

UM GRITO PELA
EDUCAÇÃO
CMP Sindicato em defesa dos professores municipais

Cartilha Sindical Fevereiro de 2025
Expediente
Produção
CMP Sindicato
Autores
Ana Lucia Kapczynski
Anna Rhoden
Débora de Araujo Soares
Denize Vargas
Diretoria Colegiada
Mara Souza
Fotos
Andressa Wentz
Ingra Costa e Silva
João Lucas da Silva
Revisão
Andressa Wentz
Débora de Araujo Soares
Diagramação
Andressa Wentz
CMP Sindicato
R. Álvares Cabral, 340
Bairro Petrópolis
Passo Fundo (RS)
(54) 3622-6149
(54) 9 9921-6149 comunica@cmpsindicato.com.br
Sumário
4. Editorial
Diretoria Colegiada
6. Carta aberta
Construção coletiva
11. Sobre a angústia e a renúncia: relato de uma professora
Débora de Araujo Soares
17. Quando chega a aposentadoria
Denize Vargas


20. Plano de carreira e docência na Educação Infantil
Ana Lucia Kapczynski
30. Uma professora “de verdade” e o desafio da Educação Infantil
Ana Rhoden

40. Grito pela educação: um poema
Mara Souza
Editorial
Independente da forma ou regime de governo em voga no Brasil, salvo raríssimos momentos, uma máxima sempre se apresenta em nossa história: o descaso com a educação pública por parte dos nossos governantes. Isso nos leva a conclusão de que Darcy Ribeiro estava correto ao afirmar que “a crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto!”
Essa realidade se reflete em todos os níveis administrativos, tendo em vista que também é observada nos estados e municípios de nossa federação e, infelizmente, em Passo Fundo não é diferente. Vivemos em uma cidade onde seus administradores orgulham-se em divulgar na imprensa local (que inclusive conta com contratos milionários junto ao executivo para fazê-lo) os números do crescimento econômico. Ano após ano, segundo eles, nossa economia se desta-
UM GRITO PELA EDUCAÇÃO
ca a nível estadual e nacional, apresentando números expressivos e ganhando os mais variados tipos de prêmios que possam existir.
Entretanto, a realidade da educação pública, no chão da escola, não se altera. Ou ainda, quando muda, o faz para pior.
Passo Fundo conta com um orçamento que ultrapassa a casa dos bilhões de reais e tem a obrigatoriedade legal de investir 35% em educação, ou seja, dinheiro não é o problema, o problema são as prioridades. É notável a distopia de nossos administradores, que se preocupam demasiadamente com projetos que visam apenas e tão somente o engajamento nas redes sociais, mesmo que não possuam significância na vida dos alunos.
O descaso perpassa a educação infantil e o ensino fundamental, atingindo milhares de alunos, familiares e docentes. Exem-

plos disso são as faltas de vagas na etapa creche; encerramento do turno integral em nossa rede; falta de monitores para nossos alunos incluídos; estruturas deficitárias; não pagamento do piso nacional do magistério e de promoção para os professores da educação infantil. É no mínimo contraditório, uma cidade tão pujante economicamente, que envia anualmente grupos de estudantes e familiares, jornalistas e outros agregados, para o exterior, não solucionar os problemas básicos da educação. Isso ocorre, como referimos acima, devido ao fato destas questões não serem vistas como prioridades por parte dos nossos governantes. Como consequência desses descasos, temos poucos avanços nos índices educacionais de nossos alunos e um gigantesco estímulo para o “Apagão Docente” que vivemos. Nunca nossos professores adoeceram tanto, bem como, jamais ti vemos tantos pedidos de exoneração. Nossos cursos de licenciaturas não encon tram mais alunos, fazendo com que muitos encerrem suas atividades. Essa situ
ação não pode continuar desta forma. Esse não é o ensino público que queremos.
Almejamos uma educação pública de qualidade, laica, inclusiva e democrática. Capaz de promover o pensamento crítico e que permita a autonomia de nossos alunos. Ao mesmo tempo que nossas escolas sejam espaços privilegiados, onde o conhecimento científico e a cultura estejam ao alcance de todos. Que a profissão docente seja verdadeiramente reconhecida, valorizada e respeitada, formando assim, um círculo virtuoso.
Para que isso não seja apenas uma utopia, mas sim uma realidade, necessitamos de ações. É a isso que se propõe o “Grito Pela Educação”, uma denúncia ao descaso, mas também uma proposta para novas iniciativas. Precisamos urgentemente inverter a lógica que tem resultado na crise da educação.

Carta aberta
DESAFIOS
ENFRENTADOS
PELOS
PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO DO MUNICÍPIO DE PASSO FUNDO
Carta aberta à comunidade passo-fundense sobre os desafios enfrentados pelos profissionais municipais de educação
Tudo que existe possui ou deveria possuir uma finalidade. Um hospital, por exemplo, não tem razão de existir, a não ser tratar enfermos. Uma delegacia de polícia tem a única função de combater a criminalidade. Já, por sua vez, a escola possui a finalidade de ensinar de forma pedagógica, ou ao menos assim deveria ser.
Antes de seguirmos, uma ressalva é importante, este texto é um olhar de professor e se refere à realidade das escolas públicas, no caso, as municipais de Passo Fundo (RS), que acreditamos ser semelhante às demais do nosso estado e país. Certamente, a maioria dos brasileiros concorda que a qualidade do nosso ensino fica aquém do que desejamos. Muitos são
os fatores que podem ser elencados para esse resultado, pois o descaso vem de gerações. Dentre os principais, podemos destacar: desvirtuação da verdadeira função da escola; excesso de burocratização da ação pedagógica; desvalorização crescente da profissão docente e falta de gestão democrática.
A Constituição de 1988 estabelece que “(...) A educação é um direito de todos e um dever do Estado e da família”. Diante das responsabilidades que se dividem entre escola e família no processo educativo de nossos jovens, é senso comum que as famílias sejam responsáveis pela educação comportamental, de valores éticos e morais. Por sua vez, à escola cabe o ensino dos conteúdos científicos das diferentes áreas do conhecimento. Essa divisão de tarefas pode ser resumida da seguinte forma: “Enquanto a família efduca, a escola ensina”.
No entanto, essa separação de deveres está longe de acontecer. Nossos professores acumulam as funções da construção de conhecimento científicoque ocorre de forma pedagógica -, assim como são responsáveis pela educação que deveria acontecer nos núcleos familiares. Isso faz com que os desafios do magistério aumentem, pois essa demanda de trabalho sobrecarrega os docentes, fazendo-os assumir muitas tarefas que estão além do seu papel de ensinar.
A descaracterização da função docente consiste tanto em assumir o lugar da família quanto acumular atividades burocráticas, como preenchimento de planilhas e outros documentos. O planejamento de aulas é de extrema importância para uma educação de qualidade, tanto que o terço da hora-atividade é um direito recepcionado pela lei federal e municipal. Esse tempo deveria ser utilizado para a construção de projetos interdisciplinares relevantes para as comunidades e aulas atrativas para nossos alunos. Professor(a) é um agente pedagógico e não um ser burocrático.
A inclusão é um dos desafios que se apresentam na educação municipal, sendo um direito das pessoas com deficiência (PCD). No entanto, não há suporte para o trabalho pedagógico que esses estudantes merecem - e devem - receber. Cerca de 10% dos alunos de nossa rede municipal precisam desse atendimento,
Enquanto a família educa, a escola ensina “
porém a busca por monitores capacitados ainda é uma dificuldade. Faltam formações de qualidade para que esse trabalho seja efetivo. A inclusão pressupõe planejamento a longo
prazo, monitores concursados e turmas menores. Atualmente, passamos por um processo de enturmação, uma vez que o espaço físico das escolas não acompanha o crescimento no número de alunos, e nenhuma Escola de Ensino Fundamental (EMEF) foi construída nos últimos quatro anos. Com salas de aulas superlotadas, nossos professores, alunos típicos e atípicos sofrem.
deração esse cenário. Os programas de “gamificação”, por exemplo, determinam atividades iguais para contextos diferentes, promovendo a exclusão. Por mais que projetos como a “Missão Cidade Educadora” existam para proporcionar experiências enriquecedoras, eles acabam por retirar oportunidades de comunidades escolares em situação de vulnerabilidade.
O DESAFIO DA INCLUSÃO
As particularidades de cada escola também não são consideradas na rede municipal de Passo Fundo, diferenças entre escolas do centro e periféricas são tratadas com descaso. Em alguns casos, é possível observar maior acompanhamento e suporte familiar, o que possibilita que os estudantes tenham melhor aproveitamento. Entretanto, também existem realidades em que o aluno é levado para o espaço escolar para garantir uma refeição. Com condições tão diversas, os projetos promovidos pela mantenedora deveriam levar em consi-
Ao adotar uma igualdade universal, quando deveria buscar por uma equidade material, a Secretaria Municipal de Educação (SME) acentua as desigualdades sociais.
Os salários dos professores é um problema em todo o país, mas Passo Fundo tem suas peculiaridades. Ano após ano, o município bate recorde de arrecadação. A prefeitura sustenta que a economia não para de crescer, no entanto, essa suposta abundância não aparece na remuneração do magistério.
Frente ao piso nacional, o salário-base enfrentou uma perda superior a 70% na última década. A negligência é tanta que o executivo teve de excluir o nível 1 do plano de carreira, pois
Com salas de aula superlotadas, professores, alunos típicos e atípicos sofrem “
a carreira cada vez menos atrativa. Dentre os docentes que tomaram posse nos anos de 2023 e 2024, metade se exoneraram, o que demonstra a necessidade de inverter essa lógica com urgência.
Acreditamos que ninguém vive e governa de forma assertiva sem ser democrático. Temos o direito de receber uma escuta sensível de nossa mantenedora para desenvolvermos uma educação pública de qualidade para todos. Queremos usar nosso poder de fala e conhecimento, participando das decisões que envolvem a educação no município.
estava 60% abaixo do piso. Mesmo com graduação, mestrado e doutorado, nossos docentes ganham cerca de 30% menos que as carreiras do quadro geral com nível superior, ou seja, não há isonomia. O cená rio de baixos salários e so brecarga de trabalho torna


Sobre a angústia e a renúncia: relato de uma professora
Éum
privilégio poder escolher sua profissão; no meu caso, acho que ela me escolheu. Comecei a atuar em sala de aula muito cedo, bem antes de ter qualquer pretensão sobre o que faria profissionalmente. Comecei por acaso e, aos poucos, me apaixonei pelo magistério. Lecionei a disciplina de Língua Inglesa em escolas e cursos de idiomas, trabalhando com crianças, adolescentes e adultos. Da experiência com as crianças veio o desejo de cursar Pedagogia, muitos anos depois ingressei na educação infantil da rede municipal de ensino.
Apesar dos inúmeros desafios que enfrentamos diariamente ao trabalhar com seres humanos em constante formação, nunca tive
“
[...] nunca tive dúvidas sobre a minha escolha
dúvidas sobre minha escolha. Aprendi muito na educação infantil, período em que pude me dedicar a esse público ímpar que são as crianças em idade pré-es-
DÉBORA DE ARAUJO SOARES
colar. Trabalhei com os mais distintos grupos de estudantes, passei por mudança de governo e nova gestão, tanto na escola em que atuava quanto na Secretaria Municipal de Educação.
Mais de uma década após ingressar na rede, estive frente a um novo desafio: assumir uma segunda matrícula, desta vez nos anos finais do ensino fundamental. Apesar de ter sido chamada para assumir a disciplina de Língua Inglesa, para a qual prestei o segundo concurso, precisei trabalhar com projetos nos anos iniciais por seis meses. Como entrei na metade do ano e as escolas já estavam organizadas, tive de encarar os
FASES DIFÍCEIS
projetos que não tinham relação com a minha formação, mas era o que tínhamos no momento. Foi um aprendizado, mas foi muito desgastante, planejamentos de disciplinas diferentes, muitas turmas do primeiro ao quinto ano do ensino fundamental.
Após esse turbilhão de acontecimentos, consegui conciliar minha carga horária de Língua Inglesa em
uma única escola, com turmas do sexto ao nono ano. Imaginei que a fase mais difícil havia passado, pois a partir desse momento es-
Enorme
engano o meu. Foi aí que tudo piorou “
taria trabalhando na minha área de formação, com uma disciplina para a qual tinha formação. Enorme engano o meu, foi aí que tudo piorou. Antes de prosseguir, apenas um adendo: tenho 30 horas na educação infantil, já a nova matrícula tinha carga horária de 20 horas. Esse novo cargo deveria dizer respeito a vinte horas semanais da minha vida, que inclui várias instâncias
além do trabalho. No entanto, o que aconteceu foi muito diferente disso.
Voltando à história, assumi apenas a disciplina de Língua Inglesa, mas continuei com várias turmas e inúmeros planejamentos.
Além de salas lotadas, tinha uma média de dois alunos com laudo em cada uma delas. As exigências de planejamento específico para cada estudante com deficiência - que somavam-se aos planos mensais, trimestrais e anuais de cada
plataforma de ensino em dia de reunião pedagógica, mais uma criança com laudo chegando na turma, mais burocracia e prazos, mais e mais trabalho, exigências e cobranças.
SOBRECARGA DE TRABALHO
turma - levaram a uma demanda excessiva de materiais a serem organizados e postados. Isso sem falar no preenchimento do sistema com presenças, conteúdos e avaliações, que também precisavam ser diferenciadas para cada aluno incluído.
A sobrecarga de trabalho era imensa e a sensação que eu tinha era que tornava-se mais pesada a cada mês que passava. Sempre tinha um novo projeto, mais uma avaliação, outras atividades a serem postadas na
Como não poderia deixar de ser, em meio a esse cenário veio o adoecimento, a fadiga, a ansiedade, o desânimo. O trabalho deveria ser apenas uma parte da nossa vida, sem tomar o tempo que precisamos dedicar à família, aos cuidados pessoais, ao lazer, ao bem estar em geral. O que os professores vivem hoje vai de encontro a isso, pois o que vimos é o trabalho “roubando” parte da vida pessoal, levando-nos a adoecer e ter uma qualidade de vida ruim. Nesse período, lutei com os diversos sinais que meu corpo dava que não estava bem, com a baixa imunidade e o alto nível de estresse. Eu conhecia esses sintomas, pois converso diariamente com colegas professores que me procuram no sindicato para relatar suas angústias. Também vi colegas na escola em que trabalhava passando por situação semelhante, eu não estava sozinha nessa batalha.
DA PROFISSÃO QUE ESCOLHI À EXONERAÇÃO
Em seguida, iniciei um processo de crise de ansiedade, momento em que percebi que tinha ultrapassado meus limites e precisava repensar minhas escolhas. Vivi exatamente o que ouvia nos relatos dos docentes que atendia, senti na pele as dificuldades que sofriam. Pensei em desistir!
Desde o momento em que tive esse pensamento pela primeira vez e o dia em que realmente me exonerei da rede municipal passaram-se alguns meses. Não queria acreditar que estava cogitando a exoneração, não queria admitir que não suportava mais. O magistério foi a profissão que escolhi e nunca tive dúvidas sobre essa opção. Sabemos que é um ofício desafiador, mas através do qual sempre me senti realizada. Apesar das dificuldades normais da profissão, nunca passou pela minha cabeça fazer algo diferente. Sou professora por escolha, estudei muito a vida toda para exercer o magistério da melhor forma possível, dedicando-me aos alunos e fazendo a diferença na sua
formação.
Quando decidi fazer concurso público, estudei, me preparei, sonhei com o ingresso na rede municipal. Ninguém ingressa num cargo dessa forma pensando em ficar por algum tempo e, caso não der certo, desistir. A carga emocional dessa decisão foi muito pesada, parecia não ser certo, parecia que algo estava fora do lugar. Como eu poderia desistir depois de tudo? Foi para isso que tanto estudei e me qualifiquei? O que deu errado no meio do caminho? Eram muitas perguntas e incógnitas, angústias e aflições.
Em meio a esse turbilhão de pensamentos e emoções, fui vivendo semana após semana, esperando que uma resposta mágica aparecesse, o que não aconteceu. Minha saúde se deteriorava a cada dia, não tinha tempo para acompa nhar minha filha pequena, não tinha tempo para qua se nada além do trabalho, o que acabou tornando a profissão que tanto ama va um fardo muito pesado para carregar. Foi quando percebi que não poderia continuar, por mais medos e dúvidas que tivesse. To
mei a decisão de pedir minha exoneração e abrir mão do lugar pelo qual batalhei, e que entendia ser meu por direito.
Quando consegui avisar a todos que não retornaria à sala de aula após o recesso escolar, parece que já me sentia aliviada, finalmente teria alguma qualidade de vida. O simples fato de tomar essa decisão e comunicá-la aos colegas tirou um peso de minhas costas. O último mês de aulas teve muito trabalho, pois queria
[...] não fazia sentido me sentir feliz por não ser mais professora “

deixar tudo organizado para quem iria me substituir, mas mesmo assim foi mais leve. Sentia-me responsável por todos os alunos que estavam em minhas turmas, já os conhecia, queria continuar contribuindo com o seu desenvolvimento, o que causou um vazio por abandonar o barco no meio do caminho. Mas era a única coisa que poderia fazer, pois caso persistisse, minha saúde estaria em jogo. Foi difícil, porém necessário. No dia em que registrei oficialmente meu pedido de exoneração me senti estranhamente feliz. Não fazia sentido me sentir feliz por deixar de ser professora, mas esse era o sentimento: alívio. Essa experiência me fez refletir sobre o que está acontecendo com a profissão docente. Como pode uma professora ficar feliz por sair da sala de aula? Como pode desenvolver ansiedade ao pensar em entrar em seu ambiente de trabalho? Como pode gostar de sua função pedagógica, mas adoecer com todas as demandas que os gestores lhe atribuem diariamente? Que sociedade é essa que presta homenagens aos professores no dia
Enquanto eu luto, sou movido pela esperança “
15 de outubro, exaltando a profissão que forma todas as outras, mas esquece deles no restante do ano? Pior que isso, não só esquece, mas despreza e não reconhece seu valor. A partir de que ponto nossa profissão passou a ser tão desvalorizada? Que sociedade estamos formando quando colocamos docentes esgotados para dar aula em turmas lotadas, com inúmeras demandas, mas sem o suporte necessário? Até quando teremos professores?
São muitas perguntas e poucas respostas, no entanto, o que vale é a reflexão. Não podemos naturalizar essa situação, precisamos instigar nossos colegas a pensar em como chegamos a esse ponto, pois só assim poderemos vislumbrar formas de mudança. A resignação e a estagnação não podem jamais ser nossa opção, pois, como dizia Paulo Freire, “Enquanto eu luto, sou movido pela esperança; e se eu lutar com esperança, posso esperar”.

Quando chega a aposentadoria
DENIZE VARGAS
Quando chega a aposentadoria o sentimento normalmente é do dever cumprido, mas ao mesmo tempo vem uma análise de tudo que se viveu na escola e a lembrança dos nossos alunos que, neste momento, dão significado para a caminhada realizada e para o dever que se cumpre.
Vendo a educação agora de “fora” da escola não tem como não relembrar o tempo passado, a sala de aula, os colegas, a direção, os alunos e a nossa trajetória de 25, 30 anos ou mais. São tantos os aspectos a serem analisados que eu me sinto perdida. Aqui, faço uma tentativa de organizar as memórias de uma trajetória marcada pelo trabalho árduo feito em uma sala de aula com no mínimo 25 alunos, cada um com suas peculiaridades, e você ali, se sentin-
do responsável pela educação, pela aprendizagem. Muitas vezes temos sentimentos de derrota e outras vezes de vitórias... Mas os questionamentos são constantes, a luta é constante. Apesar de nossas limitações, sempre fazemos uma análise pedagógica de cada momento vivido até chegar à aposentadoria.
[...] nosso
ambiente
escolar vai além da sala de aulta “
Alguns se transformam em bons resultados, já outros não são tão significativos.
O ambiente escolar vai além da sala de aula… São inúmeros seres humanos que passam por nossas vidas, onde buscam crescer, adquirir conhecimento e formação para um “futuro brilhante”, assim como nós educadores idealizamos contribuir para o crescimento de nossos estudantes. Muitas vezes, pensamos em desistir, buscar outra profissão, mas não: não desistimos porque somos teimosos e acreditamos em um mundo melhor, acreditamos em nossos alunos, no seu crescimento, no poder que temos quando pensamos de forma crítica e não aceitamos o que nos é imposto.
As questões políticas e pedagógicas também são recorrentes no percurso dos professores. É preciso ter posturas pedagógicas de acordo com o que pensamos e agir com convicção dentro de nossas perspectivas para formar estudantes com raciocínio próprio e posicionamento acolhedor, não permitindo que a autonomia lhes seja roubada e que o compro-
acreditamos no poder que temos quando pensamos de forma crítica “
[...]
misso com o que é justo seja uma postura de vida.
Devemos buscar sempre a formação continuada, não podemos parar no tempo, porque nossos alunos se renovam ano a ano e merecem, antes de mais nada, expectativas de um futuro promissor. Merecem ser reconhecidos enquanto sujeitos, donos de suas opiniões, pessoas atuali-
zadas e preparados para o mercado de trabalho, esse deve ser nosso objetivo na formação de nossos estudantes.
Quando chega a aposentadoria, tudo isso fica para trás… no entanto, nos sentimos realizados porque cada aluno, cada colega que passou em nossas vidas teve um significado. Deixamos muito de nós nessa caminhada e guardamos muito desse percurso. Mas, infelizmente, nem sempre recebemos a contrapartida de nossos governantes, pois inúmeras são as perdas da aposentadoria.
Dentre esses descasos, podemos citar o primeiro ato administrativo dessa nova etapa: passar de ativas para inativas. Ao ingressarmos no serviço público, temos uma verdadeira solenidade de posse, já ao nos aposentarmos, após uma caminhada de décadas, apenas assinamos um documento em uma sala administrativa. Nossa trajetória profissional parece insignificante ao poder público.
Esse sentimento de desprezo não fica apenas nas entrelinhas, existem ações práticas que o evidenciam:
a retirada do vale-alimentação dos inativos do município de Passo Fundo, um direito adquirido há anos, nos é negado sem nenhuma compensação financeira. Os salários cada vez mais baixos também são exemplos desse descaso, que coloca alguns professores aposentados em situação de quase vulnerabilidade social, pois o valor recebido é insuficiente para cobrir os gastos com saúde, que só crescem nessa etapa da vida.
Lutar por nossos direitos e enfrentar os desafetos faz parte da trajetória do magistério. Agora, aposentadas, o sentimento que nos resta é o de busca por igualdade, respeito e valorização dos professores como agentes de transfor-

Plano de carreira e docência na Educação Infantil
ANA LUCIA KAPCZYNSKI
Otexto que apresento aborda não somente as reflexões sobre a trajetória de uma professora que atua na Educação Infantil de Passo Fundo desde 2010, mas também as análises da docência com filosofia iniciada em 2020, às vésperas do estopim da pandemia de Covid-19. Às vivências de sala de aula, acrescento o olhar de minhas pesquisas em políticas educacionais, iniciadas com o ingresso no mestrado em educação em 2014, e que continuam até a presente data pelo vínculo ao GEPES/UPF. Dialogando com as experiências do cotidiano escolar, as pesquisas das quais participo permitem analisar as teorias em sua transposição prática e repensar
as práticas de sala de aula à luz das teorias que fundamentam as pesquisas, uma prática definida por Paulo Freire como práxis educacional que qualifica a pesquisa em educação e aponta caminhos para a atuação docente. Como referido anteriormente, o título de mestra em educação que alcancei não é reconhecido no plano de carreira municipal pela inexistência do nível 4. Enquanto considero essa formação de suma importância para a docência, entristecida observo relatos de colegas sem motivação para dedicar suas energias, tempo e dinheiro em um curso de formação superior, no qual não há reconhecimento do esforço dispensado. Com isso, a
DESVALORIZAÇÃO E POLÍTICAS EDUCACIONAIS
Diante do exposto, as reflexões a seguir estão orientadas por algumas perguntas inquietantes: como está o plano de carreira do magistério municipal? Ele contempla os direitos previstos nas políticas educacionais brasileiras?
As garantias que a legislação prevê são asseguradas às professoras e aos professores da rede municipal de Passo Fundo? Por que a formação em pós-graduação stricto sensu não é reconhecida no plano de carreira do magistério municipal, mesmo havendo incentivos com bolsa parcial de estudos para cursar este grau de escolaridade? Há anos temos observado que pautas dessa natureza sempre voltam como demandas de lutas do CMP Sindicato, tendo em vista as brechas nas políticas educacionais que deixam margem para excluir ou atender parcialmente os direitos previstos no plano de carreira do magistério.
educação municipal perde a oportunidade de contar com profissionais mais capacitados em seu quadro. Os baixos salários também são limitadores para a continuidade dos estudos, uma vez que as despesas ficam por conta do/a professor/a estudante, ainda que possa receber bolsa parcial. O excesso de trabalho é outro limitante porque suga as forças vitais do professorado e desencoraja a continuar os estudos. Confesso que almejo cursar doutorado, mas as condições reais de trabalho não são favoráveis para tal decisão. Nesse sentido, penso que o plano de carreira deveria prever mais tempo de hora atividade à distância para docentes que estudam e participam de grupos de pesquisa. Na teoria, a Lei 14.817/24 retoma as diretrizes citadas no artigo 67 da LDB 9.394/96, reafirmando que “as escolas públicas devem oferecer um plano de carreira que estimule o desenvolvimento profissional em benefício da qualidade da educação” (Agência Senado). No entanto, as leis e decretos relacionados são proposições genéricas e sem força de lei no que se refere ao detalhamento em sua aplicação.
No caso da Educação Infantil, o discurso de que a sua estruturação é recente e que ainda estamos no processo de implementação das leis se reverte em justificativa para que a burocracia protele o acesso a muitos direitos. Cito como exemplo a burocracia criada pela administração pública municipal de criar vagas para a promoção de docentes da Educação In-
fantil e a inexistência dos níveis 4 e 5, inclusive para a docência no Ensino Fundamental.
CRECHES BRASILEIRAS
“
[...] o excesso de trabalho é limitante e suga as forças vitais dos professores
Um retorno ao percurso histórico nos revela que a Educação Infantil tem sua origem nas creches estruturadas como entidades assistenciais, com o objetivo de atender as crianças pobres. As creches brasileiras coincidiram com a urbanização e a inserção das mulheres no trabalho das indústrias, de modo semelhante a diversos países regidos pelo capitalismo ocidental. Essa conquista foi muito importante para as mães trabalhadoras, pois as creches representaram um lugar seguro para deixar as crianças enquanto as mães trabalhavam. Do mesmo modo, as creches foram vitais à emancipação das mulheres em relação à autonomia financeira, participação política, direitos reprodutivos e enfrentamento à violência doméstica. Narra a história que as creches surgiram no século XVIII e se reformularam com a democratização da
escola básica, diante das reivindicações por propostas pedagógicas para que o atendimento às crianças não se reduzisse ao assistencialismo. As teorias de Maria Montessori, Piaget e Vygotsky ilustram os anseios dessa época.
EDUCAÇÃO INFANTIL
No Brasil, mesmo que as reivindicações tenham se fortalecido desde meados do século XX, as creches passaram a ser reconhecidas como escolas de Educação Infantil e primeira etapa da Educação Básica somente com a Lei de Diretrizes e Bases 9.394/96. A legislação definiu orientações curriculares, critérios de formação profissional para a docência, estabeleceu plano de carreira e tempo de adaptação da lei à estruturação da Educação Infantil. Em sua primeira edição, a LDB 9.394/96, art. 4º, inciso IV, previu o “atendimento gratuito em creches e pré-escolas às crianças de zero a seis anos de idade”, mas esta lei foi implementada em torno de 2005 na maioria dos municípios brasileiros. Em
[...] as creches representaram um lugar seguro para deixar as crianças “
Passo Fundo, a primeira nomeação de professoras concursadas ocorreu em 2006, sendo que o município passou a contar com quadro completo de docentes via concurso público e exigência de formação compatível para o cargo apenas em 2012, persistindo a morosidade nas promoções.
Vale ressaltar que as lutas sindicais foram essenciais à conquista dos direitos profissionais para docentes, de
modo especial para estruturar o plano de carreira da Educação Infantil. Passados quase 20 anos da primeira nomeação, há barreiras a vencer para usufruir determinados direitos, em decorrência das burocracias das políticas educacionais e outras praticadas pela gestão municipal. No caso de Passo Fundo, refiro-me à criação de vagas para as promoções e as filas de espera no aguardo da mudança do nível 2 para o nível 3, bem como a inexistência do nível 4 para mestrado e nível 5 para doutorado. No discurso, gestores da administração pública incentivam a formação em pós-graduação stricto sensu e firmaram convênio com a Universidade de Passo Fundo, porém não integraram os níveis 4 e 5 ao plano de carreira do magistério municipal.
Por não haver um sistema de educação consolidado como política de Estado em nível nacional, estadual e municipal, as políticas educacionais são voláteis e alteradas a cada governo, não raras vezes inserindo projetos mirabolantes e incompatíveis com as realidades escolares. Essa
determinados direitos “
[...] há barreiras a vencer para usufruir
prática comum facilita a retirada de direitos já conquistados, além de tornar a escola refém de interesses políticos, eleitoreiros e partidários. Basta acessar o documento no site oficial para verificar a frequência com que a LBD 9.394/96 é alterada via decretos e novas redações.
POLÍTICAS NEOLIBERAIS
A universalização da Educação Básica coincidiu com a implantação das políticas neoliberais no Brasil e o
sistema escolar tornou-se alvo dos interesses mercantilistas, visto como negócio altamente lucrativo pela quantidade de escolas distribuídas no território brasileiro. Somado a isso, as políticas educacionais, as pesquisas em educação e a formação docente tendem a ser produzidas por profissionais que não atuam em escolas públicas do ensino básico, com frequência impondo, de maneira arbitrária, projetos e leis não condizentes com a realidade escolar, demandas de trabalho que extrapolam a carga horária e exaurindo o tempo de hora atividade com tarefas que não resultam na qualidade do planejamento pedagógico aplicado em aula. Observa-se que a gestão pública do município de Passo Fundo “segue à risca” os ditames das políticas educacionais neoliberais, sendo a postura autoritária o recurso utilizado para reduzir a docência a um trabalho técnico e burocrático que visa padrões de qualidade e destaque na mídia, mas descuidando das condições de trabalho. A remuneração é incompatível com o grau de for-
mação exigida para o magistério, o princípio da gestão democrática é omitido nas “ordens de serviço” como forma de comunicação com o magistério e os critérios de avaliação
“
[...] o sistema escolar tornou-se alvo dos interesses mercantilistas
definidos pela SME estabelecem hierarquias entre as escolas. Os proventos não condizem com o piso nacional do magistério e as demandas burocráticas exigem horas adicionais de
trabalho não remuneradas. Houve avanços na oferta de formação continuada em conformidade com as demandas de sala de aula, mas essa formação é oferecida somente para a etapa pré-escolar.
As condições desfavoráveis de trabalho e a desvalorização do magistério municipal causam desmotivação, adoecimento e desviam o foco da docência que é ensinar. Falta apoio para resolver as questões específicas das escolas, tais como: problemas relacionados ao fechamento de quadros, conflitos entre docentes, situações que surgem na relação com as famílias, questões de infraestrutura, manutenção das escolas e insuficiência de materiais pedagógicos e de expediente. Outro fator de desgaste físico e emocional se refere à transferência de responsabilidades das famílias para a escola, especialmente a tarefa de ensinar valores, limites, noções de respeito mútuo, autonomia, desenvolver a capacidade de lidar com frustrações e de resolver conflitos.
Em diversas ocasiões, o modo com que a ges-
tão municipal se relaciona com o professorado resulta na perda do referencial de autoridade do/a docente, seja no sentido de autoridade do saber quanto de referência de educador/a em sala de aula, reduzindo o professorado a meras “peças” que devem funcionar no sistema. Refiro-me às decisões tomadas por representantes da SME diante de queixas ou reivindicações de algumas famílias, resultando em determinações impostas às escolas, sem diálogo com as pessoas envolvidas.
Postura semelhante é percebida diante de situações específicas sobre questões internas das escolas.
EDUCAÇÃO INFANTIL
É indiscutível os avanços conquistados na educação inclusiva, mas as atribuições proferidas às professoras e professores não raras ve zes se reverte em desgaste por falta de suporte neces sário. No cotidiano escolar, a ausência de encaminha mentos para avaliar crian ças menores de três anos de idade, com suspeitas de deficiências, dificuldade
de aprendizagem e altas habilidades leva a atrasar o acompanhamento pedagógico individualizado. De modo semelhante, estudantes com laudo têm sua formação comprometida, seja pela insuficiência de monitores/as e, quando há contratação de monitores/as, os/as profissionais contratados não possuem formação afim para auxiliar as crianças em suas necessidades específicas. Além disso, a rotatividade de monitores/as dificulta o estabelecimento do vínculo com essas crianças. Falta formação continuada específica para as professoras e os professores, apoio e material pedagógico para auxiliar no atendimento educacional especializado que acontece concomitante às aulas com as turmas regulares.
A relação da mantenedora com o magistério tem negligenciado os princípios da gestão democrática, impondo excesso de projetos, sem consultar os interesses e as realidades das instituições, desconsiderando as faixas etárias e os projetos que se encontram em andamento nas escolas. Essa postura autoritá-

ria por parte da Secretaria Municipal de Educação compromete a autonomia
[...] a relação da mantenedora com o magistério tem negligenciado a gestão democrática “
das professoras e dos professores e a liberdade de cátedra, direito assegurado no artigo 206 da Constituição Federal de 1988. Muitos projetos são incompatíveis
com a realidade das escolas, o perfil da comunidade escolar e a infraestrutura das escolas, tais como o projeto “ki da horta”, tendo em vista que várias escolas não possuem área externa adequada. Considero o projeto interessante, porém as escolas não contam com servidores efetivos para auxiliar no manuseio da terra e das plantas. A gestão escolar também esbarra nos escassos recursos financeiros, morosidade diante das reivindicações, insuficiência no quadro de profissionais e falta de autonomia perante a SME. Quando os pais fazem reclamações direto para a SME, as decisões e sanções são atribuídas, sem ouvir as/os professoras/es e direções das escolas envolvidas diretamente nas questões. A referência autoritária da expressão “ordem de serviço” para repassar informações e deliberações para as escolas por parte da secretaria da educação reafirma o caráter autoritário da mantenedora.
Em síntese, percebe-se a necessidade de revisar o plano de carreira do magistério, as relações insti-
tucionais e promover estratégias de incentivo à formação continuada. Em relação aos cursos em nível de pós-graduação stricto sensu, o plano de carreira deveria assegurar financiamento e disponibilizar tempo adicional para dedicação aos estudos e pesquisas. Precisamos avançar na promoção para o nível 3 e inserir os níveis 4 e 5 para contemplar docentes com mestrado e doutorado. A formação continuada ofertada pela mantenedora deve respeitar o horário de trabalho e priorizar temas relevantes que possam auxiliar na atuação em sala de aula. Não podemos aceitar a superficialidade de cursos que vêm sendo realizados por editoras, restritos a dinâmicas de auto-ajuda, com abordagens distantes da realidade das escolas públicas infantis ou nos culpabilizando pelo suposto fracasso escolar.
GARANTIA DE DIREITOS
Para encerrar, reconheço que a Educação Infantil de Passo Fundo obteve conquistas significativas no plano de carreira, mas
é preciso avançar na garantia dos direitos no que se refere à valorização do trabalho e à viabilidade para cursar pós-graduação stricto sensu, adequando carga horária e remuneração como forma de incentivo. Reitero o importante papel do sindicato como
[...] não podemos negociar direitos por favores “
ferramenta de luta, pois as políticas educacionais são vulneráveis aos projetos de governo que tanto sancionam quanto retiram ou relativizam direitos previstos em lei. Os direitos conquistados podem ser subtraídos a qualquer momento, o que exige vigilância e mobilização permanente. Não podemos negociar direitos por favores ou qualquer forma de gratificação. Organizar-se como classe é condição para conhecer, assegurar e conquistar nossos direitos. Sigamos na luta!

Uma professora “de verdade” e o desafio da educação infantil
ANA RODHEN
I niciei minha carreira de educadora no ensino fundamental, trabalhando com anos iniciais e anos finais. A formação em pedagogia nos dá uma licenciatura plena, o que significa que nos confere o título para trabalhar com anos iniciais e também com educação infantil, o que me permitiu prestar concurso público e tomar posse em dois concursos diferentes: um para o ensino fundamental e um para a educação infantil.
O trabalho na educação parece uma picada da tal da “mosca azul”. Desconheço colegas professores que tenham apenas uma faculdade de licenciatura ou que não tenham pós-graduação. É uma espécie de inquietação profunda que nos impele a querer
descobrir cada vez mais as entranhas do aprendizado, seja em quaisquer níveis de atuação. Talvez por isso que chamemos o processo de ensino-aprendizagem, pois é uma constante troca com os alunos ao mesmo tempo que uma eterna busca pelo conhecimento. Como também fui picada pela mosca, a segunda graduação veio, na área de Ciências Sociais, e as pós-graduações são constantes e intermitentes.
Dito isso, a escolha do texto possui um motivo bem óbvio! Eu havia sido professora de 5º ano de um aluno no ensino fundamental, e quando iniciei as atividades na educação infantil, por meio de uma nova nomeação, ouvi esta frase da mãe do meu estudante, que me inquiriu so-
bre meu trabalho dizendo: “mas você está trabalhando na ‘escolinha’... eu pensei que você fosse professora ‘de verdade!’”. Na época, confesso que o comentário me incomodou profundamente, assim como outros feitos na melhor das intenções por conhecidos e amigos… Aos poucos, tenho compreendido o imaginário popular sobre o que é a educação infantil e a forma pejorativa como ela é vista.
O surgimento desse nível de ensino ocorreu pela necessidade da mão de obra feminina no mercado de trabalho, pela manutenção da renda familiar, ou pela complementação desta. Durante muito tempo, as crianças foram vistas como mini-adultos, ou adultos em formação, e as crianças mais pequenas eram mantidas à parte das relações sociais, até que, por meio da pesquisa e do desenvolvimento social e científico, descobriu-se que os primeiros anos de vida são a base para a formação do ser humano nos aspectos físico, cognitivo, psicológico e social. No Brasil, a educação infantil foi normatizada juntamente com
[...] os primeiros anos de vida são a base para a formação do ser humano “
os demais níveis de ensino através da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), promulgada no ano de 1996, em decorrência do previsto na Constituição Federal de 1988. Sendo a educação infantil normatizada conjuntamente com os demais níveis de ensino, presume-se que durante estas últimas décadas ela tenha avançado e sido estruturada da mesma forma que as demais. Só que não! Isso não
quer dizer que tenhamos um cenário perfeito quando se trata do ensino fundamental. Muito pelo contrário, inúmeros problemas e questões que parecem eternos círculos viciosos na educação são bastante comuns entre os dois níveis, porém, na educação infantil, tudo ocorre com mais demora e um certo quê de displicência.
INCLUSÃO SOCIAL
Por exemplo, a inclusão ainda não acontece de forma efetiva nas escolas, por vários fatores, sendo que alguns estudantes estão apenas ocupando o espaço escolar. A novidade aqui é que, com a obrigatoriedade da educação infantil, e a presença das professoras ‘de verdade’ na vida dos alunos, é cada vez mais evidente e precoce a percepção de comportamentos neurodivergentes, assim como as tentativas de sensibilização familiar e possíveis encaminhamentos. A descoberta dos sintomas ou a confirmação do diagnóstico são processos profundos, temerosos, e que geram sofrimento para
os familiares, pois nenhuma mãe gera um filho com a perspectiva de uma neurodiversidade ou deficiência. Ainda assim, logo após o diagnóstico, inicia um outro desafio: a garantia dos direitos dessa criança.
Para que a inclusão aconteça efetivamente, é necessário um suporte efetivo e real. Para isso, houve a implementação de um local que deve servir de apoio, auxílio para diagnóstico e desenvolvimento dos alunos, denominado Centro Pós-Covid (não tem relação nenhuma com positivação para o vírus do Covid-19, diga-se de passagem). É importante que as pessoas responsáveis por avaliar os estudantes no Centro Pós-Covid realizem observações no ambiente escolar, pois o comportamento em uma sala individual, com ambiente controlado, certamente é diferente do que acontece na sala de aula e nas interações. Da mesma forma, apenas uma entrevista e interação com a criança não irá demonstrar a complexidade de seus aspectos comportamentais. Outro aspecto comum entre os dois níveis (infan-
til e fundamental) é que a maioria dos encaminhamentos retorna sem reconhecimento de alguma possível patologia e diagnóstico. Houve a implementação do termo “limítrofe”, que não caracteriza um diagnóstico, ao mesmo tempo que deixa o aluno no limbo da dificuldade de aprendizagem permanente, e quase sempre, sem ter a devida atenção individualizada de que necessita para o seu desenvolvimento. Isso muitas vezes gera o entendimento de que a escola encontra “problemas” nos alunos, sendo
[...] para que a inclusão aconteça efetivamente, é necessário um suporte efetivo e real “

que na escola são acompanhados por profissionais competentes e especializados para os cargos que ocupam, como o professor titular e equipe gestora, e não encaminhados aleatoriamente ou sem fundamentação. O que nos faz questionar sobre a relação entre esses atendimentos e a demanda financeira, de responsabilidade da mantenedora, que se instaura pós-diagnóstico.
A gestão democrática também não ocorre efetivamente, pois muitas coisas são impostas, especialmente relatórios e
burocracias. Os professores e a gestão estão inseridos numa corrida contra o tempo para conseguir produzir e encaminhar documentos e mais documentos, cujos formatos e finalidades não foram discutidos com professores e gestores. Nesse quesito percebe-se que diversos profissionais que atualmente trabalham na gestão da educação municipal possuem vasta formação curricular, e em muitos casos, nenhuma (ou pouca) experiência prática de sala de aula nos níveis de ensino que competem ao município legalmente, que são a educação infantil e o ensino fundamental. É importante salientar, também, que dentro de Passo Fundo as comunidades escolares possuem suas próprias particularidades, e o que se aplica como prática necessária ao ensino em uma escola muitas vezes soa como agressiva, desrespeitosa ou inaplicável em outra.
EDUCAÇÃO DE QUALIDADE
A gestão democrática demanda o conhecimento da comunidade escolar,
suas especificidades, necessidades, propensões, e até mesmo gostos diferenciados. Há motivos legais e educacionais para que o Projeto Político Pedagógico de cada escola seja feito de forma individual, necessitando de um diagnóstico sócio-cultural e econômico que é essencial para a formação da identidade e proposta pedagógica da escola, além de sua missão, valor e filosofia, com a finalidade de promover educa-
[...] os professores estão inseridos em uma corrida contra o tempo “
ção de qualidade.
Bem, esta é uma visão generalizada da educação municipal. Mas Passo Fundo possui uma bem disposta divisão entre o ensino fundamental e a educação infantil. Comecemos pela carga horária: o concur-
[...] “já foi pior”, dizem as colegas “
so para educação infantil é de 30 horas semanais, já o de ensino fundamental é de 20 horas. A legislação prevê que para garantir a qualidade da educação, um terço dessa carga horária seja disponibilizada para o planejamento das atividades docentes. Isso tem sido uma luta constante e desgastante.
Como iniciei a trajetória no ensino fundamental, habituei-me com a hora-atividade semanal. Isso significa ter um turno semanal para planejar, avaliar, preencher relatórios e pensar as práticas que serão adotadas em sala de aula, inclusive as atividades diferenciadas para os alunos com laudo ou ‘limítrofes’... Qual foi minha surpresa na educação infantil ao saber que para esse nível, embora os planejamentos exigidos sejam semanais, a hora-atividade das professoras “de verdade” são mensais! Bem, dizem as colegas, “que já foi pior”, que houve tempo em que este direito não era garantido, e sequer havia a garantia deste turno mensal… Há um ‘desconto’ diário de alguns minutos por turno, do que ainda necessitamos prestar contas através de uma planilha (exclusiva da educação infantil), para o que fazemos de planejamento nesses pequenos períodos.
Ora, educação infantil é utilizar meios pedagógicos para o desenvolvimento da criança de 0 a 6 anos de idade, e pressupõe o pensar pedagógico e lúdico das interações do aluno
com o meio em que atua. Não há atividades avaliativas por meio de provas, como no fundamental. Há a observação e avaliação individualizada sobre como os pequeninos estão se desenvolvendo, analisando, interagindo, demonstrando sentimentos, falando, andando, correndo, se alimentando, reagindo às experiências, entre tantos outros aspectos necessários ao desenvolvimento humano. O professor da educação infantil é responsável por propor e executar atividades que incentivem esse desenvolvimento, ao mesmo tempo que o aluno cresce e desenvolve motricidade fina, motricidade ampla, capacidade de compreender os acontecimentos ao seu redor, e o mundo. Penso que há uma responsabilidade imensa no despertar das aptidões e gostos de cada uma dessas vidas que se encontram sob nossa responsabilidade. Mas que tempo há para o pensar na educação infantil e qual o motivo de não ser concedido este tempo para os professores “de verdade” desse nível educacional?
Outro grande diferen-
cial na educação infantil é a necessidade de um profissional de apoio em sala de aula. Bem, esse importante profissional que auxilia na segurança física, alimentar e de higiene dos alunos pequenos foi extin-
[...] não há mais necessidade deles? “
to do quadro de servidores do município. Não há mais necessidade deles?
Pelo que experiencio, as crianças pequenas continuam necessitando de trocas de fraldas, roupas, higienização, escovação dentária, alimentação, entre outros… Como a mantenedora excluiu esse cargo, então?
PÚBLICO X PRIVADO
Atualmente, essa função tem sido executada por profissionais terceirizados, o que significa que a exigência anterior de formação para a área de educação não é mais necessária.
O que também significa que a flutuação de profissionais na escola de educação infantil é muito grande e inconstante. O cargo de concurso público deu lugar a vagas em empresas privadas, onde as pessoas buscam uma atividade laboral, e muitas vezes se espantam com o que de fato significa o trabalho, desistindo de suas funções por não se adequarem a elas, pela remuneração baixa e pelas especificidades que o ensino traz. A maioria desses profissionais é composta de pessoas honestas, sérias, comprometidas e algumas até se identificam com a profissão docente após adentrar no mundo escolar. Porém, há sempre o risco para nossos pequenos da introdução em sala de aula de pessoas alheias ao sistema escolar, em qye algumas vezes é necessário dizer que não se pode deixar a porta da escola aberta, pois há risco para
O cargo de concurso público deu lugar a vagas empresas privadas “
os pequenos.
Dessa forma, tanto cada escola, quanto cada professor, fica à mercê de poder realizar um trabalho de qualidade, ou não, dependendo de ter a presença de um profissional de apoio, ou não. Temos aqui desde profissionais que auxiliam na limpeza e higienização, monitores e estagiários. Coincidência ou não, pouco antes das eleições municipais houve a devida demanda de profissionais
“
Saber onde estamos e para quem trabalhamos
atendida, de acordo com o número realmente necessário para cada turma e escola. Já nos três anos anteriores, houve falta desses profissionais e muito, mas muito adoecimento dos professores, justamente pelo excesso de demandas e responsabilidades. Outra coincidência, ao final do ano letivo diversos desses profissionais de apoio foram demitidos pelas empresas terceirizadas responsáveis pela prestação
desse serviço.
Muitos dos problemas e desafios que a sociedade enfrenta desembocam na escola. Na educação infantil percebe-se a demanda pelo cuidado dos filhos por tutoras amorosas e prestativas, mas que na maioria das vezes, não tem reconhecimento pelo profissionalismo e formação excepcional para as funções exercidas. Somos especializadas em desenvolvimento infantil e humano e vistas como cuidadoras.
Não que os olhinhos e sorrisos desses pequenos seres não nos cativem e nos inspirem os mais puros sentimentos. Mas jamais vi um pediatra, por exemplo, ser inquirido sobre ser pediatra de verdade ou não, ou sobre trabalhar por amor.
Atuamos em escolas públicas e das quais nos orgulhamos. Entretanto, nos últimos anos, percebemos um contrassenso quando há o comparativo e a exigência para equiparação com a escola privada. Para quem desconhece o serviço público, há inúmeras responsabilidades e exigências para tal, que vão da formação específica até
o comprometimento civil e penal pelas funções. Enquanto no serviço privado é possível fazer tudo que é permitido, no serviço público é dever fazer somente o que a lei permite. Há uma imensa cratera entre um e outro.
A forma de atuação e de trabalho não pode jamais ser comparada com a rede privada de ensino, pois difere dela desde a condição sócio-psicossocial dos alunos até a rede de apoio familiar, para dizer o mínimo. Tentar parametrizar o público com o privado desconsidera um dos principais aspectos da educação, que é saber onde estamos e para quem estamos trabalhando.
É preciso olhar para as escolas e educadores como os verdadeiros pro fessores olham para seus alunos, com amor, empatia e de forma individualizada, considerando o contexto em que estão inseridos.
Muitas vezes na ges tão pública, especialmen te para quem vem da rede privada, confunde-se au toridade com autoritaris mo. Ter autoridade e você exercitá-la de uma manei ra tranquila e transparente
Educar é um ato de amor! “
é uma tarefa difícil. A autoridade se faz pela própria prática da vivência e experiência, e não há necessidade de se fazer valer de ameaças e subterfúgios. Educar é um ato de amor! Liderar é uma ação de quem sabe onde está e com quem está.

Grito pela educação
UM
POEMA DE MARA
SOUZA
Grito de liberdade
Grito de indignação
Grito de basta
Grito de emoção
É sempre a mesma história
Querem sempre nos calar
Chega de descaso, de coação
Chega, chega de exploração
Não podemos nos expressar
Isso causa revolta
O negócio é trabalhar
De preferência... sem falar!
Estamos sem autonomia
O que querem é nos calar
Estamos sem voz nem vez
Querem nos amordaçar!
Dessa ideia autoritária
Precisamos nos livrar...
De que o professor não pode falar!
Se falamos, não somos ouvidos
Se nos calamos,
passamos despercebidos
Então não nos calarão...
Gritaremos sempre pela educação!
Gritaremos por liberdade,
Gritaremos por valorização,
Gritaremos por nossos direitos
Gritaremos de indignação...
Que soem os trovões...
Que rufem os tambores...
Abram alas, deem espaço...
Estão chegando os Professores!
