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02 residência

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apresentação

residência Residentes Thula Kawasaki, Bárbara Collier e Zel Garret

Residentes Luiz Rodolfo Annes, Bruna Rafaella e Eduardo Romero

Convidadas Beth da Matta, Clarissa Diniz e Juliana Notari 28_nov a 06_dez · 2008

23_jan a 02_fev · 2009


04 residência

17_fev a 01_mar · 2009

residência 05 piso escorregadio

03 residência Residentes Lucas Bambozzi, Jarbas Jácome e Lúcia Padilha

Residentes Vitor César, Clarissa Diniz e Isabela Lucchesi

Residentes Fabiano Marques, João Manoel Feliciano e Luciana Padilha

Convidados Diogo Todé,Yuri Firmeza, Miró da Muribeca, Editora Livrinho de Papel Finíssimo

Convidado Tatuí

17_abr a 25_abr · 2009

23_mai a 20_jun · 2009


< a p r e s e n t a ç ã o >

Ocorrências do Condomínio Branco do Olho Foi o desejo de estar junto que marcou o surgimento do coletivo Branco do Olho quando, ainda em 2004, um grupo de artistas amigos alugou uma casa em Olinda; arranjou umas cadeiras, um som, algumas cervejas; convidou outros amigos; e se pôs a conviver, pensando, entre outras coisas, sobre arte. De lá para cá, o BO mudou de casa algumas vezes e tem sido constantemente reconfigurado: seus membros, intensamente heterogêneos entre si, atraem-se e repelem-se como as forças magnéticas que, de fato, são. Aqui e acolá, todavia, estamos, de alguma forma, sempre buscando modos de juntar.Assim, magnetizado, de 2008 a 2009 o Branco do Olho optou por abrir seu coração — e apartamento — para pessoas outras, distantes, mas que (e talvez exatamente por isso) despertavam atrações diversas sobre os artistas do coletivo. Surgiu, então, o projeto Condomínio Branco do Olho. Ansiando estabelecer relações mais prolongadas, necessariamente presenciais, o BO realizou, com apoio do Sistema de Incentivo à Cultura da Prefeitura da Cidade do Recife, uma série inicial de cinco residências que têm se desdobrado infinitamente. Chamamos, para partilhar conosco suas ideias, dúvidas, criações, delírios e frustrações, Thula Kawasaki (SP), Luiz Rodolfo Annes (PR), Lucas Bambozzi (MG/SP), Vitor César (CE/SP) e Fabiano Marques (SP), que no Recife estiveram por períodos variados — de uma semana a um mês.Cada residente passou a trabalhar com um subgrupo dos artistas do Branco do Olho e convidados, aproximadamente três por vez. Esses grupos moldaram dinâmicas muito peculiares de convivência e trabalho em conjunto: houve aqueles que não saíram da sede do BO, houve aqueles que lá chegaram quase que exclusivamente no momento de montar a exposição. Ao longo dos dias, nos encontrávamos para conhecer os trabalhos uns dos outros, para conhecer a cidade, nossos lares e histórias 04


de vida, nossas elucubrações sobre arte, para visitar outros artistas e exposições, para passear, para ler o futuro, para tomar cerveja, para não fazer nada e, por outro lado, fazer de tudo: juntos ou em diálogo, criar obras novas que contivessem algo da mistura desses ímãs, que agora, inevitavelmente, se atraíam. Da chegada de Thula, primeira residente do Branco do Olho, à derradeira exposição do projeto, resultado da residência de Fabiano Marques, foram desenvolvidos trabalhos de caráter site specific evidente. Os artistas convidados produziram a partir do Recife, explorando facetas diversas da cidade. Ao mesmo tempo, junto aos membros do coletivo, investigaram intensamente o espaço do velho e grande apartamento que serve de sede ao BO, fazendo uso de quartos, objetos, paredes, chão, janelas, teto, escadaria, banheiro, terraço, telhado, campainhas, fachada. Os trabalhos produzidos negociaram o espaço entre si, provocando diálogos vários — de um olhar sobre a intimidade e o universo feminino, passando pelas possibilidades do desenho em seus desdobramentos contemporâneos, chegando aos embates entre corpo, cidade e tecnologia, incluindo preocupações com a esfera pública e com as muitas possibilidades relacionais e, por fim, pensando sobre projetos, utopias, frustrações e tempo. Em todas as exposições, agregaram-se artistas advindos de campos de atuação distintos. Paralelamente às mostras, ocorreram também intervenções, projeções de vídeo, debates, lançamentos de livros, recitais, performances e festas, com um público amplo e sempre presente. Esta publicação é um breve registro do intenso projeto que vivenciamos. Não sendo possível narrar todas as relações estabelecidas, trazemos um relato incompleto das muitas “avizinhanças” que surgiram ou se estabeleceram entre todos os que passaram por aqui, magnetizando ainda mais o corpo desse Branco do Olho. Estando o cerne desse projeto nas intraduzíveis experiências coletivamente tidas, o que aqui trazemos é, portanto, uma espécie de livro de ocorrências que, apesar de não revelar o que há de mais prazeroso na convivência, dá a ver uma parte do que pode ser a vida em Condomínio.


divas

Bárbara Collier , Zel Garrett,

residência 01

Beth da Matta, Clarissa Diniz e Juliana Notari

· Thula Kawasaki, Bárbara Collier e Zel Garrett

residentes

convidadas

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· Beth da Matta,

b.o. Clarissa Diniz e Juliana Notari

Thula Kawasaki Eu também estava ansiosa. Por não conhecer o Recife, por não conhecer as pessoas e, principalmente, por não saber se eu conseguiria, ao longo dos oito dias, desenvolver um trabalho. Fui ainda sem ideia, queria primeiro estar lá e viver um pouco a cidade e a vida dos outros. Por oito dias, fiz de lá, realmente, minha casa: criei minha rotina, meu cotidiano. Dos caminhos por onde andei

e por onde não andei, da convivência com o pessoal do Branco do Olho, das conversas boas, dos costumes criados, do espaço físico do ateliê... De tudo o que ali eram meus dias, fui recolhendo pedaços, que depois deram origem ao trabalho apresentado. Não foi somente uma ótima experiência e um grande desafio enquanto artista. Não foram somente oito dias. Guardo as fotografias, as lembranças, as amizades feitas e o afeto como quem guarda relíquias.


Thula Kawasaki

b.o.


Bárbara Collier Thula foi a primeira residente a chegar ao BO, cercada de cuidados, mimos e apreensões — afinal, a gente nem tinha ideia de como iriam rolar as residências, como seria a interação com o artista... E se ela fosse uma chata? Se não gostasse de trabalhar com a gente? Eram tantas as dúvidas e incertezas! Mas acabamos ganhando um presente: Thula, sempre meiga e delicada. Como diria minha mãe: “Um doce de menina”. Acabou passando calma e tranquilidade para a gente, embora fosse possível perceber nela também um quê de ansiedades. No meu caso, houve uma preocupação ainda maior: teria de trabalhar como artista e produtora logo de cara, na primeira exposição; então, tratei logo de convidar as Divas — eu, Clarissa, Zel, Juliana e Beth — para, dessa vez, exibir a performance, antes realizada em locais públicos, dentro do ateliê, num clima intimista e de maior vulnerabilidade. Foi nesse clima que Thula chegou ao ateliê, com a performance acontecendo, no seu primeiro dia aqui na cidade; e pensei: pronto, ela vai achar que somos todas loucas!

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DIVAS · Bárbara Collier, Zel Garrett , Beth da Matta, Clarissa Diniz e Juliana Notari

Zel Garrett Quando o projeto de residência artística começou, surgiram, como possibilidade, vários nomes de artistas de diferentes lugares. O nome de Thula apareceu, então lembrei que havia conhecido o trabalho dela através de Luísa Duarte e Bitu Cassundé e tinha me identificado com a poética, a coisa da memória e de explorar os sentidos do afeto. A proposta do meu trabalho era fazer uma instalação com relíquias que juntei durante toda a minha vida: cartas, fotos, cabelo, dentes... Elementos impregnados de lembranças. Também era parte do processo me desfazer de algumas delas depois da exposição, o que se tornou um desafio, já que aquelas preciosidades faziam parte da minha coleção de histórias. Durante a residência, experimentei uma troca muito rica — eu me dividia entre contar histórias sobre as minhas relíquias e, às vezes, catar coisas com Thula pelas ruas da cidade. Bárbara corria com a produção, Thula anotava as etiquetas dos fragmentos recolhidos, e eu embalava as minhas relíquias. Uma delícia! Vivenciar esse processo junto com outras artistas foi realmente único, outra grande história para colecionar.


Zel Garrett - RelĂ­quias

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b.o. DIVAS 路

B谩rbara Collier, Zel Garrett , Beth da Matta, Clarissa Diniz e Juliana Notari


Zel Garrett - RelĂ­quias

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residência 02 · Eduardo Romero, Bruna Rafaella e Luiz Rodolfo Annes

residentes

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Eduardo Romero Ora descontínuo, ora denso, o traço cinza percorre a parede através do fio imaginário preso ao corpo... Enquanto o traço se revela figurativamente, o fio se materializa ao ponto de tensionar o corpo. O corpo é carne. O corpo é desenho. A ligação recursiva entre o corpo carne e o corpo desenho se mostra na pele tensionada. Sinal de vida nos dois corpos.

Bruna Rafaella Trabalhamos juntos durante uma semana, trocando informações, ajudando na elaboração dos trabalhos uns dos outros e vivenciando experiências pessoais. Desse convívio, fiz uma instalação/ desenho preenchendo as paredes internas do ateliê em um desenho abstrato contínuo, que seguia a arquitetura do ateliê, começando (ou terminando) na porta de


Eduardo Romero

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entrada até o corredor do banheiro. Talvez pelo contato com a obra dos meus companheiros de projeto, tenha me contaminado com imagens mais figurativas (Eduardo apresentara uma série de autorretratos; e Luiz, figuras humanas meio primitivistas), apresentando também uma série de desenhos mais ou menos figurativos em nanquim sobre papel. Esses desenhos foram feitos a partir de rabiscos encontrados em antigas agendas — fiz uma seleção deles e montagem com novos desenhos; o resultado é uma iconografia mais ilustrativa, como uma espécie de quadrinhos que não conta história alguma, só reúne alguns personagens imaginários. Luiz Rodolfo Annes De cá pra lá... Travessia da noite no encontro marcado, travessias de montanhas, mares, ciladas. Me deparo com morcegos, amores juvenis, corpos nus, corpos esticados num transe body art, o desenho comum a todos. Passam os dias produzindo sonhos, subindo pelas paredes, criando seres para respirar entre eles. O amor grita. Troca de corações. Os dias se esgotam, estou de volta. Um astro vibratório sem voz.

Bruna Rafaella Você tinha escrito no e-mail anterior o seguinte: “Já posso dizer que foi muito enriquecedor estar acompanhando o processo criativo e de produção diferente do meu e, ao mesmo tempo, perceber o que há em comum ao se propor ao trabalho com desenho. Senti-me desafiado a fazer algo que não tivesse experimentado ainda, pois de início você e o Eduardo já se mostraram decididos a desenhar diretamente sobre a parede. Eu até pensei na ideia, mas não tive a iniciativa e acabei recuando para uma proposta mais conhecida, que era o trabalho no suporte papel. As diferenças entre nossas temáticas me interessaram. Do trabalho do Eduardo, formalmente me senti distante pelo realismo e detalhamento que ele confere às obras, mas as questões em torno do corpo e do desenho seguido de uma performance me instigaram. Já seus desenhos sobre papel, mostrados na mesma sala que os meus, enfatizaram uma proximidade, me chamou a atenção seu modo livre de desenhar, e o resultado me agradou. Na sua obra sobre a parede, o desenho ganhou um ar mais abstrato, o que me intrigou como resultado. Acredito que trocamos experiências e diferentes modos de fazer e pensar o desenho”. Luiz Rodolfo Sim, foi isso. Bruna Rafaella Então, eu achei interessante que, depois, numa reunião sobre outras questões, alguém do BO disse que achou a nossa exposição mais “fechada”, no sentido de mais coesa. E acho que foi mais pela linguagem mesmo, mostramos várias formas de trabalhar com o desenho. Luiz Rodolfo Eram três propostas bem diferentes. Bruna Rafaella E, ao mesmo tempo, bem próximas. Eu já tinha feito essa mesma experiência de desenhar na parede, só que desta vez eu me guiei (até certo ponto) com um início e um fim, tendo como limite e direção a arquitetura da casa.Você colocou uma coisa que eu senti mesmo: “livre”. Foi tudo bem livre, desenhei até no teto. Luiz Rodolfo Mas me senti mais próximo ao seu trabalho. Bruna Rafaella Por que você sentiu nossos trabalhos mais próximos? Luiz Rodolfo Acho que certo ar infantil e meio cartoon tem uma ligação com minhas influências de trabalho. Meus desenhos acabam tendo uma forte referência de cartoon, principalmente os personagens. A relação com seus desenhos pequenos na mesma sala fizeram uma conexão entre os dois universos. Bruna Rafaella Existe personagem, sim, isso foi mais claro, a proximidade física ajudou a ver isso. Mas o meu é meio quase. Faço coisas muito diferentes, não tem um tipo de grafismo contínuo na minha produção, no geral. Até lá mesmo os desenhos da sala eram bem diferentes dos feitos diretamente na parede. Acho que quem viu os desenhos da parede (sem saber de nada) poderia até imaginar que eram de uma quarta pessoa. Não acha?

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Luiz Rodolfo Annes

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Luiz Rodolfo Acho que seu trabalho na parede é diferente, sim, mas guarda uma lembrança do que vi em pequeno formato.Você já havia trabalhado com o Eduardo anteriormente? Como era sua relação com ele no BO? Trocavam informações sobre desenho e produção ou a proximidade se deu com a residência? Bruna Rafaella Eu conheci Eduardo numa oficina sobre arte e tecnologia no Museu Murillo La Greca, antes mesmo de entrar no BO. Nem sei se ele se lembra disso... Lá conversamos, entre outras coisas, sobre desenho também. Mas essa troca mais próxima sobre nossas produções só aconteceu mesmo nessa residência. Luiz Rodolfo Foi uma situação muito favorável para nos aproximarmos. Eduardo Romero Lembro-me dessa oficina no Murillo La Greca... Acho que, na ocasião, tinha comentado com Bruna sobre o acervo dos desenhos de Murillo no Museu... Na época, não sabia que o trabalho de Bruna tinha uma ligação tão estreita com o desenho. Para mim, o desenho sempre fez parte de minha vida... Acho uma linguagem visceral... Foi muito instigante trabalhar numa residência com dois artistas explorando o desenho... Bruna Rafaella Para mim (e acho que isso pode se estender para outros integrantes do BO), essa residência foi maravilhosa para reconhecer a produção dos nossos amigos. Apesar de estarmos próximos, não aprofundamos muito nossa produção. Eu conhecia os desenhos do Eduardo, ele já tinha exposto numa individual no BO, mas parar e conversar sobre isso, e até dar palpite sobre isso também durante o processo de residência, foi só através desse projeto mesmo. Isso foi muito bacana. Foi o melhor para mim nesse projeto (bem como conhecer mais de perto a produção de gente de fora, especialmente a sua...). Luiz Rodolfo Para mim, que trabalho isolado e me dedico ao desenho solitário, foi muito diferente produzir com vocês por perto. Hoje acho que poderíamos ter interagido mais, acho que fiquei ainda um pouco fechado. Eduardo Romero Acho que isso é uma característica do desenho que acaba revelando um pouco de nós. No desenho, tudo é introspecção. A simplicidade do material e do suporte contrasta com a complexidade expressiva do traço... Mas interagimos muito pelo pouco tempo que tivemos... Bruna Rafaella Imagino, Luiz Rodolfo, aliás, lembro que você comentou isso. Mas eu entendo bem você, você interagiu à sua maneira, até que cortei seu cabelo... =) Luiz Rodolfo Sim, você falou que era profissional, e eu confiei. Bruna Rafaella Que bom que confiou. Confiança é o primeiro passo da amizade. 16

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Bruna Rafaella


b.o. Luiz Rodolfo Vendo hoje, foi muito rápido, a residência precisava de mais tempo para não ser tão corrida. Mas o processo todo deu certo. Bruna Rafaella Sim, é rápido mesmo, e para quem não é acostumado a trabalhar em conjunto leva um tempo para se adaptar. Acho que o Eduardo também não costuma trabalhar sua produção coletivamente. Eu já tenho uma abertura maior, de certa forma, porque trabalho em outras áreas onde esse espírito de colaboração é indispensável, como no cinema e no vídeo. Eduardo Romero Olha, confesso que, de um tempo para cá, tenho produzido muito sozinho... Como tenho me dedicado ao desenho, isso é uma consequência. Antes, meus trabalhos tinham uma ligação maior com a performance... Luiz Rodolfo Foram marcantes as conversas sobre o trabalho do Eduardo. Lembro-me dele falando de suas ideias, sobre como ele queria se ligar ao desenho. Eduardo Romero É isso... Gostaria de ligar o desenho à performance... Bruna Rafaella Isso foi bem legal. Uma integração mais corporal. O meu e o seu desenho, me parece, são mais do campo do simbólico. Luiz Rodolfo A relação com ganchos e body art e como ele resolveu foi mesmo interessante. Em que sentido acha eles simbólicos? Bruna Rafaella Numa construção de uma espécie de mitologia. As figuras parecem personagens de alguma história. Elas me lembram alguns sonhos. Luiz Rodolfo Você comentou que lembrava alguns personagens de sonhos seus. E esses sonhos acabam influenciando em sua produção? Bruna Rafaella Quando comecei a desenhar aqueles grafismos abstratos, coincidiu com uma época em que eu fazia uma massagem na cabeça para ajudar nas crises de enxaqueca, uma massagem que se chama craniossacral, e quem fazia essa massagem em mim era uma artista e grande amiga chamada Amanda Melo. Quando ela fazia essa massagem, eu entrava num estado de sonolência estranha, era como se eu estivesse dormindo acordada, e sonhava com esses grafismos. Era muito boa a sensação. Em algum momento, desenhando, percebi que as imagens se pareciam muito com os desenhos.Tem umas coisas interessantes que pesquisei sobre automatismo psíquico, tem alguma relação. Eduardo Romero Nossa...Tinha pensado nisso um dia desses... Quando vi desenhos de Bruna na exposição da Casa Galeria Galpão, no Festival de Inverno de Garanhuns, este ano, pensei: “Tem algo surrealista aí...”. Luiz Rodolfo Percebi que, quando Bruna começou o desenho na parede, inicialmente parecia definir uma imagem que queria trabalhar. Depois percebi que você se soltou bastante. Agora que descreveu essas


relações, pude perceber melhor como funciona seu processo, e seus desenhos pequenos me remetem a anotações, algo que parece de um diário. Bruna Rafaella Esses desenhos são rabiscos de agenda, uma espécie de diário não necessariamente autobiográfico... Escritas imagéticas, anotações para ajudar a memória em como funciona seu processo. É uma espécie de diário? Diário fantástico? Luiz Rodolfo É, achei a ideia de um diário fantástico interessante. É uma mistura de coisas que acontecem no cotidiano à minha volta com imaginação. Alguma frase que li em um livro, alguma cena de um filme, algo que percebi em mim, tudo isso vai se relacionando e criando essa trama de desenhos. Depois vou criando cenas e desdobramentos dos desenhos e personagens. Bruna Rafaella Eu acho que crio personagens através de algumas coisas específicas, do cotidiano também.Tem um artista a quem me remeteu seu trabalho, Paul McCarthy. Eduardo Romero Se não me engano, Rodolfo tinha falado sobre McCarthy durante a residência... Luiz Rodolfo Comprei um livro com toda a carreira dele pouco antes da residência. O que você vê de próximo entre ele e minha produção? Bruna Rafaella

Algo fantástico e assustador e o grafismo também.

Eduardo Romero O trabalho de McCarthy é muito transgressor... Algo realmente aterrador! Luiz Rodolfo Eu acho que a relação dele com o corpo, as situações que cria de tensão nas suas performances com a sexualidade e violência me interessam. Sim, a parte gráfica que ele trabalha também me interessa. Bruna Rafaella Os desenhos de Luiz Rodolfo, como os meus, não são reais, mas a fantasia que os seus criam é mais próxima do real (um real meio grotesco) que os meus, isso é o que acho mais parecido entre seus desenhos e os desse artista, Paul McCarthy. Luiz Rodolfo E tem o lado grotesco, acaba aproximando mesmo. Bruna Rafaella É, seria bom passar mais tempo para tentar entender o porquê dessas imagens “grotescas”. Luiz Rodolfo Tem também o lado irônico nas performances dele. Acho que acabo também criando alguns desenhos mais provocativos e meio irônicos às vezes. Eduardo Romero A liberdade que McCarthy impõe ao seu corpo e as performances traduzem-se, muitas vezes, em pura ironia... Mostra-nos uma realidade do corpo que em nosso cotidiano não nos apercebemos. Mas é uma realidade violenta do corpo, com seus fluidos e excrementos...

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Luiz Rodolfo Annes

Bruna Rafaella Acho que até meio decadentes, no sentido de um universo meio “opressor”.


b.o. Luiz Rodolfo Mas tem, sim, essa relação com a opressão da sociedade em torno do indivíduo. Bruna Rafaella Uma sensação que não sei explicar bem. Não sei se seria ideal dizer: “meio constrangedora”. Não que tudo tenha que ser “belo” e “sublime” ou “bonitinho”. Mas a força do seu trabalho parece que reside aí, nesse “constrangimento”. Luiz Rodolfo É a parte provocativa do trabalho, colocar quem olha numa situação de encontro com certas perversidades. Bruna Rafaella Isso, esse é o nome, perversidade. Eu gostei em especial de alguns que tinham uma relação com a casa. Não sei se eles surgiram por causa da residência ou se você já trabalhou com isso antes. Nesse ponto, acabei achando proximidade entre seus desenhos e os do Eduardo, o corpo com o espaço, enfim... Será? Luiz Rodolfo Ah, sim, a ideia da relação com a casa surgiu um pouco antes da residência. Mas, quando estava lá, me vieram novas imagens, novas situações dessa relação com o corpo e a casa. Eduardo Romero Para ser sincero, nem tinha pensado nessa relação entre o corpo e o espaço...Vi na residência a oportunidade de fazer desenhos murais, experimentar outro suporte fora o papel... Coisa que vinha pensando em fazer há algum tempo... Bruna Rafaella Humm, pensei que tinha surgido justamente por causa da residência. Luiz Rodolfo Existe mesmo essa relação do corpo com o espaço à sua volta e com o mundo mais amplamente. Bruna Rafaella Até me disseram algo interessante durante a abertura da exposição: que eu poderia relacionar os desenhos ao corpo. Disseram que pareciam tatuagens, outra relação com o corpo. Luiz Rodolfo Mas acho que nesse ponto poderia ver uma proximidade com o trabalho do Eduardo. Bruna Rafaella Até pensei em fazer um trabalho assim, preciso de cobaias. Se a residência tivesse demorado um pouco mais, você ia acabar fazendo uma tatuagem.Tudo profissionalmente, claro. =) Eduardo Romero Pô... Muito legal isso! Eu faria! Luiz Rodolfo Ahahahahhahaah. Mas, a tatuagem, eu não sei se toparia...


residência 03

Lúcia Padilha Era Carnaval. Acredito que tive a oportunidade de vivenciar a mais insólita das residências artísticas desse Condomínio BO. E também a mais frenética, pois o tempo em dias de folia pernambucana passa rápido, principalmente para quem inventa de fazer arte em pleno Carnaval. Entre frevo, maracatu, sol, chuva, residentes

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· Lúcia Padilha,

b.o. Lucas Bambozzi e Jarbas Jácome

Rio Capibaribe, pontes, enxadas, mídias móveis, softwares, arquitetura, desenhos, projeções e alguma cerveja, conseguimos, de fato, misturar arte e vida nessa experiência artística. Junto a Lucas Bambozzi e Jarbas Jácome, eu e os integrantes do BO, tal como um bloco de Carnaval, atravessamos a cidade realizando o percurso dessa residência. O Rio Capibaribe


LĂşcia Padilha

b.o.


foi navegado por mídias móveis e serviu de reflexo para nossas discussões sobre deslocamentos, geografia, arquitetura, tempo, tecnologias... Uma enxada arando o concreto foi instrumento para remixar os sons de nossas andanças “silverinas”. O ateliê do BO era nosso ponto de partida e chegada, espaço de encontros, conversas e sorrisos, um lugar para panorâmicas contidas, para transformar imagens através do som, através do ViMus. As cinzas do Carnaval transformaramse em projeções nas calçadas, paredes e muros no Poço da Panela, uma intervenção urbana com um quê de catarse. As linhas retas, as superfícies, as dobras de minha arquitetura foram alteradas nesse espaço-tempo de convivência e se converteram em duas instalações, devidamente abrigadas na exposição final. E o melhor de tudo foi tecer essa rede de afetos, arte e vida, consequência dessa experiência tão especial no Condomínio BO Lucas Bambozzi A residência junto ao BO, no Recife, foi um presente. Não se trata de retórica vazia, pois ela me foi ofertada, como raramente acontece, sem que me aplicasse em algum edital ou fizesse qualquer movimento burocrático para merecê-la. Isso já se inicia valioso. E o que ocorreu a partir de então foi uma oportunidade de experimentar possibilidades despretensiosas, de testar execuções singelas e de renovar ideias. Simples e tranquilo, assim mesmo. Mas isso raramente é permitido pela lógica da produção 22

b.o.

cultural aplicada pelo mercado, onde somos uma espécie de engrenagem a favor de uma produtividade que visa à eficiência, ao cumprimento de prazos, à prestação do serviço, à entrega de produtos. Assim nos sentimos muitas vezes em que nos convidam para algum projeto, pois a moeda é fornecermos algo imediatamente em troca, num processo em que, claro, nós acabamos cúmplices dos deadlines, dos trâmites e das prestações de contas, todos produtores que também somos, em nossa necessidade de versatilidade, ou seja, de não travarmos os mecanismos que, em algum momento, nos garantem algum sustento, seja efetivo, seja pelo vagar da reputação em eterna construção. Com o BO, foi diferente, foi permitido o devaneio, a ideia ainda desamarrada, a experimentação de algo que não conhecia ou não sabia de antemão os resultados. A noção comparativa a um trabalho “laboratorial” cai bem aqui, não em termos de recursos e tecnologias, mas em se tratando de um convite à observação de um contexto, de um campo social, pela disponibilidade de interlocutores, pela boa vontade entre artistas, produtores e agentes culturais, todos, de fato, artistas-malabaristas em busca de um mesmo valor de oportunidades nem sempre materiais. Assim, a partir de algumas incursões pelo Capibaribe, em visitas descompromissadas e afetadas pela morosidade de suas margens menos urbanas, em dias de Carnaval, fui captando imagens que serviriam a uma forma de


Jarbas Jรกcome

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aproximação livre e subjetiva dos fluxos do rio. A companhia gentil e estimulante de Lucinha Padilha, as conversas no ateliê de Rodrigo Braga e Bruno Vilela, Jarbinhas e Clarissa Diniz sempre por perto, noites no Poço da Panela, cruzando lados, o Capibar vazio, as baronesas em blocos lentos, os bacanudos BOs por toda parte, Bárbara atenta e alegre, Bruno Monteiro sempre disposto, um show ali de Dolores com Duda, Central e Tambores Silenciosos, e ainda rio, talvez enxadas boiando, vendo mais baronesas (Quanta Ladeira), aliciando barcos, fazendo pontes, registrando travessias de todo tipo, vendo o rio de muitos jeitos. O rio que em meandro vende a vista, gentrificado, moroso, que afoga severinos, que comove um Silveira qualquer, como eu. Os resultados foram vários, que se reverberam em trabalhos ainda hoje latentes, impressões de/em deslocamento que delinearam também formas de apresentação em testes, em processos, aplicados no BO e para além Jarbas Jácome .Durante as conversas nos encontros com Lucas, Lúcia e demais artistas do coletivo, cogitamos explorar minha vivência em ciência da computação para a criação de novas obras coletivas. Devido à limitação do prazo de fim da residência e dia da exposição coletiva, optei por não desenvolver uma nova obra, e sim utilizar essa exposição como uma oportunidade de demonstração informal, para os artistas do 24

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Branco do Olho e visitantes, dos experimentos de programação de computador que eu já vinha fazendo nos últimos anos. Esses experimentos estão agrupados em um software chamado ViMus, cujo nome vem das palavras visual e música. O ViMus é capaz de fazer processamentos de vídeo e áudio de forma sincronizada. A exposição consistiu numa sala com projetor, computador com o ViMus instalado, guitarra, microfone, caixa de som amplificada e um miniestúdio de desenho com luminária, papéis, tintas e uma webcam apontada para os desenhos. Durante o evento, eu fiquei a maior parte do tempo nessa sala tocando guitarra, desenhando e, principalmente, conversando com os artistas e visitantes que apareciam sobre as possibilidades de interação com esse tipo de software de processamento de tempo real. Entre essas possibilidades, estava a de se desenhar no papel e o desenho ser processado de acordo com o som de quem estava tocando a guitarra e a imagem final ser projetada na parede da sala. Essa experiência foi extremamente importante para mim, pois, pela primeira vez, me reuni por mais tempo com pessoas que dedicam sua vida às artes visuais. Até então, eu havia participado apenas de grupos de música ou de engenheiros/cientistas da computação. Uma dessas conversas com Lucas Bambozzi rendeu o início de uma parceria muito especial para um espetáculo audiovisual que ele estava criando, chamado Da Obsolescência Programada, em 3 Atos.


Jarbas Jรกcome

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Lucas Bambozzi

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residência 04 · Vitor César, Clarissa Diniz e Isabela Lucchesi

residentes

· Diogo Todé, Yuri Firmeza, Miró da Muribeca, Editora Livrinho de Papel Finíssimo

convidados

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Vitor César Quando Rosalind Deutsche fala de respostas, não está se referindo à imediata oposição entre perguntas e respostas. Tratam-se dos modos de ação criados na nossa vida cotidiana, que refletem nossas formas de entender e estar no mundo, desde escolhas pessoais, como a maneira de se vestir, até como usamos

nosso “sotaque”. Portanto, não está ligado diretamente à ideia de velocidade ou imediatismo que carrega o que o Yuri chamou de eficiência produtiva. Acho que o que é público está fundamentalmente estruturado na negociação dessas respostas. Sendo assim, acredito que a arte se constitui como uma dessas formas de responder ao mundo que me cerca e, portanto,


Isabela Lucchesi

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intimamente relacionado ao espaço comum — público — estabelecido entre duas ou mais pessoas. Assim, me causa surpresa a tentativa de apagar qualquer relação entre emissor e receptor. Não entendo como existir no mundo em que vivemos dessa maneira, consequentemente, não compreendo uma proposição artística que se funde desconectada de alguma forma de comunicação. Somente entendo propostas artísticas em função de alguém a que se destina, ainda que este seja desconhecido. Trair o público é impossível. Quem foi traído, então, não era público, mas, sim, quem compreendeu a traição. Acho importante reforçar que entendo a arte como uma das maneiras de responder — ou seja, de entender e estar no mundo. Realmente, um posicionamento que pode ser confundido com “dar” ao mundo, no sentido de doação, de benevolência. Trata-se de outra coisa. Essas respostas de que falo simplesmente dizem respeito às diferentes compreensões do mundo que nos cerca. Dessa perspectiva, entendo que a comunicação é justamente o que torna possível a negociação dessas maneiras de entender e estar no mundo, entre pelo menos duas pessoas. E, até mesmo por entender que cada sujeito é constituído e atravessado por tantos outros em tais negociações, não poderia pensar que a comunicação seria reduzida a uma lógica binária emissor-receptor. Mas também não consigo deixar de considerar que eu, constituído por diferentes contextos, apreendo (como 30

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receptor) o mundo, multifacetado, e atuo (como emissor) no mesmo mundo. Desse modo, não penso que arte e comunicação sejam a mesma coisa, mas que a arte é uma atividade que existe a partir de algum tipo de comunicação — ou negociação de interpretações do mundo. De outra maneira, me fica a sensação de que a arte seria constituída por algum tipo de esfera inexplicável ou divina. Se consideramos que existem esses muitos e diferentes acordos compartilhados pelas distintas interpretações do mundo, existem, portanto, muitos públicos, ou esferas públicas. Não há um modelo de sujeito universal que constitui um só espaço público. E não consigo desconsiderar isso em meu trabalho artístico. A proposta de um artista não precisa se dirigir necessariamente a um desses públicos, mas ao ter como destinatários sujeitos desconhecidos, ela constitui seu público, seu espaço de discussão e negociação. E, nesse tópico, o que não entendo é: se não existe interesse em destinatários, por que colocar a carta no correio? Afinal, mesmo com o desejo de que seja extraviada, não seria para chegar às mãos de alguém? Clarissa Diniz Quando da passagem de Vitor César pelo Recife, nossas conversas giraram em torno da ideia de esfera pública, muito incitados por obra de Vitor e sua constante preocupação em manter espaços de interlocução entre os seres e seus respectivos contextos. Estávamos preocupados com a presença da arte em meio à esfera pública —

como ela poderia de fato atuar? Que responsabilidades ela teria? Vitor citava Rosalind Deutsche, que diz que responsabilidade é habilidade de resposta: response + ability. Que respostas aos outros, aos contextos e a nós mesmos nossa arte poderia ousar constituir? Por outro lado, Todé representava, para mim, a autonomia como desobediência. Ele falou sobre não votar, elogiou a desobediência civil. Sua desobediência se quer libertária, e, talvez por isso, seu trabalho tenha consistido em apreender e libertar pombos, que, no momento de sua libertação, portavam pulseiras fosforescentes. Choveu, todavia, e a água parecia a consciência contextual de Vitor César lembrando a interdependência... E foi desejando explorar, a um só tempo, o que poderia ser dependência e o que poderia ser autonomia que pensei numa performance que ocorreu apenas entre duas pessoas, eu e outra, numa sala escura, sem hora marcada para acabar. E foram quase cinco horas respirando, apenas, entre o pescoço e os ombros das pessoas... Silêncio, poucos toques; apenas inspiração, expiração. Uma relação de presença no que poderia ser, a princípio, a menor das presenças: estática e muda. Lembrava de Edgar Morin — “É preciso ser dependente para ser autônomo” — e queria investigar a porção “consciência existencial” da consciência contextual, esse espaço


Vitor CĂŠsar

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medido através do corpo e, mais especificamente, por meio da reverberação de nossa respiração. Yuri Firmeza, que havia sido o Souzousareta, o artista inventado, inventava-se ali também, conosco. Virtualmente, não sei se de Belo Horizonte ou se de São Paulo, fazia-se presente. Ele e Bárbara Collier deram suas fundamentais contribuições à pequenina publicação que elaboramos ao final da residência de Vitor César, explorando a afeição editorial que compartilhamos — eu, Vitor e Todé, que, contudo, não pôde participar de nosso livrinho por estar tentando pegar pombos para o seu trabalho... Yuri Firmeza Eu estava “aqui”, cujo lugar também não recordo, e Clarissa com seu cheiro- d’água convidoume para fazer parte dessa conversa, que resultaria em uma pequena publicação. Cheirod’água me levou para o Capibaribe, cheiro convulsivo, correnteza leve que, antes de me desaguar em Boa Viagem, me lançou, como uma âncora de isopor, em Chico Science. Risoflora e cheiro de mangue. “Música é perfume.” O texto foi escrito a partir desses tambores e frevos, em ritmo de conversa, sobre as barbatanas de um tubarão que espreitava, com dentes afiados, o cardume de palavras. Mas não sei o que dizer da arte como habilidade de resposta, porque eu não vejo relação entre arte e resposta — penso que se aproxima mais de lançar 32

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perguntas ou de uma negação de “respostas”. Habilidade de resposta me parece uma questão de eficiência produtiva, do marketing, da administração, sobretudo por conta do imediatismo explícito na response + ability. Acredito que a questão da urgência passa pelo corpo. Igual dificuldade eu tenho para entender a questão do público. Expliquem-me, por favor. Eu sempre desejei que meus trabalhos traíssem o público ao qual ele pode, um dia, ter sido destinado. Sempre almejei apagar qualquer relação de emissor para receptor que essa questão do público definido a priori me parece conduzir. Pois bem sei que arte nada tem a ver com comunicação Acho que a questão da ação no mundo é inextricável da política de produção de subjetividade em curso. E, nesse ponto de vista, é uma questão de performance, já que a própria subjetividade é constituída por performance... Quanto à relação entre emissor e receptor, fiz questão de enfatizar o fato de estabelecermos o público a priori — para mim, um equívoco. Trair é fazer com que o correio cometa um erro. Ou, mais que isso, deixar que o pombo se encarregue desse trabalho. Não é uma conversa pautada na “lógica analógica binária” da comunicação — emissor-receptor. A conversa é multifacetada, trespassada por interlocutores, atravessada por forças de todas as ordens, de

todos os lugares e direções. Concordo totalmente contigo que “público” é um espaço de uso comum, de partilha, e não um espaço de posse. E acho que esse espaço, assim como o destino, pode e deve ser inventado através, também, da contrainformação. E é por isso que eu insisto ainda que arte nada tem a ver com comunicação. Pelo menos sob o prisma que entendo a comunicação: “A comunicação é a transmissão e a propagação de uma informação”, “Uma informação é um conjunto de palavras de ordem”, algumas das pérolas de Deleuze. Isabela Lucchesi Resolvi fazer uma instalação com elementos que são utilizados para embalar, transportar e, consequentemente, conservar obras de arte em e de instituições. Como conservar uma ideia, como sinalizar um movimento? Como transportar um conceito? Foge de um limite físico, de convenções e normas. Mas pensei, além disso, nessa relação: instalar sinalizações num espaço e fazer com que pessoas se coloquem como obra, transfiro a elas a função de possíveis sujeitos conservados ou conserváveis. São sensíveis à umidade, ao calor, às intempéries da vida. E vejo a presença do público como essência nessa composição. Foi por aí... E tendo o trabalho essa imprescindível interação (público x obra), cabem várias outras leituras, e é o mais válido disso tudo.


Vitor CĂŠsar

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Vitor CĂŠsar


Clarissa Diniz e Yuri Firmeza

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residência 05

A p r Diversas

e

n d a Receitas

Encontre diversas receitas deliciosas de residências artísticas aqui no Condomínio BO!

Piso Escorregadio residentes · Fabiano 36

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Marques, João Manoel Feliciano e Luciana Padilha convidado

· Tatuí

Como Iniciar: Por onde começar um trabalho de residência artística? Será que vai

dar certo dessa vez? E se a convivência não rolar legal? Será que conseguiremos trabalhar coletivamente? Será que vai dar tempo de produzir algo? E essa produção será de cada um, resultando de um convívio, ou será um trabalho em que todos pensem e executem juntos? Serão trabalhos novos? Algo já pensado? Como finalizar um projeto


Luciana Padilha

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de residência, depois de quatro experiências bem diferentes, mas com resultados positivos? Será que tem uma receita para isso? Foram essas questões que permearam o pensamento dos três últimos artistas do projeto Condomínio BO. Claro que só percebemos que as angústias e dúvidas eram comuns depois do convívio, de conversas e trocas... E o que é interessante: sentimentos que quase todos os integrantes e convidados anteriores tiveram, sentiram, pensaram... Muito bom descobrir isso. E foi a partir dessa experiência rica e deliciosa que apresentamos receitas que, a cada busca, apresentam muitas possibilidades de se retirar, misturar ou adicionar novos ingredientes, gerando outras receitas!!! I n g r e d i e n t e s – Diálogos, andanças pela cidade, pesquisa de materiais, interação com o espaço, conversas de bar, espaço de comunicação com muitas possibilidades de desvios e derivas no caminho... Modos De

de Luciana

Preparo

o processo, representando o sentimento de angústia que era presente em mim. Na época da residência, essas questões ainda me incomodavam... Tempo de produção... Tempo dos outros... Tempo de reflexão... Decidindo, assim, trabalhar com questões referentes ao tempo. Primeiro pensei em “roubar” o tempo dos integrantes do BO, pedindo um objeto pessoal que, para eles, tivesse alguma relação com seu tempo... Só precisavam me doar e dizer qual a relação do objeto com o tempo. Porém, no transcorrer da residência, absorvi o ritmo frenético de Fabiano de criar, criar e criar... Daí, foram muitos projetos e metodologias que, ao final, não foram possíveis de realizar, ficando para outro tempo, tendo, ao decorrer da residência, criado novos e outros trabalhos, cujo resultado me satisfez em relação à coerência, à experiência junto e ao meu conceito de tempo... suas inconstâncias e adaptações que ocorrem em processos... assim, as instalações, os objetos e os vídeos apresentados no “ateliê residência” ponderam sobre o tempo dedicado ao processo de criação. Minha receita para uma residência de arte realmente transformadora

Padilha De

– A partir de um trabalho iniciado em 2008 com “poeira”, no qual, a cada dia, filmava um pouco da poeira que se juntava em meus objetos de produção, meus móveis e meus livros e depois limpava e juntava numa garrafinha, recomeçando o registro de todo 38

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Fabiano

Marques

•Chegue antes da data marcada. •Vá embora depois do combinado. – Esse papel do hóspede inconveniente, que não respeita muito o espaço (tempo) que lhe é concedido tem ao menos uma

utilidade clara: desestabilizar o cotidiano, o que, por si só, pode vir a se caracterizar como uma efetiva ação artística. Essa atitude como proposição artística só agora, retrospectivamente, me surge com alguma aparente objetividade científica. À época da residência, ficar mais tempo apenas me pareceu a coisa certa a fazer. Uma constante nas experiências de residências de artes é a de que o tempo disponível é sempre insuficiente para se conhecer o entorno e as pessoas envolvidas e também para se realizar as ideias que naquele lugar e período surgirem: isso se verifica quer a residência dure uma semana, quer dure seis meses. Essa simples quebra de protocolo, de se propor a ficar mais tempo do que o que fora acertado, desmancha qualquer máscara social e tensiona a hospitalidade, traço característico das residências de arte. Hospitalidade que ganha relevo quando pensamos no Brasil; e, mais ainda, no Recife, cidade-coral com tocas de vida pulsante por todos os lados. A resposta do Branco do Olho a essa folga minha foi uma hospitalidade ampliada, uma póshospitalidade, da qual só consegui escapar — sob risco de ali passar uma longa temporada — me autochantageando com férias de windsurfe (meu ponto fraco) em uma praia distante. Férias para o artista — essas inconvenientes fases intercaladas na trajetória da produção de sua obra — podem se configurar como algo


Fabiano Marques

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perigoso, sob risco de uma perda de nexo histórico-linear. Mas, de fato, elas tendem mais a ser um período de trabalho dobrado, no qual a cabeça vazia se infla ao vento como vela, seguindo mar adentro; e volta como rede, sobrecarregada de ideias. E, além disso, brincar com o tempo é um exercício de liberdade tão legítimo como outro qualquer, se é que preciso me justificar para aqueles mais apressados e precipitados. Fui ao Recife com algumas ideias do que eu poderia desenvolver lá. Nada muito elaborado além de dois ou três temas e uma proposta de exercício coletivo para conhecer os demais condôminos em atividade. As ideias avançaram nas pessoas, umas latindo, outras mordendo e logo as levamos para passear. Melhor dizendo, elas, as ideias, é que nos levaram à deriva pela cidade e de volta ao portão. Vou me ater à descrição de duas delas e de como as parcerias aconteceram. Mapa de Deriva Astral A proposição: a partir da leitura de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, descobrir qual o signo astrológico do personagem Fabiano, baseado nas passagens descritivas sobre ele encontradas ao longo do livro. O signo astrológico é dado em função da posição do Sol no firmamento em relação à data e ao local de nascimento do indivíduo e serve para traçar suas características e seu destino. O que fizemos foi o experimento de seguir o caminho inverso: partindo de suas características, procuramos chegar ao seu mapa 40

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astral, dado que me pareceu fundamental descobrir, visto que a sina do personagem era nascer e viver em um caminhar errante castigado pelo Astro Rei. Uma espécie de Sísifo que carregasse o Sol nas costas. Vidas Secas, eu já carregava comigo quando fui para a residência, mas essas relações só fui formular por ter ficado hospedado na casa de Lúcia Padilha, artista do Branco do Olho e astróloga, com quem desenvolvemos os mapas astrais em colaboração. Outra contribuição para esse trabalho veio da arquiteta Cristina Gouvêa (de lá para cá, também presente em outros projetos) com o desenvolvimento conjunto de um protótipo de uma máquina que era misto de mapa do sistema solar e caixa de câmbio com dez controles que giravam ao redor de um eixo concêntrico e que tinha duas posições básicas: o mapa astral do Fabiano de Vidas Secas e o mapa astral de Fabiano Marques. Afinal, se a residência de arte deve ser transformadora, por que não mudar até de mapa astral? C o n d i c i o n a d o Uma caixa de ar-condicionado superdimensionada, vazia, instalada na fachada da galeria, criando um espaço expandido de circulação de ar e ideias do interior do ateliê com o entorno. Do artista em residência, o que se espera é uma ação em arco reflexo: em resposta ao estímulo de um novo meio ambiente, deve vir uma produção instantânea que traga uma contribuição tanto ao seu fazer artístico quanto ao contexto. Quero acreditar que prefiro dar tempo para as reações químicas

acontecerem naturalmente, mas, nesse caso, o calor úmido de outono da cidade só me fazia ver caixas de ar-condicionado vazias pelos prédios. Prédios que, tal como eu, estão condicionados a buscar uma brisa, uma rajada de vento, uma ventania. Na abertura da exposição, apresentamos os trabalhos em estágio de fantasia improvisada de Carnaval. De lá para cá, tenho trabalhado em ritmo muito mais lento em algumas daquelas ideias e em particular uma que me surgiu olhando as nuvens de fim de tarde sobre a cidade a partir do mar e da qual não apresentei nem um esboço na exposição: construir um avião com o formato do Plano Piloto de Brasília e fazê-lo voar. Talvez este seja apenas um lugar-comum, mas fico aguardando, tal qual a maré, por outra oportunidade para, de novo sobre os recifes, me lançar e, mais uma vez, me atrasar na partida, sob a desculpa de que foi a lua nova (ou cheia) que não me deixou ir embora antes. De João Manoel Feliciano Estava realmente com muita expectativa de como seria trabalhar em grupo no projeto de residência. A ideia e o fato de receber um artista de fora me fizeram um pouco de fora também, me fizeram um pouco artista-turista em meu próprio ambiente. As chuvas de junho na Rua do Lima, a loja maçônica escondida atrás do Habib’s da Boa Vista, foram tempos e lugares revisitados pela primeira vez, quando pensei ver como Fabiano veria.


Fabiano Marques

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Já a oportunidade de trabalhar com uma artista próxima e colega de coletivo é preciosa quando você percebe que não conhece tão bem os detalhes, a montagem, as possibilidades de diálogo com o seu trabalho. Tudo isso amplia e engrandece esse contato artístico. Embora a maneira de trabalho, os conceitos e a formulação espacial fossem bastante heterogêneos, não tive problemas de diálogo com Fabiano e Luciana. Foi interessante perceber nesses dois artistas a maneira como criam. Fabiano sempre fazendo projetos e os mudando a todo o momento, Luciana com suas ideias procurando espaços. Então foi tranquilo, gratificante e agradável sair nas ruas em dia de chuva procurando uma traquitana de máquina fotográfica e tirar fotos no carro de pipoca. Achando em tudo uma ligação com minha pesquisa Capillus, exposta no conjunto desse Piso Escorregadio. CARDÁPIO

DA

SEMANA

Piso Escorregadio O título da exposição refere-se à residência artística como uma travessia por um território de incertezas que apresenta tanto perigos quanto oportunidades de descoberta. O piso desliza e se prolonga também no tempo. O piso escorregadio é, por essência, o espaço da arte.

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Luciana Padilha


Jo達o Manoel Feliciano - Aedificatore Capillus

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b.o. Jo達o Manoel Feliciano - Aedificatore Capillus


condomínio

patrocínio

catalogo B.O.  

catalogo da residencia coletiva no atelie B.O.

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