Alguma coisa e cor Adriano Charles Cruz
Livro Rápido Olinda-PE 2014
Alguma coisa e cor
Copyright © 2014 by Adriano Charles Cruz Todos os direitos reservados ao Autor Adriano Charles Cruz Impresso no Brasil Printed in Brazil Capa Andruchak Diagramação Andreza de Souza Revisão Do Autor e Paula Santos
Editora Livro Rápido – Elógica Diretora editorial: Maria Oliveira Rua Dr. João Tavares de Moura, 57/99 Peixinhos Olinda – PE CEP: 53230-290 Fone: (81) 2121.5307/ (81) 2121.13 livrorapido@webelogica.com www.livrorapido.com
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Dedico a Vitor, Leon, Paulinha e Henrique, andarilhos. 3
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Agradeço a Andruchak. 5
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“Há muitas cores que não vêm nos dicionários. Há, por exemplo, a indefinível cor que têm todos os retratos, os figurinos da última estação, a voz das velhas damas, os primeiros sapatos, certas tabuletas, certas ruazinhas laterais: − a cor do tempo...”. (Mário Quintana)
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APRESENTAÇÃO
O que podemos dizer da delicadeza poderosa das palavras? Que contêm uma força assustadora tal qual o núcleo de um átomo, que podem nos fazer tanto mal, tanto bem quanto. Esse é o mistério das miudezas, que teimam em nos surpreender em pleno gigantismo da nossa ignorância. Rindo com as cores e o humor do poeta Adriano Cruz, se pode retirar o ouro das coisas simples. Essa palavra sinestésica nos revela um poetapintor impressionista, incansável no inventar paisagens. Que siga esculpindo vistas mais belas, diante de tudo o que vivemos. Não é para isso que se faz arte? É para inventar novas geografias, novas histórias, em que sejamos personagens menos medíocres. Há um território colonizado pela melancolia em seu continente poético. Como falar de memória sem melancolia? A memória está contida em suas palavras, evocando personagens, fantasmas, espíritos de seus templos. Boas novas e angústias nos são contadas de outra maneira em cada verso. Apócrifo e por que não dizer, de um jeito mais livre, distante do peso avassalador das instituições e suas tolas liturgias. O poeta passeia por sertões imaginários, que nos fazem pensar o sertão cotidiano. Haveria um semiárido 9
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em cada um de nós? Do interior, segue o périplo. O Alecrim e suas avenidas, seus problemas cotidianos. Os desejos nos conduzem a Salvador, à metrópole negra, com seu carnaval, suas artes nos seduzindo. A festa pulsando, as viagens pela Bahia fazem parte desse itinerário poético. O Rio está logo ali: ao alcance da mão. E aquela colina bem perto de nós, pode ser parte dos Andes, repletos de memória e sangue indígena. Nesses versos poderemos ser irmãos de tudo, nesta terra machucada. No lirismo cabem as amizades e os erotismos. O prazer e a dor de pessoas queridas que se aproximam e se afastam, como sois entre dias e noites. As gentes e suas estações mimetizando os movimentos dos astros. Em tempos tão áridos, de tantos excessos, torna- se imprescindível recorrer à literatura para reinventar o mundo. Pintá-lo de outras cores, conferindo-lhe a perfeição do sonho. Seja a palavra antídoto da pressa, da superficialidade, da ignorância. Seja a foice contra o ódio que viceja, nos campos de violência e da banalização do humano. Humanidade esta tão desprezada, tão aviltada. Num tempo em que as muralhas de concreto parecem valer bem mais do que aqueles que as constroem. A humanidade perdeu o jeito do divino. Não seria a morte de Deus a morte do próprio homem? Adriano nos leva a viajar no lombo de seus versos iluminados. Seus enigmas perturbam e confortam, como novos amigos com os quais nos intrigamos apaixonados. 10
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Conhecer a resposta é secundário. O importante é que nossos olhos caminhem por estas páginas.
Ruy Alckmin Rocha Filho Professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte
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SUMÁRIO ACRÍLICOS ................................................ 15 Abertura .................................................... 17 Costurar ................................................ 18 Caminhante ................................................ 20 Ocaso ........................................................... 21 Antevisão....................................................... 24 Os amantes de Paris ......................................... 28 Juazeiros ....................................................... 29 Ponto final ..................................................... 30 A bailarina ..................................................... 31 Dinha ............................................................ 36 Em fitas coloridas do Bonfim ............................... 37 Festa ............................................................ 40 Resposta ao mestre .......................................... 43 Ode a Angicos ................................................. 45 Despedida ...................................................... 47 Canção para o Catita ........................................ 48 Soneto para Poliana .......................................... 49 Alguma coisa e cor ........................................... 50 Poesia da despedida ......................................... 51 Hoje não é o dia de poesia ................................. 52 Menina .......................................................... 53 Sonhei que seria um palhaço de algodão doce desenhado de giz nas esquinas............................................... 54 Sextilha da chuva............................................. 55 À trois ....................................................... 56 13
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Dia de luz ...................................................... 57 Do amor que sobrou ......................................... 61 Alto.............................................................. 62 Manhã ........................................................... 63 Prece a Hilda .................................................. 64 Roda Gigante .................................................. 66 Soneto do duelo .............................................. 67 Assis ............................................................. 70 Big Bang ........................................................ 72 O circo .......................................................... 73 Lendas .......................................................... 74 Rosa partiu .................................................... 75 GRAFITTI .................................................. 77 Eu quase aprendi a escrever um soneto ................. 79 Drummondiando 1 ............................................ 81 Quase-amor .................................................... 82 Carnaval e mais ............................................... 84 Escândalo mundial ........................................... 85 Em Bayeux ..................................................... 87 Drummondiando 2 ............................................ 88 Drummondiando 3 ............................................ 89 A high tech de Jacumã em Vilanela ...................... 90 Drummondiando 4 ............................................ 93 Universo líquido .............................................. 95 Jar-bai do amor ............................................... 96 Telescópio ..................................................... 98 Drummondiando 5 ............................................ 100 Jar-bai antropófago .......................................... 101 Fechamento ................................................... 102
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ACRÍLICOS
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Abertura Para sobreviver, a poesia se escondeu no sótão sem ar. Procuram-se poetas de concreto e mangue, paga-se recompensa por cada língua assada na brasa.
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Costurar No mundo, as coisas se desenham em retalho, Poderíamos fugir a uma ilha imaginária. Como no truque da mesma velha falsária, Revelar um instante de luz preciso e necessário. Por entre códigos da bruxa centenária, Estradas novas reconhecer, em cinza-presságio. Destarte, sonhos desse caminho longo e solitário, Acreditar sempre nessa mão solidária Encontrada, entre estrelas, de uma terra sem fim. Juntos redesenhar um arquipélago com linha; Morrer compondo elegia a’lma que se alinha Aos corpos. Renascer e voar, mais longe, no zepelim. Então, recriar um novo mundo todo costurado E nunca mais uma paixão temporária, Se dar, mas eternidade, todo dia, na carne, reaprender.
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... Preparando roupas, todos levam terra, eu procuro luas no porão.
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Caminhante O caminho era tão intenso, às vezes, esperava em vão. Ainda está inverno, penso... suspirando bromélias, floresço solfejando música de São João. De fome no berço, enlutado. As mães de anjinhos no caixão... Tanta solidão e reza de terço (arremedos de sertão) As aves do caroá continuarão o canto tão forte e suspenso em acordes de sétima do baião, ritmos de Sivuca e Gonzagão. Novas asas no mato imenso, verde em gestação.
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Ocaso Teu vestido grená, mais encarnado, artéria rompida, porta aberta de uma mão ao céu. Da terra em meus olhos, o adeus azul ultramar no vai sumindo das águas.
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... Tatuei com sangue os fios cortados de um desejo remendando-os com gambiarras de ilusão E só cheguei mais rápido porque tropecei em uma das quinas do infinito.
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... Os sons do nosso orgasmo hão de se expandir no universo, dois tambores, grave e agudo, e despertar os tons, peles e poros, desses corações pastéis.
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Antevisão Para Antonio Salvador Minha ecologia de fantasmasnunca mortos terminou no silêncio farfalhante do fogo extinto. Os sonhos e assombrações esculpidas em balões de hidrogênio sempre alto testemunham o castigo cruel da permanência.
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... As janelas quebradas, o livro sem capitular, as sombras das camélias, no chão, alquebradas. Eu e o tempo na sala. Sem preliminares e voraz, o outono transa comigo sem descansar.
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... Apalavro o teu corpo em verbos de ligação sem hífens e peitos à mostra interdições de uma língua fascista.
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... Vastidão de folhas verdes em meu caminho e o céu rubro-ocre como as faces da primeira mirada, testemunhas oficiais de nosso eterno divórcio em conta-gotas.
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Os amantes de Paris Da tua saia, uma eternidade magenta geme por acontecer, ao Sena, piafes do meu acordeom.
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Juazeiros Minha voz frágil, eco de tuas rimas lampejo de barro no teu peito-máquina reboliço de mar calmo na Ribeira esperança preta nas chitas finas lágrima de menino na vitrine da esquina meu poema é cascalho na peneira flor do juazeiro nas tuas línguas de sertão.
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Ponto final Não te escrevo mais e ponto É apenas tatuagem do meu orgasmo nos teus pelos de hortelã.
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A bailarina Para Anádria Rassine Em um só respiro corpos a envolver passos e palmas... Para o tempo sem acento no grand plié.
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... Nunca saberá como as minhas vísceras esfriam quando sinto seu sorriso perto da minha boca de nunca parar. Morreremos, entre apertos de mãos e presentes de aniversário, simulando in-sensações, novamente, em todas as voltas, de um infinito inacabado. – Porra, é uma merda a sua ignorância!
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... Senti que minhas mãos tornavam-se borboletas a voar no céu da minha boca em louvores ao tempo de chegança. Nesse instante, sob o meu céu de tinta acrílica, redescubro o mundo da casca de noz.
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... Nas franjas de Gaza, um vagalume terrorista explodiu uma lâmpada verde-musgo e mudou a história.
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... No final da cauda do cometa, deram um laço de ouro e brasa, segredos de nossa história [em quadrinhos].
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Dinha A memória de um livro esquecido ao vento forte no Farol da Barra... Aquela saia tanto rodava aos sons dos tambores no pôr do sol. No cinza infindo de meus desejos senhores, restavam-me: o balé dos peixes, e apenas uma mala.
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Em fitas coloridas do Bonfim Quantas memórias no Pelô, percorridas nas ladeiras de minha rota sem mapa Inscritas no sangue-senhor e a urgência de não tê-las, sempre, traçadas e claras. Ritmar o som do tambor nos confins das geleiras de entranhas e distantes. Abrir meu fogo, você, na ardência pimenta do nosso azeite de dendê.
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... Acolher as cores na mandala. Dançar no inverno, o vermelho, despetá-las, flores amarelas e líquidas, e nos lençóis da cama amarrotada, aquele cheirinho de azul-bebê.
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... Apagaram o Cruzeiro, do Sul, só restam a bússola e as ferrugens no píer. Minha boca, naufrágio, tsunami de ardósia escuro. Espero a lua derreter e flambar as veias-areias no vinho azul.
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Festa Para Ruy Rocha Acordei com a algaravia da luz, pássaros em Carnaval, na esquina. A natureza sem quarta-feira de cinzas.
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... É tempo de retemperar os temperos as tintas com cianeto de prata e fixador de estrelas.
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... Como compotas amargas estrelas rastejam nos trilhos trens violetas rasgam o céu do meu ponte de goiabada. ... Solidão é o reverso do cais.
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Resposta ao mestre Mas se morreres, ó poeta, na estrada, levarás os dourados, primeiros raios. Ficaremos com as estrofes e a enxada mudas, plantaremos tua voz ensolarada nas terras de sonhos e cores estampadas ou nas montanhas, quilômetros sem fim.
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... Não me fale com palavras roupas de domingo. Só quero água de cabaça verde. Na ave-maria, o cheiro de rede no vento e os corpos a se pôr, em tempo, na elipse do sol.
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Ode a Angicos Para Sheila Accioly Da rede, o alpendre com gosto de café de pilão Casa em silêncio... siussissius na hora da barra. Só choro, passarim verdinho no pé de romã. Maria, benze as meninas de olho gordo, Menina, com folha de pião. Nunvoununmvounumvou! É a vida na espreguiçadeira de sopé.
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... Transcendendo o rosa e o azul, a noite se veste de lilás, como o meu corpo no teu: só um, nada e tudo mais.
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Despedida À memória de Marlúcia Araújo O sorriso, fruta e temporada Sempre no já lá do remanso. Balanço vazio e sem criança. Lápide e janela, luz cortada ............................................ Corujas tristes pintam o céu Sonata e só.
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Canção para o Catita Percorro os incas, caminho. Traço linhas nos vales colo balanço e choro, o mar enformo caminhos e areias. Percorro os incas, caminho. Entre ladeiras e demônios, no corpo rabiscado, dibujo solidão em castellano. Percorro os incas, caminho. E no desejo do sol, construo aquarelas desbotadas carregando canções de tinta tão blue.
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Soneto para Poliana Quero viver intensamente o receio de perder os últimos abraços e dividir com a dor meu desespero vendo o zigue-zague dos seus passos. Rirei da volúpia do tempo, com danças, disfarçarei os medos transformando-me todo no desejo de me apegar aos tormentos. Quiçá, escreva-me um bilhete, uma carta de seu novo lar... As novas rasgarei ao poente. Com face dura, a alma a soluçar, fingirei jogar o contente, moendo a saudade de amar.
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Alguma coisa e cor Alguma coisa e cor Pelos fios de anilina ao céu Repor os ocres do sol À sombra das terras roxas banhar-me em rios de saudade nu Na carne escura e tatuada pôr meus poemas em reta no teu colo de mansinho Tenho todo o arco-íris na paleta, mas quando te vejo perco a cor enrubesço Se faz memória sépia quando não te toco apenas choro e me engasgo com lágrima azul.
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Poesia da despedida Joguemos os vidros vazios de perfume. Desarrumemos as prateleiras e os corpos. Dobremos os guardanapos com restos de beijos. E no fim, que tal uma grande fogueira de São João?
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Hoje não é o dia de poesia Poesia não tem dia nem papel. É a vida enverdecendo, em meio às rochas duras. Todo tempo, reencantamento dos olhos de água. Quero a palavra, além dos adjetivos. A vida é verbo encarnado no evangelho apócrifo da arte.
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Menina Para Nadezhda Bezerra Dança, menina, com pés em bolhas, sem calçados. Dança, que o tempo-sol dança ao seu redor. Rainha do dia e da noite, abrindo o tempo da floração, como cortejo do maracatu.
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Sonhei que seria um palhaço de algodão doce desenhado de giz nas esquinas Da estrada velha, espero carro de bois que não existem mais e finjo um quixote sertanejo nos cata-ventos do Conde. Só o sol entende e, talvez, o Capibaribe.
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Sextilha da chuva Sua pele virara pergaminho gozo na boca de chuva. Rebolando as colchas no ar salpicava os dedos de uva no colo de quase rapaz que escrevia do pescoço à vulva.
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À trois Sou, apenas, um sem-teto de verbos e tu és latifúndio inteiro de denegação, não queres um, mas os três. Em passos de tango, encenavas pretéritos e rogavas mesóclises em impublicáveis epicenos.
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Dia de luz Para Alberto Lima Tecer na memória um único sorriso, respirar auroras em cimentos, afazeres, e bobagens de um dia comum. Dessas fibras, construir um balão multicolor. Mais alto dos sonhos e multidões, nebulosas e cometas alçar.
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... A chuva escorre nas tuas costas abertas com lama. A solidão renova cada célula do teu tórax ao ventre em vão. a chuva escorre nas tuas costas não.
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... Eu me fiz puta para gozar as dores de te ver no meu lençol encarnado de ciúmes e sangue. Renasci em linho de procissão, meu corpo ex-voto consignado à espera de um comprador. – 50% em off
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... Procuro o ar, desesperadamente. Preso à memória, de um dédalo vazio e minotauros empalhados em cera de carnaúba. Não há mais ar, as ampulhetas quebradas, mas procuro.
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Do amor que sobrou Sobre as vigas velhas, uma casa de sete quartos se sustenta em duas linhas quase verdes sem alvarás.
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Alto Voar, com asas de isopor, quebrar-se e continuar. Sorrir em lágrimas oliva e devolver o dom ao céu, à terra, às estrelas e nunca atracar. Sonhar e sonhar, o único sonho dos homens de barro: voar!
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Manhã Para Luiz Naveda Sempre escrevi versos com as tintas de tuas cores, à luz de minha janela. Todos os resplendores anunciam nossa aliança de sempre e para sempre. Ainda que desandes em rotas partidas ou descanses no encantamento dos mistérios, sentirei o perfume de mãos nos pés de jambos e cajus. Caminhantes com estandartes das novas canções de ninar para esse mundo-bebê, o fecundaremos com cores de terra e pombos.
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Prece a Hilda Remove meu soluço no teu corpo inscrito em papiros negros. Dionísio e Apolo, afasta de mim esse copo de cachaça e todos os monstros sem dentes e, estendido, o corpo, na televisão. Enrosca-me a língua e os pelos do púbis em metáforas. Acende de novo o querosene da impermanência de todas as manhãs de quase-setembro.
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Por fim, fecha-me o corpo à palavra com oferendas de tuas liras. Amém.
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Roda Gigante Para Aidil Brites Nossa diversão na roda gigante de cores. Não temer as quentes e nas frias esbarrar. Fragmentos de vidros e vidas, à Luz em nós. Tropeçar, muitas vezes, no disco e nas misturas. Segredos, texturas e luzes de uma tela, incompleta e plena de amarelos e sorrisos, mais bonita que Van Gogh e os girassóis.
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Soneto do duelo Fulguravas deusa na caravana, envenenaste-me com arnica. Infeliz, sejas minha inimiga! por sequestrar est’alma cigana Meu coração preso à imburana padeceu no encolhe-estica de Bayeux a Passa e Fica rezando alto a regra franciscana Relembrei histórias antigas de gritos e naus do Egito, quando sabia conjugar rimas. Profetizei as minhas sinas: morrer ao infinito contigo sangue intenso de esgrimas.
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... Lambia os verbos na esperança de torná-los apresentáveis ao anúncio de auroras em tempos sempre bélicos. Tarefa vã.
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... Emocionado com as cores desbotadas os cinzas aquarelas das vidas abertas em gotas do mistério sempre em nossas portas trancadas-abertas-trancadas... do viver assim-assim em mandalas outra vez.
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Assis Um anjo ora descalço, entre os animais. Marroseando a história. Todo o mundo para e o céu também. As duas mãos furadas e os olhos de sempre-caminho. Testemunham, o sol à tardinha e as flores das alturas. Ele reconstrói um templo com madeira de mil anos e nos outros braços se aninha, entre silêncios e noites escuras. (...) Essa hora já não mais canta, envolto numa luz clarinha, 70
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voa com os passarinhos, suave serafim, cada vez mais alto no tempo louvação de todas as criaturas.
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Big Bang Carrego uma dor infinda nas costas: minhas palavras sustentam dois universos a se fundir em rimas breves e longas.
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O circo Quando caiu o pano, o mágico esquecera o coelho em casa. O cupido, sem autorização, entrou no picadeiro, o coração do palhaço, laço cego. Um velocista a correr, sem medo, na linha da vida das nossas quatro mãos. O espetáculo do mundo: nossos corpos nus na maior acrobacia do Sistema Solar.
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Lendas Teseu, meu nome, perdi Quando vi tua carne branca. Apenas na morte de Baco, estarei em tuas linhas, os teus seios, pontas em mim. Ariana, contigo, mais um deus. O colo suturado com sangue a escorrer pequenos lábios. Desprezaria o trono de Zeus e me balançaria na rede no alpendre, nordestino, contigo, um café e um cafuné e zefini.
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Rosa partiu (verbo intransitivo)
1. preguiça do sol. 2. caboclo sem lança no sertão de Goiana. 3. carcaças fecham a estrada. 4. NietzscheEstáMorto. [Dor em lata de cacau em pó]
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Graffiti
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Eu quase aprendi a escrever um soneto Deus, desejaria saber sonetos Viver dos regramentos e das rimas Musas, das tuas palavras, as ninas Em balanço, sobre verbos dos pretos Não teria mais os cravos nos peitos Ainda com verbos de tuas idas Conjugaria mi’as dores sentidas Na pele, lançando pedra dos seixos Mais um da Silva é meu sobrenome Nunca li Camus, nunca Machado os Versos mitigados, folhas, cordel Sem diplomas brancos, nem verbos nus Teria decassílabos no papel? Desisto da italiana, tomo uma coca no boteco olhando para outras pernas.
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... Vesti-me de vento Saí às ruas a soprar telhas e tijolos, sobrados e arestas... Delícias, curiei entre as frestas das quatro paredes Só de pensar: vesti-me de vento e de vez.
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Drummondiando 1 Quando morri, um anjo louco, daqueles de aviso prévio, disse: vai, Charles! Mais approach em Wall Street.
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Quase-amor Teu ciúme é insuportável, escandalosamente, furastes a boneca inflável.
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... Ser moderno, high tech, é tão bom sair dos teus labirintos por satélite. Quem diria, Ariadne usa Wellaton!
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Carnaval e mais Se um dia eu me tornar poeta, não terei dó mato uma galinha, à cabidela, arrumo sonetos como os restos das costelas no caldo Knorr.
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Escândalo mundial Contrariando a norma culta e os modos do imperativo, a voz ativa, cirurgiada, agora é transe sem hífen.
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... O guarda de Israel colorificou-se em quadros de Kandinsky e pintou o corpo do outro coladinho ao seu.
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Em Bayeux Eu sou tema e argumento conjugo o acabar, e amo o teu à trois, a língua em volta, nos dois pra cá. Hum... hum, o ne me quitte pas com teu falso sotaque francês.
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Drummondiando 2 Eu não devia te dizer, mas essa nua, mas esse conhaque falsiê, sabotam o agente como quiabo.
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Drummondiando 3 Para Boniek Cruz Meta em física é cinco, Física em meta é tanquinho, Metafísica. Fiz a meta que não quis, tive notas em vermelho, meu bolo explodiu... A metáfora também acabou, Dedé, E agora? - Ora, mete um funk!
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A high tech de Jacumã em Vilanela Ela sempre perdia a lã Enredada nesse pelo Digital poema spam Tinta-pixel no cabelo Amiga virtual-irmã sexo, tão ausente, tê-lo No Face, sempre mais fã Fazenda Ville campeã, Foi. Web até no chuveiro! A mais high-tech de Jacumã Todos os anos, anciã, Esperando o novelo Perdido do sol da manhã.
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... Caetaneando o mundo em março, esporrarei poesia na cara dos não puros de coração. A quem interessar possa: traga a vasilha.
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... Tudo é possível! E explicar, na cueca branca, Teu batom bordô 121 irresistível?
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Drummondiando 4 Para o Otávio Rabelo, quando era um marquês em Pindorama. Relaxa, José! Agora, tira o sapato e cai na roda e comemora o casamento de Lili, daquele outro poema. É agora, sim, José, o começo dessa quadrilha: alavantu!
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... Sem medo, não faço guerra, só faço Millôr, tateio a pele aberta. Sêmen do verbo, ao vento, reunido, na memória da canção. Rimas pobres sustentam um grande soneto em ereção, enredos do nosso poema-pornô.
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Universo líquido Duas vespas fazem amor em seu ouvido interno, ela sorri e movimenta, com o martelo, todo o universo na casca de Ovomaltine.
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Jar-bai do amor Não sei o que dizer! Esse amor bibliotecário categorizou meu caos em pastas A-Z.
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... Penetrava metáforas todo dia entre suas virilhas Despia-se toda noite e engravidava as palavras Na madrugada gozava em círculos até o nascer do sol em redondilhas maiores Morreu com o soneto na boca.
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Telescópio Chupava os peitos da Via Láctea, vestia os pés nas estrelas para deslizar na gangorra dos cometas E o céu se abria com um sorriso largo, cheios de dentes em diademas azuis. Foi um dia sem fim na terra, o sol até se esquecera de partir no Carnaval de Órion. A lua Marina se pintou, Sírius se inebriou Pela morena a requebrar no samba das Três Marias. Antes de perder o trem.
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... Fecho as pernas, não gozarás! No brechó, o buquê. Devolva-me o poema e o hímen rompidos. Pague as contas e o carnê Terminemos este ciclo de sapos e fadas, enfim, tão classe média e demodê.
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Drummondiando 5 O mundo se transforma tattoo no interior da minha pele de nunca acabar. Meu piercing suporta o Cosmo, ferido em sangue e sal. Chegou o tempo, mas ainda se diz: "Charles, I love you".
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Jar-bai antropófago Teorias fora de lugar: no mundo pós-moderno, Freud come Bachelard.
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Fechamento Para matar a fome da leitura, forjador, escrevi 81 poemas. Desculpe-me, escritora, mas o que desejo só não tem sobrenome: é carvão que aos raios do sol furta-cor sem fim.
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