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Claro! Construção

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claro!


Estamos em obras TEXTO: Gabriel de Campos e Nelson Niero Neto ARTE: Mariana Mallet DIAGRAMAÇÃO: Regina Santana

Construir, desconstruir, reconstruir, e voltar a construir. Nesse ciclo, moldamos nossas identidades e concepções. Mas nada permanece igual para sempre. Mesmo as mais enraizadas opiniões podem se desfazer. Isso, porém, não é simples. Demanda esforço perceber que sua visão do mundo não é a única possível. Às vezes, são os fatos, e não o esforço, que escancaram uma verdade dolorosa e indesejável. Mas desconstruir esses paradigmas é fundamental para evoluirmos como pessoas. Esta edição do claro! se dedicou a esmiuçar esse tema - e esperamos que você faça bom proveito disso.

EXPEDIENTE ECA-USP Diretor Eduardo Henrique Soares Monteiro Departamento de Jornalismo e Editoração Chefe Dennis de Oliveira REDAÇÃO Professora Responsável Eun Yung Park Editores de Conteúdo Gabriel de Campos e Nelson Niero Diretor de Arte José Paulo Mendes Ilustradora Mariana Mallet Editora de Fotografia Victória Damasceno Redes Sociais e Editora Online Nara Siqueira Repórteres Online Nara Siqueira e Marcos Hermanson Vídeo Diogo Magri e Vinícius Sayão Teaser Carla Garcia Diagramadores Regina Santana, Diego C. Smirne, Fernanda Giacomassi, Laís Ribeiro e Letícia Fuentes Repórteres Amanda Panteri, Álvaro Logullo, Catarina Ferreira, Carolina Marins, Carolina Monteiro, João Almeida, Leonardo Mastelini, Natália Belizário e Mariana Gonçalves Making Of Mateus Feitosa Revisão Giuliana Viggiano Endereço Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 443, bloco A. Cidade Universitária, São Paulo - SP CEP: 05508-900 Telefone: (11) 3091-4211 O suplemento Claro! é produzido pelos alunos do º semestre do curso de Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo Impresso - Tiragem 8000 exemplares.


imparcial

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Um jornal a serviço da verdade

SETEMBRO ANO 2017 EDIÇÃO XX 12 PÁGINAS

OPINIÃO ISENTA DE VIÉS

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onsumir um ovo por dia previne infarto. Ovo prejudica o coração tanto quanto o cigarro. Divergências dessa natureza são frequentes em manchetes divulgadas pela mídia. Com construções das mais diversas, muitas notícias têm assumido perspectivas opostas ao transmitirem uma informação. Mesmo cientes dessas discordâncias, as pessoas ainda são fortemente influenciadas por essas construções. As mais exageradas banem o ovo do cardápio. Proíbem sua entrada geladeira. Como se não bastasse, passam a difamá-lo, como um amigo removido das redes sociais. Com uma imagem distorcida, o pobre ovo é relegado a sarjeta, à espera de outra notícia que o recoloque em seu lugar de direito. Não restritas ao fiel companheiro dos cafés da manhã, essas divergências permeiam outras informações. Para o professor Guilherme Sardas, da Universidade de Santo Amaro, a notícia carrega consigo uma aparente neutralidade. Apesar de conferirem uma aura de “verdade absoluta” ao conteúdo noticiado, essas se encontram envolvidas em interesses dos mais diversos.

SÃO PAULO ESCOLA DE COMUNICAÇÕES E ARTES DA USP

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TEXTO: Vinicius Bernardes DIAGRAMAÇÃO: Regina Santana Na era digital, o alcance dessas construções tem ultrapassado os limites impostos pelo espaço e pelo tempo. Bombardeadas por fatos e informações, as pessoas têm sido submetidas a dados frágeis e, em grande maioria, duvidosos. Sardas destaca que essa situação deriva de uma rede em que “há muita informação aparentemente jornalística , mas de fonte amadora e inconsistente, o que gera conteúdos com apurações pouco criteriosas, quando não falsas”. Entretanto, apesar do avanço das novas formas de mídia, imagens construídas pela televisão ainda predominam no processo de informação do brasileiro. Segundo dados da “Pesquisa Brasileira de Mídia 2016”, da Secretaria de Comunicação do governo, cerca de 63% da população diz depender dos telejornais diários para se informar. O professor afirma que esse número é reflexo de um passado recente em que a mídia tradicional tinha o monopólio da informação. Seja em grandes notícias ou no simples ovo, todo fato está envolvido em construções. Ao leitor, resta driblá-las, caso queira enxergar as claras, existentes entre cascas e gemas.

Entre cascas e gemas

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A abordagem escolhida, as palavras usadas, a edição final são sempre elementos de mediação, e não de espelhamento da realidade. Acredito que quanto mais marcadamente ideológico é um veículo, mais tendenciosa é a visão de mundo refletida em seu noticiário. Prof. Guilherme Sardas


Sem por cento hétero Maria Lima se apaixonou por uma mulher aos 18 anos. Mais do que isso, continuou gostando de seu namorado na época. “Me intitulava ‘100% hetero’. A partir daí, comecei a sentir atração tanto por homens quanto por mulheres”, diz ela, hoje bissexual, aos 20 anos de idade. Para os especialistas, assumir uma orientação sexual diferente depois de certa idade é natural. “A orientação sexual é construída socialmente, com implicações que afetam a identidade individual e social”, explica o terapeuta Juan Macías ao El País. A psicóloga Eliza de Paula vai além: “Pode haver diversas razões. A pessoa pode ter crescido em um meio repressor e, depois, com um pouco mais de maturidade, criado coragem para assumir sua real orientação sexual”. Esse é o caso de Vinicius Santos, de 30 anos, que se considerou heterossexual até os 21. Depois de quatro anos de namoro com uma garota, o produtor cultural percebeu que não poderia mais silenciar a atração pelo mesmo sexo. “Eu tinha construído algo diferente, com o qual não me identificava. O processo foi de descoberta da identidade”, conta. Vinicius acumulava muitos medos quando decidiu dar a notícia aos pais, depois de ouvir críticas sobre uma cena gay enquanto assistia a um filme com a família. Foram dois anos até que o pai se reaproximasse totalmente, mas o episódio abriu oportunidades para um vínculo ainda mais forte e, principalmente, para o autoconhecimento. “Me entender como LGBT foi importante porque só aí fui saber construir exatamente quem eu era. Isso me fez mais confiante, mais seguro para qualquer coisa”. Sobre o passado, Maria afirma que não voltaria a ser hétero e incentiva quem está em processo de transição. “Só vai. É ótimo, porque é parte de quem você é”. Eliza faz o papel de quem recebe, com frequência, pacientes LGBTs em crise em seu consultório. “Independentemente da orientação sexual, o importante é a pessoa se reconhecer e ser feliz. Caso esteja difícil, procure ajuda. Sempre vai existir alguém para isso”.

TEXTO: Leonardo Mastelini ARTE: Mariana Mallet DIAGRAMAÇÃO: Diego C. Smirne


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Tijolo por tijolo

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TEXTO: Catarina Ferreira ARTE: Mariana Mallet DIAGRAMAÇÃO: Diego C. Smirne

Maria Diva Ferreira tem 51 anos e chegou à capital paulista em sua adolescência. Vinda do interior da Paraíba, com o pai e os irmãos, a dona de casa passou por diversos bairros da capital até se estabelecer no Jardim Soberano, bairro do município de Guarulhos. Maria Diva e seu marido Roque Santana do Vale, com quem é casada há 28 anos, protagonizaram a construção da casa em que hoje moram com os dois filhos, Maria Juliana, de 27 anos e Renato, de 25.

“

Não foi nada fácil construir nossa primeira casa, eu e meu marido fizemos praticamente tudo. Compramos o terreno em 2004, e na época não entendíamos nada de construção. Antes de comprar o lote nós moramos em diversas casas. Passamos por Santo Amaro, Campo Limpo, Cidade Jardim, e por último a Lapa. Não pagamos aluguel durante um tempo, porque éramos caseiros em uma residência cedida pela empresa em que trabalhávamos, eu na limpeza e ele na portaria. Era uma fábrica de fitas para vídeo K7, quando a empresa faliu precisamos voltar para o aluguel. Nossa rua ainda era barro quando chegamos, cheia de mato em volta. Como não podíamos pagar uma máquina para deixar o terreno plano, eu e meu esposo tiramos a terra aos poucos, durante a noite. Mas, mesmo com as noites sem dormir, o mais difícil foi cavar a fundação. Nós não sabíamos o tamanho que deveria ter, refizemos o serviço muitas vezes. Quando as pessoas viam que não estava bom zombavam de nós. Depois disso, o próximo passo foi colocar as colunas de ferro, as vigas e assentar os blocos. Nós passávamos os finais de semana construindo, por conta do trabalho. Durante a semana eu saía para comprar areia, pedra, ferro, cimento, o que precisasse. E por isso, tive que aprender muita coisa, os materiais chegavam e não podiam ficar na rua até o sábado, então eu começava sozinha. Nos mudamos no final do ano, então pudemos passar a virada de 2007 para 2008 livres do aluguel. Hoje temos duas casas neste mesmo terreno. A primeira ficou abaixo do nível da rua, mas isso porque na época da construção não sabíamos qual a altura em que o asfalto seria colocado. Para driblar o desnível, fizemos uma escada até a rua. A segunda casa, fizemos na parte de cima da primeira, mais ou menos como um sobrado. Mas dessa vez a construção foi bem mais rápida, demorou um ano e meio. Hoje, moro na parte de cima com meu marido e meu filho, viemos pra cá depois do casamento da minha filha em abril deste ano, agora é ela quem mora lá embaixo com o esposo. Apesar das dificuldades, conseguimos abrigar a família toda aqui, as duas casas têm sala, cozinha, um banheiro e dois quartos.

”


Morte e Vida Tem gente que jura de pé junto que eu nasci antes, mas quando me perguntam, eu não tenho receio em afirmar que eu só me reconheço com vida a partir de 2013. O meu nome até então era Praça Homero Silva. Eu era mal frequentada, mal cuidada e cheia de lixo e entulho, o que acabava com as poucas chances de eu, um espaço público no meio da cidade, ser habitat para alguma espécie – apesar dos meus quase 12 mil metros quadrados. O meu renascimento começou quando um grupo de moradores da Pompeia resolveu dar-me uma mãozinha e ajudar no projeto da minha revitalização. Foram meses intensos de retirada do que não prestava, de plantação de árvores, até descobrirem o que tenho de mais precioso. Eu carrego comigo a responsabilidade de ser terreno de duas nascentes do Córrego Água Preta. Depois da descoberta, a preocupação com a minha preservação aumentou. Fui cuidada por geólogos e hidrólogos, que canalizaram parte das nascentes para a construção de um lago, e hoje sirvo de casa para mais de 80 espécies de animais. Comecei a receber visitas e mais visitas e, desde então, já fui palco de nove festivais musicais, um batizado, uma festa de aniversário, e pasmem, um casamento. A parte legal dessa história, infelizmente, acaba aqui. Há três anos, uma incorporadora resolveu comprar as nove casas de um terreno vizinho ao meu para levantar um prédio comercial e residencial de 22 andares e três subsolos. As demolições começaram, e foi então que descobriram que esse lugar, agora um buraco enorme, também tem as suas preciosidades e é dono de suas próprias nascentes. A construção do edifício demandaria o descarte dessa água por meio das sarjetas da rua. E o mais grave: como o lençol freático do lugar está interligado, as minhas águas provavelmente seriam sugadas também. Isso não foi motivo para que meu grupo de amigos, agora mobilizados no Coletivo Ocupe e Abrace, desanimasse. Eles levaram os meus documentos, emitidos pelo Instituto Geográfico e Cartográfico, ao Ministério Público Federal e comprovaram que eu abrigo as nascentes, o que impossibilita que qualquer tipo de construção seja feita a um raio de 50 metros de mim. A responsável pela obra não ficou nem um pouco contente com a ação do coletivo, e pediu um alvará de construção para a Secretaria de Licenciamento do município. A situação de agora se resume em disputa: de um lado, a detentora do capital; do outro as organizações civis, que querem defender o espaço público e o meio ambiente. Cabe ao Estado, então, decidir pelo equilíbrio.

TEXTO: Amanda Panteri ARTE: Leticia Fuentes DIAGRAMAÇÃO: Leticia Fuentes

COLABORARAM: Adriana Carvalho, do coletivo Ocupe e Abrace, responsável por cuidar da praça


claro! setembro 2017

A cidade cresce pro alto Quando se trata de verticalização urbana, essa ideia muitas vezes tem uma conotação ruim, algo que transforma a arquitetura da cidade, constrói prédios modernos no lugar de construções antigas e limita a vista do horizonte. Isso além de aumentar o trânsito em toda a região: como explica o gestor de trânsito da CET, João Cucci Neto, quanto mais prédios, mais moradores em um mesmo local, fazendo um número exponencialmente maior de viagens todos os dias. Atrelado a uma situação precária de transporte público, que não é suficiente para atender a toda a demanda, o trânsito de veículos particulares só pode aumentar. A cidade de São Paulo tem atualmente cerca de 12 milhões de habitantes, 1 milhão a mais em relação ao último censo do IBGE, realizado em 2010. Isso não é pouca coisa: existem mais pessoas morando aqui do que em países inteiros, como Portugal, que tem aproximadamente 10 milhões de habitantes. E isso falando somente do município: se considerarmos toda a região metropolitana, o número de habitantes sobe para 21 milhões de pessoas. De acordo com o arquiteto Rafael Sorrigoto, a verticalização é o caminho ideal da urbanização em uma cidade de proporções de metrópole como São Paulo. Ainda mais quando se fala em aumento de potencial construtivo e verticalização de áreas já abastecidas por sistemas de transporte público, vias de acesso rápido, sistemas de saúde, educação e lazer. Assim, o que está crescendo bastante no mercado imobiliário atualmente é a construção de apartamentos cada vez menores, chegando a 10m2. Essa é uma tendência de cidades com alto grau de desenvolvimento como Nova York, Tóquio e Londres. A dinâmica da vida urbana tem, para algumas pessoas, a moradia apenas como dormitório. Os apartamentos de área reduzidas vem para atender a essa demanda. E outra também, muito crescente: a locação de curta temporada. Culturalmente, o brasileiro ainda não está acostumado com esse tipo de moradia como os japoneses. Além disso, morar em espaços tão pequenos cria a necessidade de investir em móveis planejados que se encaixem perfeitamente no espaço, o que também não é barato. Entretanto, em uma cidade com densidade demográfica de mais de 7 mil habitantes por km2, em que a procura por moradia faz os preços aumentarem em regiões centrais, essa é a alternativa. Existem imóveis historicamente importantes na cidade, assim como praças públicas, e áreas verdes responsáveis por balancear a qualidade do ar. Mas não há como impedir o crescimento da cidade. A questão é controlar a forma com a qual isso é feito: é necessário um planejamento cuidadoso, que siga o plano diretor da cidade e respeite as vias de trânsito.

COLABORARAM: João Cucci Neto, engenheiro de transportes e gestor de trânsito na CET há 30 anos. Rafael Escrivão Sorrigotto, arquiteto e colaborador da imobiliária Refúgios Urbanos. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Os Microapartamentos: a tendência do século XXI”. Pamela Barreto de Souza. IPOG Revista Online. 30/07/2015.

TEXTO: Carolina Monteiro ARTE: Leticia Fuentes DIAGRAMAÇÃO: Leticia Fuentes

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Concreto

Q U E C O RQ N S T R O UITE E M Q U A T A( C O N S E T R Ê STRUÍDAI S C U B O MPONEN S Q U E P TECO R O J E T MC A M ONCRE M E I A TOMAC E S T R U T I ÇO ) N U R A D E U M P OPOEM O E M A C O AHÁAP N C R E ENASA T O I D E IA

TEXTO: Nana Gonçalves FOTOGRAFIA: Carina Brito DIAGRAMAÇÃO: Carina Brito

Inspirado no poema “geraldo”, de Augusto de Campos

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A A UMPOE R Q U I MANÃO T E T A C O ENTRA S T R Ó I Q U NUMAC A S E Q U A ASACO D R A D MOACA O S SADAA


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A sua história me constrói Um dia desses, estava andando distraído pelas ruas da Vila Madalena quando encontrei Rebeca, uma amiga de infância. Um abraço, um beijinho no rosto e o famoso “quanto tempo”. Para alongar o assunto ela perguntou: “E o Fabrício, por onde anda?”. Eu logo respondi: “Não terminou a faculdade, não arruma um emprego bom. Enfim, não se esforça o suficiente…”. De imediato ela me interrompeu. “Você está sendo injusto, Marcelo”. Sentamo-nos num daqueles bancos de pracinha, de frente um para o outro. Fiquei confuso num primeiro momento. Por que injusto? Ela começou a explicar porque eu jamais poderia me comparar ao meu amigo que veio de uma classe mais baixa. “O mundo foi feito por e para pessoas como você, Marcelo”. “Mas isso não faz sentido”. Mas… Mas… Mas… Eu tentava o tempo todo questionar. Ela falou sobre como nossas realidades, a minha e a de Fabrício, eram diferentes. Eu, morador de um bairro nobre, com pais doutores. Ele, morador de uma comunidade, irmão mais velho de 5 filhos, de uma família em que só a mãe podia sustentar a casa. “Mas se ele se esforçasse um pouco mais…”. “Ele não tem essa opção”. Segundo Rebeca, eu havia sido criado sob a visão de um discurso meritocrático, em que todos teriam a mesma chance, bastava apenas se esforçar. Se Fabrício deixasse tudo para se dedicar ao seu sonho profissional, como eu fiz, sua mãe e seus irmãos estariam em sérios problemas. Eu sabia que Rebeca estava certa, mas essa conversa estava me causando uma forte angústia, um soco no estômago. Eu estava sendo de fato injusto? Esse tempo todo? Mas… Mas… Mas... Nunca tinha pensado como que o fato do Fabrício ser negro, vir da periferia e ser de classe baixaa minha condição de homem, branco, de classe média e heterossexual tornava o mundo um lugar menos hostil para mim tornava o mundo um lugar hostil para ele. Não era culpa minha, nem da Rebeca, muito menos do Fabrício. “...mas você pensar e agir assim só torna oesse mundo ainda mais hostil”, ela falou. Rebeca se despediu e foi embora com as minhas sólidas visões de mundo embaixo do braço. Não que elas estivessem erradas, só não eram “verdades absolutas”, ela disse. Eu fiquei. Com um milhão de dúvidas, sentimentos e pensamentos.

TEXTO: Carolina Marins FOTOGRAFIA: Carina Brito e Victória Damasceno DIAGRAMAÇÃO: Carina Brito

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Uma mente em

TEXTO Álvaro Logullo Neto ARTE E DIAGRAMAÇÃO Laís Ribeiro

e r c ns t ução o R s

Parada em frente ao espelho, Aline não tem coragem de encará-lo. Os olhos vermelhos e a pele da face ressecada são reflexos das lágrimas salgadas e de horas sem dormir. Em seu ouvido, uma voz que lhe atormenta. É incapaz de viver assim. E reza para que isso acabe. Saber o que deixou Aline doente não importa. Uma vez presa nas armadilhas do psicológico, o maior problema não é descobrir o responsável por criá-las, mas sim, lutar contra essa voz dentro de si mesmo dizendo que jamais será possível escapar delas. Aline ouviu essa voz por muito tempo. Acordava durante a noite com medo dos pesadelos. Dormia novamente desejando nunca mais acordar. Sentia uma obrigação de viver. Não queria mais isso. Pensou em demolir tudo. Suicidar-se. Mas não o fez. Não implodiu. Agarrou-se na religião, seu abrigo. Aline decidiu pela vida, mas seguiu sentindo-se vazia. Com seu pai, permanecia em silêncio. Incapaz de se expressar. A mãe, que chorava sozinha pela filha, sorria à sua frente tentando animá-la. Deixou de sair com os amigos, que, mesmo assim, abriam mão de seus compromissos para não abandoná-la em sua solidão. Percebia todos a sua volta lutando por ela, sem poder atender suas expectativas. Era o próprio fracasso. Como se estivesse dentro de um liquidificador, sentia-se triturada pela vida, enquan-

to era arremessada para todos os lados. Ainda assim, não havia analogia capaz de descrever a verdadeira sensação de “ser insuficiente”. Estava desmontada. Reconstruir-se seria uma tarefa díficil. Aline negou um terapeuta e se recusou a tomar remédios fortes. Tinha medo dos efeitos colaterais. Aceitou um tratamento homeopático. Remédios que não agem diretamente no sistema nervoso do indivíduo. Algo mais demorado e que exige uma avaliação minuciosa do paciente. A partir daí, Aline atravessou um processo de enfrentamento consigo mesma, em busca da reconstrução. Por muitos dias, saiu sozinha, durante a madrugada, para caminhar. Refletia, organizava os pensamentos, aceitava-se. Desses momentos, retirava forças para viver o dia seguinte. Aos poucos, o destino de Aline foi ganhando novos contornos. Deixou sua cidade no interior para estudar na capital. Uma nova estrutura. Novos ares. Novas experiências, novos amigos, uma nova perspectiva. Tais elementos foram os tijolos que Aline empilhava aos poucos, com cuidado. Eventualmente, a vida derrubava algum deles que não estava firme na estrutura. Mas uma pequena queda já não abalava tanto. Era uma nova Aline. O engatilhador do quadro depressivo em uma pessoa é variável. Algo insignificante para um, que pode ser determinante para outro. Aline teve sorte. Sorte por contar com pessoas que não desistiram dela, que se sacrificaram, sofreram com ela e não ignoraram sua dor. Somado a isso, uma enorme força de vontade. Soube utilizar o processo como aprendizado e foi capaz de compreender que a vida, às vezes nos desmorona. E o que resta é nos reerguer. Hoje, Aline olha para o espelho e sorri.


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O presente olímpico As Olímpiadas no Brasil acabaram, mas a expectativa da população sobre seu legado permanece. O sentimento do carioca é uma mistura de orgulho, por ter sediado o mais tradicional evento esportivo mundial, e decepção, pela maneira duvidosa de como foram os bastidores. Hoje, há desconfiança em relação às melhorias prometidas e ao aproveitamento das onerosas instalações, como o Centro Olímpico,aberto diariamente e com entrada gratuita. O Rock’n Rio é o primeiro grande evento no local, montado no estacionamento.

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As Arenas recebem eventos esportivos pontuais e sazonais.

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O teto do Velódromo pegou fogo depois da queda de um balão.

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Na Via Expressa Transolímpica (fora do complexo), longa espera pelo ônibus: 25 minutos.

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Metrô Linha 4 (fora do complexo). Só saiu do papel para as obras olímpicas. Apenas as 17 Ecobarreiras para reter o lixo da Baía de Guanabara foram mantidas.

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TEXTO João Paulo Almeida ARTE E DIAGRAMAÇÃO Laís Ribeiro

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Outra História

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Em agosto, manifestantes de extrema direita foram para as ruas de Charlottesville, no estado da Virgínia (EUA), protestar contra a retirada da estátua de Robert E. Lee, um dos principais líderes dos confederados, grupo que, na Guerra de Secessão, defendia a manutenção da escravidão no país. A manifestação acabou com diversas pessoas feridas e uma morta, após um manifestante racista acelerar seu carro contra um grupo antifascista, que era a favor da retirada do monumento. Parte da população dos EUA mostrou que não mais aceitará discursos racistas, questionando inclusive uma figura marcante de sua própria história que, a partir deste episódio, ganhou um novo significado. Após esse episódio, a figura de Lee ganhou um outro significado. No Brasil, também existem figuras que tiveram sua construção histórica fundada sobre controvérsias. Mas, assim como nos EUA, não há unanimidade sobre o questionamento desses personagens. É o caso dos bandeirantes paulistas, sertanistas do período colonial que, em busca de riquezas e escravos, adentraram o território brasileiro e acabaram sendo responsáveis por expandir o limite imposto pelo Tratado de Tordesilhas. Ainda que esse último feito não tenha sido o motivo de sua ação, é sobre ele que está fundada a construção histórica do grupo. Homenageados em estradas e monumentos do estado de São Paulo, os bandeirantes são vistos como heróis, apesar de terem escravizado e exterminado as populações negra e indígena. O Monumento às Bandeiras, um dos principais pontos turísticos de São Paulo, foi pintado de vermelho em 2013 durante protestos de indígenas, que questionavam a representatividade da estátua. Em 2016, novamente, não só o Monumento às Bandeiras, mas também a estátua do bandeirante Borba Gato, amanheceram pichadas. “Bandeirante ruralista assassino” foi escrito abaixo dos pés da figura. Ainda assim, são episódios tímidos quando comparados aos de Charlottesville. E, segundo Marcus Toledo, historiador e bacharel em direito, a manutenção da construção dessa visão sobre os bandeirantes está ligada a um discurso de poder que tem consequências sociológicas até hoje. “Ainda existe por aqui um discurso conservador muito forte.” Mas, Marcus acredita que existe uma semelhança entre o Brasil e os EUA. “O que podemos observar em ambos os casos é que temos memórias criadas com objetivos determinados, e que de certa forma não se adequam a valores que se consolidam atualmente, como a luta pela solidificação de políticas de direitos humanos, a tolerância e a democracia.”

TEXTO: Natália Belizario ARTE: Gabriela Pyles DIAGRAMAÇÃO: Fernanda Giacomassi


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