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Mar, a menina e o vento Mar, la niña y el viento
ilustrações de Lucas
Fontana tradução de Vitor Taveira
1ª edição
Natal/RN - 2015
Copyright © 2015 Adriano Cruz Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, transmitida por qualquer forma eletrônica, mecânica, fotocopiada ou gravada, sem a citação da fonte e autorização expressa do autor. Ilustrações
Lucas Fontana Capa
Lucas Fontana e John Williams Projeto Gráfico
Leidilson Lira da Silva Tradução
Vitor Taveira Revisão Português
Andreia Braz e Paula Santos Revisão Espanhol
Letícia Gambetta Impressão
Offset Gráfica e Editora Catalogação na Fonte: Ana Cláudia Carvalho de Miranda – CRB15/261 C983m Cruz, Adriano Mar, a menina e o vento = Mar, la niña y el viento / Adriano Cruz; ilustrações de Lucas Fontana; tradução de Vitor Taveira. – Natal: 8 Editora, 2015. 43p.: Il. Título e texto em português e espanhol. ISBN: 978-85-68246-43-6 1. Literatur. 2. Literatura infanto juvenil. I. Fontana, Lucas. II. Taveira, Vitor. III. Título. CDU: 82-93 8 Editora 8editora@gmail.com
Ao pequeno Andrey A Josefa e a João
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Maria era o seu nome, mas sempre fora chamada de Mar. – Sim, assim mesmo, só três letrinhas: M A R, como aprendi com a Tia Edna. Ela escrevia no quadro de giz e cantava alto as três letras espalhadas, com sotaque de bolacha crocante: – Mar!
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– Essa menina tem olhos imensos – dizia a velha Dolores, curandeira famosa de Caiçara. – Cresceu sem conhecer o pai. Já a mãe era uma alma boa, Deus a tenha!– completava Bastinha, professora do primário. – Era um homem das águas grandes – ajuntava Luís da Esquina, bodegueiro que vendia doces do baleiro.
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Mar não tinha dinheiro para comprar aquelas balas e esperava o dia dos santos gêmeos. Seu Luís abria a bodega e distribuía os pacotinhos de alfenim e rapadura de goiaba. Esse dia a deixava tão contente que ela se vestia de renda e colocava flor no cabelo.
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Sorrindo, a menina lembrava o cheiro de terra molhada, achava lindas as ondas do mar, que só vira em fotografias desgastadas. E as imaginava escorregando entre alto e baixo como os cabelos da vozinha.
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– Minha vó era Maria do Céu, cheia de água no coração. Um dia, ganhei um barquinho de palha, e o coração dela parou. Eu fiquei triste. Neném falou no dia de chuva: “Mar, ela virou estrela branca no céu”. – Eu chorei tanto, as águas escorriam e formavam pedrinhas de sal.
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E foi passando o tempo, redondo como aqueles cachinhos. Mar teve que deixar as bonecas, feitas de mangas e palitos, e fora trabalhar com o tio Bernardino na feira de Angicos...
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Todo sábado à tardinha, Mar subia no cajueiro, queria se “encantar” para fazer susto a Neném. Colocava sapos na pia só para ver a tia, roxa de braba, fingir ter medo e desmaiar. – Neném, você desmaia com os olhos abertos? – Perguntava Mar, rindo das travessuras da tia-avó. Depois, arrependida, dava água com açúcar e fazia cafuné. Neném gostava de tanto amar...
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Neném fazia bolo preto de carimã para vender na feira com a cunhada Zita. O cheiro subia bem alto nas estradas de Caiçara e vinha gente até da capital comer aquela preciosidade. Depois da feira, Mar voltava com os pés rachados de argila e poeira.
Vinha com sorriso largo, os lábios grossos de sertão e os olhos de graúna
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– Essa menina é toda festa, mesa de domingo em pé de algaroba – declamava o cantador, Chico de Assis, com seu violão de sete cordas.
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Veio o tempo da estiagem e Neném ficou doente. Mar não saía da cama e contava as histórias aprendidas com a avó Maria do Céu. Trouxeram as curandeiras, o beato Xavier e até um doutor da capital. – Mar, a roda não para e eu vou ser passarinho também – disse Neném, com os olhos tristes. – Vai não, titiazinha. Eu ainda não aprendi a fazer bolo preto e você prometeu me ensinar. Lembra?
E Mar rezou naquele dia cinza. Pediu a Nossa Senhora Negra que curasse Neném e não levasse aquele sorriso. Juntou o tio Bernardino e a Mãe Zita para rezar o terço e o credo ao revés. E dormiu... Entre o sono e a vigília, viu duas mãos abertas e muita luz. – Era a Virgem Maria, eu vi, igualzinha à imagem da casa de voinha! Era ela, sim!
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No dia 2 de março, era o seu aniversário de 12 anos. E Neném se levantou sem febre como milagre. – Meu presente! – E Mar brincava no tanque fazendo-se rios de água doce.
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Todo dia levava flores nos bolsos de chita, espalhava fios de anilina no bolo preto das madames e arranhava-se nos pés de algaroba correndo com os cachorros – no tempo bem azulzinho, quando brincava de balão no terreiro.
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É, leitores, Mar não sabia, mas estourava esperança em pó.
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E todo mundo amava os olhos grandes de Mar, a menina que cheirava a cravo e alecrim. – A roda não para – dizia Neném, agora, dançando ciranda.
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Naquela manhã, Mar não levantou cedo. Neném estranhou. Procurou pela casa e gritou o seu nome pelo terreiro. Bernardino e Zita se desesperaram pelas estradas na tentativa de encontrá-la. O povo de Caiçara se juntou na busca até de noite e com velas.
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Mar desapareceu como por encanto... Até o céu chorou de saudade. E, durante três dias, choveu forte e o vento soprou sem se aquietar.
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O tempo passou redondo como a vida. Numa tarde de domingo, o sol já estava na barra, seu Luís sentiu um cheiro de alecrim e cravo na calçada da mercearia; as irmãs da Casa da Mangueira notaram a alegria dos cachorrinhos; Luna e Nona ouviram um rodopio de vento; as beatas Jacira e Clotilde encontraram anilina azul no bolo preto. E tantas outras histórias que não caberiam neste livro.
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E uma onda verde se espalhou como vento na região: Bibi, que não enxergava direito, leu toda a cartilha do ABC; Junim, atrasado em matemática, conseguiu passar para o quarto ano com louvor e até Zefinha perdeu o medo de escuro. No alto da Serra da Gameleira, fizeram um santuário, o povo vinha de longe rezar à Santinha.
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– Verdade, vó? – perguntou interessado o pequeno Nano. – Sim, meu filho. Hoje a Cidade se chama “Caiçara do Rio do Vento”, em homenagem àquela menina de olhos imensos. O povo ainda sente o cheiro de alecrim e cravo nas varandas. Os mais antigos dizem que Mar veio para a capital, como um rio a cumprir a sina do seu nome. – Vó, a senhora tem olhos de graúna também, né?
- FIM -
Mas, espere, leitor! Essa história não tem fim, é redonda, a roda não para! Maria era o seu nome...
Mar, la ninã y el viento Su nombre era María. Pero siempre había sido llamada Mar. -Sí, así mismo, solo tres letricas: M A R, como aprendí con la Tía Edna. Ella escribía en el pizarrón y deletreaba cantando cada letra, con acento de galletas rujientes: -¡Mar! -Esta niña tiene ojos inmensos – decía la vieja Dolores, la famosa curandera de Caiçara. -Creció sin conocer a su padre. Ya la madre, era un alma buena, ¡Qué Dios la tenga en Su gloria! – agregaba Norma, la profesora de primaria. -Era un hombre de las aguas grandes – añadía Luís da Esquina, dueño de la tienda de bombones. Mar no tenía dinero para comprar aquellos dulces y esperaba el día de los santos mellizos. Don Luís abría la tienda y distribuía los paquetes de “alfenim” y chancaca de guayaba. En este día Mar quedaba tan contenta que se ponía su vestido bordado y una flor en el cabello. Sonriendo, Mar recordaba el olor a tierra mojada, le parecían lindas las olas del mar que solo había visto en fotografías desgastadas. Y las imaginaba resbalando entre alto y bajo como los cabellos de su abuelita. -Mi abuela era Maria do Céu, llena de agua en el corazón. Un día, me regalaron un barquito de paja, y el corazón de ella paró. Me puse triste. Neném dijo el día de lluvia: “Mar, ella se volvió una estrella blanca en el cielo”. -Yo lloré tanto que las aguas corrían y formaban piedritas de sal. Y el tiempo fue pasando, redondo como aquellos ricitos. Mar tuvo que dejar las muñecas hechas de mangos y palitos para ir a trabajar con el tío Bernardino en la feria de Angicos… Todos los sábados hacia el final de la tarde, Mar subía a un árbol de marañón, quería tornarse invisible para dar un susto a su tía. También puso
sapos en el lavamanos, solo para ver a Neném, morada de rabia, fingir tener miedo y desmayar. -Neném ¿Tú te desmayas con los ojos abiertos? – Preguntaba Mar, riéndose de las travesuras de su tía abuela. Después, arrepentida, le daba agua con azúcar y le acariciaba su cabello. A Neném le gustaba recibir tanto amor… Neném hacía torta negra de carimã para vender en la feria con su cuñada Zita. El aroma subía bien alto por las carreteras de Caiçara y venía gente desde la capital a comer aquella delicia. Después de la feria, Mar volvía con los pies rajados de arcilla y polvo. Venía con una gran sonrisa, los labios gruesos del “sertón” y los ojos de tordo gigante. -Esta chica es una fiesta, mesa de domingo en pie de algarrobo – declamaba el cantador, Chico de Asís, con su guitarra de siete cuerdas. Llegó el tiempo de sequía y Neném se enfermó. Mar no salía de la cama y le contaba las historias que había aprendido con su abuela Maria do Céu. Trajeron a las curanderas, al beato Xavier y hasta a un doctor de la capital. -Mar, la rueda no para y yo también voy a ser un pajarito – dijo Neném con los ojos tristes. -No se vaya, tía. Yo todavía no he aprendido a hacer la torta negra que usted prometió que me enseñaría. ¿Se acuerda? Y Mar oró en aquel día gris. Pidió a Nuestra Señora Negra que curara a Neném y que no se llevara aquella sonrisa. Reunió al tío Bernardino y a la Mamá Zita para que rezaran el rosario y el credo al revés. Y durmió. Entre el sueño y la vigilia, vio dos manos abiertas y mucha luz. -Era la Virgen María, yo la vi ¡Igualita a la imagen de la casa de la abuelita! ¡Era ella, sí! El 2 de marzo, era su cumpleaños número 12. Y como si fuese un milagro Neném se levantó sin fiebre. dulce.
-¡Mi regalo! – Y Mar jugaba en el estanque haciéndose ríos de agua
Todos los días, cuando el cielo estaba celeste y jugaba con el balón en el patio Mar, llevaba flores en los bolsillos de la chintz, ponía hilos de anilina en la torta negra de las señoras y se arañaba en los pies de algarrobo corriendo con los perros – con el cielo bien celestito, cuando jugaba al balón en el patio.
Sí, lector, Mar no lo sabía pero esparcía esperanza en polvo. Y toda la gente amaba los ojos grandes de Mar, la niña que olía a clavo y alecrín. -La rueda no para- decía Neném, ahora bailando danza circular. En aquella mañana, Mar no se levantó temprano, lo que llamó la atención de Neném. La buscó por la casa y gritó su nombre por el patio. Bernardino y Zita se desesperaron por las carreteras en el intento de encontrarla. El pueblo de Caiçara se juntó en la búsqueda hasta caer la noche y usando velas. Mar desapareció como por encanto… Hasta el cielo lloró de nostalgia. Y, durante tres días, llovió fuerte y el viento sopló sin aquietarse. El tiempo pasó redondo como la vida. En una tarde de domingo cuando el sol ya estaba bien alto, Don Luís sintió un olor de alecrín y clavo en la acera del almacén; las hermanas de Casa da Mangueira notaron la alegría de los perritos. Luna y Nona escucharon un remolino de viento. Las beatas Jacira y Clotilde encontraron anilina azul en la torta negra. Y tantas otras historias que no cabrían en este libro. Y una onda verde se esparció como viento en la región: Bibi, que no veía bien, leyó toda la cartilla del alfabeto; Junim, retrasado en las matemáticas, logró pasar a cuarto año con honores y hasta Josefa perdió su miedo a la oscuridad. En el alto de la Sierra de Gameleira, hicieron un santuario, el pueblo venía de lejos a orar a la Santita. -¿Es verdad, abuelita?– Preguntó interesado el pequeño Nano. -Sí, mijito. Hoy la Ciudad se llama Caiçara do Rio do Vento, en homenaje a aquella niña de ojos inmensos. El pueblo aún siente el olor de alecrín y clavo en los balcones. Los más viejos de la zona dicen que Mar vino a la capital, como un río a cumplir la suerte de su nombre. -Abuelita ¿Usted tiene ojos de tordo gigante también, no? Fin. ¡Pero espera, lector! Esta historia no tiene fin, es redonda ¡La rueda no para! -María era su nombre…
Agradecimentos
A Victor Ferreira e a Andreia Braz pela leitura e sugestões ao original A Lucas e a Vitor pela parceria A Letícia Gambetta pelas contribuições na tradução A Flávio, Ruy e Mayara pelo incentivo Aos sorrisos e as dores que brotaram nesse processo
Sobre o autor Sou Adriano Charles Silva Cruz , escritor e jornalista, nasci em Natal-RN. Adoro viajar e conhecer outras pessoas, culturas e lugares. Em 2010, integrei a expedição internacional Ruta Inka, estivemos em muitos países e conhecemos algumas comunidades tradicionais da América Andina. Foi nessa “universidade itinerante” que conheci o paulista Lucas Fontana, artista circense e ilustrador, e o capixaba Vitor Taveira, jornalista e tradutor. Dessa jornada, nasceram muitas aventuras, amizade e a parceria nesse livro.
Lucas Fontana
Vitor Taveira
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