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da tela do computador às escadinhas
da encosta:
uma trajetória de aproximação com a cidade de Torres Vedras, Portugal
José Clewton do Nascimento set/2018 - fev/2019
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ste texto é uma produção de natureza científica. Refere-se a uma parte do produto final de uma pesquisa de pós-doutoramento realizada durante 5 meses, entre o final de setembro de 2018 e o final de fevereiro de 2019, tendo como tema intervenções de reabilitação urbana em áreas de interesse históricocultural, e como universo empírico de estudo a cidade Torres Vedras, Portugal. Não obstante ser científica, não pretende ser “dura”. Está imersa em uma atmosfera de sensibilidades, afinal, trata-se de relatar e discutir experiências em um lugar repleto de sentidos e de significados. Um espaço “de gente” e “com gente”. Convém salientar que mesmo o texto estando estruturado em uma ordem cronológica, permite uma leitura em um movimento de ir-e-vir, assim como é o pensamento de quem constrói esse relato, este marcado predominantemente pela sensibilidade do traço.
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DA TELA DO COMPUTADOR ÀS ESCADINHAS DA ENCOSTA: uma trajetória de aproximação com a cidade de Torres Vedras, Portugal.
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uma noite de domingo, do mês de abril de 2015, após concluída a preparação de materiais para as atividades docentes da semana que iria se iniciar, como de hábito, acessei a internet para averiguar as caixas de mensagens de meus e-mails e, antes de desligar o computador tive acesso a uma página que me chamou a atenção pelo título – arte @o centro – , e pela imagem de abertura – um croqui que à primeira vista remetia à representação de duas edificações, aparentemente fortalezas, localizadas em platôs, atravessadas por um vale. Ao me debruçar sobre o conteúdo da página, identifico que trata-se de um programa desenvolvido no âmbito das ações de cunho artístico cultural, na cidade de Torres Vedras, localizada no Oeste português – a cerca de 40 Km da capital, Lisboa – e cujo objetivo é “dinamizar o centro histórico da cidade, através de atividades artísticas que promovam um intercâmbio de experiências entre a população torriense, comerciantes, associações culturais, turistas e artistas convidados (locais, nacionais e internacionais)”, tendo como princípio a utilização da “rua como atelier” e espaço de partilha de experiências e conhecimento, contando com atividades relacionadas a artes plásticas, desenho de rua (sketching), fotografia, exposições, workshops, residências artísticas e conferências/ palestras.
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Dentre o conjunto de atividades relacionadas ao programa, a serem realizadas entre os dias 5 e 19 de junho, um evento específico me chamou a atenção: o 1º Encontro Internacional de Desenho de Rua, a ser realizado na cidade– entre os dias 10 e 14 do referido mês. Conforme a caracterização do evento, este consiste em um conjunto de oficinas de desenho de rua que, por um lado, explora técnicas e formas de observar distintas, e por outro, permite o (re) conhecimento a realidade física e social do território. Os espaços a serem registrados são estrategicamente selecionados, onde leva-se em consideração a variedade e riqueza do seu património cultural e natural. Cabe também ressaltar que o evento busca privilegiar o intercâmbio entre desenhadores de Portugal, Espanha e Brasil, países de origem dos formadores convidados. A temática e o formato do evento (vide programação) me atraíram, notadamente por dois aspectos: a ênfase na atividade do desenho de rua – uma prática cotidiana minha, haja vista que desde o ano de 2012 faço parte como integrante do grupo Urbansketchers1 , versão “Brasil”, como um dos coordenadores do grupo na cidade do Natal, Rio Grande do Norte; e a ênfase que a atividade apresenta, na rua como espaço de vivências e de partilha, aspecto que busco evidenciar nas minhas atividades como formador e em especial, como professor de um curso de Arquitetura e Urbanismo, levando em consideração a constatação de que cada vez mais estas atividades de apropriação da cidade como espaço da coletividade se tornam escassos (inclusive, dentro do próprio curso). Grupo criado pelo ilustrador-jornalista Gabriel (Gabi) Campanário no ano de2007, que promove a realização de Desenhos de observação direta, feitos em ambientes internos e externos, urbanos ou de paisagem, sem auxílio de fotografias, ou imagens congeladas, e que sejam um registro do momento exato e do contexto em que foram feitos. As diversas instâncias dos Urbansketchers se reúnem regularmente para o exercício da referida atividade. 1
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Uma análise rápida da programação, que já apontou possibilidades de um reconhecimento inicial da cidade a partir de alguns elementos de notabilidade na estrutura urbana, conduziu-me à decisão de participar do evento. Desta forma, em uma manhã ensolarada do mês de junho de 2015, tive o primeiro contato com a cidade de Torres, que ocorreu a partir da chegada de ônibus e o avistar da “linha de Torres”: o que o croqui tanto me chamou a atenção na página do arte @o centro já tinha evidenciado. Neste momento, fiquei com a sensação de que desenho e cidade mantém um diálogo muito aproximado em Torres Vedras. A ida ao encontro confirmou a ênfase dada ao (re) conhecimento dos edifícios e espaços representativos, como também apresentam as recentes intervenções de requalificação urbana, enfatizadas nos locais de realização das oficinas. Minha participação nos encontros que se seguiram (2016, como formador2; e 2017), me possibilitou ter um contato mais aprofundado com estes ditos projetos de requalificação / regeneração urbana executados – vinculados primeiramente ao programa “Torres ao Centro”, com ações no centro histórico da cidade, e num segundo momento ao projeto de requalificação do Parque do Choupal – bem como ações a serem executadas em um futuro próximo, como será o caso do programa de regeneração urbana da Encosta de São Vicente. No encontro de 2018, ministrei uma oficina intitulada “janelas na/da cidade”, cuja proposta inicial consistiu na realização de uma atividade de desenhos de locação, em trecho do sítio histórico da cidade de Torres Vedras, com a finalidade de, a partir do incentivo à prática da observação / apreensão dos elementos que, de forma articuladas e relacionais, compõem a morfologia – forma urbana – de nossas cidades, realizarem registros que exprimam a materialidade destas relações. No caso específico, os registros deveriam abranger ao menos duas escalas, identificadas no percurso a ser realizado. Estas escalas deverão abarcar desde relações de forma urbana mais amplas – relação entre edifícios e paisagem circundante (topografia, relevo, elementos naturais) – bem como relações vinculadas ao objeto arquitetônico em si – relações entre partes e todo, do edifício em si. Entretanto, o mau tempo impossibilitou que a atividade ocorresse em espaço aberto, o que nos levou a realizá-la no interior do edifício da Biblioteca Municipal, com mudança no enfoque: os registros da cidade deveriam então ser realizados tendo as janelas do edifício como molduras. 2
Um aspecto me chamou a atenção: esses programas e ações foram planejados a partir de uma proposta de continuidade física, de modo a possibilitar a articulação / conexão entre as ações empreendidas no centro histórico, procedidos pela requalificação do parque e posteriormente às ações direcionadas à Encosta de São Vicente. Retornarei a esta questão posteriormente. Desta forma, a minha atenção sobre Torres Vedras passa a ir além das atividades relacionadas ao programa arte @o centro, e passa a se concentrar também nos programas de regeneração / requalificação urbana pautadas nos princípios da conservação integrada, e nas ações decorrentes destes programas (concepção e execução dos projetos nas escalas urbana e arquitetônica), que se tornarão o objeto de estudo de minha pesquisa de pós-doutorado, da qual este texto é um dos produtos resultantes.
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A partir do final do ano de 2017 passo, portanto, a me concentrar na elaboração do projeto de pesquisa de pós-doutoramento, que irá configurar-se como uma extensão de um projeto de pesquisa aprovado no âmbito da UFRN, que visou analisar programas e ações de reabilitação urbana implementares no Brasil e em Portugal, na perspectiva de se identificar se e como a ênfase dada às ideias de valorização do lugar, contidas nos discursos – balizados pela ideia de Conservação Integrada, se materializa nas ações desenvolvidas, quer sejam intervenções físicas, quer sejam ações de outras naturezas. Este trecho da pesquisa, realizado durante os meses de setembro de 2018 e fevereiro de 2019, foi intitulado “PARTICIPAR, OBSERVAR, DESENHAR O LUGAR: Olhar(es) atento(s) sobre os Programas de Reabilitação Urbana – estudos de caso no Brasil e em Portugal”, tendo como universo de estudo, no caso português, a cidade de Torres Vedras e, especificamente o Programa de Regeneração Urbana da Encosta de São Vicente. As pesquisas desenvolvidas em período anterior à ida ao posdoc me possibilitaram a elaboração de um artigo que foi incorporado aos anais do “XV Seminário de História da Cidade e do Urbanismo”, realizado na cidade do Rio de Janeiro, em setembro de 2019. No artigo, intitulado “Em Busca da Valorização do Lugar: Programas e Ações de Reabilitação Urbana no Centro Histórico de Torres Vedras, Portugal” discutiu sobre programas e ações de reabilitação urbana ancoradas nos princípios da Conservação Integrada, tendo como universo empírico de estudo as ações executadas nos anos 2000 na cidade de Torres Vedras, Portugal, vinculadas ao Programa Polis XXI.
As discussões giraram em torno da identificação de que tais programas e ações enfatizam a valorização do Lugar como premissa, e a partir de três aspectos: a abordagem de base fenomenológica, na qual define-se lugar como espaço dotado de sentido, caráter, com base existencial, enfatizando o sentido de pertencimento (Norberg-Schulz, 1979; Tuan, 1980); o estudo do cotidiano, visto que é na escala do cotidiano – como lugar de vida – que se assegura o lugar no mundo (Lefebvre, 1958); e o sentido de “passado presente”, no qual entende-se a história – e o lugar na história – como parte operativa do presente, onde devemos encontrar o sentido da ação e reflexão arquitetônica (Pereira: 2010), devendo as intervenções centrar-se no contexto, nas pessoas e no futuro (Baptista, 2013). As análises recaem nos projetos – vinculados ao Programa da Acção Torres ao Centro, balizado sob as diretrizes do Plano de Pormenor de Reabilitação Urbana do Centro Histórico, em vigor desde 2010 – bem como nos programas de âmbito artístico.
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Com relação ao referido programa, este surge na sequência da candidatura da cidade ao Polis XXI (Parcerias para a Regeneração Urbana) do Programa Operacional Regional do Centro “Mais Centro”, sob as diretrizes do Plano de Pormenor de Reabilitação Urbana do Centro Histórico, em vigor desde 2014, e tendo como agente financiador majoritário o Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER). O programa visou estabelecer consensos e parcerias, através do “Protocolo de Parceria Local” entre a Câmara Municipal de Torres Vedras e representatividades da sociedade civil em geral, tais como: Associação Comercial, Industrial e Serviço da Região Oeste; Atlético Clube Torreense; Centro Social e Paroquial de Torres Vedras; Cooperativa de Comunicação e Cultura; Fórum das Associações Culturais de Torres Vedras; Transforma. Apostou-se no mecanismo da parceria, tendo em vista a capacidade para induzir e potenciar estratégias integradas de regeneração urbana, seja pelo que este implica de envolvimento e de identificação dos diferentes intervenientes em objetivos comuns, seja pelos de operacionalidade que decorrem da partilha de responsabilidades. Nas análises que buscaram revelar a similitude entre os princípios da Conservação Integrada e os elementos norteadores das ações do Programa Torres ao Centro, levamos em consideração os seguintes aspectos: 1. Integração entre as políticas de patrimônio e o planejamento urbano, levando em consideração que o princípio da conservação - em oposição à já citada ideia de um crescimento ilimitado; 2. As municipalidades como as principais responsáveis pelo desenvolvimento dos programas e ações de conservação integrada; 3. A necessidade de se incentivar a participação de organizações privadas nas tarefas da
conservação integrada, em parceria com as instituições públicas; 4. A orientação de que a recuperação de áreas urbanas degradadas deve ser realizada sem modificações substanciais da composição social dos residentes nas áreas reabilitadas; 5. A necessidade de um diagnóstico prévio dos espaços a serem alvos de intervenção; 6. O reforço à participação popular; Estratégias de articulação entre as ações de caráter interventivo (projetos urbanos e/ou arquitetônicos) e ações que visem identificar / reforçar o sentido de pertencimento dos usuários (residentes / comerciantes / visitantes) com o lugar. Nestas estratégias, incluem-se os programas relacionados à divulgação / promoção, à arteeducação, à cultura, e à educação patrimonial. Ao iniciar as investigações acerca do programa de regeneração urbana da Encosta de São Vicente, uma das primeiras constatações é que este programa será planejado em uma perspectiva de continuidade com relação aos programas e projetos anteriores (Torres ao Centro e requalificação do Parque do Choupal), vinculada a uma ideia de articulação / conexão / aproximação – física e social – entre o Centro Histórico e a Encosta. A abordagem sobre os espaços de valorização patrimonial se mostra, portanto, ampliada, não restrita a uma perspectiva restrita da ideia de Centro Histórico, mas de uma Cidade Histórica). É esta ênfase que procurei dar à investigação, que tem nestas linhas um de seus produtos O objetivo da investigação consistiu, portanto, em analisar, discutir e participar (d)as ações e programas de reabilitação urbana desenvolvidas na Municipalidade de Torres Vedras, tendo como foco a articulação entre gestão, intervenções urbano-arquitetônicas vinculadas aos programas de regeneração urbana, e ações de divulgação, comunicação
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e arte-educação, buscando identificar no processo e nos resultados, a utilização dos princípios da Conservação Integrada, visando identificar a busca da valorização do lugar a partir dessas ações. Tratei especificamente do Programa ENCOSTA - programa de regeneração urbana e social da encosta de São Vicente, iniciado em 2015, onde se inclui a reabilitação de património industrial como vilas operárias e o matadouro municipal, ações estas delineadas pela gestão municipal em parceria com associações e moradores locais. Procurei também, para além da realização das análises relacionadas às ações de regeneração urbana propriamente ditas, versar sobre as ações que primaram por um processo de apropriação do espaço público, através de atividades paralelas a estes projetos arquitetônico e/ou urbanos, de natureza sociocultural, de arte-educação, e ou de educação patrimonial, que enfatizam a valorização do lugar, que visam reforçar o sentido de pertencimento na relação usuário-cidade, tendo como universo de análise, o encontro Desenho de Rua – ENCOSTA de São Vicente, em sua primeira edição, realizada no ano de 2017, e as residências artísticas ocorridas na própria Encosta, nas versões 2017 e 2018, em que nesta última, participei como desenhador convidado. Apresentarei a seguir um relato desta experiência da residência artística (Parte 1), para em seguida, numa segunda publicação, me debruçar sobre a experiência de análise e discussão acerca das intervenções propostas para a Encosta de São Vicente, algumas ainda em projeto, outras em execução (Parte 2).
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POR ENTRE OS MIRADOUROS: a experiência das Residências Artísticas na Encosta de São Vicente.
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O papel determinante do desenho no reconhecimento da morfologia do lugar:
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as investigações realizadas acerca do Programa de Regeneração Urbana da Encosta de São Vicente, pude identificar aspectos pelos
quais posso afirmar que o processo de elaboração e de execução do referido programa se aproxima consideravelmente dos princípios da Conservação Integrada. Um dos itens elencados é a necessidade da elaboração de um diagnóstico prévio dos espaços a serem alvos de intervenção, possibilitando o conhecimento das circunstâncias sociais, econômicas e culturais desses complexos. As análises relativas a este diagnóstico tiveram como estratégia a caracterização urbana e social desta zona, desenvolvida por uma equipe multidisciplinar, haja vista a natureza identitária do lugar, que apontou para a existência de uma população diversificada, com amplo espectro sociocultural. Pôde-se identificar também que a construção deste diagnóstico primou por estabelecer uma relação dinâmica entre passado-presente, através da qual infere-se que a leitura do passado, alicerçada sobre
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a cartografia, urbanismo, historiografia sociologia e arqueologia, pode garantir um conhecimento adequado do Lugar. Simultaneamente, a partir de um trabalho de campo intenso, onde a população local teve um papel determinante, através de sessões participativas, pôde-se construir, a partir da história de vida dos seus habitantes, a possibilidade do preenchimento de uma lacuna, visto que a informação encontrada nas investigações iniciais era escassa, fragmentada e planimétrica, pouco esclarecedora da identidade e qualidade espacial do Lugar. Neste sentido, o coordenador operacional da Unidade de Apoio Técnico do PEDU / coordenador operacional do programa Encosta, arquiteto André Duarte Baptista, procurou nortear as pesquisas objetivando definir a caracterização da identidade do Lugar associada à morfologia urbana – aspectos físicos, como as áreas, o número de compartimentos, o estado de conservação ou conforto térmico e acústico – e ao modus vivendi dos habitantes. Outro aspecto levado em consideração foi a atenção dada e, por conseguinte, o devido reconhecimento da importância de tipologias tidas como “menores”, porém que, segundo André Baptista, revelam “a ‘verdadeira’ identidade do Lugar”. Segundo o arquiteto, “este trabalho permitiu-lhe explorar áreas de interesse que lhe são caras: Património Industrial; Arquitectura Vernacular; Arquitectura Popular; Habitação Mínima”. Esta preocupação de se dar atenção à arquiteturas “menores” – a qual já podemos ver apontada por John Ruskin, ainda no século XIX –, coaduna com as premissas estabelecidas pela Carta de Veneza, de 1964, revelando o sentido de se entender a cidade como um Documento, Consequentemente a escala de valoração amplia: trata-se de ampliar o conceito de Centro Histórico para Cidade Histórica.
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Desenhos de AndrĂŠ Duarte Baptista
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É fundamental também considerar o papel determinante que o desenho teve nas ações relacionadas ao Programa Encosta. Em primeiro lugar, na pesquisa desenvolvida pelo arquiteto André Duarte Baptista, vinculada às análises prévias da área a ser alvo de intervenção. Segundo o arquiteto, o uso do desenho como instrumento de observação, possibilita o conhecimento da morfologia urbana do Lugar, argumento que foi amplamente trabalhado pelo arquiteto em sua dissertação de Mestrado, sobre a morfologia urbana do Centro Histórico de Torres Vedras3. Essa relação entre o desenho e a cidade passou então a ser o norteador de uma importante ação no âmbito do programa de Regeneração Urbana da Encosta de São Vicente: ao optar pelo desenho como instrumento de construção do quadro de memória para as análises, foi observado que houve uma possibilidade maior de aproximação com os moradores, estes se sentindo mais à vontade a falar, bem como valorizados neste processo de (re)conhecimento do Lugar. Em complemento, André Duarte chama atenção para o reforço ao entendimento do valor patrimonial enquanto conceito subjacente às políticas de reabilitação urbana, vinculadas aos princípios da Conservação Integrada. É neste contexto que será pensada a Residência Artística “O Desenho de Rua – Encosta de São Vicente”, a ser relatada e analisada a seguir.
A dissertação de mestrado O Lugar como Simbiose: Centro Histórico de Torres Vedras, defendida em 2013, na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, teve como principal objetivo a análise morfológica do centro histórico de Torres Vedras, onde o autor argumenta que “o estudo da génese fundacional do Lugar e do seu enquadramento histórico é fundamental para o entendimento do valor patrimonial enquanto conceito subjacente às políticas de reabilitação dos centros históricos”. (Baptista, 2013, p. 4). No ensaio “O Desenho e o Arquiteto”, André Baptista afirma que “é durante o desenvolvimento da tese que reforça a sua relação com o desenho, tendo sido a sua principal ferramenta de investigação/percepção da identidade dos lugares”. (Baptista, 2014, p. 2) 3
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Desenhos de AndrĂŠ Duarte Baptista, referentes a registros de reconhecimento da estrutura urbana da Encosta de SĂŁo Vicente.
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2.2.1
O DE de
“DESENHO DE RUA – ENCOSTA S. VICENTE”: as duas experiências residências artísticas (2017-2018)
O lugar da Torres Vedras:
arte-educação em um breve introito.
As experiências relacionadas às residências artísticas realizadas na Encosta de São Vicente não são ações isoladas, haja vista a constatação da regularidade de realização de atividades vinculadas à temática da educação patrimonial na cidade, em boa parte destas promovidas e / ou apoiadas pela Câmara Municipal de Torres Vedras, notadamente a partir de 2014, com o desenvolvimento do programa arte @o centro, já citado. Durante os anos de 2015 a 2018, tive a oportunidade de participar de algumas dessas atividades, como participante e como formador –, incluindo o Encontro Nacional de Desenho de Rua (edições 2015, 2016, 2017 e 2018); o evento (a)Riscar o Património, de âmbito nacional, promovido pela Direcção Geral de Património Cultural (DGPC)4 , e a Residência Artística – Encosta de São Vicente, versão 2018, a qual me referirei com mais propriedade a seguir. Também participei de atividades de um grupo intitulado “andar na rua”, formado por moradores da
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Consultar https://ariscaropatrimonio.wordpress.com/
cidade de Torres Vedras, que se reúne em torno do objetivo de “passear e conversar pela cidade de Torres Vedras, um pouco ao acaso, à (re) descoberta do espaço e das suas gentes”5.
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O grupo existe desde o ano de 2011, a partir de encaminhamento sugerido pelo II Fórum de Participação Pública do Torres ao Centro. 5
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A participação nessas atividades possibilitou o entendimento de que estas ações de educação patrimonial em Torres Vedras – nas diversas escalas: internacional, nacional e local – contribuem para o reconhecimento e valorização do patrimônio cultural da cidade, reforçando o sentido de pertencimento da população e, por conseguinte, a valorização deste patrimônio enquanto lugar. Tais ações também vão ao encontro ao que foi preconizado pela Carta de Lisboa sobre a Reabilitação Urbana Integrada, de 1995, que apresenta a Reabilitação Integrada como “um contributo inovador para a preservação e vivificação do património cultural das cidades, na vertente do edificado como do tecido social”, reforçando assim a ideia de “valorização do lugar por quem o habita e lhe assegura identidade” (Carta de Lisboa sobre a Reabilitação Urbana Integrada, 1995, disponível em https:// www.culturanorte.pt). Neste âmbito, a ideia da realização de uma Residência Artística na Encosta de São Vicente, objetivou articular aspectos relacionados ao (re) conhecimento – físico e social – da área, a ações de natureza artística, tendo o desenho como instrumento de expressão. Segundo o arquiteto André Baptista, esta experiência teve como principais objetivos: documentar a realidade atual, assim como a evolução das obras de regeneração urbana da Encosta de São Vicente e captar, através de imagens e testemunhos, a identidade do Lugar. Para a seleção dos artistas residentes, André Baptista observa que foi pensado na possibilidade da construção de um leque ampliado de “modos de observar”, em que cada artista, durante uma semana teriam a oportunidade de desenhar nos seus cadernos a realidade física e social da Encosta de S. Vicente, e através do seu olhar sensível e crítico pudessem dar a conhecer uma realidade até então pouco conhecida.
A 1ª Residência Artística ocorreu entre os dias 17 e 22 de julho de 2017, tendo como artistas convidados os portugueses António Procópio6 e a Suzana Nobre7. A segunda aconteceu entre os dias 31 de julho e 05 de agosto de 2018, e contou com a minha participação, acompanhado das artistas portuguesas Dina Domingues8 e Lurdes Morais9. Analisarei a partir de então estas experiências, em duas perspectivas, que deverão ser complementares. No primeiro momento, me debruçarei sobre as informações obtidas através das entrevistas realizadas junto aos artistas que participaram das duas residências, procurando identificar pontos em comum e particularidades nas referidas falas. No segundo momento, relatarei minha experiência de participação na 2ª
Sobre António Procópio: Vive em Mafra. Nasceu em Vila Viçosa a 7 de Maio de 1973. Licenciado em Ensino é professor de Educação Visual há 19 anos. Experimentou a escultura, o cinema de animação, a gravura, mas foi no desenho urbano que encontrou a sua verdadeira paixão. Considera o desenho uma forma de estar na vida. É Urbansketcher, projeto que admira colaborando nos seus eventos e publicando no seu blogue. Publicou desenhos e ilustrações para a ZEST e para o projeto Ajudaris. Fez várias exposições em Lisboa, Sines e Sintra 6
Sobre Suzana Nobre: Nascida em 1971 em Luanda, vive em Aveiro desde 1998. É formada é design industrial e trabalha como designer de produto na Indústria Cerâmica, desenvolvendo igualmente projetos na área da ilustração e design gráfico. Tem participado em várias exposições individuais e coletivas na área de fotografia, ilustração e diários gráficos e participado em várias publicações como ilustradora, coletivamente, individualmente e em edição própria de autor. Desde 2012 dedica-se de uma forma regular ao desenho de observação em diários gráficos como método de experimentação, desenvolvimento de técnicas e processos de desenho. Procura constantemente manter o espírito criativo ativo, frequentando formações e oficinas e explorando as mais diversas áreas. 7
Sobre Dina Domingues: mais do que desenhar e pintar, gosta de desenhar na rua as pessoas que passam e registar o momento. 8
Sobre Lurdes Morais: nasceu em Angola, licenciada em Biologia Marinha e Pescas, concluiu os cursos de Pintura e de Desenho com Modelo na SNBA nos anos 90. Trabalha ligada à Conservação da Natureza. Tem memória de pintar aos 4 anos de idade e o desenho sempre esteve presente na sua vida. 9
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Residência Artística, levando em consideração que, mesmo sem estar formalmente no período de realização do pós-doutoramento, já estava a desenvolver pesquisas prévias relacionadas a este, e as atividades de arte-educação estavam elencadas neste processo de investigação. Nesse sentido, serão levadas em consideração na análise, a base teórico-conceitual que norteia minha produção como pesquisador; os conhecimentos prévios adquiridos no que diz respeito à cidade e aos assuntos relacionados ao programa de regeneração urbana da Encosta; a experiência – individual e coletiva – vivenciada durante o período de realização da residência artística.
2.2.2
A Residência, pelos artistas: descobertas e receptividade em um espaço “isolado”.
Com o objetivo de criar uma base para a realização de uma análise crítica acerca das experiências das residências artísticas ocorridas na Encosta de São Vicente nos anos de 2017 e 2018, solicitei, em janeiro de 2019, aos desenhadores que participaram das referidas atividades, que respondessem a um conjunto de perguntas acerca dos seguintes aspectos: a sua relação com o desenho, e com o desenho de rua; a sua relação com a cidade Torres Vedras, e com as atividades de desenho de rua na cidade; se já tinha algum conhecimento acerca da Encosta de São Vicente; as impressões iniciais sobre a Encosta; as expectativas suas com relação à experiência da residência artística; os aspectos mais chamaram a atenção, sob o ponto de vista do espaço físico e do cotidiano. Solicitei também que comentassem acerca da troca de experiência coletiva vivenciada nesta atividade (com os desenhadores e com a população), bem como pedi a opinião de cada, a saber se a experiência da residência artística e os produtos decorrentes desta, possibilitam a construção de uma memória coletiva da Encosta de São Vicente e
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quais sugestões cada um apontaria para o desenvolvimento de uma ação acerca da construção deste quadro de memória coletiva.
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Com relação ao desenho de rua, e especificamente a Torres Vedras, percebe-se que, mesmo os artistas residindo fora de Torres Vedras, e em locais distintos, todos tem uma relação bem aproximada com as atividades de desenho de rua realizadas na referida cidade, notadamente os encontros internacionais de desenho de rua, porém não restrito a este. No entanto, quando indagados sobre conhecimentos acerca da área da Encosta de São Vicente, todos afirmaram terem pouco ou nenhum contato. Inclusive, para alguns, este contato passou a ser estabelecido a partir da participação nas atividades das residências: “Conhecia a encosta cá de baixo, mas não me recordo de ter subido até lá antes da residência”. (AP) “A Encosta conhecia do encontro de sketchers de 2017, fui lá desenhar com os residentes desse ano”. (DD) “Não conhecia a encosta até ser convidada para participar na residência artística de 2018”. (LM) “A Encosta de São Vicente fiquei a conhecer apenas quando fui convidada para integrar as 1ªs residências artísticas sobre a Encosta, pois era um lugar que não chamava muito a atenção durante as estadias dos encontros”. (SN)
As respostas apresentadas também me levaram a perceber a importância da atividade para empreender possibilidades de reconhecimento do lugar: adentrar a Encosta, romper as barreiras, sair da “cota de baixo”. Esse ato de “adentrar a Encosta”, vai revelar nos participantes uma
identificação de um a sensação primeira de “isolamento” vivenciado pela comunidade que ali habita. Este isolamento é identificado tanto por aspectos de natureza físico-geográfica, como por aspectos relacionados ao âmbito social, em suas diversas escalas (relação da Encosta com a cidade e relação “entre os bairros10 que formam a Encosta”: “A encosta está perto de Torres Vedras mas também está longe. Existem barreiras físicas (muitas escadas) que tornam a descida e subida quase impossíveis para uma população envelhecida. A população adaptou-se a viver dentro dos bairros raramente descendo à cidade”. (AP) “Chamou-me mais a atenção o isolamento daquela comunidade toda relativamente ao resto de Torres Vedras e a falta de condições de vida condigna de alguns moradores”. (LM) “Para onde quer que me tivesse de deslocar tinha de subir a muito custo, longas escadas e rampas de inclinação bastante acentuada. A morfologia da construção naquela encosta tão inclinada, algo desordenada e caótica impressionou-me bastante (..) A população ali residente é na sua grande maioria idosa, dificultando bastante a sua mobilidade e dependendo de outras pessoas para se deslocarem à cidade, pois os transportes públicos tinham deixado de circular nessa zona” (SN). “O que me chamou mais a atenção do ponto de vista físico, foi o isolamento de cada bairro e mesmo de casa para casa no mesmo bairro. Do físico teria mesmo a ver com a geografia e organização dos bairros, mas o isolamento entre casas tem origem nas pessoas, identifiquei A Encosta de São Vicente é formada pelos seguintes bairros: Bairro do Forte e Encosta de São Vicente; Bairro do Choupal; Miradouro Meia-laranja; Cruz das Almas; Bairro da Floresta; Casais e Bairro do Matadouro; Bairro Reis; Bairro Barreto e Bairro dos Ameais. 10
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dificuldade nas pessoas em se relacionarem ou por preconceitos, ou somente porque sim, ou porque pretendem mais atenção e não a têm, ou porque não se querem mostrar, …” (DD)
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Essa constatação relacionada ao sentido de “isolamento” vai ao encontro das constatações obtidas nos estudos realizados para a elaboração dos diagnósticos que irão nortear o conjunto de propostas relativas ao processo de regeneração urbana da Encosta de São Vicente. Neste sentido, palavras como “cerzir-costurar-conectar, física e socialmente”, se tornarão norteadores destas intervenções, conforme será visto posteriormente, quando estarei analisando tais intervenções. Com relação às expectativas sobre o que selecionar para registrar, cabe aqui evidenciar a intenção, por parte dos organizadores da residência artística de fazer com que o produto desses registros enquanto conjunto pudesse evidenciar uma multitude de olhares. No caso, ocorreu uma boa fusão entre os registros do físico e do social, revelado na fala dos artistas: “Acima de tudo queria cumprir o objectivo de retratar a Encosta como espaço ‘de gente e ‘com gente’”. (...) “Tentei relatar esta relação entre pessoas e o espaço em que estão inseridas, através de desenho e registo escrito”. (DD) “Eu e a Suzana andamos quase sempre Juntos. Enquanto eu desenhava o exterior ela retratava os moradores. Foi algo que não combinámos, aconteceu naturalmente. Toda a nossa experiência não foi pensada foi acontecendo ao sabor dos acontecimentos”. (AP)
“Enquanto eu retratava as pessoas e a sua habitação, ele (Procópio) registava o local envolvente em que evidenciava bastante bem as características do sítio, com todas aquelas escadarias, rampas e desordenamento habitacional”. (SN)
Saliento que os desenhos realizados retratam de modo bem evidente as barreiras físicas, bem como a adequação da comunidade a essas barreiras, ou seja, “os desenhos relatam isso (barreiras físicas) mas também registam o apropriamento pelas pessoas das suas casas, a forma como as modificaram ao longo dos anos e ao sabor das suas necessidades”. (AP) Neste sentido, a presença marcante do registro das escadinhas nos desenhos de António Procópio e de Lurdes Morais; os desenhos e as falas das pessoas – notadamente os idosos – presentes nos cadernos de Suzana Nobre e Dina Domingues; e até mesmo o registro da “carrinha das frutas e verduras”, feito por Procópio, atestam bem essas dificuldades encontradas e a forma como os moradores procuram se adequar a estas dificuldades.
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Desenhos de Antônio Procópio
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Desenhos de Suzana Nobre
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Desenhos de Dina Domingues
Outra barreira a ser encarada pelos desenhadores estava vinculada à preocupação com relação à receptividade da comunidade com relação a estes, como pessoas que não estavam presentes no cotidiano da área, como podemos observar no relato de Suzana Nobre: 40
“A minha intervenção iria incidir mais sobre as pessoas, retrata-las no seu meio e passar para o desenho as suas vivências e relação com o local onde habitavam, pelo que estava algo apreensiva quanto à recetividade das mesmas e como iriam reagir a esta ‘intrusão’ na sua privacidade”.
No entanto, esta preocupação foi se diluindo aos poucos, e é notório na fala dos artistas a forma como a população foi se mostrando pouco a pouco receptiva: “Agradou-me também a ideia de poder imergir durante uma semana numa comunidade. As primeiras impressões foram muito boas. Para além de ter muitas casas antigas cheias de histórias para contar fui muito bem recebido pelos residentes. (...) A experiência foi muito enriquecedora para mim. Ao longo da semana fomos explorando as várias ruas. A comunidade foi-se abrindo cada vez mais e acolheunos de braços abertos. Tornamo-nos, vizinhos, amigos e confidentes”. (AP) “Com a população foi uma surpresa fantástica, mostraram-se sempre muito simpáticos e recetivos. Sentiam-se envolvidos nesta mudança que ia ocorrer e estiveram sempre muito disponíveis para participar, inclusive já nos procuravam para recomendar alguém com quem deveríamos falar e desenhar pois achavam ser pessoas com histórias relevantes para o nosso trabalho”. (SN)
Desenho de Dina Domingues
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Desenho de Dina Domingues
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Esta aproximação entre moradores e desenhadores deu a possibilidade para a construção de um quadro memorial não só no âmbito da atividade da residência artística em si, mas também sobre o lugar, tendo o morador um papel ativo, sentindo-se valorizado no processo. Por outro lado, os artistas passaram a se sentir em casa, puderam “adentrar” mais e mais no cotidiano, nas práticas sociais dos moradores: “Com a população foi interessante contactar, percebia-se em muitos casos, que têm necessidade de conversar”. (LM) “O desenho desencadeou um sentimento muito interessante. Ao desenharmos os vários locais e moradores valorizamo-los. Essa valorização abriu portas a conversas e a desabafos que ficaram registados. Os registos foram de tal forma mobilizadores que no
dia da apresentação dos desenhos alguns moradores desceram da encosta para assistir à apresentação. Um dos moradores já não descia há bastante tempo”. (AP) “Com a população foi uma surpresa fantástica, mostraram-se sempre muito simpáticos e recetivos. Sentiam-se envolvidos nesta mudança que ia ocorrer e estiveram sempre muito disponíveis para participar, inclusive já nos procuravam para recomendar alguém com quem deveríamos falar e desenhar pois achavam ser pessoas com histórias relevantes para o nosso trabalho. (...) “A forma como me recebiam em suas casas e me convidavam a entrar na sua privacidade deixou-me bastante sensibilizada. Creio que o fato de as estar a desenhar provocava um certo à vontade e descontração que quebrava barreiras. Aproveitavam para expor as suas queixas sobre a zona onde viviam, as suas ansiedades, duvidas e desejos sobre as mudanças que iriam ocorrer. (...) Encontrei pessoas com muita vontade de participar, de dar o seu testemunho e poder assim de alguma forma contribuir também para as mudanças que tanto desejavam”. (SN)
Esta receptividade a acolhida possibilitou a construção dos belos registros de Suzana Nobre, que notadamente aliou desenhos das moradas – nas escalas do edifício e dos pequenos detalhes (caixas de correios, jarros, etc.) com informações de vida dos moradores: “As pessoas que retratei e com quem conversei eram maioritariamente idosas e viviam ali à bastantes anos. Procurei deixar alguns apontamentos das suas histórias e das suas preocupações com aquele local e ter também sempre um desenho do local onde viviam ou da envolvente de modo a que se complementasse”. (SN)
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Desenho de Suzana Nobre
Esta possibilidade de contato mais aproximado com os também resultará na “descoberta” de ofícios e habilidades de algumas pessoas que certamente passariam despercebidos aos olhos dos que são de fora. Exemplos disso foram as descobertas dos “mundos mágicos “ da oficina de móveis Sr. Augusto Miranda, registrados por Lurdes Morais, e da Casa de bonecas de Dona Lucinda, visitada e registada por Dina Domingues. Essas pessoas - como tantas outras – constroem micro-histórias que necessitam ser postas em relevo no âmbito da constituição da memória coletiva deste Lugar. Desenho de Antônio Procópio
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Desenhos de Dina Domingues (Ă esq.) e Lurdes Morais (ĂĄ dir.)
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Desenho de Lurdes Morais
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Desenho de Lurdes Morais
Desenhos de Dina Domingues (dois sup.) e Lurdes Morais (inferior)
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Neste sentido, o antigo Matadouro é um espaço muito significativo na memória coletiva da Encosta, tornando-se referência histórica, fato que não passou despercebido por Suzana Nobre: “O degradado antigo matadouro também era uma presença 50
constante e impressionava pela forma como se impunha naquele lado da encosta. Grande parte destas pessoas com quem falei, vivia naquela zona a muitos anos e a maioria tinha alguma ligação com aquele local”. (SN)
A destinação dada ao edifício no processo de regeneração urbana da área, como edifício nucleador de atividades socioculturais, revela a intenção de dar-lhe novamente um papel fundamental como elemento transformador da área, nos âmbitos físico e social. Nesta conversa com os artistas residentes, surgiram também algumas sugestões para possíveis desdobramentos relacionados aos produtos desta ação. Propôs-se que estes registros possam ser utilizados como contributos no desenvolvimento dos projetos / ações em decurso: “O importante agora é pegar nesses registos e aproveita-los para enriquecer o projeto de reconstrução (penso que isso está a ser feito)”. (AP) “Trazerem novos contributos vindos dos residentes, permitem afinar o projecto que está a decorrer, para responder melhor às necessidades de integração da comunidade e revitalização humana da Encosta”. (LM)
Também foi sugerido a continuidade da experiência, tanto no sentido na produção dos registros, bem como na perspectiva da manutenção
da relação de aproximação com a população. Inclusive com a previsão de partilha dos registros com a comunidade: “Penso que continuando esta experiência deve ser sempre mantido o “histórico” de relações com as pessoas que lá estão porque reparei que as pessoas gostaram de ser visitadas pelos primeiros residentes”. (DD) “Sem dúvida a continuação desta experiência servirá para recordar a evolução do espaço físico e de relações da Encosta. Espero voltar a ver as pessoas com quem falei e saber se são mais felizes e continuam a fazer ou passaram a fazer o que gostam”. (DD) “Se fosse possível um registo de cada bairro para entregar a cada residente que participou e nos ajudou ao longo dos dias, penso que seria muito motivador para contribuírem para a evolução da encosta e as mudanças que estão a decorrer”. (DD)
Por fim, também foi sugerida a possibilidade de publicização dos resultados das residências, como forma de motivar a construção de um quadro memorial sobre a história da Encosta de São Vicente, marcada pelos entrelaçamentos entre os espaços físicos e as relações sociais que dão sentido a existência desses lugares: Os produtos das residências artísticas permitem construir uma memória da Encosta tanto a nível humano como arquitectônico”. (LM) Todos os elementos recolhidos são uma memória naquele espaço temporal, do local, das pessoas que o habitam, suas recordações e histórias sobre o mesmo. (...) Creio que uma publicação impressa
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com todos os trabalhos efetuados, resultantes das residências artísticas e dos encontros sobre a encosta, antes, durante e depois das obras de regeneração urbana, pode resultar num documento muito interessante. (...) Julgo que um documentário em vídeo com os testemunhos dos habitantes também seria bastante interessante. Há 52
muitas histórias dispersas sobre o local, testemunhos das pessoas mais antigas que ainda ali vivem e fazem parte da história da Encosta seriam preciosos. Tudo isto corre o risco de se perde pois muitos os seus detentores já são bastante idosos. (SN)
Feita esta síntese, passarei a relatar a minha experiência pessoal, levando em consideração tanto a minha atuação enquanto artista residente, como também enquanto pesquisador, vinculado ao desenvolvimento de minha investigação de pós-doutoramento. Esclareço também que mesmo sendo um relato individual, contará em diversos momentos com a partilha entre os artistas residentes, através dos registros e da convivência durante o período de realização da atividade.
2.2.3
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Um
desenhador
nas
“árvores”:
“Cosme observava o mundo da árvore: qualquer coisa, vista lá de cima, era diferente, e isso já era um divertimento. A alameda ganhava uma outra perspectiva, e também os canteiros, as hortênsias, as camélias, a mesinha de ferro para tomar café no jardim. Mais adiante, as copas das árvores adensavam-se e a horta derramava-se em pequenos campos em forma de escada, sustentados por muros de pedra”. CALVINO, Ítalo. O Barão nas Árvores
O meu primeiro contato com a Encosta de São Vicente foi meramente visual: ocorreu durante o 2º Encontro Internacional de Encontro de Rua, em 2016, em minha participação na Oficina “A Parte e o Todo”, ministrada por Antônio Procópio. Na ocasião, registrei o que minha vista alcançou de uma das bordas da Encosta, sem ter noção da dimensão deste lugar, nem de que dois anos depois estaria completamente imerso “no lado de dentro”, a vislumbrar “o lado de fora” a partir “da vista la´de cima”. Por certo, “bem diferente”.
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Foi durante esta oficina que escutei o André Baptista comentar sobre as ações relacionadas ao Programa de Regeneração Urbana da Encosta de Torres Vedras, cujos projetos estavam em curso. A partir desta informação passei a procurar mais detalhes sobre o referido programa e, tendo em mãos o documento do Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano (PEDU 2015), identifiquei que o referido plano segue as premissas da Reabilitação Urbana. Neste sentido, decidi aprofundar os estudos acerca das ações relacionadas a este programa, definindo assim o tema, objeto e universo de estudo de minha pesquisa de pós-doutoramento, citada anteriormente.
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Em 2018, durante o período preparatório para minha ida a Portugal para realização do pósdoutoramento, fui convidado a participar da 2ª Residência Artística – Encosta de São Vicente, e a partir de então procurei obter alguns conhecimentos prévios acerca do lugar e das propostas de intervenções formuladas para a área. Tomei como base o documento “Enquadramento Técnico do Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano de Torres Vedras” (PEDU 2015), elaborado pela Câmara Municipal de Torres Vedras.
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O referido documento apresenta uma contextualização que enfatiza as transformações ocorridas na cidade, a partir dos anos 2000, notabilizadas por desenvolvimento urbanístico considerável, pelo aparecimento de novas áreas urbanas, pelaimplementação de novos equipamentos e funções, o que ocasionaou um natural aumento da população. Diante deste quadro de transformação, apontam-se desafios importantes ao nível da organização espacial e funcional da sua estrutura urbana, onde destacase a necessidade de se minimizar os efeitos decorrentes de um processo de desenvolvimento urbano desigual, percebido a partir de um quadro pevidente distinto na sua estrutura urbana, assim definido no documento: “A sul, o morro do Castelo, um espaço de grande valor histórico e simbólico para a cidade, ocupado por usos mais nobres (habitação, comércio, serviços e equipamentos); a norte, a encosta de São Vicente, área periférica, ocupada historicamente por usos menos “nobres” como fábricas, bairros operários, oficinas e armazéns, apresenta-se urbanisticamente desqualificada”.
Diante desta constatação, o PEDU define como objetivo para o desenvolvimento ações relacionadas aos programas de reabilitação, “’aproximar socialmente’ e de ‘cerzir fisicamente’ os dois polos que integram o perímetro da cidade de Torres Vedras, atualmente com dinâmicas socioeconómicas, habitacionais e populacionais completamente distintas entre si” (PEDU, 2015, p. 11), consubstanciando-se em três planos: a) Plano de Ação de Mobilidade Urbana Sustentável (PAMUS) b) Plano de Ação de Regeneração Urbana (PARU) - visa a “adoção de medidas destinadas a melhorar o ambiente urbano”; e, c) Plano de Ação Integrada para as Comunidades Desfavorecidas (PAICD) – visa a “concessão de apoio à regeneração física, económica e social das comunidades desfavorecidas”. A partir desses pontos, comecei a nortear os pontos que conduziriam,
a princípio, o meu olhar sobre a Encosta de São Vicente, levando em consideração o tempo definido para a realização da atividade. Fica claro que as intervenções, de naturezas relacionadas regeneração física, econômica e social, visam uma aproximação / conexão física e social da Encosta com a cidade. Então, para um devido (re)conhecimento do lugar ao qual se destinam essas intervenções, compreendi que fosse necessário adentrar a Encostar a partir de um olhar de dentro que vinculasse uma perspectiva relacional entre o “dentro / dentro” (conexões internas) e “dentro/fora” (conexões externas). Para adentrar a Encosta com essa perspectiva, resolvi agir como Cosme Chuvasco de Rondó, o “Barão nas Árvores”, personagem de Ítalo Calvino11, que decidiu “olhar o mundo de forma diferente”: por cima da copa das árvores. No meu caso, este olhar diferente está vinculado a um processo de descoberta, que vai para além do que minha vista tinha alcançado até então, ou seja, a relação entre uma das bordas da Encosta com o Parque do Choupal. No caso, subir até a “copa das árvores”, os pontos de miradas da Encosta, além da conexão possibilitada entre as partes da cidade através das visuais, necessariamente inclui os caminhos percorridos pelos seus galhos. Para este percurso, trouxe comigo – além dos conhecimentos prévios acerca do objeto, construídos a partir das leituras realizadas sobre a cidade de Torres Vedras e sobre as ações destinadas ao Programa Encosta de São Vicente – uma bagagem teórico-conceitual, construída ao longo de minha trajetória acadêmica, nas quais alguns conceitos Calvino, Italo O Barão nas Árvores. Tradução Nilson Moulin. São Paulo: Companhia das Letras, edição de 2009. 11
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são fundamentais para o encadeamento entre a base teórica a sua aplicabilidade prática.
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Neste sentido, o ato de desenhar a Encosta para mim revela-se como uma possibilidade de “parar” para observar as lógicas que cruzam o espaço social, e as sociabilidades estabelecidas pelas práticas sociais do cotidiano, observações estas regidas pelas formas de apropriação percebidas neste espaço, compreendendo o termo apropriação no sentido de “tornar próprio”, e em sua condição transformadora12. O ato de desenhar, portanto, para além se uma simples representação do objeto, adquire um caráter interpretativo, intencional, de apropriação. Este ato de desenhar foi regido por uma lógica distinta da lógica do tempo acelerado. Transformei-me num homem do “tempo lento”, em busca de enfatizar a força do cotidiano, do “espaço banal”.13 Sigo, portanto, os ensinamentos da professora Ana Clara Torres Ribeiro, ao afirmar que para tratar, por exemplo, de um conceito como o de sociabilidade, deve-se necessariamente “lidar com diagnósticos da totalidade social e, simultaneamente, ao observar o muito pequeno, o detalhe, o sintoma que emerge no gesto aparentemente insignificante”. (Ribeiro, 2005, p. 415).
O filósofo e sociólogo Henri Lefebvre, em sua obre “Critique de la Vie Quotidienne” (1958) destaca que a ação dos grupos humanos sobre o meio material e natural possui dois atributos: a dominação e a apropriação. A dominação sobre a Natureza resulta da técnica e a arrasa, permitindo às sociedades substituí-la por seus produtos. Já a apropriação não arrasa, mas transforma a natureza em bens humanos. Esta condição transformadora é reiterada por Lefebvre na obra “De lo Rural a lo Urbano” (1978, p. 164), em que o autor afirma que “a apropriação é a meta, o sentido, a finalidade da vida social”. 12
O geógrafo Milton Santos, em “A Natureza do Espaço” (2003) enfatiza a força do “espaço banal”, lugar do cotidiano, como espaço das coexistências. Reforça a necessidade de darmos atenção aos espaços produzidos e vivenciados pelo “homem do tempo lento”, lugar por excelência do “acontecer solidário”. 13
Ana Clara Ribeiro também sugere a necessidade de se buscar um caminho inverso, de subversão e superação das leituras mecanicistas e funcionalistas da vida urbana e, em contraposição a essa perspectiva, aponta para a necessidade de trabalharmos, apreendermos a cidade, na escala do cotidiano e do lugar, a partir dos “gestos-fio”, que “costuram saberes à co-presença”: “(...) elaborados pela ação espontânea, ou seja, pela ação não planejada ou apenas singelamente concebida, são portadores dos valores compartilhados por um determinado povo, etnia, camada social ou grupo. Essa ação pode criar lugares onde, antes, só havia espaço e racionalização. Da mesma forma, essa ação pode superar, mesmo que apenas por pouco tempo, a cotidianidade alienada, quando manifesta a fraternidade e a irredutível pertença”. (Ribeiro, 2005, p. 417).
Com base nessa bagagem teórico conceitual, estabeleci os primeiros pontos de perspectiva de observação: na escala do “dentro / fora”: perceber as possibilidades de conexão em escala panorâmica, ampliar o olhar, visando estabelecer conexão e aproximar ar as partes distantes; na escala do “dentro / dentro”: apropriar do lugar, a partir da lógica do tempo lento, e procurar perceber as relações de apropriação do espaço físico, a partir da percepção das práticas sociais estabelecidas. Ao nos encontrarmos no primeiro dia da atividade – eu, Lurdes e Dina – nos foram passadas pelo André Baptista algumas informações básicas sobre a Encosta, dentre elas informações sobre os bairros que formam a área, bem como sobre uma síntese das intervenções – em andamento e por inciarem. Em complemento a estas informações, recebemos mapas referentes à delimitação dos bairros e às indicações das áreas alvo des intervenções. Estas informações possibilitaram que nós
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pudéssemos estabelecer determinados focos para os nossos olhares sobre a Encosta, que no caso de Dina e Lurdes podem ser observados na síntese das entrevistas apresentadas anteriormente. No meu caso, resolvi realizar registros dos espaços alvo de intervenção dando a possibilidade de construção de uma memória destas intervenções, ou seja, os registros deverão possibilitar a identificação da transforamação física dos espaços ao longo do processo referente à implementação das obras de regeneração urbana da Encosta de São Vicente. Devo esclarecer também que este acompanhamento das obras através dos meus registros será possível devido a um agendamento de atividades vinculadas ao acordo de parceria firmado entre o Departamento de Arquitetura da UFRN e a Câmara Muicipal de Torres Vedras, nas quais o meu período de pós-doutoramento e outras
atividades a serem programadas até o ano de 2021 fazem parte14. Convém salientar também que, mesmo partindo de uma programação prévia, é necessário dar espaço para as construções do olhar a partir experiência que será propiciada pela partilha com as outras artistas residentes, bem como a partilha com os moradores. É preciso também dar espaço para o acaso, para o não programado. E, finalmente, adentrei a Encosta.
O referido acordo de parceria, assinado no final de 2018, terá vigor durante três anos, sendo passível de renovação. 14
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E fiz inicialmente procurando seguir a lógica da conexão: resolvi fazer um percurso entre a Ermida de Nossa Senhora do Ameal – localizada em uma das bordas do Parque do Choupal – às imediações do edifício do antigo Matadouro, local que receberá as instalações do Centro de Artes e Criatividade – CAC. 62
O meu primeiro contato com a Ermida também foi durante o 2º Encontro Internacional de Desenho de Rua, em 2016, quando participei do workshop ministrado por Helena Monteiro, realizado no Parque do Choupal. Segundo pesquisa realizada no site da DGPC, “O templo é considerado a primeira igreja paroquial edificada na região de Torres Vedras. Sabe-se que em 1310 a Rainha D. Isabel fundou nas dependências da ermida o Hospital de Nossa Senhora de Rocamador, pertencente à Ordem de Santa Maria de Rocamador, o que comprova que estava já edificada no início do século XIV. Em 1337 o hospital era entregue à Confraria dos Alfaiates, que se comprometeu a socorrer e dar albergue aos pobres da região. Depois da transferência do hospital para a Rua Pelomes, em 1507, a ermida seria completamente remodelada. Entre 1550 e 1560 era executada a campanha de obras que conferiu ao templo a sua traça actual. Em 1767 e 1858 foram executadas novas obras, para aumentar o espaço do templo”. http://www.patrimoniocultural.gov.pt/pt/patrimonio/patrimonioimovel/pesquisa-do-patrimonio/classificado-ou-em-vias-declassificacao/geral/view/70375/
Com relação ao CAC, consiste em uma intervenção inserida no Plano de Ação de Regeneração Urbana (PARU), plano este que visa a “adoção de medidas destinadas a melhorar o ambiente urbano”, conforme os seguintes encaminhamentos: “Criação de uma nova centralidade urbana, corporizada no novo Centro de Artes de Carnaval (CAC), (antigo Matadouro);
promoção da revitalização económica e cultural, mediante a fixação de serviços de proximidade, de incubadoras de empresas e de atividades culturais em articulação com o CAC; valorização urbana e ambiental: criação e requalificação dos espaços públicos e das zonas verde; promoção da reabilitação do tecido edificado, pela concessão de crédito às obras dos particulares”. 63
Com relação especificamente ao projeto do CAC, assim se reporta o documento “Reabilitação e Reconversão do Antigo Matadouro Municipal: CENTRO DE ARTES E CRIATIVIDADE. Memória Descritiva e Justificativa”, candidatura (2015): “A intervenção visa a reabilitação e a reconversão do antigo
complexo industrial, convertendo-o num Centro de Artes e Criatividade. Trata-se de uma importante operação de regeneração urbana, assente na criação de uma nova centralidade urbana, capaz de remover as cicatrizes e os estigmas urbanos associados ao antigo matadouro municipal e de conduzir um processo de regeneração urbana assente na reabilitação do conjunto edificado, na interação física e vivencial com os espaços envolventes e em funções que reforcem a identidade e o sentimento de pertença das comunidades locais e que atraiam novos públicos e visitantes (p, 4-5).
Em síntese, identifico a notabilidade e o simbolismo da intervenção de reconversão de uso do CAC, como intenção da construção desta nova centralidade, visando da visibilidade à área, a partir da perspectiva da conexão com o eixo Centro Histórico – Parque do Choupal. Salienta-se o entendimento desta conexão sob o ponto de vista físico e social, o que subtende-se que a perspectiva da construção desta nova centralidade abrange também esses dois aspectos.
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Também certifiquei-me que a intervenção não está restrita ao edifício do antigo matadouro: no percurso entre a Ermida e o Matadouro, teremos uma reconfiguração especial relacionada às seguintes intervenções: Novo alinhamento e caracterização da Rua Leonel Trindade/Cruz das Almas, com redesenho da via; Bolsas de estacionamento e plataformas de transportes coletivos; Intervenção paisagística com ênfase no ambiental (tratamento da Vala do Amial); intervenções no Enquadramento do CAC, que abrangem naturezas diversas, dentre elas o projeto “Porta do Bairro” e uma intervenção relacionada a adaptação de edifício existente à habitação de interesse social. Estas intervenções enfatizam a necessidade de qualificar o espaço, não somente como espaço de conexão, como também como área que possibilite o descortínio da paisagem e a relação entre os espaços a serem destacados.
No percurso realizado, identifiquei de maneira clara a necessidade de implementação das intervenções propostas para o redesenho do espaço de passeio da rua Leonel Trindade (a largura do passeio atual é mínima e não condizente com a valorização de um percurso pedonal), associada ao redesenho da via, no sentido de transformar este passeio em algo que possibilite estabelecer uma relação que vá para além se sua natureza funcional (circulação) e gere espaços para descortínio da paisagem. Também constatei a pertinência da intervenção proposta de tratamento paisagístico da Vala do Amial, de modo a valorizar este recurso natural, “conectando-o” às intervenções de valorização pedonal do entorno do antigo prédio do Matadouro. É notório também o impacto causado no prédio do antigo Matadouro, tendo em vista a adequação do espaço ao uso definido para o edifício, visto que esta nova função, além da transformação física – pois a intervenção intenta “gerar uma nova centralidade urbana, através da reabilitação de uma antiga unidade industrial, profundamente desqualificada e degradada”, como também “oferecer à comunidade residente um espaço público urbano (praça), inexistente hoje em dia” –, busca tambem propiciar um processo de transformação social, a partir dos usos propostos, no sentido de “Introduzir usos e funções de âmbito social, económico, cultural e educacional que reforçam a identidade e o sentimento de pertença das comunidades locais e dos torrienses; disponibilizar espaços polivalentes, destinados ao desenvolvimento de ações para e com as comunidades locais; promover a coesão territorial, tornando a área atratora de visitantes e residentes; e garantir um poderoso efeito de alavancagem sobre outras iniciativas e intervenientes, capaz de multiplicar o efeito da intervenção sobre o tecido urbano envolvente”. (PEDU, 2015).
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Em síntese: devido à necessidade de responder ao programa proposto, a intervenção apresenta-se como um elemento deveras impactante na paisagem. Os meus registros realizados na sequência do percurso entre a Ermida de Nossa Senhora do Amial e o prédio do antigo Matadouro – bem como nas visadas realizadas a partir de pontos de cotas mais elevadas (lembrar do “Barão nas Árvores”) – revelam esta relação e trazem também a dimensão cotidiana relacionada à construção em si (andaimes, materiais armazenados, equipamentos em geral), e às expectativas da população com relação à presença do equipamento na cidade, estas “captadas” na observação sobre as conversas por mim ouvidas, notadamente no café Copacabana, situado ao lado da obra em questão.
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Devo também compartilhar que na experiência realizada neste percurso, fui levado, por curiosidade, a desviar-me da sequência estabelecida. Chamou-me a atenção, logo após a passagem pela “Cruz das Almas” – tornado mais visível se olharmos a partir do outro lado da rodovia, o que reforça mais ainda a justificatida da reconfiguração do passeio e da própria via para possibilitar uma melhor visualização deste elemento na paisagem – uma placa indicando o acesso ao bairro “Cruz das Almas”. Adentrei o espaço e observei um considerável estado de abandono do conjunto de edificações localizados na área. Um conjunto, a princípio, de boa qualidade arquitetônica, o que me levou a pensar que este espaço poderia ter seu uso potencializado no conjunto de projetos desenvolvidos para a área. Fiquei me questionando também sobre as possibilidades de estabelecimentos de conexões – prioritariamente pedonais – entre esta área e as áreas contíguas, tais como o bairro da Floresta e o próprio miradouro Meia Laranja.
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Eu realizei este percurso de forma individual, encontrando com as demais desenhadoras no topo das escadas de acesso ao “Casais e Bairro do Matadouro e Bairro Reis” de onde foram realizados registros panorâmicos. Ao subirmos pelo acesso atual, pudemos observar a dificuldade e o desconforto gerados pela inadequação do desenho das escadinhas. Com relação aos registros realizados em conjunto, me reportarei a quatro momentos específicos: o primeiro foi realizado na área em que será implementado o polo sócio-cultural do “Casais e Bairro do Matadouro”. Dentre o conjunto de desenhos realizados pelos três desenhadores notabilizam-se registros de aspectos físicos e do cotidiano do lugar. No meu caso, concentrei-me em registrar os espaços que receberão intervenções relacionadas à solução de conectividade entre a área a regisão situada em cota mais baixa, relativa ao bairro da Floresta. Além desta conexão, serão realizadas intervenções para abrigar espaços com funções de natureza sócio-cultural, relativas aos projetos “Somos Comunidade” e “polo social e cultural”. Com relação ao primeiro, é definido no documento “Somos Comunidade: memória descritiva e justificativa. Candidatura” (2015), que “a intervenção corresponde a aquisição e reabilitação de três
edifícios para instalação de um equipamento de utilização colectiva destinado à implementação de projetos de cariz sociocultural, a desenvolver em parceria com associações representativas da vida cultural da cidade”., [cuja organização espacia] “se estrutura em três núcleos edificados, determina uma relação física e funcional muito estreita com a operação PARU.08 – Espaço entre bairros, atenta a forma como este espaço público articula e unifica o território situado entre os três edifícios. (p. 4)
O núcleo será formado, portanto, por três espaços: o espaço expositivo, espaço polivalente e espaço de trabalho. Com relação ao segundo, a ação consistiu na aquisição e a reabilitação de um edifício com o objetivo de propiciar a “instalação de um projeto de desenvolvimento social através das artes e da comunicação, compreendendo três áreas de intervenção que se articulam e complementam: Comunitária, Educacional e Cultural/Artística”. Conforme o documento “Polo Social e Cultural: memória descritiva e justificativa. Candidatura” (2015), a escolha do edifício a ser adaptado para esta nova função decorreu do fato de que ser um “espaço que dispõe já de uma forte ligação afetiva à comunidade, que o apropriou enquanto “centro comunitário ao ar livre”, pois é aqui que a população sénior se junta e convive durante o dia”. (p. 4) A título de curiosidade, saliento que o referido espaço também tornouse uma referências para os artistas residentes, nas duas edições, haja vista a quantidade de registros realizados tendo como foco o referido edifício, e sua “indissociável” carrinha amarela.
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Desenhos de Dina Domingues (sup.) e Lurdes Morais (inf.)
Nos meus desenhos, preocupei-me em registrar os espaços a receberem as intervenções, tanto os edifícios, como os espaços livres, levando em consideração a minha intenção de retornar posteriormente, para fazer os registros quando as obras estiverem em estágio avançado. Uma constatação feita por mim é que, a partir desta “vista de cima”, é notória a necessidade de conexão física entre os bairros Reis e Floresta, e “visto de dentro”, é fundamental a criação de espaços de sociabilidade, tendo em vista a escassez de tais espaços na situação atual. Chego a conclusão, portanto, que as intervenções propostas condizem com o que foi apontado no diagnóstico prévio: “Do diagnóstico social efetuado na área de Encosta de S. Vicente, concluiu-se entre outros factos, acerca do isolamento social e cultural em que a população local vive. A inexistência de locais adequados ao desenvolvimento de atividades culturais e de iniciativas nesse sentido remata um conjunto de condições que descaracterizam o território e não proporcionam ou incentivam a fixação de população”. (p. 6)
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O segundo momento de registros em conjunto foi realizado em trecho da rua da Floresta e adjacências. Neste percurso, pude acrescentar mais um desenho relacionado à proposta de conexão entre o Bairro da Floresta (cota mais baixa) e ratificar a identificação da coerência da proposta de conectividade a ser executada, de modo a possibitar um raio de abrangência maior dos espaços relativos ao polo social e cultural, bem como ao projeto Somos Comunidade. Foi neste percurso também que Lurdes fez os registros da oficina do Senhor Augusto Miranda, apresentados anteriormente. Cabe destacar que a área engloba uma intervenção vinculada ao Programa de PAICD, relativo a um dos núcleos de habitação de interesse social. Estas conexões entre os diversos enfoques do Programa revelam também o “aproximar física e socialmente”. Caminhei um pouco mais a frente, seguindo a rua António Policarpo da Silva, até perceber que tratva-se de uma rua sem saida. Porém, mais do que isso, o espaço pode muito bem configurar-se como uma espécie de miradouro, mais uma “copa” reconhecida pelo “Barão nas Árvores”. Deste miradouro em potencial, pude avistar o antigo edifício do Matadouro em obras, e pude observar também a área que receberá uma intervenção de adaptação de edifícios da vizinhança, para receber residências artísticas.
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O terceiro momento correspondeu ao percurso realizado pelo bairro do Choupal. Partimos de uma referência: chegar à “Praça da Alegria”, um dos poucos espaços propícios aos encontros e às sociabilidades, mesmo dotado de uma área relativamente reduzida. Antes da praça, parei em dos patamares de uma escadinha e de lá fiz um registro para marcar também essa possibilidade de se ter esses espaços não somente em sua função de “circulação”. Tornam-se por muitas vezes pequenos miradouros. A Encosta está repleta deste tipo de situação. Na praça da Alegria, pudemos identificar que o espaço é um ponto de convivência. Os banquinhos e o caramanchão são atrativos para um bom tempo de conversa, ou a leitura de um jornal, sempre disponível na mesa. Tivemos a oportunidade de sabermos um pouco sobre o cotidiano do bairro e sobre figuras que fazem parte deste lugar. Pudemos observar também como a venda do Senhor “Cuxixo” (ou Cochicho), é um espaço que nuclea este cotidiano, seja pela função comercial – um dos únicos
espaços de comércio na área, frequentado quase todos os dias pela senhora Isabel, , apesar da dificuldade de locomoção ocasionada por sua condição física e pela topografia do lugar – seja por se tornar um dos únicos espaços de encontro. Não é à toa que o espaço e seu proprietário foi digno de diversos registros durante as duas esdições da Residência artística, bem como referenciado de modo frequente pelos artistas residentes que participaram da primeira edição da atividade.
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Desenhos de Dina Domingues
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Desenho de Lurdes Morais
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Desenhos de Dina Domingues (sup.) e Lurdes Morais (inf.)
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Da praça da Alegria, subimos até chegar ao Miradouro Meia Laranja, por mim entendido como “a copa das copas”. O local detém uma posicão privilegiada com relação ao seu campo visual ampliado, que possibilita a conexão tanto para o centro histórico, como para a totalidade da Encosta de São Vicente. Os desenhos realizados revelam estas possibilidades de conexão. A despeito desta notabilidade exercida pelo local, identifiquei a necessidade de reforço às conexões físicas entre o miradouro e as áreas circunvizinhas, notadamente a totalidade da Encosta de São Vicente, e até mesmo a Ermida de São Vicente. O quarto momento ocorreu no último dia da Residência Artística e resolvemos explorar a área envoltória do antigo Matadouro. Um espaço que guarda uma relação indissociável da própria história do Matadouro, pois nele eram realizadas atividades complementares à atividade fim, tais como a produção dos enchidos. Configura-se como uma tipologia bastante simples, térreas, em sequência, arrematados por um edifício de maior porte, em dois pavimentos. Conforme informações do André Baptista o espaço irá abrigar usos relacionados a residências artísticas, buscando concatenar estas atividades com as que ocorrerão no CAC. Deste modo, busca-se simbolicamente o estabelecimento de vínculos entre o edifício e sua envoltória. Salienta-se também a proposição de inserção de escadas de modo a estabelecer mais uma possibilidade de conexão entre a envoltória do prédio do antigo Matadouro e o conjunto e os bairros situados na cota mais elevada. Foi em um dos edifícios deste conjunto que ocorreu a atividade final
da residência: uma breve apresentação dos desenhos produzidos, acompanhado dos relatos da experiência pelos desenhadores participantes. Uma conversa aberta à comunidade em geral. Sai desta experiência com diversas ideias de como proceder com relação aos 5 meses de pesquisa que teria pela frente. E será deste relato que tratarei na segunda parte deste texto, a ser disponibilizado em outubro deste ano, quando eu estarei novamente pelas Linhas de Torres.
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Desenho de Lurdes Morais
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Desenho de Dina Domingues
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R E F E R Ê N C I A S
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Este material foi composto com as fontes Neue Haas Grotesk e Arial Italic. Os desenhos sem identificação são de José Clewton do Nascimento Diagramação por Daniel Viana Santos Natal, maio de 2019
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