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/Cristina Ribas

/ Prot贸tipos cortado


Concepção_ Cristina Ribas Equipe Produção_ Luísa Horta Monitoria_ Hortencia Abreu Montagem e marcenaria_ Marcelo Damasceno e Fabrício Marotta Desenho do catálogo_ Cristina Ribas Fotografias da exposição_ Cristina Ribas, Christopher Jones e Luísa Horta Agradecimentos_ Ana Paula Santos, Breno Silva, Christopher Jones, Davi Marcos, Helmut Batista, Laura Belém, Luísa Horta, Neno del Castillo, Marcelo Terça-Nada, Miguel Prates, Paloma Parentoni, Welligton Cançado, Yana Tamaio, e à pequena Hannah.

A exposição “Protótipos/cortado” foi realizada em Maio de 2012 no Galpão 5 da Estação Funarte de Artes Visuais Belo Horizonte Título original do projeto selecionado “Lições de Arquitetura/Lições de Urbanismo” Este projeto foi contemplado pela Funarte no Prêmio Funarte Arte Contemporânea 2011 Estação Funarte de Artes Visuais Belo Horizonte Realização

/Cristina Ribas

/ Protótipos cortado Funarte MG Belo Horizonte 2012

Distribuição gratuita, proibida a venda


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Protótipos/cortado, uma instalação A constante destruição e reconstrução das cidades contamina minha produção em artes visuais há alguns anos. As destruições parecem ser repetitivas, eu sei, o que poderia permitir que eu me desfizesse dessas imagens assim que um certo número delas fosse colecionado. Contudo, a singularidade possível de cada repetição, ou seja, cada nova quase-ruína e cada desaparecimento não deixa esquecer que são processos econômicos, sociais, culturais que causam essas destruições. Portanto, não posso parar. Os processos reincidem em diversos lugares, como projeto global de comercialização das cidades, tornando o urbano um quase mesmo território, tratado como espaço em branco a ser "revitalizado". Por sua vez, são singulares as subjetividades atravessadas por essas alterações, e são comuns as lutas que reclamam a integridade das políticas para a garantia de direitos no território, de modos de vida, de habitação, de ocupação. Qual a contribuição das práticas artísticas nesse contexto de uma realidade em constante alteração cujo ciclo de construção e destruição parece não cessar? Protótipos/cortado foi uma exposição de artes visuais que reuniu uma coleção de imagens de arquivo e fotografias realizadas por mim desde mais ou menos dez anos atrás, em diversas cidades. Antes de responder à pergunta acima, a exposição apresenta uma abordagem parcial em relação à complexidade dos problemas urbanos atuais. As imagens, que constituem o principal corpo da exposição, foram apresentadas em montagens usando fotografia, backlight, colagem e vídeo, junto aos conceitos "maquete" ou "protótipo".Os painéis criados como suporte são por sua vez outro trabalho, em cinza recortado com silhueta de escombro, são uma espécie de escultura. E mais uma proposição de que o público tomasse parte nesse imaginário realizando colagens, recortando fotografias do arquivo e compondo novas imagens (como eu tinha realizado em Londres em 2009). As colagens produzidas na exposição foram expostas junto à instalação. Apresentei também quatro textos como sugestão de leitura (que podem ser baixados na versão do catálogo disponível na internet). E dois filmes foram exibidos, "Mãos sobre a cidade" (Francesco Rosi, 1963) e "Berlin Babylon" (Hubertus Siegert, 2001).

Papel e tesoura O catálogo é feito de maneira a funcionar como um livro de recortes que você pode usar para realizar suas próprias versões dessas cenas de destruição. Recortar e remontar intenciona apresentar um pouco do processo de colagem realizado com os visitantes da exposição, e, de alguma maneira, deseja amplificar o espaço relacional que a exposição criava, mobilizando o arquivo dessas imagens, dando continuidade a conversas dispersas sobre a experiência das cidades, complexificando uma constelação de cenários e realidades sobre esse território comum. Imagens > 1_ Cena do filme “Mãos sobre a cidade” 2_ Fotografia do London Metropolitan Archives, bombardeio da 2a. Guerra em Londres 3_ Montagem das colagens 4_ “Anotações urbanas” e 5_Ao lado, fotografia recortada, papel-cartão e cimento na instalação “Protótipos/cortado”


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Como o projeto toma o desafio de falar de uma realidade urbana atual a partir da minha vivência, considera o conceito de protótipo para criar uma instalação onde habitam essas imagens de maneira a fazer pensar a realidade de constantes alterações no tecido da superfície urbana e, fazer pensar (pela insistência na sua ausência) os corpos que desaparecem, que são forçados a mover-se, que buscam novos espaços para a vida. Relacionando o conceito de protótipo com o de ruína (que seria o lugar comum dessas cenas ou imagens no campo da arte), se a destruição pode gerar uma imagem atemporal, estável, intensa (por isso a possível ruína), a curta temporalidade do protótipo parece caber na justeza de algo em constante alteração, imprevisto, intensivo, temporalizado. O protótipo e a maquete são também a ironia de um poder de construção e destruição que atua nas cidades, poder que as trata antes como objetos manipuláveis numa escala não humana, mais do que como território habitado. O desafio que refiro aqui é de considerar minha subjetividade permeável e as possibilidades de produção artística, considerando os diversos aportes a isso (portanto afecções minhas) desde algum tempo anterior em minha produção. A observação do trabalho pendular da destruição e da reconstrução me coloca em um sítio mais fluído do que aquele agarrado a qualquer imagem de estabilidade (digo isso no sentido de pensar um posicionamento em relação ao contexto, como um representação dessa análise). O peso dos projetos urbanos que desconfiguram bairros inteiros em nome de uma valorização ou substituição econômica (”gentrificação”), assim como em configurações efêmeras de construções e apropriações, tornam próprios "para o capital" a edificação, o terreno, o espaço público e, em meu ponto de vista, destroem o íntimo e "próprio para a vida". Por meio dessas alterações, apagam os direitos, planificam as diferenças, as especificidades, as micro histórias, as apropriações, as culturas, etc. Os movimentos de resistência não são inexistentes, mas encontram uma dificuldade monstra de produzir alguma força diante dos conluios entre a política governamental e os poderes econômicos. De alguma maneira, a observação e a participação nessa realidade (também nas lutas sociais) me conduzem a um olhar dessa vez talvez pouco poético e eventualmente mais documental, mais analítico, mais direto, e assumidamente parcial, precário, pequeno. Na dimensão contrária da dureza dos projetos urbanos (uma tal monumentalidade ou poder destrutivo algumas vezes megalomaníacos – cuja contradição e subervão é bem exposta por Walter Benjamin em "O Caráter Destrutivo"), o protótipo, entendido como algo não definitivo, aponta para uma incompletude. A fragilidade da proposição artística é transposta em mais uma dobra. Como tentativa de evidenciar isso, apresento na entrada da instalação uma maquete da exposição que vemos em seguida, o que, por sua vez, faz com que a exposição tenha sua escala questionada, ou nós, nossos corpos, reduzidos nesse espaço-maquete. A maquete apresenta também dois trabalhos não existentes na instalação: um carro coberto de cimento e um piso em declive. O principal suporte dos trabalhos na exposição são os painéis em cinza, recortados com uma silhueta de escombro, que pretendem divergir das paredes apáticas dos expaços expositivos, não sendo, contudo, nem parede, nem fachada, nem imagem. A maquete ampliada se torna parte de um jogo que permite questionar seu próprio discurso, assim como qual a real dimensão dessas imagens, dessa instalação? Qual o tamanho do gesto ou o tamanho do corpo diante dessas cidades? Dessas imagens? > 1_3_ Maquete da exposição “Protótipos/cortado”, com o carro, ao lado (inexistente na instalação)


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As fotografias apresentadas aqui (e na exposição) são de demolições em bairros regenerados e transformações nem tanto arquitetadas economicamente em Porto Alegre, onde vivi por cerca de 15 anos; de Londres e outras cidades europeias (Trieste, Barcelona, Paris...) registradas em constante reconstrução quando morei por lá em 2009; imagens de arquivo que registram Guerra, bombardeios, e outras destruições sumárias, mostrando que são também processos econômicos que lideram grande parte dessas destruições; e por fim do atual Rio de Janeiro onde milhares de casas (comunidades inteiras) são desmobilizadas, deslocadas e destruídas por projetos de reforma urbana que privilegiam o lucro de grandes empreiteiras. Recentemente, o envolvimento com lutas urbanas no Rio de Janeiro me fez tocar os pés mais no chão ao compartilhar dores de perda e revolta diante dos atos de poder que desmobilizam comunidades e deslocam para quilômetros longe grupos e famílias obrigando-os a novos assentamentos e moradias sem qualquer relação cultural ou geográfica com o lugar onde viviam. Essa proximidade atualiza e ao mesmo tempo "congela" minha atuação como artista demarcando um outro modo de agir, mais responsável por uma realidade comum, cuja simplicidade de discurso precisa ser encontrada, de maneira a partilhar essa perplexidade e incitar olhares que deixam criticar, também, o território da criação artística nesses cenários nada ficcionais de regeneração. Quando fiz uma residência no Capacete em São Paulo, no Edifício COPAN, em 2010, realizei imagens que simulam gestos de uma “manipulação” literal da cidade. O protótipo cortado apresenta-se como um comentário à regularidade dessas destruições, à eventual passividade ou incapacidade de agir diante dessa paisagem (analisada como “paisagem pósindustrial” ou “paisagem do capital”, em “Boredom in the Charnel House, Theses on ‘Post-industrial’ Ruins”, artigo de John Cunningham, 2011), à ausência de corpos, que foram expulsos desse cenário - corpos que só são autorizados a rehabitálos quando os projetos de revitalização são completados como uma espécie de espaço para um falso-vivo. Parece que a característica central das ações de revitalização é minar o vivo e introduzir o mórbido. Contrastando com as quase-ruínas, selecionei para a exposição uma coleção de imagens de minha autoria que dá conta de abordar o que posso chamar de estudo, memória e "escultura" da arquitetura modernista brasileira, acessada aqui a partir de fotografias de São Paulo, tomadas do alto do Edifício COPAN (e do próprio edifício), de Brasília, e da Escola de Arquitetura da UFMG, em Belo Horizonte. Inicialmente a exposição queria focar mais no que chamei momentaneamente de "lições" da arquitetura e do urbanismo modernistas, contudo, preferi lidar com a insistência no fluxo de reconstrução e ruína do que criar uma relação entre projetos urbanos atuais, as políticas públicas (muitas vezes inexistentes), com os projetos modernos do começo do século o que resultaria numa exposição bastante diferente. As "lições" se tornaram agora simplesmente essas imagens, realizadas em fotografia de negativo e em fotografia digital, organizadas como em um copião de negativos, e sobrepostas entre si. Recortadas para expor um branco, um positivo completo, para abrir lacunas nesses excessos, nessas superdeterminações de espaço (e tempo). Afinal, essa arquitetura foi feita para um sem-tempo, ou para um eterno futuro, que aqui se contrapõe às possíveis ruínas das demolições, dos bombardeios (lembrando que a construção moderna operou igualmente as suas próprias destruições para se edificar). > 1_ Fotografia, sobreposição de imagens do Edifício COPAN e da Escola de Arquitetura da UFMG 2_3_ Montagem do backlight com “Lições de Arquitetura / Lições de urbanismo”, na instalação “Protótipos/cortado” 4_ Ao lado, um dos três conjuntos de slides to trabalho


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Os vídeos Os vídeos da exposição foram genericamente chamados de “Regeneração/Destruição”. Mostram quatro situações, em quatro locais diferentes da cidade de Londres ressaltando o cotidiano das ações do projeto de revitalização urbana do norte/leste da cidade. A demolição dos condomínios Kingsland e Haggerston Estates em Londres expõe a morosidade da demolição, uma quase não-ação das máquinas derruindo a estrutura do prédio, movendo entulho. São repetitivas ações realizadas, na verdade, por trabalhadores que operam aquelas máquinas que não pensam, só "mordem" as paredes que serão digeridas alhures. Acho irônico que, na imagem ao lado, um dos nomes das empresas seja tão parecido a “lieber”, termo em alemão para querido/querida, e que se relaciona ao “Let’s be lovers” que apresento mais à frente.

Em outra escala, no vídeo “Roar” são operadas as maquininhas (mini escavadeiras, mini perfuradeiras, etc.) que estão sendo lavadas e estacionadas na empresa de locação desses equipamentos no norte de Londres. Outro vídeo mostra a demolição já em estágio final de Queensbridge Street, como uma grande montanha de entulho. E outro as ações dos trabalhadores em um dos prédios típicos da regeneração Londrina (em Dalston Junction), construída em ritmo de virtualidade com materiais mais leves e mais descartáveis (tal como numa grande maquete). > 1_demais e ao lado “Regeneração/Destruição”, vídeos e stills dos vídeos 2_ Montagem dos DVD players na instalação “Protótipos/cortado” 4_ Fotografia de arquivo, London Metropolitan Archives, bombardeio na 2a. Guerra


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Nesse livro-catálogo apresento trabalhos produzidos para a exposição realizada em Belo Horizonte em maio de 2012 e alguns trabalhos anteriores interligados a essa produção (ou que por sua natureza efêmera podem não ter sido conhecidos). É bastante difícil enlaçar essas produções sem recorrer a uma temporária redução da constelação de sentidos que cada trabalho tem/tinha em si, por isso desconsidere a retidão com que cada um é abordado. Na verdade, há infinitas leituras dos mesmos, tantas quantos processos de subjetivação que incitam.

Pequeno recorrido em meu arquivo visual Em meados de 1998-2001 produzi uma série de fotografias que registravam a destruição de casas perto de onde eu morava em Porto Alegre. Caminhava e descobria quarteirão a quarteirão o que eu ainda não sabia existir como projeto urbanístico. A alteração no tecido trocava casas por prédios altos. De repente mais outra e outra casa apareciam partidas. Era também uma mudança de modo de vida, menos conectado à rua, menos à calçada e à vizinhança, e reprodutor de uma sociedade de controle de portões e vigilância para locomotores motorizados... Esse processo não cessou, evidentemente. Em 2003, morando em Belo Horizonte, encontrei um contexto muito parecido. Carreguei pedaços desses terrenos devastados. Pedaços de tijolos, pedaços de chão. Serigrafei sobre eles, devolvi eles à cidade. O registro de cinemas em processo de abandono e consequente demolição também tomou muito de minha produção. A edificação dos cinemas, mais monumental do que a casa, abria outras relações poéticas sobre a produção daquelas imagens cheias de detritos, de tijolos expostos, de vigas fazendo colunas em templos contemporâneos abandonados. A abertura das salas geralmente às escuras para um céu estatelado denunciava a alteração dos modos de vida na imediata calçada – o deslocamento desses espaços para os shopping malls, e o esquecimento de um tipo de existência para o cinema, e quem sabe para o filme. Em alguns casos, a arquitetura desses espaços derruídos pelo tempo (primeiro pelo esvaziamento, depois pela comercialização dos espaços) não por acaso é modernista, cujo encontro com a imagem da ruína aparece pela primeira vez em meu trabalho no projeto no “Cinema Coral” em 2004, em Porto Alegre, e no “Serviço Público”, em Recife em 2005. As imagens produzidas apresentavam sempre uma ausência de corpos vivos, refletindo a ausência de interlocutores nesses espaços (quando muito alguns anti-pedreiros eram encontrados, no trabalho laborioso de demolir tijolo a tijolo como quem constrói às avessas) e sinalizando um modo de vida no espaço público em desaparecimento. A destruição, nem sempre tornada ruína pela pressa da construção que a sucede, chamava a atenção também pelas formas esculturais que assume a matéria derruída, uma vez mais rígida e nova, outra mais amolecida e antiga. O chão, nas imagens, muitas vezes era feito planície de uma topografia estranha, feita de terra revirada com tijolo e parede inteiros, ou ainda com o piso aparente dos cômodos de casas (desaparecidas). Essas imagens foram usadas em “Protótipos/cortado” colocados ao chão, com pó de cimento (página 5). 1_ Recolhendo placa no Cinema Baltimore, 2002 2_ “Colchões” na instalação “Visite o apartamento decorado”, 2002 3_ Ao lado, estágio final da demolição do Cinema Ritz, Porto Alegre, 2001


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O trabalho nas imagens levava também para a gravura, a colagem, o desenho, para falsos anúncios que, de volta à cidade, realizavam uma intervenção provocando diferença. Não podia remeter tanto literalmente àquilo – havia uma resistência de sobrepor derruído sobre derruído – por isso criava enunciados como propaganda inequívoca, talvez como escape. Assim fiz a colagem de 100 pequenos folhetos com a frase "alugo uma casa na beira do mar" em tapumes de construção pela cidade de Porto Alegre (entre 1999 e 2000). Criei também imagens serigrafadas sobre anúncios publicitários, que na época, não saíram dos espaços institucionais onde foram expostos. E realizei em seguida a colagem de "CINEMA MUDO" em quatro cinemas desativados da cidade: Ritz, Baltimore, Capitólio e Coral. Uma instalação nomeada "Visite o apartamento decorado" (2002) apresentou alguns desses primeiros trabalhos. Diferente da imagem do cenário de uma destruição, em 2003, em Belo Horizonte, a observação das edificações e sua singeleza gerou outro trabalho: "La vie en Rose". O trabalho consistiu em fotografar prédios em tom de cor de rosa e salmão, de dimensões parecidas, diminutas, expondo em um álbum de fotografias. Junto ao álbum, um cd-player reproduzia o áudio de alguém que cantava com parca pronúncia em francês as letras de "La vie en rose". Em 2004 realizei uma instalação no Instituto Goethe, em Porto Alegre, com painéis de acrílico da fachada do Cinema, “Cinema Coral”. Eles foram retirados do prédio 10 anos depois que o cinema foi fechado, e foram transportados para a galeria do instituto, onde foram montados um de frente para o outro. Coloquei lâmpadas fluorescentes dentro, iluminando cada detalhe: a matéria do acrílico velho e sujo, o tempo congelado naquela matéria. Pitorescamente, eles formaram uma "pequena rua" entre si, iluminada pelos painéis, permitindo uma espécie de deriva nesse pequeno percurso. Em 2005-2006 criei "Serviço Público: AIP IAB MAC", um projeto de longo termo que abria espaço para investigação da atuação do artista como um profissional (um servidor público – já que eu tinha uma bolsa de pesquisa do estado) e definia seu terreno de investigação na história comum de uma associação de imprensa em processo de falência (atualmente retomada). Neste projeto o modernismo, de novo, prefigura uma imagem paradoxal de uma ruína fresca, contemporânea, atestando nossa pouca capacidade de sustentar o tempo (ou a temporalidade) do projeto projeto moderno e seu eterno futuro em uma realidade demasiado tropical, demasiado úmida à beira do mar.

> 1_ Sala de cinema do AIP, fotografia do Projeto “Serviço Público: AIP IAB MAC”, 2005 2_ “Cinema Coral”, instalação com placas originais do cinema, Porto Alegre, 2004 3_ Prédio da AIP em Recife com a intervenção na janela, que se vê pelo lado de dentro na imagem ao lado, parte do projeto “Serviço Público: AIP IAB MAC”, 2006


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Depois de uma boa "pausa" ao lidar com "lugares abandonados" ou processos de destruição-regeneração, em 2009 retomei a empreitada quando em Londres (para uma pesquisa no Warburg Institute e em outros arquivos). Foi lá que o conceito de “protótipo” apareceu, e a pequena série de trabalhos começou a ser desenvolvida. Lá realizei "Let's Be..." (um arquivo-gráfico que toma diversos formatos com intervenção nas ruas onde se lê "lugar de destruição", "lugar de construção", "vamos ser amantes", reproduzido ao lado sobre uma fotografia da placa da regeneração de Kingsland Estate) e as primeiras colagens realizadas em conversas com um ou mais participantes, em que imagens de arquivo (como as do London Metropolitan Archives) eram misturadas às imagens de destruição trazidas por eles (essas imagens estão disponíveis no meu blog). Criei também colagens que recebiam a inserção de estrelinhas, miçangas e brilhos em tons de rosa, um constraste como um literal “cristal do tempo” de tom fantástico sobre as imagens congeladas. Os adesivos de "Let's be" eram colados em lugares em demolição, construção ou regeneração. Demarcavam lugares em transição e eventualmente eram colados novamente caso fossem retirados. A dimensão pequena contrastava com algumas intervenções que eu havia feito antes e, dessa vez, produzia mais uma anotação temporalizada na cidade. Foram usados em duas versões (adesivo A4, e adesivos pequenos, como nas imagens). Colei adesivos sobretudo em Londres, mais alguns em Paris, e alguns na Itália, em Milão e Trieste. Um ano depois voltei a Londres (final de 2010), e algumas das imagens de guerra do arquivo de Londres comecei a "devolver" para os lugares onde foram realizadas, identificando a rua, a esquina, procurando o enquadramento da imagem como pista do lugar que foi destruído pelo bombardeio. Assim a série dos "Protótipos" inaugurou o capítulo "Fotografado" em que a cidade recebia sutilmente um traço de seu próprio desaparecimento, uma dispersão sem registro, a não ser a própria fotografia como gesto com o intuito de preservar algo que não pode ser capturado, como escreveu Christopher Jones em texto homônimo de 2001 (texto publicado em “Southwark knives”). > 1 e 4_ “Fotografado”, devolução em Lewisham Hill, Londres, 2011 2_Os prédios residenciais Haggerston e Kingsland Estates a serem demolidos no leste de Londres e 5_ ao lado, com os adesivos de “Let’s be...”, 2009 3_ Demolição em curso no norte de Londres, 2011.


O corte e a colagem Em “Protótipos/cortado”, a realização novamente das "Colagens" abre um espaço para o diálogo a partir desse grupo de imagens na instalação. Por isso a importância desse espaço dentro da exposição. As colagens foram realizadas com monitoria, feita por Hortencia Abreu, dois dias por semana, na própria sala da exposição. Chamo para intervir na (possível) integridade da imagem, na autoridade do retângulo da fotografia, abrindo fissuras literais com tesoura, com estilete, uma urgência de abrir uma vulgaridade ou um comum. Romper também o caráter documental, como que extraindo o que ali se transforma e aponta, por sua vez, para uma nova abordagem daquela mesma realidade. Na fotografia, muitas vezes, o terreno é traduzido em cena, em cenário. Preservo por um tempo a fotografia, contemplo sua frieza, sua contradição... O que são esses cenários de demolição? A reincidência, dentro de uma mesma cidade, de cidades a cidades, quer ser interrompida de alguma maneira com a retomada dessas imagens, respondendo a um contexto atual de destruição/reconstrução tomado como atualidade do desenvolvimento. Onde poderia existir um vazio (para a especulação) precisa-se provocar um corte, e um diálogo. Provar a promiscuidade da imagem e sua capacidade de criar outras cenas. Provar a diferença e dar corpo a subjetividades antirepetição, possíveis desviantes, fugidias, criativas. Provar a esquizofrenia da cidade sem ser cenário, abrindo terreno para essas novas configurações de sensação, percepção, afecção. O corte, além da imagem explícita que extirpa, para mim figura também como um corte daqueles que operava a arte conceitual. Cortar o sentido é como interromper a paisagem do capital. Cortar a naturalidade da fotografia é cortar a naturalidade do cenário que se sobrepõe ao terreno real. Cortar e (re)montar. A poética da colagem permite um espaço de memoração e de criação, em que remontar, justapor, contrapor, tempo e contexto, atualizam cada participação e vivência no território, seja ela fantasmática, surreal, uma narrativa ou uma literalidade.

> 1_ Realização de colagem em “Protótipos/cortado” 2_ A montagem das primeiras colagens nos painéis 3_ Uma das imagens produzidas para o dossiê da revista Santa Marcelina, São Paulo, 2011 4 e 5_ Colagens realizadas em “Protótipo/cortado” em Belo Horizonte


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Lutas urbanas e contradições (da arte) Nesse catálogo uma estranha filiação relaciona meus trabalhos, do que fica agora, contingencialmente, que a insistência na imagem da destruição/reconstrução se torna um indício de perplexidade diante da paisagem, se torna uma fala ou uma parcialidade na participação de uma realidade complexa, comum e singular. Ou seja, evidentemente não posso falar aqui que a exposição interfere em projetos de urbanização, de planos de cidade, de políticas de habitação, ainda que esses sejam termos que nos sinalizam o plano de fundo de onde surgem minhas afecções. A exposição abre caminhos, me parece, para pensar os projetos de revitalização desde o campo das artes, como uma interferência nesse espaço, uma intervenção nesse campo de práticas, que se abre para outras relações.

A participação de artistas, ou a participação de produtores da área da cultura, arquitetos, designers, entre outros, em processos de revitalização é muitas vezes problemática. Geralmente são eles os primeiros a ocuparem áreas degradadas, exatamente por ofecerem custos baixos (como o caso de Gordon Matta-Clark no Soho em Nova Iorque). A ocupação acaba por "abrir caminho" para a transição de áreas menos valorizadas para bairros reformados ou gentrificados. Atualmente a estratégia de atrair artistas e trabalhadores do que se chama de "capitalismo da imagem" tem sido usada como forma de apaziguamento das relações sociais que poderiam ser conflitivas, visto que políticas públicas em grande parte já não privilegiam moradores locais (como no caso do Rio de Janeiro), mas facilitam acordos institucionais e criam equipamentos culturais, por outro lado. Na onda de uma pacificação das diferenças, o discurso usa a produção cultural como uma prática que permite uma passagem forçamente não ruidosa entre o modo de vida e produção do território existentes e outros modos que vem já programados com a revitalização. A arte figura, em alguns casos, como uma prática que pode operar tranquilamente a transição porque recebe passivamente uma série de aportes do discurso que a fomenta, deixando de lado a ética nessa produção de valor. Um potencial de provocar dissenso pode ser assumido, e levado a termo pelos próprios artistas. Escrevi um texto sobre isso (”A arte de provocar ruínas”), cuja referência encontra-se a seguir. Dessa maneira não encerramos aquela pergunta inicial: “qual a contribuição das práticas artísticas”, como um sistema independente e apenas eventualmente conectado politicamente, mas compreedendo a participação dessa prática em uma realidade comum, mais complexa do que o circuito das práticas artísticas, em que uma série de colaborações e enfrentamentos são necessários e possíveis.

> 1_ Obras nas ruas da Zona Portuária do Rio de Janeiro com o prédio onde existia a Ocupação Zumbi dos Palmares 2_ Escavações arqueológicas também na Zona Portuária 4_ Fotografia extraída da internet, manifestantes da comunidade do Pinheirinho violentamente desocupada, em São Paulo, 2012 3_5_ “Anotações urbanas”, fotografia e papel em bobina, na instalação “Protótipos/cortado”


Leituras e referências Indico aqui os textos disponíveis na exposição, que podem ser baixados em formato .pdf da página http://www.azulejista.wordpress.com/prototiposbh

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_ Brasília: mitos e realidades, de Paulo Bicca (Brasília em questão, 1985) _ Crítica do Urbanismo, Internacional Situacionista (Apologia da deriva: escritos situacionistas sobre a cidade. Paola Berenstein Jacques (org)., 2003) _ Everyday war, de Lebbeus Woods (Mortal City, 1997) _ Margens da Arquitetura, de Otília Arantes (O Lugar da Arquitetura depois dos modernos, 2000) _ O caráter destrutivo, de Walter Benjamin (1931) A arte de provocar ruínas disponivel em, de minha autoria http://www.revistaglobalbrasil.com.br/?p=697 E o texto de John Cunningham Boredom in the Charnel House, Theses on ‘Postindustrial’ Ruins em http://www.variant.org.uk/42texts/CharnelHouse.html Páginas recomendadas http://www.revistaglobalbrasil.com.br http://www.pelamoradia.wordpress.com http://www.uninomade.net http://www.southwarknotes.wordpress.com

Bios _Cristina Ribas Artista visual e pesquisadora. Cresci em Porto Alegre, RS. Fui Bolsista do primeiro programa de residências para artistas do Museu de Arte da Pampulha (2003) e esta foi minha primeira exposição na cidade desde então. Depois de oito anos em terras cariocas, vivo atualmente em Londres, onde realizo doutorado em Fine Art no Goldmiths College. Sou Mestre em Processos Artísticos Contemporâneos, pela UERJ, 2008 (Rio de Janeiro, RJ) e graduada em Artes Plásticas na UFGRS, 2004 (Porto Alegre, RS). Como artista fui selecionada e recebi prêmio em diversos editais. Recentemente: Bolsa Artist Links, British Council (São Paulo/Londres, 2009) e Prêmio Interações Estéticas, Funarte/MINC (2008). Participo de eventos de arte contemporânea desde 2002, integrando exposições individuais e coletivas. Publico artigos em revistas acadêmicas e alternativas desde meados de 2004. Escrevo prosa em segredo, e crítica de arte para amigos. Ministro oficinas de arte e pesquisa em artes, e já fui professora substituta no Instituto de Artes da UERJ. Desenvolvo o Desarquivo.org uma plataforma on line de pesquisa e arquivo para práticas artísticas. Faço parte da rede de pesquisadores Contepualismos del Sur. E já fiz parte do grupo Laranjas, coletivo com atuação entre meados de 2002 e 2008. Organizo situações e projetos coletivos reunindo participantes artistas, pesquisadores, ativistas, como o Laboratório das Cartografias Insurgentes (Rio de Janeiro, 2011); projetos que tomam forma de exposições, residências artísticas, seminários, como o Pedregulho Residência Artística (2009), entre outros. Sou colaboradora das Revistas Global e Lugar Comum (Rio de Janeiro). Contato _crislaranjaribas@gmail.com

> 1_ Colagem de José Carlos Caldeira, em Londres, 2009 2_ Painéis e “Maquete-sombra” na instalação 3_ Eu nos escombros do Cinema Ritz em Porto Alegre, 2001 4_ Ao lado, slide que sobrepõe imagens do COPAN e da Escola de Arquitetura da UFMG, parte do trabalho “Lições de Arquitetura, Lições de Urbanismo”

Catálogo + Capa Protótipos/cortado  

Catalogo da exposicao realizada por Cristina Ribas em Belo Horizonte em Maio de 2012. Exposicao Premio Brasil Arte Contemporanea 2010 da Fun...

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