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5ª edição de 2015 Exploração

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claro!

EXPLORAÇÃO

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QUANTO CUSTA A VOLTA AO MUNDO? DANIEL MUÑOZ

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VICTÓRIA PIMENTEL

Arnaldo Antunes nos ensinou quando éramos crianças que “uma mão lava a outra”. Hoje, entendemos que uma mão lavar a outra significa mais que lavar as mãos com água e sabão - literalmente. Significa cooperação. Ainda que seja almejada pelo idealismo humano, a colaboração entre as pessoas, por diversas vezes, perde espaço para as relações exploratórias, tão comuns e diluídas nas sociedades contemporâneas.

veja só, nos encontramos como os próprios exploradores! O quê? Sim! Parece que o equilíbrio não é tão simples de ser atingido.

Nesta edição, o Claro! procura apresentar os vários lados dessa realidade e reavaliar visões sedimentadas. Afinal, a exploração pode ou não ser algo ruim. Ao mesmo tempo, o verbo explorar significa descobrir e abusar. É fato que estamos acostumados com o estigma negativo carregado pela palavra. A todo momento, nos deparamos com notícias que denunciam exploração no trabalho, na família e em relacionamentos afetivos. Somos explorados aqui e ali, mas por vezes,

“Mas qual o valor da volta ao mundo?” Perguntam os turistas da Disneyland, em Orlando, ao Red Light District, em Amsterdam. Em ambos os contextos, o dinheiro atua como um personagem importante. A dúvida, no entanto, nem sempre se refere a valores monetários. Quais as implicações de explorar estas aventuras?

Paralelamente, explorar nos remete a um outro cenário muito mais prazeroso, que envolve experimentação e revelação. Em uma viagem, podemos descobrir um novo lugar, os cantos escondidos da mente, e, por que não, o próprio corpo?

Entenda essas relações que, para o bem e para o mal, são partes inerentes de nossas vidas. Explore!

EXPEDIENTE ECA-USP Diretora Margarida Maria Krohling Kunsch Departamento de Jornalismo e Editoração Chefe Dennis Oliveira Redação Professora Responsável Eun Yung Park Editores de conteúdo: Daniel Muñoz e Victória Pimentel Equipe online: Amanda Manara, Mirella Silva Kamimura, Vitor Hugo, André Spigariol, Hailton Biri, Quéfren de Moura e Pâmela Carvalho Editora de imagem: Marina Yukawa Diagramadores: Ana Paula Machado, André Meirelles, Bianca Santa Anna Caballero, Bruna Eduarda Brito, Murilo Carnelosso de Jesus, Nina Turin e Stella Bonici Ilustradores: João Cesar Diaz e Marcelo Grava Repórteres: Fernando Magarian, Giovana Feix, Jullyanna Salles, Luís Viviani, Marcela Campos, Mariana Miranda, Sérgio Gomes de Oliveira, Vinícius Inácio e William Nunes Making Off: Gabriel Carvalho e João Henrique Silva Endereço Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 443, Bloco A. Cidade Universitária, São Paulo - SP CEP: 05508-900 - Telefone: (11) 3091-4211 O suplemento Claro! é produzido pelos alunos do 6º semestre de graduação de Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo Impresso III Tiragem: 8000 exemplares


No primeiro domingo do mês, dia 2 de agosto, acordamos um pouco mais tarde. De domingo dá pra tomar um café preguiçoso que a mãe prepara. Ela acorda meia hora mais cedo pra passar a água pelo filtro que segura aquele pó quase preto, quase sangue envelhecido. Pode ser que a Gisele também estivesse fazendo isso lá pros cantos de São Leopoldo, RS, quando decidiu que não ia dar mais, não: o que o Élton estava fazendo, ah, não, aí já era demais. Depois de sete anos, ó, não vai dar, ela vai ter que pedir o divórcio. Ela foi decidida, viu? Falou pra ele que não queria mais, que nem a gente caga de medo de fazer toda vez que precisa comunicar uma decisão.

Já falou pro tio. O cara tem tanta coisa pra resolver que tá desgraçado da cabeça. Nem ouviu, parece. Levantou, passou a mão pela barba, ligou a TV. Sempre que ele passa a mão pela barba é porque tá pensando que não consegue descobrir porque faz da mulher um bicho. Tem remorso do pensamento, mas sabe que é porque foi ela quem criou esse babaca que é o fi-

Esse aí, até quinta-feira, só deus sabe o que ficou fazendo. Tá com 26 agora. Mamãe deu tudo. Paga a conta do celular até hoje - é baratinha - só pra dizer que lhe paga as contas e quer satisfações. Aos 23, se não fosse dormir em casa, mamãe ainda queria dossiê. Perdi as contas de quantas vezes chorou no telefone - como podia um filho abandonar a própria mãe? As namoradas... Essas ela pagou pra dar no cano. Ele nem sabe que tem um filho por aí, no mundão. Mamãe pagou pra resolver isso também. Agora ele só some. Ele some até quinta-feira e bem pode sumir até sexta-feira se lhe der no cano. E ninguém sabe se morreu. Pode ser que morra ou pode ser que se mate. Pode ser que não se mate porque como poderia abandonar a própria mãe?

DOS CÍRCULOS VICIOSOS NA VIDA COMUM

MARCELA CAMPOS

DIAS

A gente já viu outras mulheres terem seus pés e mãos decepados, assim, de pertinho, olho no olho, não viu? Porque não precisa ser com facão e o sangue não precisa manchar o car-

Tem um sobrinho que mora lá. O moleque tem uns quinze anos. Ela diz que ele tem um pau rosa na ponta, sabe? Ele não liga muito - quer dizer, ele acha um pouco estranho. Ela é tia dele, não é tia de sangue, tipo da mesma linhagem, mas é tia dele, e ele acha um pouco estranho, sim. É que ela tem um rabo bonito e fica insistindo muito pra ele quando ele volta da escola, mas é só de vez em quando. Aí ele manda ver, né. Custa nada, não, e ele mora lá de favor, quer ajudar no que pode.

lho. Da última vez que o chamou pra sair, ele passou até no mercado pra comprar uns donuts daqueles ruins do Walmart, mas é porque eles gostavam de comer juntos. Chegou em casa pra pegar o menino e ele tinha sumido com os cem reais da carteira dele e não voltou pra casa até quinta-feira. Não sei porque suscitava toda essa esperança no pai toda vez que sorria pra ele. Era sadismo. Era sempre pra fazer o velho de idiota.

SAR JOÃO CE

Se ela ficou com medo? Acho que não deu tempo. O primeiro golpe foi na cabeça. A Gisele até se fingiu de morta, veja só você, na esperança que ele parasse. Foi por pouco que ela não morreu mesmo. Levantar e pedir ajuda não dava, teve seus pés e mãos decepados.

pete. Palavra também corta, às vezes. O volume delas corta a voz de quem escuta, essa outra mulher, e é por isso que ela não responde. Batedor de bife quando é muito usado fica cheio de verme e serve também pra bater por cima da voz de quem bate o bife todo dia, assim, diariamente. Batedor de bife pode ser marido. Batem nela todo dia e ela fica carente.


MARINA YUKAWA

O LOCAL OCULTO DA PRODUÇÃO FERNANDO MAGARIAN E MARCELO GRAVA

Arbeit macht frei – em alemão, “o trabalho liberta” – era a frase que esperava milhões de prisioneiros em campos de concentração nazistas. Aqueles que a liam eram obrigados a trabalhar nas prisões, muitos até a morte. Em retrospecto, é fácil entender o absurdo dos letreiros: os nazistas submeteram seus prisioneiros a tudo, menos à liberdade. Mas, fazendo uma análise mais ampla, desde o surgimento da humanidade, será que o trabalho já foi exercido livremente, ou representou algum tipo de “libertação” para os povos?

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No século XIX, dois teóricos alemães, Karl Marx e Friedrich Engels, observaram que toda sociedade, desde os primeiros humanos, desenvolveu suas próprias formas de transformar a natureza para sobreviver. A dupla mostrou que a divisão do trabalho, as classes sociais e toda a base político-ideológica de cada época correspondem às condições de sua produção. Além disso, a classe que detém os meios de produção sempre explora as demais. No capitalismo, segundo Marx e Engels, a burguesia é quem concentra os meios necessários para a produção da vida humana (infraestrutura, tecnologia, recursos naturais etc). Aqueles que não possuem tais meios, o proletariado, vendem sua força de trabalho para um capitalista, em troca de um salário.

Eis o que Marx e Engels consideraram a base da exploração capitalista: a extração de mais-valia. Trata-se da diferença entre o valor pelo qual uma mercadoria é comercializada e o valor pago ao trabalhador para sua produção, na forma de salário. O trabalhador recebe apenas uma parcela do valor que produz. O restante, mais-valor, se transforma em gastos e lucro do capitalista. Através da mais-valia, o patrão gera a acumulação e a concorrência e garante seu domínio sobre o empregado. Com 18 anos, Cléber participou de sua primeira greve. Filiou-se à Central Única dos Trabalhadores (CUT), mas percebeu que o sindicato submetia os trabalhadores a acordos pré-negociados com os patrões. Hoje, não pertence a qualquer central. Sua realidade é como a de muitos trabalhadores em grandes cidades. Célio Viana é gari no Rio de Janeiro e, em 2014, protagonizou uma greve que rompeu com o sindicato, conquistou aumento salarial de 37% e fez a cidade, em pleno carnaval, perceber que não é maravilhosa sem a labuta diária e quase invisível da categoria. Ele conta que os garis sempre questionaram as condições precárias de trabalho, e a paralisação de oito dias os ajudou a se valorizarem. “Você fazendo reuniões, falando pros trabalhadores que quem decide são eles e a direção do movimento não vai decidir nada além do que a categoria decide, faz eles se sentirem representados.”

Cléber Souza, 27, é um proletário. Trabalha desde a adolescência com manutenção de máquinas, e já passou por várias fábricas do ABC paulista. Hoje, é empregado da Método Manutenção. Ele conta que chegou a ficar 18 horas seguidas fazendo reparos em máquinas. “A fábrica é o setor onde a galera mais trabalha e menos recebe”, diz.

Célio também não nutre esperanças no modelo sindical e defende que “a mudança parte do povo”. “Esses partidos e sindicatos que estão aí não nos representam. Uma nova direção tem que começar pela base. O povo, quando quer se organizar, consegue.”

Cléber acredita que o trabalho é sempre exploratório. “Eu vejo a galera trabalhando muito, engolindo muito sapo e não recebendo o que lhe é de direito. A gente é responsável por todo o faturamento da empresa, mas o dono tá cada vez mais rico e o salário cada vez menor.”

O roteiro foi antecipado por Marx e Engels. Para eles, somente a livre organização do proletariado poderá superar o capitalismo e cessar o domínio de uma classe sobre outra, libertando a sociedade da propriedade privada e, por conseguinte, da exploração do trabalho.


GIOVANA FEIX

Ser viajante nem sempre envolveu vestir camisa florida e pendurar câmera no pescoço. Alguns séculos atrás, os lusitanos saíram por aí em uns barcos gigantes de madeira, muitos sem nem saber escrever sobre o que encontrariam pelo caminho. E antes mesmo de nascerem as camisas floridas, as câmeras e até Portugal, a busca por lugares diferentes era parte integrante da vida humana. Para os romanos, esse tipo de encontro era tudo, menos amigável, e levou ao pejorativo nome dado por eles aos estrangeiros: “bárbaros”.

Mas como colocar preços em praias, climas ou culturas? A turismóloga Clarissa Gagliardi explica: o ganha-pão, na verdade, são os serviços. Com a criação de agências especializadas, que reúnem vários deles em um só lugar, é provável que muitos de nós nos afastemos ainda mais das explorações aventureiras de outrora. Com seus pacotes, essas empresas apresentam vantagens tanto no preço quanto na sensação de segurança que envolve ser guiado e ter companhia, em visita aos “bárbaros”. Mas elas também podem transformar a exploração de cidades e até de países inteiros na mera visita de pontos turísticos ou roteiros cristalizados. Também compõem esse quadro as padronizadas redes de hotéis internacionais, que se propõem a fazer mesmo da estadia em lugares desconhecidos uma experiência familiar.

Para quem ainda procura por explorações, Clarissa tem ainda outras dicas: o turismo de experiência e, principalmente, o turismo social. O primeiro envolve ativida-

des sensoriais demarcadas, como saltos de pára-quedas, enquanto o segundo inclui tanto preços mais acessíveis (geralmente subsidiados) quanto um contato mais próximo com populações locais. Além disso, novas ferramentas digitais, como é o caso de aplicativos e blogs de turismo, podem ajudar. Os viajantes, assim, não ficam tão dependentes das agências na hora de explorar. O cenário é novo, mas é importante saber que ainda dá pra sair por aí com um quê daqueles lusitanos. Mesmo que - por que não? - com camisa florida e câmera pendurada no pescoço.

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A ideia de turismo que cultivamos hoje aparece, obviamente, muito depois de todas essas histórias. Turista turista, só depois da revolução industrial, com a introdução de “tempo livre” no imaginário popular. É algo que se distancia das explorações portuguesas ou das inimizades romanas, para então se aproximar de uma sede por descanso. E é aí que nasce um dos segmentos mais rentáveis do mundo: segundo a Organização Mundial de Turismo (OMT), ele é hoje responsável por 9% do PIB mundial. Nada má, a presença dos “bárbaros”, seria bom revelar aos romanos.

Com um cenário desses, é de se questionar como o turista atual ainda se assemelha aos exploradores antigos. Com tanto conforto e familiaridade, perderia a viagem algo de seu valor? Clarissa não é tão pessimista assim. Segundo ela, ao mesmo tempo em que a globalização torna as viagens mais padronizadas, ela possibilita um acesso cada vez maior ao turismo. Além disso, um tipo de viagem não exclui a possibilidade de outro. E são possíveis, como ela conta, muitos outros. “Você não tem só essa estrutura”, propõe. “Dá pra ir pra Portugal e ficar no Ibis ou ficar numa pousada histórica, por exemplo”. O país dos exploradores que descobriram o Brasil tinha algo muito interessante, nos anos 40: o governo comprou vários prédios históricos, para depois transfomá-los em pousadas tradicionais e estatais. Depois de problemas econômicos, houve a privatização de parte dessa rede, que passou a ser gerida por mais um grupo internacional: o Pestana. “O serviço deve ter ganho um ar de padrão internacional”, opina a turismóloga, “mas em muitos lugares ainda dá para ter uma experiência mais regional, com profissionais que sejam de lá”.


“Os treinos aconteciam quatro vezes por semana e duravam quatro horas. Aos fins de semana jogávamos em cidades que não a nossa, viajando por horas”. Se você pensa que essa é a rotina de um atleta adulto, está enganado. É assim que Karina Oliveira, 21, passou a juventude nas quadras. Para ela e outros jovens que almejam disputar uma Olimpíada, a dura rotina de treinos e jogos é cotidiana.

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Para Kátia Rúbio, professora da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP e ex jogadora de vôlei, “é importante que o atleta tenha a clareza de que sua atividade é diferenciada”, que não é possível atingir o nível olímpico “sem viver diariamente o limite”, mas aponta que a exploração do corpo, exigida pelo esporte, pode levar a níveis extremos de desgaste emocional e físico. “Existem clubes preocupados com o desenvolvimento do atleta e que respeitam as especificidades da faixa etária e da modalidade, desenvolvendo a capacidade de competir, de acordo com o indivíduo. Porém, existem clubes que obrigam jovens a executar um trabalho tão proibido quanto o de uma criança que trabalha nas pedreiras de São Tomé das Letras”. Se o jovem aguenta o ritmo pesado de treinos e jogos, quando adulto a conta chega e o tempo cobra. Caso de profissionais consagrados como Ian Thorpe, cinco vezes campeão olímpico e que junto às vitórias desenvolveu depressão e alcoolismo. Casagrande, ex-jogador do Corinthians, não esconde que a rotina de treinos, concentrações e jogos contribuiu com seus vícios. Ana Moser pagou com 12 cirurgias a primeira medalha olímpica do vôlei feminino do Brasil, em Atlanta, 1996, e convive com dores permanentes no joelho. A Olimpíada de Los Angeles, 1984, ficou marcada pela imagem esgotada e cambaleante da

UM LADO DO

Um salto, um drible e um bloqueio, executados à perfeição, escondem a rotina de repetidos movimentos, pulos e quedas, que por vezes levam à lesão crônica. A dor é cotidiana para o atleta, desde as categorias de base, até a fase profissional: “Tive colegas que pararam de jogar porque adquiriram lesões. Não sofri com isso, mas me afastei do esporte. Perdi a esperança de me tornar profissional, por exigirem muito de mim. Fisicamente e psicologicamente”, declara.

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ESPORTE QUE NINGUÉM atleta norueguesa Gabrielle Andersen que ignorando a dor e o cansaço, atingiu a linha de chegada após 42km da maratona olímpica. A imagem que ficou para a história do esporte não foi apenas a de superação ou do desejo de vencer de Gabrielle. Aquele quadro escancarou o alto preço cobrado a qualquer jovem que decide se tornar um atleta. Pela TV, vemos a beleza e a plasticidade do esporte, mas para atingir o lugar mais alto do pódio é necessário percorrer um caminho que, junto ao desejo da vitória, traz a dor e a incerteza da derrota.

VÊ

VINÍCIUS CREVILARI


Caso X-26: “Assassinou a própria mãe” Luís Viviani

Um contato da delegacia informou que houve uma ligação para lá denunciando um assassinato. Quem ligou foi uma vizinha da vítima. O caso é: um rapaz por volta dos 20 atirou na própria mãe. Ambos moravam juntos desde a morte do pai, há uns anos. Segundo a vizinha, o menino não trabalha e é um completo vagabundo (o que torna mais fácil provocá-lo). Cena do crime: foi um único tiro, seco, estridente e à queima roupa, direto nos miolos. Sangue para todos os lados. Ótimo caso, boa narrativa. Incitar o acusado, fazê-lo chegar aos limites. Possíveis perguntas ao detido: Por que matou sua mãe, rapaz ? Atirou nela à sangue frio para roubá-la e comprar drogas ? O que seu pai diria sobre isso ? Você tem antecedentes criminais ? Se sente um assassino ? Como conseguiu um revólver ? Anda sempre armado ? Perguntas sobre a mãe (causar sentimento de culpa): ela era uma boa mãe ? Ela te fazia comida ? Lavava suas roupas ? Limpava seu quarto ? Qual o momento mais reconfortante que teve com ela ? O que acha que ela pensaria agora de você ?

Caso X-27: “Incêndio em escola” Esse caso chegou através de uma fonte que trabalha no corpo de bombeiros. Detalhes: parece que um grupo de amigos resolveu queimar uma cadeira no colégio para assustar os mais novos, mas o plano saiu melhor do que o imaginado e muitas áreas foram atingdas. OBS: Levar câmera fotográfica para captar o teor do caos instalado. Focar em pais que estejam procurando seus filhos. Tentar pegar parte da fumaça e da fuligem + crianças desesperadas. Perguntar aos funcionários por que eles não estavam inspecionando os estudantes. Não há extintor de incêndio no local ? O que o diretor tem pra falar ? Há vítimas ? Quantas ?


ARTE: MARINA YU

KAWA

A REFLEXÃO TOMOU CICUTA

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SÉRGIO RODAS A tecnologia do século XXI é exuberante. Se eu descrevesse invenções como o telefone, o computador e a internet a meus colegas atenienses, eles diriam que eu estava louco e querendo desestabilizar a vida da cidade. Bom, eles diziam isso de mim de qualquer forma. Porém, impressiona-me como os homens e mulheres desperdiçam tantas facilidades!

do. Talvez o ideal metafísico não tenha mais tanto apelo, mas os benefícios da prática se estendem à vida prática. Isso porque geram uma frente de batalha mais eficaz contra os problemas físicos e emocionais, tal qual a organizada pelos meus conterrâneos em Maratona em 490 a. C., quando barraram a invasão dos persas.

Ah, sou o Sócrates. Sim, o velho filósofo. Vós devem estar vos perguntando como estou escrevendo esse texto, uma vez que morri há 2414 anos. Bom, isso prova que estava certo sobre a imortalidade da alma. Lembrai-vos: pouco antes de me suicidar, eu afirmei aos meus amigos que o espírito permanece após o fim da vida, e nesse estágio finalmente atinge o pleno conhecimento.

Contudo, nem sempre a culpa é só do indivíduo. Para o professor de filosofia da UniRio Nilton Anjos, se ele convive com um círculo social que não estimula reflexões, provavelmente não irá fazê-las, pelo menos não com uma frequência que eu considere aceitável (tudo, bem, talvez eu seja exigente demais). Passatempos populares, como vídeos de gatos, sites de fofocas e piadas do WhatsApp, não incitam a autoexploração, pois servem justamente para distrair a mente. O problema é que eles foram alçados a uma posição de protagonistas na vida cotidiana. E pensar que na minhá época nos “distraíamos” com as peças de Sófocles e Ésquilo...

Dessa forma, tenho assistido ao desenrolar da história de camarote desde então. Fiquei maravilhado com o salto tecnológico ocorrido no fim do século XX e início do XXI. O computador facilitou o armazenamento de informações e a transmissão delas aos outros. Com a internet, essas possibilidades foram multiplicadas, e o saber ficou acessível a todos à distância de alguns cliques. Além disso, ferramentas como e-mails e redes sociais construíram pontes entre as pessoas, acabando com abismos comunicacionais. Com a última evolução do telefone, o smartphone, tais facilidades passaram a estar disponíveis 24h por dia. Deveríais estar comemorando essa mudança de paradigma. No entanto, de uns tempos para cá, fui percebendo que, devido a essas inovações, vós estão esquecendo do meu principal ensinamento: o de que a autoexploração, o conhecimento de ti próprio, é a única forma de compreender a vida em sua plenitude. A hiperconectividade está acabando com o silêncio, com o exercício da autorreflexão. Vós não sabem mais ficar quietos, pensar a vida, suas contradições e seus mistérios. Quando param, logo sacam vossos celulares para enviar mensagens, xeretar os outros, ou vos distrair com algum assunto da moda. Com isso, as mentes ficam rasas, as conversas, superficiais, e a humanidade, pobre. E não sou só eu quem observa isso. A psicóloga da PUC-SP Luciana Ruffo endossa que a ideia de que é essencial buscar o autoconhecimento - isso se a pessoa quiser interagir de uma forma mais plena com o mun-

Com isso, as mentes estão mudando – e para pior. Em um dos livros recentes que mais me intrigou, “A geração superficial: o que a internet está fazendo com os nossos cérebros”, do escritor norte-americano Nicholas Carr, descobri que as facilidades da internet e seus diversos estímulos estão acabando com a capacidade de concentração. E sem concentração, o conhecimento não avança. Como bem lembra a professora de filosofia da ECA-USP Marilia Fiorillo, o pensamento tem dois momentos: o ímpeto e o recolhimento. No primeiro, as pessoas buscam a informação; no segundo a metabolizam. Com a drástica redução do exercício dessa segunda fase, o saber não é devidamente apreendido. Sem essa absorção, as pessoas deixam de questionar suas ideias, gerando extremismos e impedindo discussões honestas. Se fosse tentar aplicar o meu famoso método atualmente, seria xingado e ameaçado – ou bloqueado no Facebook. Em meu julgamento, poderia ter pedido uma pena alternativa: prisão, multa ou exílio de Atenas. Recusei todas essas opções, pois avaliei que caso aceitasse uma delas, estaria assumindo a minha culpa em “corromper” os jovens. Em suma, morri pelas ideias, pelo incitamento à autoexploração. Mas será que a cicuta foi em vão?


lNSPIRA, EXPIRA INSPIRA, EXPLORA

JULLYANNA SALLES

Inspira, expira. O ar entra pelas narinas e infla não o peito, mas o diafragma. Depois de uma breve exploração, faz seu caminho de volta, sai por onde veio em um ciclo infinito. A coluna está alinhada, a almofada jogada no chão, as pernas cruzadas uma sobre a outra e as mãos encontram os joelhos. O que de fato importa é o conforto, serão alguns minutos nessa posição e nada físico deve incomodar, já bastarão os pensamentos de uma semana agitada. Inspira e expira pra longe os problemas, só pra ver eles voltarem insistentes. Os planos para o final de semana foram cancelados, o sábado será em casa com somente a companhia da TV. O silêncio é perturbador, mas por sorte o fluxo de raciocínio faz barulho. Basta se concentrar única e exclusivamente na respiração para identificar o farfalhar da consciência não deixando nada parado dentro da mente. A falta de conhecimento diz por aí que é necessário esvaziar a cabeça. Que

inocência, de cabeça vazia não é possível passar pelas fases do ciclo cognitivo da meditação de atenção focada. Inspirando o ar que traz não só o oxigênio, mas também o forte cheiro cítrico dos limões na fruteira da cozinha. Talvez seja bom reviver a receita da avó e usar o sábado para recriar aquela torta. Inicialmente, a divagação ativa a região do cérebro responsável por desenvolver a compreensão de comportamentos e da vida, do chamado modelo interno de mundo. Indo a fundo na exploração de memórias de longo prazo, este modelo é atualizado, reavaliando identidades e pontos de vista. Definitivamen-

te, aquela torta de limão e suspiros não é uma receita, é uma obra prima culinária. Inspira, espera, onde eu estava? Longe. A consciência da distração me leva à segunda fase do ciclo, como previsto. Não é a hora de pensar em tortas de limão! No cérebro, a rede de saliência é a que se destaca nesse momento. É ela que torna possível o reconhecimento de novos eventos e que renova as ocupações dos grupos de neurônios, garantindo a alternância de atividades entre eles. É preciso atenção plena, sem suspiros, sem limões. Inspirar, expirar e agora, no terceiro estágio, reorientar a

atenção ao foco da respiração. É assim que se ativa e fortalece as áreas adicionais que resgatam a concentração. Com a prática, essa retomada a um pensamento âncora fica cada vez mais ágil e a distração passa a ser contornada com mais facilidade. Fica mais simples explorar os cantos da mente e recuperar, rapidamente, o foco de um raciocínio. Inspirar e expirar voltam a ser as principais preocupações na reta final. Naquele instante o mundo se resume a isso, inspirar e expirar. No cérebro, o córtex pré-frontal dorsolateral se mantém ativo na sua função executiva: manutenção e regulação de emoções. Inspira, expira e acaba o dia. A semana difícil passou, os dois dias de folga mal começaram. O sábado vai ser em casa mesmo. O apartamento é pequeno, mas quando se pode explorar o universo inteiro dentro da própria mente é possível viajar quilômetros sem nem ter que abrir a porta.


CO

Soyuz­-57, estou aqui. Camarada Kasyanov, é você? Tenho que diminuir as luzes, não consigo enxergar a tela. Manchas roxas da iluminação lateral estampadas no fundo da minha retina. As infinitas luzes piscantes me acordam em um compasso de exatos 3,5 segundos. Sinto que, às vezes, elas saem de ritmo. Negativo. OPS-­4, Kasyanov está cuidando de reparos, quem fala é o engenheiro de vôo Tamarkin. O que posso fazer por você, OPS-­4? Está quente demais, Soyuz­-57. Mais quinze dias e eu desceria daqui; seria o fim da minha missão, traria os dados que ninguém mais possui. Teria meu nome em alguma coisa, talvez um terminal ferroviário... Preciso checar uma coisa.Tensiono meus pés contra as paredes de plástico para me lançar pra fora da cabine. Eles escorregam com um som que me reaviva os sentidos.

ES

Z DIA

Minha cabeça não consegue se situar sobre o meu pescoço, não consegui remover a maior parte dos estilhaços no meu ombro. Pelo menos o sangue secou, assim não preciso vê­-lo flutuando pela cabine. Tive de afastar as portas do armário de remédios para chegar ao display. Todos os frascos de analgésicos ainda estavam flutuando atrás do que restou das buchas e parafusos que costumavam segurar o armário ao seu devido lugar no casco. Todos vazios. Não sobrou nada pra me fazer dormir.

OC

AR

OPS­-4, Camarada Guryev, na escuta?

J OÃ

CA

Á N U O T M I S

Todo o lado esquerdo do meu corpo tem seus tendões fisgados para fora. Tudo aqui escorrega, todas as superfícies estão encharcadas com meu suor. Entrego-­me ali, deixo meus músculos distenderem como quiserem; desmaio envolvido naquele mesmo ar viciado que já respirei por 47 dias. OPS­-4, como é a situação? OPS­-4, aqui é Tarmarkin, na escuta, camarada? Algumas luzes pararam de piscar, mas a lembrança do seu ritmo implacável ainda martela atrás dos meus olhos. Volto-­me, sem querer, à pequena janelinha da estação. Lá fora, está a razão por eu estar aqui. “O oceano derradeiro”, como nos diziam na academia. Um destino para os novos desbravadores. O implacável desconhecido que paira sobre nossas cabeças. Uma maçante cortina preta sem propósito, penso, afinal. OP... ki.... Ainda preciso checar uma coisa. Deixo-­me levar até o compartimento do meu engenheiro. Alguns cabos se soltaram, preciso saber se aqueles que puxei para garantir que seu cadáver não flutuasse a qualquer vontade ainda estão firmes. Isso não importa, na realidade. Vou me juntar a ele em poucas horas. Talvez ainda tenha um pouco daquela geleia desidratada por aqui. OPS­-4, aqui é Soyuz-­57. Não foi permitida a acoplagem, OPS-4.

ARTE: JOÃO CESAR DIAZ

Homem soviético, tenha orgulho, você abriu a estrada da Terra para as estrelas!


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5ª edição de 2015 Exploração by Claro! USP - Issuu