Revista Experimental de Pesquisa em Cultura no Segmento de Literatura | dezembro de 2017 | nº 03 ano 01 EDER DOS ANJOS | QUEM COM ARTE FERE, COM CRÍTICA SERÁ FERIDO CENSURA NUNCA MAIS | FLAGRAS DA CIDADE | CULTURA POPULAR PRESENTE
EDITORIAL Nossa pequena jornada do ano de 2017 se encerra em Jandira. Foram muitos encontros e desencontros nessa querida cidade, que permitiram chegar até essa 3ª edição da Revista Favo Cultural. Esperamos ter contribuído um pouco com nossa pesquisa para revelar pensamentos, processos e artistas desconhecidos, desaparecidos e notáveis desta cidade. Com certeza ainda há muito para se contar e se encontrar. Andamos por muitos bairros, conhecemos pessoas de diversos interesses e é essa multiplicidade de olhares que faz uma cidade pulsar e, para continuar viva é necessário a construção efetiva e constante de mais espaços de diálogos sinceros e fraternos. Agradecemos o apoio nos dado pela Secretaria de Cultura do Município de Jandira, bem como a Prefeitura do Município de Jandira e ao Conselho Municipal de Política Cultural, os antigos conselheiros que acompanharam esse processo e os novos conselheiros que sempre acompanharam este trabalho com muito carinho. Esperamos que Jandira continue aberta para receber o poder transformador do pensamento crítico. Até breve. Cintia Sales.
EXPEDIENTE
[Este projeto cultural tem o copatrocínio do Fundo Municipal de Incentivo à Cultura - Lei 1970-12 (através da Secretaria da Cultura e do Conselho Municipal de Política Cultural de Jandira)]
Tiragem: 5.000 exemplares
Distribuição gratuita em equipamentos públicos e espaços culturais.
revistafavocultural@gmail.com
Edição, Pesquisa e Redação e Fotografia Cintia Sales - MTB 0078073/SP Arte e diagramação André Bastianon - Ateliê Sendero
Os textos e artigos assinados são de responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião desta publicação.
#ArtistadaCapa
Duarte FromHell Duarte FromHell tem 27 anos, mora no centro de Jandira e sempre desenhou, recluso nos espaços caseiros junto de seu irmão, a diversão era pintar. Com o tempo foi se aprimorando, chegou inclusive a fazer um curso de Design na ETEC - Carapicuíba. Não se animou com o mercado de trabalho de design, pela exigência que existia do ensino superior ele não conseguia vagas que desenvolvessem sua criatividade, então deu uma mudada no rumo de sua vida profissional. Foi se dando conta das relações humanas à partir do cotidiano e foi aflorando nele outras questões sutis, como a saúde mental.
Foi fazer psicologia e hoje recém formado e muito animado com sua escolha, está a procura de emprego nesse espaço do cuidado das emoções, hoje através da psique. Mas ele nunca abandonará o desenho, entende inclusive que a arte cumpre um papel essencial no trabalho com as emoções. Ele já brincou com gravuras e hoje arrisca a tatuagem, sua temática tem uma linha muito específica do universo dark, que tem haver com os estilos musicais sempre presentes em sua vida: o metal e o death metal. Mas isso não reduz sua arte, também cria coisas que aparecem no seu dia a dia, como a prostituição e as dores dos trabalhadores. Com uma pitada Di Cavalcanti, retrata as sensações marginalizadas de tantos seres humanos.
#VozPopular Eddie Souza - Publicitátio
Falar da Cultura em Jandira não é coisa muito difícil. A cidade vem se moldando através de seus jovens, o que antes não tinha, hoje a galera se reinventa para fazer existir: batalhas de Mc’s, “feira de lanches” noturna... até o próprio teatro da cidade que antes era pouco utilizado, passou a ser mais usado, oferecendo aulas de ballet, por exemplo. Houve a criação de espaços específicos para a Arte e Cultura, como o Espaço Biguá, onde todas as quartas-feiras tem aulas de Samba Rock. Claro que ainda há muito para melhorar, a cidade apesar de ter um ritmo interiorano evoluiu bastante em pouco tempo. Acredito que essa evolução é só o ponta pé inicial em todas as áreas da cidade, cujo crescimento é inevitável.
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#ALGUEMdaARTE
F.C.: Qual sua pro�issão atualmente? É difícil… eu sou ator né, por essência de ofício eu sou ator. Acabo fazendo outras coisas por envolvimento político e cultural, mas o que eu sei fazer e o que eu acredito como profissão é o teatro.
F.C.:Você faz teatro na cidade de Jandira? Estou tentando. A dificuldade é que santo de casa não faz milagre. Fiquei 8 anos fora da cidade com um grupo de teatro de São Paulo (capital) viajando o Brasil. Quando criou-se aqui a Lei de Incentivo à Cultura abriu-se a possibilidade de trabalhar com dignidade na cidade. Ser profissional e trabalhar na cidade vai além da questão de executar um ofício, as condições estruturais e o diálogo são muito difíceis. E foi por todas essas questões que eu voltei, pra de alguma maneira ajudar a construir o alicerce da política cultural na cidade, fomentar a consciência de quem está nesse campo (da arte), pois ainda há muito o que se fazer, a própria Lei de Incentivo à Cultura de Jandira ainda é aquém do processo real de fomento. Mas eu voltei por mim, mesmo com estabilidade profissional tem um momento que você se pergunta: O que estou fazendo? É isso mesmo que eu quero? E aí eu dei três passinhos para trás pra entender o sentido desse ser artista e como eu contribuo na transformação das referências, propiciando uma dinâmica que mostre que é possível fazer arte de onde viemos, que aqui na cidade existem pessoas que conseguem.
F.C.: O que o ator tem haver com o espaço social? Tudo, o teatro é uma ferramenta de transformação social, o ator também é ferramenta. Levar informação, emocionar, entreter… faz do teatro uma ferramenta de mudança. Ouvi dizer uma vez “A arte é mais verdade que a própria vida ou a arte representa a vida como ela deveria (ou poderia) ser? Acho que o teatro tem a capacidade de mostrar além do que é, então acaba sendo mais verdade que a vida, porque a gente coloca uma lente de aumento… F.C.: Você saiu do o�ício e veio pra essência? Acredito que os dois andam juntos. Se você perder a essência vai perceber quando chegar lá no meio, que virou mão de obra. E ser somente uma máquina, mesmo no teatro é possível e nada interessante. É ruim? Não necessariamente. Mas a minha essência não é essa, é uma coisa de acreditar mais e ter mais autonomia, não ser alheio aos processos, só um participante.
F.C.: O que o seu o�ício de artista está lhe permitindo construir? Tem me permitindo fazer o que estou a fim de fazer, falar o que estou afim de falar. Como o projeto realizado na cidade este ano pela Lei de Incentivo à Cultura, que foi a montagem do espetáculo “Sobre Meninos e Pipas”, uma proposta de juntar os questionamentos de Brecht - não aceitando o que é natural como natural - e o Pequeno Príncipe, um moleque que não desiste - porque nós somos educados a desistir, não questionar, a ficar quieto e desistir das perguntas, que é uma forma de desistir da gente. A peça é uma forma de nos mantermos crianças, pois a criança tem por essência quebrar regra, ser sincero e por isso, ter coragem. Hoje também estou na equipe de preparação de elenco do longa metragem A volta, de Ronaldo Uzeda e também do documentário de Marco Jorge e o espetáculo “Sobre Meninos e Pipas” deve estrear em São Paulo no primeiro semestre.
ARTIGO
POR
Daniele Soares
Quem com arte fere, com crítica é ferido. Daniele Soares é pedagoga, pós graduada em psicopedagogia e arte-educação
Em tempos em que todos são críticos aferidos das mais diversas áreas artísticas, ficou difícil expressar qualquer manifestação expositiva. Dos pincéis aos movimentos corporais, corre se o risco de ser enquadrado em algum artigo, não somente o do crítico jornalístico, mas até mesmo o de páginas policiais. O acesso às mídias sociais torna todos especialistas em tudo e em qualquer assunto, e se tem algo em que o brasileiro é especialista é em superficialidades. O senso comum muito apurado deixou de fazer parte apenas das rodas de conversas do final das tardes, nas calçadas e pontos de ônibus e hoje ultrapassa as barreiras da comunidade local. Cada qual munido com seus aparelhos eletrônicos expressam suas opiniões, muitas vezes
pautadas em opiniões alheias. O benefício da democratização do acesso às artes põe em dúvida o significado real da palavra acessível, pois parece cada vez mais distanciar as pessoas das manifestações artísticas e culturais, uma vez que as pessoas se opõe sem conhecer, apenas ver e muitas vezes pelo olhar do outro, sem experiênciar, sentir ou experimentar, que é o que de fato a arte deve propiciar. O triste é ver esse comportamento se repetir nos ambientes escolares e perpetuados por profissionais da educação que acabam limitando a visão, expressão e até mesmo as habilidades artísticas dos alunos. Assim vemos com as aulas de educação artística, que deveriam ao meu ver serem renomeadas de aulas de arte apenas (como ja fazem algumas instituições), aulas de fazer, conhecer e criar arte, não reproduzir.
Pois a palavra educação presupoe, já carregada em si, normas e regras impostas, uma linha a se trilhar e aí(!) do individuo que quiser transpor a isso. Já a arte é o oposto, arte é transgredir barreiras, é questionar, por em cheque e assim deve ser, por isso se diz do menino levado: “ah moleque arteiro.” Deve-se então rever o conteúdo dessas aulas, com seus métodos arcaicos, dessas releituras que tem como expectativa cópias perfeitas de grandes obras e artistas. Isto não é sentir, não é fazer, não é viver. É tempo de nos reinventarmos, nos permitirmos, sentirmos e vivermos. De cópias, as máquinas de reprodução ( computadores e impressoras) já são capazes, deixemos esse serviço a elas. E se até maquinas podemos inventar, nos reinventemos então!
#GaleraNoCorre
Cultura Popular, presente! Dentre a diversidade artístico cultural temos aquelas manifestações que ocorrem de maneira peculiar no sentido do aprendizado, são as manifestações de cultura popular. Nela a transmissão do saber se dá de geração para geração, de forma oral, surgindo dos costumes e tradições de determinadas populações. Não se aprende por exemplo a dançar o Boi em uma sala de aula e sim com uma pessoa mais velha. Não tem curso de estilista para confeccionar a roupa do Tamanduá, você descobre onde vende uma palha duradoura com um mestre, que é aquele que transmite o conhecimento para a próxima geração e geralmente são muitas as gerações que o precedem. Na cidade de Jandira existe uma manifestação tipicamente popular, é feita em dança, música, encenação e principalmente brincadeira: o Boi dos Reis. O Boi que encontramos em Jandira foi trazido pela família de Tarcísio Santos (em 1986), que hoje é gestor na Secretaria de Cultura do Município de Jandira, mas que muito antes já é puxador de Boi, trazendo
essa tradição de São Francisco - MG. O Boi trata-se de uma manifestação com personagens humanos (catirinas, vaqueiros, baianas, os puxadores e os tocadores de caixa) e animais fantásticos (boi, tamanduá, mulinha de ouro e onça) e gira em torno de uma lenda, onde o boi morre e ressuscita. A lenda mais comum conta que a escrava Catirina, grávida, pede ao marido Chico, também escravo, para comer língua de boi. Chico atende ao desejo da esposa, matando o boi e
sendo preso a mando do dono da fazenda. Com a ajuda de curandeiros, o boi é então ressuscitado. As catirinas são personagens que ficam atiçando o boi, por isso ficam atrás dele e os vaqueiros o enfrentam, a todo momento se vê o contraste entre a fragilidade do homem e a força bruta do boi aparecem. Tarcísio confecciona as estruturas e roupas de todos os animais da manifestação, conta que em sua terra natal cada fundo de quintal tinha um boi, um boi mirim, onde as crianças iam aprendendo a brincar o Boi. Praticar o Boi principalmente longe da sua terra de origem é muito difícil, os integrantes do grupo estão espalhados pela região oeste metropolitana e isso dificulta o encontro para brincar o Boi. São sempre convidados para alguma apresentação, preferindo ir para as periferias por encontrarem um contato mais profundo com os moradores dessas localidades. Mas no geral não existem incentivos específicos para a manutenção da cultura popular, o que vai fazendo com que a tradição se perca. Mas em Jandira eles resistem, com suas festas pontuais e com os vizinhos que ajudam nos festejos, mantend a tradição.
#ContraCapa
ÉM B M A T A R CENSU M JANDIRA PEGA E
Anthero Correa de Godoy Filho Fotógrafo
A D N E G A
Não poderíamos deixar de prestar homenagem a esse grande fotógrafo jandirense, conhecido nessas terras como Biguá, o apelido que veio de uma ave, que assim como seu apelidado são de grande capacidade de observar e perceber o momento. Biguá tornou-se repórter fotográfico e imortalizou muitas histórias vividas em Jandira, são muitos os que se reencontram em suas fotografias, que mostra grande parte do desenvolvimento urbano e social do município. Quem quiser mais informações da obra de Biguá, sugerimos o livro ‘Jandira através das lentes de um fotógrafo’, organizado por Amanda Mochiute, Vânia Brega e Filastor Brega.
Anthero Correa de Godoy Filho
visĂľes de Jandira