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A finalidade deste material é discorrer sobre os valores fundamentais da Cultura Organizacional Marista. São estes valores que constroem e reconstroem as relações do Grupo Marista e que perenizam nosso jeito próprio de ser e atuar. São traços identitários e de reconhecimento para seus membros. Esse núcleo de valores está intimamente relacionado a nossa missão de evangelizar por meio da educação. Alicerçado nos princípios cristãos e maristas, constitui-se num grande referencial para nosso jeito próprio de gerir, educar, cuidar e comunicar. Os valores evidenciados são grandes pilares norteadores que nos ajudam a permanecer no caminho para o qual fomos fundados e a qualificar todas as nossas iniciativas. O texto aqui apresentado foi elaborado em consonância com os Setores Provinciais, as Áreas Corporativas e Negócios de nossas Mantenedoras. A abordagem deste material está voltada para o âmbito de nossa cultura organizacional, com foco na sua promoção e consolidação. A partir dessa base de valores, cada área de atuação – Educação, Comunicação, Saúde e Social – poderá aprimorar a reflexão de acordo com a sua especificidade e contexto de atuação. Esperamos que esta ferramenta seja útil para a difusão de nossos valores junto a todos os envolvidos1 com o Grupo Marista, por meio do exemplo de vida, das práticas de gestão e, consequentemente, de políticas, procedimentos e alinhamento de processos.

Ir. David Pedri Superior Provincial 1

Educandos, educadores, gestores, colaboradores, famílias, fornecedores... “stakeholders”.

Ir. Adriano Brollo Diretor do Setor de Pastoral


As instituições visionárias que se perpetuam na história são capazes de realizar permanentemente um duplo dinamismo: possuem um conjunto claro de missão e valores e a ele são fiéis; e conseguem concretizar esses seus ideais em ações inovadoras, eficientes e eficazes aos desafios de cada época. Recentemente, tem-se observado o aprimoramento dos modelos tradicionais de gestão. Emerge o paradigma da gestão baseada em valores2. Há, nessa forma de gerir, a preservação do núcleo referencial dos valores que é, ao mesmo tempo, estímulo ao desenvolvimento e ao alto desempenho organizacional, potencializando as dimensões humano-afetiva, ética, estética e relacional. Em nossa Instituição Marista, esse estilo de gerir é legado de Marcelino Champagnat, nosso fundador. Essencialmente, nossas iniciativas estão fundadas na missão de educar crianças e jovens, contribuindo para que se tornem bons cristãos e virtuosos cidadãos. É a partir dessa realidade que encontramos nossa motivação primeira e descobrimos nossos valores fundacionais. Falar de gestão baseada em valores em

nossa Instituição

significa falar de nossas raízes.

Nosso núcleo de valores está assim composto: Simplidade, Amor ao Trabalho, Justiça, Espiritualidade, Espírito de Família (Sensibilidade Comunitária) e Presença Significativa. Ele tem sentido pleno; cada valor não pode ser conjugado de forma desconexa, mas sempre considerado conjuntamente, como complementar, interdependente e sempre à

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luz de nossa missão. Em nossas Mantenedoras, Negócios e Unidades da Província Marista do Brasil Centro Sul estes referenciais tornam-se balizadores do nosso jeito de ser e atuar. Condição fundamental para que esses valores se tornem efetivos em nosso contexto é que sejam capilarizados em todos os âmbitos de nossa organização e que se concretizem em ações. É necessário que eles sirvam de diretrizes para a definição de políticas, de processos e procedimentos institucionais. É primordial que pautem e guiem o desenvolvimento de nossas relações humanas, educativas, profissionais, pastorais, empresariais e sociais. Há quem possa desencadear estilos de gestão baseados em valores com a finalidade unicamente de mobilizar mais facilmente pessoas, de aumentar a produtividade e ou somente para atrair clientes. Queremos ir além. Nossa intenção maior consiste em possibilitar o desenvolvimento e o cultivo de uma cultura organizacional marista forte, fiel as nossas origens e condizente com o caráter visionário, empreendedor e transformador do próprio fundador. Acreditamos na originalidade e no exemplo de Marcelino Champagnat. Buscamos, antes de tudo, impactar positivamente o público final de nossas iniciativas, colaborando para que sejam protagonistas na construção de uma sociedade mais humana, justa, ética e solidária.

MIGUELES & ZANINI, 2009.

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Marcelino Champagnat nasce a 20 de maio de 1789, em Marlhes, aldeia montanhosa no centro-leste da França. A Revolução Francesa acaba de estourar. Ele é o nono filho de uma família cristã. Sua educação é essencialmente familiar. Sua mãe e sua tia despertam nele fé sólida e profunda devoção a Maria. Seu pai, agricultor e comerciante, possui instrução acima da média; desempenha um papel político na aldeia e na região, transmite a Marcelino a habilidade para os trabalhos manuais, o gosto pelo trabalho, o senso das responsabilidades e a abertura às idéias novas. Quando Marcelino está com 14 anos, um padre o visita e o convida para a vida sacerdotal. Marcelino, com quase nenhuma escolaridade, vai se mover a estudar; muitos o desaconselham e procuram dissuadi-lo desta iniciativa, porém ele decide ir ao seminário. Os anos difíceis do Seminário Menor de Verrières (1805-1813) são para ele uma etapa de verdadeiro crescimento humano e espiritual. Impressionado pelo abandono cultural e espiritual das crianças de sua época, Marcelino sente a urgência de fundar uma Instituição para a educação cristã da juventude. Após sua ordenação sacerdotal, é enviado como ajudante à paróquia de La Valla. A visita a um adolescente de 17 anos, às portas da morte e sem conhecer Deus, o perturba profundamente, impelindo-o a empreender e a gestar um projeto majestoso.

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Em 2 de janeiro de 1817, apenas 6 meses depois de sua chegada na cidade de La Valla, Marcelino reúne seus dois primeiros ajudantes: a Instituição Marista nasce na pobreza e humildade, na total confiança em Deus, sob a proteção de Maria. Além de garantir seu ministério paroquial, Marcelino dedica-se à formação de seus ajudantes, preparando-os para a missão de mestres cristãos, educadores das crianças e jovens. Consciente das imensas carências da juventude, Marcelino transforma jovens camponeses sem cultura em educadores – “formava-os nas ciências e lhes dava a conhecer os melhores métodos de ensino”3 . Sem tardar, abre escolas. As vocações vêm, e a primeira casa, apesar de aumentada pelo próprio Marcelino, torna-se logo pequena demais. As dificuldades são numerosas, mas ele é persistente e não desanima. Marcelino, homem de fé profunda, vê em Maria, a “Boa Mãe”, o “Recurso Habitual”, a “Primeira Superiora”. Sua grande humildade, seu senso profundo da presença de Deus, fazem-lhe superar, com muita paz interior, as numerosas provações. “Tornar Jesus Cristo conhecido e amado” é a missão Marista. A educação é o meio privilegiado para essa missão de evangelização. Marcelino inculca em seus seguidores o respeito, o amor às crianças e jovens, a atenção aos mais pobres. Aconselha a vivência da presença prolongada entre as crianças e jovens, a simplicidade, o espírito de família, o amor ao trabalho e o agir em tudo do jeito de Maria. Morre aos 51 anos de idade, em 6 de junho de 1840. Seu empreendimento contava com “280 irmãos e 48 estabelecimentos que atendiam cerca de 7000 alunos”4. Hoje sua obra esta presente em 79 países e atende aproximadamente 500 mil crianças e jovens. Sua última mensagem, relatada em seu testamento espiritual:

“Que haja entre vocês um só coração e um só espírito.” 3 4

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MARTINS, 1989, pág. 67. GIUSTO, 2007, pág. 50.


Relato do Ir. Lourenço, contemporâneo de Champagnat, referindo-se a hábitos do fundador relacionados a sua disposição para o trabalho, independente de qual fosse. Vale ressaltar que, naquela época, a condição de pertencente ao clero estava associada à dispensa de “trabalhos braçais”, que deveria ficar a cargo de pessoas com “menos instrução”: (Champagnat...) Levantava-se sempre de madrugada, nunca perdia tempo e apreciava o trabalho braçal. Ele não se poupava e fazia sempre o que havia de mais duro e perigoso. Foi ele quem tudo fez na reforma da casa de La Valla. Nós ajudávamos, mas como não sabíamos trabalhar direito, quase sempre precisava mostrar-nos ou refazer tudo. (...) Não se queixava da nossa falta de jeito. Tínhamos boa vontade, mas éramos muito desajeitados, sobretudo eu. Às vezes, à noite, estava todo suado, coberto de poeira e com a batina rasgada. Nunca se mostrava tão contente como quando o trabalho e a dedicação tivessem sido intensos. Vi-o muitas vezes trabalhando sob a chuva ou a neve que caía. Nós deixávamos o trabalho nessas ocasiões, enquanto ele continuava, mesmo sem proteção para a cabeça e apesar do rigor do tempo.5

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Texto de Ir. Lourenço. In Origines maristes: (1786-1836) extraits concernant les Freres Maristes, doc. 756.

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Para Champagnat, Amor ao Trabalho significa igualmente realizar o trabalho com amor: “Para bem educar as crianças é preciso amá-las e amá-las todas igualmente. Ora, amar as crianças é dedicar-se totalmente a sua instrução e empregar todos os recursos sugeridos por um zelo criativo para formá-las à virtude e à piedade”.8

Na mesma linha de reflexão, segue outro relato feito pelo Ir. Jean Baptiste Furet, biógrafo de Champagnat: A casa de La Valla foi feita por ele; a casa de l’Hermitage em grande parte. As reformas, a mobília, os muros e o embelezamento da propriedade também foram obra sua. Seu amor ao trabalho e principalmente sua humildade o levaram a empreender múltiplos misteres. Levantar uma parede com os pedreiros, um tabique de tijolos com os gesseiros, fabricar um móvel com os marceneiros, trabalhar com os canteiros na pedreira, cultivar a horta, carregar pedras, estercos, para ele tanto fazia, dava conta de tudo. Sempre se distinguia por sua habilidade e quantidade de produção.6

O Amor ao Trabalho implica também na fidelidade ao público final e ao foco da missão: Se fosse apenas para ensinar as ciências humanas aos jovens, não haveria necessidade de Irmãos; bastariam os demais professores. Se pretendêssemos ministrar somente a instrução religiosa, limitar-nos-íamos a ser simples catequistas, reuniríamos as crianças uma hora por dia, para transmitir-lhes as verdades cristãs. Nosso objetivo, contudo, é mais abrangente. Queremos educar as crianças, isto é, instruí-las sobre seus deveres, ensinar-lhes a praticá-los, infundir-lhes o espírito e os sentimentos do cristianismo, os hábitos religiosos, as virtudes do cristão e do bom cidadão. Para tanto, é preciso que sejamos educadores, vivamos no meio das crianças e que elas permaneçam muito tempo conosco.9

O trabalho, para Champagnat, estava sempre relacionado à convicção de que construíam uma obra de Deus: O mais admirável no caráter do Pe. Champagnat era a constância. Contradição, provações, cansaços, preocupações da administração de uma comunidade numerosa, com freqüência carente de muitas coisas, enfermidades, nada lhe alterava a paz espiritual, nem a serenidade do rosto. Nunca se queixava; jamais viram-no triste ou desanimado. Pelo contrário, ocultando cautelosamente suas próprias aflições e canseiras, estava sempre a levantar o ânimo dos Irmãos, repetindo-lhes amiúde: “Meus amigos, lembremo-nos de que trabalhamos para Deus, que nos prepara um prêmio eterno. Se crêssemos nessas verdades com fé viva, deixar-nos-íamos, acaso, dominar pela tristeza? As pessoas em geral trabalham mais do que nós e cantam, às vezes, todo o dia, porque ganham um pouco de dinheiro, e nós que ganhamos o céu, ficaríamos tristes e abatidos? Deus nos livre de ter tão pouca coragem e pouca virtude”.7

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FURET, 1999, pág. 390. FURET, 1999, pág. 252 e 253.

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FURET, 1999, pág. 501. FURET, 1999, pág. 498.

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Em meio aos Irmãos, Champagnat fazia-se próximo, sempre acessível e sem complicações. Trabalhava com os Irmãos no amanho da terra e na fabricação de pregos; passava os recreios com eles, visitava as aulas para animar os alunos e orientar os professores, aos quais ministrava aulas particulares, formando-os ao acompanhamento dos alunos e aos demais aspectos da educação. Os Irmãos lhe consagravam a máxima veneração e amavam-no como pai. Sendo, porém, homens simples, davam pouca importância às conveniências sociais, por isso, embora tendo profundo respeito, tratavam-no como companheiro, pouco preocupando com dispensar-lhe as atenções condizentes com seu caráter sacerdotal e sua posição de superior. Aqui vai um exemplo: o Pe. Champagnat permaneceu quatro anos na convivência deles, sem que ninguém se oferecesse para arrumar-lhe e limpar-lhe o quarto.10 Champagnat, como superior, visitava frequentemente as comunidades dos Irmãos, de diversas localidades. Por onde passava, seu jeito simples de ser marcava positivamente as pessoas. Chegou a outra comunidade na hora do almoço. Como o Irmão Diretor lamentasse e pedisse desculpas por não dispor de nada para lhe oferecer, o bom Padre disse-lhe carinhosamente:

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FURET, 1999, pág. 72.

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– Não se incomode, comeremos juntos, basta-me o que vocês têm. – Mas, Padre, temos apenas salada e queijo. – E batatas? – Sim, temos, mas não estão preparadas. Levaria muito tempo para cozinhar. – Mande trazê-las. Vou ajudá-los no preparo. Com a cooperação de todos, a coisa ficará logo pronta. Correm buscar as batatas e ele começa a descascá-las com os Irmãos. Por ser novo, o cozinheiro não sabia prepará-las direito. O Padre, tomando a frigideira e fritando-as, ensinou-lhe como devia proceder. De outra feita, ao voltar de viagem, o Irmão cozinheiro se dispunha a preparar-lhe o almoço. – Não se preocupe, quero apenas os restos da refeição dos Irmãos.11 No cristianismo, a humildade – expressão de autenticidade e veracidade – é condição indispensável para a busca da perfeição, da sabedoria. Champagnat a perseguiu durante toda a vida. A convicção dessas verdades levou o Pe. Champagnat a se afeiçoar de modo especial à humildade e, mais tarde, a fazer da prática dessa virtude o caráter distintivo de seu Instituto. Desde que resolveu dar-se totalmente a Deus, fez um exame introspectivo para descobrir seus defeitos e resolveu atacar, em primeiro lugar, o orgulho, considerando-o, com razão, o maior inimigo das virtudes e o maior obstáculo à perfeição. Por muito tempo tomou essa virtude por assunto de exame particular. Compôs uma prece que rezava diariamente, pedindo a Nossa Senhora a humildade, pela intercessão de Maria e dos santos padroeiros. Para suas leituras espirituais usava o Livro de Ouro ou, então, outro título: Menosprezo de si mesmo. Eram os dois livros de predileção. Leu-os e meditou-os durante toda a vida.12

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FURET, 1999, pág. 362. FURET, 1999, pág. 371.


A Justiça, no contexto cristão, é mais do que dar a cada um o que lhe é devido. É também atitude solidária. Um dia chamaram-no para atender um doente. Apressa-se em visitá-lo e encontra um homem coberto de chagas, na maior miséria, tendo apenas alguns trapos a cobrir-lhes a nudez e as úlceras. Profundamente movido de compaixão à vista de tantas dores e tanta miséria, dirige-lhe, primeiramente, palavras de conforto. Depois, corre para casa, chama o Irmão ecônomo e ordena-lhe que leve imediatamente colchão, lençóis e cobertores ao infeliz que acabava de visitar. – Mas, Padre, não temos nenhum colchão sobrando. – Como! Não encontra nenhum colchão na casa? – Não, nenhum. Deve lembrar-se que dei o último faz alguns dias. – Pois bem! Retire o colchão da minha cama e leve-o agora mesmo ao pobre do homem. Muitas vezes aconteceu-lhe despojar-se desta forma, para assistir os indigentes ou fornecer a seus Irmãos aquilo que lhes faltava.13

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FURET, 1999, pág. 476.

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Champagnat era exigente quanto ao mínimo necessário para que os Irmãos pudessem realizar a obra da educação. Durante toda vida buscou ser justo na administração dos bens e serviços de seu Instituto. Cada um deve viver de sua profissão, dizia ele. Se os Irmãos, cujo trabalho é muito exigente, não dispuserem do necessário, a situação deles se tornará insustentável. Terão de abandonar tudo, apesar da virtude e do zelo que os anima na educação das crianças”. Eis o que escrevia ao prefeito14 de uma comuna, o qual achava excessivo o salário dos Irmãos e não pagava em dia. “A quantia de mil e duzentos francos, que pedimos, é bem módica para o sustento de três Irmãos. A meu ver, diminuí-la significa privá-los, já não digo do estrito salário, pelo trabalho mais ingrato e penoso que o cidadão possa ter, mas até da comida mais pobre e insípida. Além disso, todas as comunas onde nos estabelecemos pagam pelo menos essa quantia. O senhor sabe que os Irmãos da Doutrina Cristã recebem seiscentos francos por pessoa, soma tida como o mínimo necessário. Reduzimos a dois terços aquele montante que já não tem concorrência. Julgue o senhor mesmo, com sua prudência e sensibilidade se não seria impiedoso e desumano reduzir, ainda mais, tão diminuto pagamento.15 Na mesma linha, segue trecho de uma carta enviada ao Prefeito de Sorbiers, Loire – Jean François Preynat Senhor Prefeito, Os trabalhos e o carinho que tiveram nossos Irmãos em favor dos meninos de Sorbiers são mais do que suficientes para demonstrar aos habitantes do município a contrariedade que experimentaram quando se viram obrigados a deixar a escola. Mas, se o senhor deseja chamar de volta os Irmãos, conforme leio em sua carta, estamos dispostos a ir ao encontro de suas intenções a partir de quando o município tiver fornecido a mobília, uma casa para morar, enfim, tudo o que for necessário ao funcionamento de uma escola. Quanto à casa dos Irmãos, estando ela à venda, já não será possível cedê-la de volta, aliás o senhor mesmo bem sabe que, se pudesse ter servido aos Irmãos, nunca teriam eles saído de Sorbiers.16 14 15 16

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Ao Sr. Devaux de pleyné, prefeito de Bourg-Argental, carta de fins de 1827. FURET, 1999, pág. 448. FURET, 1999, pág. 153.


A presença de um marista deve ser significativa junto às pessoas e à sociedade. O Pe. Champagnat foi um homem de respostas aos desafios de seu tempo. Marcelino ouviu o grito da marginalização rural. Soube enxergar as necessidades e voltarse, corpo e alma, para remediá-las. Grande perito espiritual, soube sondar os corações e adivinhar, com ouvido atento, o murmúrio de Deus na alma dos jovens [...] soube formar discípulos [...] jovens camponeses quase analfabetos fez, em poucos anos e quase sem meios, pedagogos intuitivos.17 Para Champagnat, o exemplo de vida era a indispensável qualidade do educador. Ensinava aos Irmãos que era pela presença que haveria de marcar os educandos. 1. Meu caro Irmão Barthélemy e seu caro colaborador. Fiquei muito satisfeito ao receber notícias suas. Fico satisfeito de saber que vocês estão com boa saúde. Sei também que estão com muitos alunos e que, portanto, terão também muitas cópias de suas virtudes, pois é seguindo estes modelos que seus alunos se formam. De acordo com os exemplos que vocês derem é que eles vão pautar o comportamento deles. Como é grande o trabalho que vocês fazem, como é sublime! Vocês estão continuamente em companhia daqueles com os quais Jesus se comprazia, já que proibia expressamente a seus discípulos de impedir as crianças a se achegarem a Ele.18

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BIGOTTO, 2002, pág. 95. CHAMPAGNAT, 1997, carta 14.

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2. Para educar, para formar uma criança, é necessário prever que imponha respeito e obediência. Ora, as credenciais que a criança mais facilmente reconhece e compreende são: a virtude, o bom exemplo, a competência e os sentimentos paternais que lhe testemunhamos. A educação é, portanto, em primeiro lugar, questão de bom exemplo, porque a virtude fortalece a autoridade; porque é da natureza do homem imitar o que vê fazer, e os atos têm mais força para convencer e persuadir do que palavras e instruções. Criança aprende mais pelos olhos do que pelos ouvidos. Vendo os pais ou chefes trabalhando, acostuma-se ao trabalho e aprende um ofício. Assim, também, é vendo fazer o bem e recebendo bons exemplos que aprende a praticar a virtude e a viver cristãmente (...). Sem notar, pelos bons exemplos vai transmitindo aos alunos a piedade, a obediência, a caridade, o amor ao trabalho e todas as virtudes cristãs.19

O mesmo pároco, conversando com o Vigário Geral, ponderava-lhe: “O povo acha que nossas crianças mudaram. Entretanto, a transformação exterior, à vista de todos, é o de menos. É preciso ser pároco e confessor para ter uma idéia do bem que os Irmãos realizam desde sua chegada”. Outro requisito que o Pe. Champagnat considerava indispensável para atrair as crianças à escola e formá-las à virtude era a disciplina. “Alguns imaginam que a disciplina afugenta os alunos. Pelo contrário, todos apreciam a ordem. A desordem desagrada a todos, às crianças inclusive. Vivem satisfeitas e à vontade numa escola com disciplina. Mas se aborrecem e se desgostam do estudo numa aula onde reina a desordem”.20 Champagnat fez-se presença na vida dos Irmãos. Abandonou privilégios possíveis por sua posição clerical e foi morar, para sempre, junto aos Irmãos. Com eles, consumiu toda a sua vida no cumprimento da missão. A instituição dos Irmãos, para alcançar bom êxito, precisava de toda essa abnegação. Obteve, pois, a autorização de deixar o presbitério e veio morar, para sempre, com os Irmãos. Transportou, pessoalmente, sua pobre mobília à noite, para não ser visto e evitar comentários. Deram-lhe um quarto pequeno, baixo e insalubre21; entretanto, o melhor da casa. Sua modesta alimentação era preparada com a dos Irmãos, mas comia em separado.22 Foi sumamente gratificante para ele achar-se no convívio dos Irmãos e poder consagrar todos os seus momentos a instruí-los e formá-los à virtude. Como bom pastor, andava sempre à frente do seu pequeno rebanho.23

“Pelos frutos é que se conhece a árvore”. Eis um relato da percepção de alguns padres contemporâneos de Champagnat sobre as aparentes mudanças de comportamento das crianças após a presença dos Irmãos na região. Em outra paróquia, as crianças tinham verdadeira sofreguidão de ir à casa dos Irmãos, aos domingos, unicamente pelo catecismo. Surpreso, o coadjutor dizia ao pároco: – Não sei o que os Irmãos falam às crianças. Conseguem retê-las horas a fio, sem aborrecê-las. Retrucou o pároco: – Os Irmãos ministram com perfeição a catequese, e acho que você sairia ganhando se assistisse a uma aula deles.

FURET, 1999, pág. 505. “Contentou-se com um quarto bastante estreito, baixo, pouco salubre e que os móveis não atravancavam: situado ao lado da cozinha” (Abrégé dês Annales du Frère Avit, F.M.S., 1789-1840, pág. 41). 22 “Por razão de conveniência, sua mesa ficava à frente no refeitório”. In Mémoires (Souvenirs personnels). Frère Sylvestre, F.M.S., p. 21. 23 FURET, 1999, pág. 72. 20 21

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FURET, 1999, pág. 500.

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Para Champagnat, a obra que construía era, na verdade, obra de Deus – dizia frequentemente: “Foi Ele quem tudo fez”24 . Com isso, unia fé e vida; espiritualidade, empreendedorismo e trabalho. Quando projetou construir a casa de l’Hermitage, diversas pessoas lhe ponderaram que era imprudente empreender, sem nenhum capital, tão vasta construção. Respondeu ele: - É mesmo, acho que seria grave imprudência e extrema temeridade, se confiássemos em nós. Mas nós confiamos na Providência, que nunca nos faltou e tudo realizou entre nós. Ela não pode abandonar-nos, pois é obra sua o que fazemos. - Mas o senhor está assim tão certo de que Deus quer esta obra? - Como duvidar, depois das bênçãos com que nos cumulou e proteção que nos concedeu? Se Deus não quisesse essa comunidade, não nos mandaria tantos aspirantes, não abençoaria nossas escolas; não nos daria o necessário para viver, como o fez até hoje. Favorecendo a Congregação, dá-nos a prova de que Ele a quer; e, se é assim, haverá de nos mandar os recursos para construirmos uma casa de acordo, onde possamos morar. Alguns atreveram-se a ir mais longe: vendo que não atendia aos conselhos, sustentaram que o orgulho o enlouquecera e brevemente ele mesmo daria a prova da loucura abandonando tudo e indo à falência. Ao tomar conhecimento do que andavam dizendo, contentou-se em retrucar serenamente: “Deixemos os homens criticar e confiemos em Deus que jamais nos abandonará, a menos que nós tomemos a iniciativa de abandoná-lo”.25 24 25

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FURET, 1999, pág. 373. FURET, 1999, pág. 278.

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Para o fundador, toda obra de educação formal estava unida à educação para a busca e vivência da espiritualidade. O Pe. Champagnat tinha especial talento para praticar o que aconselhava aos Irmãos. Numa de suas visitas, ao entrar numa sala, enquanto os alunos estudavam desenho e noções de agrimensura, perguntou-lhes primeiro o que estavam fazendo e o que sabiam dessas matérias. Depois acrescentou: “Minha gente, vejo com satisfação que vocês saberiam medir um terreno. Ótimo! Futuramente poderão precisar disso. Mas não esqueçam também de aprender a medir o céu. Aprende-se a medir o céu calculando quanto vale, quanto trabalho é preciso para merecê-lo e o que custou a Jesus Cristo para nele preparar-nos um lugar! Há tanta coisa para medir no céu! Quanto é grande, quanto é belo e quanto é rico! Vocês sabem usar a escala proporcional, como acabam de provar. Seriam capazes de me dizer como escalar o céu? Pelos mandamentos de Deus. Se os conhecerem e praticarem, eles servirão de escada para subir ao céu!”26

ainda que, em decorrência de sua função, você se distraia um pouco. É bem melhor do que rezar sem distração, mas negligenciando este importante dever. Sabe o que é tirar proveito das práticas de piedade? É aprender, na oração, a bem cumprir os deveres, praticar as virtudes de seu estado e proceder corretamente em todas as coisas. Foi por isso que Santo Agostinho pôde dizer: Aquele que sabe rezar bem, sabe viver bem. Ora, viver bem é saber santificar todos os seus atos, aplicar-se às coisas exteriores por espírito de fé e fazer de sua atividade, seja qual for, uma oração constante. O fruto mais precioso de seus exercícios de piedade resume-se, pois, em ser fiel a todas as obrigações e cumprir do melhor modo possível a tarefa que lhe foi confiada, sendo, para seus alunos, modelo de caridade, paciência, pontualidade e modéstia.27 Para Champagnat, Maria era exemplo e intercessora no trajeto de evangelizar pela educação. Deus nos amou desde toda eternidade; escolheu-nos e nos separou do mundo. A Santíssima Virgem nos plantou em seu quintal, Ela tem o cuidado de que nada nos falte.28 Tomou para si o seguinte lema: “Tudo a Jesus por Maria, tudo a Maria para Jesus”.29

A espiritualidade, no carisma marista, tem um caráter muito prático. O fato que segue ilustra a preocupação do fundador com o cultivo de uma fé enraizada no trabalho. Certo dia, notando que o Irmão responsável pela vigilância dos internos, entretido com a reza do ofício, dava-lhes pouca atenção, o Pe. Champagnat observou-lhe: – Meu Irmão, você nunca deve perder de vista seus alunos. – Mas, padre, se não estou recolhido, não consigo rezar, e meu ofício fica sem fruto nenhum. – Sua primeira obrigação é cuidar de seus alunos para prevenir o mal e conservar-lhes a inocência. Se conseguir isso, sua oração será mais agradável a Deus e mais meritória,

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FURET, 1999, pág. 461 – 462.

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FURET, 1999, pág. 73. CHAMPAGNAT, 1997, carta 10. FURET, 1999, pág. 313.

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Champagnat vivia com os Irmãos de modo a formarem uma verdadeira família. Era sempre terno; no entanto, não hesitava em fazer as necessárias correções para o bom andamento da vida comunitária. Nenhuma mãe tem mais ternura por seus filhos do que ele tinha por nós (...) Éramos muito pobres, no começo; o pão era da cor da terra, mas sempre tivemos o suficiente. Nosso bom superior, como o mais terno dos pais, tinha grande solicitude por todos nós. Lembrarme-ei sempre do desvelo que demonstrou por mim quando fiquei doente, em La Valla. Vinha ver-me todos os dias e trazia sempre algo de bom, para aliviar o meu sofrimento (...). Era de caráter alegre e jovial, mas era firme. Nas conversas, para descontrair, sabia usar expressões jocosas. Com os Irmãos estava sempre à vontade. Fazíamos, às vezes, perguntas embaraçosas e sem sentido, mas ele sempre tinha resposta adequada e justa, de modo que contentava a todos. Rezava por todos nós. Padeceu conosco devido à disparidade de caráter dos Irmãos e por causa de certos tipos esquisitos, muito difíceis de serem conduzidos. Quando certos candidatos permaneciam incorrigíveis, apesar dos avisos e correções, e uma vez esgotados os meios, não duvidava de mandá-los embora.30

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Texto de Ir. Lourenço. In Origines maristes: (17861836) extraits concernant les Freres Maristes, doc. 756.

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Para o cultivo de um verdadeiro espírito de família é preciso sensibilidade comunitária. Champagnat ensinava a torná-la concreta por meio das pequenas virtudes. O Irmão Lourenço, certa vez, foi ao quarto do Padre Champagnat e lhe disse com a sua costumeira simplicidade: – Meu Pai, tenho uma coisa que muito me penaliza. – Ora, seja bem-vindo, Irmão Lourenço! Posso saber a causa de sua aflição? – Veja, meu pai. Somos seis Irmãos na escola em que fui colocado neste ano. Todos são bons coirmãos e posso afirmar que observamos a Regra em todos os seus pontos. Meus coirmãos são virtuosos e trabalham com zelo. Todos queremos fazer o bem. Apesar disso, vejo que falta união e bem-querer entre nós. Também sinto que esta mesma falta de fraternidade existe entre os Irmãos de uma comunidade vizinha, embora os três Irmãos de lá sejam ainda mais virtuosos do que nós. É isto que me preocupa. Muitas vezes, me pergunto: Qual será a causa dessas nossas dificuldades comunitárias? – Estou escutando-o, Irmão Lourenço. Você tem algo mais a me confiar? – Meu pai, por que não é total a união entre Irmãos que observam a Regra e que trabalham seriamente no seu progresso espiritual? Por que a harmonia dos sentimentos deixa tanto a desejar nos nossos Irmãos vizinhos que, no entanto, são homens solidamente virtuosos? Quais as causas dessas misérias domésticas? Qual o seu remédio? – Meu caro Irmão, você tem razão de dizer que seus coirmãos e aqueles da comunidade

vizinha são virtuosos. Confesso-lhe que eles o são realmente e que eu os tenho por bons religiosos. Como explicar então que a união entre todos esses bons Irmãos não seja total? Eu poderia contentar-me com dizer-lhe que há pequenas misérias em toda parte, que as pessoas mais virtuosas têm defeitos e que todos somos suscetíveis de faltas, pois até mesmo o justo, como o diz a Escritura, peca sete vezes por dia. Entretanto, meu caro Irmão, prefiro entrar no mais profundo da questão e tratá-la por inteiro, manifestando-lhe todo meu ponto de vista. Veja, é bem possível alguém apresentar-se solidamente virtuoso embora tendo mau caráter. Ora, o mau caráter de um só Irmão basta para perturbar a união e fazer sofrer todos os membros da comunidade. Alguém pode ser regular, piedoso, zeloso de sua santificação e, numa palavra, pode amar a Deus e ao próximo sem ter a perfeição da caridade. Para mim, a perfeição da caridade vem a ser a prática das “pequenas virtudes”, pois elas são o fruto, o ornamento e a coroa da caridade. Sem a prática habitual dessas “pequenas virtudes” não haverá união perfeita em nossas casas e ambientes de trabalho. A negligência na sua prática é a grande causa das desavenças, das divisões e das discórdias.31

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FURET, 1987 – Ensinamentos do Bem-Aventurado Champagnat, pág. 163 a 168.

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Texto das pequenas virtudes adaptado em linguagem mais compreensiva aos dias atuais. O conteĂşdo foi preservado. Fonte: Jean-Baptiste Furet - Ensinamentos do Bem-aventurado Champagnat


Ao finalizar esta apresentação dos valores maristas elencados no Plano Estratégico da PMBCS, nos remetemos ao XXI Capitulo Geral dos Irmãos Maristas, rememorando o Ir. Emili Turú que, em seu discurso de encerramento, apresenta a história que Eli Wiesel traz num de seus livros. Autor que foi um sobrevivente dos campos de extermínio nazistas e prêmio Nobel da Paz: “Certo rei escutou que, em seu reino, havia um sábio, um homem que falava todas as línguas do mundo; compreendia o canto dos pássaros; sabia interpretar o aspecto das nuvens e compreender seu sentido. Também sabia ler o pensamento das outras pessoas. O rei ordenou que o trouxessem ao seu palácio. O sábio se apresentou, perante o rei. Disse então o rei ao sábio: “É verdade que conheces todas as línguas? – Sim, Majestade. – É certo que sabes escutar os pássaros e compreendes seu canto? – Sim, Majestade. – E é verdade que compreendes o linguajar das nuvens? – Sim, Majestade. – É também confirmado que sabes ler o pensamento de outras pessoas? – Sim, Majestade. – Disse, então, o rei: Em minhas mãos tenho um passarinho; dize-me, ele está vivo ou está morto?” O sábio teve medo; dera-se conta que, dissesse o que dissesse, o rei poderia matar o passarinho. Permaneceu um momento em silêncio; depois, fixou o olhar no rei e, finalmente, respondeu: “A resposta, Majestade, está em vossas mãos.” Acreditamos que o futuro está em nossas mãos e que os valores aqui apresentados são elementos comuns a todas as nossas iniciativas. Almejamos que estes valores nos levem a criar visão de futuro compartilhada. Que eles nos conduzam na realização da missão. Que nos ajudem a adentrar em novas terras com entusiasmo e alegria. Que nos possibilitem reduzir ambigüidades, compartilhar responsabilidades, melhorar o clima organizacional, fortalecer nosso posicionamento e identidade institucional e a reconhecer o Grupo Marista como um excelente lugar para trabalhar.

Vamos juntos para uma nova terra! O futuro está em nossas mãos!

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Nossos valores, um estilo marista próprio