Autora/narradora: Jaya
Organizadora: Mamãe da Jaya
Um momento...
Hoje eu fui à Praça do Por do Sol com minha ex-dona de cabelo amarelo e a dona atual,de cabelo preto. Eu tenho cabelo branco, mas só tenho nove meses. Moro em São Paulo numa casa grande que tem outros dois cachorros e duas gatas.
A dona de cabelo preto disse que tenho uma nova mãe,de cabelo vermelho; ela também tem um gato cinza, mas só o vi por foto,porque a vermelha mora em Campo Grande, um lugar bem mais longe que a Praça do Por do Sol). Longe é um lugar que demora para chegar.
Outro momento... Nos mudamos para Αtibaia, que fica mais longe que a Praça do Pοr do Sol e mais perto que Campo Grande. É Natal, mas a mãe da minha mãe está triste porque o amor dela virou estrelinha e estrelas ficam tão longe que não dá para visitar.
Shanty,a gata da mãe da minha mãe, faz yoga. Ela é a chefe. Chefes mandam.Ela manda em mim...
Outro momento... Chegou mais um gato na casa da minha avó e foi batizado Romeu. Ele seguiu minha mamãe na rua e, quando vovó abriu a porta para lhe dar ração, entrou, pulou no sofá e nunca mais saiu, porque é raro abrirem a porta, então,é melhor não dar bobeira.
Romeu veio dormir na cama da mamãe: ela gosta de receber visitas, minha avó não. Vovó gosta de solidão e silêncio, mamãe gosta de reunião e palavras. Romeu é silencioso. Escolheu a vovó: são parecidos.
Outro momento... Ε ... e mandse
manda na Aurora, que é a filha da minha tia, seis anos mais nova que a minha mãe. Hoje fez frio e Aurora pôs camiseta.
Minha mãe saiu com minha tia para ir à Pedra Grande, uma grande pedra onde as pessoas vão ver o Por do Sol. O sol é uma estrela que brilha muito, então, as pessoas olham o sol indo embora, porque não dá para olhar direto para ele.
Outro momento... Romeu tem a casa inteira, mas gosta mesmo é de ficar em caixas. Mamãe também quer uma caixa, mas tem que caber ela e eu e caixas grandes são caras.Caro é algo que ela não pode pagar.
Mamãe saiu 5h20. Ela decidiu trabalhar fora, mesmo tendo medo, porque precisa muito de uma caixa. Ela para os carros e obriga os motoristas a darem dinheiro para ela deixá-los passar. Ela tem uma chefe que manda, mas manda bem.
Outro momento... Tenho agora uma mãe de cabelo marrom e ela me pegou no colo, mas eu quero descer. Minha mãe troca muito de mulherzinha porque é carente de mamãe: a vovó é dona dela, mas não é mãe e ser dona é bem diferente de ser mãe: donos abandonam, mães não.
Romeu saiu e voltou com olho machucado: outro gato furou o olho azul dele. A médica de gatinho deu pontos para o olho não vazar (olho é suco?). Não vazou; ficou vesgo e lindo, porque tudo que é diferente é mais lindo do que o que é igual e agora Romeu tem um olho especial.
Outro momento... Minha mãe me obrigou a colocar uma roupa ridícula do “Santos”, time de futebol do meu avô, para tirar foto e mandar de presente. Não gosto de saia, nem vestido; gosto de azul e de rosa, mas gosto mesmo é de ficar pelada.
Tenho uma nova mãe de cabelo amarelo; elas foram ao planetário comemorar o aniversário do vovô. O vovô gosta da mamãe porque ela é bem parecida com ele. A mãe loira tem um pai que não é pai, é dono e a abandonou e por isso ela não quer mais ter uma família.
Outro momento... Eu ganhei um irmão e o nome dele é Pistache. Está magro e triste porque nunca teve uma mãe: tinha uma dona e ela era malvada. Ele não sabe mastigar, porque só tomava leite e não sabe andar porque ficava amarrado...
Mamãe aprendeu a enfiar agulha e aplicou soro nele: deu soro com amor. O soro hidrata, mas é o amor que cura.
Outro momento... Aurora e Pistache dormiram juntos na casinha. As patinhas dele ainda estão doentes e, por isso, ele não sobe escadas, então, Aurora fica lá com ele, porque qualquer lugar é bom com amigos.
Pistache subiu as escadas tentando acompanhar a Aurora. Mamãe vibrou de alegria! A amizade faz a gente ter vontade de viver e acreditar. Acreditar é ver uma coisa que já existe, mas ainda não está lá.
Outro momento... Chegou uma cachorrinha pequena em casa: ela tem o pelo ralo, orelha peluda, muitos vermes e pulgas. Foi batizada Mirna e é da minha tia. Ela foi abandonada. Abandono é quando você tem um dono e ele não te quer mais, mas nem arranja um dono novo e já te joga fora.
Mirna foi dormir na caminha com Romeu. Ela não tem mais pulgas, nem vermes. Minha tia foi embora e levou Aurora; Mirna escolheu ser filha da vovó, que também escolheu ser mãe dela (vovó só não quer, mesmo, ser mãe da mamãe, porque elas não são parecidas).
Outro momento... «E...
...lá se vai...
Outro momento... ...mais um...
...di-aaaa.”
A PRÓXIMA PÁGINA CONTÉM CENAS FORTES!!! (Se não aguentar, feche os olhinhos)
Outro momento... Minha mãe salvou um gatinho que estava com um dodói bem grande e por isso estava muito bravo: quando a gente sente muita dor, fica bravo e espanta todo mundo porque tem medo de ser machucado outra vez. Teodoro está com menos dor e tem roupinha para proteger o dodói. Mamãe disse que é meu novo irmão. Irmão é quando você é da mesma família: você pode não vir da mesma barriga, mas mora no mesmo coração.
Outro momento... υ
Teodoro está ótimo. Acho que ela não quer ser nosso irmão. Teodoro bateu no Pistache. Tem gente que passa tanta dor que, quando fica forte, bate em todo mundo porque acha que todos são iguais, então, tenta se proteger: isso se chama trauma.
Outro momento... Mamãe e a titia estão brigando: titia resolveu ser chefe. Chefes mandam. Mamãe quer que todo mundo mande (ela gosta de reunião), mas titia é parecida com a vovó, gosta de solidão e quer mandar sozinha: agora elas são rivais. Rival é alguém que vive num mundo tão pequeno que decide eliminar você para ter mais espaço.
Mamãe cansou de parar os carros e resolveu trabalhar de babá pet. Sua primeira cliente chegou hoje e se chama Jade; ela tem trauma, como Teodoro, mas não bate em ninguém, se esconde na casinha, porque cada um lida com o trauma de um jeito.
Μinha mãe virou a casinha da Jade porque ela passa o dia inteiro lá e só sai de madrugada.
Outro momento... Jade deu a patinha para a mamãe. Dar a patinha é confiar. Confiar é acreditar que, mesmo havendo muita gente que faz dodói, também tem gente que faz curativo: as pessoas podem ter focinhos parecidos, mas não são iguais.
Hoje Jade entrou em casa.
A mãe da Jade está triste porque a irmã dela virou estrelinha.
Outro momento... Às vezes, Dog (nosso Deus)faz duas pessoas sem irmãos se conhecerem e se adotarem. Você sabe que alguém é seu irmão porque, desde a primeira vez, você o ama e quer proteger, então, deixa ele bem guardadinho no seu coração.
Agora, ela e minha mamãe são irmãs.
Outro momento... Chegou outro gato na casa da minha avó e foi batizado Moisés. Na verdade, minha mãe pediu para a vovó ficar com ele até ser adotado, mas vovó quis ela mesma adotar. Vovó gosta de bichinhos: ela e a mamãe são parecidas nisso.
Moisés acha que Romeu é o pai dele (na verdade, ele tem certeza disso: ele acha que são muito parecidos).
Outro momento... Mamãe e Pistache são parecidos.
Teodoro preferiu ser filho único e morar em São Paulo: ele e o pai são parecidos.
Outro momento... Eu sou parecida com meu irmão...
... e sou a cara da minha mamãezinha. A gente se parece com quem ama.
Outro momento... Ganhei uma nova mãe: essa é definitiva, mamãe disse. Definitivo é tudo que ainda não virou estrelinha. Elas são muito parecidas, porque se amam muito; são tão parecidas que, às vezes, não sabem quem é quem e ficam se procurando porque não enxergam que estão bem ali.
Também ganhei irmãos definitivos: Dorinha (em cima da cama) e Nino, ao lado. Dorinha é filha da Sílvia, mas quer ser chefe, dela e de todo mundo: ela quer que minha mãe vá para bem longe, para depois de Campo Grande, porque ela só quer a Sílvia no mundo dela. Isso se chama ciúmes.
Outro momento... Mudamos de casa outra vez porque a irmã da Silvia disse coisas feias para minha mãe agora ela está buscando uma nova caixinha onde caiba toda sua família definitiva. Mamãe está começando a ficar com trauma de irmãs porque a irmã dela também disse coisas feias e agora elas são estranhas (vovó, que é parecida com a tia, também está estranha).
Estranha é uma pessoa que você não conhece. Quando uma pessoa que você conhece quer ficar longe para sempre, como uma estrelinha, ela pede para voltar a ser estranha, mesmo tendo te conhecido. Aí, fica um buraco, na foto e no coração.
Outro momento... O violão da mamãe também deixou um buraco no guarda roupa e no coração dela: ele não virou estrelinha, virou 500 reais e pagou várias contas. Conta é quanto vale alguma coisa.
Mamãe tem várias contas para pagar, mas não tem o dinheiro ainda: isso se chama falência. Quando ela salvou o Negão, por exemplo, fez contas e ainda está pagando, mas ela diz que ele vale muito mais e que a vida não tem preço.
Outro momento... Negão agora se chama Toddy, tem uma família e é feliz porque teve outra chance. Chance é quando você ganha muitos momentos novos, embrulhados para presente, para você usar.
Eu, minha mãe e Pistache temos uma nova chance agora... e agora... e agora... e agora também.... e agora...
Outro momento... No passeio de agora vimos nosso amigo cachorro do outro lado da rua e latimos muito. Latir é gostoso!
Também cheirei o amigo alecrim. Alecrim é gostoso!
Outro momento... O amigo-senhor-desconhecido-que passeia-com-os-cachorros-dele estava escondido de novo, mas as coleiras estão lá.
Vi o amigo-anão-de-jardim-fora-dojardim e o amigo-cachorro-de mentira e o amigo-tênis-pé-baruel que já fica na porta para não esquecerem de por no sapato: chulé não cheira alecrim!
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Outro momento...
Mamãe está feliz porque comemos bem... ...e porque, pela primeira vez, fiz cocô no lugar certo da nova casa. Agora ela tira foto de tudo para pοr no trabalho da faculdade. Foto é uma coisa que congela o momento.
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Mamãe me contou umas lembranças hoje. Lembrança é quando você pega na caixinha da memória alguns momentos definitivos que você fotografou com os olhos para olhar depois. Quando alguém vira estrelinha, vai morar muito longe, então só dá para lembrar para diminuir saudade. Saudade é quando alguém mora no coração, mas não dá mais para fazer carinho. Shanty e Jade viraram estrelinha
Outro momento...
Quando a mamãe esquece uma coisa importante, Beatriz, psicanalista, ajuda a lembrar. Às vezes, mamãe esquece para onde vai e Beatriz ajuda ela a se encontrar. Beatriz tem lembrado minha mãe que pode ser legal ter uma família, mas ela não está conseguindo mais dar a patinha porque está traumatizada como a Jade.
Outro momento... Α família da mamãe que mora em Portugal deu “oi”. Portugal é mais longe que Campo Grande e mais perto que as estrelinhas. Família é quando várias pessoas ficam parecidas definitivamente, porque se amam, mesmo quando brigam e nunca viram rivais.
Numa família, a chefe é a mãe e ela só manda a gente ser feliz. Mãe é um cobertor quente que aquece a gente quando faz frio, mas que sai de cima quando a gente quer deitar a barriga no chão, porque ela acredita que a gente deve ser livre para ir aonde quiser e sabe que quem é amado sempre volta.
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Esse livro foi escrito na língua do coração: se você não fala minha língua, é “bárbaro”.