Editorial Caros leitores, Como tudo aquilo que fazemos nesta viagem que percorremos lado a lado, esta edição encerra mais um ciclo, mais uma etapa da revista aNEMia. Orgulhamo-nos de fazer parte do seu crescimento e de a fazer chegar a mais uma mente curiosa, um olho cativado, um ouvido curioso. A 57ª edição da aNEMia é, parece-nos, a mais heterogénea. Trazemos-vos um caleidoscópio de pensamentos, temas distintos e muitos sentimentos. No mundo caótico em que vivemos neste momento, escolhemos um conjunto de temas que por vezes assustam, chocam e intimidam. A desinformação é o pior inimigo da mente que fala e esperamos contribuir para que possam viver de olhos abertos para as questões mais importantes do dia a dia ou, pelo menos, do nosso enquanto estudantes. Conheçam os órgãos que nos representam, as dores que nos são comuns e as novidades que nos ameaçam. Tudo isto sem esquecer a contribuição especial da revista mRNA, do curso de Bioquímica, a quem nos aliámos para tornar ambos os projetos ainda mais aliciantes! Lembrem-se sempre que é fora do nosso conforto que as coisas extraordinárias acontecem! As portas da nossa casa estão abertas para vos receber. Obrigada por nos lerem, por nos procurarem e por nos ajudarem a dar um salto neste projeto. O progresso, mesmo que seja pequeno, é sempre um passo para a frente no caminho até aos nossos sonhos. Aproveitamos para vos convidar a visitar o site da revista, onde podem encontrar as várias edições da revista e conteúdo exclusivo. Visitem-nos em revistanemia.blogspot.pt! A Coordenadora da aNEMia, Sara Cardoso, 4º ano O Editor Assistente, Filipe Barbosa, 4º ano
Ficha Técnica
57ª Edição – Março de 2020
Acede ao nosso site!
Departamento da Anemia
Propriedade do Núcleo de Estudantes de Medicina da AAC Pólo das Ciências da Saúde da Universidade de Coimbra Subunidade 1 da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra Azinhaga de Santa Comba, Celas, 3000-548 Coimbra geral@nemaac.net www.nemaac.net anemia@nemaac.net
Direção: Sara Cardoso (Coordenadora) e Filipe Barbosa (Editor Assistente) Redação: Ana Sousa, Andreia Gi, Bruna Carvalho, Joana Neves, Josefa Guerra, Inês Teixeira, Madalina Birsanu, Maria Gomes, Pedro Silva, Rita Rodrigues, Sara Meirinhos, Sofia Pereira Design e Grafismo: Inês Nunes e Mariana Pinto Capa: Mariana Pinto Impressão: Singular Print Tiragem: 150 Distribuição Gratuita
ATUALIDADE EDUCAÇÃO MÉDICA
4 NOSSO MUNDO
“Coronavírus: Made in China”
6 NOSSO MUNDO
“Eutanásia: Quando O Meu Doente Deseja Morrer (Ou Não Viver Mais)”
8 MUNDO DE TODOS
Alterações Climáticas: “Os Alarmantes Fogos No Continente-Ilha”
10 FORMAÇÃO CLÍNICA Intercâmbios
12 ÉTICA MÉDICA
“Abandono Hospitalar, será?”
14 ANEM
Sara Meirinhos
16 ANEM
CIENTÍFICO
Maria do Mar Mateus da Costa
18 CASO CLÍNICO
“Doctor, Crack My Case!”
20 ARTIGO Ética - mRNA
CULTURAL
22 ESCRITA LIVRE 24 CRÓNICA
“Coça-me as costas”
26 UC
COQF
28 CARTAZ CULTURAL
CORONAVÍRUS: E
m dezembro de 2019 começaram a ser relatados casos de pneumonia inexplicada provenientes de Wuhan, província de Hubei na China. Chegou-se posteriormente à conclusão de que estas pneumonias eram causadas por um Coronavírus, temporariamente designado por 2019-nCov (2019 novel coronavírus). Ao contrário do que este nome possa sugerir, não se trata na verdade de um vírus completamente novo, pois outros elementos da família Coronaviridae já eram conhecidos muito antes deste surto mais recente.
No final de janeiro deste ano, a World Health Organization (WHO) declarou a epidemia como uma Emergência de Saúde Pública de âmbito Internacional e, em fevereiro, o vírus obteve a sua denominação oficial (SARS-CoV-2).
Tipicamente, as infeções por estes vírus ficam circunscritas ao trato respiratório superior, uma vez que o crescimento viral se dá preferencialmente entre os 33 e os 35º C. Assim sendo, não é de estranhar que os Coronavírus sejam a segunda causa mais prevalente das infeções das vias aéreas superiores, com surtos tipicamente durante o inverno e a primavera. Contudo, a infeção por certas estirpes pode também causar patologias mais graves, como SARS (Severe Acute Respiratory Syndrome) e MERS (Middle East Respiratory Syndrome).
A propagação do vírus gerou um ambiente de pânico um pouco por todo o mundo, trazendo com ele uma grande quantidade de desinformação. O alarmismo à volta do Coronavírus propiciou toda uma panóplia de consequências. Deu-se um grande aumento do abandono de animais de companhia, pelo medo de que estes pudessem transmitir a doença. Apesar de certas estirpes poderem infetar cães e gatos, nada nos dados existentes sugere que o SARS-CoV-2 seja uma delas. Independentemente dessa possibilidade, é recomendada a lavagem das mãos com água e sabão ou a sua desinfeção com uma solução alcoólica após contacto com animais. Isto porque a correta higiene das mãos é não só um método de proteção contra o COVID-19 como também permite eliminar outros microrganismos nocivos, esses sim, passíveis de ser transmitidos pelos animais de companhia.
O modo de ação do vírus passa por infetar as células do epitélio alveolar, ligando-se à Enzima Conversora da Angiotensina 2 (ECA2) e causando o aumento da sua expressão. Isto por sua vez causa dano nas células epiteliais, despoletando uma reação sistémica. Os indivíduos do sexo masculino de proveniência asiática são os mais suscetíveis à doença, sendo os níveis de ECA mais elevados em homens do que em mulheres, e mais elevados em Asiáticos do que em Caucasianos e Afroamericanos. As manifestações da doença incluem na maioria dos casos febre, tosse seca, dispneia, fadiga e dores musculares.
A 23 de fevereiro de 2020 haviam sido registados na China 77041 casos de infeção pelo vírus, ultrapassando em números a epidemia de SARS de 2002. Os casos de COVID-19 começaram também a surgir noutros países, como a Coreia do Sul e a Itália, o país europeu com maior número de casos.
Outro dos mitos difundidos foi o da possibilidade de infeção ao adquirir ou consumir produtos proveniente da China. É certo que a possibilidade de infeção por contacto com superfícies contaminadas existe, no entanto de acordo com a WHO a sobrevivência dos Coronavírus, entre a sua expedição e chegada, em objetos
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NOSSO MUNDO
como cartas e encomendas é muito reduzida, se não mesmo impossível. Assim, não há perigo no consumo de produtos importados da China e outros países afetados pela epidemia.
base a descoberta por parte de cientistas chineses do primeiro genoma completo do novo Coronavirus, obtido atráves da técnica de PCR (Polymerase Chain Reaction).
Além disso, como frequentemente acontece no aparecimento de novas epidemias, foram começando a circular teorias sobre a suposta origem da nova estirpe em laboratório, o seu uso como arma biológica, e a existência de vacinas vedadas à população geral. Paralelamente, a ansiedade gerada sobre o novo Coronavírus proporcionou também novas oportunidades de negócio. Entre elas está a venda de alegadas curas e métodos preventivos como colóide de prata, infusões vitamínicas, e óleo de orégão que não se encontram corroboradas por qualquer estudo que apoie a sua eficácia ou segurança.
Para acompanhar a informação atualizada pelas autoridades sobre a infeção, podem consultar a informação nos sites do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças ou na WHO. Já sabes! Caso tenhas contacto com alguém que tenha sido diagnosticado com a infeção, contacta a linha de Saúde 24 (808 24 24 24).
Quanto ao tratamento, têm sido divulgadas muitas informações... Algumas mais plausíveis, outras nem tanto. O uso de antirretrovirais utilizados no HIV ou da cloroquina, um dos fármacos mais antigos indicado na profilaxia e tratamento da malária, bem como o recurso à medicina tradicional chinesa, são algumas das estratégias de tratamento. No entanto, até ao momento, o tratamento recomendado pelas autoridades de saúde é apenas sintomático, sendo que nenhum antiviral está indicado especificamente para o Coronavírus. No entanto, segundo a WHO, existem já mais de 30 vacinas candidatas para o novo Coronavírus a serem desenvolvidas por empresas e institutos de investigação em todo o mundo. Estas propostas para a profilaxia do Covid-19 têm como
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Madalina Birsanu, 3º ano Pedro Silva, IAC Site da Direção Geral da Saúde: https://covid19.min-saude.pt/
EUTANÁSIA:
QUANDO O MEU DOENTE DESEJA MORRER (OU NÃO VIVER MAIS)
A
complexidade do meu não querer viver mais faz-me deparar com a dicotomia vida-morte, com a qual não sei coexistir, sendo que a minha experiência pessoal sempre será sobre a vida, nunca sobre a morte, porque enquanto aqui estamos apenas experimentamos a morte dos outros, seja essa qual for. A nossa morte nunca será só nossa, mesmo que essa seja a nossa última escolha. A eutanásia é um dos maiores desafios que nós, médicos, enfrentaremos ao longo do nosso trabalho, dos nossos longos turnos de horas acumuladas, nas reflexões pessoais inconclusivas, nas decisões difíceis de tomar, nas dúvidas sem resposta encontrada, nas pesquisas que buscam a solução ideal que não resulta. Se não pararmos hoje para pensar, poderemos vir a cair no erro de acreditar que teremos de deixar os nossos doentes morrer ou, pior ainda, matá-los. Não é de modo superficial, descontraído e despreocupado que devemos abordar a questão. É essencial mergulhar profundamente no conceito e explorá-lo do modo mais completo possível, pois o conceito atravessou a fronteira e instalou-se em Portugal. Porque em 2020 tornou-se um conceito que poderá vir a ser nosso e,
a favor ou contra, sejam quais forem as nossas convicções, opiniões, crenças religiosas, valores e princípios, teremos de saber que, inevitavelmente, alguém nos abordará agarrado a ele. Eutanásia tem origem no grego eu que significa “boa” e tanathos que significa “morte”, resultando, literalmente, numa “boa morte”. Será que é legítimo impor uma certa forma de morrer? Será que é legítimo escolher o lugar e o tempo para morrer? Será que existe a “boa morte”? Não! Não é concebível que se invoque uma “boa morte”, porque o sentido da vida é o primeiro e único que o ser humano deve procurar. Um argumento muito utilizado na sociedade procura arrumar tudo no mesmo saco, defendendo que o direito à vida integra o direito à morte, quando, na verdade, não existe o direito à morte – esse não consta em qualquer legislação, em qualquer código deontológico, em qualquer registo escrito, discutido e aprovado, simplesmente não passa de uma expressão oca invocada para o ar, perdendo-se nas ideias alheias de quem não sabe o que inventar. Porquê discutir a eutanásia em 2020, quando 80% dos doentes portugueses que necessitam de Cuidados Paliativos não têm acesso a eles? Porquê discutir a eutanásia em 2020, quando somente 0,3% dos portugueses preencheram o testamento vital? Porquê agora? Não podemos restringir-nos a uma questão política ou social, mas temos de começar por focar a nossa atenção na reflexão fundamental que esta problemática exige de nós. Esta é a realidade atual e, se é nela que estamos inseridos, é sobre ela que escrevo, procurando a informação e a atualização mais objetiva possível. No dia 20 de fevereiro do corrente ano, a eutanásia foi aprovada no Parlamento: os cinco projetos-lei (dos partidos BE, PAN, PS, PEV e IL), que defendem a despenalização da morte medicamente assistida, foram aprovados na generalidade. Os deputados poderão em breve ser confrontados com a proposta de referendo. Avançado o primeiro passo, segue-se um longo caminho que nos cabe também a nós percorrer e acompanhar na linha da frente. Agora que há luz verde para dar continuidade ao processo legislativo, a Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias está encarregue do debate na especialidade e os partidos vão negociar para chegarem a um “texto comum”, que será votado em comissão e será aprovado em votação final global, tendo o Presidente da República uma palavra final, na qual pode promulgar, vetar ou enviar a lei para o Tribunal Constitucional. Surgida pela primeira vez no século XVIII, a eutanásia tem vindo a ser legalizada, ao longo do tempo, em diversos locais no mundo, sendo permitida, a nível europeu, na Holanda, Bélgica, Suíça e Luxemburgo, discutida em Espanha e procurada por doentes de todos os restantes países. Quando se está a legalizar a eutanásia em Portugal, não se está a afirmar que é a “boa morte” para os nossos doentes - está-se a acrescentar mais uma opção a um grupo restrito de doentes que cumprem condições muito específicas de doença intratável ou incurável, lesão
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NOSSO MUNDO Artigo de Opinião definitiva, sofrimento atroz acrescido de zero esperança na reversibilidade do seu estado, consciência completamente preservada, total compreensão da sua situação, entre todos os critérios que o próprio procedimento exige, passando por uma sequência de fases com muitos parâmetros em comum nas diversas propostas politicamente apresentadas. O que está em causa é, acima de tudo, a autonomia do doente, a sua autodeterminação, a vontade livre, repetida e esclarecida e a luta pela dignidade da pessoa. Isto exige, da nossa parte, o máximo respeito e compaixão pelo ser humano que temos à nossa frente, um conhecimento profundo da lei que vigora, uma atitude coerente com o código deontológico e a sensibilidade de que não estamos perante o direito a morrer, mas sim o direito a não sofrer mais.
requerer eutanásia pessoas maiores de 18 anos, sem patologia mental, em situação de sofrimento “duradouro e insuportável” e com lesão definitiva ou doença incurável e fatal, sendo necessária a confirmação repetida, em momentos diferentes, dessa certeza e dessa vontade, mediante pareceres positivos de vários médicos. Este pedido só pode ser feito pelo próprio, através de um médico, com posterior avaliação de comissões técnicas que incluem, com algumas nuances entre partidos, médicos, enfermeiros, especialistas em bioética e juristas. Contudo, há um lapso na maioria dos projetos que pretendo enfatizar: a não obrigatoriedade, no decorrer do procedimento, de uma avaliação psiquiátrica. É lógico que não existe uma linha que delimita onde termina a capacidade do doente e onde começa a incapacidade do mesmo, mas é de extrema importância que seja tido em conta o estado mental e a preservação de todas as capacidades cognitivas, para que não haja ambiguidades naquela que é uma decisão final irreversível e que antecipa a chegada a uma situação extrema de sofrimento. Este sofrimento prende-se com uma ideia de futuro que é muito mais do que dor, um sofrimento que não sabemos definir nem eliminar e que provoca no doente um medo terrível de atingir o limite - o pico maior de vulnerabilidade, debilidade e dependência.
É na voz do juramento de Hipócrates que cada um assume guardar “respeito absoluto pela Vida Humana desde o seu início”. Daí nasce o princípio da relação médico-doente, assente na confiança e na empatia, construída com base na história, criada com um único fim, o bem-estar do doente, porque o médico procurará, independentemente das circunstâncias, o equilíbrio do doente, o melhor conforto, a menor dor, o maior esclarecimento, a abordagem mais profissional, competente e humana que for possível. Antes da doença está o doente e a relação com ele evoca, desde cedo, uma matriz Para concluir, atrevo-me ainda a evocar a Constituição onto-antropológica. da República Portuguesa, que nos diz no artigo 24º que A eutanásia consiste no ato de tirar a vida a um doen- “a vida humana é inviolável” e no artigo 41º que “a lite por sua própria solicitação, através de um profissio- berdade de consciência (…) é inviolável”. Então, qual é a nal de saúde, de modo a acabar com o seu sofrimento. inviolabilidade que prevalece? A interpretação da legaOs cinco projetos defendem a despenalização de quem lização não pode agarrar-se apenas ao que temos, mas pratica a morte assistida nas condições definidas na lei e ao que somos. Hoje somos médicos, amanhã podemos a garantia da objeção de consciência para os médicos e ser doentes, mas sempre seremos seres humanos que, enfermeiros, objeção tal que se prevê ser de grande es- antes de tudo, vivemos e coexistimos com outros seres cala (>95%). Todos os diplomas registam que só podem humanos. Maria Inês Teixeira, 3º ano
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OS ALARMANTES FOGOS NO CONTINENTE-ILHA
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m meados de dezembro a subida da temperatura dita o início do verão no continente australiano. No entanto, o verão de 2019/2020 foi marcado por uma temporada de incêndios devastadores sem igual. Em termos comparativos, a área florestal da Austrália corresponde a apenas 16% do território enquanto a do Brasil ocupa 57,8% do país, mas a área ardida na primeira foi de cerca de 11 milhões de hectares em oposição aos 900 mil hectares ardidos nos incêndios florestais de 2019 na Amazónia.
Estes são dados assustadores. Infelizmente, não se ficam por aqui. Pelo menos 33 pessoas morreram, milhares ficaram desalojadas e as perdas a nível da fauna e flora estão ainda por determinar sendo que, segundo a Universidade de Sydney, se estimam mil milhões de animais afetados pelas chamas. Só no mês de dezembro foram registados mais de 420.000 fogos. E, portanto, no dia 31 de janeiro, foi declarado estado de emergência na capital, Camberra, para que as famílias se preparassem para o pior. Os estados mais afetados pelos fogos foram Victoria e Nova Gales do Sul, particularmente as zonas montanhosas destes, uma vez que os ventos fortes e, de forma geral, o acesso mais difícil para os bombeiros influenciam em muito o controlo do incêndio. Também a Ilha Kangaroo, a terceira maior ilha da Austrália, com uma quantidade inacreditável de espécies foi extremamente afetada. Mais de um terço da ilha foi destruída, 2 pessoas
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faleceram, 2.500 coalas morreram e grande parte do serviço elétrico da ilha ficou danificado. A Austrália já enfrentou fogos anteriormente, mas foi a combinação de vários fatores que fez desta a pior temporada de incêndios de que há registo.
Na Nova Gales do Sul, foram detidas 24 pessoas por provocarem deliberadamente incêndios. Contudo, os cientistas afirmam que 2019 foi o ano mais quente e seco desde 1910 com dois recordes de temperatura mais alta batidos em dezembro (40.9°C e no dia imediatamente a seguir 41.9°C) o que potencia imenso o risco de incêndio. Estas altas temperaturas são consequência de um fenómeno designado por Dipolo do oceano Índico (‘Indian Ocean Dipole’) em que a temperatura à superfície do mar é mais quente na metade oeste do oceano e mais fria na metade este, gerando excessivas chuvas e inundações no Este de África e secas no Sudoeste da Ásia e na Austrália. E esta diferença está a acentuar-se cada vez mais. Assim a vegetação seca, as trovoadas, os ventos fortes, especialmente os ‘downbursts’, que são ventos de grande intensidade em linha reta em direção ao solo e que a partir de determinado ponto sopram de forma radial, bem como os fogos postos, levam a incêndios descontrolados, que, por sua vez, aumentam a probabilidade de haver mais relâmpagos e, com isso, mais incêndios. De acordo com os satélites do programa europeu Copérnico, até ao dia 6 de janeiro tinham sido emitidos 370 milhões de tonela-
MUNDO DE TODOS das de dióxido de carbono o que levou a um acréscimo de 10% de assistência a pessoas nos hospitais e outras centenas de pessoas assistidas por paramédicos devido a problemas respiratórios. Foi inclusivamente noticiada a suspensão dos treinos do Open da Austrália de ténis, devido à má qualidade do ar. Seria de esperar que após estes meses aterrorizantes para o continente-ilha se seguissem meses mais tranquilos, porém as chamas deram lugar a chuvas torrenciais. A esta sucessão de fenómenos opostos no espetro ambiental chama-se “extremos em cascata”. A chuva ajudou a conter alguns fogos, mas noutras zonas mostrou-se insuficiente ou, por outro lado, excessiva com necessidade de cortar várias estradas. Esta precipitação continha cinzas e outras partículas e foi, por isso, necessária a filtragem das águas para evitar a contaminação das bacias hidrográficas que servem a região. Os cientistas alertam que todos estes fenómenos se irão tornar cada vez mais frequentes e mais intensos, globalmente. Encontramo-nos perante uma crise ambiental, cuja fonte causadora é essencialmente o ser humano: a indústria em massa, o consumismo e o desperdício reinam nos tempos que correm. A temporada de incêndios na Austrália de 2019/2020 foi apenas uma amostra do que ainda está por vir se nada for feito pelo Planeta. Logo, temos muitos motivos para nos preocuparmos. “As soluções para a crise ambiental estão ao nosso alcance, mas por forma a integrarmo-las, temos de agir agora em todos os níveis da sociedade” – Al Gore.
Referências: Silva, C. Uma cicatriz a céu aberto: como os incêndios devastaram a Austrália. 21 janeiro 2020. Acedido em: https://www.publico.pt/2020/01/21/ infografia/cicatriz-ceu-aberto-incendios-devastaram-australia-408 Lusa. Austrália declara estado de emergência devido a incêndio em Camberra. 31 janeiro 2020. Acedido em: https://www.tsf.pt/mundo/australia-declara-estado-de-emergencia-devido-a-incendio-em-camberra-11769524.html RTP. Incêndios na Austrália. Qual a causa dos fogos?. 10 janeiro 2020. Acedido em: https://www. rtp.pt/noticias/mundo/incendios-na-australia-qual-a-causa-dos-fogos_n1197037 BBC. Australia fires: A visual guide to the bushfire crisis. 31 janeiro 2020. Acedido em: https://www. bbc.com/news/world-australia-50951043 Vick, M. Por que os incêndios na Austrália deram lugar a inundações. 28 fevereiro 2020. Acedido em: https://www.nexojornal.com.br/ expresso/2020/02/28/Por-que-os-inc%C3%AAndios-na-Austr%C3%A1lia-deram-lugar-a-inunda%C3%A7%C3%B5es Lusa. Chuvas fortes no leste da Austrália ajudam a combater incêndios. 07 fevereiro 2020. Acedido em: https://expresso.pt/lusa/2020-02-07-Chuvas-fortes-no-leste-da-Australia-ajudam-a-combater-incendios The Climate Reality Project. 23 novembro 2015. Acedido em: https://www.climaterealityproject. org/blog/ten-times-al-gore-inspired-us-act-climate
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Maria Nunes Gomes, 3ºano
INTERCÂMBIOS Erasmus em Wroclaw Um guia para quem vai, um teaser para quem nunca foi O PORQUÊ: Depois de três anos na FMUC, precisava de abrir novos horizontes e saltar fora da minha zona de conforto. O objetivo era desafiar as incertezas: Seria capaz de realizar as cadeiras, com sucesso, numa universidade diferente? Seria capaz de me adaptar a tantos fim-de-semanas fora de casa, sem estar com a minha família? O INÍCIO: Depois de reunidos feedbacks acerca das unidades curriculares que era possível fazer, línguas que era necessário falar, condições de alojamento, alimentação, custo de vida, possibilidades de viajar,... refleti sobre os pontos que eram mais importantes para mim e fui excluindo hipóteses até chegar às três finais: Varsóvia, Wroclaw e Brno. Efetuei a pré-candidatura e fui colocada na segunda opção, Wroclaw. ACOLHIMENTO NA FACULTY OF MEDICINE – UNIVERSITY OF WROCLAW: A faculdade de Medicina de Wroclaw conseguiu surpreender-me pela forma como nos acolheu. Para além da disponibilidade em esclarecer as nossas dúvidas, foram muito atenciosos em organizar atividades para nós. Aquando da nossa chegada, prepararam um Introduction Day, com uma sessão de boas-vindas, almoço no restaurante Cesarsko-Królewska, visita aos pontos turísticos da cidade e passeio de barco no Rio Odra. A meio do semestre, num fim-de-semana, programaram uma viagem a Cracóvia, com alojamento, transportes e guias turísticos pagos. Para finalizar, em dezembro, organizaram um jantar de Natal, onde nos ofereceram um presente simbólico. Nas aulas, também fomos sempre bem recebidos e houve o cuidado por parte de alguns médicos de traduzirem as queixas do doente (de polaco para inglês) e as nossas perguntas (de inglês para polaco), de modo a conseguirmos realizar uma história clínica. Reconheço que o nível de exigência teórico é menor, mas não sinto que isso tenha influenciado negativamente a minha aprendizagem.
LÍNGUA: Falar polaco é complicado e se na faculdade e no hospital, isto não representa um problema porque as aulas são em inglês; na rua, não é bem assim. No supermercado e na residência, por exemplo, fomos muitas vezes salvos pelos gestos e pelo Google tradutor. Ser criativo ajuda! ALOJAMENTO E ALIMENTAÇÃO: Ficamos no Bliźniak, a residência da faculdade. Embora o preço fosse acessível (cerca de 90€ por mês), as condições não eram as melhores (por exemplo, quando chegámos, o quarto estava sujo; não existia micro-ondas; não tínhamos utensílios de cozinha e tínhamos de fazer as refeições no quarto, porque não havia mesas na cozinha).
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EDUCAÇÃO MÉDICA
Partilhar o quarto com mais duas colegas também foi algo a que não estava habituada, mas conseguimos criar amizades entre nós e esse ponto acabou por se tornar positivo, pelo que não me arrependo de ter ficado na residência e se fosse hoje, voltaria a fazê-lo. Todos os alunos de mobilidade estavam lá, e isso permitiu-me entrar no espírito de Erasmus e desfrutar mais desta experiência. Dadas as condições da residência, optei por cozinhar menos e almoçar mais vezes fora. Na cantina da biblioteca (Kardamon) e nos restaurantes Smak na Tak e Kuchnia Marche, havia diversos buffets self-service e o preço dependia do peso, mas era bastante acessível. Vale a pena experimentar os pratos típicos, como os pierogis e os polskie naleśniki, e as deliciosas nasza paczkarnia. Tomar o pequeno-almoço na Charlotte é também algo a fazer pelo menos, uma vez. E o chocolate quente da Czekoladziarnia aquece os dias mais frios. A CIDADE: Wroclaw é uma cidade encantadora, principalmente no inverno, com a neve e o seu luminoso mercado de natal. Mesmo fora desta época, é impossível ficar indiferente à colorida Rynek e às pequenas estátuas de gnomos espalhadas pela cidade. A nível de atividades de lazer, há muito por onde escolher: desde o espetáculo de luzes e música na fonte de Hala Stulecia ao jardim japonês, passando pelo museu da Universidade e os vários cafés (Vinyl Café, Parrot Café, Black Point Café) e centros comerciais disponíveis. A diversão noturna está também garantida pelos diversos bares existentes. TRANSPORTES: Os transportes públicos são baratos (cerca de 35€ por um passe válido por 3 meses) e bastante eficientes, levando-nos a qualquer ponto da cidade sem demorar muito tempo. Se o propósito do teu Erasmus for viajar para fora da cidade, podes contar com um aeroporto e Flixbus, que permite deslocações a custos acessíveis pelos países à volta, como Alemanha, República Checa, Áustria, Hungria e Suécia. O FIM: Passar o semestre na Faculty of Medicine – University of Wroclaw foi uma experiência muito enriquecedora, tanto a nível pessoal como académico, superando todas as expetativas. Se estão na dúvida em ir ou não, o meu conselho é arrisquem. Há oportunidades únicas no nosso percurso universitário e esta é uma delas!
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Andreia Gi, 5º ano
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Abandono Hospitalar, será?
ortugal é um dos países da união europeia com maior longevidade, tendo alcançado valores que se situam à volta dos 84 anos para as mulheres e dos 78 anos para os homens. Este aumento da esperança média de vida, que na década de 1970 não ia muito além dos 67 anos, foi uma grande vitória de um país que tanto evoluiu em apenas meio século, de braço dado com o resto do mundo. As previsões são ainda mais prósperas: 2040 coloca Portugal no Top 5 dos países com maior esperança média de vida do Mundo. Um dos principais fatores que leva o nosso país a cruzar estas metas é a evolução constante e incessante da medicina, que nunca se aplaca perante novos desafios. E é a esta mesma medicina que se apresenta agora como um novo desafio que acompanha a longevidade: o envelhecimento. Mais importante que levar uma pessoa a viver mais tempo, é levá-la a viver mais, com mais qualidade. Isto porque, à medida que a idade avança, as co-morbilidades avançam também, levando-nos a um problema que assola cada vez mais a nossa sociedade, o idoso vulnerável. Estes idosos levam uma vida com várias dificuldades: ou vivem sozinhos, ou estão isolados, ou estão doentes, ou têm um baixo nível socioeconómico e por vezes, tudo isto concomitantemente.
Esta vulnerabilidade atinge as máximas proporções quando estas pessoas chegam ao hospital. Uma queda, uma pneumonia, uma insuficiência cardíaca descompensada, os motivos são inúmeros, mas todos levam ao mesmo desfecho, o internamento hospitalar. É ao longo dessas semanas que decisões têm de ser tomadas na vida dos idosos de forma a adaptá-la às suas novas limitações. Não é um processo simples, alterar radicalmente a vida de um idoso, que há duas semanas atrás era autónomo e que, após a fratura do colo do fémur, se encontra dependente de terceiros para as suas atividades mais básicas. Qual é a solução para estes idosos? A família? O lar? E se não houver família, ou dinheiro para pagar a um lar? É aqui que entra o tema que vamos ouvindo falar de tempos em tempos, nas manchetes gordas dos jornais: o abandono hospitalar. A palavra “abandono” tem um efeito em quem a lê similar a “holocausto”, por exemplo. São palavras fortes, tristes, que encerram em si uma história de dor e angústia. Talvez seja por isso que a ouvimos sair tantas vezes, de uma forma quase orgulhosa, das bocas de quem deste assunto fala, a ideia é chocar, ou pelo menos, chamar a atenção. A mim, sempre me chocou. “Como é possível alguém deixar a própria mãe num hospital, a precisar de ajuda?” “Como é possível estes idosos serem esquecidos numa cama de hospital?” No entanto, por detrás destas histórias, resumidas e cortadas em locais estratégicos, há muito mais, estas são mais longas e complexas do que o que é dado a entender ao público geral. São-nos apresentados idosos vulneráveis e dependentes cujas famílias se recusam a levar para casa. Mas quem são estes idosos e, mais importante, quem são estas famílias? A Dra. Rosa da Primavera, assistente social no Hospital Universitário de Coimbra responde a estas questões. Estamos a falar de idosos acamados, que agora necessitam de apoio especializado, que muitas vezes não pode ser fornecido pelas famílias. Isto porque os filhos vivem em casas que não tem condições para os acomodar, ou porque são as esposas ou os maridos, que não que podem sequer tomar conta deles próprios
sozinhos, quanto mais de uma pessoa doente e com necessidades especiais. A verdade é que muitas vezes temos idosos a tratar de idosos. Ainda assim, os números não são, felizmente, tão alarmantes quanto isso: em três anos a Dra. Rosa teve que recorrer ao manual de articulação da saúde e segurança social para regulamentos de alta (documento que rege o processo no caso de um idoso não ter nenhuma retaguarda familiar) apenas duas vezes e num dos casos tratava-se de uma idosa sem qualquer familiar vivo. A verdade é que as famílias se importam e muito, e essa preocupação é o motivo principal para não quererem levar os seus idosos para casa, afinal levarem-nos não significa melhores cuidados para os que amam, antes pelo contrário. Mas se o problema não é das famílias é de quem? A resposta óbvia é do Estado, ou do Sistema Nacional de Saúde, mais especificamente. “Mas também não é”, afirma a Dra. Rosa, convictamente. Porque para estes casos foi criada (e muito bem) a Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI). Esta rede, em que a saúde e a segurança social dão as mãos tem vários pontos de ação, de acordo com as necessidades dos doentes. As unidades de convalescença (UC), com internamentos até trinta dias, são o destino dos doentes que já não necessitando de cuidados hospitalares, precisam ainda de cuidados especializados. Para situações de pessoas que, tendo perdido funcionalidade, não conseguem ir para o domicílio, mas que têm potencial para regressar a sua vida normal, temos as Unidades de Média Duração e Reabilitação (UMDR), onde ficam internados até noventa dias. As Unidades de Longa Duração e Manutenção (ULDM) são vocacionadas para casos onde a cronicidade das doenças destas pessoas prevê cuidados que não têm um limite de tempo. Existem também as Equipas de Cuidados Continuados Integrados Domiciliários (ECCI), em que os cuidados são prestados por equipas de enfermagem, mas é possível a permanência do doente no domicílio. Temos ainda serviços como o Descanso do cuidador, que, como o próprio nome indica, permite ao cuidador informal ter tempo fora dos cuidados continuados que prestam ao familiar, serviço que podem usar até noventa dias por ano. Importante referir que as UC e as ECCI são gratuitas, já as UMDR e as ULDM são cobradas de acordo com a
situação económica do idoso. As soluções estão então criadas. O que corre mal, assim sendo? Apenas e só o tempo de resposta. As vagas escasseiam, num país com um índice de envelhecimento cada vez maior e enquanto se trata das burocracias, os doentes ficam no hospital. Para isto também há soluções. Existem hospitais que possuem camas de retaguarda, onde os doentes aguardam transferência para as unidades sem se exporem aos riscos inerentes ao internamento hospitalar. O Sistema Nacional de Saúde tem noção dos problemas e está a tentar colmatá-los; aliás, um dos objetivos para 2020 é criar mais oitocentas camas nestas unidades. Os progressos estão a ser feitos, mas como para tudo é preciso tempo para chegarmos ao objetivo. Quando sugeri fazer uma exposição acerca deste tema tinha um ideia pré-concebida do assunto que, acredito, especialmente graças à comunicação social, a grande maioria da população tem. Ao finalizar esta pesquisa devo mostrar a minha satisfação por constatar que, afinal, a situação que o país vive não é de todo, o quadro negro que tantos pintam. O Estado está a fazer a sua parte, aos poucos. Cabe-nos também a nós, enquanto profissionais e cidadãos, contribuir para o cuidado e conforto dos nossos avós e retribuir-lhes, agora que eles precisam, tudo aquilo que eles já tanto fizeram por nós.
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Bruna Carvalho, 3º ano
Sara Meirinhos, aluna do 5º ano do Mestrado Integrado em Medicina da FMUC, assumiu recentemente o cargo de Diretora de Educação Médica da Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM). A aluna concedeu a presente entrevista à aNEMia, departamento do NEM/AAC para o qual também colabora, e que considera como o “ponto de partida” para o cargo que atualmente assume. Como te sentes ao assumir o cargo na direção do ANEM? Sinto-me muito feliz. Ao longo do meu percurso académico já tinha passado no Núcleo de Estudantes de Medicina dos Açores (NEMA), onde me iniciei no associativismo. Estou muito feliz por dar esta entrevista à aNEMia, pois foi o ponto de partida para hoje ser Diretora da Área de Educação Médica da ANEM. Foi a partir do que escrevi para a aNEMia e da oportunidade que tive de fazer uma exposição oral perante o Presidente da ANEM da altura, bem como o Presidente do Conselho de Escolas Médicas Portuguesas, sobre um dos maiores flagelos que afeta neste momento a formação pós-graduada: a escassez de vagas para o acesso à formação especializada para todos. Penso poder contribuir para a qualidade da formação pré-graduada de forma assertiva e audaz.
vel nacional. No entanto, as Escolas Médicas têm feito esforços no sentido de as combater, até porque neste momento estão a ser reconhecidas as competências nucleares que um estudante de medicina tem de ter para garantirmos uma maior equidade na formação académica pelos estudantes a nível nacional. A atual Posição Global da ANEM, incide sobre a necessidade de uniformização do Trabalho Final de Mestrado, dado que são identificadas desigualdades para a obtenção do grau e estas têm de ser combatidas. Quais são os objetivos que pretendes alcançar na área de Educação Médica? Este ano, a educação médica tem objetivos muito bem definidos: estamos em ano de revisão da Posição Global da ANEM, bem como dos seus Programas Nacionais. Isto significa que é importante a produção de material intelectual, que a Educação Médica gera através de estudos que leva a cabo. Neste momento, temos dois grandes estudos em evolução que pretendem sustentar a Posição que a ANEM defende na formação pré-graduada, na conjuntura atual. Ao mesmo tempo, necessitamos de envolver cada vez mais toda a comunidade estudantil. É necessário que haja consciência da flexibilização das carreiras médicas, e é a Educação Médica que nos pode pôr a par das alternativas, bem como das temáticas de inovação pedagógica, das quais é sempre importante que os estudantes estejam cientes. Assim, o objetivo final passa pela capacitação dos estudantes para as temáticas que mais os afetem.
Porquê a área de educação médica? Como a vês em Portugal? A área da educação médica é um dos grandes pilares da nossa federação. É, inclusive, aquela que mais material intelectual produz para sustentar todas as posições da ANEM. Portanto, esta área é muito especial e ao longo do meu percurso foi muito sobre estes temas que me debrucei. Vejo cada vez mais um crescente investimento das Escolas Médicas na Educação Médica. (…) Os profissionais que saem das Universidades portuguesas saem bem formados. Nós temos muita qualidade e temos um Serviço Nacional de Saúde, ao qual podem ser Tens tido contactos com outros representantes de apontados diversos flagelos, mas que apesar desses, associações de estudantes de medicina internaciotem sido um bem maior. nais? Estamos sempre em contacto permanente através Existem assimetrias? da IFMSA (International Federation of Medical StuSim, têm sido identificadas algumas assimetrias a nídents Associations) e todos submetemos atividades
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EDUCAÇÃO MÉDICA
para que seja conhecido, a nível mundial, o que se faz em cada país e os progressos na área da educação médica. Achas que o funcionamento da ANEM é suficientemente conhecido pelos alunos de medicina em todo o país? A Federação, tendo um caráter nacional, está sempre longe da comunidade estudantil, uma vez que os seus Dirigentes Associativos são estudantes das várias Escolas Médicas. Contudo, acho que ao mesmo tempo nos permite ter diferentes perceções daquilo que é necessário contribuir para a ANEM, também por meio dos Representantes Locais (Dirigentes Associativos dos Núcleos e Associações de Estudantes) e, assim, acaba por haver a ponte de comunicação entre a Comunidade Estudantil e a Federação, tornando-a mais forte. Que aspetos positivos trouxe para a tua vida o associativismo académico? Passar pela vida académica sem passar pelo associativismo é uma grande lacuna na nossa formação, quer enquanto profissionais futuros, quer enquanto estudantes. O associativismo permite-nos contactar com as várias realidades estudantis em cada Escola Médica; permite-nos até ir além da realidade em que estamos inseridos e estabelecer pontes de contacto, amizades. Não podia ser mais positivo, na medida em que nos permite ter uma palavra ativa e fundamentada a dar em representação de todos os estudantes. E há
sempre mais a fazer. Podemos contribuir através dos nossos stakeholders, que elevam a nossa imagem, nos conferem credibilidade e permitem garantir, no que diz respeito à minha Área, a qualidade da formação pré-graduada. Aliás, acho que deve haver uma consciência geral de que a Federação somos todos nós, pois o Dirigente Associativo é aquele que leva os flagelos de todos os estudantes mais além. É aquele que permite que haja uma resposta por parte de quem tem o poder decisor. Como concilias a vida académica com o cargo na ANEM e outras atividades extracurriculares? Neste momento, sou também membro da comissão de curso [risos]… Tive de deixar algumas atividades que fazia, nomeadamente ser formanda de Informação, na Rádio Universidade de Coimbra. Acho que se consegue conciliar com muito boa vontade na gestão de tempo. A necessidade de compartimentar o tempo e de ser produtiva até me ajuda a estabelecer maiores metas ao longo do dia, da semana e do mês. Às vezes, dizem que correr por gosto não cansa, mas a verdade é que cansa. Tem de se ter espírito de sacrifício. Mas já que é para nos cansarmos, ao menos que estejamos felizes quando nos cansamos. Todas as partes do meu percurso académico acabam por contribuir não só para que eu seja melhor estudante, mas também melhor pessoa. Penso que resulto de todas as atividades pelas quais passo.
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Pedro Silva
“(...) MAIS DO QUE PENSAR EM SOLUÇÕE Maria do Mar Mateus da Costa, 24 anos, oriunda de Setúbal, estudante do 6º ano da Mestrado Integrado em Medicina da Universidade do Minho, foi recentemente empossada para o Mandato 2020, enquanto Presidente da Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM). Ao longo do seu percurso Académico, conjugou sempre o Associativismo. Dentro do Núcleo de Estudantes de Medicina da Universidade do Minho (NEMUM) foi Representante Local de Educação Médica, durante o ano letivo 2016, e Presidente da mesma estrutura em 2017. Iniciou posteriormente o seu percurso dentro da Federação, ocupando o Cargo de Tesoureira da Direção no Mandato 2018. Posteriormente, no Mandato 2019, pertenceu aos Órgãos Sociais da ANEM, enquanto Presidente do Conselho Fiscal. Em 2020 toma Posse enquanto Presidente da Direção da ANEM.
Mar, em primeiro lugar, felicitar-te pela Eleição e desejar-te as maiores felicidades e sucesso no exercício do teu cargo. O teu percurso dentro do Associativismo tem uma longevidade inegável. O que tem motivado este teu trajeto enquanto Dirigente Associativa? Olhando para trás, creio que foi o ir identificando problemas à medida que ia passando pelos vários locais, e, mais do que pensar em soluções, ter vontade de as implementar. Os problemas iam mudando, a complexidade também, e fui ganhando experiências que me permitiam resolver uns desafios e começar a olhar para outros. Quais são as características que identificas como fulcrais para o desempenho das tuas funções? A primeira que posso identificar será, certamente, a resiliência. O inesperado acontece muitas vezes, e isso acaba por nos obrigar a reajustar as estratégias para o objetivo que temos em mente. A criatividade e a flexibilidade são importantes para esse reajuste. Além disso, e creio que será o mais complicado, conseguir o balanço certo entre a capacidade de escutar os outros e a de decidir nos momentos importantes.
Quais são os 3 grandes objetivos que eleges para a Direção da ANEM durante este Mandato? Diria que são uma contínua aproximação dos estudantes de Medicina, que eles reconheçam a ANEM e recorram à ANEM; a contínua melhoria das condições da saúde em Portugal, seja lutando pelo planeamento dos Recursos Humanos, seja promovendo a literacia em saúde; e a garantia da qualidade da formação médica nas Escolas Médicas Portuguesas. Dado o carácter experiente da tua Liderança, o que consideras neste momento fazer para aproximar toda a comunidade estudantil à Federação? Se a fórmula fosse simples, já estaria descoberta. Aquilo que pretendemos é aumentar a nossa presença nas redes sociais que os estudantes usam, através de formatos o mais apelativos possível, como os vídeos. Por outro lado, realizando novamente atividades que já se tornaram uma marca da ANEM, às quais todos os anos aderem centenas de estudantes. Por fim, marcando presença em fóruns de discussão pertinentes, onde estejam presentes parceiros ou outras entidades de relevo na área da Saúde e na área do Ensino Superior, de forma a colocar a ANEM num patamar em que estão os principais decisores, ganhando destaque no panorama nacional.
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EDUCAÇÃO MÉDICA
ES, TER VONTADE DE AS IMPLEMENTAR” Qual é a fulcral mensagem que pretendes deixar a todos os estudantes de Medicina, que legitimamente representas? Que saibam que a ANEM se preocupa com todos os estudantes de Medicina, que está sempre disponível para aquilo que eles precisarem e para ter em conta todas as sugestões que tenham para nós. Despedimo-nos desejando a toda a Direção da ANEM, na pessoa da sua Presidente, a concretização dos objetivos e metas que estabeleceram para o Mandato 2020, que tem sempre como objetivo primeiro a defesa dos interesses dos Estudantes de Medicina, na sua representação nacional e internacional. Sara Meirinhos, 5º ano
Saibam mais sobre a ANEM e o trabalho desenvolvido em prol dos Estudantes de Medicina em: www.anem.pt https://www.facebook.com/ANEM.Portugal/ https://www.instagram.com/anemmedicina/
Caso Clínico Primeiro Caso Clínico: Um homem de 70 anos tem dor torácica desencadeada pelo esforço, mas não apresenta dispneia, tonturas ou síncope. Este doente é submetido a uma angioplastia e a uma angiografia coronária invasiva. Enquanto se encontra hospitalizado, o monitor cardíaco regista uma pausa sinusal de 7 segundos durante o seu período de sono. Qual destas seria a melhor forma de proceder, tendo em conta tudo isto? a) 1 mg de Atropina IV e inserção de um pacemaker temporário, se houver recorrência desta pausa. b) 1mg/min de Isoproterenol IV e inserção de um pacemaker temporário, se houver recorrência desta pausa. c) Inserção de um pacemaker temporário e agendar na manhã do dia seguinte a implantação de um pacemaker permanente. d) Inserção de um pacemaker temporário e agendar na manhã do dia um estudo eletrofisiológico. e) Dar alta ao paciente, tal como já estava planeado.
Segundo Caso Clínico: Uma mulher de 55 anos apresenta uma dor torácica subesternal constante que terá começado 3 dias antes da sua chegada ao consultório médico. A doente afirma que a dor piora durante a inspiração e nega ter tido um contacto direto com pessoas doentes. De resto, sente-se bem. A única medicação que toma é estatina para tratar hipercolesterolemia, rivaroxabano e procainamida por ter uma história clínica de fibrilhação auricular paroxística. No exame objetivo, observa-se uma taquicardia regular de 110bpm, ruídos de fricção subtis e sem alterações dos ruídos pulmonares. Qual será a melhor forma de proceder? a) Hospitalizar a doente e começar a administração de β- bloqueantes para prevenir contra uma provável recorrência de fibrilação atrial. b)Internar a paciente no serviço de urgência para analisar biomarcadores cardíacos, nomeadamente troponinas de alta sensibibilidade, de modo a descartar a possibilidade de enfarte agudo do miocárdio. c)Descontinuar tanto o rivaroxabano como a procainamida. d)Estudar os anticorpos antinucleares (ANA) e os anticorpos anti-DNA de cadeia dupla da doente como rastreio para lúpus eritematoso sistémico. e)Pedir um eletrocardiograma,um raio-X torácico e um ecocardiograma.
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Em parceria com o Departamento Científico do In4Med, apresentamo-vos mais um caso clínico para desafiar as vossas capacidades! Nesta edição, desafiamos os vossos conhecimentos de Cardiologia. Vamos a isto?!
Resoluções: Caso Clínico 1 – Resposta E. A ocorrência de pausas sinusais assintomáticas é bastante comum e, por norma, não requer tratamento. Não existe uma duração máxima de uma pausa sinusal assintomática que requeira obrigatoriamente a implantação de um pacemaker. No entanto, se o paciente apresenta-se ter tido episódios de síncope ou near-syncopal, então poder-se-ia aconselhar a implantação de um pacemaker. Caso Clínico 2 – Resposta C. Esta paciente apresenta uma pericardite aguda, diagnóstico evidenciado pela distinta dor torácica que sente e pelos ruídos friccionais percecionados durante o exame objetivo. O facto de a procainamida ser conhecida por causar pericardite aguda é uma das pistas que nos levam a perceber qual é a etiologia desta patologia. O uso de fármacos anticoagulantes em doentes com pericardite aguda é contraindicado, visto que os pode predispor ou até agravar um derrame pericárdico (o qual é na verdade sugerido pela taquicardia da paciente). Só deveremos pedir um eletrocardiograma, um raio-X torácico e um ecocardiograma depois de interrompermos a toma destes fármacos. A obtenção de estudos de anticorpos que estão por norma associados a lúpus é aceitável, no entanto, somente depois de termos executado os passos anteriormente referidos. A toracalgia da doente não é sugestiva de angina e a regularidade da sua taquicardia exclui praticamente a possibilidade de recorrência de fibrilação atrial paroxística. Caso Clínico 3 – Resposta A. Este doente apresenta ter uma regurgitação mitral grave aguda, provavelmente resultante de isquemia miocárdica que afeta os músculos papilares do coração. Diminuir a pós-carga com nitroprussiato, inserir um cateter arterial para monotorização hemodinâmica e implantar um balão intra-aórtico (BIA) para suporte hemodinâmico são todas medidas provisórias possíveis até à cateterização cardíaca que o paciente precisa. A realização de um Ecocardiograma transesofágico (ETE) não é urgente, visto que o ecocardiograma transtorácico apresentava a informação necessária para determinar a forma como devemos proceder na fase aguda.
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Respostas
Terceiro Caso Clínico: Homem de 65 anos com antecedentes de doença arterial coronária e de enfarte agudo do miocárdio chega ao serviço de urgência por início súbito de uma dispneia grave. O paciente teria sentido uma �aperto no peito” nos dias que precederam este episódio. O ecocardiograma realizado revela a presença de regurgitação mitral aberta. Qual das intervenções que se seguem não é indicada na fase aguda? a) Ecocardiograma transesofágico (ETE). b) Inserção de um cateter arterial. c) Inserção de um balão intra-aórtico (BIA). d) Cateterismo cardíaco. e) Administração de nitroprussiato de sódio parentérico.
Ética
O
Limitante?
ser humano intelectualmente desenvolvido sempre se pautou por questões éticas, obviamente adaptáveis aos tempos e à cultura corrente. De acordo com a Wikipédia, conceptualmente, Ethos (em grego antigo: “hábito; costume”) é o conjunto de traços e modos de comportamento que conformam o caráter ou a identidade de uma coletividade. Por outras palavras, creio que não estou errado ao afirmar que a Ética, numa comunidade, é um conjunto de regras sociais pelas quais ela se rege. Como se aplica a qualquer outra comunidade, isto é verdade também para a comunidade científica. Em bom rigor, Ética e Ciência, qualquer que seja o ramo, são duas disciplinas indissociáveis. No entanto, a pergunta para 1 milhão de dólares é: como traçar a linha entre o que é aceitável no processo de obtenção de conhecimento e o que não é, à luz das questões éticas? Sou da opinião que o conhecimento é a causa mais nobre do mundo. Diz o povo que a ignorância é uma bênção, mas estou em profundo desacordo. Saber é sempre melhor que não saber. Se não fosse a Ciência e a sua incessante procura pelo conhecimento, a vida humana seria algo tão diferente daquilo que atualmente é que imaginar se torna um exercício inglório. Os problemas surgem quando a procura de conhecimento choca de frente com a Ética. Ora, o tema de capa desta edição da RNA Mensageiro surgiu na sequência de um desses choques, o famoso He Jiankui affair. Jiankui He é um biofísico chinês cuja Alma Materera, à data, a Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul da China, em Shenzhen. Muito sucintamente, através de uma técnica para edição de genética conhecida como CRISPR/Cas9, Jiankui introduziu em embriões fertilizados em laboratório uma mutação num gene, mutação essa que se crê que confere resistência inata ao vírus HIV, seguindo-se depois a gestação normal destes embriões. Importa dizer que os embriões eram de casais em que o homem era seropositivo e a mulher não, isto é, em que havia um risco grande da descendência do casal ser seropositiva. Obviamente, uma experiência deste género conduzida em humanos gerou amplas críticas na comunidade científica, sendo Jiankui apelidado de “Frankenstein chinês”. Além disso, estes atos valeram ainda o seu despedimento, uma pena de prisão de 3 anos, e uma multa de 3 milhões de Yuan (cerca de 400 mil euros). Mas analisemos este caso por partes.
À luz da legislação, não restam dúvidas. Estas atividades experimentais foram feitas de forma ilegal, envolvendo documentos forjados e um secretismo por razões óbvias. À luz das normas éticas em vigor, dúvidas também não as há. Efetuar experiências em humanos antes de se ter total certeza de que há efetivamente benefícios e de que os efeitos adversos roçam dentro dos possíveis o inócuo, como Jiankui fez, é indubitavelmente condenável, porque, de certa forma, é um rebaixar do valor da vida humana. Por outro lado, à luz daquilo que é conhecimento público, avaliando as verdadeiras intenções do cientista, alguém é capaz de afirmar que este tinha más intenções? É que a técnica de CRISPR/Cas9 é já algo que vai começando a ser amplamente usado na comunidade científica (eu sou um dos muitos usuários), sendo portanto algo minimamente seguro unicamente no que à parte teórica diz respeito, e o que ele fez, por muito pouco ortodoxo que seja, foi oferecer uma solução para casais que se calhar pouca esperança tinham. Assim, urge perguntar: e se esta experiência for um sucesso? O resultado final serão pais super felizes, crianças que nascem sem um rótulo discriminatório enorme (na China, há um estigma social muito grande contra pessoas com HIV) e um avanço científico imensurável na área da biomedicina. Ou seja, se esta experiência for um sucesso, estamos perante um caso claríssimo em que a Ética, mais do que um guia, era um obstáculo ao desenvolvimento. A minha opinião é de que estamos perante alguém que, vendo os factos de uma perspetiva diferente daquela que é amplamente aceite, agiu de acordo com as suas próprias noções éticas. É condenável? De acordo com as conceções vigentes, sem dúvida que é. De acordo com a ética pela qual Jiankui He se rege, parece que não. Na realidade, quem é que está certo, Jiankui ou a sociedade? Bem, isso fica para cada um refletir. Em jeito de síntese, parece-me óbvio que a Ética será sempre um obstáculo para a Ciência e para o conhecimento no geral. E por muito polémica que possa ser a utilização da palavra “sempre”, relembro que a partir do momento que a sociedade no geral achar que algo é aceitável, mesmo que antes não o fosse, essa passa a ser a norma social vigente e, portanto, esse algo é algo ético. Dito isto, termino dizendo que a questão correta não é se a ética é um obstáculo para o conhecimento e a ciência, porque essa tem resposta fácil. A pergunta que se deve colocar é: quão limitante é a Ética, isto é, o que é que a sociedade perde por ser uma sociedade ética? Talvez os pros até sejam mais fortes que os cons. Contudo, eu diria que ao invés de se estabelecer julgamentos imediatos mediante a Ética em vigor, talvez fosse muito mais produtivo para o conhecimento e por inerência para a comunidade humana fazer esta pergunta sempre que algo eticamente questionável aparece. Bem sei que isto é demasiado teórico para sequer ser translacional, mas fica a dica para a sociedade. Cláudio Costa, redator da revista mRNA
ESCRITA LIVRE Escuta. Observa. Questiona. (…)
D
e anca baloiçante, lá anda Maria, mão a segurar a bacia que leva na cabeça, outra a acompanhar a música que sai dos seus lábios. Amália Rodrigues é a sua fadista predileta. Ninguém diria que seria possível dançar e estar tão feliz quanto Maria enquanto entoa letras tão sofridas. As mais pequenas já sabem o reportório de cor. Acompanham a avó a cantar enquanto aguardam ansiosas pela próxima remessa de favas. Cantam, trabalham, sendo capazes de passar horas assim. (…)
fácil com a prática. Dizem-nos que não sentir se tornará normal. Estará isso correto? Poderemos simplesmente deixar de sentir? Se efetivamente deixarmos de sentir, a resposta ao eterno debate de “poderão os médicos ser substituídos por máquinas?” será um sim. Uma coisa é aprender a controlar as emoções, outra é estar tão habituado ao sofrimento que este se torna banal.
Olhos cerrados, respiração forçada. Ouvem-se as máquinas. Os médicos deixaram de ser deuses. Há alturas em que nada mais se pode fazer do que esperar. Dizem-lhe que estão ali, ao seu pé, mas sem certeza de serem ouvidos. Dor. De perder uma mãe, uma avó. Uma cama ao lado. Quem és tu, com esse corpo grande, pele gasta pela idade? De onde virás? Terás alguém a chorar por ti? Terás quem te recorde? Partimos sem saber se será a última vez.
Estarmos aqui tornou-se banal. Não percebemos que todos somos um mundo. Falamos uns com os outros apenas por ser o “eticamente correto”, mas raramente escutamos realmente o que o outro nos diz. Quando alguém é desagradável connosco, somos demasiado rápidos a julgar, e quase nunca pensamos que aquela pessoa teve eventos de vida que a levaram a tomar determinada atitude, a agir daquela forma. Falamos com os “velhinhos” como se fossem inúteis. Esquecemo-nos que já foram jovens, muito provavelmente criaram alguém. Que têm histórias e ensinamentos. (…)
Nunca alguém tinha ouvido Maria dizer uma palavra má acerca de outra pessoa. Lutadora, divertida e inteligente. Injusto? Sim. Mas será a vida justa? Nuances e mais nuances sobrepõem-se, acabando por tingir as nossas vidas inevitavelmente de negro. O preto é o final. Ou será o branco? Prefiro pensar que será o branco.
Escuta. Observa. Questiona. Todos travamos batalhas e todos temos um objetivo, mesmo que alguns ainda não o tenham encontrado. Digam e façam os outros sentirem-se especiais. Estar aqui não é garantido. A única certeza é a de que estamos aqui, agora.
Que fazemos aqui? Qual o objetivo? Passamos o nosso tempo a ignorar pensar no fim da vida, pois isso causa sofrimento. O que é o oposto da normal condição humana. Durante a maioria do tempo, pensamos no final e não aproveitamos a viagem. Estudamos para trabalhar, trabalhamos para comer. Somos máquinas? Somos diferentes do que mantém Maria viva? Vamos para a faculdade, ensinam-nos que se vai tornando mais
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Rita Rodrigues, 4º ano
ESCRITA LIVRE
[M]ato100logia
É sangue… Puro sangue.
Paras no obstáculo, Porque não tens forças para o vencer.
Vermelho. Vivo! Corres em vales, montanhas, bosques… Corações. Rasgas-me! E escorres… Não sinto nada.
Deitas-te no sonho, Porque a verdade não queres ver. Morres… Porque dele acabaste por te esquecer… A Prisão do Nada Quero fugir de mim! Mas estou presa À sombra que me segue…
Pintas lábios, Defines bem os teus limites, E paras. Será forte a tua armadura? Ela desfaz-se assim que a ferida cura! Serás príncipe protetor? Foges mal desaparece o calor… O que escondes tu? Qual o teu feitiço? Caixa mágica aquela de onde vens… Corres frenético, Só para não morrer.
Quero ver-te! Mas estou presa Na que luz que me cega… Quero sentir-te! Mas estou presa Na sepultura do meu coração… Afinal já não quero. Estou presa, mas sorrirei. Por nada e por nada. Presa por te amar. Presa por me calar. Cantarei até o meu sonho voar…
Andas aluado, Só porque não sabes viver.
Ana Catarina Pastilha, 4º ano
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É
COÇA-ME AS COSTAS
a faca vagarosamente embainhada na carne. O definhar sub-reptício da alma. Os dias moldam-se em redor de um eixo indeterminado, o universo gira desprovido de nexo. As folhas caem, o vento ruge, a chuva fustiga a calçada; mas logo tudo se renova, o sol pestaneja por entre as nuvens, as flores devolvem a cor ao mundo. Ciclos infindáveis, o rumo natural de todas as coisas - apenas toleramos a tempestade porque confiamos na bonança. Sim, tudo parece florir e murchar, murchar e florir. Tudo se regenera - exceto eu. É natural, dizem-me. Mas como podem pensar assim? A vida não é um círculo, condenado a fechar-se sobre si próprio. Nunca voltaremos ao ponto de origem! Não somos um pêndulo que avança e recua, temeroso do caminho que percorreu. O trilho segue firme em linha reta, por vales e rios, pastos e pântanos, até culminar na falésia que se lança sobre o vazio. Assim nos ensinaram toda a vida. Avalio cuidadosamente todos os factos recolhidos. Analiso cada palavra, cada gesto, com uma minúcia irrepreensível, mas deparo-me com um resultado que nem os melhores cálculos poderiam prever. Se assim é o paradigma, se a vida é uma linha, porque estou eu no chão? É um sonho, com certeza. Como se as largas décadas se tivessem esfumado. Não, sussurra-me alguém que só eu posso ouvir, pensa. E eu penso - evoco a génese da Memória em si, o cerne
de toda a minha existência, para chegar a uma terrível conclusão. Não me lembro de não saber andar. Daí isto não poder ser um sonho. Toda eu estremeço, abalada por esta revelação. Não vejo, socorro. Tateio à minha volta, reconheço o toque familiar de vidro estilhaçado à minha direita. Soluço. Não vejo. A cegueira é tal, que me abre os sentidos. Os ossos que anunciam a sua presença ao pressionarem o pouco músculo que me resta; o tinido que me impede de perceber a azáfama que se aproxima. Mãos rodeiam-me a cara, dedos gélidos que pouco fazem para atenuar a surpresa; o toque áspero do papel de cozinha irrita-me o nariz, mas não encontro forças para afastar o braço que o pressiona tão agressivamente contra a minha cara. Limito-me a existir naquele chão frio de linóleo, o corpo chorando baixinho. Lágrimas vermelhas nunca antes tão vividas. … Nessa noite, o mundo é roxo. Passados dois dias, um verde nauseabundo. Decorre toda uma semana até que os bordos se começam a esfumar para um a m a re l o -torrado, e mais u m a ainda para
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CRÓNICA que o meu espelho volte à sua tonalidade normal. Respiro de alívio - a minha cara! Das poucas coisas que me restam… O meu coração já não é o que era, as pernas vacilam demasiadas vezes para que eu possa continuar a confiar nelas. É difícil expressar o que mais custa: o que o tempo já me tirou, ou o que ainda falta de mim para roubar. Confesso que o que realmente sobrou não seja muito. A vontade de viver há muito que fez as malas. Deixou para trás apenas farrapos, ossos frágeis e envelhecidos à espera de se tornarem pó. É uma existência feita de chás e comprimidos, de poltronas reclináveis e comprimidos, de garfadas reticentes e mais comprimidos. Para quê comer, afinal, para quê prolongar este interregno entre a vida e o esquecimento? Tão cruel é esta vida que me perpetua em vão. E tão gananciosa é, que não se contentou com esta existência minguante - procurou ceifar outras, juntá-las numa amálgama que exponencia o sofrimento de todas as partes. Não, não me roubaste a visão ainda, Tempo, por muito que eu desejasse que o fizesses. Sou forçada a assistir
aos trejeitos, às mãos trémulas que me guiam pela minha própria casa, ao fungar interrompido, ao quebrar da voz que me pergunta como estou. Devolvo o olhar que me lançam e é com um misto de surpresa e pena que julgo discernir um leve toque de esperança por trás dos olhos que me fitam. No entanto, a resposta é sempre a mesma, pois nem essa fé me desperta deste torpor de espírito. E, de novo, torno a contemplar a luz que se extingue por trás das íris que tanto vi brilhar e a luta para controlar o revirar dos cantos da boca, o tremer do lábio inferior. Desculpa, quero dizer. Eu sei que sou um fardo. Nunca foi minha intenção sê-lo, espero que saibas. E, no entanto, encarno-o perfeitamente. Uma comichão súbita instala-se. Não só do corpo, mas da alma, que me encurrala num canto e se propaga por cada quadradinho da minha mente. Um pulsar incessante que grita por atenção, por uma mão caridosa que alivie esta sensação que me sobressalta, que me devora por dentro. Engulo em seco e preparo-me. Nunca me foi fácil proferir estas palavras: Querida, ajuda-me. Coça-me as costas. … Claro, avó, inclina-te para a frente. Isso, assim. Encosta a cabeça ao meu peito, para estares mais confortável. Assim ficamos, no silêncio do crepúsculo. A ti te ofereço estas mãos, para que sempre te ajudem quando mais precisares. Que te purguem o corpo de cada suplício, que te limpem a alma de cada provação. Nunca serás um fardo. Como o poderias ser? Gostava que o visses, como eu o vejo agora: a vida não é uma linha, é um círculo. E, tal como eu precisei de ti um dia, para que me ensinasses a andar, também tu agora precisas de mim, para te ajudar a não cair. Tu, dependente de nós? Nada disso. É o contrário, e nada mais. Joana Neves, 3º ano
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COQF o quê? H
á festas que todos conhecemos e adoramos, mas que não sabemos de onde vêm. É o caso da Queima das Fitas: tem uma Comissão Organizadora (COQF) desconhecida para a maioria das pessoas. Toda a estrutura da Queima das Fitas sofreu algumas mudanças ao longo de 2019 e 2020 na Revisão de Estatutos Extraordinária convocada para o efeito. A COQF está agora dividida em várias partes, sendo elas o Conselho Diretivo, a Comissão Central, o Coordenação-Geral e Coordenadores-Técnicos. E o mais impressionante de tudo isto? É maioritariamente constituída por estudantes! O Conselho-Diretivo reúne à mesa de reunião o Presidente e o Tesoureiro da Direção-Geral da AAC, o Dux Veteranorum, representantes das Secções Culturais e Desportivas (que podem ser estudantes e/ou seccionistas) e o mais recente membro, o Tesoureiro do Conselho Internúcleos. Este órgão tem a função de deliberar e emitir pareceres acerca das questões orçamentais da festa, do seu programa, protocolos com outras entidades e muitos outros assuntos. A Comissão Central, talvez estrutura mais próxima do estudante comum, é constituída por 8 Comissários, um de cada faculdade. O que é um comissário, já agora? É um grelado eleito pelos estudantes do seu ano. No nosso caso, é um estudante do 5.ª ano, eleito pelos restantes estudantes do 5.º ano, em eleições organizadas por uma Comissão Eleitoral, presidida pelo Presidente da Mesa da Assembleia Magna, apresentando membros do Conselho Fiscal, Comissão Disciplinar e Conselho de Veteranos (que anteriormente organizava sozinho estas eleições). Até à anterior edição da festa, a Comissão Central encontrava-se dividida por diversos pelouros, sendo a atribuição de cada pelouro aos comissários feita aquando da primeira reunião entre os eleitos. Entre os pelouros, encontram-se a Representação Institucional, que trata das questões de marketing e publicidade, a Tesouraria, responsável pelos aspetos contabilísticos e financeiros, o pelouro do Parque, que trata de todas as infraestruturas presentes no chamado “recinto” e a Produção, que fica com o comando de tudo o que tem a ver com espetáculos e
animação. Na vertente base da festa, embora muitos não a reconheçam, temos os pelouros da Tradição, da Cultura, do Desporto e dos Bailes. Como estes nomes indicam, a Tradição é responsável pelas atividades de cariz mais tradicional, como Récita, Serenata Monumental, Queima do Grelo, Cortejo, Venda da Pasta, Verbena e Missa de Bênção das Pastas. A Cultura, embora possamos achar que se sobrepõe ao Pelouro da Tradição, na realidade, faz a ligação com as estruturas culturais da Associação Académica de Coimbra, como os grupos de Fado. O Desporto organiza as atividades desportivas da Queima das Fitas, privilegiando sempre as estruturas da Academia. Por fim, o Pelouro dos Bailes é responsável pela organização do Baile de Gala das Faculdades, Chá Dançante e pelo Chá das Cinco. Em conjunto, estes pelouros da Comissão Central tratam de elaborar o programa da Queima das Fitas, propor artistas para atuar e passar estas propostas pelo Conselho Diretivo, para que este possa deliberar, aprovar, reprovar ou alterar. Com a alteração estatutária, todas estas funções têm de ser asseguradas pela Comissão Central, mas existe liberdade para, no Regulamento Interno da COQF, fazer uma distribuição diferente de competências. Passando agora para a Coordenação-Geral, constituída por um Coordenador-Geral e um Vice-Coordenador-Geral, contratados pela Associação Académica de Coimbra através de um Concurso Público, para um período correspondente à organização de duas edições da Queima das Fitas. Estes coordenadores fazem uma espécie de ponte de ligação entre as várias estruturas da Queima das Fitas: Conselho-Diretivo, os Comissários e os Coordenadores Técnicos. Apesar de parecer ser a estrutura mais alta nesta hierarquia, a Coordenação-Geral tem a função de executar decisões tomadas pelo Conselho-Diretivo, bem como colaborar com o mesmo. Colabora ainda com a Comissão Central e emite pareceres e sugestões nas diversas áreas de atuação das várias estruturas organizadoras. Se quisermos dizer isto de uma forma mais simples, a Coordenação-Geral é responsável por permitir que a festa ocorra, executando decisões, assegurando a elaboração e arquivo da documentação,
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coordenando os processos de organização e as negociações com entidades externas, como, por exemplo, possíveis patrocinadores. No entanto, estas funções parecem impossíveis para apenas duas pessoas, não? É para isso que servem os Coordenadores-Técnicos. Existem três áreas que o coordenadores têm obrigatoriamente de abordar: Tesouraria, Produção e Infraestruturas. Estes coordenadores são estudantes, tornando a Coordenação-Geral o único órgão que não é constituído por estudantes (e/ou seccionistas) na Comissão Organizadora da Queima das Fitas. O Coordenador Administrativo e Financeiro (de existência obrigatória) elabora o Plano Orçamental e Relatório de Gestão, gere o património financeiro, entre outras funções. Relativamente às outras áreas que têm obrigatoriamente de existir segundo os Novos Estatutos da AAC, ainda não existe experiência prévia de como se organizam, pelo que cabe à COQF 2020 fazer esse ajuste. Podem existir outros Coordenadores-Técnicos, se a Coordenação-Geral assim considerar necessário. Até agora, foram explicadas as estruturas mais altas na hierarquia, que, apesar de serem estudantes na sua maioria, necessitam de aprovação do Conselho-Diretivo ou eleições para exercerem funções e cargos específicos. No entanto, a Queima das Fitas é uma festa tão grande que precisa de mais “mão de obra”. Para esse fim, existem os colaboradores dos vários pelouros da Comissão Central e para auxiliarem os Coordenadores-Técnicos. Até agora, a sua nomeação era indicada pelos Comissários ou Coordenadores ao Coordenador-Geral que, por sua vez, comunicava os nomeados ao Conselho-Diretivo, podendo este impedir a sua inclusão na estrutura organizadora mediante razões justificativas. Este sistema poderá mudar, mediante o novo Regulamento Interno da COQF. Apesar de terem certas contrapartidas explicadas no Regulamento Interno da festa, são estudantes como todos nós que se quiseram envolver e contribuir para um evento que faz parte da nossa vida académica enquanto voluntários. Josefa Guerra, 3º ano
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International Padel Experience STAR PADEL Coimbra
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Janeiro Sessions Live Tour c/ Salvador Sobral Convento São Francisco
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Tiago Nacarato e Tiago Nogueira - Além Do Que Se Vê Conservatório de Coimbra
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Carlos Coutinho Vilhena e João André TAGV
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Andreia Gi, 5º ano
MAI
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Ana Carolina Convento São Francisco
ABR
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TEDxUniversidadedeCoimbra Juntar uma pitada de Metamorfose, adicionar 4 de abril e envolver o Teatro da Cerca de São Bernardo. Estão reunidos todos os ingredientes para uma experiência que não vais querer perder! O TEDxUniversidadeCoimbra está a chegar e as novidades não vão parar de aparecer. Fica atento!