texto/text Teresa Pinto Leite · fotografia/photography Evelyn Kahn
Jardim do
PRINCIPE REAL
Q
uem sobe de S. Roque até ao Rato, passa por um dos bairros mais agradáveis de Lisboa. Zona de palacetes e prédios de habitação, com lojas porta sim, porta sim, salpicada de jardins, onde há sempre uma sombra amiga que convida ao descanso. O coração deste sítio é o Jardim do Príncipe Real, assim chamado em honra do então Príncipe D. Pedro, futuro rei D. Pedro V. Espaço aberto no coração da cidade acolhe passeantes cansados que vêm do Chiado, pares de namorados pacatamente recostados em bancos de madeira, velhos reformados que jogam à bisca ou à sueca à volta das suas mesas habituais, crianças que brincam na cerca dos baloiços ou aqueles que preferem simplesmente tomar uma bica ou um refresco. Pulam os cães finos com coleira que os donos passeiam à trela, os pombos que saltitam pelo chão procurando migalhas caídas dos cafés que aí se instalaram – desde o quiosque ao pavilhão de vidro, rodeados de mesas e cadeiras. O quiosque do Oliveira é ponto de encontro de uma certa elite do bairro. Ouve-se música, há conversa, combinam-se “programas”. Também é frequentado por estudantes que ali se juntam nos intervalos das aulas, conversando alegremente. No jardim, podem comprar-se jornais e até um pequeno alfarrabista expõe todos os dias os seus livros numa banca. Aos Sábados de manhã, monta-se um mercado de produtos biológicos para quem prefere alimentos mais sãos.
· con vida
S
e aquele chão falasse, teria muito que contar… Ainda em tempos medievais, um rei de Castela (D. João I), casado com uma princesa a quem, por direito, cabia o trono de Portugal (D. Beatriz), ali instalou as suas tropas, cercando as muralhas da cidade de Lisboa, acabadas de construir pelo falecido rei D. Fernando. A população da cidade e arredores acolhera-se em Lisboa, fugindo das tropas castelhanas e ajudava o Mestre de Avis (futuro rei de Portugal) a defender a cidade. Era uma zona de casais dispersos, com olivais e vinhas, como demonstra ainda a actual toponímia – Rua do Monte Olivete, Rua da Vinha. Só no séc. XVII começou a construção naquele espaço então denominado da Cotovia. Um nobre importante, o conde de Tarouca, ali mandou erigir o seu palácio que prometia ser um dos mais imponentes de Lisboa. Mas as obras pararam, as pedras destinadas ao palácio ficaram e tudo se desmoronou com o Terramoto de 1755. O Marquês de Pombal mandou então aquartelar aí o Regimento de Peniche, cujo abarracamento também deixou marcas na toponímia. Como a Igreja Patriarcal do rei D. João V, junto ao Paço da Ribeira, ficara arrasada com o sismo, logo se aproveitou o local e as “pedras do Tarouca” para a construção de uma nova patriarcal. Mas >>>