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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE TECNOLOGIA DEPARTAMENTO DE ARQUITETURA CURSO DE ARQUITETURA E URBANISMO TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO DANIEL LUCAS VIANA SANTOS
R E M O N T A ND O O L U G A R x
, A L T E R I D A D EI A C E X P E R I Ê N E
NARRATIVA
NO BAIRRO DO ALECRIM Natal - RN Junho de 2019
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DANIEL LUCAS VIANA SANTOS
R E M O N T A ND O O L U G A R x
, A L T E R I D A D EI A E X P E R I Ê N C E
NARRATIVA
NO BAIRRO DO ALECRIM
Trabalho Final de Graduação apresentado ao curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte para obtenção do grau de arquiteto e urbanista. Orientador: José Clewton do Nascimento Co-orientadora: Amíria Bezerra Brasil
Natal - RN Junho de 2019
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Ficha Catalogrรกfica
DANIEL LUCAS VIANA SANTOS R E M O N T AN D O O L U G A R x
, A L T E R I D A D EI A E X P E R I Ê N C E
NARRATIVA
NO BAIRRO DO ALECRIM
Trabalho Final de Graduação apresentado ao Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte para obtenção do grau de arquiteto e urbanista. Orientador: José Clewton do Nascimento Co-orientadora: Amíria Bezerra Brasil Trabalho aprovado em ___/___/______ BANCA EXAMINADORA:
Professor Dr. José Clewton do Nascimento
Professor Dr. Emanuel Ramos Cavalcanti
Orientador - UFRN
Convidado interno - UFRN
Professora Drª. Amíria Bezerra Brasil
Vinícius Bezerra de Moraes Galindo, MSc.
Co-orientadora - UFRN
Convidado externo
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[...] apenas servimos para isto, para ouvir ler a história de uma humanidade que antes de nós existiu, aproveitamos o caso de haver aqui ainda alguns olhos lúcidos, os últimos que restam, se um dia eles se apagarem, não quero nem pensar, então o fio que nos une a essa humanidade partirse-á, será como se tivéssemos a afastar-nos uns dos outros no espaço para sempre, e tão cegos eles como nós[...] José Saramago, Ensaio sobre a cegueira.
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ABRAÇAR AGRADECER E
Esse trabalho simboliza o fechamento de um ciclo que se iniciou há alguns anos. E se hoje tenho a oportunidade de viver esse momento, é porque eu não ando só. As
Aos amigos que comigo caminharam nessa jornada, pois sem vocês com certeza ela não seria tão rica. Em especial agradeço à Débora Mendes, pela amizade duradoura e
trabalhos e a metodologia que utilizamos.
primeiras palavras aqui escritas são palavras de profunda gratidão. Agradeço ao Tempo, compositor de destinos, que guiou meus passos até o momento presente. Agradeço à Vida, e à fonte de toda Beleza e Amor.
verdadeira, por me dar a mão e não pedir mais nada em troca. Às Queens, pois com vocês a vida na universidade ficou mais leve: Elizabeth, Caio Andrade, Dmetryus Targino, Gabriela de França e Jasmine Alencar. Quero agradecer especialmente à Filipe Augusto, Hanley Lucena e Larissa Souto, que compartilharam comigo
inclusive contribuindo com a revisão do texto; sou inteiramente grato.
À minha família, pela doação que não espera nada em troca. Em especial aos meus pais, Edivam e Rosane, que me ensinaram a voar. Ao meu irmão Danilo, pelo companheirismo. Aos meus avós, José Joatam, Maria José, José Francisco e Maria Dalva, agradeço pelo ensinamento de força e respeito à ancestralidade. Agradeço com muito carinho às minhas tias, tios, primas e primos.
estes últimos anos de graduação, com quem aprendi muitíssimo, não só academicamente. À Camila, Lara, Maria, Júlio e Daíse, os amigos de mais longa data e que se perpetuam na minha vida. Agradeço à Fernanda Lira, pelos momentos de conversa, de compartilhamento das nossas preocupações sobre nossos
Agradeço a Válber, que esteve presente e trouxe leveza para os últimos momentos de conclusão deste trabalho,
Aos amigos que conheci no alémmar, e que foram a minha família em um período muito importante: Mari, Jana, Vitin, Bela, Paulinha, Nati e Mel. Peço licença para agradecer aos amigos britânicos na língua em que eles possam entender. Special thanks to my beloved friend Hannah Osborne, who proves me that there is no distance greater than true friendship. To Millie Monk, a lovely human being from the british lands. To Marialicia, Isabel, Amber, Ollie and Jared, thanks for the amazing experiences together.
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Academicamente,
gostaria
de
orientadora, pelo acompanhamento e pelo
Agradeço à todas as mulheres e
agradecer ao Departamento de Arquitetura
incentivo quando Clewton estava afastado em
homens que vieram antes de mim, e que com
e Urbanismo
pós-doutoramento.
suas vidas costuraram a história que hoje permite a minha existência.
da Universidade Federal do
Rio Grande do Norte, pela seriedade e o de
gratuita e de qualidade. Em especial ao
Newcastle University, Reino Unido. Aproveito
corpo docente com quem tive contato, cada professor e professora que fazem a ciência e conhecimento se perpetuarem, mas muito mais que isso, são importantes figuras na formação de centenas de pessoas. Agradeço igualmente ao Instituto Federal do Rio Grande do Norte, pois essa jornada foi profundamente transformada ali. Ao professor José Clewton, meu orientador, agradeço pelos ensinamentos e pela confiança depositada em diversos momentos, seja na realização desse trabalho, na pesquisa, na extensão ou nos diversos outros projetos em que estamos envolvidos. Quero fazer um agradecimento especial à Clewton e Eunádia pela acolhida em Lisboa
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Ao CNPq, agradeço pela concessão
compromisso com uma educação pública,
bolsa
de
graduação
sanduíche
na
para agradecer à professora Suzanne Speak, pela orientação, incentivo e ensinamentos durante esse período. Também agradeço aos membros do projeto Encontros de Rua, de onde boa parte das discussões aqui elencadas surgiram. À Sarah Esli, Maurício Panella e Ana Luiza Freire pelas ricos momentos de aprendizado em conjunto. Aos membros do Urban Sketchers Natal, agradeço pela oportunidade de contribuição junto aos projetos de extensão Ribeira Desenhada e Cidade Alta Desenhada. Mais uma vez agradeço ao professor Clewton, à professora Eunádia, André Alves, Petterson Dantas e Arianne Constantino.
no mês de novembro de 2018, quando
Por fim, quero fazer um agradecimento
realizei o “estudo de referência” que faz
especial a Luiz Inácio Lula da Silva por acreditar
parte desse trabalho. Agradeço à professora
que este pode verdadeiramente ser um país
Angela Ferreira, que acreditou na realização
de todos. Agradeço pela atuação substancial
da pesquisa que viria a ser o pontapé deste
para a democratização da educação no nosso
TFG. À professora Amíria Brasil, minha co-
país. Obrigado, Presidente.
RESUMO No ano de 2017, o Grupo 25 Investimentos apresentou diversas propostas arquitetônicas e urbanísticas que redesenhariam a porção central do bairro do Alecrim. Os conflitos decorrentes dessas intervenções, como a retirada de ambulantes e camelôs ali instalados, evidenciaram o poder que se estaria legando ao setor privado de decidir, projetar e executar ações que impactariam na morfologia, na vida urbana, nas relações com a história e memória do bairro e da cidade de Natal. Contudo, os fatos analisados mostraram que o posicionamento da Prefeitura do Natal favoreceu os discursos dos interesses empresariais ao mesmo tempo em que negligenciou as problemáticas sociais que perpassam a implantação dos projetos. Este trabalho objetiva, portanto, elaborar uma narrativa em contraposição às visões hegemônicas que se disseminaram durante a apresentação das propostas do Grupo 25. Os objetivos específicos são detalhar o processo de apresentação das propostas e a criação de uma narrativa dominante que as acompanhou, por meio da sistematização de notícias publicadas em jornais; em seguida, discutir, no campo do Planejamento Urbano, o contexto em que esse processo se insere, bem como apontar possibilidades de resistência a essa lógica, a partir do pensamento de Lefebvre, e autores como Ermínia Maricato, Carlos Vainer e Paola Berenstein Jacques; por fim, se desconstrói essa mesma narrativa consensual com o uso de micronarrativas da experiência no lugar. Para tanto, foram realizadas experiências erráticas na região central do Alecrim, posteriormente representadas por meio de montagens urbanas, conforme os trabalhos de Jacques e Georges Didi-Huberman. Após a produção das montagens, se estabelecem novos nexos e se buscam possibilidades de leitura urbana cujas motivações é a desestabilização de certezas e a apreensão da complexidade do lugar. Palavras-Chave: Intervenções urbanas; narrativa hegemônica; experiência errática; montagem urbana.
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ABSTRACT In 2017, the Grupo 25 Investimentos presented various architectural and urban plans to redevelop the central area in Alecrim, a neighbourhood in Natal. Conflicts emerged from such interventions, e.g. the removal of street vendors, demonstrating the power entitled to the private sector to decide, design and execute actions that would affect the urban form, life and memory of the neighbourhood and the city as a whole. However, the facts have shown that the Town Hall favoured the discourses of business interests while neglecting social problematics involved on the implementation of such projects. This paper aims to elaborate a narrative in opposition to the hegemonic visions disseminated by Grupo 25. The speciďŹ c goals include detailing the plans and the creation of a dominant narrative that followed, by systematizing newspaper articles. Then, to discuss, in the ďŹ eld of Urban Planning, the context in which such processes are inserted, drafting possibilities of resistance to those logics, taking as reference works by Henri Lefebvre, ErmĂnia Maricato, Carlos Vainer and Paola Berenstein Jacques. Finally, the consensual narrative is deconstructed by using micro narratives from local experience. To accomplish so, erratic experiences were performed and posteriorly represented by means of urban montages, according to the works of Jacques and Georges Didi-Huberman. After the production of montages, it was possible to draw new relations and pursuit urban analysis motivated by the disestablishment of preconceptions and the apprehension of place complexity. Keywords: Urban interventions; hegemonic narrative; erratic experience; urban montage.
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INTRODUÇÃO
19
1
alvoroço apresentação da problemática
25
O bairro do Alecrim : entre marginalidade e centralidade, a construção histórica de um território popular 28 Um território em disputa: estabelecendo os atores, preparando a cena
2 aRRODEIO
considerações teóricas
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A produção do espaço como lente de leitura
50
As cidades e o planejamento urbano na virada do século
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A mobilização de estratégias discursivas para o sucesso do modelo
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A cidade espetáculo: limites e possibilidades.
58
sumário 3 aNDANÇA
considerações metodológicas
61
Errar: o encontro com os outros urbanos
65
O dilema da experiência: ainda é ela possível?
70
Construir com fragmentos: a montagem
72
ensaio
4
- pelos caminhos da Mouraria
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REBULIÇO montando e (re)construindo narrativas
93
Primeira montagem: perder-se no Alecrim é preciso
95
Segunda montagem: é dia de feira
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Remontagem: (des)montando o lugar
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
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REFERÊNCIAS
115
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INTRODUçãO No ano de 2017, o Grupo 25 Investimentos (G25) apresentou diversas propostas arquitetônicas e urbanísticas que redesenhariam a porção central do bairro do
2017). Nesse sentido, a Prefeitura do Natal atuou diretamente visando agenciar os interesses do ente privado em detrimento da população direta e indiretamente atingida.
vida urbana, nas relações com a história e memória não somente dos comerciantes atingidos, mas dos habitantes do bairro e da cidade de Natal. De fato, o que se observou
Alecrim, em Natal/RN. Além de intervenções em lotes privados, como a construção de centros comerciais, também foram previstas alterações em espaços públicos: a readequação de passeios e do fluxo de veículos, criação de um boulevard, o redesenho da Praça Gentil Ferreira e a substituição
A mobilização popular em torno dos movimentos “Natal, Salve o Sandoval” e “Salve o Alecrim” ao longo daquele ano, serviu como instrumento de resistência à implementação das propostas às pressas, e, segundo a mídia local, as intervenções estão “paradas por falta de recursos” (SILVA, 2018).
naquele momento foi o desenvolvimento de uma narrativa hegemônica que veio a justificar e legitimar as propostas apresentadas. Essa narrativa, escondendo e revelando fatos à sua disposição, envolveu a criação de uma imagem sintética que pudesse explicar quais são os problemas enfrentados pelo bairro,
do relógio aí instalado (CECI; SILVA, 2017). Todavia, a implantação de tais reformas implicaria na retirada dos comerciantes informais que atualmente ocupam as ruas, bem como a demolição do Teatro Sandoval Wanderley e do camelódromo consolidado há décadas. (COMERCIANTES PROTESTAM...,
Sem a devida reflexão, o diálogo ou uma mínima participação popular, a legitimidade na elaboração das intervenções seguiu inquestionada pela grande mídia. Não se contestou o poder que se estaria legando
bem como apontar soluções consensuais para estes problemas, notadamente pela implantação dos projetos do Grupo 25, no intuito de “modernizar” o Alecrim.
ao setor privado de decidir, projetar e executar ações que impactariam na morfologia, na
O trabalho assume esse bairro como universo de estudo, tendo como recorte a região onde as intervenções se localizariam,
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sendo referências espaciais para esse recorte: ao norte a Rua Ary Parreiras, ao sul a Rua dos Pajeús, a leste a Av. Presidente Quaresma
fatos recentes mostram que o posicionamento da Prefeitura do Natal veio a favorecer os discursos dos interesses empresariais ao
acumulação das elites via despossessão dos mais pobres (HARVEY, 2006). É necessário que o discurso acadêmico e científico
e a oeste pela Av. Presidente José Bento, conforme mapa apresentado no Capítulo 01.
mesmo tempo em que negligenciou as problemáticas sociais que perpassam a implantação dos projetos. A discussão de tais estratégias e os conflitos com os quais elas se relacionam provê elementos para a tomada de decisões que estejam alinhadas com os
contribua com as discussões, posicionandose e provendo subsídios que indiquem os problemas subjacentes à produção espacial corrente e possíveis caminhos de resistência.
Existe uma literatura considerável que se propõe a investigar o bairro do Alecrim sob diferentes aspectos, e inclusive alguns trabalhos contemplam a centralidade do comércio informal na estruturação do lugar (BEZERRA, 2005; ROCHA; NASCIMENTO, 2017; SILVA, 2011; SILVA; MIRANDA, 2011; XAVIER, 2014). Entretanto, ainda são escassas as discussões que enfoquem o Alecrim enquanto território em disputa de interesses, bem como reflitam sobre a materialização desses
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ideais de justiça social e democratização da produção de cidade.
interesses nos discursos e práticas sobre o espaço urbano. A implantação de projetos urbanos desse porte, incluindo intervenções nos espaços públicos e privados, ocasiona profundas transformações morfológicas,
Ademais, é necessário atentar para o fato de que a sociedade brasileira vive um momento crítico em sua conjuntura política e histórica. O golpe parlamentar desenhado a partir de 2016 visa a consolidação de uma agenda neoliberal que afeta diversos setores da sociedade, ameaçando direitos e conquistas dos trabalhadores nas últimas décadas. Em escala local, a possibilidade de execução dos projetos urbanísticos do Grupo 25 soma-
sociais e econômicas e deve ser debatido amplamente pela sociedade civil. Contudo, os
se aos discursos e práticas hegemônicas do capitalismo que tende a aumentar a
O objetivo geral deste TFG é, portanto, elaborar uma narrativa em contraposição às visões hegemônicas que se disseminaram durante a apresentação das propostas do G25, evidenciando a complexidade de usos e práticas que caracterizam aquele lugar. Os objetivos específicos compreendem: a)
detalhar
o
processo
de
apresentação das propostas e a criação de uma narrativa dominante que as acompanhou; b) discutir, no campo do Planejamento Urbano, o contexto em que esse processo se insere, bem como apontar possibilidades de resistência a essa lógica; c)
desconstruir
essa
mesma
narrativa consensual com a sistematização
abordando o bairro do Alecrim a partir da
de micro-narrativas da experiência no lugar.
construção, ao longo do tempo, de um território
/
Dessa forma, se assume como
eminentemente popular. Por meio de pesquisa
método de abordagem o pressuposto de
documental em 10 diferentes publicações
que o espaço é socialmente produzido e que
locais, foram sistematizadas 85 notícias que
intuito de apontar possibilidades de atuação nesse contexto, recorrendo ao pensamento de Ana Clara Torres Ribeiro (2005) e à noção
tal produção relaciona-se às contradições
vieram a público entre março de 2017 e março
inerentes ao modo de produção capitalista
de 2018. Neste item se realiza a reconstrução
(LEFEBVRE,
temporal
2006).
Nesse
processo,
dos
conflitos
decorrentes
da
diferentes escalas espaciais se superpõem,
apresentação das intervenções, destacando
em um movimento de “simultaneidade entre a
o envolvimento de diferentes atores sociais
lógica global e a apreensão gerada na escala
e o papel fundamental da criação de uma
do cotidiano” (NASCIMENTO, 2013, p. 42).
narrativa dominante para a legitimação das
Assumimos assim que o cotidiano revela
propostas.
aspectos do global, influenciando-o e vice-
O segundo capítulo, Arrodeio /
versa. Portanto, perpassa todo o trabalho a
Considerações teóricas, visa a atingir o
noção de correlação entre o particular e as
segundo objetivo específico, e resulta de
lógicas globais, entendendo que todo lugar é
pesquisa
um “lugar no/do mundo” (CARLOS, 2007).
discussão sobre as cidades e o planejamento
bibliográfica
para
subsidiar
a
/
urbano estratégico na atualidade, a partir de
Apresentação da Problemática cumpre o
autores como David Harvey (2006), Ermínia
primeiro objetivo específico. É apresentado ao
Maricato (2001), João Whitaker Ferreira
leitor o surgimento da problemática estudada,
(2010) e Carlos Vainer (2009).
O
Capítulo
1
-
Alvoroço
Em seguida, o Capítulo 03 - Andança Considerações metodológicas tem o
de experiência errática conforme Paola Berenstein Jacques (2012). No intuito de atingir o terceiro e último objetivo específico, o trabalho discute a montagem, de acordo com Georges Didi-Huberman (2015), e mais especificamente toma a montagem urbana proposta por Jacques (2015) como método de leitura da cidade e de experimentação de formas de narração menos lineares e mais dissensuais. Após esse capítulo há o trecho que denominamos Ensaio - Pelos Caminhos da Mouraria. Nessa parte do trabalho, se realiza um teste do método adotado: a realização de experiências no lugar e a produção da montagem urbana. Aliando à escrita acadêmica fotografias, relato da experiência e um exercício de montagem, se
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relacionam os temas tratados no Capítulo 02 às possibilidades discutidas no Capítulo 03. Por fim, o Capítulo 04 - Rebuliço / Montando e Reconstruindo Narrativas assume integralmente a montagem como forma de pensamento e procedimento formal. Aí se concentram as montagens produzidas pelo autor após as experiências erráticas realizadas no Alecrim, dispondo-se diferentes fragmentos e narrativas. Por fim, no intuito de sintetizar todo o processo, é realizada uma remontagem final, onde se estabelecem novos nexos e se buscam possibilidades de leitura urbana cuja motivação é a apreensão da complexidade do lugar.
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nota Embora o método seja melhor apresentado e discutido no capítulo 03, o trabalho assume de maneira integral - porém gradual - a montagem como procedimento formal. Isso significa que cada capítulo, a seu modo, reúne, além do texto acadêmico, diferentes passagens textuais e imagéticas. Importante destacar que tais trechos (citações, mapas, fotografias, desenhos, pinturas, fotomontagens) são vistos como correntes narrativas que acontecem em paralelo ao texto principal, às vezes ilustrando-o, em outras, tensionando-o. Por isso, não adotamos o sistema de numeração de figuras, inclusive o corpo textual não se refere a elas diretamente. De toda forma, a autoria e o título do trabalho são sempre indicados.
! o s r u c bom per
23
24
o รง o r o alv x
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Ex-Prefeito Carlos Eduardo Entrevista ao Portal No Ar (SEM MODERNIZAÇÃO..., 2017)
Quando, em 2017, surgem as primeiras notícias relativas à construção de shoppings no Alecrim, incluindo também modificações em seus espaços públicos, mobilizaram-se afetos, falas e opiniões acerca do que estaria sendo vendido pela mídia como um “grande projeto de modernização” para o bairro. Em diversos círculos sociais, muito se falou sobre o Alecrim, suas mazelas, mas também suas vocações, seus voos e suas quedas. Fossem opiniões mais ou menos fundamentadas em alguma reflexão crítica, ou puramente reproduções de um senso comum (geralmente conservador), não faltaram aqueles que se posicionaram contra ou a favor das intervenções a serem ali empreendidas. De fato, o tema tocou a diversos grupos sociais e o desenvolvimento dos conflitos daí decorrentes muito podem nos dizer sobre a complexa teia de relações, tempos, espacialidades - e daí também as
lutas cotidianas - que estão intrinsecamente ligados à construção dessa mesma cidade. Em suma, nos faz refletir sobre o tecido que sustenta e dá forma à produção do espaço urbano como locus da reprodução social. O presente capítulo nasce, portanto, como boa parte das experiências humanas, dessa experiência de choque. O interesse de se compreender essa problemática é o mote inicial para o desenvolvimento do trabalho como um todo, pois partimos do conflito, e da percepção da narrativa dominante que o sustenta, para então estruturar as demais etapas do TFG. O seu texto decorre de pesquisa referente à disciplina Planejamento e Projeto VI no primeiro semestre de 2018, sob orientação da Professora Angela Ferreira. A versão aqui apresentada resulta de um processo de seleção de alguns trechos e ampliação de ilustrações presentes no artigo intitulado Nada de novo sob o sol: os projetos
do Grupo 25 e a sucessão de conflitos territoriais no bairro do Alecrim em Natal/RN, apresentado no XVIII ENANPUR em maio de 2019. Nessa parte inicial do texto elencamos alguns elementos importantes que devem caracterizar a problemática estudada. Inicialmente, apresentamos o universo de estudo, localizando o bairro do Alecrim na cidade de Natal e realizando uma breve contextualização histórica, tendo como eixo a construção de um lugar eminentemente popular. Em seguida, se realiza o estudo dos conflitos territoriais decorrentes da apresentação das intervenções do Grupo 25. Aí, serão evidenciados os atores envolvidos; se caracterizam as três diferentes etapas que perpassam esses conflitos; além disso, se discute o desenvolvimento de uma narrativa e sua importância para a legitimação das propostas.
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O bairro do Alecrim : entre marginalidade e centralidade, a construção histórica de um território popular O Alecrim é um bairro localizado na zona leste de Natal, às margens do Rio Potengi e tem uma área de 3,45 km² e cerca de 26 mil habitantes. Ao longo de sua história, diferentes agentes produziram aquele espaço urbano. Em alguns momentos, o Estado teve aí papel fundamental, viabilizando e incentivando essa ocupação. Outros grupos, como os retirantes do sertão, surgem ao longo do tempo e se tornam personagens centrais para a construção daquele lugar. É perceptível que a atividade comercial acompanhou esse processo, configurando a centralidade que ainda é presente - e marcante - nos dias de hoje. É necessário destacar ainda, que o setor informal tem papel fundamental no entendimento das relações complexas que se processam na atualidade.
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O início da ocupação onde hoje se situa o bairro do Alecrim está relacionado com o processo de crescimento demográfico da
própria cidade de Natal, em fins do século XIX. Juntamente com outras localidades, a região denominada de Refoles constituía a essa época um pequeno povoado, que prestava assistência aos viajantes que se deslocavam entre as cidades do interior do estado e o núcleo urbano de Natal (CASCUDO, 1999). O geógrafo Josué Alencar Bezerra afirma que ainda no início do século XX, a área era “habitada por pequenos comerciantes, trabalhadores rurais, sitiantes e por uma população muito pobre” (BEZERRA, 2005, p. 83). A construção do Cemitério Público, em 1856, representou um marco significativo para a ocupação da área, bem como a instalação da Escola Regional Modelo de Aprendizes Marinheiros em 1908 (MIRANDA, 1999). O bairro foi oficialmente criado em 23 de outubro de 1911, na administração de Joaquim Manuel Teixeira de Moura. A construção da Ponte de Igapó, sendo importante ligação entre Natal
Feira do Alecrim: Séculos XX e XXI Fotos: IBGE Cidades (a;b) e Prefeitura do Natal (c)
e as cidades do interior, reafirmou a posição do Alecrim em uma área de passagem, o que intensificou sua ocupação. A formação do bairro se interliga profundamente com a presença de uma população marginalizada, uma vez que “passaria a acobertar grande parte dos refugiados e das pessoas que procuravam melhores condições de vida na cidade” (BEZERRA, 2005, p. 85). O Alecrim ficou conhecido por muito tempo como “Cais do Sertão”, devido à sua importância no acolhimento dos migrantes rurais que se fixaram ali. Entre os anos 1900 e 1920, o bairro veio a tornarse o mais populoso de Natal, abrigando majoritariamente trabalhadores, à revelia da ausência de infraestrutura básica para a população (BEZERRA, 2005, p. 93). Ainda na primeira metade do século XX, o Estado atuou de maneira decisiva, reforçando em diferentes momentos a ocupação desse
N
Localização do Alecrim na cidade do Natal. Produzido pelo autor, 2019 a partir de IDEMA, 2006.
Rio Potengi
a f
b c
e d
100
500
0
1 Rio Grande do Norte
1km
3 Alecrim
2 Natal d Lagoa Nova a Cidade Alta b Barro Vermelho e Dix-Sept Rosado c Lagoa Seca f Quintas
território “suburbano” pela população com menor poder aquisitivo. Conforme afirma Luiza Medeiros de Lima, entre os anos de 1903 e 1904 “o caráter popular vai ser reforçado pela ação pública, onde foram abertas ruas para a produção de casas populares” (LIMA, 2011, p. 60). De fato, a primeira vila operária da cidade de Natal foi construída pela municipalidade no bairro do Alecrim, em 1932 (ALMEIDA, 2007 apud LIMA, 2011, p. 61).
Cordel A Feira do Alecrim. Poeta Boquinha de Mel, 2006.
Amigo vou lhe dizer
Vamos logo à feira
Ouvinte vou lhe contar
Nossa mistura comprar
Se arrume pois Sábado
Enchendo a sacolinha
vamos juntos passear
Tudo novinho tem lá
E na feira do Alecrim
Eu vou bem cedinho
Pra examinar o poeta
Maravilhas vou te mostrar
Sou o primeiro a chegar
Que falava do amor.
Quando cheguei pequenino Vindo lá do interior Fui bem recebido Trouxeram até doutor
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O período de desencadeamento da Segunda Guerra Mundial, entre 1939 e 1945, foi simbólico para a vida e o crescimento urbano da cidade como um todo. Sobre as marcas desse período no bairro do Alecrim, Cascudo afirma que: Dezenas de oficiais e centos de marinheiros, operários, maquinistas, eletricistas, especializados em construções navais (...) transformaram a própria paisagem ao derredor. (...) o ritmo crescente de trabalho sob a supervisão incomparável, determinaram desdobramentos incessantes, novas séries de construções, centros de instrução, uma cidade inteira, resplandecente de atividade e de ordem, surgiu e vive. (CASCUDO, 1999, p. 304)
Lima aponta que durante a década de 1940 já se observavam ali maiores diferenciações sócio-espaciais: setores da localidade preservariam o aspecto de bairro popular, caracterizado por construções mais singelas, dentre as quais se destacam as “vilas operárias” enquanto outras passavam a ser ocupadas por uma população de melhores rendimentos. (LIMA, 2011, p. 67).
No período pós-guerra, Natal afirmou-se enquanto capital regional, o que se observa a partir de uma população de 103.215 habitantes, dos quais 50,6% habitavam no Alecrim em 1950 (BEZERRA, 2005). Somente na década entre 1970 e 1980 o bairro deixou de ser o mais populoso da cidade, o que se relaciona com o período de expansão rumo às áreas mais periféricas. De 1940 a 1960, foi bastante importante a atuação dos IAPS – Institutos de Aposentadoria e Previdência – na ocupação de diversas áreas da cidade, por meio da provisão de habitação para trabalhadores de diferentes setores. Lima (2011) afirma que o financiamento de unidades individuais também se localizou predominantemente no Alecrim. Nesse mesmo período, lá se concentrou 36,1% do total de edificações financiadas pelos institutos. Ainda conforme a autora: 30
“No Alecrim predominou o financiamento para aquisição de casas em vilas dos IAPs e, em seguida, a aquisição de casas já construídas e respectivos terrenos. O IAP dos industriários, principalmente, realizou esses
empreendimentos, o que pode ter colaborado para a manutenção da imagem do Alecrim como um bairro operário” (LIMA, 2011, p. 89)
É necessário considerar também a influência inegável da atividade comercial, em termos de dinâmicas de uso e morfologia do ambiente construído. O Alecrim possui a maior concentração de estabelecimentos e trabalhadores do setor terciário em todo o Rio Grande do Norte (BEZERRA, 2005). Conforme aponta Andria Carla Silva, “O elo do Alecrim com o comércio de caráter popular faz com que essa presente ligação sirva de referência para a compreensão do seu espaço urbano e de sua dinâmica territorial” (2011, p. 80). Gomes, Silva e Silva reforçam a ideia de que o comércio popular concentra-se naquele lugar: A Cidade Alta era o espaço de consumo preferido da classe mais abastada e o Alecrim, da classe mais pobre. Com o surgimento do supermercado Hiper Bompreço na década de 80, a atividade terciária na Cidade Alta começou a passar por um processo de retração, sendo este consolidado com o surgimento dos shoppings (GOMES; SILVA; SILVA, 2002, p. 299).
Bezerra destaca a importância da feira livre que se consolidou no início do século XX como importante condutora do povoamento e da vida cotidiana no Alecrim. Estima-se que ela tenha surgido em meados dos anos 1920, muito embora as trocas comerciais acontecessem nessa região desde períodos anteriores (BEZERRA, 2005; SILVA, 2011). Inicialmente a feira ocorria aos domingos, entre as ruas Amaro Barreto e Av. Coronel Estevam. Entretanto, após a Segunda Guerra, ela seria transferida para a Av. Presidente Quaresma, onde acontece até os dias de hoje, aos sábados. Nos anos 1970, destacava-se o comércio de artigos populares e a presença de lojas de eletrodomésticos, automóveis, roupas, lanchonetes e já era presente uma considerável quantidade de camelôs, concentrados nas ruas Coronel Estevam, Manoel Miranda, Presidente Bandeira, Mário Negócio e Amaro Barreto. (SILVA, 2011, p. 79) A partir das últimas décadas do século XX, com o processo de
Alecrim, territóio popular Produzido pelo autor, 2019.
descentralização do comércio e serviços na cidade de Natal, paralela ao processo de metropolização da cidade (GOMES; SILVA, 2007), iniciase uma diminuição da população residente no bairro do Alecrim, como demonstrado anteriormente. Corroboramos com a noção de Andria Carla Silva ao afirmar que o bairro construiu ao longo do tempo um território específico a partir de relações de informalidade, uma vez que: [...] esses trabalhadores inegavelmente fazem parte da paisagem urbana do bairro do Alecrim. Dessa forma, passa a se dar direito ao uso e permanência na cidade. É como um reconhecimento da territorialidade exercida por esses trabalhadores. (SILVA, 2011, p. 70, grifo nosso)
Como se pode observar, a presença dos camelôs e ambulantes nas ruas do Alecrim resulta de um processo histórico, não se podendo negar a participação desses atores na vida urbana do bairro. Desse modo, a manutenção desses trabalhadores naquele lugar significa reconhecê-los como importantes figuras no processo histórico de ocupação não apenas do bairro, mas que possui conexões com a história da cidade de Natal e do estado do Rio Grande do Norte. Essa noção nos garante as lentes com as quais poderemos ler a sucessão de conflitos tratados a seguir. 31
Um território em disputa: estabelecendo os atores, preparando a cena
Nesse item, realizamos uma reconstrução temporal dos eventos que a partir de 2017, acompanham o processo de apresentação, confronto e resolução parcial em torno das intervenções que afetariam espaços públicos e privados no bairro do Alecrim. Tomamos a área afetada pelas intervenções como um território em disputa, em que interesses contraditórios emergem em decorrência da apresentação e possível implementação dos projetos. Para a construção desse estudo foram utilizadas como fonte de pesquisa 85 notícias divulgadas em 10 diferentes edições
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locais - cada veículo possuindo narrativa clara de acordo com suas tendências editoriais. A pesquisa nos veículos de circulação local contemplou jornais impressos e digitais: Agora RN, Novo Jornal, Portal no Ar, Tribuna do Norte e Portal no Minuto. Também foram incluídas notas publicadas nos sites da Prefeitura do Natal e da Câmara Municipal de Natal, e de maneira complementar, incluíram-se três blogs, sendo eles o Blog do BG, o Brechando e o portal Esquerda OnLine. Constituíram também fundamentais as gravações audiovisuais realizadas pela TV Câmara das audiências públicas realizadas durante o conflito e as entrevistas efetuadas
Assembleia Salve o Alecrim Imagem: Equipe Sandro Pimentel
com atores envolvidos na discussão1. Três principais atores emergem nesse cenário: o Grupo 25 Investimentos, o Movimento “Salve o Alecrim” e a Prefeitura Municipal de Natal, principalmente a partir das ações da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos - SEMSUR. O gráfico 1 ilustra os momentos com maior divulgação do processo pela mídia e se podem ver três principais picos de publicações.
1 Cabe destacar que as narrativas jornalísticas não foram tomadas como fonte de dados neutra, já que constituem falas e argumentações próprias – com intenções e estratégias discursivas – acerca dos fatos sucedidos no período estudado. Os principais veículos utilizados, por sua importante inserção na sociedade, possuem relações com grupos hegemônicos no Rio Grande do Norte, do setor empresarial (e.g. o Portal No Ar, vinculado à indústria local) ou na esfera política. Esse é o caso do jornal Tribuna do Norte, em circulação desde 1950, que tem como atual presidente o ex-deputado federal Henrique Eduardo Alves, familiar do então prefeito de Natal Carlos Eduardo Alves: um dos principais atores envolvidos. Os sites da Câmara Municipal e da Prefeitura do Natal são mecanismos institucionais de divulgação oficial das atividades desses poderes. Os blogs e páginas no Facebook, meio de comunicação alternativo, compuseram importantes contrapontos para complementar a análise pelo olhar dos “porta-vozes” dos movimentos sociais.
O comércio do Alecrim e derrubada do Teatro Sandoval Wanderley. Poeta Abaeté, 2017.
Eu pergunto para vocês O que é Desenvolvimento? Peço que vocês refltam E me respondam no momento Se essa palavra cumprida Traz alegria ou sofrimento? [...] Será que o Desenvolvimento É somente geração de emprego e renda? E a tal da Modernização Às custas de qualquer custo “Pro” bolso do cidadão? [...]
Gráfico: Publicações na mídia local sobre a problemática. Produzido pelo autor, 2018.
Porque eu não acredito
O primeiro desses picos acontece em março, quando é lançada na mídia a construção do Outlet 25 Demais. A partir da última semana de abril, surgem notícias acerca da possível venda, por parte da prefeitura, do edifício do Teatro Sandoval Wanderley. Em setembro, que registrou o maior número de publicações, emergem as tentativas de retirada dos camelôs e ambulantes das ruas do bairro, bem como as reuniões resultantes do acirramento do conflito.
Que retira das pessoas
Essa situação perdura até o mês de dezembro, vindo a silenciar nos dois primeiros meses de 2018, e voltando a aparecer nos noticiários em março do mesmo ano. Tal leitura temporal possibilita dividir o conflito em três principais momentos, aqui chamados de atos. Em todos, se evidenciam relações diferenciadas de protagonismo, exercidas por parte de cada um dos atores envolvidos.
Que defende nosso gestor
Nesse Desenvolvimento A identidade um momento Do lugar que ele vive Lhe causando sofrimento [...] E o Desenvolvimento Não precisa de Cultura O nosso trabalhador Mesmo ela pulsando sim No nosso peito com fervor.
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pr imeiro ato: nasce o Outlet 25 Demais
A primeira fase de desenvolvimento do conflito inicia-se em março de 2017. Nessa ocasião, se anunciou a construção do Outlet 25 Demais, a ser implantado na principal via de acesso ao bairro: a Avenida Presidente Bandeira, em frente ao “camelódromo”. As quatro notícias publicadas nesse mês destacam os pontos positivos do projeto: investimentos aplicados, lojas disponibilizadas, empregos gerados e fator de atração de público para a área. Um acontecimento caracteriza a fase que aqui se trata, e será central para o entendimento da articulação de interesses entre o setor privado e o poder executivo municipal: o anúncio “Novo shopping do Alecrim é apresentado na Prefeitura com apoio da Fecomércio” (2017). Ou seja, a construção do empreendimento, quando anunciada na mídia local, já contava com o apoio de importantes lideranças ligadas ao setor comercial e com o conhecimento da administração pública. Na ocasião, o Diretor Financeiro do Grupo 25 declarou:
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A reunião foi muito proveitosa. Há um grande esforço do prefeito, tanto nas melhorias da cidade, como uma atenção muito especial a este projeto e à grande mudança que acontecerá no Alecrim, gerando não só novos empregos, mas um crescimento comercial no bairro, trazendo limpeza, segurança, novos empreendedores e empreendimentos a este bairro, que apesar de todos os seus problemas é o único com o perfil da 25 de março em São Paulo (NOVO..., 2017, grifo nosso.)
A leitura atenta das notícias pode suscitar, a partir desse momento, alguns questionamentos. Em primeiro lugar, a que se referem afirmações como “um grande esforço do prefeito”, e “grande mudança que acontecerá no Alecrim”? De fato, há menções a “melhorias que o bairro irá receber” (NOVO SHOPPING..., 2017) e “em contrapartida, será feita reorganização urbana com calçadas e praças no entorno [do shopping]” (VASCONCELOS, 2017). Algumas possibilidades de resposta para os questionamentos levantados começam a surgir no fim do mês de abril: O prefeito Carlos Eduardo informou na solenidade desta tarde que em breve será dada entrada na Semurb ao pedido de licenciamento por parte de empresários para a construção de um shopping Center, sob sistema de cessão, onde funcionou o Teatro Municipal Sandoval Wanderley, no Alecrim. Em contrapartida, o grupo empresarial construirá uma nova sede para o Teatro, nos mesmos moldes do Sandoval Wanderley, teatro de arena, em um terreno federal no bairro da Ribeira, na avenida Duque de Caxias. (PREFEITO LANÇA..., 2017)
Com efeito, começa a tornar-se visível o empenho da Prefeitura Municipal em viabilizar a construção do shopping. Um fato preocupante é adicionado à narrativa: a demolição do edifício do Teatro Municipal, fechado desde 2010, para ceder lugar ao empreendimento do Grupo 25. Ainda no mesmo dia, a Tribuna do Norte noticia o fato: “Teatro Municipal Sandoval Wanderley ganhará nova sede na Ribeira” (GREGÓRIO, 2017). O discurso que começa a se formar não leva em consideração que o Alecrim estaria prestes a perder um equipamento cultural historicamente importante, pelo contrário, reforça-se a ideia de que Natal estaria “ganhando” mais um teatro no bairro da Ribeira. Nas semanas seguintes, a notícia irá aparecer em outros veículos e se inicia um processo de discussão liderado pelos movimentos artísticos da cidade. A Prefeitura do Natal apresentou à Câmara Municipal um projeto de lei que resultará em boa notícia para a população, principalmente o segmento cultural: a construção de um novo teatro na cidade. O projeto não será
executado com recursos públicos. A estratégia é atrair a iniciativa privada, oferecendo em contrapartida a exploração da área localizada no bairro do Alecrim que hoje abriga o antigo Teatro Sandoval Wanderley, fechado há alguns anos. (PROJETO QUE PREVÊ..., 2017)
Em nota publicada nas redes sociais, a Rede Potiguar de Teatro repudiou o Projeto de Lei. No texto, a organização atenta para questões urbanas fundamentais em torno da venda do imóvel: A transformação do Sandoval Wanderley em um shopping diz respeito a algo que vai muito além do simples debate acerca dos valores de uso e de troca de imóveis urbanos. Ao contrário do que costuma pregar o discurso da “geração de emprego e renda”, trata-se de uma disputa que tem como pano de fundo qual o modelo de cidade desejamos: se fundado no aprofundamento dos laços comunitários e sociais ou na sua transmutação em um imenso espaço destinado à satisfação pessoal por meio do consumo. (NENHUM TEATRO A MENOS, 2017)
No dia 02 de junho de 2017, sob proposição do vereador Ney Lopes Jr., acontece na Câmara uma audiência pública para debater o “desenvolvimento socioeconômico do bairro do Alecrim”. Compunham a mesa diretora o então prefeito, o presidente da Fecomércio, o presidente
da Associação de Empresários do Alecrim e o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas. Também estavam presentes representantes da Rede Potiguar de Teatro e do Sindicato dos Arquitetos e Urbanistas, e moradores e trabalhadores do bairro do Alecrim. Como se sabe, não é costumeiro o chefe do executivo participar de audiências na Câmara, fato que denota a importância da matéria para a Prefeitura de Natal.
Teatro Sandoval Wanderley, Camelódromo e Praça Gentil Ferreira: Alvos do G25.
O vereador Ney Lopes Jr. afirma em sua fala de abertura: Essa audiência não vai tratar exclusivamente do caso do Sandoval Wanderley. [...] É algo muito mais grandioso: a construção de um espaço moderno, dinâmico, um espaço propício para fomentar a economia da nossa cidade e consequentemente trazer melhorias, e gerar emprego e renda para a população (TV CÂMARA, 2017, grifo nosso).
Nessa ocasião, se inicia a articulação de uma narrativa que irá somar-se àquela que vinha sendo construída pelo poder executivo, e que irá pautar a sua atuação ao longo do desenvolvimento do conflito. Essa articulação se fundamenta em três principais pontos, quais
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sejam: a) a constatação de um processo de decadência no Alecrim; b) uma urgente “modernização” do bairro e c) a abertura de espaços de atuação para o setor privado como uma oportunidade de se evitar a temida decadência em curso. Não significa, entretanto, que esse discurso se fundamente a partir de dados observáveis ou fontes de pesquisa confiáveis, o que abre possibilidades para diversos e oportunos questionamentos. O que significa dizer que o bairro está “decadente”? E do que se trata a “modernização” frequentemente citada pela prefeitura? Sinaliza-se o desejo do poder público em iniciar reestruturações no Alecrim por meio de parcerias com o setor privado, porém se omite em que consistem essas reestruturações, quais são seus proponentes, bem como quais são os atores e agentes envolvidos. É pertinente notar que o Grupo 25 não se faz presente na audiência pública, em contraste ao seu papel de protagonismo na fase de apresentação do Outlet 25. Observa-se, nesse momento, um processo de crescentes atribuições ao Executivo no intuito de publicitar, convencer a opinião pública e viabilizar a implantação do shopping, bem como de confusas “obras de reestruturação” que estariam diretamente vinculadas à venda do prédio do Teatro Municipal.
segurança para todo o bairro do Alecrim. Nós queremos a calçada padronizada. É por isso que eu estou defendendo. Porque vi com essa iniciativa a possibilidade de salvarmos o Alecrim e fazermos com que o Alecrim continue com o seu destino de oferecer trabalho, salário para o nosso povo. (TV CÂMARA, 2017)
À medida que essas afirmações vão somandose ao corpo de “propostas” defendidas e agenciadas pela Prefeitura, também abrem espaço para questionamentos cada vez mais aprofundados. Ao existir recursos privados destinados a intervenções sobre o espaço público, qual modelo de cooperação seria adotado? Tratar-se-ia de uma Parceria Público-Privada? Se sim, com qual respaldo legislativo ela poderia acontecer? Há desejo e aprovação popular ou respaldo técnico que legitime esse tipo de intervenção?
Ainda nessa audiência, não se apresentam projetos de nenhuma natureza, sejam estudos ou propostas urbanísticas, muito embora o prefeito anuncie em seu discurso uma série de intervenções que estariam sendo desenvolvidas em parceria com o Grupo 25:
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Nós vamos ter, não com recursos da Prefeitura, mas com recursos do empreendimento, uma nova praça Gentil Ferreira, resgatada, bonita [...]. Nós queremos as câmeras de
Notícia publicada no dia 25 de março de 2017. Portal NoMinuto
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Manifestação Salve o Alecrim. Imagens: Tribuna do Norte
A partir de setembro de 2017 se dá início a uma nova fase do processo, caracterizada por confrontos diretos entre a Prefeitura do Natal e os trabalhadores informais organizados no Movimento “Salve o Alecrim”. É justamente nesse período, de 21 a 29 de setembro, que se concentram o maior número de publicações, totalizando 25, e aproximadamente 31% do total de notícias. No dia 21 do referido mês o Novo Jornal publica a seguinte manchete: “Prefeitura vai iniciar operação para retirada de ambulantes das ruas do Alecrim”, evidenciando o protagonismo que o poder público estava assumindo. Em entrevista ao Jornal Tribuna do Norte, o secretário de Serviços Urbanos, Jonny Costa, declarou que no dia 25 de setembro seria realizada uma reunião com os trabalhadores que atuam na Av. Presidente Bandeira, para “apresentar o projeto de reurbanização pensado para o bairro” (SILVA, 2017). Também se anunciou que as obras de reestruturação das calçadas teriam início no dia 07 de outubro. A partir da certeza de sua efetivação, o secretário afirmou ainda: Esse trecho está dentro de um projeto maior de revitalização e modernização urbanística do perímetro comercial do Alecrim. Em breve as intervenções serão ampliadas para outros locais, na medida que a Semurb (Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo) for concedendo as licenças autorizando as intervenções (SILVA, 2017).
Há uma mudança significativa no desenvolvimento do processo: anteriormente, algumas modificações no bairro do Alecrim haviam sido apresentadas – muito embora apenas enquanto discurso – e se havia citado os ambulantes e camelôs. Nesse momento, mesmo sem 37
Novo Alecrim. Powerpoint do G25, 2017.
qualquer participação pública, os referidos “projetos de modernização” já teriam sido aprovados pela Prefeitura do Natal, e a retirada dos trabalhadores informais é indicada como certeza, cabendo aos atingidos comparecerem à reunião apenas para serem informados de como proceder. A partir daí, se reforçará, por um lado, a imagem de que os ambulantes que ocupam as calçadas estariam impedindo as condições de acessibilidade e trânsito de pedestres. Na mesma entrevista, o secretário não hesita em comentar sobre os interesses privados que norteiam as modificações no bairro: “A prefeitura estabeleceu uma relação com o grupo empresarial e empresário não investe sem previsão de retorno. Então estão investindo em uma área da cidade por acreditarem no retorno, estão
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expandindo o negócio deles” (SILVA, 2017). Adiciona-se, portanto, à narrativa dominante, a ideia de que os camelôs e ambulantes representam uma ameaça à tão sonhada “modernização” que traria benefícios para toda a cidade. Nesse sentido, as notícias publicadas vêm a reforçar o discurso de estigmatização social dos trabalhadores informais, no intuito de deslegitimar suas reivindicações a partir de duas estratégias principais. Primeiramente, ao longo de todo o período estudado, as notícias não fazem uma só menção ao Movimento “Salve o Alecrim”. Ou seja, conforme a versão da mídia, não há movimento social organizado, com pautas que começam a se delimitar e com reivindicações claras; não se reconhece
o papel social desses atores no conflito em questão. Em segundo lugar, frequentemente os ambulantes e camelôs estão associados a palavras como “tumulto” e “boicote”, o que fica claro com uma rápida consulta às manchetes das notícias. José de Anchieta, presidente da Associação de Ambulantes de Natal, comentou: “nós não fomos chamados para discutir essa proposta, hoje eles já querem apresentar. Não somos contra o reordenamento, mas a forma como é o diálogo” (REUNIÃO..., 2017).
então é justo que a reunião seja com todos. Se eles marcarem em um lugar que comporte todos os ambulantes, vamos comparecer” (CECI; SILVA, 2017). Mesmo assim, a Prefeitura manteve seu posicionamento e estabeleceu o dia 5 de outubro como data limite para que os comerciantes informais deixassem seus postos de trabalho. Foi realizada uma nova audiência pública na Câmara de Vereadores em 28 de setembro, em atendimento ao requerimento aprovado anteriormente.
O Movimento articulou, em 26 de setembro, um protesto em frente à sede da Câmara Municipal de Natal. No ato, os trabalhadores reivindicaram apoio das lideranças do Poder Legislativo cobrando à Prefeitura o esclarecimento e detalhamento dos projetos que estariam em andamento, mas tiveram o acesso às galerias da Casa negado.
Durante a sessão, não houve apresentação de projetos urbanísticos ou arquitetônicos, nem explicações acerca da natureza específica das intervenções, como responsáveis, recursos previstos e prazos de execução. O que se apresentou foi um arquivo em formato powerpoint com maquetes que incluíam as intervenções a serem realizadas pelo Grupo 25.
Segundo reportagem do Portal Agora RN no dia 27 do mesmo mês, “empresários responsáveis por construção de shopping no bairro estão cobrando do prefeito a ‘extinção’ dos comerciantes informais” (PREFEITURA..., 2017). O Presidente da Associação de Camelôs do Alecrim disse: “se eles vão fazer um projeto que vai afetar a todos nós,
Também não se mencionaram quaisquer estudos urbanísticos ou sociais que pudessem justificar a necessidade da proposta, bem como qualquer avaliação dos impactos que ela pudesse acarretar na morfologia, ou na vida cotidiana da área em questão. Torna-se cada vez mais evidente, por outro lado, que todas as modificações propostas
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INTERVENçõES
N
Espaço Público readequação de passeios Av. Coronel Estevam Av. Presidente Bandeira R. Dr. Luiz Dutra
Rio Potengi
GRUPO 25
redesenho da Praça Gentil Ferreira + Relógio
Espaço Privado Outlet 25 Demais 33.000m² 1000 vagas 266 unidades comerciais
05 centros de compras 1700 unidades comerciais
11 10
1 9
2
3
1 Av. Pres. Quaresma 9 Av. Cel. Estevam 2 Av. Pres. Bandeira 10 R. dos Paianazes 3 Av. Pres. José Bento 11 Av. Manoel Miranda 40
até então – regularização de calçadas, reforma da Praça Gentil Ferreira, demolição do camelódromo e do Teatro Sandoval Wanderley, incluindo a retirada dos trabalhadores informais – serviriam prioritariamente para facilitar a construção dos centros comerciais do Grupo 25. Na data de 05 de outubro, o Portal Agora RN noticiou, entretanto, que a Prefeitura havia suspendido a retirada dos ambulantes (prevista para o dia 07) após a Justiça ter marcado uma reunião de “conciliação” (REBOLO, 2017). Até o fim de 2017, o Movimento Salve o Alecrim realizou nove reuniões, sempre na rua e após o horário de trabalho, com a participação das lideranças do comércio informal, de sindicatos, vereadores, e também lideranças do movimento estudantil. A articulação dos atingidos durante esse período foi um fator fundamental para estruturar a base de reivindicações, pressionar o apoio do Legislativo além de atuar para garantir a permanência dos trabalhadores informais até que houvesse maiores esclarecimentos sobre os referidos “projetos”. Mais uma vez, nesse período não houve menções ao “Salve o Alecrim”, ou às assembleias por ele realizadas, em nenhuma das notícias pesquisadas. Após a reunião de conciliação na 4ª Vara da Fazenda Pública realizada em 11 de outubro, foi gerado um acordo no qual a Prefeitura se comprometeu a reunir dados cadastrais dos ambulantes e tomar “demais providências necessárias ao efetivo dimensionamento da questão” (PROCESSO..., 2017). Foi suspensa a retirada dos trabalhadores pelo prazo mínimo de um mês. Na ocasião, mesmo tendo sido evitada a remoção às pressas dos ambulantes e camelôs, não se questionou a atuação do Poder Executivo em relação à formulação, aprovação e implementação dos “projetos urbanos”, muito menos a falta de qualquer processo licitatório ou proposta de Parceria Público-Privada a eles relacionados.
tterceiro erceiro a ato: t o: a após pós o ccaos, aos o ssilêncio ilêncio
Ainda em 13 de outubro, uma reunião na sede da SEMSUR resultou em um novo acordo. Ademais do cadastramento de ambulantes e camelôs acordado, a Secretaria sinalizou a possibilidade de remanejar os comerciantes informais para a área conhecida como Feira do Fogo, também no Alecrim. Seis dias após essa reunião, a Prefeitura iniciou tal cadastro. Em seguida a essa fase de reuniões e negociações, o Portal No Ar divulga uma série de sete matérias que abordam números de aceitação dos projetos em curso. Uma dessas notícias informa que “87% dos natalense aprovam o projeto de modernização do Alecrim”. Esses números foram obtidos a partir de uma pesquisa de opinião realizada pela empresa Perfil Pesquisas Técnicas, envolvendo 801 moradores das quatro zonas administrativas da cidade. Foi perguntado aos entrevistados se concordavam com o projeto de modernização do comércio do Alecrim, com a desocupação das calçadas e ruas, além da melhoria do centro comercial do bairro, com calçadas padronizadas e iluminadas, espaços para estacionamento, reforma da praça Gentil Ferreira e um novo e maior relógio do Alecrim. (87% DOS NATALENSES..., 2017) 41
Observa-se que as perguntas assumem as intervenções propostas como integrantes de um “projeto de modernização”. A pesquisa não leva em consideração o conhecimento das pessoas em relação à totalidade dessas intervenções, nem o uso ou afetividade dos respondentes com a área, mas utilizam-se de termos como “melhoria do centro comercial do bairro” e “calçadas padronizadas e iluminadas”. Não se questiona também sobre a origem desses projetos, a atuação do poder municipal, ou as tentativas autoritárias de retirada dos trabalhadores informais. Pelos próximos seis dias, outras matérias são publicadas no mesmo veículo, com títulos como “77% dos natalenses frequentarão mais o comércio do Alecrim se modernização for implantada”, e “Comerciantes do Alecrim comemoram aprovação de 87% da população, revelada pela pesquisa Perfil/Portal No Ar”. Diversos questionamentos caberiam acerca da formulação e aplicação dessas pesquisas, e da manipulação das informações, muito embora não seja esse um objetivo do presente trabalho.
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De todo modo, essas notícias, enfatizando as melhorias que o reordenamento traria para o bairro, adicionam à narrativa hegemônica um consenso sobre a execução dos referidos projetos. Além disso, apaga-se o movimento de resistência dos trabalhadores informais e se cria a noção de que eles também estariam de acordo com a remoção. Inclusive o então Prefeito Carlos Eduardo Alves se pronuncia na mídia no intuito de defender os projetos em curso. Em entrevista também para o Portal No Ar, o administrador municipal declarou que “a aprovação ao projeto que temos para o Alecrim, revelada pela pesquisa de opinião realizada pelo Instituto Perfil, nos deu a certeza de que estamos no caminho certo” (SEM MODERNIZAÇÃO..., 2017). Todavia, mesmo com a criação de um falso consenso onde toda a população estaria aceitando e apoiando as intervenções, o Movimento “Salve o Alecrim” continuou pressionando o poder público por esclarecimentos sobre o destino dos ambulantes e camelôs. No dia 10 de novembro é noticiado que os trabalhadores informais iriam permanecer em seus postos
Imagens da proposta alternativa Alecrim para Todos. Camila Nobre e Rayanna Guesc, 2017.
até 31 de janeiro de 2018. A decisão foi tomada após uma terceira reunião entre o movimento e a SEMSUR, tendo em vista o período de compras que antecedeu as festas de fim de ano. A Câmara Municipal viabilizou, em 06 de dezembro, uma sessão popular na Av. Presidente Bandeira, ao lado do camelódromo. Na ocasião, foi apresentado o projeto alternativo elaborado pelas arquitetas e urbanistas Rayanna Guesc e Camila Nobre. A proposta, prevendo a manutenção do comércio informal e do Teatro Municipal, previa adequação dos passeios e do tráfego de veículos na região central do bairro. Representantes da SEMURB e da SEMSUR comparecem às assembleias no Alecrim, assim como as lideranças que compunham o Movimento “Salve o Alecrim”. Em seguida a essa sessão, acompanha-se um período de silêncio, visto que a mídia não publicou outras notícias relativas ao tema. Após o prazo estabelecido pela Prefeitura, 31 de janeiro, não houve outras ameaças de remoção dos comerciantes informais. Apenas em março de 2018, a Tribuna do Norte noticiou, sem maiores esclarecimentos por parte da SEMSUR ou do Grupo 25, que os projetos estariam “parados por falta de recursos” (SILVA, 2018).
um u m cconfl onfl fliito ito eem m ttrês rês a atos t os
Por meio da sistematização das notícias que serviram como fontes de dados, foi possível reconstruir o desencadeamento do conflito sobre a ocupação do território do bairro, a partir do surgimento das propostas de intervenção em sua área central. O processo pode, assim, ser dividido em três momentos distintos, nos quais se identificam diferentes relações estabelecidas entre os atores envolvidos. Sua análise aponta, além disso, indícios para uma leitura crítica dos interesses com vieses neoliberais que sustentam as propostas apresentadas pelo Grupo 25. O primeiro desses períodos representa a tensão que se cria em torno das possíveis modificações nos espaços públicos e privados do Alecrim. Como se pôde observar, o setor privado atuou como propositor e também executor das intervenções, contando com o apoio do Poder Executivo Municipal, mesmo que essa parceria não seja institucionalmente anunciada. É Igualmente marcante a centralidade exercida pelo empreendimento privado – um conjunto de shopping centers – como símbolo de reestruturação, geração de emprego e renda para determinada área urbana, o que se alinha a uma agenda que trata a cidade como empresa, não como espaço socialmente produzido. Os números de lojas, quantidade de investimentos e atração
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de consumidores pautam as decisões que influenciam diretamente a gestão do território. A implantação dessa rede comercial foi colocada como prioridade mesmo que estivesse em seu caminho um bem público com valores culturais, históricos e comunitários, como é o caso do Teatro Sandoval Wanderley e seu edifício, ou a secular atividade do comércio de rua, tradicional no bairro. No plano da narrativa, se mostrou crucial a criação de uma imagem de decadência, abandono e caos para caracterizar o bairro do Alecrim, reforçando certo estigma social criado ao longo da história de Natal, para a partir disso justificar a necessidade e urgência de atrair investimentos para seu centro.
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No segundo, emergem os embates que acompanham as intervenções, precisamente quando se ameaça a retirada dos trabalhadores informais das ruas. Também central nesse momento foi o apoio conferido pela Prefeitura do Natal ao grupo empresarial privado, pois para o desenvolvimento satisfatório das ações, incluindo intervenções em espaços públicos, seria necessário
que a administração municipal tomasse a liderança e passasse a agenciar sua execução. Nessa fase de conflitos, o movimento social organizado despontou como agente, reivindicando sua posição também na qualidade de produtor do espaço da cidade. Como se observou, a narrativa dominante alegou que os comerciantes informais estariam impedindo um grande “projeto de modernização” para o Alecrim, apropriando-se indevidamente do espaço público. Essa imagem que transforma camelôs e ambulantes em “inimigos”, e esconde as inúmeras vulnerabilidades às quais estão sujeitos, se mostrou bastante útil para evitar a reflexão crítica e conquistar apoio popular que pudesse auxiliar a viabilização dos projetos. De fato, foi a organização social em torno do Movimento “Salve o Alecrim” que impulsionou espaços de discussão, inclusive com o apoio de alguns vereadores, e a possibilidade de negociação com a Prefeitura, resistindo à remoção que parecia imediata e inevitável. O terceiro e último período dos conflitos, caracterizado pelo impasse gerado após a resistência
Elementos de uma narrativa dominante. Produzido pelo autor, 2019.
dos trabalhadores informais, decorreu especificamente das estratégias de legitimação dos projetos. Dá-se continuidade ao apagamento da luta social, e com o apoio da mídia hegemônica, se cria um falso consenso sobre a aceitação dos projetos em questão. A narrativa continua a tratar dos benefícios que trariam os shoppings, os estacionamentos, câmeras de segurança e boulevards, mesmo que para isso fosse extinto o “camelódromo” e demolido o prédio do Teatro Municipal. Com pouco espaço para reflexão, o diálogo ou a participação popular, seguiram inquestionados pela grande mídia a legitimidade na elaboração das intervenções, que inclusive nunca chegaram a ser apresentados como projetos urbanos. Não se questionou o poder que se estaria legando ao poder privado de decidir, projetar e executar ações que impactariam coletivamente na vida urbana não só dos comerciantes atingidos, mas dos habitantes do bairro e da cidade de Natal. Incólume, a agenda neoliberal, que nasce nos interesses privados, foi apropriada pelo poder público, comprada pela mídia e forçada a ser aceita na opinião pública. Ao realizar-se por meio de uma narrativa hegemônica, a qual atua revelando e escondendo fatos à sua disposição, garantiu ainda o esquecimento das discussões sem que houvesse uma resposta definitiva, pelo Estado, das ações a serem tomadas a seguir.
Maldita Rua Eliana Kuster e Robert Pechman em O chamado da Cidade, 2014.
A criação do bulevar desata uma verdadeira disputa pela cidade. A disputa entre o bulevar e a rua funciona como uma metáfora da luta de classes. A rua não frequenta o bulevar, o bulevar não se atreve a passar pelas ruas. [...] O bulevar traduz o poder da elite, a rua exprime a força popular.
Precisamos matar a rua! Le Corbusier, 1929 Citado por Marshall Berman em Tudo que é Sólido Desmancha no Ar
Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por todos vós. Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povoados, não porque soframos, com a dor e os desprazeres, a lei e a polícia, mas porque nos une, nivela e agremia o amor da rua. É este mesmo o sentimento imperturbável e indissolúvel, o único que, como a própria vida, resiste às idades e às épocas. Tudo se transforma, tudo varia — o amor, o ódio, o egoísmo. Hoje é mais amargo o riso, mais dolorosa a ironia, Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste e fica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua. A rua João do Rio em A Alma encantadora das ruas.
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O I E D O R aR x
S E Õ Ç A R E D I CONS S A C I R T E Ó
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Alecrim Thiago Medeiros no livro Meio-Dia, 2018.
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No bairro do Alecrim, que continuamente tem se construído há pelo menos dois séculos, uma gama complexa de usos, apropriações, ritmos e gestos lhe confere a singularidade que transforma essa porção territorial - administrativa, cartográfica e cartesiana - em um lugar; lugar esse frequentemente incompreensível. Dizem-lhe a todo o tempo: caos! desordem! sujeira! De certo, a multiplicidade morfológica e funcional aí característica também gera numerosos conflitos, incongruências, e marca a vida de seus habitantes. Talvez a chave para efetuar a leitura do Alecrim esteja justamente na apreensão das contradições que ele carrega - e lhe dão vida: o camelódromo, lugar da informalidade e dos pontos de trabalho precário, ao mesmo tempo único meio de vida para centenas de pessoas; os ambulantes que preenchem as calçadas das principais vias, por sua vez ponto de destino e obstáculo
à passagem, o tráfego intenso de veículos, flanelinhas, consumidores, feirantes e moradores. E é essa primeira impressão que, além de influenciar observações sobre o Alecrim, também serviu como plano de fundo para justificar as intervenções apresentadas pelo Grupo 25 Empreendimentos para lhe redesenhar sua porção central. Segundo os idealizadores, era preciso limpar, organizar e estruturar o bairro para salvá-lo de uma inevitável decadência e morte. Sob a égide da modernização - palavra misteriosa, mágica e cheia de poder -, empreendeu-se a criação de uma narrativa hegemônica que pudesse legitimar a implantação de tal projeto. Esse discurso foi apropriado pelo poder público, disseminado pela mídia local e vendido à opinião popular, carregado de falácias, distorções e ocultamentos.
Ao se lançar um olhar mais atento, e quando se compara o Alecrim produzido, vivido e compartilhado com aquele representado pelos grupos dominantes, parece que estamos a tratar de dois lugares diferentes: ora é possível estabelecer conexões entre eles, às vezes se justapõem, até que tornam a assumir conotações invariavelmente distintas. Como pode, um mesmo conjunto de elementos espacialmente localizados, dotados de materialidade e subjetividade, parecerem tão irreconhecíveis entre si - a depender de quem o representa? O que essa problemática torna visível, inicialmente, é o confronto entre diferentes dimensões, ou lógicas espaciais.
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A PRODUÇÃO DO ESPAÇO COMO LENTE DE LEITURA O filósofo Henri Lefebvre (2006) propõe uma compreensão do espaço a partir de sua produção, fundamentalmente atada à uma realidade social: o espaço não existe “em si mesmo”, ele é produzido. Lefebvre articula espaço e tempo como produtos sociais, dividindo a produção do espaço em três dimensões ou processos dialeticamente relacionados. Nesse jogo, o espaço se manifesta a partir das práticas espaciais, das representações do espaço e dos espaços de representação. Por outro lado, essas noções se referem, nessa ordem, ao espaço percebido, concebido e vivido. O que querem dizer esses conceitos, e como eles podem nos auxiliar a endereçar a problemática aqui estudada?
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Lefebvre desenvolve uma leitura dialética tridimensional (SCHIMD, 2012): a prática social é tomada como ponto de partida da vida; em seguida, articulam-se
conhecimento e palavra a esta prática, que finalmente é dotada de sentido pelo simbólico, o desejo e a poesia. Essa compreensão tridimensional “postula três momentos de igual valor que se relacionam entre si por meio de relações variadas e movimentos complexos em que ora um, ora outro, triunfa sobre a negação de um ou de outro” (SCHMID, 2012, p. 96). Os seis conceitos apresentados anteriormente podem ser lidos, dentro dessa perspectiva, a partir de duas matrizes. As práticas espaciais, as representações do espaço e os espaços de representação organizam-se em torno de uma matriz linguística, ou seja, de como as sociedades dão conta de comunicar o espaço. Já as noções de espaço percebido, concebido e vivido dizem respeito a uma matriz fenomenológica, ou sobre como os sujeitos relacionam-se com a produção desse mesmo espaço. A seguir comentamos essas concepções a partir da
New Babylon Desenho: Constant Nieuwenhuys
problemática em questão. Quando a administração pública municipal incentiva a disseminação de uma imagem sintética onde o Alecrim aparece em decadência, ou quando o grupo empreendedor apresenta uma série de propostas de redesenho sem o mínimo lastro analítico, talvez estejamos diante de exemplos empíricos de um espaço apenas em sua dimensão do concebido. Apoiado em “lógicas puramente formais”, o concebido se relaciona com as representações do espaço, sempre “dominantes numa sociedade” (LEFEBVRE, 2006, p. 66). As representações conceptualizadas frequentemente abarcam finalidades e lógicas totalizantes pois são as descrições, definições e teorias que se fazem sobre o espaço. Essas lógicas, por sua vez, diriam respeito ao modo de produção capitalista, e dado o atual momento histórico, ao próprio processo de globalização. Desse
modo, o concebido e as representações estariam mais próximos de revelar uma ordem distante - constructo mental - e escalas outras de ação: regionais, nacionais, mundiais. No caso aqui estudado, o discurso dominante parte do pressuposto que o bairro do Alecrim pode ser descrito e compreendido unicamente a partir de sua sujeira e desordem, e que esse mesmo espaço deveria ser de um determinado modo: possuir certas edificações, outros usos, outra paisagem, outras pessoas. Estabelece-se aí uma relação de confronto entre o Alecrim constructo mental - reproduzido por grupos hegemônicos - e o Alecrim praticado - lugar de reprodução da vida cotidiana. O percebido, apreendido por meio dos sentidos, “relaciona-se diretamente com a materialidade dos elementos que constituem o espaço” (SCHIMD, 2012, p. 102). É pelo percebido que se acessam as práticas espaciais, ou os modos operacionais com que a sociedade, ao reproduzir-se, molda morfologicamente um determinado lugar. Nessa dimensão, ainda conforme Schimd (2012, p. 100), o espaço é “uma cadeia ou rede
de atividades ou interações interligadas, as quais por sua parte residem sobre uma base material determinada”. Pensar o bairro do Alecrim como um ponto central para o comércio na cidade de Natal, e como ele se insere nesse fluxo econômico revela ao mesmo tempo onde se situa essa atividade no modo de produção capitalista, bem como o modo como os habitantes constroem naquele espaço seu dia-a-dia a partir desse mesmo contexto. Esse Alecrim, diariamente percorrido, experimentado e contestado por seus habitantes, também revela a dimensão do vivido, distanciado dos saberes tecnocratas. Conforme aponta Lefebvre, “o espaço do usuário é vivido, e não representado (concebido) [...] o espaço das performances que realizam quotidianamente os usuários [...] Espaços de ‘sujeitos’, e não de cálculos” (LEFEBVRE, 1974, p. 418 apud NASCIMENTO, 2013, p. 54). Esse espaço vivido provavelmente desafia as concepções sobre ele criadas; aí, preenchido por corpos, memória, gestualidades, o espaço é apropriado. “Sempre permanece um excedente, um remanescente, o indizível, o que não é
O espaço concebido Produzido pelo autor, 2019
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passível de análise apesar de ser o mais valioso resíduo, que só pode ser expresso por meios artísticos” (SCHIMD, 2012, p. 102). É no vivido que se invertem as representações do espaço e onde se possibilita que ele seja um espaço de representação: aí afloram símbolos, mitos, valores e experiências sociais que transmitem, pelo espaço, significados. Acontece que esses diferentes Alecrins de que estamos a falar, traduzidos até então como categorias conceituais, na verdade não passam de um só. O espaço é, ao mesmo tempo, percebido, concebido e vivido. Clewton Nascimento (2013) atenta para a relação de mutualidade que se estabelece entre o espaço vivido e o espaço concebido, pois a reprodução do cotidiano e da totalidade se coimplicam. “Nenhuma dessas dimensões pode ser imaginada como a origem absoluta, como ‘tese’, e nenhuma é privilegiada. O espaço é inacabado, assim, ele é continuamente produzido e isso está sempre ligado com o tempo” (SCHIMD, 2012, p. 106).
Seja como for, os lugares não se justapõem somente no espaço social, em contraste com aqueles do espaço-natureza. Eles se interpõem; se compõem, eles se superpõem e às vezes se chocam. O resultado é que o local (o “pontual”, determinado por tal ou tal “ponto”) não desaparece, absorvido pelo regional, pelo nacional, pelo próprio mundial. O nacional e o regional englobam muitos “lugares”. O espaço nacional engloba regiões; o mundial não apenas envolve espaços nacionais, mas provoca (até nova ordem) sua formação, num notável fracionamento. (LEFEBVRE, 2006, p. 131-132).
Nascimento bem resume a compreensão acerca da produção do espaço a partir de Lefebvre:
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A produção do espaço apresenta-se, portanto, como um processo, a partir de uma ordem socialmente construída, resultando da condensação de sucessivas aproximações entre uma ordem próxima - constructo social - e uma ordem distante - constructo mental. Nesse processo de ir e vir, onde não são abolidas as ordens intermediárias, a aproximação - ou proximidade física, espacial e temporal - aparece mais como uma convergência e uma
A tríade dialética de Lefebvre Produzido pelo autor, 2019.
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Nesse sentido, há que se atentar para a mutualidade que se estabelece entre essas diferentes dimensões. Particular e geral, local e global não estão dissociados, mas em uma constante relação dialógica:
O espaço vivido. Produzido pelo autor, 2019.
O espaço diferencial. Produzido pelo autor, 2019.
simultaneidade em que o próximo e o distante coexistem, do que em uma oposição entre coisas distintas. (NASCIMENTO, 2013, p. 51, grifo do autor).
Ou seja, não se pode perder de vista o entendimento de que a vida cotidiana está imersa em uma lógica dominante (que inclusive perpassa outras escalas) entretanto não é por ela totalmente suprimida. Desse diálogo conflituoso, onde “fluxos múltiplos atravessam o espaço” (LEFEBVRE, 2006, p. 132), emerge a possibilidade de transformação social em um espaço diferencial, onde e as ordens próxima e distante se inter-relacionam e mutuamente se designam.
De modo que o espaço abstrato, em que pese sua negatividade (ou melhor, em razão dessa negatividade), engendra um novo espaço, que terá o nome de espaço diferencial. Por que? Porque o espaço abstrato tende para a homogeneidade, porque ele reduz as diferenças (particularidades) existentes, e porque o espaço novo só pode nascer (ser produzido) acentuando as diferenças. (LEFEBVRE, 2006, p. 84)
Apesar dessa simultaneidade, relembramos que as representações do espaço permanecem dominantes em qualquer sociedade ou modo de produção, e estando vinculadas às relações de produção, dizem respeito a “[...] espaços conceptualizados, o espaço de cientistas, planejadores, tecnocratas e engenheiros sociais [...]” (LEFEBVRE, 2006, p.
66). Ora, dispondo dos meios de comunicação de massa, da publicidade e dos meios de atuação política, os grupos dominantes têm facilidade em disseminar suas visões de classe, interpretações e representações sobre o espaço, e, no caso aqui estudado, vão assim construindo uma narrativa que se difunde de maneira hegemônica sobre a opinião pública. Este Trabalho Final de graduação segue, então, na contramão da simples aceitação de um imaginário imposto por tais discursos, questionando inicialmente a suas raízes e desdobramentos no âmbito do planejamento urbano. Para além disso, propõe - e realiza, percorre - um posicionamento alternativo que possa surgir exatamente a partir da experimentação do cotidiano, quando se desestabiliza o (pré)concebido e se vai em busca do espaço diferencial, de trajetos que possam desembocar em leituras e análises urbanas mais dissensuais.
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As cidades e o planejamento urbano na virada do século
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Discutir a produção do espaço urbano na atualidade se relaciona essencialmente ao momento vigente de expansão do capitalismo, pois “o modo de produção organiza - produz ao mesmo tempo que certas relações sociais, o seu espaço” (LEFEBVRE, 2006, p. 13). Portanto, tratar dessa relação implica refletir sobre as tendências que guiam a expansão do sistema produtivo. Neste sentido, se pode tomar o processo de globalização como “fio condutor que nos possibilita compreender em que termos se efetua a redefinição da cidade e da urbanização [...]” (CARLOS; SOUZA; SPOSITO, 2018, p. 13). Se é verdade que estamos diante de uma redefinição, significa que algo aconteceu com/na cidade e com/na urbanização, e essa transformação demanda também um novo entendimento sobre esses termos. Assim, de que maneira a globalização atuou em nosso sistema produtivo - e
consequentemente em nossas cidades - que viria a causar essa mudança de paradigma? Para Ana Fani Alessandri Carlos (2018), a crise no processo de acumulação coincidiu com a extensão do mundo da mercadoria: “a expansão da propriedade privada do solo urbano e da terra, que transforma a cidade inteira em mercadoria vendida no mercado” (p. 60-61) reorientou o uso do lugar. Os espaços da cidade, tornada mercadoria, se impõem sobre as relações sociais a partir de seu valor de troca, em detrimento do valor de uso. Em escala mundial, esse processo se desenvolve a partir da crise do modelo fordista de produção, notoriamente nos países industrializados, o que viria a representar diversas ameaças à continuidade de acumulação de capital e aos privilégios da burguesia, conforme aponta David Harvey (2006). Em 1989, com
Arena das Dunas Imagem: Populous Architects
a realização do Consenso de Washington, e sob forte influência da Escola de Chicago, formulou-se uma agenda que posteriormente viria a constituir o Neoliberalismo - doutrina econômica que “surge como resposta àquelas ameaças” (HARVEY, 2006, p. 13, tradução nossa). Naquele momento, uma série de recomendações foram endereçadas aos governos em todo o mundo no intuito de “otimizar as condições para a acumulação de capital, não importando as consequências para o bem estar-social ou o emprego” (HARVEY, 2006, p. 25, tradução nossa). Aos poucos, medidas que incluíam disciplina fiscal, redução dos investimentos públicos, abertura a investimento estrangeiro direto, afrouxamento de leis trabalhistas e liberdade absoluta ao capital privado, foram disseminando-se ao longo da década de 1990, com desdobramentos sobre o planejamento
urbano em macroescala. Conforme aponta Ermínia Maricato, a Conferência da ONU para os Assentamentos Humanos - Habitat II, em 1992, foi um acontecimento simbólico pois ali planos e projetos urbanos surgiam em perfeito alinhamento ao ideário neoliberal, por meio de uma “receita para as cidades se adequarem aos novos tempos de reestruturação produtiva no mundo” (2001, p. 57). Nesse contexto, estaríamos diante de uma nova questão urbana. Carlos Vainer (2009) afirma que nesse período se formula o planejamento estratégico, um modelo que concorre para ocupar o espaço vazio deixado pelo urbanismo modernista. Acerca disso, João Sette Whitaker Ferreira (2010) comenta que o planejamento funcionalista decorrente do modernismo foi sendo substituído por um “gerenciamento das cidades supostamente mais ágil para enfrentar os problemas da obsolescência urbana. Ou em outras palavras, mais eficaz para integrar as cidades à lógica da economia financeirizada e globalizada” (p. 125). Com o desenvolvimento do planejamento estratégico, a nova questão urbana vem a se estruturar justamente em torno da produtividade e competitividade entre cidades. Vainer (2009), em concordância com Maricato (2001), aponta que a difusão desse modelo se inicia ainda durante a década de 1990, passando a ser incentivada por diversos organismos multilaterais (como o Banco Mundial e a ONU-Habitat) após o sucesso das experiências na cidade de Barcelona e a produção de Jordi Borja e Manuel Castells por meio trabalhos teóricos, análises e planos urbanísticos por eles elaborados. Quando a liberalização do mercado preside o desenvolvimento da economia global e a privatização, e os mercados financeiros se tornam rotina, as cidades necessitam: competir pelo investimento de capital, tecnologia e competência gerencial; competir na atração de novas indústrias e negócios; ser competitivas no preço e na qualidade dos serviços; competir na atração de força de trabalho adequadamente qualificada. (World Economic Development Congress & The World Bank, 1998 apud VAINER, 2009, p. 77, grifo do autor).
De que maneira, entretanto, veio a se materializar o planejamento estratégico nas cidades ao redor do mundo globalizado? Ferreira (2010) elenca como símbolos desse padrão de intervenção baseado em “grandes projetos” as grandes obras ditas revitalizadoras de centros urbanos, a construção de centros de convenções e de negócios, museus, salas de espetáculos, arenas esportivas, aeroportos. E por que não incluir a essa lista de empreendimentos os arranha-céus de escritórios e moradias de luxo e o shopping center? Tais investimentos ganhavam toda sua potencialidade lucrativa quando associados a jogos olímpicos e exposições universais. Em uma simbiose de interesses políticos e imobiliários, esse novo paradigma de urbanização transformava os espaços obsoletos e degradados decorrentes da reestruturação produtiva em fantásticas oportunidades para a realização do capital (FERREIRA, 2010, p. 125, grifo nosso).
O autor chama atenção para um antagonismo que se colocava diante das administrações municipais: de um lado, as conquistas trazidas pela Constituição de 1988 - como o estabelecimento da função social da propriedade, que direcionaria as políticas no rumo da democratização do espaço - e por outro, as tentadoras oportunidades “de deixar nas cidades ‘marcas’ de modernização para os governantes que decidissem promover a aproximação público-privada na condução de projetos de “renovação” urbana calcados nos interesses do capital” (p. 127).
A metrópole entre o neoliberalismo e o comum. João Tucci Filho e Felipe Magalhães, 2017
Há um fortalecimento progressivo de formas de operação e realização do neoliberalismo a partir do Estado. [...] Não existe neoliberalismo sem Estado. Trata-se de um modelo de governo e de estruturação do poder na sociedade que opera a partir de ajustes regulatórios que abrem terreno para processos econômicos diversos.
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A mobilização de estratégias discursivas para o sucesso do modelo
O planejamento estratégico possui um projeto teórico e também político, e sua capacidade de difusão, de acordo com Vainer (2009), está diretamente relacionada à mobilização de estratégias discursivas. Segundo ele, esse discurso funciona a partir de três analogias constitutivas: “a cidade é uma mercadoria, a cidade é uma empresa, a cidade é uma pátria” (p. 77). Tais analogias são empregadas para construir um projeto de cidade que se funda na “apropriação da cidade por interesses globalizados e depende, em grande medida, do banimento da política e da eliminação do conflito e das condições de exercício da cidadania” (p. 78). Comentando acerca do contexto brasileiro, Ferreira (2010, p. 124) afirma que, ao ser incorporado no país, adotava-se a “[...] submissão absoluta ao mercado” e que após provas em cidades do capitalismo central, “passava a ser importado para nossa realidade, na velha tradição das ‘ideias fora do lugar’” . Uma vez que a produção de narrativas é um ponto central no desenvolvimento deste trabalho, iremos nos deter, embora brevemente, sobre as analogias que, segundo Vainer (2009), fundamentam os discursos do modelo de planejamento do qual estamos a tratar. 56
Global Cities Imagem: Richard Longworth
É possível observar, portanto, que alinhadas a um ideário neoliberal globalizado, essas posturas urbanísticas têm impactado a formulação de políticas e o desenvolvimento de projetos em diversas cidades ao redor do mundo. Mobilizando estratégias discursivas para legitimar-se e se disseminar, frequentemente representam uma ordem distante: imperativos de reprodução do capital, fluxos internacionais de informações; em suma, processos relativos a outras escalas espaciais, e que frequentemente ignoram as particularidades, a história e a vida cotidiana dos habitantes. Poderíamos dizer, por isso, que as intervenções elaboradas pelo Grupo 25 são de fato uma reprodução do planejamento estratégico na cidade de Natal e no bairro do Alecrim? Não é objetivo deste trabalho responder a tal questionamento. O que queremos enfatizar, de todo modo, é que as intervenções inserem-se nesse contexto - econômico, político e cultural - e estabelecem com ele relações de proximidade. Inclusive, como se pôde constatar, não se foi apresentado nenhum plano ou projeto arquitetônico/urbanístico. O material apresentado pelos investidores e pelo poder municipal resumiu-se a uma série de slides em formato powerpoint.
a cidade é uma mercadoria Para o planejamento estratégico e seus consultores, a cidade se converte em um bem a ser privatizado e dele se obter lucro, quando vendida a um mercado consumidor. Neste sentido, assume papel central a articulação de marketing alinhada a construção de uma imagem da cidade. O Plano Estratégico do Rio de Janeiro (s. d., p. 50 apud VAINER, 2009, p. 82) por exemplo, encara enquanto problema a “forte visibilidade da população de rua”. A preocupação central não está nas precárias condições de vida dessas pessoas, muito menos às profundas desigualdades que as geram, mas sim como elas aparecem e mancham a imagem de uma cidade limpa, segura e pacificada.
a cidade é uma empresa Aliada à noção de que a cidade é uma coisa, um objeto mercantilizado, coexiste uma outra onde ela aparece como um sujeito: ser uma empresa. “As grandes cidades são as multinacionais do século XXI” (BORJA; CASTELLS, 1997 apud VAINER, 2009 p. 84). Nesse intuito, se desenham novos papéis legados à atuação estatal: ela não deve desaparecer, mas antes de tudo, colocarse ao dispor dos interesses dos agentes privados. Dentro desse contexto, o que se está redefinindo é o conjunto da cidade e do exercício do poder entre seus habitantes.
Lucro (Descomprimido) Baiana System, 2016
Tire as construções da minha praia Não consigo respirar As meninas de mini saia Não conseguem respirar
Especulação imobiliária E o petróleo em alto mar Subiu o prédio eu ouço vaia
a cidade é uma pátria Para se instaurar a noção de cidade como uma empresa, é necessário operar uma negação contundente à sua existência como espaço político. Nesse intuito, o planejamento estratégico exige a unificação da cidade em torno de um projeto: surge então a necessidade do consenso. Naturalizando-se a transformação da cidade em sujeito, não há espaço para conflitos, dissensos: “a cidade compete, a cidade deseja, a cidade necessita” (p. 91). Primeiramente, as cidades estariam todas sujeitas a uma crise em diversos setores. Para superá-la haveria um caminho único: a aliança com os setores privados e seus interesses. Desenvolver um sentimento de patriotismo se torna elemento fundamental nessa construção de narrativa: o sentimento de crise pode ser passageiro, mas um consistente patriotismo cívico, manifesto por estruturas visíveis e monumentais, garantiria o lastro sobre o qual se poderia legitimar o planejamento estratégico.
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a cidade espetáculo: limites e possibilidades
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Em resumo, a cidade se mercantiliza e, na contemporaneidade, o espaço urbano está sujeito a reduzir-se ao seu valor de troca em um mercado cada vez mais globalizado. Outros termos também são amplamente utilizados no meio acadêmico: cidade-museu, cidade genérica, cidade-parque-temático, cidade-shopping, todos eles “faces de uma única moeda: a mercantilização espetacular das cidades” (JACQUES, 2008, p. 48). Todos esses desdobramentos citados anteriormente fazem parte de um processo contemporâneo mais vasto, a espetacularização urbana ou cidade-espetáculo (SÁNCHEZ, 2003; RIBEIRO, 1992). Segundo Fernanda Sánchez (2003) em concordância com o pensamento de Vainer (2009), a lógica do planejamento estratégico perpassa a produção de uma imagem de cidade, imagem essa clara, sintética, “de marca”, de fácil compreensão e
consequentemente, venda. Assim, poderíamos dizer que a cidade-mercadoria-empresa-pátria é ainda convertida em cidade-imagem (nesse processo, vale a pena refletir sobre o que é omitido, negligenciado e o que é destacado para se atingir a imagem sintética) e daí decorre a analogia ao espetáculo, segundo a noção de Guy Debord: “o espetáculo não é uma coleção de imagens; mas sim uma relação social entre pessoas mediatizada por imagens” (2003, p. 04). De maneira contundente, Sánchez comenta: Na cidade-espetáculo o permanente acionamento de imagens urbanas como estratégia legitimadora do poder constitui-se em afirmação da aparência, da vida social como aparência. A presença avassaladora de imagens na vida cotidiana a transforma na própria realidade. Esse processo neutraliza o espírito crítico e promove o isolamento social. [...] É notável o papel dos meios de comunicação nessas cidades-espetáculo, como indutores de relações sociais, como
Performance Cegos, Foto: Catarina Santos, 2013
produtores da não-comunicação por meio do bloqueio à reação, à resposta, assegurando a persuasão ideológica em torno ao projeto dominante de cidade. (SÁNCHEZ, 2003, p. 495).
Espetacularizada pela lógica mercadológica e pelos projetos urbanos que a seguem, na cidade a cada dia proliferam espaços homogêneos, tipificados, e cenográficos, que por sua vez esterilizam a experiência das pessoas (JACQUES, 2012). Mesmo que os ditames da ordem distante não esmaguem ou por completo eliminem as particularidades do que se insere na ordem próxima, buscam a todo o tempo controlá-la, pacificá-la, em um processo essencialmente conflituoso. Ainda para Jacques: Os atuais projetos urbanos hegemônicos orientam-se por uma mesma estratégia: espetacular, asséptica e homogeneizante. Buscam construir consensos, anestesiar desejos, através da hegemonia de uma forma, geralmente a publicitária, de produção
de subjetividades. (2012, p. 194-195).
Essa é uma das questões centrais para Eliana Kuster e Robert Pechman na obra O Chamado da Cidade (2017). Refletindo sobre o desmanchamento da solidariedade nas cidades contemporâneas, os autores afirmam: Essa cidade que se purifica cada vez mais, tendo já absorvido os princípios higienistas do século 19, experimenta agora a purificação em relação a toda uma parcela de gente que, contaminada pelos “males urbanos”, ameaça com suas estranhas maneiras de ser e viver. [...] A diferença agora é que existe um conjunto de pessoas que em nome da segurança[...] apostam na ação individual, desprezando o convívio com o outro. (2012, p. 194-195).
A espetacularização das cidades, tendência observada a nível mundial, é percebida e vivida pelos habitantes em suas vidas cotidianas. Esse processo, revelando dinâmicas políticas e econômicas, atua também diretamente nas subjetividades, no compartilhamento da esfera pública, na urbanidade. O que os ditames do planejamento estratégico, ou de uma cidade-espetáculo afirmam é, portanto, o dilaceramento dos laços sociais em prol do consenso, da hegemonia do valor de troca como objetivo único da existência da cidade. A emergência desse modelo, calcada no evitamento, remete diretamente para o fenômeno da privatização que é característico do neoliberalismo. Toda a mobilização em torno de limpar, purificar o espaço urbano, acontece em paralelo à diminuição do poder que a própria cidade resguarda. “Mas qual é o poder da cidade que difere do espetaculoso poder bélico da violência? É o poder de produzir relações, de obrigar à negociação, de acolher o conflito. É o poder
de ser o lugar da esfera pública, mas não só o lugar, é a própria condição de existência dela” (KUSTER; PECHMAN, 2017, p. 19). Todo o processo de elaboração de propostas para o bairro do Alecrim, inserido nesse contexto, possui como tema central a leitura de uma parte da cidade, e a proposição de como ela deveria ser. O caminho ali vislumbrado perpassaria então pela eliminação do outro e do conflito que ele representa. Ambulantes e camelôs, pequenos prestadores de serviços, prostitutas, taxistas, toda uma rede de funcionamento e de solidariedade, são representados apenas como aqueles que ali não deveriam estar. As inúmeras contradições que incentivam sua permanência naquele lugar, entretanto, não são colocadas em questão: a precarização das relações trabalhistas, a segregação socioespacial generalizada, a negação de direitos básicos fundamentais fruto de uma agenda neoliberal empreendida em diversas escalas de gestão pública. É necessário afirmar o seu contrário, que a cidade - e a experiência de cidade - é muito mais que isso. Mas como?
Uma cidade triste é fácil de ser corrompida uma cidade triste é fácil ser manipulada No contra-ataque da guerra, arte! pra não viver dando murro em ponta de faca. No contra-ataque da guerra, arte! ninguém nessa terra vai comer farinata Revólver Flaira Ferro, 2019
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A Ç N A D AN x
S E Õ Ç A R E D CONSI S A C I G Ó L O D M E TO
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Quando as imagens tomam posição Georges Didi-Huberman, 2017
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Para saber é preciso tomar posição. Gesto nada simples. Tomar posição é situar-se pelo menos duas vezes, em pelo menos duas frentes que toda posição comporta, pois toda posição é, fatalmente, relativa [...]. Para saber é preciso tomar posição, o que supõe mover-se, e constantemente assumir a responsabilidade de tal movimento. Esse movimento tanto é aproximação quanto afastamento: aproximação com reserva, afastamento com desejo.
Nos capítulos anteriores, discutimos
seria possível comunicar essas alternativas?
como as intervenções apresentadas pelo
E se sim, de que maneira? É em torno desses
Grupo
questionamentos que o presente capítulo se
25
buscaram
legitimar-se
pela
criação de uma narrativa hegemônica. Em
estrutura.
seguida, vimos que essas práticas, longe de
Inicialmente, lembremo-nos do que
acontecerem isoladas, fazem parte de um
propõe Lefebvre (2006) ao afirmar que, de
contexto que mobiliza ideários e um conjunto
maneira contraditória, as representações do
de
-
espaço, embora dominantes, são incapazes
guardadas as devidas proporções escalares e
de destruir os espaços de representação.
diferenças culturais. A cidade espetacularizada
Assumir essa relação nos coloca diante
influencia certas limitações à vida de seus
do conflito: a partir dele seria possível uma
habitantes: a proliferação do medo, utilizado
transformação social profunda, emergindo
para engendrar a produção de espaços
o espaço diferencial, onde se valorizam e
privatizados, a diminuição do papel do espaço
acentuam as diferenças.
(e do poder) público, a segregação sócio-
Ivaldo Lima reiteram:
ações
urbanísticas
mundializadas
espacial como regra. Situando a problemática em curso no bairro do Alecrim nesse cenário, questionamos: há alternativas de se escapar à lógica homogeneizante? Para além disso,
Ester Limonad e
A novidade está em sua proposição de resgatar o valor de uso, e a apropriação social do espaço em contraposição à dominação do espaço abstrato. Trata-se de lutar pela transformação social e por conseguinte há que se lutar por criar um espaço diferencial.
(LIMONAD; LIMA, 2003, p. 20)
Para Ana Clara Torres Ribeiro, “As esperanças, que também são das Ciências Sociais, passaram a ser procuradas na vida em sociedade, ou seja, naquelas práticas que indicam a manutenção, ainda que tênue e sofrida, da solidariedade” (RIBEIRO, 2005, p. 413). Acompanhando essa pista, sustentamos que essas práticas cotidianas existem, insistem e resistem nas cidades contemporâneas. Para alcançá-las, é preciso, de todo modo, ter olhos para ver e ouvidos para ouvir; mobilizar outros modos de pensamento e de ação que subvertem o hegemônico e fazem vir à tona os elementos que permanecem na invisibilidade, no anonimato. A socióloga reflete que as transformações recentes na vida urbana são experimentadas de maneira “inconclusa,
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parcelar, seletiva e destrutiva” (2005, p. 411), como reflexo de uma
destacar que não nos ateremos a realizar uma discussão aprofundada
profunda crise na reprodução social - ou crise societária. Para a autora, as análises que partem dos macroelementos são de indubitável valor,
desses termos enquanto conceitos. O que nos interessa é seu potencial de prover as dimensões de análise ao indicar o acesso às microescalas, ao que se desenrola no dia-a-dia dos habitantes no bairro do Alecrim. Uma inquietação funda e acompanha esse processo: “podem o cotidiano, o lugar, a sociabilidade e a urbanidade resistir à
mas é preciso ir mais a fundo no cerne do “fazer sociedade”, e acessar o tecido social: É em busca do tecido social que se constata, por outro lado, a valorização contemporânea do cotidiano e do lugar. Procura-se, com a reflexão teórica, o correto enquadramento espaço-temporal da ação que resiste à destruição dos valores e das práticas que garantem a reprodução social (RIBEIRO, 2005, p. 411-412, grifo nosso).
De todo modo, há que se atentar para o risco de um isolamento teórico radical da escala local, que levando à certa idealização, afastaria o conhecimento da complexidade que caracteriza o urbano. Crucial, portanto, a correta consideração da transescalaridade que caracteriza a vida cotidiana, “na medida que, no micro, é possível reconhecer diferentes manifestações do macro” (RIBEIRO, 2005, p. 412). Esse pensamento se alia ao de Lefebvre (2006), quando propõe o entendimento da produção do espaço a partir da co-implicação de diferentes escalas e modalidades espaço-temporais. “Não se deve incorrer na imprudência de depositar nas aproximações escalares sucessivas um espécie de aproximação com a ‘verdade’” (LIMONAD; LIMA, 2003, p. 27), visto que se poderia incorrer em uma “vulgata localista”. Diante de tal cenário, Ribeiro propõe ainda: “[...] reconhece-se que a sociabilidade obriga o pesquisador a lidar com diagnósticos da totalidade social e, simultaneamente, a observar o muito pequeno, o detalhe, o sintoma que emerge no gesto aparentemente insignificante” (2005, p. 415, grifo nosso).
64
Dessa forma, no intuito de pautar a reflexão na valorização dos valores que garantem a reprodução social, assumimos o cotidiano e o lugar como fios condutores à realização do trabalho. Importante
financeirização das relações sociais, que acentua a insegurança no acesso às condições materiais e imateriais da vida urbana?” (RIBEIRO, 2005, p. 414). De que maneira, portanto, acessar o tecido social, seja de maneira teórica e metodológica; que caminhos trilhar para pensar, vivenciar e comunicar o lugar e o cotidiano como caminhos de pesquisa, e como elementos fundamentais de resistência à cidade espetáculo?
errar: o encontro com os outros urbanos
er.rar (errare) vtd 1 Cometer erro; não acertar. vti 2 Enganar-se. vint 3 Falhar. vint 4 Andar sem destino certo; vaguear.
público:
afastar-se
do
Estas alternativas passariam necessariamente pela própria experiência física da cidade, que é quase impossível ou totalmente artificial nas cidades espetacularizadas. E mais do que isso, passariam pela experiência corporal, sensorial, podendo ser até mesmo erótica, da cidade. Só a experiência sensorial, individual ou coletiva, que não se deixaria espetacularizar, não se deixaria reduzir a simples imagens (JACQUES, 2005, p.19, grifo nosso)
Jacques,
em
A experiência do corpo se coloca,
conjunto com o grupo de pesquisa Laboratório
assim, como mecanismo de apreensão e
er.ro (lat erro) caminho.
Paola
Berenstein
Urbano da Universidade Federal da Bahia, tem se dedicado à reflexão teórico-metodológica acerca da natureza complexa dos processos
também de resistência às lógicas de “partilha hegemônica do sensível” (2012, p.11). Para superar tais lógicas, na direção da construção de uma esfera pública realmente democrática,
urbanos contemporâneos. A autora sustenta
é preciso afastar-se dos lugares familiares
que, para resistir à espetacularização, há que
e ir ao estranhamento com as alteridades
se recorrer à experiência da cidade, ou seja,
- lembremo-nos do que diz Lefebvre sobre a
o contato físico com a rua, com o espaço
construção do espaço diferencial - que dão
outras outres outris outros outrus Produzido pelo autor, 2019
forma ao espaço urbano. Jacques propõe um tipo de ação cada vez mais rara, a experiência errática: uma atitude crítica e consciente de estar na cidade, percorrê-la, senti-la, caminhar pelas ruas sem um objetivo racional previamente estabelecido. “Errar é uma possibilidade de experiência da alteridade na cidade” (JACQUES, 2012a, p. 192). E ir em busca das alteridades significa justamente valorizar e reconhecer o Outro, o diferente: aqueles urbanos, que frequentemente são os alvos dos projetos de limpeza, controle e assepsia que são empreendidos em diversas cidades ao redor do mundo. O Outro urbano é o homem ordinário, praticante das cidades, que escapa – resiste e sobrevive – no cotidiano, da anestesia pacificadora [...] A radicalidade deste Outro urbano se torna explícita, sobretudo, naqueles que habitam ou constroem essas zonas
65
opacas das cidades: favelados, moradores de rua, ambulantes, camelôs, catadores, prostitutas, entre outros, que inventam várias táticas e astúcias urbanas em seu cotidiano. Aqueles que a maioria prefere manter na invisibilidade, na opacidade e, que, não por acaso, são os primeiros alvos da assepsia promovida pela maioria dos atuais projetos urbanos pacificadores, ditos revitalizadores. (JACQUES, 2012, p. 195-196, grifo nosso).
Esses outros urbanos, por meio de gestos que “costuram saberes à copresença” como diria Ribeiro (2005, p. 416), são a evidência também de uma outra cidade, não pacificada pelos projetos urbanos homogeneizantes.
o estado tado de corpo eerrante como procedimento Quem seria portanto, o errante? Como errar para apreender a cidade, mas não somente isso, para nas palavras de Jacques
O que se revela é uma cidade produzida por reinvenções dos modos de fazer, “táticas de resistência e de sobrevivência pelas quais [o habitante ordinário] se apropria do espaço urbano e assim habita o espaço público de forma anônima e dissensual” (JACQUES, 2012a, p. 195). Nesse espaço, aqui enxergado
“tornar o lugar praticado” (2012, p. 197) no intuito de dar visibilidade
em sua potencialidade diferencial, os conflitos se tornam visíveis e os falsos consensos são desafiados pelos habitantes das cidades na sua vida cotidiana.
que o homem habite o mundo (CARERI, 2013, p. 27). Na obra, se
às microrresistências que nele se manifestam? Foram muitos e diversos os que erraram pelas cidades mundo afora, o que poderia ser compreendido a partir de uma história das errâncias. O arquiteto italiano Francesco Careri, em seu livro Walkscapes (2013), aborda o caminhar como uma prática estética. Para ele, “[...] o caminhar transformou-se numa fórmula simbólica que tem permitido traça uma história do caminhar a partir de muito antes do surgimento das cidades, quando grupos nômades atravessavam o espaço, transformando-o em paisagem. Jacques (2012) realiza um estudo das errâncias urbanas e
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Yoko Ono no livro Grapefruit, 1964.
PEÇA DE CIDADE
divide sua história em três períodos distintos. Inicialmente, ocorreram
Caminhe por todos os charcos da cidade.
as flanâncias, representando o ressurgimento da figura do flâneur, ao longo do século XIX. O Homem das Multidões, de Edgar Allan Poe (1840), e O Pintor da Vida Moderna, de Charles Baudelaire (1863), são
O cotidiano e o lugar trazem a necessidade de refletir sobre o nãodito, o invisível, o anônimo e também sobre aquilo que se duvida valer a pena tentar dizer. Pés e corpo errante Produzido pelo autor, 2019
apenas duas obras que têm essa figura como protagonista. Um segundo momento, deambulações, acontece com as vanguardas modernas e marca as excursões urbanas dos dadaístas e surrealistas pelas cidades europeias. “Uma espécie de escrita automática do espaço real, capaz de revelar as zonas inconscientes e o suprimido da cidade” (CARERI, 2013, p. 29), que criticava algumas formulações dos primeiros Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna. Por fim, as derivas realizadas nos anos 1950-70 pelos letristas e situacionistas, constroem uma teoria da deriva criticando radicalmente o pensamento e urbanismo modernos. Careri (2013) se aprofunda em alguns outros movimentos artísticos que desenvolveram uma práxis a partir do caminhar. A land art, por exemplo, revisitou as origens da paisagem, e sua relação com a arte e a arquitetura. Uma obra icônica desse movimento é A Line Made By Walking, realizada por Richard Long ao pisotear a erva de um prado e, deixando ali seu rastro, transformou
Discurso tentativo sobre o anonimato Ana Clara Torres Ribeiro e Alice Lourenço, 2001.
o caminhar em “obra de arte autônoma” (CARERI, 2013, p. 30). A partir desse estudo das errâncias - importante destacar que ele acontece pelas narrativas criadas pelos errantes -, Jacques caracteriza a experiência errática. Inicialmente, ela se funda a partir de um estado corporal, que lhe é elemento motriz. Uma vez construído esse estado, como guiar a experiência - ou nesse momento inicial, vivência individual? Para Jacques, o elemento fundamental da errância é justamente o afastamento dos lugares-comuns, em direção aos outros urbanos. O errante, então, é aquele que busca um estado de corpo errante, que experimenta a cidade através das errâncias, que se preocupa mais com as práticas, ações e percursos, do que com as representações, planificações ou projeções. O errante não vê a cidade somente de cima, em uma representação do tipo mapa aéreo, mas a experimenta de dentro (JACQUES, 2012a, p. 197, grifo nosso). Os errantes demonstram uma percepção aguçada do outro, um tipo de escuta ou atenção ao outro, à qualquer alteridade urbana, mas talvez sua liberdade de ação, sem uma metodologia tradicional pré-estabelecida, lhes garanta um
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outro tipo de sensibilidade, de aproximação sensível da cidade (JACQUES, 2012a, p. 198, grifo nosso)
É notório, entretanto, o fato de que a autora é contra o estabelecimento de uma metodologia tradicional: Isso seria completamente paradoxal, uma vez que, como mostram as próprias dinâmicas processuais que veremos a seguir, a errância não poderia seguir regras padronizadas para se tornar apenas um modelo alternativo de apreensão ou percepção urbana [...] (JACQUES, 2012, p. 265, grifo nosso).
O estado de corpo errante, por sua vez, sensível ao que lhe circunda e atento ao outro, se desenrola a partir de três dinâmicas processuais. Vejamos a seguir: The Naked City Mapa psicogeográfico elaborado por Guy Debord
desorientação
68
lentidão
incorporação
Enquanto o urbanismo tradicional
Qualidade do movimento, negação do
É a contaminação do corpo físico do
dos “diagnósticos” busca a orientação, os
ritmo veloz imposto pela contemporaneidade.
praticante pelo corpo da cidade. Essa noção se
planos e mapas, o errante quer desorientar-se,
“Para Deleuze e Guattari, a lentidão não seria,
aproxima do conceito de sujeito corporificado
desterritorializar-se: “esta qualidade de estado
como se costuma entender, um grau de
apresentado por Ana Clara Torres Ribeiro, em
efêmero de desorientação espacial, que se
aceleração ou desaceleração do movimento,
instaura quando todos os outros sentidos,
do rápido ao devagar, mas sim um outro
além da visão, se aguçam, possibilitando uma
tipo de movimento” (2012a, p. 199). Seria a
outra percepção sensorial” (2012a, p. 199).
característica dos homens lentos de Milton
Importante é se deixar perder, se desfazer de
Santos: são exatamente eles que podem
hábitos e condicionamentos prévios. Perder-
melhor ver, apreender e perceber a cidade e
200). Praticar a incorporação advém de um
se estaria associado a um rito de passagem:
o mundo (2012, p. 281). A lentidão se pratica
profundo estado de presença em si mesmo, de
se perder para se encontrar diferente, ou para
como um modo qualitativo de se estar atento,
presença na cidade, sendo um corpo-sujeito
encontrar o diferente.
não importando a velocidade do movimento.
que se opõe à cidade espetacularizada.
contraposição ao corpo-máquina e ao corpoimagem. “A incorporação (...) seria a própria ação do corpo errante no espaço urbano, a efetivação da sua corpografia através da errância que, assim, também oferece uma corporeidade outra à cidade” (2012a, p.
Os autores cujos trabalhos estivemos citando frequentemente advogam que possibilidades de um futuro para a qualidade de vida e a urbanidade nas cidades passariam pelas questões do corpo. Mesmo que em campos disciplinares distintos, em geral eles reconhecem as potencialidades de ação a partir da microescala. Francesco Careri, em Walkscapes, defende que utilizando o percurso como instrumento, o que se objetiva é uma expansão do campo da arquitetura: Nesse espaço de encontro, o caminhar revela-se útil à arquitetura como instrumento cognitivo e projetual, como meio para se reconhecer dentro do caos das periferias uma geografia e como meio através do qual inventar novas modalidades de intervenção nos espaços públicos metropolitanos, para pesquisá-los, para torná-los visíveis (CARERI, 2013, p. 32, grifo nosso).
dos outros urbanos, para eles enxergar, ouvir, encontrar. Mas como comunicar essas experiências? Como utilizar sua potência transformadora e desafiar as narrativas dominantes, e a partilha hegemônica do sensível?
Yoko Ono no livro Grapefruit, 1964.
PEÇA DE MAPA Desenhe um mapa para perder-se.
Para além da potência estética das errâncias, Jacques (2012) também enfatiza a experiência errática como um caminho que levaria a repensar as práticas e modelos de pensamento da arquitetura e do urbanismo, pois poderia nos ensinar, a nós, urbanistas e amantes das cidades, outra forma de apreensão e de compreensão urbanas, que buscaria instaurar um processo de incorporação – incorporação do corpo na cidade e da cidade no corpo – o que efetivamente nos levaria a uma reflexão e a uma prática mais incorporada do urbanismo, ou seja, a um urbanismo incorporado (JACQUES, 2012, p. 308-309, grifo da autora).
Finalmente, assumimos o corpo como instrumento e a errância como procedimento de pesquisa. Por meio do descobrimento de um estado de corpo errante, percorremos as ruas do bairro do Alecrim em busca
O poder do corpo no espaço público Ana Fani Alessandri Carlos, 2014.
Assim, o corpo é a expressão de relações sociais assentadas na dialética subordinação/subversão. O homem se relaciona com o espaço através do corpo, este é a mediação necessária a partir da qual nos relacionamos com o mundo e com os outros – uma relação com os espaços-tempos definidos no cotidiano. Desse modo, o corpo transita por diferentes escalas, ligando-as.
69
o dilema da experiência: ainda é ela possível?
Giorgio
as relações humanas mediatizadas por
Sobre esse assunto, é pertinente
Agamben escreveu nos anos 1970 que
imagens substituem o que era até então vivido
retomar o pensamento do filósofo e crítico
na contemporaneidade a experiência foi
em mera ilusão.
alemão
O
70
O Homem das Multidões Marcelo Gomes & Cao Guimarães, 2014.
filósofo
italiano
Walter Benjamin como referência.
Foi ele que nos anos 1930 havia tratado
destruída. Para ele, a vida cotidiana é
Voltemos a Jacques (2012) ao
marcada pela incapacidade de traduzir-se em
referir-se a essa concepção. Ela afirma
do
experiência; ações do dia-a-dia, como as horas
que na verdade o que se processa é uma
modernidade. “Ficamos pobres” (BENJAMIN,
perdidas em um engarrafamento, ou as filas
esterilização da experiência, que não a destrói
1987, p. 119). No ensaio Experiência e
imensas nos supermercados, o contato mudo
mas busca “sua captura, domesticação,
pobreza (1933), refletindo sobre o acúmulo
(e por que não dizer desconfortável) com
anestesiamento”,
dos
de conhecimento que se comunica como
estranhos em um ônibus ou no elevador, são
próprios efeitos da espetacularização urbana.
aprendizado de vida, por meio de histórias,
todas uma “mixórdia de eventos - divertidos ou
Para além desse dilema, a autora desloca
provérbios, o filósofo questiona:
maçantes, banais ou insólitos, agradáveis ou
a questão da realização de experiências
atrozes - entretanto nenhum deles se tornou
para outra fundamental: a impossibilidade
experiência” (AGAMBEN, 2008, p. 22). Essa
de sua transmissão. “Estaríamos privados
noção possui laços bastante estreitos com a
não exatamente da capacidade de fazer
ideia do espetáculo como teorizado por Guy
experiências, mas, sobretudo, da faculdade de
Debord (2003), ao dizer que ele é a afirmação
trocar experiências, de transmiti-las, ou seja,
das aparências. Na sociedade do espetáculo,
de narrá-las” (2012, p. 16).
em
decorrência
empobrecimento
da
experiência
na
Que foi feito de tudo isso? Quem encontra ainda pessoas que saibam contar histórias como elas devem ser contadas? Que moribundos dizem hoje palavras tão duráveis que possam ser transmitidas como um anel, de geração em geração? Quem é ajudado, hoje, por um provérbio oportuno? Quem tentará, sequer, lidar com a juventude invocando sua experiência? (BENJAMIN, 1987, p. 114).
O slogan, que os substituiu [a máxima e o provérbio], é o provérbio de uma humanidade que perdeu a experiência. O que não significa que hoje não existam mais experiências. Mas estas se efetuam fora do homem. E, curiosamente, o homem olha para elas com alívio. Uma visita a um
Ensaio sobre a destruição da experiência Giorgio Agamben, 2008.
museu ou a um lugar de peregrinação turística é, desse ponto de vista, particularmente instrutiva. Posta diante das maiores maravilhas da terra [...], a esmagadora maioria da humanidade recusase hoje a experimentá-las: prefere que seja a máquina fotográfica a ter experiência delas. O
pela narração. Nesse sentido, a ameaça
O próprio Benjamin convoca à ação: “ela o
narrador (1936), lemos: “Por mais familiar que
que acomete a contemporaneidade é a
impele a partir para a frente, a começar de
seja seu nome, o narrador não está de fato
“impossibilidade do que seria uma experiência
novo, a contentar-se com pouco, a construir
presente em nós, em sua atualidade viva. Ele é
coletiva” (JACQUES, 2012a, p. 196).
com pouco [...]” (1987, p. 116). Admitindo o
Em
outro
trabalho
intitulado
algo de distante, e que se distancia ainda mais
Gagnebin (1994 apud JACQUES,
empobrecimento da experiência, e o risco da
[...] a arte de narrar está em vias de extinção”
2012a) indica uma pista sobre o entendimento
impossibilidade de sua narração, retomamos
(1987, p. 197).
do termo alemão erfahrung: vindo do radical
os questionamentos levantados no item
Jeanne Marie Gagnebin, no prefácio
fahr, a palavra estaria diretamente relacionada
anterior: como comunicar essas experiências?
da obra Magia e técnica, arte e política (1987)
com o sentido de atravessar, percorrer.
Como utilizar sua potência transformadora
comenta acerca de dois tipos de experiência,
Produzir experiência coletiva maturada, no
e desafiar as narrativas dominantes, e a
estudados
diferentes
sentido de expansão do entendimento, da
partilha hegemônica do sensível? Aos quais
trabalhos ao longo de sua vida. Erlebnis, ou a
compreensão, se daria justamente pelo
adicionamos
vivência, estaria relacionada ao momentâneo,
percurso, pelo ato de peregrinar, e - por que
momento: Como construir com pouco, e
aos sentidos do corpo, ao efêmero e sensível.
não dizer? - de errar.
afirmar a sobrevivência da experiência, a
por
Benjamin
em
outros,
pertinentes
nesse
a
sobrevivência da narração - mas mais do
essa experiência já maturada, partilhada
contemporaneidade exerce sobre a maturação
que isso, não esquecendo nosso objetivo
e que se torna portanto coletiva. Maturar,
e compartilhamento da experiência não deve
central: afirmar a sobrevivência de outros
compartilhar a experiência, poderíamos dizer,
ser tomada, de todo modo, enquanto um
sujeitos, outras práticas no bairro do Alecrim,
aconteceria exatamente pela prática do que
fim de linha. O que sobraria ao homem dado
negligenciadas por esses mesmos discursos
pode transformá-la em linguagem, ou seja,
conhecimento da pobreza de sua experiência?
hegemônicos?
Erfahrung,
por
sua
vez,
representaria
Essa
ameaça
que
71
construir com fragmentos: a montagem
72
Walter Benjamin, ao longo de seu trabalho teórico e artístico, problematiza e também realiza essa construção com pouco, com fragmentos, com os “restos da
mesmo texto intitulado Paris, capital do século XIX. Em seguida, vem as Notas e Materiais, o cerne das Passagens. Aí, o intelectual reúne mais de quatro mil fragmentos textuais,
modernidade”. O seu Trabalho das Passagens (Das Passagen-Werk), escrito entre 1927 e 1940, é um rico exemplo, considerado central em sua obra (KIRCHNER, 2007). Passagens faz referência às galerias parisienses que, ao longo dos anos 1800, simbolizam uma sociedade pautada cada vez mais pela
divididos em 36 arquivos temáticos com palavras-chave e referências cruzadas, compondo uma narrativa não-linear onde textos de diferentes autores e produzidos em diferentes tempos se cruzam, estabelecendo conexões. Renato Kirchner aponta que em Passagens, “genuinamente, a história é
produção e consumo; elas representam uma paisagem da vida urbana moderna. Reunindo um denso compilado de textos, Benjamin possuía um grande projeto: um livro sobre a cidade de Paris no século XIX. A obra se divide em duas partes principais: inicialmente, são apresentados dois exposés, versões do
escrita a partir das vozes que, via de regra, já foram ou ainda continuam sendo silenciadas em detrimento das vozes constituidoras da oficialidade histórica (KIRCHNER, 2007, p. 44, grifo nosso). No texto, o filósofo alemão adverte: Esse trabalho deve desenvolver ao mais alto
Atlas Mnemosyne Aby Warburg (1924-1929)
grau a arte de citar sem aspas. A teoria dessa arte está em correlação estreita com a da montagem. [...] O método desse trabalho: a montagem literária. Não tenho nada a dizer. Somente a mostrar. Não vou roubar nada de precioso nem me apropriar de fórmulas espirituosas. Mas sim, dos andrajos, dos restos: não quero fazer o inventário disso, mas permitir-lhes obter justiça da única maneira possível: utilizando-os (BENJAMIN, 2009, p. 502, grifo nosso).
Essa montagem literária indica tanto uma forma de conhecimento como um método de tratar a história, visto que “diante dos achados da investigação (farrapos e resíduos), nos ajuda a encontrar formas de apresentação e organização que lhes façam justiça” (CORRÊA; SOUZA, 2016, p. 12). Esse processo estava diretamente relacionado às experiências urbanas surrealistas; inspirado por elas, Benjamin praticava a montagem como um verdadeiro colecionador ou um
Toda história é uma história de viagem - uma prática espacial. Essas aventuras narradas, simultaneamente produzindo geografias de ações, organizam as caminhadas. Elas criam as jornadas, antes ou durante o tempo em que os pés as percorrem. catador de fragmentos. Ao reuni-los a partir de arquivos temáticos, ele propõe um texto que pode ser lido a partir de associações que interessem ao leitor. Carolina Corrêa
1929 e 1931, a revista Documents, que atravessava diferentes campos do conhecimento, como sugere seu subtítulo: doctrines, archéologie, beaux-arts, ethnographie.
e Solange Souza (2016) comentam ainda que “enquanto a narrativa linear, espacialmente dividida, própria do historicismo, pretende uma unidade de compreensão, a montagem intenta o exato oposto, ou seja, a possibilidade de reorganização ilimitada do pensamento” (p. 13). A montagem, utilizada enquanto mecanismo narrativo, pode
Utilizando diferentes textos e imagens, reproduções de obras de arte, a revista se declarava de vanguarda, abertamente surrealista. No corpo das edições, há trabalhos de Paul Klee, Pablo Picasso e Joan Miró apenas para citar alguns. Dispondo e montando esses trabalhos fora de uma ordem aparente, a revista intentava uma
ser uma ferramenta bastante interessante ao possibilitar o acesso aos interstícios, àquilo que estava aparentemente relegado, “os restos”.
transgressão da forma - afinal seu conteúdo era encarado como um acervo de documentos, em contraposição ao mercado da arte naquele momento. “Trata-se, portanto, de um tipo de montagem por fricção [...] a cada edição uma constelação de imagens e textos se friccionam o tempo todo” (JACQUES, 2015, p. 62).
O exercício de utilizar fragmentos e com eles compor montagens não se restringe, entretanto, à crítica literária ou à teoria da história. Muitos outros, em diversos tempos, utilizaram-se desse método de reunir fragmentos
Histórias Espaciais Michel de Certeau, 1998
Aby Warburg, crítico e historiador da arte foi
para montar. Algumas vanguardas modernas, sobretudo os surrealistas, a desempenharam: o Atlas Mnemosyne, de Aby Warburg, a revista Documents, editada por Georges Bataille, o Journal de Travail de Bertolt Brecht, ou os filmes de Sergueï Eisenstein são apenas alguns exemplos.
um outro que também montou imagens. Em seu Atlas Mnemosyne, ou Atlas da Memória, ele criou um conjunto de painéis móveis formados por um acervo de milhares de imagens: fotografias, reproduções, desenhos. Defrontando imagens da cultura pagã a elementos da arquitetura
O escritor francês Georges Bataille editou, entre
renascentista, por exemplo, ele estava “tensionando também os limites da própria História da arte, buscando
73
sempre trabalhar no limiar, através ou além do campo
desagrega, dispersa aos quatro ventos (DIDI-HUBERMAN,
[do conhecimento]” (JACQUES, 2015, p. 66). Ele buscava,
2015, p. 131, grifo do autor).
nesses painéis, uma compreensão a partir dos intervalos
Três preocupações se destacam em sua obra, conforme indica Campos (2017). A primeira delas: saber
que as imagens proporcionavam; buscava a sobrevivência de elementos, símbolos, enfim, do aparato cultural de uma época em outras. Recentemente, o filósofo e historiador da arte Georges Didi-Huberman tem estudado a montagem em
ver mais, ver e ver de novo. A segunda, enxergar as imagens como uma problemática verdadeira. E a terceira, trabalhada aqui com mais afinco: as imagens não falam de forma isolada, é necessário colocá-las em relação.
diversas de suas obras, prestando especial atenção à problemática da imagem como fragmento da história. Se Debord criticou a sociedade que possui seus laços
um conhe conhecimento pela conhecime montagem
mediatizados por imagens, Didi-Huberman reconhece essa problemática mas no intuito de trabalhar sua potencialidade. A grosso modo, menciona Daniela Campos (2017, p. 269), ele tem se dedicado a “pensar, escrever e Walter Benjamin colecionando fragmentos Imagem: Gisele Frèund, 1937
questionar as imagens”. Elas seriam, sob esse ponto de vista, “a malícia na história: a malícia visual do tempo na história. Ela aparece, torna visível. Ao mesmo tempo, ela
Antes de tratarmos sobre a ideia de montagem na obra de Didi-Huberman, pensemos inicialmente em desmontagem, “uma vez que, para o intelectual, se precisamos montar imagens é porque as imagens desmontam” (CAMPOS, 2017, p. 271). Essa noção é essencial: “a imagem desmonta a história assim como o raio desmonta o cavaleiro, o faz cair de seu cavalo. [...] Uma imagem que me desmonta é uma imagem que me deixa confuso, privando-me momentaneamente de meus recursos, faz-me perder o chão” (DIDI-HUBERMAN, 2015, p. 131, grifo do autor). Dessa forma, podemos pensar inicialmente a imagem em sua potencialidade de desestabilizar quem a produz, quem a observa;
74
desestabilizar o curso contínuo da história. Essa desorientação identificada por Didi-Huberman não é gratuita, uma vez que um outro sentido advém do verbo
desmontar. Ele faz alusão ao processo de conhecimento
Adotar uma forma de conhecimento pela
que se dá quando se desmantela um relógio, por exemplo:
montagem implica, dessa forma, uma relação com o tempo a partir de sua heterogeneidade. Significa reconhecer o
naquele momento, a contagem do tempo é paralisada, mas só assim se pode compreender como o seu mecanismo funciona. “Esse é o duplo regime descrito pelo verbo desmontar: de um lado, a queda turbilhonante, de outro, o discernimento, a desconstrução estrutural” (DIDIHUBERMAN, 2015, p. 131). A partir dessa formulação, o autor propõe assim um Conhecimento pela Montagem. Cabe aqui uma pequena reflexão: do modo como a errância pressupõe no sujeito um perder-se para encontrarse diferente, a montagem nos sugere, já nesse momento, um desmontar objetos/situações para então remontá-los, construindo nexos narrativos a partir desses fragmentos; a
poder que há nos fragmentos da vida cotidiana, colocandoos em relação. “Colocá-lo em pedaços, para então restituir cada uma dessas migalhas” (CAMPOS, 2017, p. 271). O princípio desse pensar por montagens, para Benjamin, e retomado por Didi-Huberman, seria estabelecer relações entre singularidades (os fragmentos), avaliando seus movimentos e seus intervalos. Sob tal lógica, conforme reitera Campos (2017), “para compreensão do todo é necessário analisar a minúcia; investigar o singular consiste na atividade imperativa no ensaio de compreensão do evento total” (p. 276).
partir da desordem. A obra de Walter Benjamin é analisada de maneira pertinente por Didi-Huberman, principalmente a partir das questões da história e da imagem. “Tomar a história a contrapelo” é uma expressão célebre do crítico alemão, se referindo ao movimento necessário de contrariar a continuidade histórica - e portanto as narrativas históricas tidas como hegemônicas. Didi-Huberman atualiza essa concepção propondo que: Refundar a história sobre um movimento “a contrapelo” significava, portanto, apostar num conhecimento pela montagem, tendo feito do não saber - a imagem ressurgente, originária, turbilhonante, intermitente, sintomal - o objeto e o momento heurístico de sua própria constituição (DIDIHUBERMAN, 2015, p. 132, grifo do autor).
a montagem urbana: apreender a cidade e experimentar outras formas de narração Nesse momento, é imprescindível retomar o pensamento de Paola Berenstein Jacques, à medida em que ela propõe a montagem urbana, uma outra forma de conhecimento das cidades e do urbanismo. A pesquisadora questiona: Como então pensar um conhecimento da cidade e do Urbanismo a partir dessa ideia de montagem como uma forma de conhecimento? Como essa ideia de montagem que foi praticada no campo da Arte e da Cultura [...] poderia nos ajudar a problematizar o campo da História das cidades e do Urbanismo propondo outras formas de narração da
75
Nosso tempo Trecho de poema de Carlos Drummond de Andrade
Este é tempo de partido, tempo de homens partidos. [...] E continuamos. É tempo de muletas. Tempo de mortos faladores e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado, mas ainda é tempo de viver e contar.
experiência urbana, incluindo experiências de alteridade, de subjetividade[...]? (JACQUES, 2015, p. 49, grifo nosso).
Jacques defende a ideia de que pensar as cidades a partir da montagem é um excelente mecanismo que pode dar conta de tratar da complexidade, da diferença, da heterogeneidade urbanas. Essa forma complexa de pensamento, que tem como bases o atravessamento e o tensionamento entre as partes, vai de encontro à produção de “consensos legitimadores de enunciados dominantes já conhecidos e pré-estabelecidos” (2015, p. 74). O processo de montagem, enquanto mecanismo de conhecimento, tem portanto como elemento-chave e estruturador os fragmentos; reunidos, eles possibilitam a
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compreensão de “uma lógica fragmentária” (p. 52). Esse é o primeiro princípio da montagem urbana. O que fazer, portanto, com esses fragmentos? Para a autora, trabalhar os seus intervalos, a sua capacidade de estabelecer
diferentes nexos, narrativas e textos de acordo com as possíveis conexões criadas entre eles. Reconhecer o poder do intervalo é o segundo princípio. Por fim, poderíamos pensar também no fragmento enquanto elo entre o particular, o localizado, e o global. Sendo micrológico, uma miniatura, uma pequena parte, ele sempre remete a algo maior, algo que lhe possa conferir um contexto e possibilidades de entendimento. O fragmento possibilita a passagem entre diferentes escalas - sejam elas espaciais ou temporais. Seu poder microbiano caracteriza o terceiro princípio. Ainda sobre a lógica fragmentária, se ressalta a importância da problematização pela dúvida: os fragmentos, uma vez reunidos, colocados em relação, remetem a uma ordem incompleta e mutável, e essa incompletude é o que incita por sua vez à exploração, à descoberta. Para além de um método de conhecimento, a autora destaca também a
Guernica Pablo Picasso, 1937
Montagem Urbana Oficina Pensar e fazer por nebulosas e montagens, Laboratório Urbano, 2018
montagem como um procedimento formal. O processo de montagem seria assim uma forma de utilização daquilo que sobrou, que já parece obsoleto, uma forma de usar os restos, farrapos e resíduos da história, através de uma remontagem de antigos fragmentos. Seria, assim, um processo de mistura temporal, mas também de narrativas e narradores, de tempos e narrações heterogêneas, um processo de montagem que formaria também uma série de anacronias e de polifonias. Um método crítico a partir da justaposição de fragmentos a partir de suas diferenças (JACQUES, 2015, p. 57)
A montagem, em seu aspecto de procedimento formal, assume um caráter polifônico. Muitas vozes se somam, e subtraem, se interpõem e justapõem - por que não dizer transpõem - ao compor um todo montagem. De natureza fragmentária, o entendimento, e a própria narração que a ele dá forma, aconteceria mais pelo isto e aquilo do que pelo isto ou aquilo. As aproximações e distanciamentos, portanto, fazem parte de um mesmo movimento, em sua extensa complexidade, a ponto de podermos afirmar que aquilo que distancia aproxima ou ainda parafraseando Lefebvre o movimento
regressivo comporta em si o progressivo e vice-versa na reconstrução do real. Esta é uma possibilidade de se repensar o longe e o perto, o próximo e o distante, o local e o global, o presente e o passado, e romper com uma herança da ciência clássica, que em seu auge no século XIX, nos conduz a raciocinar a partir do ou/ou ao invés de e/e. O que nos levaria em direção à complexidade defendida por Edgar Morin [1999] (LIMONAD; LIMA, 2003, p.26-27, grifo nosso).
De maneira processual, a montagem se constrói na própria prática: montar / desmontar / remontar. Não esqueçamos que esse ato primeiro de montar só é possível se encararmos que a “imagem desmonta o tempo”; só existe fragmento se nos dispomos a inicialmente desmontar a ordem imposta. Nesse processo, o que se constrói simultaneamente são nexos na própria mesa de montagem, “vista como um campo de forças e de conflitos” (JACQUES, 2015, p. 78). Na mesa, se partiria sempre de um arquivo para coletar, selecionar e dispor fragmentos, decompondoos e recompondo-os. Quem monta busca articular os elementos da montagem: o tempo do agora que passa, do efêmero que se dilui e se transforma, sem que dele tomemos conta. Sob essa ótica, mesmo os métodos já consolidados nos estudos urbanos - a análise urbana ou survey - seriam, eles mesmos, reunião de diferentes recortes de pontos de vistas, quando se elencam categorias de análise. Se faz necessário
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atentar, de todo modo, que, frequentemente, o survey se tornou “um tipo de montagem por semelhanças que busca uma unidade ou totalidade qualquer, ou ainda uma forma
o método neste trabalho: a montagem urbana
de legitimar narrativas dominantes já dadas” (JACQUES, 2015, p. 77). Não é o intuito ignorar ou desqualificar
Iniciemos este tópico relembrando o objetivo geral
esses métodos. O enorme potencial enriquecedor
do presente Trabalho Final de Graduação: elaborar uma
reside na aliança entre um pensar por montagens e o conhecimento urbanístico mais cartesiano. Por meio de
narrativa em contraposição às visões hegemônicas que se
um reconhecimento mútuo, a complexidade da cidade
G25.
poderia ser compreendida de maneira mais efetiva, plural, Nexos Reflexões a partir de um processo de montagem, Laboratório Urbano, 2018
e possivelmente inclusiva.
disseminaram durante a apresentação das propostas do Como discutimos anteriormente, a experiência errática é encarada aqui como procedimento de pesquisa: ela intenciona o pesquisador a atuar a partir de seu corpo - corpo físico, mas também teórico, o corpo de conhecimento acumulado ao longo de suas experiências - e configurar um estado errante: desorientado, lento, incorporado. Iniciamos por construir esse estado de corpo antes e durante as errâncias desenvolvidas na região central do bairro do Alecrim. A primeira delas foi realizada no dia 25 de março de 2019, na companhia do poeta e ator Thiago Medeiros. Nesse dia, foram produzidos e coletados fragmentos diversos: fotografias, panfletos, notas tomadas pelo autor. Em seguida, se realiza uma segunda errância, no dia 18 de maio. Em cada uma dessas experiências, além da atenção para o estado de corpo que elas supõem, foram coletados e produzidos diferentes fragmentos, que
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de alguma forma pudessem dar conta da representação
O processo de montagem Produzido pelo autor, 2019
reunir fragmentos
desordenar
montar
física, formal, do tempo e do percurso ali decorrido. Ao mesmo tempo
remontagem final. Aí são tensionados e friccionados elementos de
em que acontecia a escrita deste trabalho, foram sendo reunidos em
diferentes tempos, e buscam-se justamente suas anacronias, polifonias
um arquivo fragmentos de outros tempos e de diversos narradores, que
e incompletudes. Somadas às notícias jornalísticas que de certo
tivessem o bairro do Alecrim como temática: trabalhos acadêmicos,
modo acompanharam a construção de uma narrativa dominante que
notícias de jornal, fotografias diversas, cordéis, panfletos, poemas e
pretendia justificar as intervenções propostas pelo Grupo 25, aparecem
peças artísticas de diferentes linguagens.
relatos coletados in loco, fotografias de décadas passadas, trechos de
Cada um dos percursos resulta, portanto, na produção de
literatura de cordel. Quais nexos são possibilitados ao confrontar esses
uma montagem específica. Em paralelo, o autor elaborou uma série de
fragmentos? Qual o poder que cada um possui em relacionar-se com os
textos, que são tomados dentro da lógica fragmentária para compor
demais, e desmontá-los, desafiando o que estava posto como verdade?
as montagens urbanas que aqui se apresentam, e nada mais são do
É a dúvida que nos interessa, pois ela revela a possibilidade de outras
que reflexões sobre o processo empreendido. Ao fim, são reunidos
compreensões sobre o bairro degradado, e abandonado e em vias de se
os fragmentos coletados ao longo do trabalho. Obviamente que não
acabar que se pretendia representar como totalidade para o Alecrim. Se
estão aqui todos, mas já resultam de um processo de seleção e recorte,
o(a) leitor(a) nos acompanhou até esse ponto, iniciemos agora a última
que por vezes é racional, e algumas outras, assume o aleatório como
etapa dessa jornada. Percamo-nos.
constituinte. Esses fragmentos, desmontados, vem a constituir uma
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Nesse trecho da escrita, propomos um pequeno desvio - pois o desvio é também caminho. Esta parte poderia chamar-se estudo de referência. Entretanto, preferimos não utilizar o termo, pois aqui não é nosso objetivo traçar de maneira sistemática uma série de atributos ou variáveis passíveis de verificação. Poderia tomar emprestadas as palavras de Benjamin: “não tenho nada a dizer, apenas a mostrar”. O texto que segue deve servir, assim, como uma ponte entre o contexto histórico apresentado no Capítulo 02 e as formas de apreensão da cidade discutidas no Capítulo 03. Preferimos então chamar esse trecho de ensaio. A sua realização decorre de um percurso e constitui um teste do método escolhido: comunicar, por meio de montagens, a experiência da alteridade. E com estas montagens, perceber como as ordens próxima e distante se justapõem, se implicam; como elas coexistem no lugar. Lembramo-nos do que sugere Didi-Huberman: “para conhecer é
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necessário afastar-se”. Nesse afastamento, chegamos ao bairro da Mouraria, em Lisboa. Mais especificamente na praça do Martim Moniz. E por que ir exatamente até a Mouraria? Inicialmente porque se trata de um lugar de multiplicidade étnica e cultural, onde convivem mais de cinquenta diferentes nacionalidades; um lugar portanto, de alteridades. Além disso, essa região pode ter sua história tematizada pela marginalização, mesmo que acompanhada de grandes transformações espaciais, sejam as construções das muralhas medievais ou as demolições modernizadoras à là Haussmann
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Portugal
no século XX. Finalmente, muito nos interessa também o fato de que a praça do Martim Moniz tem sido alvo de um projeto de requalificação que, durante a escrita deste trabalho, está em curso e tem revelado uma série de conflitos sobre a ocupação daquela zona. Iniciase agora, de maneira mais efetiva, um texto-montagem. Ela se desenrola a partir de três correntes narrativas que ocorrem simultaneamente. A primeira delas, um relato da experiência no lugar, de onde se ouve mais claramente a voz e personalidade do autor deste trabalho. A segunda, de natureza acadêmica, se estrutura a partir de pontoschave percebidos durante o percurso e lhe
Lisboa
confere maior respaldo contextual. A terceira, mais imagética, é o processo de montagem e remontagem realizado com os fragmentos recolhidos in loco (fotografias, desenhos, objetos) e também outros posteriormente colecionados (notícias de jornal, postagens de blogs, imagens históricas etc). Essas três correntes se misturam, e formam a partir desse momento uma constelação polifônica e anacrônica cujo tema é a Mouraria. Cabe ao leitor decidir o caminho de leitura que lhe convém: seguindo o fluxo de pensamento e intercalando as narrativas conforme são apresentadas visualmente, ou lendo-as uma de cada vez. Bom percurso.
O Martim Moniz, Freguesia de Santa Maria Maior, Lisboa. Elaborado pelo autor, 2019. Imagem: Google Earth
Cinco mil, seiscentos e catorze vírgula noventa e cinco quilômetros é a distância, em linha reta, que separa a Praça Gentil Ferreira da Praça Martim Moniz. 5.614,95km não serve de muita coisa, entretanto, a não ser para situar parcamente o leitor e fazê-lo imaginar a longa viagem que se faz necessário realizar para ir do Alecrim, em Natal, à Mouraria, em Lisboa. Os números revelam uma distância puramente física, representada sobre a cartografia de que dispomos para cadastrar e inventariar o espaço terrestre. De todo modo, são distâncias outras que efetivamente poderiam diferenciar e especificar estes dois lugares:
sociais, temporais e históricas, culturais, funcionais etc; mas não iremos nos ater em aprofundar esse ponto. O primeiro bairro já foi apresentado ao leitor. O segundo, começa a aparecer nos textos e imagens que seguem. (…) Praça Martim Moniz, 04 de Novembro de 2018. Naquele domingo, o dia estava um tanto nublado quando descemos do autocarro próximo à Praça da Figueira, em frente à estátua de D. João I. Em primeiro plano, inúmeros tuc-tucs esperavam os turistas
Montagem da experiência Elaborado pelo autor, 2019
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Localizada em uma região bastante central na malha urbana de Lisboa, a Mouraria é um dos bairros que juntamente com o Castelo, a Alfama, a Sé, a Baixa Pombalina, o Chiado e o Rossio compõem a Freguesia de Santa Maria Maior, que por sua vez é parte do Centro Histórico de Lisboa. Frequentemente, o bairro é identificado como sendo um território da multiculturalidade, e por isso, também relacionado ao turismo, como se pode observar em uma rápida pesquisa na internet. Não são poucos os resultados de guias de viagem, com dicas sobre locais para se ter “experiências únicas” em Lisboa. Diversos trabalhos acadêmicos atestam essa realidade, porém aqui nos atemos a dois textos que proporcionam uma leitura geral do lugar a partir dos pontos elencados na breve justificativa que aparece na introdução desta parte. Paula Gésero, em tese de doutoramento, analisa a criação de uma migrantscape naquela região, ou a configuração de uma paisagem urbana específica pelos grupos imigrantes. A autora identifica: o bairro da Mouraria, mais precisamente a zona do Martim Moniz, [...] como a zona mais multicultural da cidade, fazendo ainda referência à identificação da área em 1999, no guia turístico internacional “Time Out” como espaço de prática de turismo étnico (GÉSERO, 2014. p. 52, grifo nosso).
De fato, “na zona do Martim Moniz o papel do ‘estrangeiro’ e o encontro com o ‘outro’ concorrem para a formação da ideia de diversidade na definição da cidade de Lisboa (GÉSERO, 2014. p. 56, grifo nosso). A pesquisadora Marluci Menezes (2011), por outro lado, destaca que os conflitos sempre estiveram ao lado dessa visão de pluralidade, e que ao longo do tempo permeou diferentes reconfigurações da realidade simbólica do bairro.
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Pode-se dizer que a fundação da Mouraria está estreitamente ligada à ideia de marginalização, a separação dos diferentes. Quando D. Afonso Henriques conquista Lisboa em 1147, os muçulmanos e judeus que não se converteram ao cristianismo foram expulsos da
cidade, instalando-se na região extramuros ao pé da colina da Alcáçova (onde hoje se situa o castelo de São Jorge). Algumas décadas mais tarde funda-se a Comuna Moura, também murada, em 1170. Segundo Gésero, nesse momento é marcante a estigmatização do lugar, inclusive o nome etimologicamente quer dizer o vale dos vencidos (2014, p. 65). Em 1496, D. Manuel I decreta a expulsão dos judeus e muçulmanos de Portugal; a Mouraria é então invadida pelos cristãos, que destróem os símbolos daqueles povos, e ocupam os edifícios. Ao longo dos séculos seguintes, a imagem de marginalidade continua a fazer parte do imaginário daquele lugar. Durante o Século XVII, a zona da Mouraria cresceu e continuava a ser formada por uma “teia medonha de pequenas ruelas que se cruzavam, estreitas e tortuosas, irregulares na sua largura, cheia de becos e betesgas” (Branco, 1990: 25), dificultando a circulação, e com sérios problemas de higiene. De notar que a Rua do Capelão foi conhecida durante muito tempo como Rua Suja (GÉSERO, 2014. p. 74).
Durante o século XIX já se sentiam os impactos da industrialização, e em como boa parte das grandes cidades europeias, o crescimento populacional fez emergir vastos problemas urbanos. Superlotação, poucas condições de higiene, falta de um sistema de esgotamento eram algum desses males que acometiam as vidas dos moradores daquela região, então caracterizada por ser uma área ocupada pelo proletariado. Conforme aponta a mesma autora, à medida que o tempo passa, se aprofunda o processo de estigmatização da Mouraria, aliado às imagens de prostituição, decadência e miséria. As parcas condições de vida dos seus moradores contribuíam para a ideia da miséria, estando o vício identificado com uma certa vida boémia que “intersectava o mundo do fado com a prostituição”, participando nos seus espaços de convívio, nas “tabernas e nas esperas de touros”, “fadistas, marialvas, aristocratas, marinheiros, toureiros, boleeiros, vagabundos, e prostitutas” (Menezes, 2004: 43) (GÉSERO, 2014. p. 79)
para os passeios naquela região central de Lisboa. Avistávamos o Castelo de São Jorge ao alto. “A Mouraria é toda essa região que borda a encosta esquerda do Castelo”, me disse o professor Clewton. Seguimos na direção contrária, passamos pelo Rossio e pelas costas do Hotel Mundial, chegamos à Praça Martim Moniz. Me impressionou a quantidade, dimensão e articulação desses espaços públicos, dentro de uma caminhada de dez minutos. Atravessamos o Largo, passamos pelas Escadinhas da Saúde, cuja escadarolante havia sido recentemente inaugurada. Às 10h pontualmente, encontramos Duarte Perdigão, arquiteto que trabalha para a Associação Renovar a Mouraria e que durante aquela manhã, nos guiou pelas ruas do bairro. Aos pés da capela de N. Senhora da Saúde iniciamos o percurso; ao saber que em seu público havia arquitetos e urbanistas (e um aspirante a tal), o guia resolveu mudar os planos e seguir um caminho não planejado. Nosso interlocutor iniciou criando um contexto para que os viajantes tivessem certa noção de que lugar é aquele ao qual estariam prestes a percorrer.
existiram para cercar os diferentes: judeus, muçulmanos, mouros. Falou-se sobre o cerco de Lisboa, os contínuos conflitos entre grupos religiosos e que ao longo do tempo, fundaram e (re)formaram aquele lugar. Onde hoje está a capela, já se foi um dos antigos portões da cidade. Em cada pedra desse lugar o tempo pulsa. Silenciosamente, cada terremoto e cada modernização sussurra: estou aqui. Perdigão nos conta que foi durante o regime fascista de Salazar que centenas de casinhas foram arrasadas para se dar lugar à Praça Martim Moniz, onde agora estamos. Hoje, “está tudo a se turistificar... ” ele comenta. Se sabe que há interesse em requalificar a praça, mas a Câmara não diz o que vai haver. Demolições na Baixa da Mouraria Imagem: Eduardo Portugal, s.d.
Largo do Martim Moniz Imagem: Judah Benoliel, 1962
“A Mouraria, por muito tempo, foi um lugar onde não se punha os pés.” nos
Ali em frente à Capela, Perdigão contou que durante séculos, muros
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A partir do século XX começam a surgir intervenções incisivas sobre o bairro, inspiradas nos ideais modernizadores e higienistas do Barão de Haussman, no intuito de tornar os “bairros típicos de Lisboa [...] mais higiénicos e arejados” (GÉSERO, 2014, p. 81). Menezes relembra que entre os anos de 1930 a 1960, o regime militar autoritário do Estado Novo empreendeu uma série de demolições com esse caráter “civilizador” (2011). Já na década de 1940 um conjunto inteiro de arruamentos e edificações foi demolido na Baixa da Mouraria, sendo o espaço vazio denominado de Largo do Martim Moniz, em referência a um soldado que durante o Cerco de Lisboa teria facilitado a conquista da cidade aos Mouros. O que teria contribuído para a atual simbologia do bairro foi a instalação, desde os anos 1970, de um comércio majoritariamente controlado por imigrantes (MENEZES, 2011). No entanto, esse largo viria a tornar-se uma praça somente em 1997, no âmbito do Plano de Urbanização do Núcleo Histórico da Mouraria. Após os anos 2000, a praça foi sendo apropriada pelos moradores da região, bem como por turistas nos seus trajetos de visitação, ou como ponto de descanso. Recentemente, incide sobre o bairro um processo de reabilitação urbana denominado “Programa de Acção Mouraria”, cuja prioridade é a requalificação do espaço público. Nesse contexto, estaria em curso também a criação de uma outra imagem do lugar, que certamente envolve a construção de narrativas específicas.
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Com o emblema de lugar onde pairam ‘todos’ culturalmente diversos, a imagem de bairro mal afamado é substituída por imagens de maior centralidade e
atractividade, parecendo atrair jovens moradores e flâneurs (potenciais gentrifiers?) (MENEZES, 2011. p. 4)
Atualmente, as populações imigrantes naquela região e notadamente o aparecimento do comércio e serviços de alimentação tem atraído visitantes locais e turistas de diversas partes do mundo. Como afirma Gésero (2014), esse movimento tem causado um impacto no “velho bairro popular, particularmente no rejuvenescimento de sua população” (p. 85). Ainda assim, a Praça do Martim Moniz [...] considerada como a face mais visível e mais bonita do bairro [...] e quase como uma “porta de entrada”, é percecionada como sendo o território dos “outros” (estrangeiros), estando o Centro Comercial da Mouraria por sua vez, a “tapar o bairro”, ficando os dois por arrasto, como zonas limítrofes da sua Mouraria (GÉSERO, 2014. p. 53, grifo nosso).
Mais recentemente, dentro desse contexto de requalificação da Mouraria, surge uma problemática relativa a reformas na Praça do Martim Moniz. Em setembro de 2018, o jornal O Corvo noticia que estaria sendo preparada
Perdidos e achados na Mouraria. Fotografias do autor, 2018.
Voltamos para a capela, e seguimos na direção sul pelo Poço do Borratém. Alguns passos mais à frente, viramos à esquerda em um beco de não mais que dois metros de largura(logicamente uma escada, como já havia percebido que seriam muitas). Mais acima, chegamos à Associação Renovar a Mouraria. O guia nos contou um pouco sobre as ações da associação para movimentar a região, realizando oficinas, encontros, atividades culturais para os moradores do bairro. Depois de alguns minutos, continuamos subindo e a partir daí, o mapa da cidade parece ter sido recortado na minha cabeça. De repente, uma pequena rua aparecia em bifurcação; mais à frente, escadas íngremes e sinuosas se dividiam em duas, às vezes abriam espaço
para pequenos largos. Saímos da escala das grandes intervenções e estávamos em um espaço mais íntimo, familiar. O silêncio era às vezes interrompido pelas conversas que vinham das janelas, as roupas estendidas nos varais me lembravam de um tempo do outrora, que às vezes acreditamos já desaparecido nas grandes cidades. Não me lembro muito bem como, mas em determinado momento, chegamos ao Largo de São Cristóvão. Eu o reconheci pelos grafites na parede, onde se lia “Fado Vadio”. Eu havia estado ali um pouco mais de dois anos antes, durante o intercâmbio e já havia me apaixonado por aquela pequena pracinha. Um violeiro, encostado à uma das escadas, tocava. Perdigão continuou a nos contar:
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uma grande remodelação da Praça do Martim Moniz, encomendada pela Câmara Municipal de Lisboa a um escritório de arquitetura Lisboeta. Já nesse momento, o presidente da Freguesia chegou a declarar: “Como está, está muito mau. Aquilo está completamente degradado. A praça não tem qualidade nenhuma e corresponde a um modelo que considero obsoleto. A zona degradou-se imenso, há um mau uso do espaço público” (ALEMÃO, 2018). Dois meses após essa publicação, tornou-se conhecido que ali seria construído um centro comercial edificado com contêineres, com cerca de 40 estabelecimentos comerciais ocupando boa parte da praça. Também já aí se previa o fechamento do Martim Moniz no período da noite (PINCHA; MOREIRA, 2018). Ainda nesse momento, o projeto foi apresentado na Câmara, e aí se noticiou que haveria a concessão de uso da praça a um grupo empresarial denominado Moonbrigate, responsável pelas intervenções e pela futura exploração do comércio; as propostas foram aí maciçamente rejeitadas pela população (PINCHA, 2018). No mês de dezembro, a empresa anuncia cedências e apresenta modificações no projeto, como a retirada dos fechamentos e maior atenção a elementos vegetais. Poucos dias em seguida, a Associação Renovar a Mouraria se pronuncia oficialmente e defende a construção de uma zona verde, se comprometendo a realizar “acções conjuntas com a CML para a revisão do projecto” (MOVIMENTO JARDIM MARTIM MONIZ, 2019, p. 12). Já no mês de janeiro de 2019, para a surpresa da população as obras iniciaram na praça e membros do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista Português pedem a suspensão dos trabalhos (PCP…, 2019). Em fevereiro, após um grande protesto organizado pela Associação Renovar a Mouraria, aprovou-se na Câmara que todo o processo fosse revisto. No mês seguinte, articulou-se o Movimento Jardim Martim Moniz, que se comunica com o público por meio de um site e organiza uma petição pública para barrar o projeto pré-aprovado pela Câmara
Municipal, inclusive repudiando a delegação de “políticas de cidade a entidades comerciais”. De todo modo, os tapumes continuam a bloquear a Praça e não se tem certeza do que irá acontecer ali. Como se pode observar, a Mouraria tem sido historicamente marcada lugar de populações marginalizadas. Ali se instalaram os Mouros após a reconquista católica de Lisboa, o proletariado advindo das zonas rurais no século XIX, e recentemente os imigrantes provenientes de diversas partes do mundo no contexto da globalização. Nas últimas décadas, diversos interesses se voltaram para aquela área, enxergando ali o potencial turístico, de comércio e serviços no atual momento de uma economia terciarizada. Poderíamos afirmar que, apesar de ter se construído historicamente de um determinado modo (seja pela mão do Estado ou à revelia desse), aquele lugar se localiza na contradição entre o que se é e o que deveria ser. A problemática em questão no Martim Moniz, refletindo essas contradições, também aponta conexões possíveis com o ocorrido no bairro do Alecrim: o protagonismo de um ente privado realizando modificações no espaço público, a falta de diálogo com a população durante o período de elaboração das propostas, o caráter comercial e a primazia do lucro sobre outras dimensões da vida urbana. Que ironia o fato de terem as duas praças o Martim Moniz e a Praça Gentil Ferreira - sido fechadas para reformas exatamente no mesmo período… Para além disso, fica claro também que a reação pública tem sido capaz de mobilizar diferentes atores sociais, e juntamente com legisladores de determinados partidos, frear a repentina realização de tais propostas de “requalificação”. Essencial destacar que esse processo é acompanhado pelo desencadeamento de uma narrativa central, evocando a decadência e degradação como males a serem eliminados via implantação de um determinado tipo de projeto.
“Isso aqui era uma coisa viva, engraçada. O que vocês veem aqui é que depois que vieram os habitantes e fizeram estas casas lindas para ganharem rios de dinheiro, o que começamos a ver é: o grafite [pichação] voltou. Antes era tudo sujo e grafitado. E agora volta a ser grafitado porque isto já não é de ninguém. Vocês veem o que está a acontecer, a camada já está a passar. Eu por mim: então grafitem. Porque ou muda a maneira de estar, e isto é uma cidade para as pessoas, ou se é uma cidade só para o turismo… Então tínhamos o mal do turismo: quantidades imensas de lixo, o nãoespaço, e aquela coisa do não-lugar né. Que é o espaço sem identidade. A identidade continua a ser a tradicional mas é um bocadinho clichê, porque já não tem mais as memórias e as pessoas. E isto era
uma memória, isto foi uma tentativa de passar de uma zona marginal à uma zona melhor.”
Seguimos. Há algo de muito tradicional mesmo naquela região, que me lembrava de toda uma identidade portuguesa: o fado, o modo de falar, de se vestir… Mas com pouco tempo comecei a prestar atenção em um outro aspecto: parecia que estava em um lugar bastante cosmopolita. Um salão de beleza com estilo caribenho, lojas com certificação Halal, vendinhas de Kebab, estúdio de depilação à brasileira. Não tardou para que nas ruas aparecessem algumas mulheres de sari, ou que eu ouvisse um francês que parecia vindo de países africanos. O guia nos confirmou que ali era mesmo um bairro extremamente multicultural, e que mais fortemente nas últimas décadas do século passado, recebeu imigrantes que tentam as suas vidas em Lisboa. Mas ainda para ele, havia diversos problemas a serem pensados: uma crescente sensação de insegurança, o tráfico de drogas, a chegada do turismo e a saída dos moradores mais tradicionais - pelo que entendi, Lisboetas. “Há muita hipocrisia na formulação de políticas [...] Estamos a salvar os bancos com as nossas vidas.” E é a Mouraria, que historicamente tem abrigado os diferentes, os marginais, os despatriados. Aqueles que após longas travessias, vem aqui dar rumo às suas vidas. Homens e mulheres que, assim como eu, também não são daqui. Mas são as suas mãos, suas histórias e suas lutas que dão a cara, as cores e os cheiros da Mouraria.
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Montagem da experiência Elaborado pelo autor a partir de fotografias e anotaçþes, 2019.
(re)Montagem da experiência Elaborado pelo autor (adicionadas notícias, imagens históricas, renders da proposta de requalificação), 2019.
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O Ç I L U RE B x
E ECONSTRUINDO O MONTAND R
S A V I T A R NAR
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M E G A T N O M A R I E PRIM
é o is c e r p im r c e l a perder-se no A primeira montagem aqui apresentada foi produzida após experiência errática no dia 25 de março de 2019. Em uma tarde de segunda-feira, fui para o Alecrim e levei comigo uma câmera fotográfica. Dessa experiência, eu estava interessado em registrar visualmente o que acontecia. A tarde estava quente e havia quase nenhuma nuvem no céu. O percurso começou e a câmera no meu peito logo marcou sua presença: estar ali com aquele equipamento já configurava uma atitude não cotidiana. Eu observava, mas era também observado de um jeito diferente. De todo modo, permaneci atento aos outros, ao que acontecia, às histórias que ouvia, aos rostos que via. Em determinado momento, decidi guardar a câmera; a experiência se tornou mais intensa, sem preocupações. Passei a registrar muito mais na memória. Em pouco tempo, encontrei o ator e poeta Thiago Medeiros. Havíamos combinado de naquele dia nos perdermos no Alecrim. Caminhamos sem rumo, conversando sobre inúmeros assuntos. Entre eles, o espaço e o tempo do corpo na cidade de hoje. Thiago possui uma grande experiência naquele lugar, pois além de ser morador do bairro, já produziu diversas obras no Alecrim. As páginas seguintes contam um pouco as micronarrativas deste dia. Em seguida à montagem, me dediquei a identificar nexos revelados por ela.
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M E G A T N O M a d n segu
é dia de feira
A segunda montagem resulta do percurso realizado no dia 18 de maio de 2019. O calor das 9 horas da manhã já se assemelhava ao do meiodia. Saí de casa e fui para o Alecrim de ônibus. Nesse dia, resolvi não levar a câmera fotográfica. Havia percebido que na vez em que a levei, o meu corpo havia se modificado profundamente: a presença daquele objeto, mesmo servindo para registrar a experiência, às vezes me distanciava dela. Sem falar em como o olhar dos outros era diferente: estar ali caminhando com uma câmera me colocava em outra posição. Desta vez eu queria o anonimato: ir para o Alecrim e me perder na multidão de corpos, de histórias, de gestos. Decidi gravar, em alguns momentos, o áudio, e utilizar trechos do que ouvia, juntamente com fotografias de outros tempos e autores, para a montagem. Desci do ônibus numa parada não muito óbvia. Botei os pés no chão, as portas se fecharam atrás de mim, sinto a quentura na moleira. Para que lado vou? Segui pela esquerda, entrando na primeira avenida que encontrei, à direita. Na esquina, já era perceptível a movimentação: estou próximo da feira, pensei. Vi os caranguejos presos numa estrutura de madeira. Permanecer atento. Permanecer lento. Permanecer incorporado. Após a montagem, também realizei um momento de reflexão sobre ela, estabelecendo nexos de leitura possíveis.
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re MONTAGE M R A G U L O O D N A T N O )M (DES Neste momento, eu tinha a tarefa de sintetizar como as experiências no Alecrim podiam dar conta de representar aquele lugar a partir de uma série de referenciais. Eu deveria portanto utilizar os fragmentos que já haviam aparecido nas outras montagens, e colocá-los em disposição na mesa. Em vez de fazer uma montagem de proporções maiores, decidi selecionar mais criteriosamente quais deveriam fazer parte desse momento. Os nexos que eu havia estabelecido previamente, as imagens na memória, o conjunto de discussões sobre o trabalho guiaram a produção da remontagem final. Alguns eixos apareceram, representando as reflexões já estabelecidas nos nexos: os usos do lugar, os temas sobre o espaço público, a centralidade do comércio e a noção de problemas que o bairro enfrenta. Incluí também imagens das propostas do Grupo 25. O tensionamento entre as visões às quais elas se relacionam e aquelas experimentadas no nível da rua logo apareceu.
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S I A N I F S E Õ Ç A R CONSIDE Este Trabalho Final de Graduação teve como principal objetivo a produção de narrativas que pudessem se contrapor às visões hegemônicas disseminadas pelo
percebidos entre a administração municipal e o grupo empreendedor, no intuito de agenciar os interesses deste último, foi possível elencar os mecanismos utilizados para a construção
novo em um discurso que se apoia sobre ideais de “modernização” como símbolo de reestruturações morfológicas, e que, aliado à priorização da acumulação de capital,
Grupo 25 para o bairro do Alecrim. Questionar formulações dominantes, de todo modo, não significa encará-las como completamente falsas. Esse movimento, pelo contrário, indicou a argumentação crítica sobre os elementos constitutivos da narrativa em questão e as práticas urbanísticas aí implícitas.
de uma imagem sintética, falsamente consensual e hegemônica para o bairro do Alecrim.
também engloba a despossessão de grupos sociais desfavorecidos.
Além disso, a discussão sobre temas que têm guiado o Planejamento Urbano na atualidade, notoriamente o Planejamento Estratégico, serviu para situar a conjuntura
A realização do trabalho indicou que os conflitos sobre a implementação das propostas do Grupo 25 não se resumem apenas à retirada dos camelôs e ambulantes do Alecrim. Mais do que a ocupação do
Neste intuito, o uso do material jornalístico proveu os meios necessários para detalhar a sucessão de conflitos que se deu a partir do anúncio das intervenções, bem como para compreender de que modo
local em um contexto que perpassa diversas escalas de atuação. Foi possível, desta forma, estabelecer paralelos entre as ações de diversos entes públicos e privados a nível local, e a disseminação de um padrão neoliberal sobre a gestão do espaço urbano. Como se pôde perceber, não há nada de
território do bairro, o que está em jogo é esse modelo de desenvolvimento urbano substancialmente excludente. Para utilizar as palavras de Ermínia Maricato, Otília Arantes e Carlos Vainer (2009), ele se materializa em uma “cidade do pensamento único”, refletindo os interesses empresariais de reprodução do
os diferentes agentes urbanos atuaram na problemática estudada. Além dos elos
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capital a todo custo sobre o espaço urbano.
considerações sobre a alteridade, a presença
autor a considerar aquelas características do
Esse modelo, tendo como pauta a expansão
de sujeitos, de conflitos e formas de
urbano que se acessam a partir da experiência
das possibilidades produtivas e acumulativas
ocupação que se relacionam dialeticamente
no lugar. As improvisações dos ambulantes
de capital, realiza uma série de cerceamentos
na construção da realidade física e sensível
para cruzar as avenidas, o modo como os
do patrimônio comum da humanidade. Em um
do Alecrim. Afirmou-se, nos interstícios
camelôs transformam uma via em lugar não
tempo em que diversas esferas da vida foram
da cidade, a permanência da experiência,
só de passagem, mas também de estar e os
transformadas em mercadoria, cercam-se
mesmo que frequentemente anestesiada. A
laços de solidariedade que se estabelecem
os direitos sobre o espaço natural, a cultura,
montagem urbana, indicando um caminho
entre diferentes comerciantes, são apenas
o conhecimento, e também sobre o espaço
de pensamento e ação a partir do uso de
alguns exemplos de práticas que configuram
público urbano. Em uma sociedade que tem
fragmentos, teve papel fundamental para que
outras formas de habitar o espaço público, e
como dogmas o lucro, a competitividade e
fossem representadas as micro-narrativas
que, desviando dos usos para eles planejados,
a propriedade, a existência de ambientes cercados e protegidos – sejam shopping centers, ou centros comerciais vigiados – são extremamente emblemáticos. Mas o
potencialidade criativa, esses procedimentos metodológicos viabilizaram a desestabilização de certezas:
As errâncias possibilitaram, por sua
Estas narrativas funcionam como um tipo de contra-produção de subjetividades que embaralha um pouco algumas certezas, preconceitos e estereótipos do pensamento urbanístico. A experiência errática da cidade, como possibilidade de experiência da alteridade urbana, e as narrativas errantes, como sua forma de transmissão, podem operar como um potente desestabilizador das partilhas hegemônicas do sensível e das atuais configurações anestesiadas dos desejos (JACQUES, 2012a, p. 200).
vez, incluir, dentro desse contexto transescalar,
Pensar a partir de narrativas levou o
percurso, a experiência da cidade a partir do corpo (tomado como instrumento de pesquisa), também confirmou a existência de extrapolações para além desse contexto: a resistência de modos de fazer e de habitar que desafiam a homogeneização do cotidiano.
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produzidas ao longo do trabalho. Em sua
desafiam concepções pré-concebidas sobre o Alecrim. Contrariando
algumas
falas
empreendidas ao longo do conflito estudado no início do trabalho (lembremo-nos daquela que abre o primeiro capítulo), se experimentou um lugar cheio de vida, onde a urbanidade e a copresença se manifestam em diversos momentos. Um bairro que, mesmo tendo uma diminuição da população residente ao longo das últimas décadas, reúne diferentes grupos sociais, advindos de diferentes partes da
cidade e também do interior do estado. Para
de
vulnerabilidades,
conjuntamente às análises morfológicas,
além da imagem de degradação, também foi
injustiças e explorações de diversas ordens.
econômicas e sociais, compreendam e
possível presenciar o cuidado com que seus
E esta atitude difere completamente do
valorizem o cotidiano, as dimensões do corpo,
usuários todos os dias montam e remontam
mascaramento de intenções outras por trás
da memória, da sensibilidade.
suas bancas de trabalho, carrinhos de venda
de ideais “modernizadores”. Há que se pensar
Mas que não nos contentemos com
de comida, vitrines. Elementos esses que
urgentemente em como intervenções podem
estas cidades novas que se apresentam,
simbolizam a estruturação não só do modo
vir a significar melhorias nas condições -
apenas
produtivo, mas também a reprodução do
materiais e simbólicas - de vida de populações
“modernidade”,
cotidiano e da vida de milhares de pessoas.
urbanas.
dos
estruturas de poder e de banalização da
Considerar e vivenciar essas características
ambulantes e camelôs no bairro do Alecrim
exclusão. Que possamos sonhar e construir
colocou o pesquisador diante de uma gama
não significa necessariamente incentivar as
cidades do amanhã no interior daquelas já
de usos, representações e apropriações que
condições de trabalho que perpassam essas
existentes, sobre os múltiplos agoras e outroras
inclusive desestabilizam as imagens sintéticas
atividades. Mas, questionando as intervenções
que as conformam. Cidades mais lúdicas,
e dotam de vida e complexidade aquele lugar.
sobre os espaços públicos na região central
praticadas, onde haja espaço para o encontro,
Nessa complexidade, a precariedade nas
do bairro, se problematiza a invisibilização que
e também para o conflito; para a construção
relações de trabalho, as dificuldadesde tráfego
a retirada desses trabalhadores ocasionaria.
de subjetividades democráticas, abertas ao
para os usuários, as inadequações no espaço
Por outro lado, no espaço asseptizado das
outro e à multiplicidade de nossas sociedades.
construído podem - e devem ser consideradas.
propostas apresentadas haveria lugar para a
Estas cidades podem vir a materializar-se
De fato, pensar o Alecrim a partir de
alteridade, para as interfaces público-privadas,
se nós - arquitetos, planejadores, gestores, e
para as práticas que garantem vitalidade?
praticantes ordinários - estivermos dispostos
sua face decadente, marginal, pode constituir
enfrentamento
Defender
a
a
manutenção
visualmente
carregadas
que mantêm
de
as mesmas
um interessante e necessário ponto de partida.
É necessário que vislumbremos,
a reatar os laços que nos unificam na trama
Essa face pode ser bastante produtiva à medida
sim, outras formas de analisar, de planejar
de gestos-fio que costuram nossa experiência
em que incentivar, por outro lado, formulações
e de habitar nossas cidades. Formas que,
urbana coletiva.
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Trata-se, a partir da reinvenção dos vínculos, de recuperar a confiança no espaço público, de fazer de novo da cidade um lugar de relações onde o político (palavra, ação e negociação) possa ressurgir, afastando, não o conflito que é próprio da vida coletiva, mas a “pacificação”, que é conquistada pela violência derivada da anulação das diferenças e que é própria do congelamento das relações. O Chamado da Cidade Eliana Kuster e Robert Pechman, 2017.
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