ENTREVISTA
LIU YUGANG “O homem pensa, uma máquina é controlada pelo chip que se montou lá dentro. As diferenças estarão sempre aí” Não acredita em Deus, mas também não garante que a ciência seja, efectivamente, exacta. Foi o primeiro aluno a tirar um doutoramento de Robótica na Universidade de Macau, que o aprovou “com distinção e louvor”. Entrou no mundo da ciência pela porta da engenharia e daí à Robótica foi um passo. Liu Yugang tem 33 anos e é actualmente investigador na Ryerson University, no Canadá. Apaixonado pelo trabalho, Yugang acredita que há-de chegar com o dia em que “um autómato possa abrir a porta do frigorífico e trazer-nos uma cerveja”. De Robótica sabe quase tudo. Só lhe falta ler o livro de ficção científica “I, Robot”, de Isaac Asimov. Mas talvez não seja por muito tempo. Por MARTHA MENDES, em Macau Actualmente está a trabalhar como investigador na Ryerson University, no Canadá. Que área está a investigar? Actualmente estou a trabalhar em robôs que são mapeados, cuja posição pode ser verificada a todo o instante, ou seja, modelação da monitorização de robôs inteligentes. Comparado com um robô móvel de rodas, este modelo de robô é mais adequado para um terreno irregular, como escadas, por exemplo. Esta característica traz um considerável potencial de aplicações, como a procura, o resgate e ainda os dispositivos de ordenação de explosivos (EOD). Quais são as principais diferenças entre trabalhar na América e na Ásia? O clima no Canadá é bastante diferente do de Macau. No entanto, não há grandes diferenças ao nível do trabalho, especialmente quando se passa grande parte do tempo dentro do laboratório, como é o meu caso. Ah… E a língua, claro. Aqui tenho de falar mais inglês do que na Ásia. Que actividades tem desenvolvido, na área da Robótica, desde que terminou o doutoramento na Universidade de Macau (UM)? Tenho estado a trabalhar na modelação da monitorização de robôs inteligentes, desde o meu doutoramento na UM. Desenvolvi, muito detalhadamente, um algoritmo on-line que prevê quando o robô vira, ou seja, quando perde o contacto com a superfície, na subida
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de escadas, por exemplo, atendendo à interacção pista-degrau. Um método geral de análise cinemática foi proposto para manipuladores móveis movimentando-se em terreno firme, considerando a deslocação no terreno e as interacções manipulador-veiculo; prevê-se um algoritmo on-line de prevenção que está a ser desenvolvido para manipuladores móveis, que possam equilibrar a distribuição da carga reconfigurando a plataforma móvel ou ajustando os movimentos do manipulador de bordo. O doutoramento tem sido importante no trabalho que tem desenvolvido nos dois últimos anos? Foi importante na medida em que era uma das exigências para me candidatar ao Ryerson postdoctoral fellowship. Tenho beneficiado com o conhecimento que adquiri durante o doutoramento e tenho a certeza que o trabalho que desenvolvi nessa fase da minha vida vai continuar a ser útil para a minha carreira, no futuro. Começou por tirar uma licenciatura em Engenharia e depois veio a Robótica. A Robótica é engenharia. A Robótica atraiu a atenção de investigadores de muitas áreas diferentes, tal como controle e automação, engenharia mecânica, engenharia eléctrica e electrónica, informática e outros. A minha tese de mestrado, foi sobre a identificação dos parâmetros e controlo de vibração de manipuladores modulares e a Robótica não era um tema novo para mim.
Foi o primeiro aluno a tirar um doutoramento de Robótica na UM. Como é que a instituição reagiu ao seu desejo de avançar com esse projecto? A universidade apoiou a cem por cento a pesquisa sobre Robótica. Se visitar o laboratório de mecatrónica da UM encontrará um manipulador modular com sete graus de liberdade (7-DOF) produzido pela Amtec na Alemanha, dois robôs móveis feitos pela Companhia Activmedia dos Estados Unidos e vários robôs desenvolvidos por estudantes da UM. Com estes robôs podem fazer-se experiências para verificar os algoritmos desenvolvidos. Além destes equipamentos há na biblioteca uma estante com livros sobre Robótica, controle e automação. Todos estes investimentos foram feitos pela universidade para apoiar a pesquisa em Robótica. Para além de ter sido o primeiro doutorado da UM nesta área foi também o primeiro aluno da China Continental que terminou o doutoramento nesta universidade. Porquê a opção pela UM? O meu supervisor do PhD, o Professor Li Yangmin, também foi co-supervisor da minha tese de mestrado. O meu projecto de mestrado também foi apoiado pela UM, portanto eu já conhecia o meu supervisor, as instalações e o laboratório antes de escolher a UM. A Robótica não era das áreas com mais tradição na UM...
perceber, pensar e agir. Se não fosse investigador, o que é que gostava de ser? Gostava de ser investigador e trabalhar na modelagem e controle de Robótica. O que é que mais gosta na sua profissão? É simultaneamente promissora e desafiante. O que é que menos gosta na sua profissão? Não consigo responder. Gosto muito da minha profissão. O que é que de melhor já se fez na área da Robótica? Entre as melhores coisas, até agora feitas em Robótica, está a aterragem bem sucedida dos Mars Exploration Rovers em 2004. O que é que ainda falta fazer? Já se progrediu muito no controlo de Robótica em ambientes estruturados. No entanto a navegação autónoma e a manipulação em ambientes sem estrutura continuam a ser um desafio. Quem é o maior nome de sempre na sua área? Porquê? A Robótica atraiu muita pesquisa, de várias áreas. Os temas das investigações são bastante diferentes, por isso é difícil dizer quem é o melhor. A ideia de criar máquinas que imitam pessoas – robôs – não é um bocado assustadora? Depende da maneira como são controlados. Podem animar-nos em vez de assustar-nos, se o comportamento da máquina for limitado a coisas positivas. É um cientista. Posso perguntar-lhe se acredita em Deus? Não, não acredito. A inteligência artificial – tal como existe no imaginário das pessoas, associado, por exemplo, a personagens como o Frankenstein – é possível, ou a distinção entre a máquina e o homem será sempre clara? Tanto quanto sei é impossível. O homem pensa e adapta-se ao ambiente, uma máquina é controlada pelo “chip” que se montou lá dentro. As diferenças estarão sempre aí. A Robótica pode ser aplicada no dia-a-dia, de forma a melhorar a qualidade de vida das pessoas? Como? Claro. A Robótica de serviço é uma área de pesquisa promissora, que tem atraído muitos investigadores. Robôs para cuidar de crianças e idosos foram desenvolvidos por muitas instituições. Robôs de varrer e limpar as ruas vão tornar-se
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muito populares. Além disso, não faltará muito para que um autómato nos possa abrir a porta do frigorífico e trazer-nos uma cerveja. O que é que um homem pode que uma máquina jamais será capaz de imitar? O homem pode pensar e tomar uma decisão numa situação específica. Uma maquina não: é pré-programada e a sua inteligência é determinada por o “chip” que é lá colocado. Em que é que as máquinas são indispensáveis ao homem? As máquinas podem assumir tarefas repetitivas e enfadonhas para o ser humano. Certamente, também podem ser usadas para executarem tarefas perigosas ou explorar ambientes desconhecidos.
A Robótica tem possibilitado às empresas redução de custos com o operariado e um significativo aumento na produção. Para muitas pessoas este é o lado mais perverso da Robótica – a substituição das pessoas pelas máquinas. Qual é a sua opinião sobre este assunto? Do ponto de vista técnico isso é um grande avanço. Leu o livro de ficção científica “I, Robot”, de Isaac Asimov, escritor e cientista que criou o termo “Robótica”? Não, nunca o li. Mas depois da recomendação o mais certo é vir a lê-lo no futuro…
A ciência é mesmo exacta? As máquinas têm sempre razão? Acho que não. A “fuzzy logic”, em si mesma, é uma ciência. Talvez as máquinas cometam menos erros em ambientes estruturados e uma pequena mudança de ambiente pode confundir uma máquina inteligente.
O autor francês Georges Bernanos escreveu na sua obra “Le chemin de la Croix-des-Âmes” que “o perigo não está na multiplicação das máquinas mas sim no número cada vez maior de pessoas habituadas, desde a infância, a só desejar o que as máquinas podem dar”. Que comentário faz a este pensamento? Existe a preocupação dos seres humanos degenerarem por dependência excessiva das máquinas ou computadores. Mas esse problema têm de ser os sociólogos a resolver.
A palavra “robô” deriva do Checo e significa “trabalho forçado”. Vê alguma ligação entre os dois conceitos? Sim... Os manipuladores de autómatos industriais convencionais foram desenvolvidos para executar tarefas específicas, como apanhar, colocar, pintar, ou soldar. Tarefas que podem ser consideradas “trabalhos forçados”.
O que é que ainda lhe falta fazer? A nível da minha pesquisa, ainda estou a trabalhar no desenvolvimento da previsão e segurança on-line de algoritmos para manipuladores móveis monitorizados em terreno irregular. E o meu próximo tema poderá incluir a manipulação não preênsil de autómatos móveis monitorizados. Vamos ver.
Liu Yugang Nascido para a Robótica Liu Yugang nasceu na cidade de Botou província de Hebei - na China, a 8 de Fevereiro de 1976. Licenciado em 1999 pela faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade de Pequim, Yugang concluiu o mestrado na Faculdade de Telecomunicações da mesma instituição, em 2002. Entre Abril e Outubro desse ano, Yugang trabalhou como engenheiro de software na empresa de comunicações Hua Wei, em Shenzhen (província de Guangdong). Quarto anos depois (2006), recebeu o grau de doutor, com distinção, pela Universidade de Macau. Actualmente, Yugang é bolseiro do Departamento de Engenharia Aeroespacial na Ryerson University (Toronto, Canadá), onde desenvolve investigação. Quando questionado sobre os seus principais interesses, o investigador não hesita: “modelação da monitorização de robôs inteligentes”. Ou não tivesse ele nascido para a Robótica.