EDIÇÃO 05 - ANO II - MAIO E JUNHO / 2017
trabalhador@s da [cultura] e da arte MOVIMENTO SOCIAL
COLETIVAS ARTISTAS OSASQUENSES
Nivalmir Santana e Maria Helena ARTIGO
José Pereira da Silva Neto POLÍTICA
Manifesto Nós de Oz
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EDITORIAL O
nde estão nossos direitos? Esta edição é uma reflexão sobre a situação dos trabalhadores brasileiros, especialmente os da arte, que sempre tiveram dificuldades em garantir para seu segmento os mesmos direitos de outros trabalhadores. Sem férias, sem décimo terceiro, sem seguro-desemprego: essa é a condição da maior parte dos trabalhadores da arte e da cultura no Brasil. A dimensão econômica da cultura no país vêm aumentando. Entre 2004 e 2013, o crescimento do setor foi de 69%, superando o do PIB nacional, que foi de apenas 36,4%. A cultura e a arte oferecem possibilidades reais de transformação social, multiplicando resultados em várias áreas de situação crítica em nossa sociedade, como a do trabalho – elas criam novos mercados e cadeias de geração de renda. É por essa e outras razões que não faz nenhum sentido o presidente golpista Michel Temer querer acabar com o MinC (Ministério da Cultura), e que o prefeito de São Paulo João Dória está comprometendo o pleno desenvolvimento da maior cidade do Brasil cortando os “gastos” com a dança, o teatro… Em Osasco a crise continua, com mais uma gestão que não valoriza a arte. Já houve muitas conferências, plenárias e debates “semipúblicos”, onde das mais diversas formas e em muitas vozes dissemos: AUMENTA O ORÇAMENTO DA CULTURA! Está claro que em Osasco não existe preocupação com o desenvolvimento das poucas políticas públicas alcançadas, muito menos respeito aos movimentos sociais que lutam na defesa da diversidade – nessas situações, mais uma vez, o prefeito não está presente. Deve estar na Disneylândia.
Jornalista Responsável Cintia Sales / MTB0078073/SP Grupo Organizador Cintia Sales Dario Bendas Luciano Lub Revisão Renata Tavares Arte e Diagramação Ateliê Sendero / André Bastianon
Artista da capa: Nossa artista de capa é a professora, poeta e artista plástica Risomar Fasanaro, que lançou recentemente o livro Recinfância e outros poemas (2016). A amiga Risomar participa dos maiores movimentos culturais da cidade de Osasco desde a década de 1970. Ela ajudou na construção da Vila dos Artistas e coordenou em 1973 a 1ª Feira de Artes na Praça Duque de Caxias, além de ser uma das responsáveis pelos registros históricos da arte e da cultura na cidade, pois escreveu para o Jornal de Osasco, na seção “Veredas”, que em 1973 viria a se tornar um grupo de cultura e arte que também tinha uma publicação em revista. Risomar, que é uma estrela-guia de amorosidade e prática social, nos cedeu a imagem de uma de suas obras para a capa desta edição da Revista Nós de Oz. A obra faz parte de um novo momento estético da artista, que em 2016, como forma de resistir a esses tempos inglórios, passou a se dedicar ao abstrato. Interprete-o, como ela sugere! “O que mais fica na gente é a sensação de coisas inacabadas”, diz Risomar.
parceiros
COLETIVAS MOVIMENTO SOCIAL
O
artesanato, essa cultura antiga que permeia todos os povos, tem sido pauta permanente na cidade de Osasco nos dois últimos anos, principalmente por conta da presença no Conselho Municipal de Política Cultural (ComCultura) de Guinha Conserva, uma representante muito ativa do segmento. Guinha, que já realizou alguns debates sobre o tema na cidade, organizou documentos com outros representantes do segmento e os encaminhou às autoridades locais, enfatizando a necessidade da criação de uma lei que reconheça o artesão como trabalhador. Unem-se aos esforços do Conselho Municipal alguns coletivos atuantes no que se refere à arte e à cultura de Osasco e que podem e devem, em parceria com os conselhos locais, as forças políticas, os grupos artísticos e todos aqueles que têm coragem de colocar a mão na massa (infelizmente não são todos), fortalecer a discussão cultural na cidade. E o Coletivas é um dos grupos que vêm ressignificando essa luta. A indústria, marcada pela produção em escala, pela qualidade cada vez mais baixa e na maioria das vezes sem nenhuma exclusividade, vem perdendo espaço para o artesanato, esse trabalho milenar, cuidadoso e minucioso, que exige grande aproximação com o produto. O trabalhador artesão vende um produto íntimo, o resultado de uma criação – por isso o artesanato é arte, e vai do delicado ao rústico, do pano no chão às feiras . O Coletivas reúne pessoas – atualmente mulheres exclusivamente – de todo o estado de São Paulo e principalmente de Osasco, que se juntaram para somar trabalhos e experiências,
Da esquerda para a direita, de cima para baixo: Bia Aparecida Franco, 37 anos – Bhakti Shakti Massoterapia; Cinthia Aureliano, 40 anos – Juvercinah Acessórios; Heloisa Pinho, 49 anos – Dona Lolô Crochet; Luciene Melo, 38 anos – Lu Melo Pratas e Afins; Luciana Abujamra, 45 anos – Loo Aboo Brechó; Deise Daiane de Oliveira, 33 anos – Administradora; Manu Jasmim, 39 anos – De Jasmim Alimentação Saudável; Silvia Batista, 35 anos – Chama Verde Alimentos Naturais, Integrais e Veganos.
a fim de organizar sua participação em feiras, bazares e eventos. As atividades do coletivo são recentes: a primeira delas foi uma feira no bar e restaurante Arte Brasil Grill, no bairro Vila Campesina, em Osasco, em fevereiro de 2017. A integrante Manu Vergamini explica que o grupo trabalha com a pedagogia da roda, na qual tudo é decidido em conjunto e o diálogo é fundamental. “Percebemos o quanto as parcerias são importantes na realização dos objetivos do grupo e estamos caminhando para construções colaborativas. Para nós, esse tipo de ação valoriza o ser humano, e fazer isso coletivamente é gratificante”, afirma Manu. E é por esse caminho que o artesanato se desenha na identidade cultural brasileira, revelando costumes, tradições e características de cada região. Em Osasco, esse trabalho está relacionado à busca pela construção de espaços coletivos. “Buscamos trazer uma nova opção de entretenimento, onde o cidadão tenha acesso à cultura através das manifestações artísticas já existentes na cidade, o que permite também o contato das pessoas com os equipamentos públicos e a aproximação com o tipo de comércio e economia que incentivamos”, diz Manu. O artesanato é a vocação dessas mulheres, que, embora ainda não consigam viver plenamente dessa atividade – tendo de intercalar com outras para complementar a renda –, insistem em produzir com suas próprias mãos algo que dê sentido ao trabalho, com vistas não apenas ao resultado financeiro, mas à troca entre elas mesmas e com o público . O Coletivas, assim, prioriza a economia sustentável e o comércio
justo, acreditando que a venda de produtos artesanais incentiva pequenos empreendedores e humaniza as relações. As integrantes participam de eventos em espaços como centros culturais, estabelecimentos comerciais, grêmios de empresas e condomínios residenciais, e pretendem estruturar em pouco tempo uma loja colaborativa com todos os expositores e parceiros de sua rede. Essas alternativas de caráter coletivo e colaborativo vêm movimentando o fazer social e indicando novos caminhos político-sociais. São pessoas como as mulheres do Coletivas que constroem, voluntariamente, cenários sociais mais promissores. As integrantes do coletivo lembram, porém, que o sucesso de tais ações depende também dos gestores públicos, que devem construir mecanismos e aparatos legais para incentivar esse tipo de manifestação. Seguem alguns apontamentos do coletivo sobre as dificuldades enfrentadas pelo artesão na cidade de Osasco: • Falta apoio da prefeitura (divulgação, cessão do espaço público). • Não há uma feira de artesanato na cidade. • Faltam políticas de sustentação para a produção.
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ARTISTAS OSASQUENSES
Nivalmir Santana e Maria Helena Fogo Santana A
arte sacra (nome que leva toda produção artística qualificada e destinada ao culto sagrado) foi uma das primeiras manifestações culturais registradas no Brasil. Ela remete aos tempos da colônia e tem como principal representante o artista barroco Aleijadinho, referência internacional. A importância da arte sacra está para o cristianismo como a própria teologia, só que em imagens: é por meio de cores, sons e volumes que se transmite o mistério envolto na liturgia, tocando o coração dos fiéis como só a arte é capaz. A arte sacra está presente em pinturas, gravuras, desenhos e esculturas de teor religioso, sejam figurações de santos, de templos ou de passagens bíblicas. É uma arte muito específica, que deve representar os preceitos religiosos com a maior fidelidade possível e com sentimentos autenticamente piedosos, que a própria religião propõe. Para exprimir isso tudo, o artista deve ter pleno conhecimento dos dogmas religiosos e litúrgicos, caso contrário não conseguirá produzir uma obra autêntica, ainda que seja para construir uma concepção crítica. Em Osasco temos dois grandes artistas da arte sacra contemporânea, Maria Helena e Nivalmir Santana, casal que vive no bairro Jardim Conceição, um dos maiores redutos de multiexpressões culturais da cidade. Não é de hoje que eles produzem em seu ateliê (semelhante a um jardim secreto) esculturas sacras que chegam a 5 metros de altura, além de painéis e desenhos em experiências de arte moderna, como projetos de vitrais em objetos do uso cotidiano. Nivalmir, 45 anos, é formado em Artes Plásticas na Unesp e também é músico; Maria Helena, 62 anos, é formada em Arte Litúrgica e Artes Visuais pela Belas Artes (além de pós-graduada em Artes Integrativas) e atualmente se dedica a uma ousada pesquisa sobre reciclagem de vidros, para futuramente criar vitrais. Nivalmir e Maria Helena são membros das comunidades católicas, embora hoje não sejam atuantes na Pastoral Catequética. Eles expressam sua espiritualidade no fazer artístico que encontrou no Liceu de Artes e Ofícios, em
São Paulo, e em Monza, na Itália (no caso de Maria Helena) espaços que também reuniam trabalho e arte. O casal produz obras de arte sacra para todos os estados do país, com encomendas que nunca param de chegar, tanto de igrejas como de empresas de diversos ramos. Eles comentam que, hoje, poucas de suas obras estão em Osasco. Realmente, só é possível encontrar a arte de Maria Helena e Nivalmir em dois locais da cidade, ambos no Jardim Conceição: na Paróquia Nossa Senhora Aparecida (Comunidade de São Benedito) – escultura do Sagrado Coração de Jesus – e na comunidade Cristo Redentor – painel do presbitério (feito em baixo relevo, em cimento policromado). Muitos são os artistas talentosos de Osasco e poucos são os que conseguem tirar seu sustento da arte. O casal Nivalmir e Maria Helena reconhece essa dificuldade, afirmando que as oportunidades para os trabalhadores da arte na cidade são muito escassas, o que os leva à margem do mundo do trabalho, pois não há legislação trabalhista que os proteja ou que ofereça oportunidades no mercado. Em outras épocas, Maria Helena e Nivalmir escreveram projetos culturais para o bairro do Jardim Conceição, visando preservar a memória das famílias oriundas de vários estados do Brasil que se concentram no local. A proposta dos projetos era, a partir das fachadas das casas, construir um mural que contasse a trajetória de vida dos moradores, formando uma espécie de “corredor cultural de artes visuais”, mas eles nunca foram atendidos. Como em Osasco não há um mapeamento qualificado dos trabalhadores da arte, é difícil desenvolver um campo econômico pujante desse segmento. Nivalmir e Maria Helena são esses dedicados trabalhadores que continuam resistindo, fazendo ações sociais onde moram, muitas vezes cedendo sua própria casa para promover a iniciação artística de crianças e trabalhando com arte, sim, mas fora da cidade... Eles alimentam a fé, inclusive, de que um dia Osasco respeite o trabalhador da arte.
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A voz dos trabalhadores brasileiros diz NÃO para reformas de Temer por José Pereira Neto
O
Brasil vive um momento muito difícil no que diz respeito à política e à economia. Temos no governo federal um grupo elitista e voltado ao próprio umbigo, e a verdade é apenas uma: o trabalhador pagará o pato e sofrerá as consequências de interesses extremamente conservadores.
Como se já não bastassem os baixos salários, a alta rotatividade, a terceirização e o alto índice de desemprego, o governo Temer trabalha para implantar (e tentar nos enfiar goela abaixo) reformas que visam à retirada de nossos direitos e à precarização do trabalho. Como todos já sabem, estamos falando da Reforma da Previdência e da Reforma Trabalhista, que afetarão direitos, benefícios e a qualidade de vida de todos os trabalhadores do Brasil, seja da categoria comerciária, da metalúrgica, da bancária, da gráfica ou de outras. Nesse cenário, sindicatos – como o dos Comerciários de Osasco (Secor) – , confederações, federações e centrais sindicais, ou seja, o movimento sindical como um todo, ao lado dos trabalhadores, está investindo fortemente em ações e movimentos de repúdio ao que se instalou no país.
Temos lutado dia após dia por nenhum direito a menos, seja na porta de lojas e centrais de distribuição – conversando e conscientizando nossa categoria, entregando materiais explicativos sobre o tema – ou nas ruas, como no Dia Nacional de Paralisação, em 15 de março, quando sindicatos de Osasco e região se mobilizaram no centro da cidade para mostrar sua insatisfação. Nós não estamos brincando e, se necessário, vamos parar o país! Nesse processo de divulgar à classe trabalhadora o verdadeiro cenário do Brasil, percebemos que a arte tem sido uma ferramenta muito positiva, já que os trabalhadores demonstram mais interesse em histórias contadas por meio de peças de teatro, charges, música e outras manifestações culturais. Precisamos conhecer a força que temos e usá-la a nosso favor. E, para vencer essa luta, temos que trabalhar juntos!
José Pereira da Silva Neto, presidente do Sindicato dos Comerciários de Osasco e região (Secor)
MANIFESTO O Coletivo Nós de Oz é composto de mulheres e homens de firme e clara orientação ideológica progressista e com variados históricos de militância político-partidária, estudantil, sindical, artística e em movimentos sociais. Estruturado de maneira horizontal e colaborativa, o Coletivo Nós de Oz tem por objetivo contribuir com a reflexão política e cultural na sociedade, em especial na cidade de Osasco-SP. O Coletivo Nós de Oz promove ações culturais, artísticas e políticas voltadas ao debate das questões de nosso tempo, sobretudo àquelas que incidem diretamente sobre setores vulneráveis da sociedade submetidos ao jugo do Capital e da intolerância. O Coletivo Nós de Oz entende que a transformação das estruturas sociais passa necessariamente pela cultura, pois nela se forjam os símbolos, os valores e as concepções que, ao fim, formam a visão de mundo e pautam o convívio social das pessoas. Também compreende a política como a principal ferramenta na construção de um novo modelo de sociedade, estabelecido sobre os conceitos da justiça, da verdade e da solidariedade entre os povos. Assim, o Coletivo Nós de Oz manifesta publicamente seus princípios e suas diretrizes fundadoras: CONTRA o fascismo, o liberalismo econômico e suas vertentes nefastas, o conservadorismo político e social, a intolerância, a xenofobia, o racismo, a homofobia, a misoginia e quaisquer tipos de discriminação de cunho religioso, de gênero, de orientação sexual e de origem étnica; A FAVOR da democracia efetiva, das liberdades individuais, dos direitos humanos e animais e do reconhecimento da legitimidade das lutas populares pelo direito à cidade, à saúde, à educação, à moradia digna, à diversidade, à alimentação saudável, à informação e ao fortalecimento de novas estratégias de acesso ao trabalho e renda, como a economia solidária e o associativismo; A FAVOR da luta das mulheres contra a opressão e o machismo a que são submetidas, do fortalecimento do movimento negro e do movimento LGBT, da defesa das comunidades quilombolas e dos povos originários; CONTRA a retirada de direitos sociais, previdenciários e trabalhistas e todo tipo de exploração da classe trabalhadora e das camadas mais pobres da sociedade por parte dos detentores do poder econômico, político e midiático; A FAVOR da desmilitarização da polícia, com a construção de um sistema de segurança pública civil, cidadão e comunitário; A FAVOR do acolhimento de refugiados e migrantes, da integração dos povos e do fortalecimento da identidade cultural latino-americana no Brasil; A FAVOR de todos os mecanismos que assegurem o direito à memória, à verdade e à reparação. EM DEFESA DE UMA CIDADE PLURAL, INCLUSIVA E DEMOCRÁTICA, ONDE AS MANIFESTAÇÕES CULTURAIS SEJAM INCENTIVADAS, RESPEITADAS E DIFUNDIDAS PARA TODA A POPULAÇÃO! Orientado por essas premissas, o Coletivo Nós de Oz respeita e apoia todos os partidos, entidades, movimentos sociais, projetos e iniciativas que levantem essas bandeiras e atuem na construção coletiva de uma sociedade justa e com protagonismo da classe trabalhadora, e CONCLAMA as pessoas a se unirem em torno da luta pela liberdade e pelo fim de todas as formas de opressão.
Ensaio do grupo Rosas Cyganas.
Ensaio do grupo Samba do Pé Vermêio.
ESPAÇO DO COLETIVO
Ensaio Geral com as Dadivosas.
Debate Empodera Mulheres.
REFLEXÕES
Debate na UNIFESP.
Evento Cultura Vegana.
O Coletivo Nós de Oz recebe e realiza diversas atividades. Neste ano já participamos de debates, organizamos eventos, além de disponibilizar o espaço para diversos grupos ensaiarem e se reunirem.