Sumário | 1
NESTA EDIÇÃO Alimentação e nutrição em Gerontologia e Geriatria
DOSSIER SOBRE DOENÇAS OCULARES RELACIONADAS COM A IDADE
ESPECIALIDADES MÉDICAS
P.03
P.20
P.38
NUTRIÇÃO
Saúde e reabilitação oral em doentes seniores
ÍNDICE 02 Editorial
37 Reportagem
03 Nutrição
37 Olhar(es) pelos Cuidados Paliativos 38 O envelhecimento numa visão transfronteiriça
40 Especialidades Médicas
Ver ou não ver, eis a questão?
Alimentação e nutrição em Gerontologia e Geriatria
06 Espaço Associação Coração Amarelo
O desafio da sustentabilidade
40 Saúde e reabilitação oral em doentes seniores 42 Alterações de comportamento na demência: desafios para quem cuida
07 Espaço Associação de Farmácias de Portugal Seringas Só no Agulhão: projeto já permitiu recolher mais de 102 mil seringas em cinco meses
08 Espaço RUTIS
Excesso de gerontotimismo
10 Espaço ERPIS
O papel do Centro de Dia na ocupação dos utentes: boas práticas (3.ª Parte)
44 Entrevista 44 José Manuel Silva: “Cuidar não é apenas ter atenção ao corpo, mas também ao espírito” 47 Nuno Ribeiro: “É importante abrir horizontes para um conhecimento técnico e científico mais atualizado nesta área” 49 APT: “Estamos aqui para ajudar, para tornar a vida dos outros um pouco mais fácil”
14 A Voz de
51 Informação Técnico-Comercial
14 A importância da cidade acessível no processo do envelhecimento ativo 16 Cuidadores de idosos: um olhar sobre a família cuidadora
51 Solar das Camélias: um espaço de conforto e saúde 52 Stannah: mobilidade reduzida - o risco na hora do banho 55 FutureLift: mais tempo, mais qualidade de vida
20 Dossier sobre
Doenças Oculares relacionadas com a idade 20 Doenças oculares da idade 22 O que necessita saber sobre Glaucoma na idade adulta 24 Retinopatia Diabética 26 A Catarata em 2020 28 As pálpebras e a idade 30 Mente Ativa Corpo Ativo 30 Medicina chinesa e envelhecimento ativo 32 A Fisioterapia como coadjuvante no tratamento da Doença de Parkinson 34 Terapia Ocupacional e o seu papel na intervenção co a pessoa com demência
56 Case Study 56 Os lugares que o saber ocupa: a aprendizagem ao longo da vida no Programa 60+ 58 Vai nascer o primeiro hotel assistencial em Vila Nova de Famalicão
60 Notícias 63 Atividades 64 Bibliografia
2 | Editorial
Ver ou não ver, eis a questão?
Cláudia Guedes da Costa Diretora
Caríssimo leitor, O ser humano tem cinco sentidos e a visão é a única que permite ver o mundo criando imagens fantásticas na memória, tornando-se determinante na relação do indivíduo com o espaço envolvente. Das suas aferências derivam muitas operações complexas desde a sobrevivência à execução de tarefas claramente especializadas e elaboradas. As transformações morfológicas e fisiológicas associadas ao envelhecimento são inevitáveis. A visão acompanha esta degenerescência criando novos paradigmas visuais. A incidência das alterações normais e patológicas do sistema visual irão paulatinamente avolumar-se, condicionando a qualidade de vida com consequências a nível pessoal, familiar, profissional e ainda acarreta enormes custos sociais e económicos. Grande parte da perda visual não chega a ser diagnosticada e, portanto, não recebe tratamento, somando e agravando outras incapacidades funcionais, favorecendo a depressão, o isolamento social, aumentando as comorbilidades e as disfunções previamente presentes: »» perda de interesse por uma atividade anteriormente agradável, por exemplo, a leitura, um importante instrumento de inclusão social e de combate à solidão; »» intoxicações alimentares e mesmo envenenamentos pela dificuldade na leitura de rótulos e dos prazos de validade dos medicamentos; »» dificuldade no excesso de luminosidade; »» instabilidade nas passagens para ambientes mais escuros ou mais claros; »» dificuldade na identificação de letras pequenas; »» acidentes no interior e exterior porque não percebem desníveis e não visualizam degraus; »» dificuldade com a confluência de corredores; »» desorientação em ambientes com uniformidade de cores, bem como com excesso de padrão; »» dificuldade em seguir pistas sensoriais pouco ou escassamente identificadas como números ou letras nas portas; »» quedas e atropelamentos.
FICHA TÉCNICA DIGNUS 03 4.º trimestre 2019 DIRETORA Cláudia Guedes da Costa · claudia.dignus@gmail.com CONSELHO EDITORIAL Ana Araújo, Ana Isabel Martins, Ana Monteiro, António Palha, Carlos Wehdorn, Cláudia Moura, Elisa Serôdio, Filipa Menezes, Helena Costa, Horácio Firmino, Ilda Gois, Janinéri Cordeiro, Joana Monteiro, Joana Sousa, José Manuel Silva, José Reis, José Canas da Silva, Luís Jacob, Madalena Pinto, Manuel Viana, Márcio Vara, Margarida G. Resende, Ricardo Pocinho, Sandra Penêda Patrício, Sérgio Ferreira CORPO EDITORIAL Diretor Executivo: Júlio Almeida T. +351 225 899 626 · julio.almeida@dignus.pt Marketing: André Manuel Mendes · geral@dignus.pt Redação: Helena Paulino,T. +351 220 933 964 · redacao@dignus.pt DESIGN E WEBDESIGN Ana Pereira · a.pereira@cie-comunicacao.pt · T. +351 225 934 633 ASSINATURAS T. +351 220 104 872 · info@booki.pt · www.booki.pt COLABORAÇÃO REDATORIAL Susana Arranhado, Isabel Baião, Manuela Pacheco, Luís Jacob, Mónica Teixeira, Ana Soares, Catarina Teixeira, Adriano António Pinto de Sousa, Assunção Nogueira, Zaida Azeredo, José Guilherme Monteiro, Maria João Menéres, Lilianne Duarte, José Salgado-Borges, Filipe Esteves, Pedro Coelho, Sandra Prazeres, Helena Costa, Gabriela Martins, Cristiana Carvalho, Esmeralda Martins, Elisa Serôdio, Cristiana Pinto, Inês Varejão Sousa, Luísa Pimentel, Sara Mónico Lopes, Cezarina Maurício e Sandra Silva. PROPRIEDADE, REDAÇÃO E EDIÇÃO CIE - Comunicação e Imprensa Especializada, Lda.® Empresa jornalística Reg. n.º 223992 NIPC: 509 870 104 Grupo Publindústria Praça da Corujeira, 38, Apartado 3825, 4300-144 Porto T. +351 225 899 626/8 geral@cie-comunicacao.pt · www.cie-comunicacao.pt CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO Júlio António Martins de Almeida (gerente) DETENTORES DE CAPITAL SOCIAL Júlio António Martins de Almeida (40%) António da Silva Malheiro (30%) Publindústria – Produção de Comunicação, Lda. (30%)
“Para preservar a saúde ocular, as pessoas devem ter acompanhamento médico regular, de preferência anualmente (...)”
Desde Hipócrates até à atualidade que a evolução do conhecimento na área da oftalmologia e a preocupação com a prevenção, tal como com um diagnóstico cada vez mais precoce, potenciam com o propósito de assegurar às pessoas um melhor funcionamento visual. A visão deve ser acautelada desde o nascimento, exortar a sua prevenção e tratar quando necessário. O aperfeiçoamento tecnológico em cooperação com a literacia visual permitem a prevenção e o tratamento de doenças anteriormente classificadas como incuráveis. Para preservar a saúde ocular, as pessoas devem ter acompanhamento médico regular, de preferência anualmente, ou em períodos mais curtos, caso haja prescrição para tal. No que respeita ao panorama da saúde da visão em Portugal, existem diferentes medidas para globalmente aumentar a assistência à população. Espero que veja com bons olhos este terceiro número dedicado às Doenças Oculares relacionadas com a Idade.
PUBLICAÇÃO PERIÓDICA Registo n.º 127253 Depósito Legal: 461353/19 ISSN: 2184-6359 Tiragem: 5000 exemplares Periodicidade: Trimestral INPI: 602419 IMPRESSÃO E ACABAMENTO acd print Rua Marquesa d´Alorna, 12 A | Bons Dias, 2620-271 Ramada Estatuto editorial disponível em www.dignus.pt Os trabalhos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores.
Nutrição | 3
Alimentação e nutrição em Gerontologia e Geriatria Susana Arranhado Nutricionista e docente na Escola Superior de Saúde do Politécnico de Leiria e na Escola Superior de Saúde Ribeiro Sanches
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Q
ue a alimentação e nutrição são fundamentais em qualquer fase do ciclo de vida é sobejamente conhecido, mais ainda quando se trata de indivíduos idosos. As alterações próprias e fisiológicas do envelhecimento afetam as necessidades nutricionais do geronte e podem também dificultar a ingestão alimentar com repercussões, muitas vezes graves, ao nível do estado nutricional e funcionalidade. Deste modo, o binómio idade/envelhecimento-alimentação é dinâmico e bilateral. Assim, decorrente do processo de envelhecimento normal, outras limitações podem ocorrer, com consequências, na ingestão alimentar e no estado nutricional. De seguida, apresentam-se algumas dessas alterações. A nível da composição corporal, verifica-se redução da água corporal, o que aumenta o risco de desidratação nesta faixa etária (Medina, 2004; Ferry, 2004). Constata-se uma diminuição de 0,3 l/ano desde a idade adulta até aos 70 anos. Após “(...) a nutrição e alimentação esta idade, a diminuição é ainda mais acendo idoso exige uma atenção tuada (Ferry, 2004). aprofundada (...) um estado No envelhecimento saudável, as necesnutricional desapropriado sidades energéticas diminuem com a idade contribui significativamente para em função de modificações na composição a diminuição da funcionalidade corporal (Mahan, 2005): a perda do tecido e autonomia e aumento da metabolicamente mais ativo (da massa musmorbilidade e da mortalidade” cular) é acompanhada por um aumento do tecido adiposo, que preconiza assim uma diminuição das necessidades energéticas totais (NET). Respeitante ao sistema imunitário, verifica-se um decréscimo da sua função com a idade (Mahan, 2005), pelo que o idoso necessita de
um maior aporte de vitaminas do complexo B, vitamina E e de zinco (Blumberg, 1997). Verifica-se também uma diminuição do peristaltismo do esofágo, a qual conduz a uma maior lentificação na descida dos alimentos, à dilatação e alteração morfológica do esfíncter esofágico inferior (cárdia), podendo resultar no aparecimento de refluxo gastroesofágico (Medina, 2004). O pâncreas diminui o seu tamanho com o envelhecimento e apresenta maior fibrose do parênquima. O aumento dos níveis da hormona colecistoquinina promove uma diminuição do limiar de saciedade. Por conseguinte, a saciedade precoce manifestada pelos idosos pode ser explicada em parte pela diminuição da distensão do fundo gástrico, pelo aumento da estimulação do antro e pela secreção alterada de hormonas como a colecistoquinina e a leptina (Ferry, 2004; Medina 2004). As alterações da capacidade de secreção gástrica e consequente elevação progressiva do pH potenciam o aumento das necessidades em ácido fólico, vitamina B12, cálcio, ferro e zinco (Ferry, 2004, Mahan, 2005; Blumberg, 1997). As modificações nas vilosidades intestinais, com implicações óbvias na absorção de nutrientes acometem a pessoa idosa. Um intestino envelhecido é um intestino mais suscetível a perturbações como a obstipação, a flatulência e a diarreia, com um grande impacto no estado nutricional do ser humano, com especial expressão no idoso,
6 | Espaço Associação Coração Amarelo
O desafio da sustentabilidade
S Isabel Baião Socióloga responsável pela área de Projetos, Parcerias e Fundraising da Delegação de Lisboa
ustentabilidade, esta palavra soa familiar aos nossos ouvidos, principalmente quando falamos de questões ambientais, mas hoje venho propor-vos uma reflexão diferente: como é que associações sem fins lucrativos sobrevivem nesta economia de mercado em que ouvimos falar do setor público, do setor privado, mas muito pouco do terceiro setor. Tomemos como exemplo real a prática vivida na Associação Coração Amarelo – Delegação de Lisboa. Esta Associação tem por missão apoiar e acompanhar as pessoas idosas, da cidade de Lisboa, que se encontrem em situação de solidão e/ou isolamento ou em risco de virem a estar. Sendo uma entidade enquadradora de voluntariado, assegura esta missão através de um grupo de voluntários enquadrados por uma equipa técnica de retaguarda responsável pela integração, acompanhamento e supervisão do trabalho destes voluntários. Aposta na inovação de uma resposta qualificada e diferenciada que se coaduna com contextos pessoais e sociais em permanente desenvolvimento. A possibilidade de dispor deste enquadramento técnico advém da existência de um acordo atípico de cooperação com o Centro Distrital da Segurança Social, o qual assegura a atribuição de um subsídio mensal correspondente aos vencimentos dos colaboradores, MAS pago 12 vezes ao ano. Ora, evidencia-se desde já um desfasamento nas obrigações contratuais a que a delegação está sujeita, na medida em que, a Lei do Trabalho determina o pagamento de 14 meses de vencimento a trabalhadores com vínculo contratual. Acrescem a este fosso, as contribuições por conta da entidade, para a Segurança Social e para a Fazenda Pública que também não se encontram refletidas neste subsídio, os Seguros obrigatórios de Acidentes de Trabalho e ainda os Planos de Higiene, Saúde e Segurança no Trabalho. Tal como qualquer outra organização, independente da sua natureza jurídica ou área de atuação. Daqui resulta que muito do trabalho das equipas de gestão que têm exercido funções nesta delegação se tem concentrado, na procura de soluções financeiras para cobrir os custos fixos a que se encontra obrigada, quando o desafio principal seria o desenvolvimento da própria resposta social que preconiza. Como podemos vencer este obstáculo? O desafio é gerar fontes alternativas de receitas para além das expectáveis neste tipo de as-
“(...) é preciso que cada um questione o que faz, como faz, para que faz e para quem faz, para que possa desenvolver um trabalho cada vez mais eficaz e adequado aos desafios que se apresentam.”
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sociações: quotas de associados e alguns donativos pontuais. Para além de procurar divulgar o trabalho que é desenvolvido pela Associação e de encontrar indicadores objetivos que permitam quantificar o impacto na vida dos utentes e dos voluntários também é importante conseguir alertar os decisores políticos a adaptar a legislação de modo a que as políticas públicas sejam adequadas às atividades das Instituições Particulares de Solidariedade Social e facilitem o desenvolvimento de novas iniciativas que possam fazer face à atual situação económica e social. A Rede Social também tem que funcionar como verdadeira rede para estabelecimento de parcerias, mais do que um conjunto de organizações concorrentes na procura de um objetivo comum, que é chamar a atenção das empresas para que se interessem pela missão de cada uma das instituições e possam assim contribuir com donativos regulares. Para além do que atrás foi referido é urgente mudar de paradigma: a gestão tem que ser profissional para conseguir fazer face aos desafios da economia. O voluntariado tem que estar enquadrado para que todos se foquem nos resultados a atingir e na criação de valor. Ao mesmo tempo, tem que existir uma preocupação de todos os envolvidos na melhoria contínua do desempenho das equipas profissionais: é preciso que cada um questione o que faz, como faz, para que faz e para quem faz, para que possa desenvolver um trabalho cada vez mais eficaz e adequado aos desafios que se apresentam. A partilha de boas práticas entre as diferentes instituições também poderá contribuir para a diversificação das fontes de financiamento e para o desenvolvimento de parcerias focadas na economia de escala, bem como para a racionalização da oferta de serviços, criando novos modelos de respostas sociais e encontrando estratégias adaptadas ao mercado e ao perfil das empresas com responsabilidade social. Só com a sinergia criada pela articulação de todos os fatores referidos anteriormente poderemos continuar o nosso caminho, sempre na direção de um envelhecimento positivo e participativo.
Espaço Associação de Farmácias de Portugal | 7
Seringas Só no Agulhão Projeto já permitiu recolher mais de 102 mil seringas em cinco meses
N
unca como hoje se falou tanto sobre políticas que promovam a melhoria dos cuidados de saúde prestados às populações. Atenta à emergência destas preocupações, a Associação de Farmácias de Portugal (AFP) tem-se dedicado à elaboração de soluções para responder aos desafios da nossa sociedade. Foi nesse sentido que criámos em 2019, o projeto-piloto pioneiro “Seringas Só no Agulhão”, um projeto que ambicionamos alargar, em breve, a todo o país. Manuela Pacheco Lançado em parceria com a empresa Stericycle, o programa Presidente “Seringas Só no Agulhão” tem como finalidade recolher nas farda Associação mácias as seringas e agulhas usadas pelos doentes diabéticos, de Farmácias bem como de todos aqueles que utilizam medicamentos injetáde Portugal (AFP) veis. Para esse efeito foi instalado nas farmácias aderentes um contentor próprio – o Agulhão. Embora sendo um projeto-piloto, os resultados obtidos durante os primeiros cinco meses do programa confirmam o sucesso e a relevância desta iniciativa: entre julho e novembro de 2019 foram recolhidas nas farmácias aderentes mais de 102 mil seringas e agulhas. Recorde-se que até à data não existe nenhum sistema de recolha nacional para este tipo de resíduos. O único sistema de recolha de seringas disponível está inserido no âmbito do PTS (Programa de Troca de Seringas) – um programa especialmente dirigido às Pessoas que Utilizam Drogas Injetáveis (PUDI). Nestes casos, as farmácias recolhem as seringas usadas (que depois são destruídas) e, em troca, devolvem aos cidadãos material esterilizado. Mas os doentes diabéticos vivem há décadas com o problema de não saberem o que fazer com as suas seringas e agulhas. A AFP sabe que nestes casos a solução mais comum passa por colocar as seringas dentro de garrafas de plástico que depois são depositadas no lixo. Por considerar que este não é, de todo, o destino ideal para resíduos desta natureza, a AFP criou o projeto “Seringas Só no Agulhão” para encontrar uma solução ambientalmente segura que permita aos utilizadores de medicamentos injetáveis entregarem as suas seringas usadas nas farmácias. Com o Agulhão, os cidadãos passam a ter ao seu dispor, pela primeira vez, uma solução segura, ecológica e gratuita para as suas seringas usadas. Nesta fase, o projeto-piloto “Seringas Só No Agulhão” está “(...) os doentes diabéticos implementado em 10 farmácias dos convivem há décadas com o celhos do Porto, Vila Nova de Gaia, Matoproblema de não saberem sinhos, Gondomar, Braga e Vila Verde. As o que fazer com as suas farmácias aderentes são as seguintes: Farseringas e agulhas.” mácia Costa Macedo (Vila Verde); Farmácia Cristal (Braga); Farmácia da Areosa (Rio Tinto); Farmácia de Aguiar (Gondomar); Farmácia Falcão (Porto); Farmácia Henriques (Porto); Farmácia Leça do Balio (Leça do Balio); Farmácia Monte da Virgem (Vila Nova de Gaia); Farmácia Padrão da Légua (Custoias); Farmácia Portela (Vila Nova de Gaia). Apesar de estar circunscrito ao Norte do país, a AFP tem a ambição de alargar o projeto a nível nacional.
Um projeto pioneiro que promove a Saúde Pública e defende o meio ambiente Segundo as estimativas da AFP, com base nos dados IQVIA, todos os anos são gerados em Portugal mais de 250 milhões de resíduos (seringas e agulhas) em ambulatório. São resíduos que, devido à inexistência de uma recolha segura, vão parar ao lixo comum. Se o projeto “Seringas Só no Agulhão” deixar de ser um projeto-piloto e passar a ser um programa de âmbito nacional, acreditamos que uma elevada percentagem destes resíduos passará a ser tratada de forma adequada quer do ponto de vista ambiental, quer do ponto de vista de Saúde Pública. Por todas estas razões, em 2020, a AFP estará focada na sensibilização das autoridades competentes para os benefícios do programa “Seringas Só no Agulhão” e para a importância do desenvolvimento de soluções de recolhas de seringas para os utilizadores de medicamentos injetáveis nas farmácias de todo o país. Da mesma forma, a AFP continuará a trabalhar para divulgar o Agulhão junto das populações, para que possam beneficiar desta solução inovadora. Vamos também apostar no desenvolvimento de novos programas que vão de encontro às necessidades de saúde dos cidadãos. Porque esta é a nossa missão: trabalhar de perto com os farmacêuticos para melhor servir a comunidade.
10 | Espaço ERPIS
O papel do Centro de Dia na ocupação dos utentes Boas práticas » 3.ª Parte Mónica Teixeira, 2Ana Soares e 3Catarina Teixeira
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Diretora de serviços do Centro de Apoio Social
de Vila Nova de Monsarros 2
Equipa técnica do Centro de Apoio Social
de Vila Nova de Monsarros 3
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Exemplos práticos de atividades individuais e de grupo e considerações genéricas Tal como expusemos anteriormente, todas as atividades subsequentemente mencionadas são realizadas em contexto real, num Centro de Dia integrado em meio rural, com outras respostas socais associadas e com um número máximo de 30 utilizadores diários. Deste modo, o modelo de ocupação apresentado poderá, no nosso entender, contribuir para a replicação dos procedimentos operacionais usados, primordialmente em ambientes similares. No que concerne às atividades individuais o foco prende-se, como já mencionámos, em cativar os indivíduos de modo a compreender exatamente quais as suas necessidades, preferências, limitações, potencialidades e de que forma cada um se sente inserido/integrado na instituição e no grupo. Considera-se fundamental este tipo de trabalho junto dos indivíduos através da promoção e incremento de atividades de ocupação significativas, resultantes de uma escolha livre e voluntária. Consideramos uma diversidade de formas de proporcionar resposta às necessidades ocupacionais
dos utentes e de os manter preenchidos no dia a dia, de modo a que experimentem sentimentos de utilidade e de importância a nível individual e ou coletivo. Assim sendo, elencamos seguidamente uma listagem de contributos práticos previamente experienciados no Centro de Dia em análise. Primeiramente destacamos a importância das criações em cadeia, isto é, distribuição das diversas tarefas em que cada utente possui uma função diferente, mas essencial para o resultado final. Destacamos deste modo o seguinte exemplo: mensalmente os utentes participam numa aula de ginástica interinstitucional com todos os idosos do concelho. O local de realização da atividade é previamente calendarizado para diversas infraestruturas dos diferentes locais do concelho (com dimensão para acolher 150 a 300 participantes). No momento em que a atividade se realiza na comunidade, do Centro de Dia em questão, os utentes criam, desenvolvem e oferecem um acessório de ginástica (previamente aferido com o monitor da atividade) a todos os participantes para a realização da aula. Assim sendo, a atividade “ginástica” começa com a dinâmica da definição e conceção dos acessórios, a qual
descrevemos seguidamente: a criação de sacos de peso em tecido (aproveitamento de retalhos), com diferentes pesos e atilhos para a utilização nas mãos e pernas/pés de forma a adaptar-se a idosos com as mais variadas características bio fisiológicas (capacidade física, doença, entre outras); assim sendo, necessitámos de participantes para colocar areia em sacos, outros para vedar os mesmos sacos com fita-cola a toda a volta, outros para costurar os retalhos em forma de saco, outros para cortar o trapilho no tamanho certo, outros para costurar os atilhos nos sacos e outros a fechar os sacos. Para além deste exemplo de objeto, ao longo dos últimos 5 anos, os utentes criaram cordas entrançadas em trapilho, canas compridas protegidas nas extremidades com balões e trapilho, bolas de areia com balões, canas curtas com fita de seda na ponta,
“(...) as rotinas ocupacionais dos indivíduos mais velhos contribuem para que esta fase da vida seja satisfatória e produtiva.”
14 | A Voz de
A importância da cidade acessível no processo do envelhecimento ativo Vereador da Câmara Municipal de Vila Real Adriano António Pinto de Sousa
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A
segunda metade do século XX foi caracterizada por três tendências: a urbanização, a motorização e o envelhecimento demográfico. São inegáveis o poder de atração e o fascínio que as cidades hoje exercem sobre as pessoas. Porque é aí que mais facilmente encontram emprego, é aí que, por norma, o poder de compra é mais elevado, é aí onde reside a mais completa oferta pública de serviços e é aí onde as novidades acontecem primeiro. Em 1900, apenas 10% da população mundial vivia em cidades. Em 2007, essa percentagem já era de cerca de 50%. Entretanto, algumas estimativas apontam já para que, no ano 2030, esse valor atinja os 60% e, em 2050, possa chegar aos 75%. Esta progressiva concentração populacional nas cidades ocorreu, em simultâneo,
com o aumento exponencial da taxa de motorização automóvel, fruto da conjugação de um conjunto de fatores, nomeadamente o da alteração dos estilos de vida das pessoas decorrente das obrigações de natureza profissional, do tipo de vínculo laboral, dos locais de residência cada vez mais afastados do posto de trabalho, do aumento do poder de compra das pessoas, da fraca oferta (em qualidade e em quantidade) de transportes públicos e do facto de teimarmos programar a nossa vida na bitola dos cinco minutos. Tudo isto contribuiu para que se instalasse na sociedade o conceito de “uma pessoa, um carro”. Um bem que para uns é visto como um instrumento de prazer e de status de quem o utiliza, para outros como um instrumento de trabalho, mesmo em movimento, fruto do advento do telemóvel
e, para muitos, como um meio de transporte indispensável para as deslocações quotidianas casa-escola-trabalho-casa. Neste processo de urbanização, o automóvel acabou por ter um papel decisivo na expansão desordenada das cidades em direção às periferias, deixando os seus centros mais antigos entregues ao comércio e aos serviços. A facilidade do acesso ao automóvel, associado ao fenómeno da especulação imobiliária acabou por empurrar muitas famílias para fora dos perímetros urbanos, não obstante terem de continuar a trabalhar e a estudar nos centros das cidades. A cidade outrora compacta e multifuncional, deu origem a uma cidade zonada e dispersa. O resultado foi o do aumento significativo das deslocações pendulares e dos consequentes congestionamentos, mais gravosos nas pontas do início da manhã e do final da tarde. As cidades foram literalmente invadidas pelo automóvel, a ponto de se sentirem impotentes para os acomodar, seja pela insuficiência da sua rede viária, seja pela inexistência de espaço público suficiente para os estacionar, acabando por se transformar em autênticos “armazéns” de carros ao ar livre. Tudo o resto, principalmente a rede pedonal, foi secundarizado, porque era o carro quem mais ordenava. Hoje, são por demais conhecidos os custos sociais, económicos e ambientais resultantes do uso intensivo do automóvel: custos sociais decorrentes do flagelo da sinistralidade rodoviária; custos económicos resultantes do excesso de tempo perdido nos constantes congestionamentos, mais frequentes nas médias e nas grandes cidades; custos ambientais fruto da poluição sonora e atmosférica. É inquestionável que o urbanismo praticado na segunda metade do século XX moldou as cidades à escala motorizada e sacrificou o espaço público e espaço pedonal às exigências de estacionamento automóvel. Mas, mais grave, foi termos deixado que essas alterações urbanas se institucionalizassem e se instalassem na linguagem política e no imaginário comum. As cidades deixaram, assim, de ser espaços de todos e para todos. O automóvel ocupou o espaço que era dele e também o que não era; as barreiras arquitetónicas foram surgindo um pouco por todo o lado; o espaço público, em particular a rede pedonal, degradou-se fruto do desinvestimento na sua melhoria e na sua manutenção. Tudo isto porque os direitos de fruir a cidade na sua plenitude por parte das crianças, dos idosos e das pessoas com mobilidade tem-
16 | A Voz de
Cuidadores de idosos Um olhar sobre a família cuidadora Assunção Nogueira1 e Zaida Azeredo2 1
Especialista em Enfermagem Comunitária, Doutorada em Educação, Docente na ESSVS, IPSN, IINFACTS CESPU Médica de Medicina Familiar; Doutorada em Saúde Comunitária; Coordenadora da RECI/ Piaget Viseu
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No agregado familiar, geralmente o cuidador principal surge, não porque este se ofereça para tal, mas devido à conjugação de vários fatores, nomeadamente estar no desemprego ou na reforma e ser próximo do idoso com dependência. Cuidar de um doente dependente, no domicílio, cujo estado se agrava a cada dia que passa, ainda que lentamente, não é uma tarefa fácil nem isenta de custos. O cuidador fica propenso a também ficar doente se esta tarefa não for partilhada com outros ou se não sentir deles a compreensão devida.
Ser Cuidador Informal
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Introdução As alterações sociodemográficas e o avançar da ciência permitem que as pessoas vivam mais tempo engrossando e alongando o topo da pirâmide etária. Este fenómeno, propicia, também, o aumento da prevalência de doenças crónico-degenerativas e de incapacidades. Estas, apesar das pessoas viverem mais anos ativas, acabam por surgir embora em idades mais tardias, coincidindo frequentemente com as etapas finais do ciclo vital da família, isto é já na sua fase de dissolução. Estes aspetos e outros levantam, às sociedades envelhecidas e a envelhecer, desafios sociais e de saúde nomeadamente na prestação de cuidados individuais com particular atenção para os idosos, grandes idosos e/ou idosos com incapacidades. Durante todo o ciclo vital a família deve ser o suporte do indivíduo saudável ou doente, porém hoje, pode não ser possível, não só devido às mudanças estruturais na família, mas também pela dispersão geográ-
“Transportai um punhado de terra todos os dias e fareis uma montanha” (Confúcio)
fica e ocupações dos seus membros, para além da fase do ciclo vital em que surgem as dependências e perdas de autonomia, que aumentam a necessidade de se cuidar na proximidade, havendo muitas vezes nesta condição apenas o conjugue que também é idoso(a). Em algumas situações (exemplo: famílias unitárias) que são cada vez mais frequentes, pode mesmo não haver parentes, havendo apenas solidariedade de vizinhança (quando a há). Quando na comunidade não existem recursos capazes de dar respostas adequadas e eficazes é à família que o idoso tende a recorrer para suporte quer humano quer económico. Porém torna-se cada vez mais difícil à família dar resposta em tempo útil às necessidades dos idosos.
O envelhecimento da população e a longevidade do indivíduo são hoje, sem dúvida, uma das maiores conquistas do Homem. Como já atrás se afirmou tal feito deve-se, entre outros fatores, às melhores condições sócio sanitárias em que se vive. Porém, com o desenvolvimento sociocultural, e, de novas políticas sociais e de saúde, embora se viva mais tempo com saúde também se vive mais tempo em, situação de doença, com incapacidades e dependência de terceiros (sobretudo quando se sofre de doenças crónico-degenerativas e, no fim de vida). À medida que a idade vai avançando as fragilidades vão aparecendo, devidas a alterações anátomo-fisiológicas e/ou psicológicas, entendidas como normais, próprias de um envelhecimento fisiológico. Progressivamente o idoso perde a capacidade de adaptação ao meio ambiente interno e externo, surgindo, com a diminuição da sua homeostasia, uma maior probabilidade de co-existirem processos patológicos, que vão lentamente encaminhando a pessoa, para a perda de autonomia e independência, ou para a institucionalização necessitando, por isso, de uma pessoa para cuidar de si, seja um Cuidador Informal seja um cuidador formal ou ambos (Nogueira, 2012; Oliveira, 2018). O Cuidador Informal é uma pessoa (familiar ou não) que assume o cuidado de outrem, sem, contudo, ter sido preparada para o efeito. É uma pessoa cuja função principal é acompanhar e auxiliar a pessoa a se cuidar quando esta já perdeu capacidades físicas e/ou mentais que não lhe permitam fazê-lo sozinha. Normalmente é um familiar ou alguém muito próximo do ponto de vista relacional, não recebendo, por isso, até ao presente, qualquer remuneração, tendo apenas como recompensa a satisfação do cuidar e por vezes a gratidão da pessoa cuidada. Cuidar do idoso no domicílio acarreta custos físicos, emocionais e sociais para a pessoa, que a médio ou longo prazo po-
20 | Dossier sobre Doenças Oculares relacionadas com a idade
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Doenças oculares da idade Oftalmologista. Antigo Diretor do Serviço de Oftalmologia do Hospital Pedro Hispano
A
partir de uma fase mais ou menos precoce da vida têm lugar dois processos que se acentuam progressivamente à medida que o tempo passa. Por um lado, em alguns tecidos, de que o sistema nervoso central é um exemplo, as células deixam de se dividir, o que significa que uma perda de células desses tecidos será irrecuperável. Por outro lado, a divisão celular e os processos metabólicos alteram-se, seja por deficiente velocidade ou por funcionamento alterado. A associação das consequências dos dois mecanismos referidos leva a alterações, de importância variável com os tecidos, que se traduzem pelo que genericamente se chama de envelhecimento. O olho não está isento dessas perturbações e a complexidade da estrutura ocular faz com que elas se possam manifestar de diferentes maneiras (Figura 1). Acresce ainda que a sua exposição ao meio ambiente o tornam susceptível a agressões externas, com especial relevo para a luz, em especial a luz azul e a ultravioleta (invisível).
José Guilherme Monteiro
Uma alteração frequente com o aumento da idade é a diminuição da secreção lacrimal ou a perda de qualidade das lágrimas, o que leva à perturbação ou mesmo perda da lubrificação da superfície do olho. Em consequência, podem aparecer vários qua-
Figura 1.
dros clínicos conhecidos pelo nome genérico de “doenças da superfície ocular” que se na maior parte dos casos não são graves podem, pelo contrário, ser extremamente desagradáveis para o doente e permitir o aparecimento ou agravamento de situações mais complicadas. Também a patologia tumoral aumenta de frequência, particularmente ao nível das pálpebras, podendo as lesões pré-neoplásicas evoluírem mais ou menos rapidamente para verdadeiros tumores que exigem actuação cirúrgica. De todas as perturbações oculares da idade a mais frequente é, sem qualquer dúvida, a catarata, que não é mais do que a perda de transparência do cristalino. O cristalino é uma estrutura intra-ocular com características de uma lente e cujo papel é focar as imagens exteriores na retina. Assim,
22 | Dossier sobre Doenças Oculares relacionadas com a idade
O que necessita saber sobre Glaucoma na idade adulta © freepik
Médica Oftalmologista. Clinivis e Centro Hospitalar Universitário do Porto Maria João Menéres
O Glaucoma é uma doença ocular considerada, a nível mundial, a primeira causa de cegueira irreversível. É, por isso, rotulada de o “ladrão silencioso da visão”. Na verdade, esta patologia pode estar presente desde o nascimento e pode ou não estar associado a outras doenças oculares ou sistémicas. Neste artigo debruçarmo-nos sobre os tipos de Glaucoma mais frequentes na idade adulta, tendo em conta que o mais frequente de todos é o Glaucoma primário de ângulo aberto.
O que é o Glaucoma? O Glaucoma é uma doença caracterizada por uma deterioração progressiva e lenta do campo visual, podendo culminar em cegueira. No caso de estarmos perante um Glaucoma, o nervo ótico responsável por levar a informação visual ao cérebro, local onde é processada, encontra-se lesado. Assim, à medida que a doença evolui, as células deste nervo vão morrendo e não têm capacidade para se regenerarem. Muitas vezes este processo de deterioração é tão lento que quando as pessoas se apercebem que estão a ver mal, as lesões são irreversíveis.
O que é o campo visual? Considera-se o campo visual aquilo que o nosso olho pode ver quando fixamos o olhar num ponto fixo, vemos o ponto onde fixamos a visão e tudo o que está à sua volta (perifericamente ao ponto fixo). Por exemplo, quando conduzimos, temos de fixar o olhar em frente e, ao mesmo tempo, temos que estar a ver o que se passa na berma da estrada, não vá um peão começar a atravessar, ou surgir uma bola, ou um
animal... o simples ato de descer um degrau, num indivíduo com uma alteração marcada no seu campo visual, pode ter consequências nefastas, como uma queda, com todas as consequências que daí podem advir. Na prática, o leitor se quiser testar uma alteração grave no seu campo visual deve colocar as suas mãos em “binóculo” em frente aos seus olhos e vai perceber quão limitado fica o seu ângulo de visão. Por último, importa salientar que a evolução natural da doença sem tratamento ou com diagnóstico tardio, se converte em cegueira.
Como evitar ou minimizar todos estes problemas? A consulta de Oftalmologia, com vigilância regular, é absolutamente necessária, pois no que se refere especificamente ao Glaucoma, a observação da visão em cada um dos olhos, a medição da pressão intraocular, a observação do nervo ótico, bem como a determinação da espessura da córnea são absolutamente essenciais. Uma grande maioria dos vários tipos de Glaucoma cursa com elevação da pressão intraocular. No entanto, há Glaucoma de pressão normal, em que os valores medidos se encontram dentro dos parâmetros de normalidade (entre 10 mmHg a 21 mmHg), mas o nervo ótico encontra-se alterado. Neste caso, só a observação do nervo ótico por um(a) oftalmologista, em conjugação com exames auxiliares de diagnóstico, pode fazer o correto diagnóstico, que levará ao seu posterior tratamento. A partir dos 40 anos, ainda que não apresente outras doenças oculares, é aconselhá-
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Retinopatia Diabética Lilianne Duarte Prof. Doutora e Médica Oftalmologista. Centro Hospitalar de Entre o Douro e Vouga (Stª Maria da Feira), Lenitudes (Stª Maria da Feira), Hospital da Luz (Porto e Póvoa de Varzim), LD- Clínica Oftalmológica Prof. Drª Lilianne Duarte e Clinica Oftaldent (Vila Nova de Famalicão)
A
Diabetes tem vindo a aumentar de forma exponencial nos últimos anos tendo sido considerada como um problema epidémico por parte da Organização Mundial da Saúde. Desde 1980 quadruplicou para mais de 425 milhões de adultos diabéticos a nível mundial e estimase em 2045 um aumento para cerca de 630 milhões. A Retinopatia Diabética é a causa mais frequente de perda visual irreversível na população adulta entre os 20-74 anos de idade nos países industrializados. Cerca de 93 milhões de pessoas no mundo sofrem de Retinopatia Diabética, e 1 em cada 3 pessoas com Diabetes vão desenvolver Retinopatia Diabética ao longo da vida. O aumento do número de doentes diabéticos e em idades cada vez mais precoces leva a um risco acrescido das complicações da doença. O risco de aparecimento e agravamento das complicações da diabetes aumenta com a duração da doença. Com o aumento
da sobrevida das populações para idades avançadas, aumenta a probabilidade de estadios mais avançados da retinopatia em idades mais avançadas. Em Portugal existem cerca de 250 mil diabéticos com Retinopatia; 25 mil têm perda visual mais ou menos grave devido á doença. Cerca de 3 mil diabéticos por ano ficam com uma acuidade visual igual ou inferior a 10%. A Retinopatia Diabética caracteriza-se pela lesão vascular (das veias e artérias) responsáveis pelo aporte de nutrientes e bom funcionamento da retina, a parte do olho responsável pela visão. Se não diagnosticada e tratada atempadamente leva à perda irreversível da visão e cegueira.
“Em Portugal existem cerca de 250 mil diabéticos com Retinopatia; (..) Cerca de 3 mil diabéticos por ano ficam com uma acuidade visual igual ou inferior a 10%.”
Os principais fatores de risco para o início da retinopatia são o tempo de duração e tipo de Diabetes, o mau controlo metabólico e o mau controlo da pressão arterial. Com o avançar da idade aumenta a morbilidade das pessoas, frequentemente associando ao diagnóstico de Diabetes também a hipertensão arterial, dislipidemia (colesterol elevado), patologias cardíacas, fragilidade vascular. Tal comorbilidade faz com que as pessoas com idade mais avançada estejam muito mais facilmente suscetíveis ao aparecimento das complicações da diabetes e Retinopatia Diabética, mesmo numa doença ligeira a moderada. Há dois grandes tipos de Diabetes, a tipo 1 e a tipo 2. A tipo 1 surge em idades mais precoces, enquanto a tipo 2, que abrange a grande maioria dos diabéticos surge mais tardiamente na vida. A diabetes tipo 2 está mais relacionada com hábitos alimentares, sedentários e patologias sistémicas associadas, muito frequentemente descurados nas idades mais avançadas. A Retinopatia Diabética manifesta-se por lesão progressiva dos vasos podendo levar à oclusão dos mesmos impedindo a irrigação de zonas da retina (isquémia) resultando na perda funcional e morte das células. Por vezes na tentativa de compensar essa isquémia crescem novos vasos, mas anómalos com elevado risco de provocar hemorragias dentro do olho causando uma perda súbita da visão. A causa mais frequente de perda irreversível da visão quando não tratada atempadamente é o Edema Macular, que consiste na acumulação de líquido, hemorragias e exsudatos intraretinianos na parte central da retina, a mácula (zona mais importante para a nossa visão diária e de pormenor). A deteção das lesões de Retinopatia Diabética, a sua classificação por graus de severidade da doença – de ligeira, moderada, grave e proliferativa – com ou sem edema macular,
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A Catarata em 2020 José Salgado-Borges, Filipe Esteves e Pedro Coelho Médicos Oftalmologistas da Clínica Oftalmológica J. Salgado Borges (Porto), Grupo Trofa Saúde e Lenitudes (S. M. Feira)
Definição e diagnóstico Segundo o relatório da OMS, cerca de mil milhões de pessoas têm uma deficiência visual que poderia ter sido prevenida ou que atualmente ainda é tratável. Um dos principais exemplos é a catarata, problema que afeta cerca de 300 milhões de pessoas e responsável ainda por cerca de 50% dos casos de cegueira a nível mundial. Estima-se que em Portugal existam mais de 300 000 pessoas com sinais de catarata, principalmente na população idosa. O seu tratamento é realizado através de cirurgia. A catarata trata-se de uma opacidade parcial ou total do cristalino, lente natural do olho localizada imediatamente atrás da pupila. Este em condições normais é transparente o que permite a passagem dos raios luminosos e a sua focagem na retina, obtendo-se dessa forma uma imagem nítida. Com a perda da transparência do cristalino ocorre inicialmente uma diminuição da qualidade visual e posteriormente a diminuição da qualidade e quantidade de visão. Existem diversas causas que podem originar uma catarata, das quais a principal está re-
lacionada com o processo fisiológico de envelhecimento do cristalino, razão pela qual a sua prevalência aumenta com a idade, resultando na denominada catarata senil. É frequente a maioria das pessoas com mais de 60 anos apresentarem algum grau de catarata. Outras causas menos frequentes de cataratas são, por exemplo, os traumatismos, a utilização prolongada decorticosteróides, doenças como a diabetes, anomalias congénitas do desenvolvimento do cristalino. Os doentes míopes poderão apresentar catarata mais precocemente. A suspeita de catarata pode ser facilmente identificada com um oftalmoscópio manual. O
Figura 1. Catarata nuclear senil.
reflexo vermelho do fundo ocular aparece opaco, extinto ou sombreado em doentes com catarata. Para a sua correta identificação e caracterização é necessário o recurso ao exame com lâmpada de fenda ou biomicroscópio. Consoante a área do cristalino opacificada podemos adotar uma classificação anatómica, sendo a catarata designada como cortical, nuclear, cortico-nuclear, subcapsular ou total. Existem diversas escalas de classificação do tipo de catarata, a mais conhecida das quais é a escala Lens Opacity Classification System (LOCS III) (Figura 1). São vários os sintomas e dependem do tipo e grau de opacidade do cristalino. É frequente a visão à distância ficar enevoada, com diminuição do contraste entre objetos e cores. Segue-se uma perda progressiva da acuidade visual que pode ser rápida (alguns meses) ou evoluir lentamente ao longo de alguns anos (Figura 2).
Figura 2. A) Visão Normal e B) Visão com Catarata.
28 | Dossier sobre Doenças Oculares relacionadas com a idade
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As pálpebras e a idade Sandra Prazeres Responsável pelo Departamento de Oculoplástica e Órbita do Serviço de Oftalmologia Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia / Espinho e Lenitudes Centro Médico Avançado
A
s pálpebras são as principais estruturas responsáveis pela proteção dos olhos. As doenças relacionadas com as pálpebras devem ser tratadas por um Oftalmologista especializado em Oculoplástica que conhece bem a anatomia periocular e todas as implicações das doenças palpebrais nos olhos. Para além das cirurgias reconstrutivas das mal posições palpebrais, o Oftalmologista especializado em Oculoplástica é recomendado para cirurgia palpebral estética de forma a aliar um bom resultado estético à função. Os olhos têm um papel fundamental na aparência da face, comunicando os nossos sentimentos e emoções através das pálpebras. Com o passar dos anos, as pálpebras superiores e/ou inferiores ficam flácidas e caídas dando uma imagem envelhecida e/ ou cansada. Para além do aspeto estético, as pálpebras superiores caídas (dermatocalásia) podem reduzir o campo visual e causar cefaleias de tensão. Quando a laxidez se verifica nas pálpebras inferiores pode ocorrer
lacrimejo por alteração do normal percurso de drenagem das lágrimas. O principal fator que contribui para as modificações das pálpebras é a idade ao qual se associam outros fatores tais como: a predisposição genética, a exposição solar e o tabaco. A cirurgia estética das pálpebras, conhecida como blefaroplastia, é um procedimento cirúrgico pouco invasivo que remodela a pálpebra superior e/ou inferior através da remoção do excesso de pele, da laxidez muscular e das bolsas de gordura palpebrais. A cirurgia é realizada no bloco operatório em ambulatório (sem internamento) e sob anestesia local com sedação na presença de um anestesista. O procedimento das pálpebras superiores consiste numa incisão feita ao longo da prega natural da pálpebra superior, enquanto que nas pálpebras inferiores a incisão é realizada na parte interna da pálpebra (via conjuntival) ou logo abaixo das pestanas resultando em cicatrizes invisíveis ou impercetíveis (Figura 1).
As blefaroplastias são um dos procedimentos mais efetuados no âmbito da cirurgia plástica mundial. A estes procedimentos cirúrgicos podemos associar tratamentos de medicina estética, tais como: injeção de toxina botulínica (Botox®) para as rugas peri-oculares, injeção de ácido hialurónico para preenchimento de olheiras ou sulcos palpebrais profundos ou peelings para rejuvenescimento cutâneo da pálpebra. Estes procedimentos médicos podem ser usados isoladamente ou como complemento à cirurgia realizada para um resultado mais completo e duradouro. A ptose palpebral refere se à queda da pálpebra superior que resulta do enfraquecimento ou desinserção do músculo elevador da pálpebra. Pode ser uni ou bilateral. O
Figura 1. Blefaroplastia superior e inferior via conjuntival: pré e pós-operatório.
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Medicina chinesa e envelhecimento ativo Helena Costa Licenciatura em Fisioterapia, Pós-Graduação em Medicina Chinesa Formação em Hipnose Clínica pelo London College of Clinical Hypnosis
O
envelhecimento é um processo natural e universal. Para a Medicina Chinesa o processo de envelhecimento inicia-se a partir do momento da conceção. O óvulo, de natureza yin, e o espermatozoide, de natureza yang, transportam determinada quantidade de energia e da sua junção resulta o capital energético disponível do ser humano para a sua vida. Este capital energético é-nos fornecido de uma só vez, na sua totalidade, e o seu potencial vai-se enfraquecendo à medida que envelhecemos. É armazenado no rim e corresponde à energia pré-natal a que os chineses chamam Jing. A energia Jing funciona como uma conta bancária que os nossos pais nos disponibilizam no momento da fecundação que nunca pode ser aumentada.
Ao longo da nossa vida este capital energético vai diminuindo sempre, podendo ser consumido mais rapidamente ou mais lentamente em função do nosso estilo de vida. Uma das causas para o envelhecimento prematuro pode ser de ordem constitucional, isto é, depende da energia Jing que recebemos no momento da conceção. No entanto, a velocidade de depleção dessa energia depende essencialmente dos nossos hábitos de vida e podemos minimizar o seu consumo assumindo a responsabilidade pelas nossas escolhas. O estilo de vida que adotamos, a escolha dos alimentos, o equilíbrio entre o trabalho físico, intelectual e o descanso, a prática de atividades físicas moderadas, saber gerir as emoções é determinante para nos mantermos saudáveis.
“Envelhecer ativamente é uma realidade alcançável e compete-nos a nós assumirmos a responsabilidade sobre o nosso processo de envelhecimento.”
32 | Mente Ativa Corpo Ativo
A Fisioterapia como coadjuvante no tratamento da Doença de Parkinson Gabriela Martins
Fisioterapeuta, pós-graduanda em Fisioterapia Geriátrica e Gerontológica pela Universidade Federal de Minas Gerais
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G
eralmente, ao acordarmos, levantamo-nos, fazemos as nossas necessidades fisiológicas, tomamos café e em muitas vezes já o fazemos automaticamente devido aos deveres do dia a dia. Porém, quando a pessoa tem a Doença de Parkinson, essas tarefas são bem mais comprometidas. O corpo não responde como deveria, rigidez ao ao tentar movimentar-se, movimentos mais lentos, desequilíbrio, o tremor por vezes dificulta o simples acto de segurar um copo e uma dor difusa por vezes acompanhada por cãimbras. Se não conhece, possivelmente em breve irá conhecer alguém com pelo menos uma dessas características. A Doença de Parkinson é uma doença neurodegenerativa crónica progressiva que afeta o sistema nervoso, caracterizada pela perda de neurónios dopaminérgicos (os que produzem a dopamina) da via nigroestriatal, a sua dimunuição é em cerca de 70% quando a doença se manifesta, já a sua prevalência mundial é de 150 a 300 por 1 milhão de habitantes, o que equivale de 2% a 3% em pessoas acima de 65 anos, podendo chegar a 5% da população acima de 85 anos, principalmente com o atual crescimento populacional de idosos (geralmente os mais
acometidos), mas também, em alguns adultos jovens[1]. A marcha é um dos sintomas motores mais acometidos E é caracterizada pela redução de velocidade e da dificuldade de realizar os movimentos, geralmente acompanhado de episódios do congelamento, freezing ou marcha festinada[2]. A marcha é frequentemente realizada simultaneamente com outras tarefas cognitivas ou motoras, ou seja, em dupla tarefa (DT). A DT é a associação entre os sistemas cognitivo e motor, sendo caracterizada como a realização de uma tarefa primária que é o fator principal da atenção, e uma tarefa secundaria, ambas realizadas ao mesmo tempo[3]. É suposto que indivíduos com Parkinson apresentem mais dificulda-
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de em realizar DT que indivíduos sem esta condição. No entanto, esta questão precisa ainda de ser investigada, pois pode ter implicações na reabilitação destes indivíduos. O portador da Doença de Parkinson possui sintomas motores e não motores. Como motores podemos observar o caminhar com passos mais curtos e rastejantes, acinesia ou bradicinesia (perda da capacidade de movimentar os músculos por conta própria ou movimentos mais lentos, como por exemplo a diminuição do balançar dos braços), derigidez muscular ou hipertonia plastica, tremor de repouso, instabilidade postural e quedas. O diagnóstico é clinico onde deve ser acompanhado por um neurologista especialista em distúrbio do movimento, já que não existe um exame específico que a confirme[2]. Existem também os sintomas não-motores como a diminuição do tamanho da letra (ao escrever, a micrografia), dificuldade de falar (afasia), dificuldade de engolir (disfagia), distúrbios respiratórios, dificuldade de iniciar os movimentos, transtornos do sono, constipação, sialorréia (salivação), dor difusa, impotência sexual, incontinência urinária, diminuição da olfato (hiposmia), alucinações, ansiedade e depressão, (este um dos mais prejudiciais)[2].
34 | Mente Ativa Corpo Ativo
TERAPIA OCUPACIONAL e o seu papel na intervenção com a pessoa com demência Cristiana Carvalho
A
Mestre em Terapia Ocupacional na especialidade de Reabilitação Física e Pós-graduada em Integração Sensorial
Terapia Ocupacional é uma área da saúde que ultrapassa a mera ocupação das pessoas, um mito frequentemente escutado por quem exerce esta profissão. Com certeza já ouviu o provérbio “Parar é morrer” mas alguma vez refletiu sobre esta expressão? O ser humano é um ser ocupacional, um ser que necessita de estar em atividade para conseguir sobreviver. Se existem dificuldades no desempenho de uma atividade ou ocupação, seja ela qual for, isso é matéria de especialidade desta valência. O Terapeuta “O ser humano é um ser ocupacional, Ocupacional é um Técnium ser que necessita de estar em co de Diagnóstico e Teraatividade para conseguir sobreviver.” pêutica que avalia, planeia e intervém com todas as pessoas, de todas as idades. Na avaliação incluem-se a história ocupacional, que engloba as áreas de ocupação significativas para o indivíduo como as profissões que exerceu, as atividades de interesse que ainda realiza e as que deixou de fazer, e por que motivo: os padrões de desempenho (hábitos, rotinas, rituais e papéis), os fatores inerentes ao indivíduo (valores, crenças, espiritualidade, funções e estruturas do corpo), associados às competências de desempenho (cognitivas, sensório-motoras e psicosociais) e os contextos onde esteve e está inserido, criando-se assim o Perfil Ocupacional. A partir daí, elabora-se o plano de intervenção individualizado e centrado na pessoa.
O tema da edição passada da Dignus foi sobre Perturbações Cognitivas e Envelhecimento, uma área particularmente desafiante para o Terapeuta Ocupacional. No trabalho com a esta população o Terapeuta Ocupacional recorre a atividades e ocupações significativas com o objetivo de manter ou restaurar algumas funções, estimulando e despertando o interesse no envolvimento de atividades, levando a que cada pessoa seja parte ativa do seu processo de reabilitação. O Terapeuta Ocupacional realiza assim atividades de estimulação cognitiva, sessões de orientação para a realidade (orientação no espaço e no tempo), treino das atividades de vida diárias (AVD’s) e instrumentais (AVDI’s) consideradas problemáticas, sessões de movimento, sessões de estimulação sensorial, sessões de relaxamento, sessões de terapia pela arte e outros recursos expressivos e sessões de terapia pela música. As sessões podem ser individuais ou em grupo, sempre com objetivos de intervenção centrados na manutenção das capacidades remanescentes do paciente; promoção da sua auto-estima e do seu bem-estar; prevenção do isolamento social; estimulação cognitiva e sensorial. O Terapeuta Ocupacional também prescreve e utiliza ajudas técnicas quando necessário, atua ao nível da adaptação dos contextos e do ambiente onde a pessoa se insere, nomeadamente ajudando as famílias e as instituições a adaptarem os espaços às necessidades de cada pessoa
Reportagem | 37
Olhar(es) pelos Cuidados Paliativos
texto e fotos por
André Manuel Mendes
Os cuidados paliativos estiveram em destaque no I Encontro Olhar(es) pelos Cuidados Paliativos, iniciativa organizada pela ANGES – Associação Nacional de Gerontologia Social com o apoio do ISEC – Instituto Superior de Engenharia de Coimbra, que se realizou no Auditório do ISEC no dia 18 de outubro de 2019.
A definição de cuidados paliativos, a importância da comunicação, da formação dos profissionais, o empreendedorismo e os direitos dos cuidadores e das pessoas cuidadas foram alguns dos temas abordados durante um dia intenso de palestras e debates. A primeira intervenção do encontro esteve a cargo de Isabel Duque, responsável pela Unidade de Dor Crónica e Medicina Paliativa da ULS de Castelo Branco e coordenadora regional dos cuidados paliativos, que abordou na sua intervenção a realidade dos “Cuidados Paliativos na região Centro”. Na sua intervenção explicou o que são cuidados paliativos e lamentou o número reduzido de profissionais qualificados e o facto de muitos dos profissionais com formação realizarem tarefas que não são da sua competência. Luís Capelas, antigo Presidente da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos entrou em seguida por videoconferência e na sua apresentação, “Cuidados Paliativos na
atualidade: onde estamos e para onde queremos ir?”, salientou que os cuidados paliativos têm sofrido uma grande evolução, com grande enfoque na mudança na qualidade de vida e saúde das pessoas, reforçando que este tipo de serviços se estende para lá dos centros de cuidados paliativos. A última intervenção do primeiro painel do dia foi da responsabilidade de Elsa Mourão, cuidadora profissional e membro da equipa da LInQUE. Com o tema “Empreendedorismo em Cuidados Paliativos”, Elsa Mourão explicou o processo de criação da LinQUE e todas as valências da cooperativa. O segundo painel do dia teve uma única interveniente, Cláudia Telles de Freitas, que teve como tema da sua intervenção a “Gestão emocional e motivacional das equipas de Cuidados Paliativos”. A especialista em comunicação sublinhou que as pessoas nas equipas devem contagiar as outras pessoas com a sua atitude, e identificou três pontos fundamentais para qualquer equipa: o investimento na formação; o saber fazer e não reter o saber; e a atitude como forma de fazer a diferença. A tarde do I Encontro Olhar(es) pelos Cuidados Paliativos iniciou-se com o terceiro painel que teve como primeira interveniente a enfermeira Ângela Simões que falou sobre Cuidados Paliativos em Estruturas Residenciais para Idosos. “A velhice não é uma doença, mas todos vamos morrer”, sublinhou, explicando que hoje um grande número de residentes nas ERPI estão numa fase final da vida e. Segundo Ângela Simões 20% das mortes dos idosos ocorrem em ERPI, 80% delas com mais de 75 anos, sendo que 2/3 morre com duas ou mais doenças crónicas. Por esta realidade, a enfermeira salientou igualmente a importância do apoio ao luto, não só aos familiares, mas também aos cuidadores.
A Professora Doutora Lucília Nunes tomou voz na intervenção seguinte intitulada “Direitos das pessoas em fim de vida”. Na sua intervenção a Professora Coordenadora na Escola Superior de Saúde do IP Setúbal abordou as Diretivas Antecipadas de Vontade, dos direitos das pessoas em contexto de doença avançada e em fim de vida e do Testamento Vital. Os Palhaços D´Opital, associação cultural sem fins lucrativos, foram apresentados em seguida pela voz de Jorge Rosado, o Doutor Risotto, numa apresentação intitulada “Felicidade e Positividade em fim de vida”. Esta é das poucas entidades artísticas a trabalhar com cuidados paliativos e terminais, com demências e doenças oncológicas. “O Doutor Palhaço vive o agora, não julga e brinca”, sublinhou. A Professora Doutora Patrícia Coelho da Universidade Católica deu o mote para o último painel do dia com o tema “Dignidade em Cuidados Paliativos”. Na sua apresentação sublinhou que os cuidados paliativos não são o último passo para a morte. A dignidade, a individualidade, a qualidade de vida, a autonomia e o relacionamento doente-profissional são fundamentais para “juntar vida aos dias e não juntar dias à vida”, parafraseando uma frase da fundadora dos cuidados paliativos. As duas últimas intervenções do dia estiveram a cargo de João Gomes e da enfermeira Ana Rocha. Na apresentação “Capacitação dos Cuidadores Informais”, João Gomes falou sobre o Estatuto do Cuidador Informal e da importância da sua recente aprovação. A enfermeira Ana Rocha falou sobre “Comunicação com a pessoa com doença crónica e avançada”, sublinhando que a comunicação é um pilar dos cuidados paliativos e que é tão importante como outros pilares.
38 | Reportagem
O envelhecimento numa visão transfronteiriça
texto e fotos por
André Manuel Mendes
Foi em pleno Alto Minho, em Vila Nova de Cerveira, que se discutiram recentemente os desafios do envelhecimento em Portugal e em Espanha, num encontro em que se procurou abordar esta temática numa visão transfronteiriça. Foi no dia 8 de novembro que o Hotel Minho recebeu cerca de meia centena de participantes oriundos de toda a Península Ibérica para a I Conferência Internacional de Gerontologia e Geriatria, uma iniciativa da ANIES - Associação Nacional Interdisciplinar da Economia Social. Durante este dia debateram-se diversas temáticas transversais a todo o processo de envelhecimento, desde as necessidades da pessoa idosa, o papel dos cuidadores, das instituições, das associações, políticas públicas, entre outros. Josué Morais da IXUS Formação & Consultadoria, Narciso Moura da ADNP - Associação de Desenvolvimento do Noroeste Peninsular, e Lígia Monterroso, docente do ISAVE - Instituto Superior de Saúde receberam os participantes alertando inicialmente para o envelhecimento da população. Com este alerta sublinharam a importância de apostar em respostas efetivas para as necessidades recorrentes neste setor, nomeadamente a falta de qualificação dos profissionais e a recorrente questão das necessidades dos cuidadores informais.
As primeiras intervenções do dia foram dedicadas a políticas públicas, políticas nacionais na área do envelhecimento, a visão da Geriatria e Gerontologia na enfermagem, esta última com uma visão mais reflexiva, mas também com o conteúdo teórico tradicional, e também a realidade do envelhecimento em Espanha. A participar neste painel estiveram Assunção Nogueira, docente na CESPU, Diogo Batalha, gerontólogo e Presidente da ANIES, Miguel Angel Vasquez Vasquez, médico especialista em Geriatria e Presidente da Sociedad Galega de Xerontologia e Xeriatria, e Miguel Cardoso, Diretor “O envelhecimento do Centro Distrital do Porto do Instituto de Segurança Social. não é uma doença” Assunção Nogueira identificou as alterações demográficas e do perfil epidemológico como as principais responsáveis por esta nova realidade que assistimos no envelhecimento. A docente explicou ainda as alterações que ocorrem durante o processo de envelhecimento e os conceitos centrais para cuidar de idosos por parte dos cuidadores formais. Diogo Batalha, gerontólogo e Presidente da ANIES apresentou a associação e toda a metodologia de trabalho e de investigação pelas quais se regem. De acordo com o mesmo, a organização do evento optou por abordar as temáticas da gerontologia e geriatria pelo facto de a população idosa ser aquela que apresenta mais dificuldades e representa os maiores desafios para a sociedade e para a ciência. “Estamos a assistir à maior transformação demográfica da história da humanidade”, afirmou, abordando posteriormente na sua
40 | Especialidades Médicas
Saúde e reabilitação oral em doentes seniores Esmeralda Martins Médica Dentista e responsável pela Medicina Dentária na Clínica Milenio
O
aumento da esperança média de vida – situada nos 78/80 anos, segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) – e a diminuição da taxa da natalidade traduz-se, como é do conhecimento comum, no envelhecimento da população. E quando passamos a ser idosos? Pasme-se quem julgava que já tinha pensado nisso: em países em desenvolvimento o idoso é classificado como o indivíduo que tem 60 anos de idade ou mais e, nos desenvolvidos, a partir dos 65 anos. Uma década depois da maturidade sábia e serena dos 50, entramos, pois, nos cuidados geriátricos. Um estudo recente do INE revela-nos que quase metade da população portuguesa terá mais de 65 anos dentro dos próximos 60 anos. Num momento em que Portugal foi classificado pela Organização Mundial de Saúde como estando na cauda da Europa no que toca ao tratamento dos seus idosos, urge valorizar e investir particular atenção na Geriatria, a especialidade na medicina que analisa e providencia o tratamento das doenças do envelhecimento. A medicina dentária, no seu sentido mais geral, é coloquialmente associada – e muitas vezes mesmo mais orientada – para tratamentos da saúde oral de crianças e jovens. Vemos enraizados os hábitos dos pais levarem as crianças aos dentistas (os primeiros dentes, as cáries na infância…), dos adolescentes corrigirem a dentição com aparelhos
ortodônticos e cada vez mais dos jovens e adultos manterem essa vigilância e cuidados, mas constatamos que, a dada altura, as visitas ao dentista começam a espaçar mais e mais. Tornou-se normal um idoso ter a dentição comprometida, não ter dentes de todo e usar próteses pouco estéticas e pouco funcionais. No entanto, o envelhecimento populacional de que tomamos consciência é uma realidade que se vai já traduzindo na amostra dos pacientes que assistimos na prática clínica, e obriga-nos a entender a necessidade de dar cada vez mais atenção a uma população “menos jovem” de modo a proporcionar uma melhoria – que creio muito significativa – na sua qualidade de vida. Hoje, o paciente de 60 anos é, na sua maioria, um paciente com muita falta dentes, com dentes arrancados e com problemas de maxilar. A sua saúde oral é bastante pobre, com uma elevada prevalência de cáries coronais e radiculares e de patologia periodontal, reabilitação protética inadequada e presença abundante de placa bacteriana, seja nos dentes naturais ou nas próteses. Ora o processo de envelhecimento do indivíduo é acompanhado por diversas transformações que afetam o sistema mastigatório
“Delimitaria os 60 anos como o marco ideal para iniciar os cuidados de saúde oral geriátricos abrindo assim uma janela de várias décadas de qualidade de vida e saúde.” e que podem incluir os músculos, a articulação temporomandibular, as glândulas salivares, as mucosas e os próprios dentes e respetivos tecidos de suporte. A face mais visível é a perda dos dentes naturais, com a consequente diminuição da capacidade mastigatória, mas não é a única tribulação. A medicamentação, doenças sistémicas como a diabetes, a síndrome de Sjorgen (doença crónica inflamatória na qual o sistema imunitário ataca e danifica órgãos e estruturas do próprio organismo, atingindo frequentemente as glândulas exócrinas [como as glândulas salivares, lacrimais e as glândulas da pele]) e os tratamentos oncológicos, nomeadamente a radioterapia à cabeça e pescoço contribuem, por exemplo, para um baixo nível de saliva no idoso, sendo a Xerostomia, ou “boca seca”, promotora e potenciadora de cáries, gengitives, risco de candidíase oral e outras sequelas na saúde oral. O tabagismo, o consumo excessivo de café e o stress também geram a hipofunção das glândulas salivares. A xerostomia pode ainda afetar o prazer na ingestão de alimentos, pela dificuldade na
42 | Especialidades Médicas
Alterações de comportamento na demência
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Desafios para quem cuida Medicina Geral e Familiar
O
Elisa Serôdio, Cristiana Pinto, Inês Varejão Sousa
envelhecimento populacional acarreta um aumento da prevalência das síndromes demenciais, das quais 80% têm causa degenerativa, como, por exemplo, a Doença de Alzheimer. A demência é uma síndrome caracterizada por deterioração progressiva das funções cognitivas (memória, linguagem, coordenação dos movimentos, perceção visual, função executiva). Embora os sintomas cognitivos sejam necessários para o diagnóstico, os Sintomas Psiquiátricos e Comportamentais de Demência (SPCD) podem dominar tanto a apresentação como a manifesta“Cerca de 90% dos doentes ção clínica da síndrome demencial. Cerca de desenvolvem Sintomas 90% dos doentes desenvolvem SPCD duranPsiquiátricos e Comportamentais te o curso da doença. São exemplos a agitade Demência (SPCD) durante o ção, agressividade, alucinações, desinibição curso da doença.” sexual ou distúrbios alimentares. Estes sintomas estão associados a aumento do uso de recursos de saúde, institucionalização precoce e aumento de morbimortalidade, além de diminuição de qualidade de vida do doente e do seu cuidador. Está já documentado que os cuidadores que lidam com estes sintomas apresentam mais frequentemente depressão e níveis elevados de stress.
Tradicionalmente, o tratamento deste conjunto de doenças centra-se na diminuição da deterioração cognitiva, sendo fulcral a intervenção também ao nível dos SPCD. A avaliação das alterações de comportamento deve ser realizada tendo em conta três eixos de avaliação: o doente, a interação com o cuidador e o meio envolvente. A procura de fatores desencadeantes, nomeadamente de causa orgânica, não deve ser negligenciada. Na abordagem dos SPCD e cuidados de doentes com síndrome demencial podem ser úteis terapias farmacológicas e não farmacológicas. As recomendações da Sociedade Americana de Geriatria e da Associação Americana de Psiquiatria Geriátrica sobre demência recomendam medidas não farmacológicas como tratamento de primeira linha, exceto em casos de psicose
44 | Entrevista
José Manuel Silva “Cuidar não é apenas ter atenção ao corpo, mas também ao espírito” texto e fotos por André Manuel Mendes
Aos 69 anos tem um longo percurso profissional ligado, sobretudo à área do ensino e, mais recentemente, à saúde e cuidadores e assistentes pessoais. José Manuel Silva é Presidente do Conselho de Direção da Escola Superior Saúde Santa Maria, no Porto, fundador e Presidente da Caregivers Portugal – Associação Portuguesa de Cuidadores, investigador e voluntário em organizações sociais. Nascido no Alentejo, é um “cidadão do mundo”, fez o mestrado na Universidade de Boston, nos Estados Unidos
da América (EUA), o Doutoramento na Universidade da Extremadura e uma pós-graduação em Gestão Estratégica de Universidades na Universidade Politécnica da Catalunha. Iniciou a sua vida profissional como professor do ensino secundário, passou para o superior nos anos 80 e fez grande parte da sua carreira profissional no Instituto Politécnico de Leiria onde chegou a Professor Coordenador. Desde 2013, fez um reset na carreira profissional e na vida pessoal, assumiu o desafio de liderar a Escola Superior Saúde Santa Maria
Entrevista | 47
Nuno Ribeiro “É importante abrir horizontes para um conhecimento técnico e científico mais atualizado nesta área” texto e fotos por André Manuel Mendes
A transição digital é um custo ou um investimento? Esta é uma das principais questões com que as instituições e empresas da área social se deparam num quotidiano cada vez mais exigente, onde se procuram ferramentas e soluções que permitam agilizar o trabalho e os cuidados aos idosos. Foi com o intuito de dar uma resposta efetiva que nasceu um projeto alavancado por um conjunto de jovens empreendedores. Chama-se GeriCarePro e é uma aplicação web de gestão de unidades geriátricas, paliativas e continuadas, nomeadamente para uma gestão clínica e operacional. Esta plataforma permite um melhoramento da operacionalização das unidades, e tem como principal foco a agilização dos processos e uma poupança efetiva de custos para a entidade. Nuno Ribeiro, farmacêutico de profissão de base foi um dos mentores deste projeto. Exerceu durante 10 anos a profissão de farmacêutico comunitário mas a sua visão e veia empreendedoras fizeram com que se aventurasse numa nova realidade. O seu irmão, Hugo Ribeiro, começou desde cedo a especializar-se na área da Geriatria, quer medicina paliativa quer cuidados continuados, e desafiou Nuno Ribeiro a criar algum tipo de aplicação web, inexistente e especializada face às necessidades que os profissionais de saúde sentiam, e ao mesmo tempo o mais diferenciado em termos científicos. “Não queremos ser uma mera plataforma de registos de entradas de tarefas, sinais vitais, queremos ter sempre uma componente científica o mais avançada possível”. A Meritposition, empresa criadora do GeriCarePro, é composta por uma equipa de 5 elementos: Nuno Ribeiro, CEO e responsável financeiro; Hugo Ribeiro, médico especializado em Geriatria, medicina da dor e medicina paliativa, responsável pela parte científica de toda a aplicação; Pedro Caetano, médico especializado em hidrologia, medicina aeronáutica e economia da saúde, que dá o seu contributo na parte do negócio e da comunicação do mesmo; João Pedro, Programador Chefe que coordena a equipa de programação; e Gonçalo Ramos, Engenheiro Informático que está no controlo de qualidade, ou seja, no desenvolvimento de testes na plataforma. Estão no mercado desde setembro/outubro de 2019 e têm uma série de objetivos, projetos e parcerias para o futuro. A revista Dignus foi conhecer o GeriCarePro e falou com Nuno Ribeiro, empreendedor que admitiu que é “importante abrir horizontes para o conhecimento técnico e científico mais atualizado nesta área”.
Dignus: O que é o GeriCarePro? Nuno Ribeiro (NR): O GeriCarePro é uma aplicação web de gestão de unidades geriátricas, paliativas e continuadas, nomeadamente para gestão clínica e operacional, ou seja, tudo o que esteja relacionado com processos das rotinas diárias como registo na plataforma dos utentes, controlo das tarefas, avaliações, ocorrências, entre outros. Na parte legal e logística obrigatórias atualmente, quer seja uma unidade social ou privada, queremos facultar ferramentas de gestão que deem uma resposta efetiva às necessidades. Na parte clínica queremos de ter o que de melhor e mais atualizado pode existir no mercado e, para tal, temos algumas funcionalidades que nos diferenciam no mercado. Em Portugal há uma grande diversidade de gestão, logística, operacionalidade das unidades, não é como em diversos países europeus onde as instituições se regem por determinadas guidelines, ou seja, há uma uniformidade de processos. Dignus: E que tipo de funcionalidades se podem encontrar na plataforma? NR: Uma das funcionalidades que temos atualmente incorporadas e que nos diferencia no mercado chama-se Critérios de Beers, critérios de medicação potencialmente inadequada, que analisam uma potencial descontinuação/retirada de medicamentos. Não
Entrevista | 49
“Estamos aqui para ajudar, para tornar a vida dos outros um pouco mais fácil”
texto e fotos por
André Manuel Mendes
Ajudar os outros é mais do que uma simples ação, é dar um pouco de nós a quem mais precisa, é falar a “linguagem do amor”. Cristina é cabeleireira e Susy trabalha na área da protética dentária, e entre os afazeres do trabalho e da família do dia a dia, conseguem encontrar um espaço na sua agenda para ajudar quem mais precisa. São ambas o rosto da Ajuda Para Todos (APT), um grupo de amigos que se juntou para tentar chegar a todos que precisam de ajuda, sejam eles sem-abrigo ou famílias carenciadas. Todas as sextas-feiras este grupo de pessoas tem a disponibilidade para dar uma refeição quente aos sem-abrigo da Baixa do Porto1, e diariamente procuram dar resposta às necessidades de cidadãos e famílias carenciadas. A revista Dignus foi conhecer de perto este projeto e paixão de Cristina e Susy, duas mulheres que têm apenas um grande objetivo, “tornar a vida dos outros um pouco mais fácil”. 1
Estima-se que sejam perto de 600 os sem-abrigo apenas na cidade do Porto.
Dignus: Como nasceu a APT e em que consiste esta iniciativa? Susy Freire (SF): A APT foi fundada depois de eu ter feito voluntariado noutro grupo, que não me preenchia na totalidade, optando assim por criar um grupo próprio com o intuito de ajudar famílias carenciadas e sem -abrigo. Dignus: O que fazem nas vossas ações, desde a etapa de preparação até irem para o terreno? SF: Primeiramente temos que angariar e preparar a semana, ver quem vai fazer a sopa, quem é o restaurante que vai cozinhar, senão temos que procurar quem cozinhe as refeições. Eu cozinhei durante dois anos para a APT, fechava a minha empresa às 17h, mas neste momento não me é possível porque o restaurante onde eu cozinhava fecha mais cedo. Por sorte temos a Cristina que nos deixa cozinhar no seu salão porque senão tínhamos que sair para a rua apenas com sandes. Mas arranjava-se sempre alguma coisa para eles comerem, sendo que a sopa é o essencial e tentamos sempre que nunca falte. Dignus: Quando são as vossas saídas para a rua?
Cristina Moreira (CM): A nossa saída é à sexta entre as 20h30 e as 20h45, mas como a cozinha que aqui tenho é pequena tenho que cozinhar enquanto trabalho, fazendo depois as recolhas pelo caminho. Eu tenho que colocar o fogão a funcionar pelas 17h. Normalmente os restaurantes dão massa com acompanhamento, é algo que preenche o estômago das pessoas e é fácil de se fazer. Quando confeciono as refeições no salão tento fazer algo diferente para as pessoas, aproveitando o que os doadores nos dão de boa vontade. Temos que juntar todos os grãos que recebemos durante a semana para que há sexta-feira tenhamos farinha feita. SF: Temos que nos preocupar com o que vamos ter para a próxima semana, mas temos que ter sempre alimentos em stock. Tentamos que nunca falte stock para irmos para uma sexta-feira com tudo aquilo que eles merecem. Dignus: A equipa da APT é composta por quantas pessoas? CM: É muito variável. Devemos destacar que para além dos sem-abrigo que apoiamos na Baixa da cidade do Porto, também ajudamos algumas famílias com necessidades que são por nós identificadas. Normalmente dividimos a tarefa entre as duas, a Susy assegura o stock para essas famílias enquanto eu asseguro o stock para a Baixa. E quando falamos em stock não falamos apenas de comida, mas também de pratos, guardanapos, colheres, copos. Temos também que ter capacidade para doar o “Kit do dia seguinte”, um saco com mais uma refeição para o dia seguinte composto por um sumo, sandes, bolachas e fruta, para que não estejam sem comer nada durante um longo período de tempo. SF: Queremos garantir que estas pessoas tenham mais uma refeição porque depois do
56 | Case Study
Os lugares que o saber ocupa a aprendizagem ao longo da vida no Programa 60+ Luísa Pimentel1,2, Sara Mónico Lopes1,3, Cezarina Maurício1 Escola Superior de Educação e Ciências Sociais - Politécnico de Leiria; CICS.NOVA.IPLeiria, 2CIES.IUL, 3APCEP
1
O
questionamento sobre o lugar que os seniores ocupam nas sociedades contemporâneas é uma constante e decorre, em grande medida, das crescentes preocupações que uma velhice marcada pelo alheamento e pela exclusão de contextos sociais, culturais e educativos estimulantes pode trazer às pessoas que a experienciam, bem como às sociedades que acolhem essas pessoas. Desde o final do século XX que a Organização das Nações Unidas espelha esta preocupação nas suas recomendações, defendendo a adoção de medidas que assegurem a construção de uma sociedade para todas as idades (Comissão das Comunidades Europeias, 2002). Passados 20 anos, as metas mantêm-se, revelando que as anteriormente delineadas não foram, ainda, alcançadas. No documento Global Strategy and Action Plan on Ageing and Health da OMS, é realçada a transversalidade da temática do envelhecimento nos objetivos do desenvolvimento sustentável, definidos pela ONU. Considerando o tema desta reflexão, destacamos o objetivo 4: “Ensure inclusive and equitable quality education and promote lifelong learning opportunities for all” (WHO, 2017, p.1). A aprendizagem ao longo da vida e a educação permanente são conceitos e práticas cada vez mais presentes no nosso quotidiano, que procuram distanciar-se de um modelo de educação assente na compartimentação do ciclo de vida em três grandes etapas: uma para estudar, uma para trabalhar e uma para descansar (Machado & Madeira, 2016). Este novo paradigma educativo, ancorado
na perspetiva de que a formação e a aprendizagem devem estar presentes ao longo de toda a trajetória de vida, serve os que pretendem valorizar-se profissionalmente, mas também os que, tendo já deixado o mercado de trabalho, querem continuar a valorizar-se a nível pessoal e social. Serve, portanto, as pessoas que queiram contrariar o que Torres e Carrião (2016) chamam de “cultura BBB”, referindo-se a uma realidade de menorização dos seniores que se contentam com “bolo, baile e bingo”. Segundo estes autores, a “lazeirização” do tempo dos mais velhos, alimenta-se do estereótipo de que já não faz sentido estes assumirem papéis socialmente e economicamente relevantes, e da crença de que as pessoas querem simplesmente ocupar o tempo livre com atividades de lazer, para não ficarem sozinhas e fechadas em casa. As instituições de ensino superior, cumprindo a sua vertente de responsabilidade social, de ligação à comunidade e de criação de oportunidades de aprendizagem para todos, têm desenvolvido cada vez mais programas para seniores, procurando dar resposta a novas necessidades socioeducativas de um grupo emergente, que procura soluções inovadoras, estimulantes e inclusivas. O acesso à educação é basilar na consolidação do processo participativo, em qualquer idade. Tendo em conta a perspetiva de Mirabelli e Carielo da Fonseca (2016), baseada na pedagogia de Paulo Freire, a educação tem de ser pensada como um processo contínuo e emancipatório, que favorece uma leitura reflexiva do mundo e, consequente-
mente, uma ação transformadora do mesmo. Nas etapas mais tardias da vida, a inserção em espaços de educação formal, mesmo que não cumpra o objetivo de certificação das competências e das aprendizagens desenvolvidas, e tenha subjacentes propósitos distintos dos que motivam os mais jovens, é uma via possível para reforçar a autonomia dos indivíduos, “enquanto forma civilizada de agir” (Faleiros, 2013, p. 46), ajudando-os a adquirir ferramentas e habilidades que facilitam a convivência intergeracional e o diálogo familiar e social. O Politécnico de Leiria, percebendo as potencialidades da abertura da sua oferta formativa a um público mais velho, criou, em 2008, o Programa 60+. Trata-se de um projeto socioeducativo, destinado a indivíduos com mais de 50 anos, reformados ou em situação de pré-reforma, que ambiciona contribuir para a concretização de processos de envelhecimento ativos e saudáveis, promover a partilha de saberes e de experiências, assim como, promover a convivência e a aprendizagem intergeracional. Como já afirmámos em outra publicação “O principal elemento diferenciador do Programa em relação a outras iniciativas de formação para seniores em Portugal é a integração destes em aulas de licenciatura. Ainda que o façam com motivações e expetativas diferentes das dos jovens, podem protagonizar com estes as mais diversas dinâmicas sociopedagógicas” (Pimentel & Faria, 2016, p. 107). Os estudantes seniores podem frequentar até 5 unidades curriculares dos cursos de licenciatura ou dos cursos Técnicos Superiores Profissionais (CTESP) ministrados em qualquer das cinco escolas do Politécnico de Leiria. Em concomitância a esta componente formativa e académica, desenvolvem-se, por iniciativa dos próprios estudantes seniores, da coordenação do programa, de docentes do Politécnico de Leira, de estudantes mais jovens ou de pessoas externas, a título volun-
64 | Bibliografia
Fundamentos de Geriatria Clínica - 7.ª edição
PVP: 42,40 € Poupa: 4,24 € Preço BOOKI:
38,16 €
Autores: Robert L. Kane, Joseph G. Ouslander, Itamar B. Abrass, Barbara Resnick Editora: MCGraw-Hill Número de páginas: 544
Fundamentos de Geriatria Clínica (7.ª edição) é um manual prático e envolvente dos temas centrais da medicina geriátrica, escrito para auxiliar os médicos a atuarem de forma mais eficaz no atendimento de idosos. Para isso, a obra contempla aspetos básicos e aplicados de Geriatria e Gerontologia, com informações sobre diagnóstico e gestão de doenças crónicas, diagnóstico diferencial e gestão de delirium e demência, depressão, incontinência urinária, quedas e imobilidade. São também apresentadas estratégias gerais de gestão de distúrbios cardiovasculares, diminuição da vitalidade e comprometimento sensorial, além de informações sobre prevenção, terapias farmacológicas, serviços de saúde, cuidados em clínicas geriátricas, questões éticas e cuidados paliativos. Índice: O paciente idoso e a avaliação geriátrica; Diagnóstico diferencial e gestão; Estratégias gerais de gestão.
Ano de edição: 2014 ISBN: 9788580554427 Idioma: Português (do Brasil)
Manual de Avaliação Motora para Terceira Idade
PVP: 20,14 € Poupa: 2,01 € Preço BOOKI:
18,13 €
Autores: Francisco Neto Editora: Artmed Ano de edição: 2008 Número de páginas: 268
O manual de avaliação motora para a terceira idade oferece uma descrição clara e concisa das diferentes áreas da motricidade humana. O livro utiliza a escala motora para a terceira idade - EMTI, método reconhecidamente testado que auxilia na identificação de alterações neurológicas, comportamentais, físicas e motoras. Índice: A aptidão motora e o idoso; Neurociência e neuropsiquiatria do processamento motor do idoso - compreensão do envelhecimento normal e patológico na terceira idade; Aspetos psicológicos e neuropsicológicos do idoso; Atividade física, envelhecimento e avaliação; Avaliação funcional do idoso portador de doença neurológica; Exercício físico e envelhecimento; Escala motora para terceira idade; Produção científica com a escala motora para terceira idade; Propostas de atividades de intervenção e reeducação motora para idosos; A influência de um programa de intervenção psicomotora na aptidão motora.
ISBN: 9788536316918 Idioma: Português (do Brasil)
CURRENT: Geriatria - 2.ª edição
PVP: 77,38 € Poupa: 7,74 € Preço BOOKI:
69,64 €
Autores: ie A. Williams e outros Editora: MCGraw-Hill Ano de edição: 2015 Número de páginas: 608 ISBN: 9788580555158 Idioma: Português (do Brasil)
Fonte confiável e repleta de informações sobre as condições relacionadas à saúde da população idosa, CURRENT: Geriatria - diagnóstico e tratamento, fornece conteúdo estruturado relativo aos estados funcional e cognitivo, bem como ao prognóstico, de modo a orientar o diagnóstico e o tratamento de condições clínicas em idosos. Desta forma, este livro traz importantes conteúdos sobre saúde cardiovascular, cancro, distúrbios endódrinos, problemas cutâneos, doenças respiratórias e distúrbios renais, delirium, comprometimento cognitivo, demência, quedas e distúrbios da mobilidade, doença de Parkinson, distúrbios do sono e artrite, entre outras importantes informações relacionadas com esta população. Além disso, inclui informações sobre promoção de saúde, questões éticas, tomada de decisão informada e cuidados paliativos. Índice: Princípios dos cuidados geriátricos; Ambientes de cuidados; Condições comuns em Geriatria; Situações clínicas comuns em Geriatria; Ampliando a prática clínica.