Editorial
A conquista da
cidadania
Sob o prisma histórico, Bertioga é um fenômeno de desenvolvimento em tempo recorde. Embora os anais a registrem entre as primeiras a ser povoadas desde o descobrimento do Brasil, efetivamente, ela só passou a ter aspectos de cidade a partir dos anos 1940, ou seja, apenas 75 anos de vida urbana até chegar, hoje, aos extraoficialmente mais de 50 mil habitantes. Um feito, sem dúvida. E se atentarmos para as condições geográficas nas quais ela está inserida, isto ganha aspectos ainda mais notáveis. Espremida entre a Serra do Mar e o oceano, numa estreita faixa de terra, quase toda de reserva natural, então seu desenvolvimento vertiginoso ainda se faz mais espetacular. Se a natureza a espremeu numa língua de terra sem possibilidades de expansão, esta mãe generosa também a dotou de atrativos tão belos, que a coloca entre os pontos turísticos de maior destaque nacional e internacional. Sob o prisma humano, tal desenvolvimento ocorreu, porque um grupo de abnegados a escolheu para viver. Não sem luta; não sem grandes dificuldades; não sem prejuízo de desejos intrínsecos ao ser humano, como o conforto pessoal, para citar apenas um. Esses desbravadores superaram todas as adversidades de então, constituíram famílias, lutaram pela liberdade da terra adotada e, até hoje, estes mesmos pioneiros, ou seus filhos, ou seus netos, continuam a contribuir com a Bertioga que se moderniza, que se aprimora. Aos poucos, é verdade, mas de forma segura e planejada, como deve ser uma cidade jovem. A edição desta revista dedica seu espaço à história de vida destes pioneiros. Muitos deles, hoje, estão eternizados em nomes de logradouros públicos, aqueles pelos quais transitamos diariamente, e que, para muitos, são apenas nomes, às vezes difíceis de pronunciar. Mas não são apenas nomes. São seres humanos especiais, que devem ser homenageados, conhecidos, reverenciados. Sem eles, não existiríamos como cidadãos.
Expediente Redação e Publicidade Av. 19 de Maio, 695 Jd. Albatroz - Bertioga/SP Fone/Fax: (13) 3317-1281 www.costanorte.com.br costanorte@costanorte.com.br
Edição Eleni Nogueira (MTb 47.477/SP) eleni@costanorte.com.br
Projeto Gráfico e Diagramação Audrye Rotta (MTb 76.077/SP) audrye.rotta@gmail.com
Reportagem Paula Zeiden Texto final Redação jcnorte@uol.com.br
Comercial Aline Pazin aline@costanorte.com.br Gabriel Xavier gabriel@costanorte.com.br
Colaborou Ana Cláudia Gomes
Circulação Bertioga e Litoral Paulista
Revisão Adlete Hamuch (MTb 10.805)
Impressão Gráfica Silvamarts
Diretor-presidente Reuben Nagib Zaidan zaidan@costanorte.com.br Administração Dinalva Berlofi Zaidan Vinicius Berlofi Zaidan dinalva@costanorte.com.br
JORNAL COSTA NORTE Edição Especial: Bertioga 24 anos Publicação: 19 de maio de 2015
Apoio
Capa Canal de Bertioga, com Forte São João ao fundo Foto Helen Cardim
速
Parabéns, Bertioga!
São 24 anos de conquistas e desenvolvimento sustentável. Nos orgulhamos de participar deste progresso.
Foto vista aérea
Bertioga, de frente para o mar. OU
DORMS. (1 SUÍTE)
77,87 m2 a 125,56 m2 privativos
Varanda gourmet com churrasqueira
Lançamento WILSON CECCON a r q u i t e t o
V I S I T E S TA N D
AV. TOMÉ DE SOUZA, 165 PRAIA DA ENSEADA BERTIOGA w w w. v i s t a m a r e b e r t i o g a . c o m . b r Realização
Gerenciamento da construção
Informações
Intermediação
33174282 1333163624
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Incorporadora Mare SPE Bertioga Ltda. Rua Turiassú nº 390, cj. 55, Perdizes, São Paulo/SP, CEP 05005-000. Memorial de incorporação registrado na matrícula 81.781 do 1º C.R.I Santos. CRECI 18981-J.
Índice
18 Perfil
20 Rumos
12 Passo a Passo, e Bertioga se fez independente
32 Amparo
54 Norma Mazzoni
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Bichir
Sabino
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Entre os precursores do comércio
38 Emancipação Vitória da perseverança
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Pioneirismo no Centro
Rodrigues
Nome forte no Indaiá
40 Nehme
Entre a política e a atividade imobiliária
48 Amizade
Laços fortes entre os Quirino e os Moraes
60
Cia. Santense de Navegação
Quando as águas ditavam o ritmo
50 São Lourenço Histórias do baú da família Pinto
86 Fernando Sena
Maestria portuguesa
64 Sesc
Referência histórica
72
94
Terezia Vari A paixão pelo servir
68
Recanto do Itaguá O reino do mestre Doca
Zefinha
110
A querida do Rio da Praia
98 Cantinho dos
Orlandini
De jovem arquiteto a prefeito
90 Zeca do Gás
Memórias de sua gente
100 Xavier
Na rota dos peixes e do progresso
108 Click
Batista
76 Riviera
104 A herança
A arte de realizar sonhos
dos Faustino
112 Fazenda Acaraú
História
Bertioga em três tempos Da colonização ao distrito de Santos, até chegar à independência, há muitas histórias para contar Da redação Deitada em berço esplêndido durante séculos, Bertioga emergiu para o mundo na década de 1980, quando grandes rodovias facilitaram o acesso do chamado turismo de massa, a última da Região Metropolitana da Baixada Santista a receber tal contingente. Até então, a dependência marítima fora responsável por seu isolamento, só quebrado por algumas famílias de pioneiros, que para cá vieram construir um futuro para si e seus dependentes.
lonização do Brasil, grandes conflitos entre índios, portugueses e franceses. Acompanhou de perto a saída de naus, algumas das quais partiram para fundar as cidades de São Vicente e Rio de Janeiro. Foi importante centro baleeiro, depois pesqueiro, numa época em que os peixes constituíam não apenas a força de trabalho local, mas o item básico de alimentação.
Foto Arquivo JCN
Tempos difíceis, sem luz, sem água encanada, sem serviços básicos de saúde. Foi, Bertioga testemunhou, nos idos da co- primeiro, o quintal de Santos, mais tarde, em
Aspecto da antiga Vila, hoje Centro, nos idos de 1951, quando a dependência marítima mantinha o isolamento
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O Decreto nº 14.334, de 30 de novembro de 1944, instituído pelo então governador do estado de São Paulo, Adhemar de Barros, anexou Bertioga e todo o litoral norte ao município de Santos. Após dois movimentos pró-emancipação, um em 1958 e, outro, em 1979, Bertioga finalmente conquistou sua autonomia no dia 19 de maio de 1991 1995
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1944, tornou-se subdistrito santista, que o utilizava, basicamente, para ponto de atracação de pequenas embarcações de caiçaras, que percorriam grandes distâncias entre as cidades do litoral norte e Santos.
Uma cidade se faz com grandes homens; pessoas de visão, empreendedoras, lutadoras. Como o falecido empresário Antônio Ermírio de Moraes, cuja família possuía um imóvel no bairro do Indaiá, e que abriu a primeira alternativa terrestre, no final de 1930, a estrada de rodagem entre a praia do Perequê, em Guarujá, e o canal de Bertioga, depois beneficiada pelo poder público e transformada na atual Guarujá-Bertioga, em 1954, quando passou à jurisdição do Departamento de Estrada de Rodagem - DER. Data também da inauguração do serviço de balsas.
Foto Arquivo família Rodrigues
Os parcos moradores locomoviam-se por meio das lanchas da então Cia. Docas de Santos, hoje Codesp, entre o porto e um pequeno terminal ferroviário de transporte do pessoal de manutenção da Usina Hidrelétrica de Itatinga, com atracadouro às margens do rio Itapanhaú. Na década de 1930, chegou a Cia. Santense de Navegação, e a travessia entre Bertioga e Santos, pelo canal de Bertioga, conheceu grande melhora, ainda que o trajeto feito por barcas levasse cerca duas horas.
Primeiros registros da abertura da rodovia Mogi-Bertioga, concluída em 1982
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24 anos
História
Foto Arquivo JCN
Forte São João, marco do início da colonização do país e de Bertioga
Bertioga passou a atrair visitantes em 1948, com a inauguração do primeiro polo de atração para turistas, a Colônia de Férias Ruy Fonseca, o atual Sesc Bertioga. Em 1972, foi entregue a rodovia Rio-Santos (BR 101), outro grande impulso turístico para a cidade, posteriormente completado pela Mogi-Bertioga, em 1982, e pela construção da ponte sobre o rio Itapanhaú, inaugurada em 1984.
a partir 1979, o megaempreendimento Riviera de São Lourenço, na praia da Enseada.
Desenvolvimento gera anseios na população e a antiga ideia de emancipação, cujos germens surgiram ainda nos anos 50, pelos pioneiros, frutificou e, em 1991, quando por meio de plebiscito a população local, formada por 11.473 habitantes, decidiu pela separação da sede municipal santista. A criação do município foi oficializada pela Lei Estadual A chegada de grandes contingentes de 7.664 de 30 de dezembro de 1991 e sua insvisitantes abriu perspectiva econômica para talação deu-se em 1993, com posse de preum grupo de empresários, que implantaram, feito e vereadores.
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Mais qualidade de vida para o cidadão de Bertioga Em setembro de 2014, o Instituto Corpore iniciou um novo capítulo de sua história ao chegar a Bertioga. No município, a entidade atua na gestão do Hospital Municipal; Unidade de Pronto Atendimento (UPA 24 horas); Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU); e Serviço de Apoio Diagnóstico e Terapia (SADT).
Crys Angélica Ulrich, presidente da entidade, diz: “Seguimos a premissa de que para realizar um bom atendimento aos pacientes é necessário também cuidar da equipe de trabalho. Em Bertioga, o Instituto adquiriu equipamentos e adotou procedimentos de segurança no trabalho, a fim de proporcionar maior conforto e proteção ao dia a dia dos funcionários, além de promover frequentemente treinamentos e capacitações para o aprimoramento contínuo da equipe”. O pensamento é corroborado pelo secretário de Saúde de Bertioga Manoel Prieto Alvarez. “A capacitação constante das equipes é fundamental para uma assistência à Saúde de qualidade”.
Foto Marcos Pertinhes
Em poucos meses de atuação na cidade, algumas conquistas e melhorias já foram colocadas à disposição da comunidade, como a instalação dos 35 novos aparelhos de ar condicionado nos quartos da Maternidade e Pediatria do Hospital; o aumento do número de partos naturais (mais indicados à saúde da mãe e do bebê); a ampliação da equipe médica e Ao mesmo tempo, o cuidado com o paciente desa estruturação do serviço de Acolhimento com Clas- de a sua chegada ao Hospital é igualmente importante. sificação de Riscos, que representa uma maior efici- “Além do atendimento preferencial para os casos de urência nos atendimentos de urgência e emergência. gência e emergência, que são atendidos prontamente,
Hospital Municipal cuida da maior riqueza da cidade: as pessoas
os demais pacientes também recebem atenção especial. plo, além de participarem de coffee breaks Os casos mais graves, por exemplo, têm recebido aten- e sorteios de kits de higiene para o bebê, ao final das atividades. dimento em até 30 minutos”, comenta Crys Angélica. Esta foi a conduta utilizada, por exemplo, quando foram atendidas sete vítimas de um grave acidente que aconteceu na Rodovia Rio-Santos, no mês de março. “Assim que chegaram ao Hospital, receberam atendimento imediato, o que nos possibilitou salvar todas as vidas. Isto foi possível devido ao fato de contarmos com três ambulâncias do SAMU, para atender a todos os chamados com tempo de resposta abaixo do preconizado. Não fossem os investimentos realizados nestes veículos, os atendimentos estariam comprometidos”, lembra Márcia Aparecida da Cruz, administradora do Hospital.
Cada módulo do curso terá em média duas horas de "Os casos mais graves, duração. Na primeira parte por exemplo, têm do treinamento, as gestanrecebido atendimento tes participarão de uma paem até 30 minutos” lestra com um nutricionista Crys Angélica sobre alimentação saudável e adequada para a saúde da mãe e do bebê. Logo após, a assistente social trará ao curso informações sobre os direitos trabalhistas e sociais das gestantes.
A medida também foi uma solicitação do prefeiJá na segunda parte, as participantes aprenderão to Mauro Orlandini, quando da contratação do serviço. Para ele, o ordenamento é uma prioridade. “Sa- de forma lúdica e prática os cuidados necessários com bendo de sua classificação, o paciente pode exigir o recém-nascido: amamentação, primeiros banhos e o o atendimento no tempo determinado, respeitando tratamento do cordão umbilical, por exemplo. os demais atendimentos”. “O curso ‘Bebê a Caminho’ é uma das ações que Na opinião do secretário de Saúde, a classifica- contribuem para o parto humanizado, pois oferece à ção organiza o atendimento e melhora o tempo de mãe e ao bebê uma complementação ao acompanharesposta. “A intenção é oferecer um serviço de quali- mento feito desde os primeiros meses de gestação nas unidades básicas de saúde. A atividade também dade e também no tempo certo”. procura aproximar as gestantes da equipe de profissionais do Hospital Municipal de Bertioga, o que reCuidando do futuro presenta maior conforto e menor ansiedade na hora A preocupação com o futuro de Bertioga fez com do parto”, finaliza a presidente. o Instituto Corpore e a Secretaria Municipal de Saúde organizassem um curso gratuito especialmente formuO Instituto lado para as gestantes: “Bebê a Caminho”. Crys AngéDesde quando foi criado, há dez anos, o Instituto lica explica: “Queremos, com o treinamento, acolher, Corpore tem fortalecido e expandido suas ações, garanorientar e preparar as futuras mães para o momento tindo desenvolvimento qualificado em todos os munido nascimento do bebê e seus primeiros dias de vida. cípios parceiros. Sua sede fica em Matinhos, no Paraná, A ideia é também oferecermos informações sobre dionde também possui unidade no município de Bela Visreitos e cuidados que facilitem o período da gestação”. ta do Paraíso. Além de Bertioga, a instituição atua no esO curso, que acontece no auditório do Hospital, é tado de São Paulo nas seguintes cidades: Alambari; Aradividido em dois módulos, sempre na segunda quarta- çoiaba da Serra; Caraguatatuba; Guarujá; Mirassol; Pilar -feira do mês. A atividade conta com uma equipe mul- do Sul; Sarapuí; e Araraquara. Recentemente, a entidade tidisciplinar para atender as participantes, que também expandiu sua atuação para o estado do Maranhão. Lá, terão a oportunidade de conhecer as instalações do é responsável pela gestão de cinco hospitais de média hospital como sala de parto e alojamento, por exem- complexidade e mais três UPAs.
Perfil
Estância Balneária de Bertioga Origem do nome: a palavra origina do tupi, Buriquioca: Buriqui (macaco) + Oca (morada). Morada dos macacos buriquis, espécie em abundância no morro Buriqui - hoje denominado morro da Senhorinha, localizado a cerca de 500 metros da área do Forte São João.
Localização Posicionada entre o litoral norte e a Baixada Santista, com acesso pela rodovia Rio-Santos
Praias São mais de 36 quilômetros divididos em cinco praias de águas claras e excelente balneabilidade. Ao longo da costa, as paisagens mesclam o verde da mata com o colorido ainda discreto de sua área urbana. As mais agitadas e com maior infraestrutura são Enseada (centro), São Lourenço e Boraceia (divisa com São Sebastião). Itaguaré e Guaratuba reservam a tranquilidade e o ar quase deserto de uma região fora do eixo do desenvolvimento.
Hino Progressista Bertioga És recanto acolhedor Lindas praias, verdes matas Preservadas com amor
Manguezais Uma das riquezas naturais de Bertioga. Considerados berçários naturais da procriação de espécies marinhas, os manguezais são ecossistemas costeiros de transição entre os ambientes terrestre, fluvial e marinho e ocorrem em regiões costeiras abrigadas e sujeitas aos regimes das marés. Nos manguezais, há caranguejos de várias espécies, aves aquáticas e gamboas que são braços de rios com fluxo e refluxo das marés. Os mangues estão entre os ecossistemas de maior produtividade, pois garantem alimentos, proteção e condições de reprodução para animais de várias espécies.
Teus encantos, que são tantos A natureza esculpiu Com as águas e os ventos No teu solo tão gentil És vibrante, Bertioga De futuro promissor Com a fé e a ciência Dos teus filhos, o labor E da gente hospitaleira Fibra, raça e coração Teus valentes pescadores São heróis e tradição A beleza, a natureza Que se vêm admirar Para tantos é Bertioga Para nós, é nosso lar Autor Miguel Roberto Moure
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Foto Arquivo JCN
Entre a Serra e o oceano E em teu belo litoral Vivem fauna, flora, humanidade Em equilíbrio natural
Forte São João Fundado em 1547, às margens do canal de Bertioga, é a fortaleza mais antiga e também a mais bem conservada do Brasil. O primeiro Fortim de São Tiago, na Barra da Bertioga, foi reconstruído no final do século XVII, em alvenaria de pedra e cal, tendo as suas obras definitivas sido concluídas em 1710. O desenho da sua planta apresentava o formato de um polígono retangular com guaritas e vértices. O Forte foi reformado a partir de 1765, tendo reedificada a sua capela, sob a invocação de São João e passou a ser denominado Forte São João da Bertioga. Jornal Costa Norte
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Densidade demográfica (hab/km2): 97,23
Brasão Criado em 22 de janeiro pela Lei Municipal 001/93 Autor Mauro Dedemo Orlandini
População 1991: 11.473 1996: 17.002 2000: 30.093 (Censo IBGE) 2007: 39.091 (Censo IBGE) 2009: 45.233 (Estimativa IBGE) 2010: 47.645 (Censo IBGE) 2012: 50.583 (Seade) 2014: 55.138 mil (Estimativa IBGE/2014)
Santo Padroeiro São João Batista Coordenadas geográficas Latitude: 23° 56 27” S Longitude: 45° 19 48” W.Gr
Bandeira Criada pela Lei 027/03 e oficializada em 14 de setembro do mesmo ano. Autor Pablo Onate
Foto Arquivo JCN
Localização Posicionada entre o litoral norte e a Baixada Santista, com acesso pela rodovia Rio-Santos
Marco da emancipação: Projeto Mauro Orlandini Distâncias
São Paulo : 115 km | Guarujá: 38 km | Santos: 54 km | São Sebastião: 85 km | Mogi das Cruzes: 54 km
Atividade econômica A principal fonte de arrecadação da cidade é a construção civil. Em seguida vem o turismo, com atividades de ecoturismo e meios de hospedagem. O comércio e a prestação de serviços se fortaleceram nos últimos anos e, atualmente, são os maiores geradores de empregos formais. A pesca é outro setor que movimenta a cidade por meio da pesca amadora, profissional, turismo de pesca e comércio especializado.
Características físico-territoriais Área: 490km2. Ocupa 20,3% de área da Região Metropolitana da Baixada Santista. Possui 45km de costa, sendo 36km de linha de praia e 9km de costões.
Plebiscito 19 de maio de 1991. A população de Bertioga diz sim à autonomia. Dos 3.925 votantes, 3.698 foram favoráveis. Apenas 179 disseram não, 21 optaram pelo voto em branco e 27 pela anulação. A criação do novo município foi oficializada pela Lei Estadual 7.664, de 30 de dezembro de 1991. Sua instalação, segundo a lei, passou a valer a partir de 1993 com eleição e posse de prefeito e vereadores.
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24 anos
Futuro
Um Plano Diretor mais abrangente A nova legislação bertioguense pretende aproveitar melhor a pouca área útil existente, com aumentos da taxa de ocupação e do índice de aproveitamento dos terrenos Por Ana Cláudia Gomes O diagnóstico elaborado pela Gaia Consultoria e Gestão Ambiental, a partir de relatórios e dados disponibilizados pela municipalidade, revelou que, a se considerar as áreas urbanas já consolidadas, 7,4%, somadas às áreas ambientalmente protegidas, 88,1%, restam 4,5% de áreas de expansão urbana no município. Essas áreas possuem cobertura
Foto Mar Franz
Um dos municípios com maior área de preservação ambiental do estado de São Paulo, Bertioga passa por um momento decisivo para seu desenvolvimento: promover a ocupação urbana de maneira ordenada, preservando o meio ambiente. Essa equação é de difícil resolução, uma vez que apenas 2,25% de seu território são de áreas propícias à expansão urbana.
Bertioga possui, aproximadamente, 2,25% de áreas propícias para expansão urbana
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O que é o PDDS O PDDS (Plano Diretor de Desenvolvimento Sustentado) é um instrumento básico para orientar a política de desenvolvimento e de ordenamento da expansão urbana do município. O objetivo é orientar as ações do poder público a fim de compatibilizar os interesses coletivos e garantir, de forma mais justa, os benefícios da urbanização, além de garantir os princípios da reforma urbana, direito à cidade e à cidadania e gestão democrática do espaço.
vegetal nas quais a legislação atual permite a ocupação máxima de 50% dos terrenos; desta forma, Bertioga possui, aproximadamente, 2,25% de áreas para expansão urbana.
O município carrega com orgulho o título de protetor ambiental, contudo, é preciso acompanhar o desenvolvimento, que passa também pela ocupação urbana. Desde 2013, o Grupo Gestor do PDDS, formado por técnicos da prefeitura e representantes da comunidade, realiza audiências e consultas públicas, exigência do Estatuto da Cidade (Lei 10.257/01), para elaborar o novo texto, fundamental para estabelecer conceitos, objetivos e diretrizes gerais para a política urbana e ambiental do município.
Foto Shin Shikuma
O estudo serviu de base para as discussões da revisão do Plano Diretor de Desenvolvimento Sustentado (PDDS), cujo processo vem sendo conduzido pela prefeitura de Bertioga. Desde o primeiro plano, que começou a vigorar em 1998, o município sofreu grandes transformações, principalmente, na área ambiental, com a criação do Parque Estadual Restinga de Bertioga (Perb), em 2010, o qual instituiu, como área de preservação permanente, 9.312,32 hectares de seu território.
Desde o primeiro plano, que começou a vigorar em 1998, o município sofreu grandes transformações, principalmente, na área ambiental, com a criação do Parque Estadual Restinga de Bertioga (Perb), em 2010, o qual instituiu, como área de preservação permanente, 9.312,32 hectares de seu território
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24 anos
Futuro
pação de qualidade, com imóveis a preços acessíveis, a tendência é de que os terrenos sejam mais bem aproveitados, com aumentos da taxa de ocupação e do índice de aproveitamento. A nova legislação tende a ser menos restritiva, adequando-se à realidade, mas com foco nas questões de salubridade das edificaDe acordo com o coordenador do Grupo ções e na legislação ambiental. Gestor Manoel Prieto Alvarez, o Plano Diretor Para o coordenador do Grupo Gestor, a anterior priorizava o adensamento na orla da praia, região na qual o valor dos terrenos é proposta do novo PDDS é menos elitista e maior. Ele explica: “Com isso, somente quem voltada à implantação de empreendimentinha mais poder aquisitivo conseguiu com- tos habitacionais de padrão médio, diferente prar um imóvel em Bertioga”. Ele ainda revela do atual Plano Diretor. A intenção é permitir que, na época, o conceito básico era de um maior adensamento em locais mais afastados município balneário, com um baixo índice po- da praia, cujo valor do terreno é menor. “Hoje, em terrenos de 999 metros quadrados, só é pulacional e que atraía muitos turistas. permitido construir duas casas geminadas. Em virtude da área reduzida para expan- Não podemos nos dar ao luxo de subutilizar são urbana e a necessidade de oferecer ocu- os terrenos dessa forma. É possível construir mais casas, sobrepostas, por exemplo, com qualidade, ocupando melhor o terreno e oferecendo imóveis a preços acessíveis”. Durante os encontros com a comunidade, uma das demandas de maior destaque foi a questão da habitação. A falta de casas de padrão médio, para atender o morador de Bertioga, representou uma das principais reclamações da população.
Foto Mar Franz
Novo PDDS é voltado à implantação de empreendimentos habitacionais de padrão médio. Intenção é permitir maior adensamento em locais mais afastados da praia, cujo valor do terreno é menor
Alvarez acredita que, com a nova legislação que está sendo proposta, a cidade passará por uma transformação positiva. Muitos imóveis antigos no Centro, atualmente abandonados, poderão dar lugar a várias casas. Ele explicou: “Hoje, as pessoas precisam de menos espaço para morar, além disso, a realidade econômica do país é outra. Tenho certeza que será criado um círculo virtuoso de novos negócios na área imobiliária”. A nova proposta do PDDS ainda está sendo discutida pelo Grupo Gestor, que vai elaborar uma minuta de projeto de lei a ser apresentada em três audiências públicas e uma conferência para definição final do texto. Só então o documento será encaminhado para apreciação do Legislativo municipal.
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História
Das montanhas libanesas para Bertioga Miguel Seiad Bichir, ou seu Migué Turco, como era conhecido carinhosamente pelos amigos, chegou à Vila em 1913
Foto JCN
Da redação
Família reunida para contar a saga dos Bichir em Bertioga
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A antiga Vila de Bertioga, o atual bairro Centro, era o ponto de concentração das primeiras famílias estabelecidas na cidade, já que oferecia facilidades de pesca no canal. Era ali, também, que ficava o antigo trapiche que, anos mais tarde, cedeu lugar para o píer Licurgo Mazzoni, onde aportavam as barcas com imigrantes de vários lugares do mundo em busca de melhores condições de vida no Brasil. Entre eles, em 1913, desembarcou Miguel Seiad Bichir, aos 17 anos, originário de uma aldeia do Líbano chamada Dhouma. Das terras rochosas libanesas, Miguel aportou, primeiro, nos Estados Unidos, onde tinha parentes, depois de um tempo veio para o Brasil e se instalou em Itanhaém, também em casa de familiares. Sua veia
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Migué Turco, além de mascate, foi pescador, lenhador, comerciante, dono de terras e produtor de cachaça. Com muito trabalho, formou uma família de nome forte na cidade e com atuação nas áreas da saúde, direito, política e engenharia 1995
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desbravadora sempre falava mais alto e ele seguiu Isac, Elias Nehme, entre outros, e, ao som de seu grasua caminhada até estabelecer residência em Ber- mofone, único da vila, dançavam e cantavam músicas da terra. Ele sustentava a família com verduras, frutas tioga, definitivamente. nativas e legumes cultivados no quintal de sua casa. Aqui, fez aquilo que sabia: trabalhar como mascaNo sítio da Praia Preta, conhecido como Casa te. De Bertioga a São Sebastião, a pé. Foi neste trajeto que conheceu sua mulher Isabel, uma caiçara de Bois- de Pedra, localizado na ilha de Santo Amaro, ele tisucanga. Dos 11 filhos nascidos, nove sobreviveram. nha um engenho e produzia a famosa cachaça da Praia Preta, chamada Praia Ninha. Além do engeConhecido como Migué Turco, além de mascate, nho, a propriedade contava com um bananal, criafoi pescador, lenhador, comerciante, dono de terras e ção de cabras e cavalos. produtor de cachaça. Eram tempos difíceis. No morro Tudo era vendido em sua venda, o Armazém da Senhorinha tinha uma fonte na qual todos os moradores da Vila apanhavam água. Energia elétrica era de Secos e Molhados do Migué Turco, em frente ao canal. Nos rótulos da cachaça, Bichir escrevia versos. um luxo escasso, e as famílias contavam apenas com “Era uma vida difícil. Para transportar a banana e a gerador, desligado às dez horas da noite. cachaça descíamos dois morros a pé ou, a cavalo”, Aos finais de semana, Migué Turco reunia a família comenta Jamile Bichir, uma das filhas. A propriedade e outros vizinhos libaneses, como João Sabino, Jorge foi vendida no final da década de 1960.
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A tranquilidade das águas do canal de Bertioga atraiu as primeiras famílias para a região da Vila, atual Centro
Foto Arquivo JCN
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História
Seiad e o filho Miguel à margem do canal de Bertioga, na década de 60. A pesca foi e continua sendo, a principal inspiração dos Bichir
Nesta época, a população de Bertioga não passava de cinco mil habitantes, e Jamile lembra que a pesca era uma das atividades comuns entre os moradores. Durante o inverno, as tainhas eram pescadas no rio Itaguaré, e os peixes, distribuídos. No verão, acontecia a chamada pesca de fundo, quando se pescava robalo, pescada e outras espécies.
pescavam em frente ao Forte. Embora o progresso tenha terminado com a pesca como meio de subsistência, a família mantém até hoje a atividade. “Tempos atrás, quando chovia, enchíamos a cozinha, banheiro e quarto com peixes, a maioria parati. Quando chove, os paratis - ou paratiocas ou muriquiocas-, sobem com as águas da chuva”, conta Aluísio.
De pai para filho e de filho para neto, a pescaria continua na tradição da família. O germe da primeira festa da tainha, segundo contam, teria nascido na casa de um dos filhos, Seiad Bichir, casado com a caiçara Raquel, de Juquey. Eles tiveram quatro filhos: Miguel, Aluisio, Edson e Zaine. Dois de seus filhos, Zaine e Miguel Seiad Bichir Neto, aniversariam em junho, e o pai, para comemorar, trazia muitas tainhas; a comemoração entre parentes e vizinhos ocorria com fartura de peixes e acabou por gerar a Festa da Tainha, realizada até hoje na cidade. Outras versões que correm na cidade dizem que a festa surgiu no Indaiá, para comemorar fartura de peixes que havia então.
O avô, o velho Migué Turco, e o filho Seiad Bichir mantiveram os costumes trazidos na mala preta do mascate libanês e apaixonaram-se pela pesca. O desejo de vencer também era comum entre pai e filho. Este último, com o desenvolvimento do então vilarejo, atuou em várias frentes como o pai, mas em um cenário diferente: foi coveiro, subdelegado, policial e depois entrou na prefeitura de Santos como fiscal. Aos finais de semana, vendia imóveis.
Foto Arquivo familiar
Na terceira geração, Miguel Seiad Bichir Neto, advogado, escritor e ex-vereador, sente falta dos tempos passados: “Completo 65 anos no dia 23 de junho, e do meu pessoal contemporâneo não tem 30 famílias. Escrevi um texto que é a conversa entre dois caiçaras. Um deles, que tinha tomado umas e outras, e o Daniel (o Dito); alguém perguntou: `aonde anda essa gente antiga de Bertioga? E ele disse: está no cemitério´”. Miguel lamenta: “Hoje, minha Aluísio, um dos filhos de ligação afetiva com a cidade está muito tênue. Vai Seiad Bichir e Raquel, diz que seu pai, viver em minha lembrança, porque essa ligação é assim como o avô, era pescador e ambos responsável pelo que sou”.
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Os lampiões que iluminavam a Vila Eles pertenciam a João Sabino Abdala, um dos precursores do comércio bertioguense, que até os emprestava para o circo local, uma das poucas diversões que havia na época Da redação atual píer Licurgo Mazzoni, no qual aportavam as lanchas da Cia. Santense de Navegação, com mercadorias e mantimentos para os moradores. Sua filha Zoraide Abdala da Silva conta que os poucos moradores compravam em seu armazém porque “ele foi o primeiro comerciante. Não tinha nem farmácia e até remédios ele vendia em seu comércio. Depois que abriu a farmácia do seu Humberto da Silva Piques, a
Foto JCN
Diferentemente dos imigrantes que aqui chegavam, no início do século XX, João Sabino Abdala aportou em Santos, aos 17 anos, com o sonho de conhecer o país. A família tinha posses e seu pai comercializava trigo. Acabou fincando raízes em Bertioga, onde trabalhou como mascate, a exemplo de outros libaneses recém-chegados à antiga vila. Vendia fardos de tecidos, até que decidiu abrir um comércio em frente ao
Elizabete e Dulce Abdala, Maria Isabel Rodrigues e Zoraide Abdala da Silva, em frente ao tradicional comércio, o atual Tem Tem
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primeira de Bertioga, ele parou de vender medicamentos”. Muitos compravam fiado, uma prática usual, de confiança, que existia na época, mas pagavam.
Eram nove filhos, quatro mulheres e cinco homens. Zoraide lembra: “Eu tinha muita vontade de estudar, meu pai não deixava nós irmos sozinhas para Santos. Fiz até o quarto ano e não segui os estudos porque não havia nada em Bertioga, além do ensino fundamental”. Também a cultura libanesa foi preservada: as mulheres não trabalhavam e nem podiam ficar na rua. Vez ou outra, elas podiam trabalhar na venda, lavando os copos. Dada à localização de sua primeira loja, João Sabino Abdala sabia de tudo o que acontecia, como quem chegava e quem partia. Diante disso, fez muitos amigos de Santos, Guarujá e de São Paulo, tais como José Ermírio de Moraes, pai de Antonio Ermírio, e Jânio Quadros, que frequentavam a venda. Nela, também se reuniam
Foto Arquivo JCN
Hoje, a filha Dulce Bitencourt Abdala e a neta Elizabete comandam o tradicional comércio, o atual Tem Tem, na avenida Vicente de Carvalho, no Centro. Aliás, uma curiosidade: o imóvel que abriga o armazém é o único na cidade que mantém as mesmas características da época do patriarca da família.
Movimentação no antigo embarcadouro, onde atualmente localiza-se o píer Licurgo Mazzoni, atraiu a atenção de João Sabino
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O armazém é o único na cidade que mantém as mesmas características da época do patriarca da família
muitos membros da colônia libanesa, a exemplo Com a abertura da estrada Guarujá-Bertioga, a situação melhorou bastante, como diz de Miguel Bichir, Elias Nehme e Jorge Isaac. Zoraide: “Meu pai tinha muitos lampiões espaEla lembra que no tempo da Revolução lhados pela casa. Depois conseguiu um gerador Constitucionalista de 1932, apareciam solda- para o rádio. Tinha circo em Bertioga, e depois dos em Bertioga, ocasiões em que não era de fechar a venda, ele emprestava os lampiões permitido acender lampiões. Mais tarde, a para as apresentações circenses”. Na década de Cruz Vermelha montou uma sede e havia mé- 1940, o único meio de comunicação tecnológico dicos aos domingos. era o telégrafo. Além disso, só pombo-correio.
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Na inauguração da energia elétrica, em dezembro de 1965, presença do ex-governador Adhemar de Barros (à direita, de terno escuro). A partir de então, os lampiões deixaram de fazer parte dos objetos imprescindíveis na antiga vila
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Afora o circo e o parque de diversões, as famílias frequentavam o cinema de Licurgo Mazzoni. Segundo Dulce, outra filha de João Sabino, “também tinha Festa de Reis; as pessoas iam de casa em casa cantando; mesmo assim, papai não nos deixava sair”, conta ela. Os passeios das meninas eram acompanhados pelos irmãos. “Em noite de lua, todos iam à praia; o papai fechava a venda e ia para a casa do Miguel Bichir. Eles conversavam, cantavam músicas árabes, e dançavam ao som do gramofone do Bichir”.
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Lição de empreendedorismo A marina Acqua Azul já foi um bananal, tocado por um pescador que escolheu a área para construir a sua vida, um processo que se confunde com o da própria cidade Da redação 1970, começou a ter gelo, estradinhas e aí teve início outra realidade”. Aos 59 anos, Ted é, hoje, dono de uma pousada, da marina Acqua Azul, de uma loja de artigos para pesca e náutica e de um dos mais requintados restaurantes da região, com vista para o canal de Bertioga, construído em madeira nobre. Tal patrimônio, segundo explica, foi conquistado de forma gradativa, em paralelo com o desenvolvimento de Bertioga, processo, aliás, que continua, haja vista que, recentemente, a marina beneficiou-se com a mudança de local do terminal de balsas, que funcionava
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O pescador sebastianense Sebastião Alexandre, avô de Orestes Amparo Filho, o conhecido Ted, chegou a Bertioga nos idos de 1912, para se dedicar à pesca e à plantação de banana, na área hoje conhecida como Jardim Veleiros. Ted conta: “Isso aqui tudo era bananal, até o mangue. As frutas eram exportadas para a Argentina. Depois, mais ou menos nos anos 1950, com o declínio do ciclo da banana, meu avô, e meu pai, que nasceu em 1927, começaram a trabalhar com peixe seco; não havia gelo, não havia estrada, não havia caminhões, então, pescava-se o peixe, secava e levava de barco para vender em Santos. Era isso que movimentava a economia da época. A partir dos anos
Orestes Amparo Filho, o Ted, iniciou no ramo náutico quase que por acaso, em 1960
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Família Amparo chegou à região do antigo Jardim Veleiros em 1912, para se dedicar à pesca e à plantação de banana. Mas, com a abertura das estradas e implantação da Riviera, o turismo abriu novos caminhos 1995
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próximo ao píer Licurgo Mazzoni e, em de- de ótima qualidade, permitindo a abundância zembro de 2013, foi transferido para o final da dos cardumes”, conta Ted. rua Henrique Costábile, onde está localizado Com a chegada da luz elétrica, seu pai ingresseu comércio. sou no Corpo de Bombeiros, até ser reformado A história da família teve início por aqui em 1978. “O sonho dele era trabalhar na prefeiem tempos difíceis, quando a pesca ditava o tura ou no porto, porque havia estabilidade. Em ritmo de vida e a economia local. Sendo as- determinado momento, foram criadas as polícias sim, os peixes e as histórias de pescador per- marítima e aérea, com o objetivo de combater as meiam as memórias da época. Como conta Ted: greves portuárias. Posteriormente, essas polícias “Em 1964, meu pai pescou um peixe chamado mero, espécie de garoupa, pesando 356 quilos; ele colocou o espinhel para pescar os peixes, e, pela manhã, este peixe estava preso ao anzol. Naquela época, não havia como pesar em Bertioga e ele foi transportado até Santos pela lancha da Cia. Santense de Navegação”.
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O pai de Ted, Orestes Amparo, secava os pescados e os vendia em Santos e Guarujá
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Sua casa foi construída à beira-mar; quando a maré avançava, viam-se os peixes da janela. O pai pescava por meio de cercos, e os vendia, secos, para Santos e Guarujá. Depois, com a construção da estrada Guarujá-Bertioga, no início da década de 1940, ainda que deficitária, ajudou seu pai a vender peixes frescos. “Com a chegada dos turistas, iniciaram as construções de casas, e as famílias quatrocentonas de São Paulo frequentavam Bertioga. Era um volume pequeno de pessoas e, nesse momento, começamos a vender o peixe em casa, porque era fresquinho e as nossas águas, que até hoje não são poluídas, sempre foram Edição especial de emancipação de Bertioga
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foram incorporadas à Polícia Militar. Por isso, ele exerceu a atividade de bombeiro”, explica.
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O antigo bananal, com nove mil metros quadrados, cedeu lugar à marina de uma forma quase casual. Ted conta que as pessoas pediam para guardar os barcos no local, muitas delas de São Paulo, que vinham para pescar. Naquela época, na década de 1960, eram cerca de 40 pequenas embarcações de alumínio e, dado o volume estacionado no terreno, ele começou a cobrar aluguel dos barcos.
Patrimônio comercial conquistado com muito trabalho e de forma gradativa, em paralelo com o desenvolvimento de Bertioga
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“Hoje, com a mudança da tecnologia, os preços dos barcos são mais acessíveis, o que aumentou muito o volume de barcos alocados na marina. Além disso, creio que outro facilitador para a expansão do negócio foi a construção das estradas e a vinda de muitos turistas, bem como a ocupação da Riviera”, diz Ted. A família enxergou novas frentes e abriu uma pousada, depois uma loja de pesca e náutica e, atualmente, o restaurante. “Construímos nossa casa em cima e, posteriormente, ampliamos a loja. Tudo isso por causa do movimento maior de turistas na cidade”. Segundo ele, a marina avançou nos últimos 10 anos e, atualmente, o espaço está pequeno. Diz Ted: “Não imaginava tamanha expansão. A
cidade nem cresceu 30% de seu potencial”. O desenvolvimento da cidade segue seu ritmo crescente e as filhas de Ted , quando ele conta fatos do passado, perguntam quando era melhor: no tempo em que não havia tanta genA história da família te ou agora, com milhares teve início por aqui de pessoas? Ele responde: em tempos difíceis, “Para mim, tudo é bom ao quando a pesca ditava o ritmo de vida e a seu tempo. No passado, vivi economia local muitas coisas boas e agora também. Certamente, são momentos bem distintos, mas me orgulho de ter vivido neste lugar numa época tão diferente; chega a ser um presente”.
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Ponto de encontro de celebridades No bairro Indaiá, o armazém de Antonio Rodrigues atuou como polo de atração de políticos, entre os quais Jânio Quadros, João Goulart e Paulo Maluf, visitantes assíduos em uma grande fase de desenvolvimento da cidade Da redação Antonio Rodrigues marca o início da instalação da família Rodrigues em Bertioga. Ele participou do primeiro movimento de emancipação de Bertioga, em 1958, e pavimentou o caminho para a terceira geração, no caso, o atual vereador Toninho Rodrigues, atuante no movimento de 1991, afinal vitorioso. Antonio Rodrigues chegou ao Indaiá aos três anos de idade; aos sete, já roçava o sítio de José Ermírio de Moraes, pai do falecido empresário Antonio Ermírio de Moraes, onde trabalhou por nove anos como jardineiro e criou laços de amizade com a família, que perduram nos dias atuais. Ainda jovem, depois de tentar, sem sucesso, fazer carreira no Exército, Antonio Rodrigues montou o armazém, misto de bar, Santo Antônio, no bairro, um Antonio Rodrigues dos comércios pioneiros da chegou em Bertioga cidade, no qual trabalhou em 1927. Foi jardineiro, comerciante, inspetor de por 50 anos, período em quarteirão, uma espécie que fez muitos amigos, gade policial, na época, e rantiu o sustento da família corretor de imóveis e os estudos dos filhos, todos com formação universitária.
fiança comum no comércio de outrora. “Perdi muito dinheiro, até a folha de anotação da caderneta sumia”. Outra curiosidade da época é lembrada com bom humor: “Como não tínhamos banco, guardava o dinheiro debaixo do colchão”. Depois da instalação de uma agência do banco Itaú, Antonio Rodrigues foi um dos primeiros correntistas, com a conta de número quatro. O antigo empório era ponto de encontro de pessoas famosas, políticos de expressão, na época, entre os quais dois se tornariam presidentes da República. “Jânio Quadros vinha para Bertioga e tomava as suas pingas no balcão do bar. Ele sempre pedia caipirinha. O Jango (João Goulart) tomava uma caipirinha rasgada, uma atrás da outra”. Pronta a estrada Mogi-Bertioga, em 1982, a caravana inaugural foi até lá para comemorar. “Na época, Waldemar Costa Filho (então prefeito de Mogi das Cruzes e um dos responsáveis pela construção da estrada), e Paulo Maluf, então governador de São Paulo, soltaram fogos e comemoraram o feito”.
Antonio Rodrigues atuou em várias atividades, além de comerciante; foi inspetor de quarteirão, uma espécie de policial, na época, e corAos 90 anos, ele lembra que retor de imóveis. Ele conta: “A rotatividade do vendia muito fiado, uma prática de con- comércio era mais rentável e, conforme a evo-
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Família Rodrigues: Marly, Wilson, Cleonice, Antonio, Rosely e Toninho
lução, mais estradas, mais turistas chegavam e a atividade imobiliária aumentou”. Ele vendeu lotes pertencentes a uma conhecida, na Vista Linda. Segundo ele, chegou a comercializar oito lotes em um dia apenas.
Antigo empório dos Rodrigues, no Indaiá. Esteio da família e referência no bairro por 50 anos
Ele gosta de lembrar os primeiros passos da família, quando ele e os quatro irmãos (Marly, Wilson, Rosely e José Carlos) eram crianças e moravam numa casa de barro, coberta de sapê. “Nunca nos esquecemos disso e nos orgulhamos de quem somos hoje porque meu pai, naquela época, foi o único que formou todos os filhos na região”.
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Ainda hoje, tradicionalmente, a família formada por Antonio e Cleonice Rodrigues reúne-se para almoços. Antonio repassa o ensinamento aprendido aos filhos, para que nunca percam a humildade e a honestidade. Para a família Rodrigues, o nome é uma marca muito mais imporFechado o bar, Antonio dedicou-se ao tante do que qualquer resultado financeiro. ramo imobiliário. O filho Toninho Rodrigues diz: “Hoje, nosso escritório imobiliário tem mais de 40 anos. Rodrigues era a marca do armazém do meu pai e a Rodrigues Imóveis foi um legado de pai para filho. Temos Rodrigues Imóveis no Indaiá, Vista Linda, Maitinga e na avenida Anchieta. Vendemos os lotes e também a parte construtiva porque temos engenheiros e arquitetos no grupo e sempre estamos em ascensão, mas jamais deixamos de ouvir os `pitacos´ do nosso pai”, conta Toninho.
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Paciência e perseverança Estes foram os requisitos básicos adotados por Pérsio Dias e um grupo de abnegados, para a conquista da emancipação, afinal obtida em 1991 Da redação inusitada, quando foi convidado pelo presidente da Associação Comercial do Vale do Parnaíba, para um almoço. “Ele entrou na minha loja e me convidou simplesmente para eu almoçar com ele e o governador. Meio incrédulo, fui a São Paulo e ele me levou até o palácio do governo, com o Paulo Maluf (o então governador), e entregou uma carta com o pedido de emancipação de Bertioga e a elevação Em São Paulo foi radialista, mas a necessidade Santo Antônio do Pinhal, no Vale do Parnaíba”. de de um emprego estável o trouxe para trabalhar A partir daí, acendeu-se uma chama de lino Sesc Bertioga, em 1971, então com 28 anos. Chegou com a mulher Neomara Maria Dias Pinto berdade e Pérsio não parou mais de frequentar e o primeiro filho a caminho. Na colônia de férias o cenário político. Em outro almoço, a convite de Rubens Pusset, então secretário de Obras de São permaneceu até 1978. Caetano do Sul, viu nascer a Associação Pró- autoNa Vila, construiu sua casa em um terreno nomia de Emancipação de Bertioga, em 1985. Diz comprado por seu pai. Neomara, que vendia rouele: “A composição ficou definida assim: presidenpas, abriu uma loja, enquanto Pérsio vendia lataria te, Licurgo Mazzoni; vices-presidentes Antonio de automóvel em Santos, para complementar a renDuarte (o Santista), Gentil e Gerônimo Lobato; seda. Entrou no processo de emancipação de forma cretária, Eunice Lobato; segunda secretária, Irene Vieira; eu, como primeiro tesoureiro; e Abelardo Araújo Barros, como segundo tesoureiro”. Foto JCN
O paulistano Pérsio Dias trouxe para Bertioga o resultado de um aprendizado de 28 anos de Brás, enclave italiano da capital: o macarrão feito em casa. Descendente da boa mistura entre italiano e português, Pérsio aprendeu com eles a fazer a típica massa e, até hoje, a faz para a família e ainda ensina para quem quiser aprender.
Em 1987, foi fundada a Frente Distrital Paulista de Emancipação, que agregava os distritos do estado de São Paulo que queriam a emancipação.
Pércio entrou no processo de emancipação de forma inusitada e sente orgulho de ter feito parte de um momento histórico tão importante
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Pércio foi radialista em São Paulo, mas a necessidade de um emprego estável o trouxe para trabalhar no Sesc Bertioga, em 1971, então com 28 anos
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Pérsio conta que: “Em 1989, 10 distritos foram emancipados, de um total de mais de 20, que ficaram de fora porque tinha saído a nova Constituição de 1988, mas não tinha lei complementar estadual que regulamentasse a lei federal, uma exigência da Carta federal. Por isso, fomos impedidos”. Eleito presidente da Frente Distrital Paulista de Emancipação, o órgão partiu para a briga pela lei complementar que permitisse o plebiscito. Pérsio explica: “No entanto, a cidade de Santos tinha feito uma lei irregular; os emancipadores haviam lutado por uma lei complementar na qual pediam que todo distrito com pedido de emancipação em andamento tivesse suas divisas preservadas por cinco anos. Santos mudou as divisas de Bertioga, na época da então prefeita Telma de Souza, para os limites do rio Itapanhaú, e, assim, Bertioga perderia mais de 200 quilômetros quadrados”. Na ocasião, a cidade santista havia convencido Aris-
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tides Junqueira, procurador geral da República, a fazer uma contestação dizendo que o projeto dos emancipadores era inconstitucional. Mas, o processo seguiu para o Supremo Tribunal Federal. “Isso nos deixou preocupados, já que o processo estava rodando no STF, e sabíamos que o relator o considerava inconstitucional. Fui então a São Paulo falar com o deputado, autor da lei, e ele me sugeriu ir a Brasília, onde existe uma subsecretaria do estado de São Paulo. Assim, consegui conversar com todos os desembargadores e relatei o caso do equívoco que Santos estava pregando”. No dia 9 de maio de 1991, ocorreu o julgamento da liminar, e se fosse votada inconstitucional, Bertioga não faria o plebiscito. Pérsio conta que o ministro Marco Aurélio Melo foi o segundo a ser chamado e virou a mesa. “Lembro-me perfeitamente de suas palavras: `Com todo o respeito data vê-
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Eunice Lobato, secretária da Associação Pró- autonomia de Emancipação de Bertioga teve valiosa participação no movimento
problemas por causa disso. Fui atacado pela Vigilância Sanitária de Santos, quando tinha uma sorveteria. Certa vez, havia feito os sorvetes, e eles vieram aqui e disseram que estava tudo estragado, jogando toda a produção do final de semana no lixo. Outro que também passou por problemas foi o Santista, membro da comissão. Os políticos de Santos ameaçavam, dizendo que iriam fechar a serralheria dele. Éramos muito humildes. Quem éramos nós perante Santos?”.
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No entanto, os governantes da época subestimaram a atuação dos bertioguenses. “Quando houve a inauguração do terminal turístico de Bertioga, no Sesc, o governador Quércia e o prefeito de Santos Oswaldo Justo, estavam no palanque e nós - eu, o Santista, a Eunice e o Renatinho [Renato Faustino] - abrimos uma faixa em meio à multidão, com os dizeres: EMANCIPAÇÃO JÁ. A população, temerosa, abriu uma roda e o Justo falou para o governador: `Olha governador, veja quem quer fazer a emancipação de Bertioga. Tem quatro gatos pingados´”.
nia, meu querido ministro Veloso, quem somos nós para dizer que é inconstitucional uma lei votada pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo - que tem uma comissão de constituição e justiça com 84 deputados no maior estado da nossa federação? Não tenho nada contra´. Ele foi acompanhado O advogado Miguel Bichir fez uma defesa no pelos outros ministros, e conseguimos o plebiscito Tribunal Regional Eleitoral, porque a lei dizia que para o dia 19 de maio”. quem deveria se interessar pelo plebiscito era a Antes disso, havia um temor entre os comercian- população diretamente interessada. Um juiz fetes de Bertioga sobre as questões da emancipação. deral, Américo Lacombi, do TRE, entendeu que Segundo Pérsio, Santos boicotava quem quer que as populações diretamente interessadas seriam o fosse, se soubesse de seu envolvimento. “Sofri muitos distrito e a sede.
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Nova briga. “Os emancipadores foram conversar com os desembargadores, ministros e juízes e, por meio de um parecer do juiz Alceu Penteado Navarro, o Miguel fez a defesa. Ao mesmo tempo, Dias - amigo do repórter Newton Flora, da Bandeirantes, cobria as notícias do TRF e forçou o Américo Lacombi a dar o parecer favorável, corrigindo o texto, no qual a participação para o plebiscito envolveria a população do distrito e não as populações”. Bertioga foi emancipada em 1991. Pércio Dias sente orgulho de ter feito parte de um momento histórico tão importante. “Fui o primeiro a assinar a lista a favor da emancipação, minha mulher foi a segunda”, lembra. Aposentado há seis anos, ele diz que sente falta de toda a agitação que enfrentou em sua vida, tanto nos negócios quanto na política emancipacionista.
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Pércio observa Licurgo Mazzoni inaugurar o primeiro desfile cívico-militar da cidade, em maio de 1994
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Da primeira hospedaria à emancipação de Bertioga Ney Moura Nehme, filho de um dos libaneses que iniciaram a história do então vilarejo, é um legítimo representante dos pioneiros que ajudaram a transformar o subdistrito na cidade atual Da redação Filho e neto de pioneiros comerciantes na cidade, Ney Moura Nehme atuou no cenário da emancipação e, em 1992, foi eleito vereador
Início do século XX, entre os anos de 1910 e 1914. Grandes levas de imigrantes chegavam de todas as partes do mundo e desembarcavam no porto de Santos. Em geral, seguiam para outros estados do Sul ou cidades agrícolas do estado de São Paulo. Boa parte deles, em especial um grupo de libaneses, fincou raízes no subdistrito santista. A família Nehme é um deles. O avô de Ney Moura Nehme, Elias Nehme casou-se com Leonilda Ferreira, caiçara de Peruíbe, a quem conheceu durante suas jornadas como mascate, quando, em lombo de burro, percorria todo o litoral paulista.
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Ney conta: “Ele ia a Santos e comprava tudo quanto era quinquilharia e vendia; na volta, trazia farinha e peixe seco e vendia em Bertioga. Com o decorrer do tempo, ele montou uma venda, mas, inicialmente, comercializava em barraquinhas como outros libaneses, em frente ao píer Licurgo Mazzoni. Mais tarde, construiu a primeira pensão de Bertioga, em frente à praia da Enseada, na avenida Tomé de Souza. O tino para os negócios era notável, o que fez Elias, segundo Nehme, investir em terras e fundar o loteamento Jardim Paulista, que vai desde a João Ramalho até a rodovia
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Rio-Santos. Ele também construiu o antigo Bar Central, em 1939, atual Chuleta Caiçara, na rua Vicente de Carvalho, 34, no Centro. Na segunda geração, a contribuição para o desenvolvimento da cidade aumentou. Seu pai, Jaime Nehme, estudou até o primário e foi juiz de paz em Bertioga. De pai para filho e, deste, para o neto. Diante de tantas lutas por uma vida melhor, enfim chegou o progresso. Ney Moura Nehme estudou em Santos e se formou em contabilidade e administração. Naquela época, foi trabalhar com um amigo, dono de uma lanchonete e, depois, em 1974, quando Bertioga vivia a expectativa da construção da estrada Mogi-Bertioga, inaugurada em 1982, e da Rio-Santos, em 1985, seguiu o DNA da família e montou uma imobiliária, oportunidade para muitos moradores e visitantes. “Vendi muitos imóveis em Bertioga e em Mogi das Cruzes”, diz ele. Da infância, boas lembranças das reuniões dos pais com os patrícios, no Indaiá. Muitos frequentavam a casa de Jorge Isac, um amigo que morava em um sobrado de madeira, arborizado, com muitos passarinhos e farta comida árabe. “Íamos de caminhão e passávamos o Jornal Costa Norte
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dia todo lá, brincando com espingardinha de chumbo e nos banhávamos na praia”. Também havia os célebres almoços na casa dos avós, aos domingos. Ney relembra: “Meu avô gostava de jogar pôquer e minha avó fazia quibe e pastel. Tinham um casarão próximo de onde hoje fica a sede do Corpo de Bombeiros e reuniam os amigos para jogar, beber e comer”. Paralelamente aos negócios imobiliários, ele atuou no cenário da emancipação e, em 1992, foi eleito vereador. “Gostei da política; os nove que entraram não tinham vivência política. Eram aprendizes e enfrentamos uma época muito difícil, porque eram 16 mil habitantes, com um orçamento pífio, cerca de 4 milhões de cruzeiros ”, o dinheiro da época. A dificuldade era tamanha que não havia um lugar físico para trabalhar. “A prefeitura de Santos, quando foi embora, levou até o papel higiênico”. Diante disso, o pessoal da Câmara ficou sem lugar, e cada um levava a sua máquina de escrever para onde era a Escola Municipal Vicente de Carvalho (atual Casa da Cultura). “Foi um período interessante, porque todos os nove vereadores começaram a todo vapor, e tínhamos que criar tudo. Embora não tivéssemos conhecimento técnico, tínhamos experiência de vida e éramos formados. Enalteço as Câmaras de Cubatão e de Mogi, que nos ajudaram muito”.
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Imóvel onde hoje é a Casa da Cultura foi subprefeitura, na década de 1960, e a primeira sede da Câmara, no início da década de 1990
Ney comenta que, nos dois primeiros anos, foram criados a Lei de Diretrizes Orçamentárias, e o Plano Plurianual, entre outros projetos. “Tivemos a felicidade de ter uma boa administração [Mauro Orlandini]. Não havia orçamento, mas, no primeiro ano de seu mandato, ele construiu oito escolas no município, fez a abertura da Anchieta com recursos da prefeitura. Existia divergência política, mas jamais desentendimentos pessoais. Dávamos-nos ao luxo de cozinhar na casa do Miguel Bichir Filho, que também era um dos vereadores, e depois íamos para a Câmara”. A primeira gestão Edição especial de emancipação de Bertioga
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História
Foto arquivo Família Rodrigues
foi responsável pela Lei Orgânica do Município, promulgada no dia 30 de junho de 1993, numa sessão solene no Sesc.
A primeira eleição municipal deu-se no dia 3 de outubro de 1992, sendo eleitos para o Legislativo: Lairton Gomes Goulart, Antônio Rodrigues Filho, Ney Moura Nehme, Miguel Seiad Bichir Neto, José Carlos Buzinaro, Sérgio Pastori, Antônio de Jesus Henriques, Nelson Turri e Francisco Soto Barreiro Filho
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Depois de oito anos como vereador, Nehme não atuou mais em cargo político. Para ele, Bertioga evoluiu, mas, como todo desenvolvimento, há benefícios e, também, transtornos. “Hoje, o nosso bairro, o Jardim do Rio da Praia, está feio, mas a tendência é a implantação da rede de esgoto e, assim, terminaremos com os buracos. Mas temos muitas escolas, inclusive particulares, como o Senac. Hoje não estuda aqui quem não quer. Além disso, a Riviera trouxe muitos empregos, cerca de seis mil pessoas e, daqui para frente, a cidade crescerá cada vez mais”.
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Aos percalços da Companhia Santense de Navegação Na década de 1940, moradores e visitantes passaram a desfrutar de melhores meios de locomoção com as lanchas da companhia, mais rápidas e eficientes dos que os barquinhos Da redação Pequenas embarcações constituíam o único meio de transporte para se chegar a Bertioga, até a instalação da Companhia Santense de Navegação, que fazia o percurso Bertioga, Santos e Guarujá, em meados dos anos 40. Lentamente, suas lanchas iam e vinham no transporte de mercadorias, moradores e visitantes, muitos dos quais hospedados na Colônia de Férias do Sesc.
o transporte de turistas até as dependências do Sesc, inclusive, era feito por caminhões, pois, quando a maré enchia, os carros atolavam.
Foto JCN
Romualdo Santana Júnior, filho do primeiro mestre da Cia. Santense, Romualdo Santana, recorda-se bem desse período. Seu pai, nascido em 1912 em Bertioga, também era pescador e passava o picaré com outros colegas até que, Após o desembarque de pessoas, merca- em 1937, foi trabalhar na empresa. Antes disso, dorias e material pesado, um novo desafio sur- só havia uma lancha que fazia a rota São Sebasgia, já que a única via de acesso eram as praias; tião, Santos e Bertioga.
Romualdo Santana Júnior, filho do primeiro mestre da Cia. Santense
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Romualdo lembra: “O que marcou muito minhas lembranças é o Lar São Francisco, ao qual vinha um padre de Avaré, juntamente com uma banda, que vinha tocando na lancha, na época em que meu pai era o mestre amador. Ficávamos aguardando; eles vinham sempre para as festas de final de ano e ficavam acampados no Lar São Francisco”. O antigo embarcadouro de madeira da Santense, onde hoje é o píer Licurgo Mazzoni, era local de lazer para as crianças. “Tomávamos banho e pulávamos de cima da lancha para o rio e nos jogávamos de cabeça. Os marinheiros não gostavam, mas caíamos do segundo andar das embarcações S9 e da S10. Também tinha o 14, batelão de carga, que trazia coisas maiores, como material para construção”. Para outras praias, como a Indaiá, o caminho era feito por outra lancha. Havia canoas de voga que paravam em certo ponto do mar para não encalhar. As condições climáticas eram um desafio para os mestres da Santense. Romualdo conta que seu pai passava alguns apuros porque, naque-
la época, a serração no canal era muito forte e a visibilidade ficava comprometida. Mas conseguia chegar sempre ao destino, apesar da dificuldade. Os marinheiros hospedavam-se numa casa, entre os armazéns do Sabino e do Faninho, em frente ao atual píer. Junto deles, muitas vezes, ficavam as mercadorias, estocadas até quando fosse possível transportá-las pela praia. A tripulação hospedada neste local, como lembra Romualdo, era composta por Carmídio de Souza, Herpídio, Cadi, Ulisses, Otaviano e Lulu, sendo os dois últimos também mestres da Santense. Depois da abertura da estrada Guarujá-Bertioga, no início de 1940, começou uma nova etapa de crescimento da Vila, e a nascente esperança de uma futura emancipação. Com a chegada da energia elétrica, inaugurada em dezembro de 1965, novas mudanças, mais meios de transporte, mais desenvolvimento. Conta Romualdo: “A inauguração da instalação de energia elétrica na Vila foi feita por Ademar de Barros, então governador do estado de São Paulo, que chegou pela estrada do Guarujá. Ele pegou dois lampiões, um deles das mãos do Miguel Bichir, e outro do Sabino, e quando ele bateu um lampião no outro, a luz acendeu”.
A Companhia Santense de Navegação fazia o percurso Bertioga, Santos e Guarujá, em meados dos anos 40
Nas embarcações, eram transportados desde mantimentos e remédios, até material para construção e pessoas
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Foto Arquivo JCN
A Santense contribuiu para o abastecimento da então vila de Santos, mas com muitas dificuldades porque operava em dois horários, pela manhã e à tarde, sendo quatro horas para ir e quatro para voltar. Nas embarcações, eram transportados desde mantimentos, até material para construção e pessoas.
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História
As muitas Carmens, todas queridas Carmen, Carmosa, Carmelita. Os apelidos carinhosos lhe foram dados pela família Ermírio de Moraes e valem até hoje, aos 86 anos Da redação Maria do Carmo Quirino dos Santos, antiga governanta da família Ermírio de Moraes, recorda-se das mais de seis décadas trabalhadas no sítio da família, no qual morou, casou-se e teve seus 12 filhos. Nascida no bairro Indaiá, ela conta que seu avô materno era índio; sua mãe nasceu no Indaiá e, seu pai, em Itaguaré. Carmosa, apelido carinhoso dado por Regininha - filha do casal Regina e José Ermírio de Moraes - ou Carmelita, como era chamava pelo outro filho do casal, orgulha-se de ter formado todos de sua família e ainda ser considerada membro da família Moraes.
Foto JCN
Carmen e Zico relembram o passado e celebram os novos tempos
de julho - remonta a sua história ao lado do filho mais velho Lourival Gonçalves dos Santos, o Zico. “Tenho orgulho de dizer que nasci numa casa de barro; quando chovia, o mar avançava para dentro de casa”, lembra ele.
Assim como Carmen, todos os seus irmãos estudaram na Escola Estadual Archimedes Bava, construída por José Ermírio de Moraes, até a quarta série, no Indaiá. Trabalhavam na roça e dela tiravam o sustento para a família, além da produção de farinha de mandioca. O café da manhã, muitas vezes, era feito no fogão à lenha, à base de farinha de mandioca, Nascida e criada em uma família de pesca- tradição que seguiu com os filhos de Carmen. Os dores, Carmen - que completa 86 anos no dia 16 peixes capturados, algumas vezes, eram vendidos, tão farta a pesca nesta época. Para estocá-los, a família secava com sal, pois não havia geladeira. Hoje, com sete filhos vivos, Carmen mora em uma casa simples e aconchegante, um mimo oferecido pela sua ex-patroa e amiga dona Regina, cujos filhos foram criados junto com os de Carmen. Uma das lembranças de sua filha mais nova, Márcia, é que ela e Antonio Ermírio jogavam tênis. “Aprendi com ele e ninguém me superava”. Dentre tantas lembranças, Zico e Carmen contam como o Indaiá foi batizado com este nome. A origem vem da espécie de coco plantada na fazenda do poeta Vicente de Carvalho, mais tarde adquirida pela família Ermírio de Moraes. “Meu
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Nascida e criada em uma família de pescadores, Carmen - que completa 86 anos no dia 16 de julho próximo - remonta a sua história ao lado do filho Lourival Gonçalves dos Santos, o Zico 1995
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pai chegou a trabalhar com Vicente de Carvalho. Depois, quando o Dr. José Ermírio de Moraes, pai de Antônio Ermírio, comprou a propriedade, havia uma casa de madeira; posteriormente, construíram outra de alvenaria com quatro quartos para passar final de semana e, mais tarde, a atual, bem maior”, revive Carmen, que morava em frente ao sítio antes de trabalhar na propriedade. A casa de alvenaria da nova propriedade foi construída com muito sacrifício pela família, uma vez que, naquela época, não havia meio de transporte adequado. O material chegava por balsa.
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11 anos de idade, ganhei uma bolsa custeada pela família para cursar o ginásio em Santos, mas regressava todos os finais de semana. Fiz o científico e o cursinho em Santos e, em seguida, estudei engenharia. A partir da adolescência, fiz amizade com os filhos do Dr. Antônio Ermírio de Moraes. A vivência foi muito grande, como irmãos, principalmente com os mais velhos”.
Dona Regina sempre dizia que Carmen fazia parte da família, uma relação que a emociona até hoje. Ela conta que, inclusive, foi citada no livro de Antônio Ermírio. “Leio e releio o livro dele e sinto muito a sua falta, um grande homem, um amigo”, Como tudo começou rememora. Lúcida, disposta e muito forte, Carmen A trajetória de Carmen teve início na época sorri quando se lembra do alento de contar com em que trabalhava em Santos, na casa de uma professora do Indaiá. Com 18 anos, Carmen voltou para a casa da mãe, e um cunhado seu trabalhava na propriedade de José Ermírio de Moraes; foi ele quem a apresentou à família, para trabalhar lá durante a temporada. Aos 20 anos, ela se casou, e o marido Gonçalves Laurino dos Santos trabalhou na construção da nova casa. Logo depois nasceu Zico, e Carmen continuou a trabalhar lá. Carmen e Antônio Ermírio eram da mesma idade, e da convivência surgiu uma amizade duradoura. Em1956, Carmen foi morar definitivamente dentro da propriedade da família Moraes, na qual viveu 64 anos. Mesmo depois de aposentada, continuou trabalhando para eles. Zico lembra: “Estudei o primário aqui e, com
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Washington Luis
O pai de Carmen trabalhou com o poeta Vicente de Carvalho, cuja propriedade foi depois adquirida pela família Ermírio de Moraes. Em foto de 1922, o então governador de São Paulo Washington Luis, mais tarde 13º presidente do Brasil, e o poeta Foto cedida por Nei Serra
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História a patroa e amiga dona Regina que, em janeiro último, esteve no sítio, ocasião em que a convidou para ir até lá. “Não para trabalhar, mas para bater-papo, fazer companhia”.
comemora: “A emancipação trouxe mais progresso. Hoje temos legislação própria, temos um plano diretor da cidade. Até pouco tempo atrás, não eram todas as cidades que tinham plano diretor e Bertioga teve o seu primeiro prefeito em 1993. Por A família Carmen alegra-se com as facilidades isso, é um município bastante novo, apesar de sua trabalhava na roça que encontra hoje na região, principal- história começar bem antes. Hoje temos hospital, e dela tirava o sustento, mente, na saúde e meio de transpor- rodovias, a avenida Anchieta...”. além da produção de farinha de mandioca. Os te. No início, enfrentou, assim como Emocionada por ter sido agraciada durante peixes capturados, algumas os primeiros moradores de Bertioga, vezes, eram vendidos, tão grandes provações como levar o filho toda a sua vida pela família Ermírio de Moraes, farta a pesca nesta época. mais velho ao médico quando tinha Carmen lembra a perda do marido num acidente, Para estocá-los, secavam com sal, pois não crises de bronquite. Não havia pronto- quando ele tinha 38 anos. Atualmente, sua família é composta por sete filhos, oito netos e três bisnehavia geladeira -socorro, as opções eram a farmácia de tos. Um dos irmãos de Zico, Valter, foi o sucessor dona Anésia, ou duas horas de barco para de Carmen no cuidar da família e da propriedade, chegar até o hospital, em Santos. no Indaiá. Hoje, ele e sua mulher moram lá e são Zico, funcionário da prefeitura de Bertioga, responsáveis por tudo.
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Bertioga alfabetizada & emancipada Responsável pela educação de sucessivas gerações, desde que os pioneiros aqui chegaram, “Mamãe” é uma das personalidades mais conhecidas de Bertioga Da redação Hoje ela está com 83 anos e não dá mais aulas, no sentido convencional do termo, pois continua seus ensinamentos e contribuições nas diversas atividades das quais participa. O apelido surgiu no Grupo Vivência (entidade assistencial voltada à terceira idade), por ser a integrante mais velha e por sua característica de “mãezona”. Todo o grupo a respeita e deixa em suas mãos a promoção dos eventos ali realizados, desde a recepção das pessoas, mesas,
Foto JCN
Seu nome é Norma dos Santos Mazzoni, mas quase todos tratam esta professora aposentada como “Mamãe”, não só porque é a simpatia em pessoa, mas por ter sido verdadeiramente uma segunda mãe, como era normal décadas atrás, de gerações de bertioguenses. Seu nome é famoso na cidade, tal w o de seu marido, Licurgo Mazzoni, eternizado em um dos mais conhecidos pontos turísticos da cidade, o píer do canal, na região central da cidade.
Aos 83 anos, a querida professora Norma Mazzoni mantém-se ativa nas diversas atividades das quais participa, no Grupo Vivência
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Em 1955 a professora santista veio lecionar em Bertioga, na antiga Escola Vicente de Carvalho, onde hoje fica a Casa de Cultura
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Norma e Licurgo Mazzoni Amor à primeira vista entre a educadora e o empreendedor
decoração, até a sua majestosa alegria em ser a anfitriã. Mas tem mais. Ela ainda presta serviço voluntário no hospital da cidade. O amor da santista por Bertioga começou logo após concluir o magistério. Em 1952, começou a estagiar no colégio Lurdes Ortiz, na Ponta da Praia, em Santos. Segundo ela, o sistema de transporte era precário, seguia de bonde, rua sem asfalto e mesmo assim, fizesse sol ou chuva, estava lá, onde permaneceu até 1955. “O número de professoras efetivas era o mesmo de estagiárias por período, e eu fazia o horário das 14h às 17h. Como eram professoras antigas, não faltavam e, por isso, não havia nenhuma oportunidade de dar aula, só gastava a sola de sapato e a condução”, comenta com um sorriso largo. Em 1955, saiu a relação das vagas e ela veio lecionar em Bertioga, na antiga Escola Vicente de Carvalho, local onde hoje fica a Casa de Cultura. “Naquela época, Bertioga era um distrito de Santos e não tinha ruas, nem CEP, tudo era identificado por caminhos. Escolhi este lugar pela oportunidade e também porque cobri uma licença de oito dias”, recorda-se. Sempre com os olhos vivos e brilhantes, disposta a enfrentar a vida, no dia em que aqui
Norma concluiu o magistério em 1952, em Santos
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Foto Arquivo familiar
História
Última turma da querida professora, na escola Professor Stockler de Lima, em 1981
chegou, em 1º de abril de 1955, conheceu o marido Licurgo Mazzoni, que morava em São Paulo, mas cuja família residia aqui no litoral. Norma, que morava nos aposentos da própria escola, antes de se casar, lecionava durante a semana e regressava para a casa dos pais aos sábados, após a aula de educação física na praia. “Naquela época, quase todos os homens e chefes de famílias eram pescadores. As crianças eram bastante necessitadas”.
para construção no distrito, o Viga Mestre, e foi, por duas vezes, subprefeito de Bertioga. Licurgo foi presidente da comissão de emancipação de Bertioga e faleceu dois anos após a emancipação, ocorrida em 1991. Seus esforços para tal conquista foram reconhecidos e a homenagem dos bertioguenses veio na forma de eternizar seu nome no conhecido píer de pesca. A família Mazzoni também era dona do primeiro cinema da cidade, o Cine Umuarama, na rua Pedro Góes, com projeção de filmes duas vezes por semana. Ele foi fechado em 1962, segundo Norma, por causa dos aumentos dos impostos e o alto preço dos filmes.
A construção do Sesc, inaugurado em 1948, foi um marco para o desenvolvimento da cidade. Ela lembra: “Até meu sogro ajudou a construir. Nos arredores nascia o primeiro grande núcleo de habitantes, no qual as pessoas vinham de De todas as boas recordações de sua vida fora para trabalhar, especialmente nordestinos. relevante, Norma guarda vaidosamente uma As crianças vinham para a escola pela beira da conquista insuperável. Palavras dela: “Felizmenpraia, e andavam quatro quilômetros”. te, hoje, encontro com todos nas ruas e estão Seu marido também foi um dos gran- formados engenheiros, médicos, advogados, e des nomes de Bertioga. O pai dele, Coriolano os que se perderam na vida, também me recoMazzoni, tinha o único depósito de material nhecem e respeitam”.
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Bertioga terá 1.500 novas moradias Qualyfast Construtora firma convênio entre Caixa Econômica Federal e Prefeitura para construir moradias que vão beneficiar famílias de baixa renda
As 1.500 novas unidades de apartamentos vão atender a cerca de 50% do déficit habitacional de Bertioga. A área localizada na altura do km 210 da Rodovia Rio-Santos foi escolhida para receber os cinco condomínios que serão construídos pela Qualyfast Construtora. “Com certeza, o bairro do Jardim Rafael só tem a ganhar com este empreendimento, que deve atrair outros investimentos para a região”, comenta Elio Cherubini Bergemann, diretor-presidente da Qualyfast. Os residenciais vão beneficiar famílias com renda inferior a R$ 1.600,00, pelo Programa Minha Casa Minha Vida, que irá destinar R$ 114 milhões, provenientes do programa, e mais R$ 30 milhões, aprovados no final do ano passado, por meio do Casa Paulista. O empreendimento será executado em parceria entre a Qualyfast Construtora e as entidades Associação dos Moradores do Jardim Helena, Frente Paulista de Habitação Popular do Estado de São Paulo e Movimento Pró-Moradia de Suzano. O prazo previsto para a conclusão da obra é de 24 meses. “Vamos colocar todo o nosso know-how à
disposição desse empreendimento, para cumprir os prazos e entregar a alta qualidade que Bertioga merece”, reforça o diretor-presidente. Por dentro dos residenciais Os apartamentos terão dois quartos, sala, cozinha, banheiro e área de serviço. Os condomínios ainda contarão com vagas de estacionamento privativas e para visitantes, área comum com salão de festas e playground. A seleção dos beneficiários foi feita conforme os critérios nacionais, que priorizam pessoas em áreas de risco ou que tenham sido desabrigadas; famílias com mulheres responsáveis pelo sustento e famílias que tenham pessoas com deficiência. Estrutura pública Nas proximidades, existem escolas públicas, entre municipais, estaduais, creches e Núcleos de Educação Infantil (Neims). A região ainda receberá uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e já conta com uma Unidade Básica de Saúde (UBS), além de ser atendida por três linhas de transporte coletivo e coleta de lixo diária.
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O amor da família Pinto pelo bairro São Lourenço Sua história mescla-se à de um dos bairros mais tradicionais de Bertioga, um local que reúne tradição e religiosidade, e mantém viva a homenagem ao santo que lhe empresta o nome Por Ana Cláudia Gomes Com reportagem de Paula Zeidan até o rio Itaguaré, e que se prolonga até a Serra do Mar”. Assim surgiu o bairro São Lourenço.
O avô Manoel continuou plantando cana-de-açúcar e mandioca, e também pescava. Na época, no início de 1900, cerca de 10 famílias viviam na área e dividiam toda a produção. Em setembro de 1934, Manoel faleceu, e seu filho Nicolau Antunes Pinto, pai Uma grande área de cultivo de cana-de- de Vítor Pinto, continuou o trabalho. “Minha -açúcar. Ele conta: “Mas meu avô era enjeitado, mãe [Francelina Antunes] me contava essa porque a família era de brancos e ele era preto. história”, lembra Vítor. Meu bisavô iria fazer um testamento para deixar parte das terras para meu avô, mas morreu antes de assinar o documento”. Quem tomava conta das terras e da produção era a madrasta de seu avô. Ele queria o pagamento pelo tempo trabalhado, mas a madrasta disse que não tinha dinheiro para pagar. “Então, ela propôs a doação do terreno, de 1.100 metros de frente, que vai de onde termina a Riviera de São Lourenço,
Vitor Pinto e os netos Maurício e Gabriela
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Foto JCN
Aos 80 anos, Vítor Pinto tem muitas histórias para contar. De algumas ele participou, outras, ouviu contar; em comum, todas versam sobre o bairro São Lourenço. Bisneto de escravo com português, seu Vítor Pinto lembra quando o loteamento, onde se ergueu o atual bairro, era uma gleba na qual o avô Manoel José Pinto trabalhou, junto com seu bisavô.
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O bairro era formado por pessoas que se consideravam da mesma família; elas queriam o progresso e o bem-estar da comunidade. Vítor conta que seu padrinho Luiz Pereira de Campos montou a primeira escola da localidade. “Era na casa do tio João. Eu aprendi lá, meus irmãos e
meus primos também. Todas as professoras que vinham dar aula na escola moravam na casa”. Em 1947, foi construída a primeira escola em um prédio próprio, também por iniciativa do padrinho de Vítor. “Um dia, Humberto Luiz criticou meu padrinho. Ele falou: ‘Lu - ele chamava meu padrinho de Lu - por que construir escola? Já tem uma escola em Bertioga, outra no Indaiá, para que tanta escola?’. E meu padrinho respondeu: ‘O Foto Dirceu Mathias
O progresso chegou, a grande gleba foi loteada e outras famílias fixaram-se em São Lourenço. Vítor conta: “Era tudo muito difícil. Tudo era em Santos; se uma pessoa ficasse doente, tinha que ir de carroça, puxada por burro, pela praia até o canal de Bertioga, para ir para Santos com a barca da Companhia Santense”.
Procissão pelas ruas do bairro, realizada em 10 de agosto, quando se comemora o dia do padroeiro, na tradicional festa realizada pela família Pinto, há 128 anos
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História povo precisa aprender, sem ter que sair daqui e década de 1980, ele também ajudou a construir a andar a pé’. Ele era um homem de visão. Ele ti- igreja de São Lourenço, padroeiro do bairro, no lonha a mente aberta”, conta, com orgulho. cal onde está atualmente, a avenida São Lourenço. Foto Dirceu Mathias
Ainda garoto, aos 12 anos, Vítor ajudou a construir a igreja do bairro. Ele lembra que era na praia e usaram barro para erguer as paredes. “Tinha que ter uma igreja. A gente rezava na casa da minha tia, todo mundo da comunidade”. Anos mais tarde, na
Igreja de São Lourenço, um grande marco do bairro
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Um dos maiores orgulhos da família Pinto é a festa em homenagem a São Lourenço, realizada no bairro todos os anos, entre julho e agosto. “Esse ano, a festa vai fazer 128 anos. É tudo comandado pela família Pinto, com ajuda da comunidade. Vai passando de geração em geração”. Durante a festa, realiza-se a novena de 29 de julho a 7 de agosto, e, no dia 10 de agosto, a procissão e a quermesse. “Enquanto comandarmos a festa, ela vai existir e vamos sempre agregando mais pessoas. É o nosso orgulho”, diz Vítor.
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Antigo bananal Bem antes disso, as terras herdadas do pai se transformaram em um grande bananal. Vítor lembra: “Plantei 12 mil pés de banana e cheguei a exportar para a Argentina”. Ele e o tio, que também tinha terras na área, fizeram uma estrada no meio do terreno para facilitar a circulação. “Mas a Justiça embargou grande parte dessa área, que fica entre a rodovia Rio-Santos e a Serra do Mar. Até hoje estamos brigando para fazer o loteamento. Não entendo, se pensa muito nos animais, mas não no ser humano”, fala, com certa mágoa, o homem que já viu três gerações viverem da terra e por amor à terra. Além do cultivo da banana, Vítor trabalhou na prefeitura de Santos, depois na Colônia de Férias do Sesc, e manteve um bar por anos no bairro São Lourenço, o Recanto dos Pinto, testemunha do cres-
cimento do bairro e da cidade. Vítor apoiou os dois processos de emancipação de Bertioga, o primeiro, em 1958, que não frutificou, e, depois, o de 1991, que culminou na emancipação político-adminisNos idos de 1900 a trativa da cidade. “Éramos massacrados região hoje conhecida por Santos. Eu fazia a divulgação boca como São Lourenço a boca, para conscientizar as pessoas era uma grande área sobre a importância da emancipação. de cultivo de cana-deaçúcar e mandioca. Eu sabia o que era bom para a cidade. Cerca de 10 famílias Não tenho estudo, mas a vida ensina a viviam no local ver o que é bom e o que é ruim. Hoje, meu nome está lá, na praça dos Emancipadores”, fala Vítor, com orgulho. Ele se refere à placa afixada na praça, no Centro, para homenagear homens e mulheres que trabalharam pelo movimento emancipacionista.
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Receita para uma cidade saudável Aos 93 anos, dona Terezinha da Farmácia, como é conhecida, recorda-se de sua atuação em Bertioga, notadamente na área da saúde Da redação Uma figura pública que, mesmo detrás de um balcão, atuou em muitas batalhas pela vida e pelo desenvolvimento humano dos moradores do antigo vilarejo de Santos. Eis uma síntese da vida de Terezia Vari, mais conhecida por dona Terezinha da Farmácia. Aos 93 anos, ela pautou sua vida em torno de uma grande paixão: atender o público. E foi em uma das áreas mais carentes da Bertioga de então, a da saúde, que ela exerceu sua vocação, a de ouvir, aconselhar, orientar, prescrever.
filhas. Neste intervalo de tempo, morou nos Estados Unidos com a filha mais velha, onde estudou farmácia.
Foto JCN
Quando resolveu se fixar em Bertioga, iniciou sua jornada empreendedora e humanitária na farmácia de uma família amiga; o dono do estabelecimento adoeceu e ela comprou o ponto. “Tudo era muito difícil naquela época”, diz ela, referindo-se ao sistema de abastecimento de remédios para a farmácia, adquiridos em Santos. Segundo conta, eram necessários cinco Ela entrou em cena na década de 1970. De dias para tal: os funcionários levavam as encopersonalidade forte, sempre muito ativa, dona Terezinha morava em São Paulo, cuidava de duas filhas ainda pequenas e trabalhava como manicure e pedicure. Certa vez, veio passear com uma amiga em Bertioga, em meados dos anos 1960, mas só adotou o vilarejo como residência em 1972, depois da morte de uma das
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Terezinha adotou o vilarejo como residência em 1972. Iniciou sua jornada empreendedora e humanitária na farmácia de uma família amiga
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mendas, por meio de receitas, às sextas-feiras, e voltavam para pegar a remessa só às terças-feiras. “A logística era feita através da balsa”, lembra. Diante dos obstáculos e da complexidade para repor os remédios, atrás da farmácia tinha um depósito com prateleiras até o teto, para estocar os produtos que não necessitavam de receitas médicas. Mais tarde, abriu outra farmácia, na avenida Anchieta, a atual Droga Love. Além destes dois endereços, Terezinha também montou um posto na usina de Itatinga, aonde os medicamentos chegavam pelo bondinho. Outros dois postos atendiam, um no bairro Indaiá, outro, no Sesc. Assim seguiu até o final dos anos 1980, quando vendeu a rede de farmácias.
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cresceram com as farmácias. “Um deles, inclusive, paguei os estudos, o Renatinho [Renato Faustino], hoje dono do supermercado Albatroz, e que, naquele tempo, era gerente de uma das farmácias”. Estradas de terra, grandes distâncias, poucos recursos e falta de esclarecimento eram obstáculos comuns enfrentados pelos moradores. Outra dificuldade era a precariedade do atendimento do posto de saúde. “No pronto-socorro, a rotatividade de profissionais era grande, e a única especialidade era em tuberculose, porque um médico mais velho morava na Vila e era especializado nessa doença”, relata.
Antiga farmácia Droga Love, na avenida Vicente de Carvalho, no Centro
Foto Arquivo familiar
Incansável, dona Terezinha atendia as pessoas até mesmo quando a procuravam em sua casa, durante a madrugada. Ela saía de penhoar, subia nos caminhões e levava as pessoas necessitadas até a farmácia para atendê-las. Diante das dificuldades financeiras da população, a maioria constituída por pescadores, muitas vezes, o pagamento era feito com peixes, galinhas, doces e frutas. Ela conta: “Os que não podiam pagar, eu anotava num caderninho que guardei; mesmo depois de eu vender as farmácias ainda veio muita gente acertar o que estava anotado em minha caderneta”. Daquela época, ela sente muitas saudades e carinho pelos dez funcionários, meninos que Edição especial de emancipação de Bertioga
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Incansável, dona Terezinha atendia as pessoas até mesmo quando a procuravam em sua casa, durante a madrugada
Foto Arquivo familiar
Por todas estas dificuldades, Terezinha era chamada de “doutora”. Dava conselhos e orientações não só para enfermos, como também às mulheres em geral, sobre como amamentar, horários das mamadas, tipo de alimentação adequada. “Muitas daquelas crianças tornaram-se adultos, casaram-se e cuidei dos filhos deles também”, alegra-se. Terezinha sempre foi dotada de grande bom senso. Quando não podia ajudar, principalmente em casos de acidentes graves, ela mesma seguia para outro hospital, fora de Bertioga, em seu carro. Seu neto, Luiz, hoje com
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37 anos, lembra que ela tinha um sistema de comunicação eficaz para casos de emergências, quando acionava um rádio com contato direto com o pessoal da balsa.
tros papéis importantes em Bertioga. Atuou na distribuição de medicamentos no posto da prefeitura - a convite do então prefeito Luiz Carlos Rachid, ao longo de toda a sua gestão, de 1997 a 2000 -, e foi coordenadora da Associação de Sua popularidade chegou até mesmo a pes- Pais e Mestres da Escola Estadual Armando Besoas de fora da cidade, principalmente, em épo- legardi. Sempre com sua característica mais forca de temporada. Ela conta que muitas idosas te: servir e ouvir o público. vão a sua casa para consultar sobre um mediEla não pertenceu a partido político alcamento ou alguma enfermidade. “Alguns chegam aqui e perguntam qual a indicação de um gum, todavia, reunia em sua casa os principais comprimidinho ou têm vergonha de contar algo políticos da cidade. O primeiro plano diretor foi que estão passando e perguntam. Até pessoas constituído em sua sala. Sua primeira participação política efetiva na cidade ocorreu quandesconhecidas batiam na minha porta, princido se candidatou a vice-prefeita da cidade, ao palmente no verão, com doenças de verão”. lado de Pércio Dias Pinto, então candidato a Versátil, dona Terezinha desempenhou ou- prefeito, em 1992.
Foto Arquivo familiar
Empreendedora, Terezinha manteve sua rede de farmácias até o final dos anos 1980
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24 anos
História
Marco de qualidade em lazer, turismo e cultura O Sesc Bertioga fincou suas raízes na cidade e trouxe consigo um exemplo de preservação do meio ambiente, aliada ao entretenimento e a um polo gerador de empregos Da redação O alto padrão de qualidade, marca registrada do Serviço Social do Comércio (Sesc), instituição pública sem fins lucrativos, de âmbito nacional, criada e mantida por um grupo de empresários, em 1946, foi integralmente aplicado em uma de suas primeiras sedes, a de Bertioga. Nos idos de 1948, quando aqui chegou, chamava-se Colônia de Férias Ruy Fonseca. Hoje, Centro de Férias Sesc Bertioga, ponto de referência na cidade e na vida de grande parte de seus moradores, todos o chamam familiarmente de Sesc.
Foto JCN
Marcos Roberto Laurenti e a ossada de baleia exposta no Centro de Educação Ambiental do Sesc
O imenso espaço encravado entre a Mata Atlântica e a praia da Enseada foi decisivo no momento da escolha da cidade, na qual se construiria a unidade que nasceu para ser modelo para o Brasil. Já naquela época, a preservação do meio ambiente fazia-se presente na forma de uma estação própria de tratamento de água e esgoto. Hoje, 38 mil metros quadrados estão construídos e 995 mil m² são de área verde preservada. O conceito primordial da instituição era beneficiar os empregados das empresas e suas famílias, oferecendo-lhes um local para passar as férias com qualidade e baixo custo, algo inovador por si próprio, pois, naquela época, apenas uma elite privilegiada reservava espaço para o lazer. Tal conceito persiste até hoje, mas foi, ao longo do tempo, acrescido de atividades profissionalizantes, culturais e de lazer. No início, só a aventura de se chegar a Bertioga já constituía uma parcela considerável do passeio. A então colônia hospedava cerca de 200 hóspedes de cada vez; hoje, abriga por volta de mil, como explica Marcos Roberto Laurenti, gerente do Sesc Bertioga: “Antigamente, durante a baixa temporada, os idosos eram os que mais a frequentavam. Mas isso mudou ao longo do tempo. Atualmente, existe uma oferta de pacotes para todos os finais de semana, num total de 450 leitos. Diante disso, temos um perfil parecido com a alta temporada nos finais de semana”.
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O imenso espaço encravado entre a Mata Atlântica e a praia da Enseada foi decisivo no momento da escolha da cidade para abrigar a Colônia de Férias Ruy Fonseca, nos idos de 1948 1995
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De polo de atração de lazer, a colônia transformou-se em geradora de empregos. “Certamente, o Sesc foi, por muito tempo, o grande empregador para a cidade de Bertioga. Outra característica comum era encontrar avós que trabalharam para a empresa, depois filhos e netos. Assim, o Sesc sempre foi um parceiro da cidade não só como empregador, mas também em parcerias institucionais, sempre de portas abertas para a cidade”.
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Sesc, são gradativamente substituídas pelas plantas nativas. Tal medida atraiu várias espécies de aves. No início do projeto eram cerca de 40 tipos de pássaros que pousavam na mata do entorno, hoje, mais de 160 circulam pela área. Resultado positivo até para o aspecto turístico, uma vez que os amantes de aves vão ao Sesc, para uma atividade de observação.
Na suas mais de seis décadas de vida, presenciou fatos inusitados, a exemplo de uma ocasião memorável, como conta Laurenti, quando uma baleia encalhou na praia, bem em frente ao Sesc. As equipes do Corpo de Bombeiros tentaram devolvê-la ao mar, sem sucesso. Três anos após ter sido enterrada na praia, a instituição retirou a ossada da baleia e a remontou em 1992, com o objetivo de expô-la aos visitantes do Centro de Educação Ambiental (CEA). “Foi uma operação de guerra, porque eram ossos pesados, além de todo o trabalho de tratamento da ossada”. A preservação ambiental da instituição está presente também no projeto Ave e Fauna no qual as espécies exóticas, plantadas nos primórdios do
Foto Shin Shikuma
Sempre presente nos principais eventos da cidade, sua sede abrigou debates de candidatos à primeira eleição da cidade, cuja apuração e posse do prefeito ocorreram também em suas dependências. Aliás, ainda hoje, os grandes eventos populares de Bertioga são realizados em suas dependências.
No setor turístico, o Sesc estimula a visitação de grupos por meio de passeios de um dia
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No setor turístico, o Sesc estimula a visitação de grupos por meio de passeios de um dia. Segundo Laurenti, são 450 ingressos/dia, o que contribui para que o turista seja estimulado a visitar mais vezes não só a colônia, mas também a cidade e se hospede em outras pousadas locais.
A então colônia foi inicialmente projetada para hospedar cerca de 200 hóspedes de cada vez; hoje, abriga por volta de mil
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Atualmente, desenvolve uma ação voltada à educação para a sustentabilidade, com o objetivo de implantação de uma Reserva Particular de Patrimônio Natural (RPN), dentro da instituição, na gleba quatro, o que representa cerca de 200 campos de futebol. Laurenti explica: “Estamos em fase final dessa reserva, preservando uma área em um estágio elevado de recuperação. Com a sua criação, iremos assegurar a preservação de forma a realizarmos pesquisas e visitação naquela região. A ideia é ser um ponto de partida para desenvolvimento de projetos e geração de renda, e a finalidade é criar os projetos pensados em parceria com a comunidade”. A RPN encontra-se em fase de estudo de um plano de manejo, para o qual o Instituto Eco Futuro foi contratado.
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Caminho aberto com muita fé e trabalho A trajetória de dona Zefinha, na construção de sua vida familiar e profissional, seguiu em paralelo com a de umas das mais respeitadas instituições do Brasil Da redação Para Zefinha, vinda de Aracaju, capital de Sergipe, em 1943, o Sesc representa tudo o que construiu
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Uma vida construída passo a passo ao lado de uma das mais respeitadas instituições do Brasil, o Sesc. Assim foi a trajetória de dona Zefinha, uma de suas primeiras funcionárias. Poucos sabem seu nome: Josefa Gila Pereira, mas todos conhecem esta simpática senhora de 88 anos, chegada de Aracaju, capital de Sergipe, em 1943.
Assim que chegou a Bertioga, hospedou-se na casa de uma amiga, até que foi possível construir uma casinha feita com madeira de caixotes e coberta com sapê. Poucos anos depois, casou-se e seu marido Oscar Dantas, que já trabalhava no Sesc, inaugurado em 1948, a levou para lá e passaram a morar no trabalho,
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mesmo com pouca leitura, a empresa a acolheu muito bem. Mas, antes de começar no Sesc, ela tinha que se levantar às cinco horas da manhã, para lavar a roupa na única torneira com água que havia fora das dependências da instituição. No ambiente de trabalho, fez muitas amizades e quando se reunia com as amigas contava histórias nordestinas. De uma delas surgiu a ideia da Festa das Mães, realizada até hoje no bairro Rio da Praia. Segundo conta, a primeira festa foi realizada em sua casa, depois passou para a sede da Associação dos Amigos do Bairro Rio da Praia, a antiga Samjarp. Atualmente, a
Foto JCN
a exemplo de outros funcionários da colônia, festividade ocorre na Capela Nossa Senhonaquela época. ra do Bom Conselho, construída com o Para dona Zefinha, o Sesc representa tudo o empenho pessoal de dona Zefinha e que construiu. Chegou do Nordeste sem nada, e, moradores do bairro. Muito católica, trouxe de sua terra natal o legado da avó, que fazia a festa de Santa Luiza, da qual tirou a ideia de fazer um leilão com mercadorias doadas, para ajudar na construção da capela; parte do dinheiro era guardada para a festividade do ano seguinte. Junto com outras colegas, batia de
Zefinha continua ativa do alto de seus 88 anos
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porta em porta, convidando os moradores para fazer parte da missão. Entre suas atividades em prol da capela, ela ajudava as pessoas carentes, oferecendo trabalhos de roçada, por exemplo. Desta época, Zefinha recorda-se de coisas boas, como as festas julinas em sua casa. “Até tapete colocava na rua. Tinha Festa de Reis, e o pessoal vinha da Prainha [no Guarujá] cantando o reisado, e dávamos coisas para eles comerem e beberem. Todos se reuniam e ficavam nas portas para ouvir a música”.
Capela Nossa Senhora do Bom Conselho, construída com o empenho pessoal dos moradores do bairro
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Atualmente menos ativa na comunidade, por causa das limitações da idade, Zefinha não abre mão de ser partícipe da organização da Festa das Mães.
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Entre o sonho e a realidade, uma luta de gigantes Dois empresários uniram o espírito visionário de um, e a ousadia do outro, para construir um dos maiores projetos urbanísticos do país Por Ana Claudia Gomes com reportagem de Paula Zeidan presa Praias Paulistas SA, para fazer um sobrevoo de helicóptero em uma grande área localizada no litoral, no então distrito de Santos, a Vila de Bertioga. Luiz Carlos lembra-se bem: “Ele [Ribeiro] já havia comentado sobre essa área e me senti atraído pelo que ele descrevia”. Almeida reluta-
Foto Cristiane Silva
A Riviera de São Lourenço, um condomínio modelo conhecido nacional e internacionalmente, surgiu após um encontro entre dois empresários, por volta de 1979. Um deles, Luiz Carlos Pereira de Almeida, proprietário da Sobloco Construtora, foi convidado pelo amigo José Aparecido Ribeiro, proprietário da em-
A importância da Riviera de São Lourenço para o desenvolvimento de Bertioga é tão relevante que, falar de uma, subtende-se falar da outra
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Três décadas após a pedra inaugural da Riviera de São Lourenço, mantém-se vivo o espírito dos empreendedores de respeito à terra, à preservação ambiental e ao desenvolvimento social
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Luiz Carlos Pereira de Almeida conta que foi influenciado pelo espírito visionário de José Aparecido Ribeiro Foto JCN
Almeida lembra que já existia o traçado da rodovia Rio-Santos e da rodovia Piaçaguera, em Guarujá, até o rio Itapanhaú, em Bertioga. Depois do rio, o traçado seguia até o litoral norte. A falta de uma ponte sobre este importante e grande rio impossibilitava a circulação de veículos pela rodovia. “Quando voltávamos, verifiquei o sinal da fundação de uma ponte sobre o rio Itapanhaú. Com aquela visão, eu sabia que tudo iria mudar completamente. Com a falta da ponte, Bertioga não tinha condições de grande desenvolvimento, mas tinha muita qualidade humana, com uma comunidade que amava suas raízes. E eu acreditei”.
Foto JCN
va em instalar um empreendimento de tal porte em uma área ainda muito remota e de difícil acesso. “Só chegávamos a Bertioga pela balsa, que fazia a travessia pelo canal”. Mesmo assim, ele resolveu fazer o sobrevoo.
A ponte começou a ser construída e os projetos para a implantação de um grande plano urbanístico começaram a surgir. Almeida lembra que os proprietários da gleba, as famílias Ribeiro, Levy e Melo Peixoto, já pleiteavam a divulgação do empreendimento. “Começamos a fazer a obra, mas não podíamos divulgar porque o acesso ainda era precário”. Influenciado pelo espírito visionário de
Manoel Campos Sales afirma que nunca houve uma divulgação maciça do empreendimento
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Foto Arquivo Sobloco
Canteiro de obras da Riviera de São Lourenço, instalado em janeiro de 1980
Ribeiro e por sua intuição, Almeida conta que autorizou a instalação do canteiro de obras em janeiro de 1980. Os arquitetos Benno Perelmutter e Oswaldo Correia Gonçalves foram contratados, para elaborar o projeto de urbanização, sempre pensando na preservação ambiental e na qualidade de vida. Em março de 1984, a ponte foi inaugurada, e a implantação da Riviera de São Lourenço seguia a todo vapor.
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A área contava com todas as condições técnicas e geológicas para as obras do sistema viário e para a delimitação dos lotes, sempre com foco na preservação ambiental. O diretor-gerente da Praias Paulistas SA, Manoel Campos Sales, explica: “Nunca houve uma divulgação maciça do empreendimento, foi uma adesão natural dos proprietários, que passavam uns
A ponte sobre o rio Itapanhaú, inaugurada em 1984, foi determinante para a decisão de se instalar o empreendimento de grande porte em uma área ainda remota e de difícil acesso
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“Ele sabia se relacionar, era conhecido por todas as famílias de Bertioga, os Bichir, os Nehme, os Pinto, e outros líderes políticos, como Licurgo Mazzoni, o homem forte do movimento emancipacionista de Bertioga. Ele tinha uma integração perfeita com todas as raízes da terra e apoiou Campos Sales, filho de um dos o movimento de emancipação”, movimento que advogados da Praias Paulistas SA, tornou Bertioga município, em 1991. frequenta Bertioga há 57 anos e se lembra do espírito visionário O contato com as famílias tradicionais de Berde Ribeiro, falecido em 1994: “Ele tioga também é lembrado por Almeida. Para ele, via o futuro. E se associou às pes- era nítido o amor pelas raízes e pela terra. “Hoje, soas certas. Por isso, o empreendi- vejo a preciosidade de Bertioga, sempre amada e mento é esse sucesso”. preservada por gente de primeira qualidade”.
para os outros”. Segundo ele, o sucesso da Riviera de São Lourenço deve muito à sua preservação ambiental. “Naquela época, as pessoas já desejavam olhar o mundo com essa consciência ambiental”.
Campos Sales frequenta Bertioga há 57 anos e se lembra do espírito visionário de Ribeiro, falecido em 1994: “Ele via o futuro. E se associou às pessoas certas. Por isso, o empreendimento é esse sucesso”.
Outra qualidade de José Aparecido RiAtualmente, grande parte do empreendibeiro era seu dinamismo. O diretor lembra que mento já está implantada, com base nas mesele passou a integrar a comunidade de Bertioga. mas características de 30 anos atrás. Sua impor-
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A Riviera trouxe emprego, renda, publicidade e padrão de qualidade modelo para as obras imobiliárias que vieram a seguir
tância para o desenvolvimento de Bertioga é tão relevante que, falar de uma, subtende-se falar da outra. O empreendimento trouxe emprego, renda, publicidade e padrão de qualidade modelo para as obras imobiliárias que vieram a seguir. Três décadas após a pedra inaugural, mantém-se vivo o espírito dos empreendedores de respeito à terra, à preservação ambiental, à sua gente, e ao desenvolvimento social.
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Riviera, patrimônio de Bertioga Cada vez mais, fica patente a necessidade de os municípios trazerem parceiros, que invistam na cidade. Contando com orçamentos limitados e pesadas responsabilidades, em especial com a saúde, educação, transportes, moradia, iluminação pública e saneamento básico, os municípios devem se constituir em polos atrativos para o turismo, indústrias, arranjos produtivos e empresas de distintos setores, capazes de fomentar sua economia, criar empregos e prover o seu desenvolvimento.
voltados para a formação de cidadãos responsáveis e compromissados com seus conterrâneos, com a cidade e com o meio ambiente em que vivem. É assim com o Programa Clorofila de Educação Ambiental e a Fundação 10 de Agosto, ambos com mais de 20 anos de trabalhos ininterruptos, além do Programa Vida Saudável, com 10 anos, e que atende crianças e jovens do bairro.
Em Bertioga, temos um exemplo vivo e claro de como a parceria privada pode contribuir – e muito – com o desenvolvimento de um município. E, neste caso, não é só o desenvolvimento econômico, mas também o social e o ambiental. Temos aqui um exemplo de desenvolvimento sustentado. Fala-se, aqui, da Riviera de São Lourenço.
Escrita há mais de 500 anos, a frase antológica de Pero Vaz de Caminha sobre a terra brasileira pode ser bem aplicada a um programa atual, que vem modificando, positivamente, comportamentos e hábitos das crianças e jovens de Bertioga. Isto começou em 1992, quando implantado pela Sobloco o Programa Clorofila, com o objetivo de levar a educação ambiental a escolas públicas e particulares de Bertioga, formar cidadãos com maior consciência ecológica e incentivar a comunidade a adotar práticas sustentáveis. No mesmo ano, o Programa deu seu primeiro fruto: o Prêmio Atitude Ambiental,
Fotos Divulgação Sobloco
Desde 1991 – data em que Bertioga conquistou sua independência administrativa –, a Riviera tem contribuído para movimentar a economia do município (ver quadro) e implantar programas sociais e ambientais
Em se plantando, tudo dá!
Alunos dos cursos de música da Fundação 10 de Agosto
durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento —, que pode ser definido como um instrumento de planejamento para a construção de sociedades sustentáveis. Especialmente dirigido a professores e alunos representantes das instituições de ensino de Bertioga, esse estudo estimulou a comunidade escolar a adotar medidas de proteção ambiental e a agir de acordo com os ideais de sustentabilidade. O programa levou, ainda, à formação de Comissões de Meio Ambiente (CMA) com a participação de alunos que planejam, lideram e multiplicam ações educativas voltadas para práticas sustentáveis dentro e fora da escola. Estudantes do município durante colheita de horta cultivada por meio do Programa Clorofila
que, desde então, premia anualmente os melhores trabalhos escolares sobre temas relacionados à questão ambiental, como a reciclagem de lixo, o uso consciente da água, o consumo responsável, o desperdício e outros. Essa premiação abriu caminho para outro importante fruto do Programa original: o Projeto Clorofila, que levou adiante a ideia de utilizar o plantio de hortas e jardins no espaço das escolas do município como instrumento pedagógico, envolvendo os alunos, sob a orientação de professores, e com a assessoria técnica constante de educadores ambientais. Nos anos seguintes, o Clorofila estabeleceu parcerias com as escolas da rede de ensino de Bertioga – hoje totalizam mais de 20 escolas parceiras –, atendeu mais de 12 mil estudantes, conquistou o apoio da população e expandiu suas atividades com cursos, palestras e vivências na natureza dirigidas aos professores. A Sobloco criou eventos cívicos, educativos e comemorativos com a participação de crianças e jovens. Por exemplo, o Dia Mundial do Meio Ambiente (5 de junho) jamais passa em branco e tem sido celebrado das mais criativas maneiras: passeios ciclísticos, revoada de pipas, plantios simbólicos, feiras do meio ambiente e até a Parada Ecológica, que fez história na cidade por reunir, nas ruas de Bertioga, mais de 5 mil pessoas de todas as idades. Em 2008, o Programa Clorofila também promoveu o estudo da Agenda 21 —, documento lançado em 1992,
Pamella Vieira Leite, 14 anos, é um bom exemplo das atividades da Comissão de Meio Ambiente de sua escola. Ela estuda na EE Vista Linda e se sente comprometida com o processo de conscientização ambiental. “Aprendemos coisas práticas, como reaproveitar papel e não desperdiçar alimentos, e acabamos influenciando nossos colegas, familiares e amigos”, afirma ela, fazendo questão de completar: “tento colocar o que eu aprendo no meu dia a dia! Gosto dessa atividade. Para mim, é tudo muito novo e fico feliz em saber que, mesmo depois que eu sair da escola, outros alunos continuarão esse trabalho.” A importância das boas práticas propostas pelo Projeto Clorofila também é destacada pela professora Andrea Lanças, coordenadora da Escola Jardim Vicente
Luís Felipe Ramos de Oliveira, 15 anos, aluno da Fundação 10 de Agosto desde 2008, seguiu o roteiro completo de formação musical
Cristina Perez, coordenadora do Projeto Clorofila, na EE Vicente de Carvalho, com a professora Andreia Rodrigues Lima de Lanças e alunos
de Carvalho. “Esse projeto pedagógico é muito estimulante e, além de criar consciência ecológica, é também um instrumento de mudança comportamental de alunos, professores e até de familiares. De fato, notamos alterações positivas no comportamento das crianças em sala de aula e em casa; muitos pais costumam colaborar efetivamente com o projeto e nós, professores, nos sentimos estimulados a ampliar nossos conhecimentos ambientais e a colocá-los em prática.”
Ao som da música As atividades propostas pela Riviera com os jovens e crianças da cidade não se limitam às paredes das escolas. Com frequência, ao passar pela Alameda das Borboletas, no próprio bairro, podem-se ouvir acordes de
Riviera em números Hoje, 36 anos após o início das obras da Riviera, o bairro pode ser considerado a mola propulsora da economia da cidade. É o que afirma a paisagista Simone de Souza Brito: “Todo o comércio da cidade e prestadores de serviço como serralheria, gesso, vidro, eletricistas, marceneiros e muitos outros vivem em função da Riviera e das oportunidades que ela gera”. Moradora da cidade desde 1989, Simone foi proprietária da primeira surfshop da
uma orquestra, a suavidade de um coral de jovens ou até uma batucada. Por trás de todas essas formações musicais estão alunos dos cursos de música da Fundação 10 de Agosto, entidade sem fins lucrativos sediada na Riviera, cujo objetivo é proporcionar educação e qualificação profissional para a população do município, permitindo que cada indivíduo conquiste melhores condições de vida e de trabalho. Criada pelo fundador da Sobloco em 1993, Luiz Carlos Pereira de Almeida, a entidade já atendeu mais de 13 mil pessoas oferecendo oficinas gratuitas de artes e ofícios para crianças e jovens - que incluem iniciação musical, aprendizado de vários instrumentos e artes manuais, como marchetaria - e cursos profissionalizantes, de qualificação profissional para jovens e adultos.
cidade, em 2000. Após um período morando em Fortaleza, voltou para o município para trabalhar com paisagismo, estimulada pelas inúmeras oportunidades que se apresentavam com o crescimento da Riviera de São Lourenço e outros condomínios. “Tive muitas oportunidades na Riviera”, conclui. Clóvis Knorst, presidente do Grupo Praiamar Marcenaria e Decorações, também enfatiza a importância da Riviera para o seu negócio. “Acredito que, de modo geral, a movimentação do comércio da cida-
de, principalmente na minha área, depende muito da Riviera – posso afirmar que 80% da minha clientela são do bairro, e isto não só nos meses de maior movimento, mas também durante todo o ano. A Riviera não só movimenta, de forma significativa, a parte econômica do município, mas também a área social e turística. É um orgulho ter um empreendimento tão bem-sucedido na nossa cidade.” E os números complementam os testemunhos de Simone e Clóvis. Atualmente,
Os resultados positivos desse trabalho são reconhecidos por pais e alunos da Fundação. Luís Felipe Ramos de Oliveira, 15 anos, e aluno da Fundação 10 de Agosto desde 2008, seguiu o roteiro completo de formação musical: teoria, coral, flauta, violino e, agora, orgulha-se de ser membro da orquestra infanto-juvenil da entidade. “Gosto muito de boa música e adoro o ambiente da Fundação. Fiz amigos e também trouxe amigos para cá, e todos os que vieram gostaram e permaneceram, porque o trabalho realizado aqui é muito sério.” Com ele, concorda sua mãe Célia Maria: “A Fundação é uma entidade que a gente pode confiar. Quando Luis Felipe está lá, sei que está seguro. Além disso, percebo que graças ao violino e ao estudo de música, ele se tornou um aluno mais atento.” A Fundação 10 de Agosto completa 22 anos em franco processo de expansão: em 2015, além dos cursos já tradicionais, passou a oferecer Equitação Especial; Panificação; e Corte e Costura. Também formalizou importantes parcerias com a Associação Cultural Internacional da Criança e Adolescente (Acica) e o programa Boraceia Viva, objetivando implantar o seu projeto Música para Todos em outros bairros de Bertioga – o primeiro a ser beneficiado foi o bairro de Vista Linda.
mente três mil crianças e adolescentes, oferecendo uma programação socioeducativa, cultural, esportiva e recreativa para alunos das escolas localizadas na Riviera e, também, para filhos de caseiros, zeladores e funcionários da Associação. O trabalho da Associação dos Amigos da Riviera não para aí. A entidade proporciona, para jovens da comunidade, o primeiro emprego, na condição de menor aprendiz, dando a estes a oportunidade de, no futuro, serem colaboradores efetivos.
Pamella Vieira Leite, 14 anos, é um bom exemplo das atividades da Comissão de Meio Ambiente de sua escola, a EE Vista Linda
Esporte e cultura Outro importante programa social, chamado “Vida Saudável”, foi implantado e é coordenado pela Associação dos Amigos da Riviera (AARSL). Em seus dez anos de funcionamento, já atendeu aproximada-
a Riviera possui três escolas, com um total de 1.030 alunos, e aproximadamente 11 mil unidades habitacionais e comerciais (shopping, postos de serviços, restaurantes, hipermercado, centro médico, farmácias etc.). Sua infraestrutura de saneamento básico (captação, tratamento e distribuição de água potável, bem como coleta e tratamento de esgoto) foi planejada, construída e é gerenciada pela iniciativa privada, sem qualquer ônus para o poder público, e atende a uma população fixa de cerca de 5 mil pessoas, número que chega a mais de 70 mil na alta estação.
Com seus 9 milhões de metros quadrados, a Riviera ocupa 1,8% da área territorial de Bertioga e contribui com mais de 40% da sua arrecadação de IPTU. O bairro oferece, ainda, mais de 5 mil empregos diretos, além de milhares indiretos, movimentando uma folha de pagamento de R$ 150 milhões anuais, que, segundo estimativas, deve atingir R$ 300 milhões quando a Riviera estiver totalmente implantada. E abriga, também, a maior empregadora privada de Bertioga: a Associação de Amigos, que mantém em seus quadros 500 funcionários
dedicados à conservação das áreas públicas da Riviera, à manutenção e operação dos sistemas de água e esgoto, à coleta seletiva de lixo e à destinação adequada de resíduos sólidos recicláveis. Pelo seu planejamento e resultados na área de gestão ambiental, a Riviera recebeu, em 2000, a certificação internacional ISO 14001 e tem contribuído para a concessão do Selo Verde Azul, dado pelo governo do estado de São Paulo a Bertioga, hoje considerada uma cidade exemplo de gestão ambiental.
História
No topo do desenvolvimento Prefeito pela terceira vez, Mauro Orlandini ajuda a construir os alicerces de uma cidade sui generis em sua configuração geométrica Da redação A política não fazia parte dos planos do jovem arquiteto, formado em São Paulo, e já de olho na florescente Bertioga, onde montou, em 1979, um escritório de arquitetura junto com o cunhado Joaquim Aleixo Passos. Nascido em Batatais, Mauro Orlandini já vislumbrava o desenvolvimento da cidade, uma vez que a construção civil estava a pleno vapor.
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Ele exerceu sua profissão na região por cinco anos, até ser nomeado administrador regional de Bertioga, em 30 de julho de 1984, pelo então prefeito de Santos Oswaldo Justo. Na época, a legislação estabelecia curso superior como pré-requisito para ocupar o cargo, e sua atuação profissional e pessoal na cidade foi determinante para a escolha. Orlandini aceitou o desafio, mas não
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imaginava que pudesse ter, na política, uma atuação positiva em prol de uma comunidade. “Tínhamos a tarefa de implantar e estruturar o município. Nos instalamos onde era a administração regional, e a Câmara se instalou no meu escritório de arquitetura, o que me orgulha. Foram momentos difíceis, quando a comunidade, principalmente as famílias mais antigas, participou”. A prioridade, então, era fazer o alicerce; criar a estrutura. “Sempre tive uma preocupação muito maior com a base do que com as coisas que são visíveis. Claro que prefeito gosta de fazer avenidas, praças, escolas e creches, mas a fundação é importante”. Assim que Bertioga emancipou-se e fizeram-se as primeiras eleições para o Executivo e Legislativo, Orlandini candidatou-se a prefeito e venceu. Ele diz: “Na primeira gestão, pude desenhar o brasão de armas da ci-
“Sempre tive uma preocupação muito maior com a base do que com as coisas que são visíveis. Claro que prefeito gosta de fazer avenidas, praças, escolas e creches, mas a fundação é importante”. Orlandini
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dade, o que me orgulha muito”. Hoje, em seu terceiro mandato, ele diz estar satisfeito, mas um pouco frustrado por não ter conseguido muitas outras coisas. “Fiz uma atuação serena, pé no chão, olhando para o futuro. Sei que minha tarefa é essa. Quando decidimos ter cursos de cultura e esportes para uma comunidade de 53 mil habitantes, 8 mil são alunos desses cursos. Essa meninada é quem fará a grande diferença para tocar a cidade. Quando falamos dos cursos oferecidos atu-
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Assim que Bertioga emancipou-se e fizeram-se as primeiras eleições para o Executivo e Legislativo, Orlandini candidatou-se a prefeito e venceu
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almente, pensamos não só na estrutura física, mas no fortalecimento da família. Não adianta ter 33 quilômetros de praia, o primeiro forte do Brasil, trilhas, se não houver uma comunidade minimamente satisfeita”.
dos 98%. Quando foi criado o Parque da Restinga, com 100 milhões de metros quadrados, houve uma perda de potencialidade do município para implantar os loteamentos, que virariam recursos, tributos, geração de empregos. Se, por um lado, houve uma perda, por outro teve um enriquecimento na questão ambiental para Bertioga. “É a galinha de ovos de ouro para a cidade. Precisamos equilibrar e sustentabilidade, e saber fazer isso com as condições oferecidas”, explica o prefeito.
Na opinião de Orlandini, a preservação ambiental é muito importante, um verdadeiro tesouro. “São 98% do território comprometidos com a questão ambiental. Há uma convergência de intenções. Claro que devemos ter um equilíbrio da preservação com o desenvolvimento do município”. Dessa forma, Orlandini afirma que os 2% restantes terão que pagar a conta
Para Orlandini, a identidade e a simplicidade foram fatores fundamentais para que conquistasse uma terceira gestão, bem como a relação com a cidade. “O que quero deixar é muito maior do que um cargo. Ser da comunidade e o objetivo claro do que sonho para o município, talvez tenha sido o maior tempero, para ser escolhido por três vezes, e disso tenho um grande sentimento de gratidão.”
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LIXO: problema LIXO: de quem? problema de quem? por: Patricia Alcalá ADVOGADA
A POLÍTICA NACIONAL DE RESÍDUOS SÓLIDOS, Lei Federal nº12.305 de 2010, estabelece um conjunto de ações e práticas que visam o destino ambientalmente adequado dos resíduos sólidos e rejeitos.
A responsabilidade da destinação adequada alcança a todos nós, ela é compartilhada entre o poder público, os fabricantes de produtos, os importadores, distribuidores e comerciantes, bem como os consumidores.
Os objetivos da política de resíduos são complexos e ousados para uma sociedade onde os padrões de consumo dos recursos naturais são impactantes e danosos à sustentação do Planeta. No entanto, a sociedade almeja que essas mudanças ocorram, e isso está refletido na Lei.
Como implantar no dia-a-dia o que está na legislação?
Através da ação governamental para aplicação dos instrumentos de gestão ambiental disponíveis, tais como: a elaboração do PLANO DE GERENCIAMENTO DE RESÍDUOS SÓLIDOS dos municípios, que prevê, por exemplo, a coleta seletiva dos resíduos e incentiva a criação de cooperativas de catadores, atividade que gera recursos financeiros e dignidade social. Integrada a uma ação cidadã, tal como a reciclagem de resíduos domésticos, conjugado com o interesse ao conhecimento e diálogo entre o poder público, iniciativa privada e sociedade.
ESTUDIO LUMINE .COM.BR
Assim, conseguiremos dar sustentabilidade à vida no Planeta.
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Edição especial de emancipação de Bertioga
24 anos
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A mola propulsora do desenvolvimento Os portugueses sempre se destacaram por sua maestria nas artes comerciais e um bom representante deles veio parar nas terras de Buriquioca Da redação De uma vila para outra. Entre sua saída da pequenina Viseu, centro-norte de Portugal, para a também pequenina Bertioga, Fernando Sena percorreu uma trajetória de vida digna de ser eternizada numa autobiografia. Em comum com outros pioneiros que ajudaram a construir a cidade, a história de luta pela sobrevivência. Antes de chegar aqui, viveu em Angola, para aonde sua família migrou em busca de melhores condições de vida. Eram tempos difíceis, já que a África vivia, então, o auge do apartheid - o cruel regime de segregação racial que imperava no sul do continente.
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Sena fez o caminho de volta. “Voltei para Portugal e trabalhei como servente de pedreiro”. Com uma filha pequena, optou por mandá-la para São Paulo, para morar com uma tia. Não aguentou muito a distância e veio também, após pouco mais de dois anos. Morou em São Bernardo do Campo, onde atuou como gerente de parte dos restaurantes do Hipermercado Makro e, depois, abriu uma loja na cidade. Nesta época, conheceu Ribas Zaidan, proprietário do Sistema Costa Norte de Comunicação, que, na época trabalhava na Volkswagen, e, por isso, passou a frequentar Bertioga a passeio. Sena conta: “Em 1974, a vila contava com
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dois mil habitantes e acabei mudando porque Apesar de todos os obstáculos, Sena inme apaixonei pela região. Comprei um terço de vestiu no projeto de viver em Bertioga e conum mercadinho, na pracinha [praça Armando tribuir para o seu crescimento. Seu negócio Lichti -Centro] onde era montada a feira livre”. prosperou e Sena abriu outro mercado, o A vila já tomava ares de pequena cidade; Suprilar, posteriormente denominado Superhavia, então, um grupo de pequenos empresá- mercado de Bertioga. Mais tarde comprou um rios, e um comércio nascente. Apaixonado pela terreno no Indaiá, também para investir no região, Sena colocou todo o seu conhecimen- negócio de supermercados. Assim foi até to em prol do desenvolvimento de Bertioga, e, abrir unidades em outras regiões, como o ainda, engrossou o time daqueles que deseja- supermercado do Rio da Praia, próximo ao vam a autonomia da cidade. Sesc; e o do Albatroz, na entrada da cidade.
Fernando Sena chegou em Bertioga em 1974 e integrou o time daqueles que desejavam a autonomia da cidade
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Negócios que prosperaram e deram frutos à família, que até hoje mantém-se no ramo do comércio. “Tenho três filhos, o Fernandinho com dois mercados no Indaiá; a Ivone com os mercados Albatroz e o do Rio da Praia; e a Fernanda, com uma academia”. Formado em contabilidade, Sena foi convidado a trabalhar na prefeitura em 1998, como secretário de Finanças, durante o governo de Luiz Carlos Rachid, onde permaneceu por dois anos. “Foi quando conheci a chefe da receita, a Silvia Rebelo, de quem me tornei sócio posteriormente. Ambos tínhamos a ideia de investir mais em escolas na região, dado que, no início de minha carreira, fui professor e via na cidade uma carência que nós, empresários, poderíamos contribuir”.
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Da parceria surgiu o Colégio Objetivo, inaugurado há 14 anos e, em seguida, o Anglo, antigo colégio Adélia, adquirido pelos dois sócios. Como sua vida foi calcada no comércio, as pessoas passaram a consultá-lo sobre novos projetos e como deveriam executá-los. Daí surgiu a ideia e, juntamente com outros comerciantes, criou-se a Associação Comercial de Bertioga, três anos antes da emancipação. Na mesma época, nasceu o Troféu Iriri, que seguiu por oito anos, como premiação aos comerciantes de destaque na cidade. O nome foi escolhido porque a então prefeita de Santos, Telma de Souza, queria que a divisa de Bertioga fosse no rio Itapanhaú, quando o rio Iriri era de fato a divisa (com Caruara e Caiubura).
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Filhos criados, situação estável, agora é curtir a vida e aproveitar os laços de amizade que conquistou ao longo dos anos. Como Sena diz: “Não tem preço no mundo que pague a convivência com as pessoas daqui. Temos um grupo que se reúne todos os domingos e nos encontramos pelo menos duas a três vezes por semana. Por isso, acredito que a nossa maior fortuna seja a amizade”.
Depois de uma vida inteira de trabalho, Sena agora encontra tempo para curtir a vida e aproveitar os laços de amizade que conquistou ao longo dos anos
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Aos formadores da comunidade bertioguense Gente simples, lutadora, persistente, que educou gerações com base em valores passados de pais para filhos Da redação O desenvolvimento atual de Bertioga foi sedimentado com a ajuda de valores e esforços de pioneiros, que deixaram seus legados aos filhos e netos. São histórias de vida semelhantes, mas únicas na dificuldade de sobrevivência e adaptação de cada uma. José Nunes Viveiros, o conhecido vice-prefeito Zeca do Gás, até que foi um privilegiado. Seus avós vieram de Portugal para o Brasil, em 1919. Naquela época, para entrar no país, era necessário uma carta convite; por sorte, seus tios-avós já estavam por aqui. Em 1949, seus pais e avós vieram para Bertioga. De início, trabalharam para uma família aqui residente e, posteriormente, compraram um grande terre-
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no, onde hoje se localiza o bairro Albatroz e, nele, implantaram um bananal. Zeca foi para São Paulo e lá casou e teve dois filhos, mas voltou para trabalhar com uma tia. “Tia Maria tinha um bar em Bertioga, no camping Humaitá, e já estava cansada de trabalhar. Então voltei e o administrei por 16 anos; em 1976, montei o depósito de gás”. Ele conta que começou vendendo dois ou três botijões por dia. Hoje, com dois depósitos (Bertioga e Juquehy - em São Sebastião), 48 funcionários, administrados pelos filhos, deixou de trabalhar no ramo há oito anos. Em 1949, seu avô teve uma pensão, pró-
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A conquista da emancipação envolveu muitos movimentos sociais e políticos. Um deles foi a constituição da Sociedade Amigos de Bertioga, da qual Zeca foi presidente
xima ao Sesc, e ele conta que os lençóis eram feitos pela sua avó, todos de sacos de pano, já que os recursos eram escassos. “Quando comecei a estudar em Bertioga, onde é hoje a Casa da Cultura, aos 10 anos, só havia uma sala de aula. Minha mãe morava no Sesc e na época de
temporada levava os filhos dos funcionários de caminhão; na baixa, nos restava ir pela praia”. Para Zeca, sua segunda “mãe” foi a dona Viturina, que dava aula de catequese na igreja e contribuiu com a educação de muitos em Ber-
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História tioga. “Eu e outros dois meninos acompanhávaEm suas lembranças, guarda especial conmos o monsenhor Medeiros, para fazer a missa sideração de Alberto Alves. “Gastava horas concomo coroinhas”, diz. versando com ele, porque me interessava ver a sua disposição. Ele foi responsável por disAssim como dona Viturina, outras pesseminar o esporte, trazendo a primeira liga de Nas lembranças de soas foram de grande importância para futebol, o que rendeu homenagem com o seu Zeca do Gás, pessoas a então vila. Ele comenta que dona fundamentais em nome no ginásio de esportes”. Rosário, a parteira, era incansável, tempos difíceis na sempre disposta a ajudar, assim O futebol era a diversão principal dos garoentão Vila, como dona Viturina, monsenhor como a dona Maria Benzedeira. tos naqueles anos, o que contribuiu para o deMedeiros, dona Rosário, Para as dores do corpo também ha- senvolvimento de craques. Muitos foram conMaria Benzedeira, via assistência na primeira farmácia vidados a jogar em grandes times, porque os Humberto, Anésia, de Bertioga. Uma casa construída de olheiros se hospedavam no Sesc. “Assim como Alberto Alves, Lira e Enéas madeira, na qual as pessoas buscavam outros meninos da minha época, fui chamado assistência de seu Humberto e dona Ané- pelo Guarani [time de futebol de Campinas], e sia. “Certa vez, fui mordido por um cachorro e meu pai me deu uma surra porque o futebol até pontos levei, graças a eles”. não era como hoje, faltava incentivo”.
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Alberto Alves, subprefeito de Bertioga na década de 1960
Zeca comenta que, apesar disso, outras modalidades não oficiais eram praticadas. O primeiro surfista de Bertioga foi o João Abu, que surfava com uma tábua. O surfe não era incentivado, assim como o ciclismo. Bicicleta era só para trabalhar, por exemplo. Dessas pessoas, pelo menos trinta já morreram. Mas muitos ainda estão vivos para contar a história e ajudaram muito a levantar o nome de Bertioga. “A cidade é o que é hoje porque foram elas que ajudaram as pessoas a crescer e desenvolver”, reflete.
muitos movimentos sociais e políticos. Um deles foi a constituição da Sociedade Amigos de Bertioga, da qual Zeca foi presidente. O objetivo central da sociedade era fiscalizar e cobrar dos prefeitos as demandas da sociedade. “Éramos os vereadores que não tinham salário”. Zeca comenta que muitas famílias tiveram participação na associação, como a Lira; doutor Enéas, que era do A conquista da emancipação envolveu Caiubura, entre outras.
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Cantinho do Faninho Saudades e lembranças de tempos vividos no empreendimento familiar que resiste ao tempo Da redação Ali, bem em frente ao canal de Bertioga, a poucos metros do antigo atracadouro, no Centro, ficava um dos raros pontos comerciais da cidade, o antigo empório Cantinho do Faninho, hoje restaurante. Por suas portas, mais de 60 anos de história de vida das muitas famílias que por ali passaram ou compraram, e também do desenvolvimento de uma pequena vila que, rapidamente, tomou contornos de cidade.
Eram tempos difíceis, e a família criava seus próprios sistemas de sobrevivência frente à falta de luz, de água encanada, de saneamento. Mas tinha o lado bom, sempre tem. Os irmãos Maria de Lurdes e Ademar Batista, ainda crianças, divertiam-se a valer. Eles contam: “Jogávamos bola e nadávamos no rio. Meu pai colocava o cerco no rio e pegava muitos peixes, vendia e também dava para os amigos”. Como funcionário da Santense, o pai trazia
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Localizado na avenida Vicente de Carvalho, o endereço pertencia a uma das mais tradicionais famílias da cidade, os Batista. Maria de Lurdes Batista Simões conta que seu pai, Epifânio Batista, antes de se dedicar ao comércio, foi
piloto da Companhia Santense de Navegação, que representava, então, um dos únicos meios de acesso à região e essencial para as cerca de 30 famílias que ali viviam.
Maria de Lurdes Batista Simões e Ademar Batista, herdeiros de um dos mais tradicionais pontos comerciais da cidade
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barras de gelo de Santos e guardava em um o cantor Silvio Caldas, que tinha casa aqui. Inarmário que fazia às vezes de geladeira, para clusive, atualmente, a cidade tem uma rua com gelar os mantimentos. o nome dele”. A família morava próximo onde hoje está a pousada do Pedrinho e o que viam era um cenário bem diferente do atual. Maria de Lurdes diz que “vivíamos numa casa de madeira, em frente ao píer (Licurgo Mazzoni), mas lá não havia nada, apenas um barranco; mais tarde construíram uma amurada”. Aos poucos, a Bertioga atual foi se desenhando, e isso ocorreu, principalmente, com a descoberta da região cujo acesso foi facilitado com a chegada de rodovias. Maria de Lurdes lembra-se bem da vinda de artistas, políticos e empresários. “Quem visitava muito Bertioga era
Para ela, o progresso chegou com a luz elétrica e as estradas; a partir de então, tudo mudou em Bertioga. “Perdemos a união que as famílias antigas tinham. Hoje, vou ao supermercado e não conheço uma pessoa. Isso faz grande diferença. Além disso, chegaram muitas lojas. A concorrência aumentou muito”, comenta. No entanto, o Cantinho do Faninho continua bastante frequentado pelos moradores da cidade, especialmente os mais antigos que, além da busca pelos sabores do já tradicional restaurante, gostam do local e das prosas sobre os tempos de outrora.
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As lembranças do Recanto do Itaguá A pesca e o jeito simples de viver são valores tradicionais mantidos ainda por moradores, como Alcides Pedro do Rosário, que vivenciou momentos da Revolução de 30 Da redação
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Conhecido como Doca, ele é bertioguense da nata, nascido há 94 anos no Recanto do Itaguá, região de Boraceia 1, onde vive até hoje a sua vidinha simples, de roça. Em tempos idos, eram imensos sítios de bananal. As condições precaríssimas de acesso à Vila exigiam dos moradores verdadeiras artimanhas para resolver situações. Como a que ele viveu, certa vez, quando sofreu um acidente durante a derrubada de árvores, o que prejudicou sua coluna. O jeito foi valer-se de uma benzedeira.
Alcides Pedro do Rosário, o Doca, mantém a vida simples dos antigos caiçaras
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O tempo veio junto com o progresso e este trouxe normas e leis. Doca perdeu terras em prol da preservação ambiental e o extrativismo deixou de ser o seu sustento. Ele conta que foi, então, trabalhar como pescador, numa época em que já havia constituído sua família. Construiu sua casa, a menos de 500 metros do mar, onde vive até hoje. “Naquela época, não precisava comprar alimento, tinha a roça e dela eu extraia farinha, feijão, cará, verdura, arroz. O desenvolvimento acabou com isso. Fomos proibidos de plantar por causa da preservação ambiental”. Se na Vila de Bertioga os tempos já eram difíceis, quem vivia no Recanto do Itaguá criava soluções com o que a natureza oferecia. Assim, tudo era improvisado. Não havia sequer um lampião. “O fígado do cação pescado era derJornal Costa Norte
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101 pequenos estabelecimentos, em um cenário que até hoje é preservado com as características caiçaras. A igreja, construída há cerca de 35 anos, pelos moradores, é uma pequena capela. Antes dela, os pescadores encontraram, em 26 de julho de um tempo longínquo, a imagem de uma O pescado era farto e, além de ser dividido santa, denominada Sant´Anna. Os habitantes do entre as famílias, boa parte dele era limpa e sallugar passaram, então, a cultuar a imagem na gada, para ser trocada ou vendida. “Descia gente casa de uma moradora, parente de Doca. pelo morro, do outro lado da rodovia Rio-Santos, de Mogi e outros lados, para trocar mercadoria Assim nasceu o tradicional festejo de como farinha de milho e feijão pelo peixe. Mui- Sant´Anna, com a família de Doca. “Quando chetos pagavam para levarmos os peixes nas costas gava perto da data comemorativa, caçávamos daqui para Mogi. Eram dois a três dias de viagem na mata, ficávamos dias e trazíamos cotia, tatu, pela mata. Eu mesmo fiz essas viagens para levar paca, servidos ao longo do dia”, conta Doca. os peixes e fazia compras”, comenta Doca. Neste quase um século de vida, Doca viO pequeno bairro se resume a uma igreja, venciou fatos importantes, tais como a Revopoucas casas ao redor, o bar do Doca e outros lução de 1930. “Eu era criança e um rapaz do retido para fazer azeite, colocado em uma vasilha, com um furo e um pedaço de roupa velha para iluminar as longas noites”, conta. O café, por exemplo, plantado e colhido nas roças, era adoçado com o caldo da cana.
“O primeiro carro que passou por aqui foi em 1955. Era do João Sabino, que tinha uma caminhonete e ele nos levava até Guaratuba, onde fizeram uma espécie de balsa, construída pelo Sabino” Doca
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Indaiá - que não recordo mais o nome - era delegado e amigo dos meus pais. No final dos anos 20 e início da década de 30, havia muito soldado na região por causa da revolução. Éramos avisados para não passarmos a noite em casa, então nos escondíamos na mata. Assim, ficamos por oito dias escondidos em um barraco de folha de palmito”, lembra.
Capela construída há cerca de 35 anos, onde acontece o tradicional festejo de Sant´Anna
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Uma ocasião, viu um navio, ao amanhecer, atirando contra a Barra do Una (praia de São Sebastião), na qual dois policiais, Ercílio e Arcílio, escondiam-se em barranco detrás da praia. “Um tal de Chico Bastos trazia munição para eles; a tripulação do navio descobriu e deram um jeito de ele não abastecer mais os soldados da Barra do Una, até que a munição deles acabou”.
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Nem a igreja da Barra do Una, construída de possível fazer a travessia, exceto por barcos. pau a pique, escapou. Os tiros atravessaram o inCom a nova estrada, houve terior da capela e o barro do fundo da igreja caiu melhora de transporte, explono chão. “Se fosse por mim, arrumava a igreja, mas são imobiliária e as roças nunca consertei para mostrar aos meus netos”. foram sumindo, assim Naquela época, era raro alguém passar como os peixes. Além pelo Recanto do Itaguá. Depois, com a Rio-San- disso, a estrada trouxe tos, começou a chegar gente de todos os luga- algumas lembranças res, até políticos. “O primeiro carro que passou tristes, como a morpor aqui foi em 1955. Era do João Sabino, que te de um irmão e de tinha uma caminhonete e ele nos levava até uma de suas filhas. O Guaratuba, onde fizeram uma espécie de bal- progresso também traz sa, construída pelo Sabino”. Até então, não era violência. O tranquilo trecho da praia de Boraceia, no Recanto do Itaguá, onde Doca vive há 94 anos
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Frutos fecundos Na rua Júlio Prestes, foram plantadas as primeiras sementes dos centenários pés de jambolão, jaca e abricó pelas mãos do pescador Renato Faustino, cuja história confunde-se com a de Bertioga Da redação Renato Faustino foi um exemplo típico de caiçara forte e respeitado, cujo nome está perpetuado em uma das ruas da cidade, no Rio da Praia
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Uma casa humilde, com um quintal preservado e marcado pela história da família Faustino de Oliveira. O patrono Renato, bertioguense nato, seguiu o rumo de seus antepassados, a pesca, e casou-se com dona Mariazinha, conhecida e querida pelos moradores mais antigos. Quem visita a casa da rua Júlio Prestes tem a
impressão de que o tempo parou: árvores centenárias, como jambeiro, jaqueira e abricoeiro, além de outras tantas espécies mais recentes, plantadas pelos filhos, netos e bisnetos, encantam pelo porte e merecem ser reverenciadas. Mas o tempo seguiu também para esta fa-
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mília sempre muito atuante, que herdou a força do patrono e de sua matriarca. Maria do Carmo Faustino de Oliveira, a tão querida Mariazinha, nasceu há 80 anos, em uma casinha próxima ao sítio Santo Antônio. Aos 4 anos, foi para Santos; regressou adulta e casou-se com Renato. O casal foi morar em uma casa de madeira, construída pelo marido. Hoje, esta mesma casa foi reconstruída, em alvenaria, mas mantém a mesma característica da original. Renato pescava para o sustento da família e ainda fabricava barcos, enquanto os filhos brincavam no quintal. Tempos depois, além de pescador, passou a trabalhar como marinheiro. A filha mais nova, Ivete, uma das oito irmãs, conta: “Meu pai fazia o cerco e outros pescadores mergulhavam para apanhar os peixes no
fundo do mar. Seu fôlego era muito bom e os amigos até estranhavam, porque ele mergulhava e demorava a subir”.
Foto Arquivo familiar
Um exemplo típico de caiçara forte e respeitado, cujo nome está perpetuado em uma das ruas da cidade, a Renato Faustino, próxima ao Sesc, no bairro Rio da Praia. “Deixamos raízes e os frutos prosperaram em Bertioga. O que todos os primeiros moradores da vila têm em comum são os valores, o respeito ao próximo, a união e educação, herdada pelos nossos pais, transmitidos aos filhos, netos e bisnetos”, diz Ivete.
A matriarca Maria do Carmo Faustino de Oliveira e parte de sua grande família
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O casal Mariazinha e Faustino de Oliveira
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Família religiosa, frequentava a igreja católica, no centro da cidade, no fundo da qual, a freira Maria Gama, de Santos, dava aulas de pintura, costura e crochê. “Naquela época, as moças tinham que aprender a costurar”, comenta Gilda, outra filha de Mariazinha. Na igreja, também eram organizadas peças de teatro e festas. Os 14 filhos de dona Mariazinha fizeram catequese e se casaram ali. Um dos irmãos, Gilson, teve a primeira vidraçaria de Bertioga; hoje trabalha com colchões, e tem três lojas, duas em Bertioga e uma em Juquehy. Outro, Renato Faustino de Oliveira Filho, o Renatinho, foi o primeiro administrador regional de Bertioga, época em que a cidade era subdistrito de Santos, além de ser o primeiro enfermeiro responsável pelo posto de saúde. Empresário na cidade, também exerceu o cargo de vereador, de 2009 a 2012. A família criou raízes fecundas, cujos frutos prosperaram graças à mão firme e responsável de Renato e Mariazinha.
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Tudo o que você sempre sonhou: uma casa de campo na praia.
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Olhares atentos Reservamos alguns ângulos de Bertioga, captados por fotógrafos participantes da edição 2014 do concurso Revela Bertioga, organizado pela prefeitura da cidade. Deleite-se:
Foto Viviane Oggiano
Foto Alberto D´Aurea Sobral Pinheiro Filho
Reserva indígena Rio Silveira
Pesca amadora no costão da praia de Itaguaré
Foto Marcos Cabaleiro
Foto Mateus S. Souza
Foto Lins Krause
Calçadão da avenida Vicente de Carvalho, às margens do canal
Escola de Itatinga Canal de Bertioga
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Pescador na praia da Enseada
Foto Silvana Zuchi
Foto Derli Mello
Foto Juliana Bruder
Manguezal
Foto Patrícia Martins
Pescador na praia do Indaiá
Foto Viviane Oggiano
Brincadeira de criança, no píer do canal de Bertioga
Pôr do Sol na Riviera de São Lourenço
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A atração irresistível dos peixes Abundantes e graúdos, os peixes atraíam pescadores de cidades vizinhas de Bertioga, cujas famílias sedimentaram a formação das primeiras comunidades Da redação Apesar das dificuldades, sem água encanada, luz elétrica e outros serviços, havia a garantia de uma mesa farta para sustentar os filhos. Enéas Xavier, neto de Manoel, é quem conta: “Não havia muita dificuldade para se alimentar porque sobrevivíamos muito bem com peixe, farinha de mandioca e feijão”. A abundância de peixes foi o principal fator para que o pai de Enéas, Alfredo Xavier, fosse para Bertioga. Ele tinha canoas e redes e se estabeleceu em frente ao canal de Bertioga, onde é hoje a Sorveteria Rocha, na avenida Vicente de Carvalho, no Centro. Além disso, veio cuidar de umas terras da Companhia Urbanística de Bertioga (a atual
Foto JCN
Nas décadas iniciais do século XX, muitas famílias de outras cidades litorâneas vizinhas eram atraídas pela beleza exuberante, pela tranquilidade e pela abundância de peixes de Bertioga, além de ótimas condições para o plantio de banana e cana-de-açúcar. Assim foi com a família Xavier, que veio da Ilha de Santo Amaro, no Guarujá. Sua história em Bertioga começa com Manoel Bernardino Xavier, português que se instalou na praia das Tartarugas, área dos índios tupiniquins, entre os quais a índia Margarida, com a qual se casou. Tempos depois, ele foi contratado pelo governo estadual para cuidar do Farol da Moela, que vigia a entrada do porto de Santos.
“Pescávamos com o cerco feito de taquara, instalado onde é hoje o porto das balsas - robalo, parati, caratinga, tainha, bagre. Chegávamos a pescar cerca de 400 quilos e os colocávamos em caixotes de madeira para os italianos no Mercado Municipal de Santos” Enéas Xavier
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A história da família em Bertioga começa com Manoel Bernardino Xavier, português que se instalou em área dos índios tupiniquins, entre os quais a índia Margarida, com a qual se casou
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Sopreter Empreendimentos Imobiliários). Eles Guarás e apanhou um filhote de urubu. Quando chamavam de sítio, mas era um lugar à beira meu tio vinha com uma fieira de peixe e passada praia, próximo de onde é hoje a My Power”. va em frente à igreja católica, ele ficava sobre a cruz; ele o chamava e iam para casa. Ele entrava Enéas lembra bem da época: “Pescávamos na casa das pessoas e todos o conheciam. Em com o cerco feito de taquara, instalado onde é dias de jogos, ele voava junto com a bola”. hoje o porto das balsas - robalo, parati, caratinOutro entretenimento eram os bailes que ga, tainha, bagre. Chegávamos a pescar cerca de 400 quilos e os colocávamos em caixotes de ocorriam nos Barreiros, uma casa próxima madeira para os italianos no Mercado Munici- de onde hoje está a prefeitura. Para pal de Santos. Meu pai também era especialista chegar até lá era muito escuro e nos arrastões de praia. Eles compraram um ber- todos corriam, temerosos das rante, que era como se fosse uma buzina, para assombrações. “Meu tio assusquando o cardume estivesse no jeito do lance; tava muita gente porque ele aí ele soava a buzina para os outros apanharem pegava uma cabaça, que ainos peixes”. O cenário paradisíaco era um grande da tem em Bertioga, furava atrativo. “Era bem menino quando me chama- e fazia uma careta, colocava ram para ver as pegadas de uma onça, próximo uma vela acesa num pé de uma árvore; um dia ele ficou onde é agora o supermercado Caçula”. deitado e o pessoal atirou”. Enéas estudou na Escola Vicente de CarvaCom o tempo os familiares folho, onde hoje fica a Casa da Cultura. Ele conta que cursou até o quarto ano e os professores ram mudando e o progresso começou vinham de Santos. ”Saíamos da escola e íamos a chegar. Da família Xavier, Ênio - filho de tomar banho de mar e, antes, tinha um cemité- Enéas - mora em Bertioga desde os seus 17 anos, assim como alguns primos da família Faustino. rio na escola, que foi inundado pela maré e até Dos Xavier, boa parte foi morar no Guarujá, em achei um fêmur, certa vez, enquanto brincava”. Santos e outras regiões. “A nossa propriedade Além de brincar no mar, já havia o Bertioga ainda está na rua Doutor Júlio Prestes, 295, um Futebol Clube. Volta e meia, os jogos e treinos cantinho que ficou como lembrança. O rancho eram acompanhados por um visitante pitores- de pesca, com o progresso da cidade, deixou co, o Jacó. “Jacó era um urubu domesticado de existir e meu pai, naquela época, ficou muito pelo meu tio Pedro que, certa vez, foi à ilha dos bravo”, lembra Enéas.
2013
Família Xavier e família Faustino às margens do canal, na década de 60
Edição especial de emancipação de Bertioga
Foto arquivo família Xavier
1991
24 anos
Desenvolvimento
Parceira no desenvolvimento e na preservação ambiental A Cia. Fazenda Acaraú, responsável pela implantação da Riviera de São Lourenço, tem mais planos para a cidade Da redação Sérgio Levy, um dos proprietários da Cia. Fazenda Acaraú, conta que o traçado da rodovia Rio-Santos, a princípio, ficava mais próximo do mar. Entretanto, esse traçado mudou. “A estrada cortou uma área dentro da Fazenda Acaraú, que agregou os lotes na área que vai da Rio-Santos até a Serra do Mar”. A implantação da Riviera de São Lourenço teve início no final da década de 1970, com foco central na preservação ambiental e no desenvolvimento sustentado.
Foto JCN
No início dos anos 1960, a Companhia Fazenda Acaraú já era proprietária de uma gleba de 1.580 hectares na praia de São Lourenço, no então distrito de Bertioga. Data desta época seus planos de construção de um grande empreendimento no local. Compartilhavam a propriedade da área as famílias Ribeiro e Melo Peixoto, que, anos mais tarde, contrataram a Sobloco Construtora para executar o tão sonhado projeto, a Riviera de São Lourenço
Sérgio Levy e sua família têm vínculo com a cidade há mais de 60 anos
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Jornal Costa Norte
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Instalada em solo bertioguense, o grupo deu sequência a projetos de cunho ambiental e, atualmente, busca implantar um novo empreendimento, a exemplo daquele que a fez ficar. Desde 1999, a empresa desenvolve projetos ambientais de estudo e manejo de fauna e flora e também do solo e da água, com o envolvimento de diversos técnicos. Entre as atividades, está o monitoramento de animais com relação ao comportamento, deslocamento e hábitos silvestres. O Centro de Manejo de Animais Silvestres já identificou uma grande diversidade de fauna na área.
mônio Natural (RPPN) Hércules Florence. A RPPN é de iniciativa voluntária e tem caráter perpétuo, ou seja, uma área legal e ambientalmente protegida para as futuras gerações. Na mesma linha de preservação ambiental, a Cia. Fazenda Acaraú idealizou, para a área, o loteamento City Acaraú. Trata-se de um projeto de desenvolvimento urbano com regras de planejamento ambiental, que deve gerar aproximadamente 850 empregos diretos em sua fase inicial, e servir como exemplo de ocupação no litoral brasileiro.
O projeto prevê a instalação de villages, edifícios residenciais, centro comercial, hoHá, também, um viveiro de produção tel, centro de convenções e flat. Um de seus de espécies da Mata Atlântica no qual são maiores atrativos é o hotel, com espaços realizadas pesquisas com a vegetação, produção de flores e frutos e identificação de matrizes para coleta de sementes. Toda a A Cia. Fazenda Acaraú idealizou o loteamento City Acaraú. produção é plantada nas áreas mais degraUm projeto de desenvolvimento urbano com regras dadas da própria Fazenda Acaraú. de planejamento ambiental, que prevê a geração de aproximadamente 850 empregos diretos em sua fase inicial, e deve servir como exemplo de ocupação no litoral brasileiro
Reprodução de projeto artístico/Cia Fazenda Acaraú
Outro projeto importante desenvolvido é a soltura de animais silvestres. São realizadas atividades de levantamento, procedimentos de soltura e monitoramento de animais provenientes de apreensões do Ibama, prefeitura e Polícia Ambiental; recuperação e reintrodução de animais atropelados; e manejo em projetos licenciados, os quais são destinados pelos órgãos oficiais. Atualmente, a Fazenda Acaraú é uma das áreas reconhecidas pelo Ibama, para esta finalidade, no bioma Mata Atlântica e é referência nacional. Dos 1.580 hectares da Companhia Fazenda Acaraú, cerca de 1.080 hectares fazem parte da área rural, na qual estão localizados os viveiros e o centro de manejo de animais silvestres. Nessa mesma área, recentemente foi aprovada pelos órgãos ambientais a criação de uma Reserva Particular do Patri-
Edição especial de emancipação de Bertioga
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Desenvolvimento Foto JCN
Centro de Manejo de Animais Silvestres no qual são desenvolvidos projetos ambientais de estudo e manejo de fauna e flora, desde 1999
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diversificados, tais como área de lazer com piscinas naturais, SPA, restaurante, quadras de tênis, futebol, vôlei de areia e até uma pista de skate. O estudo e o relatório de impacto ambiental (EIA-Rima) foram elaborados durante três anos, a partir das demandas e necessidades locais. Os empreendedores destinaram, para a construção, áreas em dimensões menores do que as estipuladas pela legislação, a fim de manter o padrão de preservação ambiental e qualidade de vida. Para Levy, é uma felicidade apresentar um projeto em uma cidade como Bertioga. “A preservação ambiental está latente. Além disso, eu e a minha família temos um vínculo com a cidade há mais de 60 anos.”
Jornal Costa Norte
19 de maio de 2015