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ESTADO DE MINAS//PENSAR

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● ENTREVISTA/FERNANDA FERNANDES

Aldeia UNIVERSAL

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Livro sobre o Grupo Ponto de Partida, de Barbacena, destaca a trajetória da companhia que traçou um retrato profundo do Brasil com uso de elementos da literatura e da cultura popular

JULIO BISPO/DIVULGAÇÃO

JOÃO PAULO

Por que a escolha do Ponto de Partida para seu estudo? Conheci o grupo na adolescência, em 1995, quando ganhei um amigo muito especial, que estava ingressando para no Ponto de Partida, o ator Felipe Saleme. A partirdaípasseiaacompanharasestreias emBarbacenae,aolongodotempo,meu lugar na plateia foi se transformando. De fã do teatro como arte fui passando para um lado mais crítico e de pesquisadora. Acompanhei o trabalho do grupo também como jornalista (fui repórter do cadernodeculturadaTribuna de Minasdurante seis anos) e isso ajudou a desenvolver a observação e a análise antes da vida acadêmica. No mestrado, foi necessário construir maior distanciamento crítico, mas as relações e as escolhas, claro, passam pelo afeto.

Como você avalia o trabalho dos grupos de teatro fora do chamado eixo das grandes cidades? Eleger um grande centro como sede poderia ser uma opção capaz de garantir visibilidadeemaioracessoaomercadoculturalestabelecido.Nessesentido,amanutençãodeumgrupoprofissionaldistante dosespaçostradicionaisdelegitimaçãoé sempreumtrabalhodelutaeresistência, quepassapelaquestãodaidentidade,pela tensão entre o local e o cosmopolita. Isso no Brasil está ligado à dificuldade de constituição de uma res pública, justamenteporcontadessacentralização.Mas ascoisasestãomudandoeoPontodePartida participou do que poderíamos identificar como vanguarda dessa mudança quando foi criado como uma associação cultural. Não vejo outra saída para um grupoforadoeixo,poisfazermaisdoque teatro é necessário não apenas para garantir a sobrevivência da companhia, mas para interferir na coisa pública, já quehánissoumaformaderevolveropoder estabelecido. Como o Ponto de Partida conseguiu romper essa barreira, fazer um trabalho reconhecido em todo o país e atrair atenção de grandes nomes da arte brasileira? Negociandoespaços,abrindobrechasese adaptando às modificações no cenário cultural do país. O Ponto de Partida foi fundado em 1980 e se mantém até hoje graçasadiversasadaptaçõesàsmodificações no cenário cultural brasileiro. Fazer teatro no chamado período de abertura do governo militar era algo completamente diferente do que se faz hoje. E no meio desse caminho surgiu a Lei Sarney, a Lei Rouanet e suas diversas modificações, o Fundo Nacional de Cultura, entre outrastentativasderegulaçãodaárea.Paracontextualizarisso,foiprecisodestacar umatrajetóriaquenãoédoPontodePartida, mas da cultura brasileira. Como se deu, durante esse tempo, a relação com as fontes de financiamento?

O mercado está em tudo e a sobrevivência depende dele. A questão é que tipo de concessão se faz

Pra Nhá Terra, montagem do Grupo Ponto de Partida: exercício de linguagem com compromisso político PAULA RIVELLO/TRIBUNA DE MINAS

Seaconformaçãoàsnovasregrasdemercado exigia que se trabalhasse a partir de leis de incentivo e de alianças com a iniciativaprivada,os14anospassadosfinanciando espetáculos com dinheiro de bilheteria ensinaram formas alternativas decaptaçãoderecursosqueaindasãoutilizadas pelo grupo, garantindo meios de existência que ainda hoje fazem a companhianãodependerexclusivamentedo grande patrocínio e do incentivo estatal. Os valores arrecadados não foram tomadosapenascomopagamentodosartistas, mas investidos em quesitos que participamdessasnegociações,foramutilizados na formação da própria companhia e de seu público e envolveram ações como convidar atores como Fernanda Montenegro para dar oficinas em Barbacena, financiartemporadasnosgrandescentros, promover intercâmbio com grupos de fora do país. Isso, claro, envolve escolhas estéticas e éticas que busco analisar ao longo do livro em meio aos textos e canções que embalam um sonho de Brasil.

Que dificuldades se interpõem ao trabalho de grupos como o Ponto de Partida, que não fazem concessão ao mercado e se mantêm fiel à linha de pesquisa e inovação? Ninguémtemcomonãofazerconcessão. O mercado está em tudo e a sobrevivência depende dele. A questão é que tipo de concessão se faz. Se o Caetano gravar a músicadoMichelTelóissoteráoutrosignificado,setornaráumaformadepensar o Brasil, a identidade, quem somos. É isso que o Ponto faz. Ele nos ajuda a nos pensar. Então há uma busca de resultado paraalémdomercado.Podemoscitarcomo exemplo no trabalho do grupo o convite a Nélson Xavier para viver Riobaldo em Grande sertão: veredas. Não se trata de uma estrela global acostumada a interpretarmocinhos,masàépocaoatorestava há 10 anos longe dos palcos, assumindo apenas papéis na TV e no cinema, o que lhe dava uma circulação diferenciada, um “capital” capaz de atrair a atenção dopúblicoedamídia.Masatrajetóriadele, iniciada no Teatro de Arena, confere uma marca de identificação com o ideário seguido pelo Ponto de Partida . Seu trabalho mostra o papel político do Ponto de Partida desde sua fundação, o que é uma marca de outros grupos de teatro brasileiros. O que é peculiar na leitura da realidade proposta pelos trabalhos do Ponto?

Grupo Ponto de Partida, de Barbacena, é um caso à parte na cultura brasileira. Sem abrir mão de suas raízes, de Barbacena, no Campo das Vertentes, a companhia vem construindo, desde os anos 1980, uma das mais importantes trajetórias do teatro brasileiro. Fora do chamado eixo, vem realizando um trabalho que funde teatro e música, com a participação de grandes nomes das artes cênicas brasileiras, com Fernanda Montenegro e Sérgio Britto . Com ousadia e profundidade, o grupo criou diálogos com obras literárias de Guimarães Rosa, Bartolomeu Campos de Queirós e João Ubaldo Ribeiro, ao lado de pesquisa com a cultura popular de várias regiões de Minas. A jornalista Fernanda Fernandes mergulhou na história do grupo em sua pesquisa de teoria da literatura do mestrado na Universidade Federal de Juiz de Fora, analisando aspectos técnicos, literários e políticos do Ponto de Partida. O resultado, Um país em cena (Editora Funalfa), é um trabalho que vai da história para a teoria, para retornar à sociedade por meio dos achados estéticos e éticos dos espetáculos do Ponto de Partida. Nesse périplo, a pesquisa de Fernanda Fernandes trata de elementos que marcaram a cultura brasileira das últimas décadas, da resistência à busca de um lugar de eficácia social e artística, em meio a demandas da política e do mercado. Em entrevista ao Pensar, Fernanda destaca ainda o caráter de busca de identidade que perpassa a trajetória do grupo, que não deixa de enfrentar as contradições contemporâneas nem se esquiva de ir ao Brasil profundo. “O Ponto de Partida continua sendo um chamado de luta, construindo um discurso que coloca em cena um ser nacional rico, vigoroso e feliz para o qual todos precisam contribuir”, defende. Seu livro Um país em cena é um passo importante nessa história.

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O Ponto de Partida oraliza a literatura canônica, explora sua musicalidade e a aproveita nos espetáculos

Todo artista deve se perguntar que tipo de arte tem um discurso potente para furar o esquemão mercadológico

Temos uma tradição iletrada, o que faz a literatura ser uma coisa de elite, algo que ela não é. Literatura do povo

O chamado teatro da repressão levantou a bandeira de que o fato de se estar de pé numpalcojáeraumaatitudepolítica.Os tempos mudaram e, na década de 1980, já não se podia generalizar e dizer isso da atitudedosrostinhosdenovelatransferidosparaoteatro.Senosanos1970osatores do Rio e de São Paulo foram para as portas de fábrica montar esquetes e tratar de temas de gente de carne e osso, os operários,osfavelados,oPontodePartida buscou ler essa realidade a partir da sua aldeia, inserindo temas que nem sempre estãonaordemdodiadametrópole,mas que também precisam ser discutidos e demonstramoutrasvisõesdeBrasil.Aleitura do Ponto tem toques de crítica e política, mas sem deixar de lado uma visão otimista do país que ajudam a construir. Há muito de utopia na atitude dos artistas dos anos 1970 e parte da arte contemporânea produzida nos grandes centros hoje revela um mundo pós-utópico. O PontodePartidacontinuasendoumchamado de luta, construindo um discurso que coloca em cena um ser nacional rico, vigoroso e feliz para o qual todos precisam contribuir. Há uma mescla de aparente ingenuidade com consciência crítica no trabalho do Ponto de Partida. Como se articulam esses dois polos na trajetória do grupo? Isso não é o Brasil? Temos os filhos de Franciscoeospadresfazendosucesso,assim como Paulo Coelho. A questão é que esses campeões de bilheteria carregam na ingenuidade sem mesclar mais nada, diferentemente do que fez um Jorge Amado ao escrever Dona flor... e se mostrar um mestre na arte de combinar nossas contradições brasileiras. Uma das facetas da ação política é mesclar crítica com as relíquias do Brasil, é uma herança donossomodernismo,ocontrapontodo nosso lado doutor. O uso de obras literárias é uma característica que se articula com a cultura popular nos espetáculos do Ponto de Partida. Como isso se realiza nas montagens? Temos uma tradição iletrada do Brasil, o que faz a literatura ser uma coisa de elite, algo que ela não é. Literatura é do povo. E aí tem que ensinar a ler, mas estamos recém-saídos da escravidão e por isso hoje a literatura produzida a partir das periferias urbanas tem chamado tanto a atenção. A música e a cultura po-

pular tornam a literatura mais próxima de um monte de gente e, somadas, garantem a sobrevivência de muitas obras. Claro que aí é preciso negociar com o cânone e ajudar a formá-lo. O Ponto de Partida oraliza a literatura canônica, explora sua musicalidade e aproveita, nos espetáculos, a tradição brasileira da oralidade. Isso se articula também na escolha das cidades em que o grupo investe seu capital social, como Araçuaí. A busca de uma linguagem própria e de uma identidade brasileira são ainda hoje marcas presentes no trabalho do Ponto de Partida? Sim. Acredito que essa busca, como um objetivo, não mudou e continua sendo uma marca do grupo. Mas a cultura muda, as estratégias precisam ser revistas a todo momento, e dizer se as estratégias que o grupo tem utilizado nos últimos anosestãosendoefetivasounãopoderia ser um juízo precipitado. Como disse, os ajustes serão sempre necessários para acompanhar as mudanças da sociedade e questionar o que pode estar comprometendo a circulação da arte de maneira ampla.Pensoquetodoartistadeveseperguntar que tipo de arte tem um discurso potenteosuficienteparaintervirnaesfera pública e furar o esquemão mercadológico, e o quanto interessa aos financiadores que a arte seja de fato livre e transformadoradasociedade.Mantendoessas questõesemmente,épossívelacertarou errar, mas pensando a arte, e não apenas realizando um produto cultural. Em sua opinião, qual o papel da crítica para o teatro? O papel é o mesmo de qualquer crítica do contemporâneo. É fazer junto, dialogar, tensionar o artista e o produtor e não necessariamente servir de fonte de recomendação para o público como os jornais às vezes fazem crer. Daí a importância de a crítica acadêmica ganhar visibilidade pública.

FUNALFA/REPRODUÇÃO

UM PAÍS EM CENA ● De Fernanda Fernandes ● Editora Funalfa, 180 páginas


EM 14 abril 2012