euros de investimento previstos, 88 dizem respeito ao abastecimento de água e 56 em saneamento, a que se 40
Jorge Botelho, Presidente da AMAL
somam 150 de substituição, renovação e reabilitação. “É um projeto de grande dimensão até 2048”, enfatizou.
que chamou ainda a atenção para a importância de se preservar cada vez mais este bem essencial à vida humana.
Com a chuva a não acontecer no volume desejável, João Nuno Mendes considera essencial progredir-se ainda mais na reutilização das águas tratadas provenientes do esgoto, ao nível dos espaços verdes, dos campos de golfe, da lavagem das ruas, entre outras aplicações. “Queremos ter, em 2025, sensivelmente 10 por cento de água residual tratada com utilizadores na região. Um dos pontos que este contrato de concessão irá permitir é a plena integração das Barragens de Odeleite e Beliche, que representam 40 por cento do abastecimento de água no Algarve”, revelou o presidente do Conselho de Administração da «Águas de Portugal»,
“Estamos perante um dia histórico, este é um passo fundamental para o Algarve”, afirmou, por sua vez, o presidente do Conselho de Administração da «Águas do Algarve». “Foi com discussão e diferentes pontos de vista, mas com uma vontade comum de todas as 16 Câmaras Municipais do Algarve, que foi possível chegar-se a este momento, para além do empenho do Ministério e da Secretaria de Estado. A água não é tão abundante como poderíamos desejar, o que implica que façamos uma utilização parcimoniosa e inteligente. Quantos hectómetros cúbicos são gastos a lavar ruas e contentores, a
41
ALGARVE INFORMATIVO #213
Joaquim Peres, Presidente do Conselho de Administração da «Águas do Algarve»
regar espaços verdes? Temos necessidade de ter essa água toda tratada, ou podemos utilizar aquela que, saindo do tratamento das ETAR, tem condições para poder ser reutilizada?”, questionou Joaquim Peres, antes de passar para outro desafio extraordinariamente importante, o das lamas produzidas nas ETAR, “um excesso que se pode tornar numa matéria-prima da qual se pode tirar um maior partido”.
ÁGUA E SANEAMENTO NÃO VÃO AUMENTAR DE PREÇO Assinado o contrato de concessão até 2048, vislumbra-se um conjunto de intervenções de requalificação bastante importantes para a região, para conservar aquilo que foi sendo construído ao longo ALGARVE INFORMATIVO #213
dos últimos anos, “com respeito pela natureza”, sublinhou Joaquim Peres. “É um trabalho que só se conseguirá fazer com uma unidade, não de pensamento, mas de objetivos. Estes objetivos comuns que nos trouxeram até aqui são também aqueles que nos vão levar até 2048 e o primeiro diz respeito à economia de todos nós. A água e o saneamento vão manter-se em preços constantes, com exceção do que advém da taxa de inflação, o que é uma notícia bastante boa para a população”, garantiu, sem esquecer igualmente outra questão importante para a reputação do Algarve enquanto destino turístico – as bandeiras azuis – para o que a qualidade dos efluentes das ETAR é crucial.
42
João Pedro Matos Fernandes, Ministro do Ambiente e da Transição Energética
A importância do momento foi igualmente reconhecida pelo Presidente da AMAL – Comunidade Intermunicipal do Algarve, que assegurou que chegar-se a um acordo entre todas as partes não foi difícil. “Cabia ao governo a decisão de prolongar ou não o contrato, mas quero saudar a atitude do Grupo «Águas de Portugal» e da «Águas do Algarve», que fizeram questão de falar com os autarcas e saber, até à exaustão, o que é que achávamos sobre este assunto e qual era o nosso caderno de encargos para os próximos 30 anos”, enalteceu Jorge Botelho. “Ninguém colocou em causa que o contrato de concessão de abastecimento de água em alta fosse prolongado com a «Águas do Algarve» e também ficou logo bem firme que 43
desejávamos a estabilidade dos preços, que não aceitávamos o aumento do tarifário”, acrescentou. Jorge Botelho apelou igualmente ao enfoque de todos os envolvidos na adaptação às alterações climáticas, na procura de novas fontes de água, assim como de novas soluções de articulação entre os Ministérios do Ambiente e Agricultura com os municípios. “Estamos aqui a falar do contrato de abastecimento em alta, que requer um conjunto substancial de investimentos por parte da «Águas do Algarve» na região para que o sistema seja muito mais sustentável e dotado de reservas suficientes para fazer face ao ciclo da água. Mas temos que olhar firmemente para as novas captações ALGARVE INFORMATIVO #213
de água que possam acontecer e, acima de tudo, para a dessalinização, que sabemos que é uma tecnologia cara”, defendeu o Presidente da AMAL. “É com confiança que se geram investimentos e se ultrapassam obstáculos, os autarcas estão cá para trabalhar, sempre na defesa do Algarve. Somos uma região importantíssima no contexto nacional, embora muitas vezes isso não seja totalmente reconhecido”, terminou Jorge Botelho. A sessão concluiu com a intervenção do Ministro do Ambiente e da Transição Energética, para quem os 30 anos de alargamento da concessão constituem o período de tempo necessário para que a dívida da empresa seja paga sem qualquer ALGARVE INFORMATIVO #213
sobressalto, para que se possam investir mais 300 milhões de euros no sistema intermunicipal do Algarve e para que não existisse qualquer aumento do tarifário da água e saneamento básico. “Estes 30 anos são, afinal de contas, apenas mais 30 anos. Não tenho a mais pequena dúvida de que depois existirá um novo ciclo, no qual o investimento de renovação não será apenas de 55 por cento, mas de 80 por cento. Este é um trabalho sem fim, onde a gestão de ativos é fundamental e onde cada vez mais caminhamos para uma geração de empresas menos empreiteiral e muito mais voltada para a gestão e eficiência dos equipamentos”, antevê João Pedro Matos Fernandes. 44
O governante concorda com a importância de se avançar na dessalinização, que, na sua opinião, só será possível em dois ou três grandes estuários de Portugal e no mar do Algarve. “Pode e deve mesmo ser estudada, equacionada, mas com a tecnologia atual só poderá ser usada para consumo humano. Não é um problema da qualidade da água, mas do preço a que ela fica”, avisa o Ministro. “O Alqueva vende água para agricultura a três cêntimos o metro cúbico. O preço mais barato que conheço de água dessalinizada, e é um preço político, verifica-se no sul de Espanha e é de 30 cêntimos o metro cúbico. Temos é que avançar já na reutilização dos nossos efluentes, porque esgoto tratado é água. Não é água potável para beber, mas serve para outras aplicações”, salientou
45
João Pedro Matos Fernandes. “Até 2025, o governo pretende que 10 por cento dos efluentes das ETAR seja reutilizado, valor que sobe para 20 por cento até 2030. Quero acreditar que, no Algarve, se vai atingir essas metas com muita facilidade, não só porque as duas ETAR (Faro-Olhão e Companheira) são novas, mas porque a «Águas do Algarve» já tem um trabalho bastante desenvolvido nesta matéria. No longo prazo, quando a água que nos cai da chuva é menor do que aquela que consumimos, só há uma medida estruturante possível – poupar água – pelo que a eficiência na agricultura tem que ser uma batalha muito grande e de todos”, declarou ainda o Ministro do Ambiente e da Transição Energética .
ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
46
47
ALGARVE INFORMATIVO #213
CONCELHO DE VILA DO BISPO TEM MAIS DE 200 NOVOS SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS PARA SE ESTUDAR Texto: Daniel Pina | Fotografia: Ricardo Soares/Município de Vila do Bispo
hegou ao fim mais uma campanha de escavações na jazida arqueológica de Vale Boi, mas muito mais há para descobrir e estudar no concelho de Vila do Bispo, conforme ficamos a saber ALGARVE INFORMATIVO #213
durante uma conversa com Ricardo Soares, arqueólogo ao serviço da autarquia vila-bispense desde 2014 e que rumou a este concelho algarvio precisamente devido ao seu potencial de investigação. “A arqueologia é, essencialmente, uma ciência que estuda o passado humano, civilizações 48
extintas, no fundo, uma narrativa que se produziu ao longo do tempo pelo homem num determinado território. Depois, essa informação deve ser traduzida para a comunidade local, que são os verdadeiros herdeiros dessa memória coletiva. Não basta aos arqueólogos produzir informação científica, há que passar adiante essa história da sequência humana”, defende. Outra tarefa fundamental é a valorização dos sítios e dos objetos recuperados em contexto arqueológico, umas vezes no local, quando tal é possível, outras vezes em termos museológicos ou, idealmente, ambas as vertentes em simultâneo. E Vale Boi é um sítio extremamente significativo a nível de todo o sul da Península Ibérica, garantiu o entrevistado. “É a mais extensa jazida paleolítica do sul peninsular, com datações de 34 mil anos, mas tem pouca 49
monumentalidade e visibilidade no local, pelo que a melhor opção, neste caso, é tratar-se essa informação num museu. A maior parte das peças serão alvo de estudos posteriores, mas algumas já têm condições para serem partilhadas com a comunidade”, refere, recordando que, em 2014, foi celebrado um protocolo de colaboração entre o Município de Vila do Bispo e a Universidade do Algarve e, em 2017, foi criado um núcleo de investigação em Budens, onde ficava o antigo jardim-deinfância desta vila. “No fundo, esse equipamento, com boas condições de acolhimento e de laboratório durante a fase de campanha arqueológica, tem garantido a continuidade destes projetos plurianuais que a autarquia tem em curso. O estudo é sempre feito pelos investigadores da universidade, em estreita colaboração com a Câmara ALGARVE INFORMATIVO #213
Nuno Bicho, João Cascalheira e Ricardo Soares em Vale Boi
Municipal, e compete-nos a nós criar as tais condições de partilha sociocultural em museu”, acrescenta. Entretanto, cabe ao arqueólogo municipal juntar as peças deste «puzzle», das várias investigações que decorrem sob contextos e momentos específicos da história humana, pelo que Ricardo Soares ALGARVE INFORMATIVO #213
se encontra a desenvolver, desde 2014, a Carta Arqueológica do Concelho de Vila do Bispo, que congrega toda a informação produzida, até à data, por diversos arqueólogos. “As prospeções feitas no campo têm, numa primeira fase, a missão de localizar sítios conhecidos desde o final do século XIX, desde Estácio da Veiga, mas 50
arqueologia portuguesa, algo que não surpreende Ricardo Soares. “Uma das razões que me fez vir para Vila do Bispo foi a monumentalidade dos menires, já que este concelho reúne a maior concentração, por metro quadrado, de monumentos megalíticos pré-históricos de toda a Península Ibérica e provavelmente serão também os mais antigos. Talvez uma primeira pedra de um fenómeno megalítico que se propagou de sul para norte, até contextos mais conhecidos no Alentejo Central, na Bretanha Francesa ou em Stonehenge, nas ilhas britânicas”, adianta, embora admita ter ficado surpreendido com a densidade de materiais encontrados à superfície. “Tudo isto tem a ver com a próprio geografia de Vila do Bispo. Estamos a falar da Finisterra, o antigo Promontorium Sacrum – daí a palavra Sagres – que já vem do Século VI A.C., em que geógrafos e historiadores gregos chegaram a esta finisterra com a sensação de terem alcançado o fim do mundo e assim o batizaram como Hieron akroterion, o Cabo Sagrado. Esse respeito por um local especial é bastante antigo”, declara, quase como se estivéssemos numa sala de aula de história antiga. também identificar novos sítios. Neste momento, a Carta Arqueológica tem averbados mais de 200 novos sítios arqueológicos que nos permitirão contar a história deste território desde o seu princípio até à atualidade”, revela. Vale Boi e Boca do Rio são, então, apenas os dois locais mais mediáticos num território com muito para dar à 51
EMPENHO TOTAL EM CONHECER A HISTÓRIA DO TERRITÓRIO Toda esta riqueza arqueológica foi salvaguardada porque Vila do Bispo não foi alvo do turismo de massa que tomou conta do Algarve Central nas últimas décadas do século passado, mas que ALGARVE INFORMATIVO #213
benefícios concretos podem daí advir para um território, questionamos. “Nós, enquanto indivíduos, temos a missão de preservar o nosso passado. Os municípios, as entidades públicas, têm essa obrigação formal. Felizmente vivemos num território que está abrangido, desde os anos 90, por um Parque Natural, o que permitiu preserválo, de certa forma, das grandes massificações e empreendimentos turísticos. Ora, este património, se for bem gerido e de forma estratégica, tem mais-valias evidentes”, responde Ricardo Soares, lembrando ainda que Vila do Bispo coabita com um turismo diferente de outras zonas do Algarve. “Somos procurados mais por viajantes do que por turistas tradicionais, por pessoas sensibilizadas e que procuram ALGARVE INFORMATIVO #213
experiências, cultura, saberes. Tudo isso nós temos para oferecer de forma mais pura, com paisagens preservadas e com uma riqueza imensa de património cultural”. Em jeito de brincadeira, Ricardo Soares reconhece que personagens como Indiana Jones e Lara Croft contribuíram para que houvesse um maior interesse da parte do cidadão comum pela arqueologia e isso mesmo se constata nos Dias Abertos que por vezes são dinamizadas nas jazidas. “A arqueologia vende, a paleontologia e os dinossauros vendem, basta saber fazê-lo de forma sustentada, porque o património cultural não é finito e renovável e uma escavação é irrepetível, embora depois produza 52
53
ALGARVE INFORMATIVO #213
materiais cuja investigação pode ser inesgotável”, sublinha o técnico da Câmara Municipal de Vila do Bispo, esclarecendo ainda que grande parte das peças descobertas no concelho irão fazer parte do acervo do futuro «Celeiro da História». “Este executivo camarário teve a grande visão de recuperar um edifício devoluto de muito significado para as gentes locais – os antigos celeiros dos produtores de trigo – e assim suprir a lacuna de um espaço museológico à altura do concelho. O Centro de Interpretação de Vila do Bispo tem cumprido essa missão, mas é manifestamente insuficiente para a escala dos materiais e das narrativas que queremos partilhar com o público”. Finalizadas as escavações no «Terraço» de Vale Boi, outras campanhas deverão arrancar no curto prazo porque, como já se
ALGARVE INFORMATIVO #213
percebeu, matéria-prima não falta em Vila do Bispo. “Os meios essenciais estão reunidos, há protocolos que têm vindo a ser estabelecidos com universidades e centros de investigação, o potencial arqueológico é imenso e a criação do Centro de Acolhimento em Budens permite que investigadores venham para o nosso concelho com melhores condições das que teriam noutras realidades. Ainda agora tivemos 10 investigadores de universidades norte-americanas em Vale Boi e, nas férias da Páscoa e em setembro, temos outras equipas estrangeiras a trabalhar na Boca do Rio, naquilo que se pode quase chamar de «turismo científico»”, sublinha Ricardo Soares, enaltecendo o empenho da Câmara Municipal de Vila do Bispo em descobrir e dar a conhecer a história deste território. “Claro que nada se
54
Placa Solutrense com 24 mil anos descoberta em Vale Boi
pode fazer sem a devida autorização dos proprietários dos terrenos e são essas diligências que normalmente consomem mais tempo”. Investigações que, conta Ricardo Soares, não se limitam a terra firme, pois há projetos para se estudar os fundos dos mares, com a Universidade Nova de Lisboa e uma equipa liderada por José Bettencourt, nomeadamente de contextos subaquáticos de naufrágios. “A ideia é dotar também os sítios de melhores condições para mergulho, para exploração subaquática, em articulação com as empresas marítimo-turísticas locais. Para além disso, queremos preservar esses locais, porque o saque subaquático é uma realidade que preocupa muito esta autarquia”, refere o arqueólogo da Câmara Municipal de Vila 55
do Bispo. “Há aqui várias frentes, umas que encerraram o seu ciclo no terreno e prosseguem nos laboratórios, outras que vão começar no terreno, de tal forma que a taxa de ocupação no Centro de Acolhimento à Investigação de Budens já é difícil de gerir. Grande parte da arqueologia que se faz em Portugal acontece em contexto de obras, de caráter de emergência, em que apenas se faz o registo do que se encontrou. A investigação académica em contextos controlados já permite, para além da abordagem no terreno, o estudo em laboratório. Neste caso, o potencial é inesgotável, porque nas escavações até se costumam deixar reservas para o arqueólogo do futuro, que vai ter meios técnicos totalmente diferentes e que permitem obter outros resultados” . ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
56
57
ALGARVE INFORMATIVO #213
CERCA DE 38 MIL PESSOAS DELICIARAM-SE COM A 28.ª FEIRA DA SERRA DE SÃO BRÁS DE ALPORTEL Texto: Daniel Pina | Fotografia: Daniel Pina e Irina Kuptsova
ALGARVE INFORMATIVO #212 #213
58
59
ALGARVE INFORMATIVO #212 #213
uatro noites, cerca de 38 mil visitantes, um sucesso estrondoso, assim se pode resumir, em poucas palavras, o que foi a 28.ª edição da Feira da Serra de São Brás de Alportel, que de 25 a 28 de julho deu a conhecer o melhor que a Serra do Caldeirão tem para oferecer, desde os petiscos e iguarias, aos vinhos, licores e aguardentes, ao vestuário e artesanato, mas também aos recantos escondidos, aos espaços de restauração e turismo rural, e tantas outras coisas. Enfim, uma sumula majestosa de um ALGARVE INFORMATIVO #213
Algarve genuíno e tradicional, de saberes ancestrais, de alguns segredos que ainda teimam em ficar escondidos das grandes massas, de um concelho que, conforme dizem os seus responsáveis autárquicos, é «uma porta para o mar e uma janela para a serra». Um amplo recinto, e 100 por cento acessível a pessoas com qualquer tipo de constrangimento de mobilidade, várias zonas temáticas, um apeadeiro que fez as delícias dos apaixonados pelos cavalos e pela arte equestre, um Palco Sonoridades abrilhantado por muita dança, música e desporto de cariz mais local, e um Palco Principal por 60
61
ALGARVE INFORMATIVO #213
onde passaram nomes como Calema, Gipsy Kings, H.M.B. e o projeto «Cantar Amália», tudo contribuiu para a mais bem sucedida Feira da Serra de todos os tempos. Um trajeto que já vai extenso, de quase três décadas, e em que o executivo camarário liderado por Vítor Guerreiro não se cansa de inovar, de criar sempre mais atrativos, de apresentar novos produtos e serviços, sejam da autarquia ou das empresas e associações locais. Mas sempre mantendo a tal traça genuína que tanto furor faz junto dos visitantes. Porque há feiras e festivais onde se vai sobretudo para comer e beber, há outras feiras e festivais onde se vai essencialmente para se assistir aos concertos de música e, depois, há aquelas poucas, como a Feira da Serra de São Brás de Alportel, onde se ALGARVE INFORMATIVO #213
pode fazer tudo isso em perfeita harmonia e com elevada qualidade. A comprovar este sentimento tivemos uma zona de restauração completamente cheia ao longo das quatro noites, que, diga-se em abono da verdade, até estiveram algo friorentas, mas nada impediu muitos milhares de visitantes de chegarem mais cedo para desfrutarem das iguarias da serra. Noutras zonas da feira encontravam-se espaços de restauração mais informais, até uma zona de street food. No espaço dedicado aos stands, algarvios e forasteiros aproveitavam para fazer as suas compras, os irresistíveis doces e licores, os queijos e enchidos, aquelas peças de artesanato que já não se 62
63
ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
64
encontram em muitos lados. O tecido associativo divulgou o seu trabalho, a animação de rua foi uma constante, os miúdos divertiram-se com jogos radicais, jogos de tabuleiros, pinturas e diabruras. Os espetáculos no apeadeiro e nos dois palcos foram uma constante, com verdadeiras multidões a assistir, o que não impediu que o resto do recinto não estivesse também ao rubro. Por isso, quando se fala em cerca de 38 mil visitantes, ninguém coloca em causa os números, embora saibamos que, em certos eventos, os dados avançados pela organização nem sempre parecem muito corretos.
muito bem empregue o seu tempo, vivendo uma excelente experiência e, provavelmente, ficando a conhecer ainda mais sobre este concelho do interior algarvio. Quem não foi, tivesse ido, porque tudo foi perfeito: a música, a animação, o convívio, tudo. Parabéns, mais uma vez, à Comissão Organizadora e a todos aqueles que contribuíram para o sucesso da 28.ª Feira da Serra. Que, convém realçar, é totalmente «desenhada» e montada pela prata da casa, pelos funcionários da Câmara Municipal de São Brás de Alportel. Porque não há ninguém melhor que os são-brasenses para promover e valorizar o que é de São Brás. Até para o ano… .
Em jeito de remate final, quem foi à Feira da Serra de São Brás de Alportel deu por 65
ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
66
67
ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
68
69
ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
70
71
ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
72
73
ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
74
75
ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
76
77
ALGARVE INFORMATIVO #213
XXXII FEIRA CONCURSO ARTE DOCE FOI UM ÊXITO E DOM RODRIGO ENTROU PARA O PANTEÃO DO GUINESS Texto: Daniel Pina | Fotografia: Daniel Pina
ALGARVE INFORMATIVO #212 #213
78
79
ALGARVE INFORMATIVO #212 #213
João Fernandes, presidente da Região de Turismo do Algarve e Maria Joaquina Matos, Presidente da Câmara Municipal de Lagos
agos recebeu, de 26 a 28 de julho, a 32.ª edição da Feira Concurso Arte Doce, a mais antiga do género da região, que teve este ano como aliciante extra a tentativa de confecionar o maior Dom Rodrigo do mundo. E o objetivo inicial dos 100 quilos foi ultrapassado pelas oito doceiras do concelho que aceitaram o desafio lançado pela Câmara Municipal de Lagos, numa tarefa que foi acompanhada de perto por um representante do Guinness World Records. Durante três dias (24 a 26 de julho), as doceiras prepararam a iguaria com base na receita mais tradicional que teve origem ALGARVE INFORMATIVO #213
no Convento da Nossa Senhora do Carmo, em Lagos. Para tal foram usados 372 ovos inteiros, 2.940 gemas, 229 quilos de açúcar, 18 quilos de miolo de amêndoa, 45 litros de água e 360 gramas de canela. No dia 26 de julho veio a certificação por parte do Guinness com a confirmação da superação do objetivo com uns magníficos 125,4 quilos (126,7 quilos se contarmos com o papel de embrulho). O maior Dom Rodrigo do mundo foi depois apresentado ao público na inauguração da XXXII Feira Concurso Arte Doce, após os discursos do Presidente da Região de Turismo do Algarve, João Fernandes, que enalteceu o papel do certame na defesa e 80
81
ALGARVE INFORMATIVO #213
promoção dos sabores e saberes lacobrigenses, e da Presidente da Câmara Municipal de Lagos, Maria Joaquina Matos, que se mostrou visivelmente orgulhosa das doceiras que contribuíram para valorizar um dos maiores tesouros gastronómicos do Algarve e do concelho. Após desembrulhado, o doce foi oferecido e degustado por todos os visitantes da edição de 2019 da Arte Doce, que puderam participar na experiência de ver Lagos e o Dom Rodrigo inscritos no registo de recordes com mais prestígio em todo o mundo. A iniciativa surgiu dos esforços do Município de Lagos em promover o icónico doce algarvio, atualmente um dos finalistas distritais do ALGARVE INFORMATIVO #213
concurso «7 Maravilhas de Portugal – Doces», cuja final distrital terá lugar no dia 16 de agosto. Com uma nova imagem mais moderna e um aumento do espaço, a 32.ª edição da Feira Concurso Arte Doce contou com milhares de visitantes que puderam apreciar o que de melhor a doçaria do Algarve tem para oferecer, tendo ainda à sua disposição stands de artesanato, tasquinhas, a presença do Baixo Alentejo como região convidada, degustação de vinho e novos sabores da gastronomia da região. A animação ficou a cargo de diversos artistas que passaram pelos dois palcos do recinto, com destaque para David Fonseca, 82
83
ALGARVE INFORMATIVO #213
Raquel Tavares e Agir que aqueceram as noites de Verão naquele que é o fim-desemana mais doce de Lagos e do Algarve. Tendo sido o primeiro evento do género a surgir no Algarve, a Feira Concurso Arte Doce premeia anualmente várias categorias a nível da doçaria da região. Este ano, a organização introduziu duas novas categorias – Doces de Inovação e Decoração de Stand – como forma de modernizar a experiência de participantes e visitantes. Os premiados da edição de 2019 foram os seguintes: Concurso Arte Doce - Tema Obrigatório (O Vinho) 1.º Prémio - Cantinho Doce da Fernanda 2.º Prémio - Lucília Norte Baptista 3.º Prémio - Pastelaria Doce e Arte ALGARVE INFORMATIVO #213
Concurso Arte Doce - Tema Livre 1.º Prémio - Lucília Norte Baptista 2.º Prémio - Bolo Doce - Doçaria Regional, Lda. 3.º Prémio - Doces da Filipa Concurso Qualidade na Tradição Melhor Doce Fino: Luísa Mariano Melhor D. Rodrigo: Bolodoce – Doçaria Regional do Algarve Melhor Morgado: Sandra Santos Melhor Doce de Figo: Cantinho Doce da Fernanda Prémio Doces de Inovação: Munchi Prémio Melhor Decoração de Stand: Miminhos da Lucinda . 84
85
ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
86
87
ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
88
89
ALGARVE INFORMATIVO #213
FESTA DA RIA FORMOSA REUNIU SABERES E SABORES EM FARO Texto: Daniel Pina | Fotografia: Irina Kuptsova
ALGARVE INFORMATIVO #213
90
91
ALGARVE INFORMATIVO #213
eve início, no dia 25 julho, mais uma edição da Festa da Ria Formosa, no Largo de São Francisco, em Faro. O evento prolonga-se até 4 de agosto e a entrada é, como habitualmente, livre, com horário de funcionamento entre as 19h e as 01h, sendo possível degustar o melhor marisco da Ria Formosa e outras especialidades regionais confecionadas com base nas receitas e tradições do concelho de Faro. Ao mesmo tempo, a animação diária estará garantida por artistas locais e regionais. ALGARVE INFORMATIVO #213
Esta é já a 26.ª edição de um evento organizado pela Vivmar – Associação dos Viveiristas e Mariscadores da Ria Formosa e o sucesso da iniciativa assenta bastante na capacidade de atração e agregação em torno daqueles que genuinamente trabalham na/e para a Ria Formosa. Sendo o evento gastronómico de maior significado no concelho de Faro, não é de admirar que todas as edições registem muitas dezenas de milhares de visitantes e 2019 não foi exceção .
92
93
ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
94
95
ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
96
97
ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
98
99
ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
100
101
ALGARVE INFORMATIVO #213
DAVID FONSECA
ARRASOU EM LAGOS… E ALGUÉM ESPERAVA O CONTRÁRIO??? Texto: Daniel Pina| Fotografia: Daniel Pina
ALGARVE INFORMATIVO #213
102
103
ALGARVE INFORMATIVO #213
eria à partida mais uma normal noite de trabalho. Inauguração da XXXII Feira Concurso Arte Doce, em Lagos, já depois de ter feito outra reportagem a bordo da Caravela Boa Esperança, atracada na Marina de Lagos. Uma noite friorenta, bastante ventosa, imprópria para se estar ao ar livre trajado à Verão, de manga curta. Por isso, o plano era simples, tirar uns retratos ao artista que atuava no dia de inauguração da feira, arrumar a trouxa e rumar a casa. O problema é que o artista em questão era David Fonseca e, mesmo que eu não fosse um grande fã desde os remotos tempos dos Silence 4, é muito difícil ficar-se indiferente aos concertos que este «mostro de palco» dá. Resumindo, o plano foi por água abaixo e lá consegui tirar algumas dezenas de fotografias ao mesmo tempo que ia cantando e dançando na primeira fila. Mesmo já tendo assistido em Loulé, em 2018, a um dos primeiros concertos da Radio Gemini Tour, o espetáculo foi uma experiência inesquecível, tanto do ponto de vista musical como visual, e podemos sempre esperar por algumas surpresas. Aliás, poucos minutos antes de começar o concerto da noite de 26 de julho, no exterior do recinto da Arte Doce, ainda andavam os técnicos de luz e de som de nervos à flor da pele por não saberem o alinhamento. Porque assim é David Fonseca, gosta de ir ao sabor do momento, das emoções do dia, do seu ALGARVE INFORMATIVO #213
estado de espírito. E, como tal, nunca há dois concertos iguais, embora todos comecem da mesma fora, com a mesma trilha sonora. Do cardápio fizeram parte, como é normal, muitos temas do mais recente disco de David Fonseca, «Radio Gemini», mas depois tivemos um 104
infindável rol de êxitos produzidos ao longo de mais de 15 anos de carreira a solo, desde que foi dissolvida a banda Silence 4. Tudo perfeitamente encadeado, com um jogo de luzes fantástico, com cada elemento da banda a saber perfeitamente qual o seu papel em palco, orquestrados de forma magistral por esse génio que é David Fonseca. Não, não estou a exagerar, 105
nem a deixar-me levar pelas minhas preferências pessoais. Estamos mesmo perante um dos melhores artistas da sua geração e, por isso, na plateia toda a gente vibrou, do princípio ao fim do concerto. Sim, porque, infelizmente, tem mesmo que haver um fim, apesar do ALGARVE INFORMATIVO #213
público pedir insistentemente o contrário. Antes disso, quase duas horas de espetáculo, com as músicas do David, alguns temas antigos dos Silence 4, um tributo a António Variações, outro «monstro do palco» que nos deixou demasiado cedo, até um género de original, o tal «Lagos» que rapidamente caiu no goto da assistência. Mas David Fonseca, com um largo sorriso nos lábios, reconheceu que o tema dificilmente teria sucesso noutra cidade que não Lagos. E foi também sorridente que falou com algumas pessoas que, lá ao longe, assistiam ao concerto do conforto das janelas e varandas das suas casas. A experiência, como tudo o que é bom na vida, não podia durar para sempre, apesar de David Fonseca ainda ter deixado no ar a
ALGARVE INFORMATIVO #213
ideia, utópica, do concerto prolongar-se até às seis horas da manhã. Se calhar os tais vizinhos do recinto provavelmente não achariam muita piada à ideia. Ou se calhar até nem se importavam muito, por ser noite de sexta-feira. Mas a agenda do artista não perdoa, são muitos os quilómetros a percorrer e, depois de duas bolas insufláveis gigantes terem andado aos saltos na assistência, e de milhares de confetes terem dado um colorido especial à noite, e de um eletrizante encore com direito a três músicas extras, chegou mesmo ao fim o concerto de uma noite de 26 de julho que certamente ficará na memória de todos os presentes. Na minha ficará de certeza. Até breve David… .
106
107
ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
108
109
ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
110
111
ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
112
113
ALGARVE INFORMATIVO #213
GRAND JETÉ INTERNATIONAL DANCE AWARDS DISPUTOU-SE EM LAGOA Texto: Daniel Pina | Fotografia: Daniel Pina
ALGARVE INFORMATIVO #213
114
115
ALGARVE INFORMATIVO #213
Auditório Carlos do Carmo, em Lagoa, foi o palco escolhido para receber, nos dias 23 e 24 de julho, a Grand Jeté International Dance Awards 2019, competição de dança que contou com a participação de bailarinos de todo o país, com idades entre os 6 e os 25 anos. O evento pretende promover a arte da dança, permitindo que jovens bailarinos mostrem o seu talento e conquistem bolsas de estudo para prestigiadas instituições de dança atribuídas pelos elementos do júri, mas também conectar alunos, professores, escolas de dança, empresas, dançarinos e plateias. Finda a vertente competitiva, assistiu-se a um fantástico espetáculo com a atuação dos vencedores das várias categorias, da dança clássica à contemporânea, em solos, duetos, pequenos e grandes grupos. Os resultados finais estão disponíveis em http://grand-jete-international.com/images/pdf/Final_Results.pdf . ALGARVE INFORMATIVO #213
116
117
ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
118
119
ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
120
121
ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
122
123
ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
124
125
ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
126
127
ALGARVE INFORMATIVO #213
AL SUR ENCANTOU LAGOA Texto: Daniel Pina | Fotografia: Roberto Estorninho
ALGARVE INFORMATIVO #213
128
129
ALGARVE INFORMATIVO #213
Ideias do Levante Associação Cultural de Lagoa apresentou, em parceria com o Município de Lagoa, o espetáculo AL SUR - «Retratos de Câmara», no dia 27 de julho, no Auditório Carlos do Carmo, em Lagoa, contando com as magníficas atuações de Carla Pontes (soprano), Grace Borgan (flauta-transversal), Cristiana Silva (piano), Sunita Mamtani (violoncelo), Gonçalo Pescada (acordeão) e Chiqui Garcia (guitarra e percussão). O espetáculo encheu o coração tanto do público como dos próprios músicos, com Carla Pontes a reunir, no mesmo palco, os projetos Dell’Acqua, Voz & Acordeão e Class’ic!. ALGARVE INFORMATIVO #213
Foi uma ocasião perfeita para conferir uma nova roupagem a alguns temas do repertório da soprano e trazer novas e breves peças de câmara, interpretando temas de compositores que abordam a música de origem popular, do clássico ao fado e ao tango, tais como Manuel de Falla, Jacob do Bandolim, Astor Piazzolla, Dulce Pontes, Carlos Paredes e Zeca Afonso, entre outros. A mais recente produção musical da assinatura da Ideias do Levante surpreendeu e, por entre os momentos de grande virtuosismo, o numeroso público aplaudiu incansavelmente cada interpretação .
130
131
ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
132
133
ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
134
135
ALGARVE INFORMATIVO #213
NOVA TEMPORADA DO CINE-TEATRO LOULETANO COM NOMES INTERNACIONAIS DE REFERÊNCIA Texto: Daniel Pina
ALGARVE INFORMATIVO #213
136
137
ALGARVE INFORMATIVO #213
Cine-Teatro Louletano já anunciou a sua nova temporada artística para o período entre setembro e dezembro deste ano, destacando-se uma aposta muito significativa na diversidade musical, com a presença de vários nomes internacionais de referência, bem como uma articulação estreita com vários eventos de reconhecido prestígio. A arte ALGARVE INFORMATIVO #213
para a infância e o trabalho colaborativo com a comunidade escolar do concelho continuam a ser áreas prioritárias. O Teatro abre a temporada, a 14 de setembro, com o aclamado monólogo «Todas as coisas maravilhosas», com o ator Ivo Canelas, uma peça com muito humor, mas que aborda temas sérios, escrita pelo britânico Duncan Macmillan, que já foi apresentada em diversos países. A estreia no Sul da peça «Medeia», da inquietante Companhia 138
No que respeita à Música, toda a programação assenta numa declarada aposta na multiplicidade de abordagens com propostas que abrangem os mais variados universos: pop, blues, jazz, heavy metal, world music/tradicional, instrumental, ópera, clássico. Destacase o espetáculo «Ópera Rocks», uma história de amor clássica entre uma soprano e uma estrela rock, com a cantora Carla Pontes, o cantor e guitarrista Ray van Duijvenbode, a pianista Cristiana Silva e a narração a cargo de Mário Rui Filipe (produção da associação cultural Ideias do Levante), ou a estreia no Sul do novo disco conceptual da mítica banda Mão Morta, «No fim era o frio».
João Garcia Miguel (com a participação especial do pianista Mário Laginha a tocar ao vivo), a peça-performance «Olá, eu sou o Pai Natal», por Tiago Barbosa (que inaugura uma nova rubrica denominada «Terças improváveis»), bem como a estreia nacional da peça «encanecer», resultante da coprodução estabelecida entre as companhias louletanas Folha de Medronho e Mákina de Cena (no âmbito da Bolsa de Apoio ao Teatro 2019 lançada pela autarquia louletana), são os demais destaques na área do Teatro. 139
A importância de conferir a toda a programação uma dimensão internacional é visível também nas absolutas estreias na região sul dos consagrados Tim Bernardes, uma das maiores revelações da nova música brasileira (Paulinho Lêmos assina a primeira parte deste concerto reinventando temas de compositores portugueses), e Jack Broadbent, figura de referência do mundo dos blues e mestre na técnica da slide guitar, com o músico algarvio Vítor Bacalhau a fazer a sua primeira parte (aqui em colaboração com a Associação de Blues do Algarve). A Dança marca já presença habitual nas grelhas programáticas do CineTeatro Louletano e, a 13 de outubro, o seu palco apresenta o espetáculo «Sentimentos argentinos», com intérpretes de renome internacional a fundir o folclore tradicional com ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
140
conteúdos ao nível da dança contemporânea, do flamenco e do tango. A par desta, uma proposta mais arrojada, com a estrutura portuense Circolando (que nunca se apresentou em Loulé) a estrear no Sul o espetáculo «Noite», uma criação intimista e inquietante em torno da poesia de Al Berto. De destacar também o acolhimento de vários eventos de referência regional, nacional e internacional, entre os quais o FOMe – Festival de Objectos e Marionetas & Outros Comeres (entre 14 e 28 de setembro), a apresentação do Festival Verão Azul (na segunda quinzena de outubro), ou os dois eventos-âncora de grande peso internacional que o Município de Loulé irá acolher: o 69.º Troféu Mundial de Acordeão (3 a 9 de novembro) e a Bienal Ibérica do Património Cultural (11 a 13 de outubro), esta última com duas 141
encomendas de concertos, uma que junta o acordeonista Nelson Conceição a um ensemble da Banda Filarmónica Artistas de Minerva e a Cristina Paulo; e a outra ao reputado músico Rão Kyao, com músicos espanhóis e marroquinos. No que toca à arte para a infância, destaca-se «Catamarã», uma criação teatral de Ana Lázaro e Ricardo NevesNeves, para crianças a partir dos oito anos de idade, e «A Menina do Mar», um espetáculo de teatro musical com direção musical de Martim Sousa Tavares (neto da poetisa), no âmbito das comemorações do centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner, a ocorrer a 17 e 18 de novembro, um concerto muito especial que envolve o Grupo Coral Infantil de Loulé, composto por mais de 100 crianças, e um coletivo de luxo que integra Sérgio Godinho, Ana ALGARVE INFORMATIVO #213
Bacalhau, Vitorino e Jorge Benvinda, para revisitar canções tradicionais do imaginário infantil no espetáculo «Canções de Roda, Lenga Lengas e Outras que Tais», a 22 de setembro, num dos momentos mais aguardados do segundo semestre deste ano. Uma alusão ainda à introdução de um novo formato de oficinas de música para bebés e pais, com quatro sessões em outubro e novembro, dinamizadas pela Companhia Musicalmente. ALGARVE INFORMATIVO #213
Em articulação com o Cine-Teatro, o Auditório do Solar da Música Nova, em Loulé, tem vindo a definir a sua identidade programática assente na valorização e na divulgação de projetos emergentes através do ciclo «Ilustres Desconhecidos», para o qual se contará, nesta temporada, com a apresentação do coletivo experimental de músicos sediados em Lagos, «Plasticine». A 142
vertente de reflexão e pensamento manter-se-á com os formatos «Conversas à Quinta» (com convidados de luxo como o coreógrafo Rui Horta e os músicos Filipe Raposo e Rita Maria) e «Dos Sabores da Cultura» (numa sessão dedicada a Filipa Faísca, figura incontornável da cultura tradicional louletana). A residência artística em Loulé da cantora Cristina Branco dos seus e a apresentação do reconhecido ensemble austríaco Trisonante na Fundação Manuel Viegas Guerreiro são dois exemplos da descentralização de eventos fora do eixo Lisboa-Porto. De realçar ainda o espetáculo de stand up «Depois do medo», com Bruno Nogueira, a 14 de novembro, e a encomenda realizada à Orquestra de Jazz do Algarve para a 143
apresentação de um concerto inédito, a 1 de dezembro, em torno da obra da poetisa Sophia de Mello Breyner, a qual encerrará as comemorações oficiais do seu centenário. Saliente-se também a RHI (Revolution_Hope_Imagination), uma iniciativa do Art Institute, sediado em Nova Iorque, que se pretende aceleradora de um novo diálogo entre a arte, a cultura e o negócio através de talks, workshops e espetáculos multidisciplinares, que encerrará a 21 de setembro, precisamente em Loulé, trazendo a sul programadores internacionais e outros profissionais, e criando espaço em Loulé para a apresentação e valorização/promoção de projetos artísticos sediados no Algarve .
ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
144
145
ALGARVE INFORMATIVO #213
OPINIÃO
Tantos medos e outras coragens Mirian Tavares (Professora) “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. Guimarães Rosa
stava ali, a cumprir mais um ritual noturno: adormecer o filho. Ler um dos livros que ele escolhia para acompanhar sua entrada no mundo do sono. Uma entrada lenta e, de repente, profunda, acompanhada pelo miar da gata que naquela hora reclamava o seu bocado de atenção, como que a dizer: o menino já dormiu, agora vem tratar de mim! O livro que escolhera chamava-se Tantos medos e outras coragens. Falava dos medos que nos acompanham: do escuro com seus lobisomens e mulas sem cabeça, da multidão, das coisas novas. Pois o medo, dizia o livro, é como um relógio oculto que vive dentro da gente - isto se faz, isto não se faz. O filho adormeceu tranquilo e fui ver qualquer coisa na televisão, zapeando sem destino certo e ouvi um bocado da fala de uma personagem que mencionava estar a viver o seu turning point. Mudo, quase de seguida, de canal e, para meu grande espanto, ouço de novo o mesmo fragmento, noutro programa, noutro canal... turning point. E me vejo pensando no medo que senti, anos atrás, quando fui perseguida por borboletas amarelas. Para onde eu olhava lá estava uma a espreitar, a entrar-me pela janela a dentro, a pousar ALGARVE INFORMATIVO #213
na estante sobre os livros, até na tábua de passar roupa! E li aquilo como um sinal: as borboletas amarelas prenunciam mudança. E ela aconteceu, apesar dos meus temores: imensa. Um mergulho de cabeça num oceano profundo, que me arrastou para uma terra distante. Tudo ficou para trás: uma vida inteira, um país, a família, os amigos, o trabalho e, pela frente, tinha apenas a vontade de aceitar, com os olhos bem abertos, o novo, o diferente, o outro. Muitos anos se passaram e não tenho memória de mais borboletas ou de outra coisas qualquer a me dizer: vai por aqui. Talvez já não saiba ler os sinais. Vivi meu turning point e já não preciso mais mudar, ou mudar-me. Aquele relógio, lá no fundo de mim, que batia sempre isto se faz, isto não se faz... isto se faz... isto não se faz, calou-se ao perceber que nunca lhe dei ouvidos. Quando era pequena tinha medo de muitas coisas (hoje, de outras tantas ainda). Uma delas era o de cair num poço. Daqueles muito fundos em que os baldes, quando eram atirados lá dentro, à procura de água, demoravam muito tempo até voltar à superfície. Um dia, com meu irmão e uns amigos, numa tarde à toa, decidimos tomar banho de poço. Nem sei de quem foi a ideia, o certo é que dei por mim dentro de um poço. Cercada por paredes lodosas, cheias de reentrâncias, onde pequenos olhos (de sapo, imagino) olhavam para mim. Degraus de ferro muito desgastados eram a nossa ligação 146
com o mundo lá fora. Víamos o céu como um círculo bem acima das nossas cabeças e não se ouvia nada, só um estranho silêncio, que pairava além das nossas vozes excitadas com a grande aventura. Ainda hoje tenho medo de cair num poço, apesar de já não cruzar com nenhuns nos últimos tempos. Mas o que aprendi sobre mim neste dia é que o que mais me assustava não era o poço, nem a sua estranha escuridão, mas era a falta de 147
coragem de me atirar nele para vencê-lo, para tirá-lo dos meus pesadelos. O grande medo que tenho é o de não conseguir superar meus próprios medos. Porque, como no livro, que lia para adormecer o filho, o medo faz parte de nós, não pode é tomar conta de tudo. (Já agora, o filho cresceu e tornou-se um bravo – enfrenta, a cada dia, todos os seus medos, e não deixa que eles lhe roubem a coragem) .
ALGARVE INFORMATIVO #213
OPINIÃO
Do Reboliço #49 Ana Isabel Soares (Professora) ouve uma vez, lembra-se bem o Reboliço, em que a gata Carolina teve de passar por uma provação. Era quando ela vivia lá em casa, antes de se mudar para o céu dos bichos e levar as tardes da eternidade atrás dos novelos a irritar Nossa Senhora. Lembraram-se os moços pequenos, quando o pai foi à praça, de arranjar um pintainho para o apresentarem à gata. O pai ainda os tentou demover, “Não façam isso à criatura...”; a mãe tentou igual, “Mas vocês não têm pena do bicho? Ela joga-lhe a unha!”. Que tinha de aprender, acreditavam eles, na branda crueldade de quem é criança. Foi o moço com o pássaro entre as duas mãos, bolinha de penas com o coração acelerado como só o coração das aves é acelerado, à procura da Carolina. “Biche, biche, bichana...”. Era de Verão, encontroua estirada no chão fresco junto ao tanque de lavar a roupa, que era o lugar menos quente da casa, como gostava de se por, toda estendida a parecer que tinha mais meio metro do que o comprido que já era, levantou uma só das orelhas (tinha-as muito bem pintadas, castanhas quase pretas), abriu só o olho do lado correspondente (a Carolina era para o vesgo, cada olho de sua cor, e o mundo que ela assim veria...), mas o serviço de meios sentidos não durou mais que um segundo: no instante em que cheirou, sentiu, fosse como fosse se apercebeu da presença do pintainho, só não o enfiou goela abaixo porque o animal estava protegido entre duas bárbaras palmas de mãos. Deu em rodar à volta do rapaz, a miar ganidos, parecia um tigre em África (apesar de ninguém naquela casa, senão algum mínimo inseto que tivesse ALGARVE INFORMATIVO #213
voado com a calima, por mais que a geografia os aproximasse, alguma vez ter posto um dedinho sequer em terras africanas). O pinto, está bem de ver, nem sabia da missa o terço: devia estar como em transe, morri e não me avisaram, que céu curioso este, com ladrilhos pintalgados por chão lá ao fundo, mais aéreo do que esperava, que estou tão alto nesta alcofinha de pele, e um gigante lá em baixo a andar à roda a fazer ruídos estranhos que ensurdecem os meus invisíveis ouvidos – deixa-me cá piar. Agachou-se o moço, segurou melhor o avezinho, e a Carolina, pois então, pata atirada, quis comê-lo. “Deixa-os, vá lá, coitados dos bichos”. “Não, ela já aprende”. Com uma mão libertada, o moço deu ao de leve um carolo na orelha da Carolina. A bicha amochou. Duas, três, ou mais quatro tentativas, incitar, vigiar e punir, veio a ser que a tarde se passou numa paz esquisita: enquanto a mãe lavava a louça, a Carolina dormitava deitada em cima da máquina de lavar, embalada pelo som da água a correr e com a parte de fora do lombo encostada ao rádio. Seria um sábado, os sons deveriam ser os do programa «Viva o Velho», mais roque e blues do que cantigas de embalar, mas ela ferrada. Na parte de dentro, esferinha da cabeça no lombo e o resto do corpo amarelo encaixado no ventre – no exterior peludo do ventre – da Carolina, o pinto, bola total, repousado, olhos fechados e finas patas encolhidas, dormia em absoluto sossego . *Reboliço é o nome de um cão que o meu avô Xico teve, no Moinho Grande. É a partir do seu olhar que aqui escrevo. 148
Foto: Vasco Célio 149
ALGARVE INFORMATIVO #213
OPINIÃO
Máquinas de pestanejar Adília César (Poeta) É o império da emoção contra a chateação, da excitação contra o tédio, da rapidez contra o tempo natural das coisas, da festividade contra a tranquilidade, da ebriedade contra a sobriedade. Marcia Tiburi
gosto é o mês dourado do tempo de férias: festas, petiscos, festivais, feiras, cocktails, sunsets, viagens. Muito tempo perdido: disparates, superficialidades, indiferenças, devaneios, amores e amizades sem futuro. Planeiam-se as férias, imaginando um mundo que não existe, ao qual se chama paraíso, geralmente tornado real através de uma fotografia – verdadeira ou falsa – partilhada nas redes sociais. Outros mundos mostram-se tal como são desenhados, nos meios de comunicação social: loucos e cruéis, muito distanciados dos tais paraísos de férias dos folhetos publicitários de propaganda demagógica e turística. Ainda assim, ansiamos pelas férias de verão. É no verão que nos aproximamos a largos passos do precipício que é o nosso vazio interior, enquanto seres humanos. Porque cumprimos as ordens do sol, da publicidade, do calendário, do consumismo, das ideias prontas, temos propensão para esquecermos a nossa essência de pessoas. Ser pessoa é um verbo formado por três conceitos – pensamento, emoção, acção – veiculados, por um lado, pelas pseudo-necessidades redimensionadas pela ditadura do consumo e, por outro, pelas necessidades reais substanciadas pela decisão pessoal ou colectiva que deveria ter em conta – mas não tem – a reflexão, o questionamento, a crítica e o discernimento. A linguagem e a comunicação assumem outras formas numa contemporaneidade caracterizada pelos vazios do pensamento, da ALGARVE INFORMATIVO #213
emoção, da acção, em grande parte devido ao papel social imposto pelas redes virtuais. As redes são sociais porque estão a mudar a sociedade, mas também são, em grande parte, demolidoras da própria comunicação entre as pessoas, parecendo um enorme manicómio onde cada «louco» diz o que lhe apetece: os outros parecem estar lá, mas não o ouvem, logo, não lhe respondem, ignoramno, ostracizam-no, bloqueiam-no. Estas acções de causa expectante e efeito negativo promovem insatisfação, desalento, raiva e fazem surgir outros fenómenos psicológicos de esvaziamento do conteúdo emocional que parece não terem ainda nome clínico. Por outro lado, muita gente partilha infinitamente um enorme fluxo de ideias feitas, que assume como apelativas, sendo consumidas de imediato e não questionadas pelos destinatários; nessa viagem virtual levamo-las connosco na bagagem, esse excesso de peso que nos torna menos humanos. As pessoas procuram emoções em todos os cenários ditos radicais ao seu alcance: espectáculo, sexo, comida, droga, álcool, desporto, etecetera, mas não descodificam as emoções quando as encontram, assumem-nas levianamente como «mais uma experiência» e rapidamente partem para outra caça ao tesouro, como uma deambulação anestesiada pela procura do êxtase. Pelo caminho, os acidentes, as catástrofes e os desastres noticiados nos meios de comunicação social e redes sociais já não os comovem, parecendo existir um estado de frieza generalizada face ao sofrimento dos outros, nada fazendo para o minimizar. É difícil manter a lucidez no meio 150
do caos, mesmo após um agradável mergulho nas águas cristalinas do oceano. As solicitações são tantas, que não sobra tempo para olhar o mundo com a percepção nítida de que realmente vimos alguma coisa comovente e nos faz intervir como cidadãos cívicos. A violência e a banalidade do mal referidas por Hannah Arendt não têm como base a malignidade, a perversão ou o pecado humano. Ela argumentou que os seres humanos podem realizar acções extremas de destruição e de morte sem qualquer motivação maligna, sem razão aparente ou justificável, tendo em conta os processos de naturalização da sociedade e de artificialização da natureza, ambos decorridos da massificação, da industrialização e da «tecnificação» das atitudes no seio das organizações humanas, ou seja, o mal é abordado numa perspectiva éticopolítica e não na visão moral ou religiosa. Se o pensamento, a emoção e a acção constituem o triângulo de forças que dá corpo à essência do ser humano, também é verdade que estamos a ser invadidos pelos vazios correspondentes, para os quais em muito contribui o tempo perdido com as novas formas virtuais de relacionamento e de comunicação: porque o que procuramos já lá não está, quando nos transformarmos em máquinas de pestanejar, quando formos menos humanos, por vontade e responsabilidade própria. É urgente tomarmos consciência de que o desenho da realidade já não é figurativo nem abstracto: é real, confuso, literal, a mudar os conceitos éticos que tudo justificam, esquecendo que todos viajaremos a caminho da eternidade no mesmo barco, pois todas as coisas se compram menos a passagem para o tempo da morte. Paradoxos da civilização a impor novos conceitos éticos. Não há 151
soluções à vista. Na verdade, não necessitamos de profetas da luz ou da escuridão, mas sim de amor incondicional ao próximo e do regresso às coisas simples, antes de chegarmos ao ponto sem retorno: a água pura e o pão que a terra nos dá, a abelha e o lobo, o silêncio da solidão os gritos do sofrimento alheio; abolir preconceitos; e esperar um big bang que nos traga um novo mundo mais humano, depois do grande desastre. Há uma indiferença latente que ainda nos é permitida, uma espécie de falsa inocência, tendo em conta a facilidade com que nos apropriamos dos vazios que nos chegam através do prolongamento da nossa mão: o smartphone e a sua divina omnipresença. Até quando? . ALGARVE INFORMATIVO #213
OPINIÃO
Redes sociais no turismo, foge para o Algarve Fábio Jesuíno (Empresário) tualmente, as redes sociais são o principal meio de comunicação do sector do turismo, a sua importância e impacto nesta atividade são enormes. As redes sociais são particularmente usadas por destinos turísticos, existindo «case studies» de sucesso espalhados por todo o mundo que tiveram impacto direto no crescimento significativo dos visitantes, como aconteceu em 2018 com a campanha «7 ilhas que se tornaram 47», criada pela Promotur - Turismo das Canárias e agência DEC BBDO que venceu o Gold Award, referente ao primeiro lugar, na categoria «Best Digital Campaign in Tourism» (Melhor Campanha Digital de Turismo) no International Travel & Tourism Awards. Em Portugal existem também excelentes exemplos da área do turismo de grande sucesso, como a campanha promocional «Turismo Centro de Portugal – Destino Preferido», do Turismo Centro de Portugal, que teve um impacto único no reforço da notoriedade da marca em todo o mundo. A ANA Aeroportos também aposta em várias campanhas nas redes sociais para promover os seus aeroportos em Portugal, destacando as atividades, destinos e companhias, de uma forma simples e sem grandes sobressaltos, até à passada segunda-feira, onde decorria, desde 23 de julho, na página do Facebook do Aeroporto de Faro uma campanha ALGARVE INFORMATIVO #213
promovendo o destino francês de Marselha com o lema «Foge da confusão algarvia e descansa em França!», destacando de uma forma negativa a região algarvia. A campanha de Marselha teve um grande impacto mediático na segundafeira, depois de um grande número de críticas negativas de cidadãos e políticos algarvios, culminando pela sua retirada depois da Região de Turismo do Algarve ter alertado a direção do Aeroporto de Faro e o governo ter ordenado a sua eliminação. A agência publicitária responsável pela campanha, Brandworkers, com sede em Lisboa, assumiu toda a responsabilidade, reconhecendo a falha, revelando que o anúncio tinha sido recusado previamente pela equipa da ANA Aeroportos de Faro. Na minha opinião, este último aspeto é um sinal de amadorismo. Todos nós erramos, ninguém é perfeito, mas colocar no ar uma campanha que foi recusada por um cliente é um erro grave que, neste caso, teve um grande impacto negativo. Aproveitando a polémica gerada, decidi no mesmo dia com a minha equipa criar a campanha «Foge para o Algarve» através da 3WX Digital Creative Agency para promover de uma forma positiva a região do Algarve como principal destino de turismo de praia da Europa, que teve um grande sucesso .
152
153
ALGARVE INFORMATIVO #213
OPINIÃO
Alice já não escreve Fernando Esteves Pinto (Escritor) A solidão da escrita é muito assustadora. Está muito perto da loucura, desaparecemos por um dia e perdemos o contacto. Nadine Gordimer
ode um poema destruir a vida de quem o escreveu? Pode um leitor sentir a sua vida entrar num processo de destruição depois da leitura que faz de um poema? As respostas a estas questões foram-me dadas por um amigo meu com a sua própria vida, quando escolheu o suicídio como forma de sublimar o seu amor pela poesia. Tudo começou numa revista literária, na qual os dois protagonistas da história que se segue, Alice e Mário, publicavam regularmente os seus poemas e gozavam de admiração mútua. Alice é uma jovem poetisa para quem as palavras sempre constituíram a sua paixão mais íntima e profunda; tão mais vital que o cenário onde se movimentava e no qual todos os acontecimentos dos seus dias eram desmontados obsessivamente por ela, observados e controlados por uma racionalidade que afastava o que era real na sua consciência de modo a conseguir dominar em absoluto os ambientes e os objectos emocionais que figuravam nos seus poemas. Creio que o meu amigo ultrapassou os limites que uma simples leitura de um poema exige, e da admiração ao conhecimento passaram a encontrar-se regularmente num jardim discreto de Lisboa. Amor ou poesia, a verdade é que o fascínio pelo espírito de Alice fez nascer em Mário uma necessidade veemente de viver nas palavras dela, mais ainda do que se deixar envolver pelo seu corpo – esse lugar de todos os poemas que ela havia escrito antes de se conhecerem. ALGARVE INFORMATIVO #213
Alice representava a interioridade onde o amor de Mário ia buscar alimento para poder continuar a amá-la para além do domínio que significava a sua escrita. Mas poder-se-á amar um poema e rejeitar o seu autor? Seria o amor de Mário por Alice uma conflituosa interpretação ou análise emocional que o fazia duvidar da sua própria capacidade de escrever poesia? Casaram e nunca foram felizes. Eram dois poetas a escrever na mesma casa. Se outrora Alice sentia a cortina transparente que a envolvia no acto de escrever, e através da qual ela via desfilar as formas estranhas do seu mundo pessoal, agora deixava-se intimidar pela presença física do seu amor: o Mário errante pela casa na impossibilidade de escrever fosse o que fosse, à espera que Alice surgisse do poema como de uma fonte gloriosa a legendar a sua imortalidade nas palavras que ele de imediato exigia ler. Os conflitos constantes remeteram-nos para lugares opostos na vida um do outro. Para Alice era inimaginável continuar a escrever sob a atenção controladora de Mário: sentia o tempo como um instrumento de observação sempre que se dedicava à construção de um poema. O meu amigo Mário mergulhou irreversivelmente na depressão e definhou como poeta. Suicidou-se num mês de Abril, pela manhã. Deixou um bilhete a dizer que o seu amor por Alice fora fruto de uma inspiração. Alice nunca mais escreveu .
154
155
ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
156
157
ALGARVE INFORMATIVO #213
DIRETOR: Daniel Alexandre Tavares Curto dos Reis e Pina (danielpina@sapo.pt) CPJ 3924 Telefone: 919 266 930 EDITOR: Daniel Alexandre Tavares Curto dos Reis e Pina Rua Estrada de Faro, Vivenda Tomizé, N.º 12P, 8135-157 Almancil SEDE DA REDAÇÃO: Rua Estrada de Faro, Vivenda Tomizé, N.º 12P, 8135-157 Almancil Email: algarveinformativo@sapo.pt Web: www.algarveinformativo.blogspot.pt PROPRIETÁRIO: Daniel Alexandre Tavares Curto dos Reis e Pina Contribuinte N.º 211192279 Registado na Entidade Reguladora para a Comunicação Social com o nº 126782 PERIODICIDADE: Semanal CONCEÇÃO GRÁFICA E PAGINAÇÃO: Daniel Pina FOTO DE CAPA: Daniel Pina A ALGARVE INFORMATIVO é uma revista regional generalista, pluralista, independente e vocacionada para a divulgação das boas práticas e histórias positivas que têm lugar na região do Algarve. A ALGARVE INFORMATIVO é uma revista independente de quaisquer poderes políticos, económicos, sociais, religiosos ou culturais, defendendo esse espírito de independência também em relação aos seus próprios anunciantes e colaboradores. A ALGARVE INFORMATIVO promove o acesso livre dos seus leitores à informação e defende ativamente a liberdade de expressão. A ALGARVE INFORMATIVO defende igualmente as causas da cidadania, das liberdades fundamentais e da democracia, de um ambiente saudável e sustentável, da língua portuguesa, do incitamento à participação da sociedade civil na resolução dos problemas da comunidade, concedendo voz a todas as correntes, nunca perdendo nem renunciando à capacidade de crítica. A ALGARVE INFORMATIVO rege-se pelos princípios da deontologia dos jornalistas e da ética profissional, pelo que afirma que quaisquer leis limitadoras da liberdade de expressão terão sempre a firme oposição desta revista e dos seus profissionais. A ALGARVE INFORMATIVO é uma revista feita por jornalistas profissionais e não um simples recetáculo de notas de imprensa e informações oficiais, optando preferencialmente por entrevistas e reportagens da sua própria responsabilidade, mesmo que, para tal, incorra em custos acrescidos de produção dos seus conteúdos. A ALGARVE INFORMATIVO rege-se pelo princípio da objetividade e da independência no que diz respeito aos seus conteúdos noticiosos em todos os suportes. As suas notícias narram, relacionam e analisam os factos, para cujo apuramento serão ouvidas as diversas partes envolvidas. A ALGARVE INFORMATIVO é uma revista tolerante e aberta a todas as opiniões, embora se reserve o direito de não publicar opiniões que considere ofensivas. A opinião publicada será sempre assinada por quem a produz, sejam jornalistas da Algarve Informativo ou colunistas externos. ALGARVE INFORMATIVO #213
158
159
ALGARVE INFORMATIVO #213
ALGARVE INFORMATIVO #213
160