EM FRENTE ÀS ILHAS: O FAROL
Integrada às artes visuais, Danielle Fonseca penetra com igual intensidade o campo da música, da literatura. A palavra adquire, em sua obra, valor visual e simbólico, muitas vezes sem distanciar-se da semântica primeira, do significado adquirido enquanto narrativa literária. A formação em Letras evidencia-se na concepção de seus trabalhos e a artista tece uma visualidade impregnada por uma literatura em que o tempo se faz e refaz a cada sentença, ou cena, construída com sensações, sentimentos, memórias e desejos. Clarice Lispector, Virgínia Woolf, são autoras que poderiam compartilhar da embarcação imaginária capitaneada por Danielle, que, em período indefinido, atracou nas ilhas Hébridas, da Escócia, ou na ilha de Godvrey, na Inglaterra. Mas pensando bem, acredito que o encontro entre Clarice e Virginia, aconteceu na ilha do Mosqueiro, mais precisamente no Hotel do Farol, a pouco quilômetros da cidade paraense de Belém. A escritora brasileira pertence às leituras corriqueiras da artista, todavia é do Rumo ao Farol, da escritora inglesa que desde 2003 apropria-se de imagens, as coleciona em seu próprio imaginário. Em 2004 quando participou do Projeto Fluxo de Arte Belém Contemporâneo, criado por Camila Sposati e Tonico Lemos Auad, para promover um intercâmbio artístico entre Brasil e Inglaterra, Danielle criou o primeiro trabalho da série: O Farol. No ano seguinte, ao participar do Salão Arte Pará, realiza a instalação O segredo do faroleiro. A Bolsa de Pesquisa em Arte, com a qual foi contemplada pela Fundação Ipiranga em 2007 resultou no vídeo Rumo ao Farol: o destino da palavra é tornar-se água. Este processo de pesquisa vem desdobrando-se em novos trabalhos, inclusive na instalação Era essa a passagem, composta de grama e imagens fotográficas, apresentada no Arte Pará 2007. Para a realização do vídeo, a artista segue a estrutura narrativa do livro Rumo ao Farol, utilizando na mesma ordem, os mesmos subtítulos de Virginia Woolf: A Janela, O Tempo Passa e O Farol. Danielle promove três momentos imagéticos que se articulam pelo som de John Cage e pela voz de Luiza Lobo, tradutora oficial de Virginia, no Brasil. Os três instantes constituem-se, na verdade, em uma livre interpretação da obra da autora inglesa, em que a artista
seleciona pequenos trechos, os recorta e os conduz à sonoridade que “torna-se água”. Cada ilha um farol, cada continente uma cultura, no entanto, o caminho navega as águas de memórias e desejos que revelam o instante intimo independe de lugar. Seres diferentes, por razões singulares bordam tessituras distintas que se tocam em um tempo sem cronologias. O que faz com que a ilha do Mosqueiro abrigue o Farol de Vírginia? Que Farol é este fincado na areia, na maré vazante? Do outro lado, a Caixa Postal aguarda as cartas que, no percurso das águas salgadas, deságuam no rio. E o mar inteiro acendeu-se em ouro, neste instante a palavra vaticina: há uma luz na paisagem não localizável, ou localizável em qualquer lugar. Verbo e imagem revezam-se encobrindo a tristeza, e por segundos acredita-se no mundo. Escritora e artista encontram-se com espectador, leitor e em um tempo suspenso comungam o momento estético, em desuso. O vídeo não conta uma história, narra a paisagem interior, por isso mesmo o visível é maleável, moldável a cores e planos. E a cor invade o espaço sem necessitar de contornos, apesar do vício dos olhos em delinear a forma e configurar imagens acomodadas ao hábito de ver. Mas o azul de vez em quando escapa às leis culturais e sobrepõe-se, mesmo em outras obras como as da série Entre a Luz e o Mar, que insisto em chamar de “marinheiros de Fassbinder”. Esta montagem fotográfica, Prêmio Aquisição do Salão de Pequenos Formatos, da Universidade da Amazônia, encontra ressonâncias nas águas de Virginia. A foto antiga, carregada de sépia, deixa-se contaminar de azul, molhar-se no mar da Inglaterra. O avô de Danielle foi comandante da marinha mercante e ela costuma surfar nas ondas que encontra. O azul talvez represente o desejo de “ser marinheira, surfista, velejadora...”. Afetos recobrem álbuns, tempos vividos e outros apenas imaginados, transmitidos por palavras que conjugam ficção e realidade. Em frente às ilhas encontra-se o Farol, não importa o território em que se inscrevam as paisagens: “É claro que amanhã fará um dia bonito”. Trata-se de uma inversão autoral, de um momento íntimo partilhado, de uma espera longa e solitária. Artista e escritora confundem-se, aguardam: “Tuas cartas chegaram ao farol, algumas sem as hastes de vermelho incandescente, mas as
palavras vieram todas, umas com resto de algas, fazendo com que as águas marrons da baía ficassem em tons de ondas azuis”. No texto de Virginia Woolf “o destino da palavra é tornar-se água”, no vídeo de Danielle Fonseca, o destino da imagem é transpor o Farol do Espadarte em Mosqueiro e encontrar-se no indecifrável tempo, sem cartas náuticas a indicar um lugar. Marisa Mokarzel