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Diário de Viagem à Madeira

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ANEMIA DIÁRIO DE VIAGEM

M A D E I R A ,

A G O S T O

2 0 2 0


03 (des)Encontro 06 (re)Encontro 10 Minerais 12 Subidas 16 Broa de Castanha 19 D. Sebastião 24 Funchalense 27 Golfinhos

UMA PÉROLA NO ATLÂNTICO

29 Gruta 30 Ravioli 31 Lobos 32 Apito 33 Anjos 34 Bola de Berlim 35 Reis 36 Brava


(DES)ENCONTRO 15 DE AGOSTO

-----Comecemos este diário pela sua última entrada, dia 15 de Agosto de 2020. Não é por ser do contra (embora muitos digam que o sou), mas por estar convicta que fará mais sentido transmitir a minha profunda adoração por esta ilha apenas após ter experienciado tudo. Previsões são mais fáceis no final do jogo, certo? -----Do aeroporto na cidade de Santa Cruz vemos apenas duas cores. Em diferentes tonalidades, o azul e o castanho compõem a paisagem – mar, céu, ilhas desertas e o Caniçal. Enquanto plano de fundo, parecem conspirar para usurparem os nossos corações até ao último segundo na ilha. -----A Ponta de São Lourenço (Caniçal) foi tanto a primeira como a última porção que vi deste arquipélago. Imponente, esta encosta árida e acidentada esteve em tempos unida a Porto Santo, outra ilha do arquipélago. As extremidades este e oeste da ilha contrastam com a restante área por serem ventosas e com pouca veDiário | 3


getação. Já o Norte diferencia-se do Sul por ter águas mais mexidas e menor densidade populacional. -----Neste momento, provavelmente estão a questionar “Mas afinal, o que é que a Madeira terá que não posso encontrar no Continente”? Embora esta questão dê pano para mangas, tentarei ser o mais sucinta possível. -----Começando pelas pessoas… todas aquelas com que me cruzei foram extremamente acolhedoras e bondosas. Vede que até no aeroporto oferecem a todos os passageiros à chegada uma garrafa de água e uma banana (madeirense, claro). Senti em toda a parte da ilha que a minha presença era bem-vinda. Não tomam os turistas como garantidos nem têm a típica arrogância que as., Diário | 4

-sociamos a locais de muita afluência. Vão pelas ruas e são cumprimentados com um “Bom dia”. Pequenos grandes pormenores que fazem toda a diferença. -----Pela 5ª vez, a Madeira foi reconhecida como melhor destino insular da Europa. Este arquipélago tem um clima quente praticamente 12 meses por ano, a temperatura do mar ronda os 25 graus, come-se maravilhosamente bem e atividades nunca faltam. Se estiverem cansados de praia, basta andarem 20 minutos de carro e mudam completamente de paisagem, sendo então presenteados com floresta densa, cascatas e lagoas para refrescar. As levadas são outra atração muito procurada. Consistem em trilhos pela montanha, variando


entre 2 a 8 horas, em que nos podemos embrenhar completamente na natureza. Existem também várias páginas online onde podemos aprofundar melhor este tema, aferir o grau de dificuldade de cada levada e até mesmo juntarmo-nos a um grupo liderado por um guia, de forma a tornar a experiência mais segura. -----Vais ficar desse lado para saber mais sobre a ilha?

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(RE)ENCONTRO 30 DE JULHO

-----Diz-se que o homem necessita de uma certa pressão para funcionar. Bem, creio que sou o arquétipo desta necessidade. Às 2h15, ou seja, apenas uma hora antes de supostamente ter de acordar para ir para o aeroporto, terminei de fazer a minha mala de viagem. -----Para esta aventura, foi obrigatório realizar o teste à COVID-19 e preencher um formulá-

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rio onde estava descrito de onde e para onde ia, qual o meu lugar no avião, local de estadia e outras informações. Tudo com o intuito de facilitar a deteção de contactos de possíveis casos. -----Às 6h45, os motores foram ligados, no entanto, ou não fosse eu íman do mau-olhado, a porta do avião não funcionava. Atrasámos a descolagem mais de meia hora, uma vez que a porta do avião não


fechava. De salientar que tenho medo de voar. Estava prestes a chorar por ter de embarcar num avião e a porta decide não fechar. Admito ter pensado em fugir pois, na minha cabeça, surgiam cenários em que a porta se reabria em plena estratosfera. O que me valeu foi ter alguém ao meu lado que aceitou participar num clássico jogo do STOP ao longo de toda a viagem. -----Finalmente (apenas 1h45min depois) vi um pedaço da ilha. A aterragem foi suave e permitiu-me respirar de alívio. Até participei nos aplausos à aterragem. -----Com uma noite sem dormir e fome à mistura, o tempo que tive de passar em filas no aeroporto foi penoso. Tivemos de preencher um Diário | 7

novo formulário, medir a temperatura um a um, dirigir-nos novamente para outra fila a fim de mostrar o resultado do teste à COVID. Passada mais 1 hora em filas, lá conseguimos sair e alugar um carro. A viagem do aeroporto ao Funchal é bastante rápida, uns meros 20 minutos. Deixadas as bagagens no hotel, partimos esfomeados à procura de um sítio para almoçar. -----Por sugestão de uma amiga madeirense, parámos num restaurante na marina do Funchal, onde comemos o primeiro prato típico: picado. Este, simplificadamente, é composto por carne de vaca e batatas “aos cubinhos”, com molho de cogumelos. Mas primeiro, como não poderia deixar de ser, comemos bolo do caco com manteiga de alho, o que acabou, literalmente, por ser o pão nosso de cada dia. As bebidas foram também tipicamente madeirenses, Brisa Maracujá e Cerveja Coral.


-----Mais tarde, vim a saber que não era neste restaurante que se comia o melhor picado. Deveria ter ido a um restaurante chamado “Beer Garden”, contudo, o em que comi chamava-se só Beer e eu, lá com a visão turva com a fome, esqueci-me do Garden. Mas pronto, fiquei bastante satisfeita, não foi nada de grave. -----Pela marina, caminhando sempre a seu par, vamos de encontro aos teleféricos que

sobem para o monte e à fortaleza de S. Tiago. Dentro desta encontrámos vários carros antigos, verdadeiros clássicos, tendo também vista para a Praia da Barreirinha. A contornar a fortaleza existem imensas ruas com casas coloridas, típicas desta zona – a zona velha. -----Literalmente todas as portas estão pintadas com cores garridas e desenhos. Aqui podem-se encontrar vários bares e restaurantes, o que contrasta com a Madeira antiga. Dis-seram-me que a zona velha antigamente era muito mal frequentada e estava completamente ao abandono. Porém,

havia sido reaproveitada e tinha tanto movimento quanto possível em tempo de pandemia. -----Esta zona da cidade tem ligação com o mercado dos Lavradores, outro ponto muito procuraDiário | 8


do pelos turistas. Faz em certa forma lembrar “La Boqueria”, em Barcelona, mas em menor escala. Na minha opinião tem alguma graça visitar mas, por amor às vossas carteiras, não comprem lá nada. O preço de tudo está extremamente inflacionado e encontram produtos iguais ou melhores a preços muito mais acessíveis noutros locais da cidade. ----De regresso ao hotel, vesti o fato de treino e parti à descoberta da costa funchalense. No lado oeste, o Funchal comunica com o Lido, uma zona também rica em hotéis e com uma estância balnear enorme. Aqui existem vários restaurantes, bares e campos desportivos mesmo na linha da costa. A zona do Lido é atravessada por um passadiço que une a costa do Funchal a Câmara de Lobos. Esta zona do Funchal pareceu-me ser maioritariamente frequentada por jovens, talvez por ser dia da semana e os adultos estarem a trabalhar. Contudo, aqui vi imen-

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sos grupos perto da minha idade a saltarem para o mar, praticar desporto ou simplesmente a conversar. -----Os hotéis da Madeira têm todos comunicação direta com o mar e, como se não bastasse, a maioria tem também piscinas de água salgada com vista sobre o Atlântico. -----A praia do meu hotel foi o local escolhido para o jantar do primeiro dia. Com vista para a baía do Funchal e um grande rochedo que me fez pensar em Kings Landing, vimos pescadores a tirarem do mar um atum com 180 kg. Sim, 180 kg. Foram precisos 3 homens para conseguir segurar nele.


MINERAIS 31 DE JULHO

-----Ansiosa por explorar a ilha, saímos cedo do hotel em direção ao centro do Funchal. Indo pelas traseiras do casino, vamos ter à zona mais comercial da ilha. Pelo caminho, encontrámos vários jardins, cada um mais arranjado que o anterior e de alguma forma mais encantador. Saliento a “Quinta da Vigia”, local de residência do governo autónomo e aberto ao público. Deste jardim temos vista sobre toda a baía do Funchal. Comunica tanto com a rua costeira como com a interior, a tal que vai dar ao centro da cidade. -----Prosseguindo, passámos pelo tribunal, pela igreja matriz, cidadãos bem-dispostos e por fim parámos junto à fortaleza de São Tiago. Aqui, apanhámos um teleférico para Diário | 10

o monte. O que aconteceu nesta subida não sou capaz de narrar pois, estava com demasiado medo do teleférico cair e não prestei atenção a nada. -----No monte, entrámos no Jardim Monte Palace. Para conhecê-lo devidamente, seria necessário um dia inteiro, tal é a sua riqueza. Aqui, encontramos espécies exóticas, obras de arte de vários estilos, monumentos históricos, casas senhoriais e cascatas estonteantes. -----Durante horas, sentei-me a escrever num banco sobre o jardim central, tomando como plano de fundo quedas de água enormes e uma mansão antiga. Foi terapêutico (como a escrita sempre é para mim). -----No final da visita, temos direito a


uma prova de vinhos madeirenses e ficámos nela durante mais algum tempo, enquanto desfrutávamos ao mesmo tempo de uma vista sobre a cidade do Funchal. -----Na parte da tarde, partimos em direção ao Caniçal – zona este da ilha. A Ponta de São Lourenço, no Caniçal, estivera em tempos unida a Porto Santo. Esta encosta árida e escarpada alberga uma das levadas mais famosas da ilha, mas também das mais perigosas. Aqui, a mão humana ainda não se fez sentir. Mesmo antes do inicio da levada, existe um ponto em que vemos toda a costa norte da ilha e, mais adiante, podemos descer da levada para uma praia isolada, mas linda. Foi aqui que senti pela primeira vez o mar da ilha. Água quente, límpida e calma. -----No caminho para o Funchal, parámos no Caniço, para visitar o Cristo Rei. Este não tem as dimensões do de Almada, mas porque

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teria? Só se fosse para os navegadores o verem, tendo em conta que terra à vista não existe. -----Tivemos mais um jantar calmo no nosso hotel e, foi nada mais nada menos que o atum que víramos a pescar no dia anterior. Cozinharam “ventrecha”, uma parte do atum que antigamente era dada aos pobres e que aqui no continente se continua a deitar fora. É uma carne muito mais tenra que o habitual bife de atum seco. -----Exausta, dou este dia por terminado.


SUBIDAS 1 DE AGOSTO

-----O objetivo inicial para este dia era ver o nascer do Sol no pico do Arieiro e daí seguir viagem para Ribeiro Frio. A estrada de ligação Funchal - Pico do Arieiro é a reta de maior tamanho e inclinação que já vi. Durante vários quilómetros, subimos com o carro na 1ª mudança e eu só pedia a Deus para não o deixar ir abaixo. Já me tinham dito que as subidas da madeira

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eram acentuadas mas, sempre pensei que não poderiam ser piores que as do Gerês… São 10 vezes pior. -----Depois desta turbulência inicial, a estrada vai subindo gradualmente em curva e contracurva. Vai passando por zonas cobertas por árvores, gado e alguns miradouros. Foi neste percurso que vi pela primeira vez ovelhas negras (desculpem o aparte). O Pico do Arieiro tem 1818 m de altitude, um miradouro a assinalá-lo e um restaurante e lojinha perto deste marco. Há uma levada que faz a união Pico do Arieiro - Pico Ruivo. É das maiores e mais perigosas levadas da ilha, há zonas em que só passa uma pessoa de cada vez e sem amparo de ambos os lados. Deste ponto da ilha vemos encostas imponentes, acidentadas e de uma


beleza sem igual. -----Prosseguindo para Ribeiro Frio, a viagem durou cerca de 30 minutos e foi uma vez mais curva e contracurva. O parque natural do Ribeiro Frio é enorme, também ele preenchido de levadas. Fizemos uma delas - a levada dos balcões. É bastante simples de fazer, não chega a meia hora, sempre pela sombra e sempre com água a correr ao nosso lado. O ponto final da levada é um miradouro, o “miradouro dos balcões”, com vista para Porto da Cruz, Faial, Penha D'águia e toda a montanha entre Ribeiro Frio e o norte da ilha. Neste miradouro existem várias espécies protegidas de pássaros e uns bancos de pedra. -----Regressando ao local onde deixei o carro, almoçámos num restaurante mesmo na berma do ribeiro. Nesta área, a ladear o restaurante, existe um viveiro de trutas, um parque de merendas e uma zona balnear. -----Findo o almoço, dirigimo-nos

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para Santana. Relativamente a esta paragem, ia com as expectativas bastante em baixo. Pensava que ia ver uma ou duas casas típicas e ficaria por aí. Contudo, durante o caminho até à zona central de Santana vão-se vendo vários palheiros com esta estrutura típica, sendo que no centro turístico há 5 casinhas típicas, cada uma com um propósito - comercial, ponto turístico, etc. O teto destas casas é em palha, o interior todo revestido a madeira. Não era permitido tirar fotografias dentro das casas, mas no jardim a rodeálas sim. Flores coloridas transportam-nos para uma pradaria, num conto da Disney. -----A estrada regional 101 é a estrada mais bonita que podemos percorrer. Seguindo na direção Santana – São Jorge, o oceano Atlântico fica à nossa direita, arvoredo e encosta verdejante à esquerda, pontualmente interrompida por quedas de água. Natureza, bela como apenas ela consegue ser. Deu-me um enor-


me prazer conduzir aqui. Sem dúvida que retornaria à ilha apenas com o objetivo de fazer uma vez mais esta estrada. ----Pouco antes da estrada descer para o nível do mar, existe um miradouro sobre toda a cidade de São Jorge, onde vemos melhor do que nunca a planície em que esta cidade está construída. Montanha e cidade em perfeita harmonia. Dá a sensação de estarmos a olhar para Diário | 14

uma pintura. Há momentos em que as palavras não são capazes de expressar a beleza diante de nós este é um deles. -----Neste miradouro, podemo-nos sentar e aproveitar para comprar produtos regionais a um senhor que costuma estar mesmo aí. Vende produtos regionais de boa qualidade e a preços bons. Enchemos o nosso carro de bananas da madeira, bananas maracujá e outros produtos com nomes exóticos. -----O último ponto turístico do dia foi S. Vicente. Esta terra é pequena, funcionando mais como um ponto de união entre norte e sul, este e oeste da ilha. Se no continente costumamos dizer que todos os caminhos vão dar a Roma, penso que podemos dizer que na Madeira todos os caminhos vão dar a S. Vicente. Esta terra é plana, com algumas lojas de produtos regionais e restaurantes na linha da praia. A praia é de calhau, mas daquele grande, não muito apetecível. Por cima da praia, há um restaurante giratório muito procurado pelos turistas. -----Disseram-me que ainda há pouco tempo, a cidade de S. Vicen-


te não tinha supermercado. Contudo, agora já está mais desenvolvida, tendo também um dos parques de campismo mais procurados da ilha e albergando as famosas grutas de S. Vicente. -----Pela via rápida, a ligação S. Vicente – Funchal demora menos de meia hora. É constantemente ladeada por montanhas altíssimas, de morfologia associável aos Alpes Suiços. Nunca pensei que isto existisse no meu país. É isto que a Madeira tem de incrível - paisagens idílicas, que são portuguesas e muito pouco conhecidas, infelizmente, pelos portugueses continentais.

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BROA DE CASTANHA 2 DE AGOSTO

-----Este dia foi maioritariamente para repouso. Começámos por visitar o miradouro da Eira do Serrado, donde se vê o Curral das Freiras de cima. Curral das Freiras é dos únicos pontos da ilha em que não se vê o mar, estando ainda hoje bastante isolado. O acesso para lá não é fácil, não há muita oferta de serviços, pelo que os turistas acabam por optar por apenas o ver à distância. Existem dois miradouros principais para ver o Curral – Eira do Serrado e Boca dos Namorados. O segundo tem vista para o Curral de frente e tem um acesso mais difícil e fora de mão. Um dos produtos gastronómicos da ilha é feito aqui no Curral e chama-se Broa de Castanha (que lamentavelmente não cheguei a provar). -----Do miradouro, chega-se rapidamente ao Cabo Girão. Pelo que me apercebi, atualmente a visita é paga, mas tivemos sorte em aparecer Diário | 16

num dia em que a entrada era livre. Uma vez que é um ponto de muita afluência, mesmo sendo ao ar livre, há um segurança que exige o uso de máscara. O Cabo Girão é o ponto mais a Sul de todo o território Europeu. Tem uma espécie de microclima, retendo muitas vezes as nuvens que assolam a região. -----O miradouro do Cabo Girão tem um chão em vidro, mas toda a estrutura é bastante segura e dá confiança aos visitantes. Lá ao fundo (literalmente), vemos uma praia com a água mais límpida do mundo. Os barcos turísticos que fazem as rotas dos cetáceos e golfinhos param no Cabo Girão para os turistas mergulharem precisamente para verem a pureza destas águas. Perto do miradouro, existem alguns cafés e restaurantes, com preços acessíveis. -----Câmara de Lobos é o concelho onde está o cabo. A cerca de 10 mi-


nutos do Cabo Girão, existe um restaurante chamado “Santo António” onde se come das melhores especialidades da ilha (que foi o meu prato preferido) – espetada de carne. Este restaurante tem uma enorme afluência, pelo que aconselho reserva prévia. De fora, passa despercebido e parece ser pequeno, contudo, possui um salão gigante com janelas para o mar. Os clientes conseguem ver a comida a ser feita, o que é algo que me apraz. -----Comemos bolo do caco com manteiga de alho para entrada. O prato principal foi espetada em pau de Loureiro – estava divinal. A carne é criada na ilha e de gado que viveu livremente. Para acompanhar, pedimos milho frito, Brisa Maracujá, Brisa Maçã e Cerveja Coral. Aconselho este resDiário | 17

taurante com todo o meu coração (comer é das melhores coisas da vida, por isso este conselho é bastante sentido). -----Uma vez que estávamos no lado Oeste da ilha, prosseguimos pela costa em direção à ponta do Sol e por fim Calheta. O centro da Ponta do Sol tem uma praia de calhau, alguns restaurantes e bares e é a cidade que alberga uma das zonas mais procuradas pelos turistas – uma queda de água diretamente para a estrada. Contudo, contrariamente ao que pensava, esta queda de água não fica no centro da cidade, sendo necessário percorrer a estrada antiga que faz a costa sudoeste da ilha, muito antiga e perigosa. -----Por uma questão de segurança, esta estrada caiu em desuso. Tem forte perigo de derrocada, com o pi-


so todo escavacado e com pouco espaço para circulação em dois sentidos. É também aqui que podemos passar pelos “furados”, nome dado pelos madeirenses aos tuneis. Apenas continuam a usar este termo para os mais antigos tuneis da ilha, feitos de pedra e com água a cair. Este fenómeno já por si curioso (chover num túnel, digo), junta-se ao facto de na madeira ser muito comum ver carros estacionados dentro destes tuneis. De vez em quando, existem derrocadas e os tuneis acabam por fechar naturalmente. -----Em suma, recomendo que apenas se desloquem por esta es-

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trada caso façam muita questão de ver a queda de água. É uma estrada perigosa e de difícil circulação. A queda de água, que a meu ver nada tem de especial, é uma espécie de lavagem automática ao carro. Algo menos conhecido que fica também nesta estrada, é uma ponte antiga com calçada típica, que creio pertencer ainda ao concelho da Ponta do Sol. Esta ponte passa por cima de um pequeno ribeiro e leva-nos a um miradouro natural, formando uma espécie de janela sobre o atlântico. -----Por fim, chegámos à praia da Calheta. É a maior praia de areia artificial da ilha e como seria de esperar, estava atulhada de gente. À primeira vista, não tinha nada de especial para além de ser de areia e grande, mas esta minha perceção acabaria por se alterar, como falarei mais adiante, num dia em que a voltei a visitar.


D. SEBASTIÃO 3 DE AGOSTO

-----Eis que chegou o dia por que mais ansiava. Com o percurso todo planeado há mais de um mês, partimos às 8 da manhã em direção a Paúl da Serra. Seguindo pela via rápida, ao longe as montanhas pareciam cobertas de neve. À medida que nos fomos aproximando, apercebi-me que de facto não faz sentido existir neve no pico do verão, num local tropical. Estava sim a presenciar um fenómeno muito característico da madeira - as nuvens descendo a encosta da montanha. As montanhas são tão altas e as nuvens estavam tão concentradas, que qualquer um as confundiria com neve. -----Cortámos caminho em direção a Bica da Cana. À medida que alcançávamos altitude, o sol era substituído por nevoeiro denso. Fui ficando desanimada, a pensar que o dia estava estragado e não veria nada do que tinha planeado. Para piorar a situação, a estrada não estava nas melhores condições. Afigurava-se escavada, com sinais de perigo de derrocada e pedras enormes no meio. -----A estrada da Bica da Cana, no Paúl da Serra, percorre um longo planalto, praticamente sempre em linha reta, o que podemos chamar de Route 66 Madeirense. Passámos por um grupo a filmar um videoclipe musiDiário | 19


cal nela, vejam lá. -----A primeira paragem foi na Lagoa do Fanal. Devido ao denso nevoeiro, não foi possível ver praticamente nada. Ouviamse rãs a coaxar, viam-se centelhas de árvores com as formas mais estranhas. Todo o cenário parecia encantado, co- mo se a qualquer momento a floresta pudesse assumir uma forma humana. Aconselho esta paragem vivamente. Mesmo com o tempo imprevisível da ilha, serão sempre surpreendidos positivamente com o que encontrarão. -----Continuando pela estrada principal, coloquem como banda sonora a "Born to be Wild" dos Steppenwolf ou a “Where the streets have no name”, dos U2. Abram as janelas até ao máximo, sintam-se livres. -----Começando a descer para Porto Moniz, a estrada é sempre ladeada por hortênsias. O tempo estava novamente “forrado”, nome madeirense para nevoeiro cerrado. Pouco an-

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tes de chegar a Porto Moniz, há dois miradouros em que vale totalmente a pena parar. O primeiro chama-se Ribeira da Janela e, espantem-se, fica em Ribeira da Janela. Creio chamar-se Ribeira da Janela pelo facto de existir no mar uma enorme rocha com uma “janela natural”. Uma estrutura completamente retangular, cortada na rocha, com vista para o oceano. Este miradouro tem acesso a uma praia, escondida e convidativa, não fosse pelas fortes ondas do norte. -----O segundo miradouro chama-se Eira da Achada. É num ponto mais alto que o anterior e tem uma vista panorâmica sobre a costa norte da ilha. A capa deste diário é, precisamente, da vista deste miradouro. Posso dizer que uma imagem vale mais que mil palavras, certo? -----Já em Porto Moniz e com o estômago a dar horas, almoçámos num dos restaurantes no centro da cidade. Arroz de Lapas é um dos pratos mais afamados da ilha e foi isso que a minha


companhia pediu. Pessoalmente, não gosto de marisco, pelo que me fiquei mais uma vez pelo picado. -----Porto Moniz tem duas piscinas naturais – as antigas e as novas. As novas são as mais famosas e as que encontrarão mais provavelmente sob a pesquisa "piscinas naturais de Porto Moniz" no Google. O acesso às mesmas tem o custo de euro e meio. Como tinha apenas uma hora para lá estar, não vi sentido em pagar este valor quando havia outras piscinas naturais na cidade e de graça. Optei, assim, pelas piscinas antigas, também no centro de Porto Moniz mas com muito menos gente (mesmo sendo grátis). Têm paredes e fundos rochosos, vários canais a encaminhar o mar, com peixes a nadar em nosso redor e oferecendo a possibilidade de estarmos "no Diário | 21

mar" mesmo quando este, na sua forma livre, está mais agressivo. -----Infelizmente, não pude ficar aqui todo o dia. Mas podia ser pior – o ponto de paragem seguinte foi o meu preferido de toda a viagem. -----A estrada que liga o Porto Moniz ao Seixal tem apenas 9.5 km. O centro do Seixal é bastante pequeno. Tem uma praia de areia natural, protegida do mar agitado. Esta praia é de uma beleza estonteante. Imaginam como será estar a nadar no mar, mas ter a sensação de estar numa montanha? Altíssima e verdejante, toda a região entre Seixal e S. Vicente é visível. -----Esta praia é também um dos locais escolhidos para aulas de surf. Influencers a vangloriarem os seus corpos no areal não faltavam, bem como corajosos a saltar do paredão para o mar.


-----Exatamente ao lado desta praia, separada apenas por um muro em pedra, existe uma grande piscina natural, excelente opção para quem não gostar de areia preta ou tiver medo do mar aberto. Não me incluo em nenhum dos grupos, mas, nem assim deixei de a experimentar. Um grupo de senhoras que estava a entrar nesta piscina ao mesmo tempo que eu, queixava-se de a água estar gelada. Acabei por não me controlar e sorrir, dizendo-lhes mesmo "que

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não sabiam o que era água gelada". -----Com uma “lágrima no canto do olho”, despedi-me da praia mais linda da ilha, indo em direção a S. Vicente. Mesmo à chegada, passando despercebido na entrada de um túnel, há um miradouro para o Véu da Noiva, outro ponto turístico da ilha. É uma queda de água natural para o mar. Para mim, não tem nada de especial, há várias maravilhas muito mais atraentes na ilha. Contudo,


velas, tendo uma pequena casinha de bonecas no seu recinto. Aqui, jantámos uma das melhores refeições da ilha e a um preço muito acessível (o que ninguém diria, vendo o aspeto do espaço).

aconselho pararem neste miradouro e observarem toda a encosta da ilha. Como que um “choro dos céus”, várias fendas de água rompem das alturas. -----Já no Funchal, mesmo ao lado do nosso hotel havia um restaurante chamado "Terreiro", que julgo pertencer ao grupo Savoy. Este restaurante está construido num jardim com vista para o mar, é iluminado por candeeiros antigos e Diário | 23


FUNCHALENSE 4 DE AGOSTO

-----De acordo com os meus planos, este dia seria passado em Porto Santo. Contudo, não valia a pena gastar 60 euros por pessoa em 6 horas de viagem por apenas um dia na ilha. Fica como plano para uma viagem futura. Atentem, contudo, que os marketeers trabalham muito bem a publicitar a viagem para Porto Santo – "10 euros ida e volta por pessoa", prometem os cartazes. Contudo, convém ler que este preço é exclusivamente para madeirenses e, mesmo assim, apenas em algumas alturas do ano. -----Questionei o motivo da diferença de preço da viagem entre conDiário | 24

tinentais e madeirenses. A resposta é a seguinte: Porto Santo não tem hospital e outros serviços básicos, pelo que, seria injusto de cada vez que alguém da ilha necessitasse de cuidados de saúde tivesse de pagar 60 euros só em transportes (sim, uma mulher que esteja prestes a parir tem de mudar de ilha). Pela mesma lógica, não faria sentido haver diferença de preços entre madeirenses da Madeira e de Porto Santo, pelo que o resultado foi a redução dos preços para ambos. -----Voltando à narrativa, este dia acabou por ser passado no Funchal. De manhã, deixamo-nos dormir até quando os nossos corpos necessitaram, tomámos o pequeno-almoço e demos à Dolores Aveiro o privilégio de nos ter ao seu lado na piscina do hotel. Há uma rua que separa a parte superior da inferior do hotel e, o melhor jogador do mundo, construiu


aí a sua casa. Não percebi se era uma casa ou um prédio, de tão pequena que era. Talvez por comodidade, a mãe mais famosa do mundo a seguir à Virgem Maria, utiliza a piscina do nosso hotel. -----Regressando (novamente, desculpem) às minhas funções de repórter/guia turística/cronista, o único local que visitá-mos neste dia foi o Jardim Botânico. Foi a minha maior deceção da viagem. Não faz sentido na minha cabeça que a ilha tenha todos os jardins extremamente arranjados, verdejantes e tudo o mais e, no entanto, o jardim que tem o nome de Botânico estar seco, sem aparente organização e bastante empobrecido. Acabei por sentar-me sobre um miradouro com vista para a baía do Funchal, mesmo por cima de um labirinto florido. -----Após um almoço tranquilo, encontrei-me com uma amiga madeirense e fomos visitar algumas zonas a este do Funchal. A primeira paragem foi Santo da Serra, local onde há um enorme jardim. Estava nevoeiro denso, pelo que caminhar pelos seus trilhos foi, para mim, como ter finalmente a oportunidade de entrar numa cena de “Crepúsculo”. -----Do Santo da Serra, fomos para Camacha, onde existe a maior loja de vimes da ilha. Este artesanato é também originário da madeira. Infelizmente, a loja estava fechada, pelo que seguimos em direção a Machico. -----Não chegámos a descer para a cidade, ficando apenas por uma estrada com vista sobre a ela. Deste ponto, apercebi-me que Machico tem reunidas

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as características que pretendo na cidade na qual farei a minha casa – plana, com escolas, praia, farmácia e centro de saúde acessíveis por via pedonal. -----Regressámos ao Funchal por uma estrada que percorria as traseiras do aeroporto e tinha vista privilegiada sobre a aterragem e descolagem destas aves mecânicas. Fica a dica – é um bom sítio para levar a/o amada/o e dar a cartada de Miguel Araújo cantando a “anda comigo ver os aviões”. -----Findo mais um ia, demorei a arranjar-me e, uma vez satisfeita com o resultado, parti para o Lido. Jantámos num restaurante de comida italiana, mas não num daqueles que acabam por ser um desconsolo. Sejamos honestos, prometer ser comida italiana é já moda em vários estabelecimentos e acabamos por comer algo feito "às três pancadas". Gostava de me recordar do nome do restaurante a que fui, pois a relação preço qualidade era excelente, mas não consigo. Diário | 26


GOLFINHOS 5 DE AGOSTO

-----Esta quarta-feira foi para conhe- cer a ilha numa outra perspetiva. Às 8h30 min estávamos na marina do Funchal, preparadíssimos para a viagem marítima e visita aos golfinhos. -----Findos mais ou menos 45 minu- tos, conseguimos aproximar-nos de um grupo destes mamíferos. Estes eram matreiros e fugiam sempre que persentiam o nosso barco a aproximar-se. De acordo com as regras, cada barco pode estar apenas 10 minutos perto dos golfinhos. Períodos superiores causam-lhes perturbações auditivas irreversíveis. -----O capitão do nosso barco, para além de marinheiro, tinha uma formação em “golfinhologia” bastante boa, alertando-nos para a família de cada um que se cruzava connosco, bem como alterações que apresentavam durante o seu crescimento, hábitos alimentares, etc. Estes mamíferos revelaram-se bastante amigáveis e brincalhões, cercando o nosso barco e perseguindo-nos mesmo quando mudávamos de direção, acabando por permanecer na nossa companhia por muito mais do que 10 minutos. -----Tendo em conta que o bilhete apenas pagara 2 horas de viagem e ficámos bastante tempo com os golfinhos, não tivemos tempo para dar o típico mergulho no Cabo Girão (uma das minhas grandes lamentações desta viagem). Diário | 27


-----Quando atracámos era já hora do almoço. Fomos a um restaurante chamado “Zona Velha”, na zona velha como é óbvio. Não só a comida era excelente, como o preço da nossa diária foi, no máximo 6 euros, o que é incrível. O atendimento foi também bastante bom, com pessoas humildes e simpáticas. -----O restante dia foi passado no nosso hotel, acabando apenas por voltar a sair à noite, para ir jantar com um grupo de amigos madeirenses, ao Lido. Após uma refeição de abarrotar no "Papa Manuel", fomos até um bar na zona balnear, beber umas ponchas. A poncha pode ser servida de várias formas – à pescador, com maracujá ou tangerina, havendo agora mais variedades, mas menos procuradas. -----Foi um excelente serão. Ri muito, diverti-me com pessoas como já não fazia desde o início da pandemia. Fui feliz.

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-----Este seria o meu suposto último dia na ilha. Por a viagem estar a ser inacreditavelmente boa, acabei por reagendar o regres6 DE AGOSTO so a casa para dia 15 de Agosto, ou seja, mais de uma semana depois. -----Nesta quinta-feira, dormi até tarde e saí apenas na hora de almoço. Fomos almoçar a um restaurante chamado “Gruta”, mesmo por baixo da encosta do casino, em frente à marina. Como o nome indica, ficava dentro de uma gruta, quão incrível é isto? Era daqueles restaurantes com aspeto de não ser economicamente acessível mas, tem diárias a 7 euros e a comida é divinal, muito bem servida. Aqui comi o melhor bolo do caco da ilha (e a este ponto já tinha comido cerca de 10). -----Na Madeira, vários frutos regionais parecem ser tropicais. O meu preferido foi, sem dúvida, a banana ananás. Porquê este nome? Por ter o aspeto de uma banana mas ser ácido. -----Fui jantar com a minha madrinha e a sua família, no Caniço. Não explorarei aqui tudo o que aconteceu nesta noite, pois julgo não ser do interesse de ninguém para além do meu. Receberam-me de braços abertos, conversaram muito comigo e fizeram-me sentir em casa. Entre entradas, prato principal e sobremesas, empanturrei-me totalmente. Fui dormir mais uma vez feliz, com um sorriso rasgado – que mais podemos querer?

GRUTA

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RAVIOLI 7 DE AGOSTO

-----O dia começou solarengo. Fomos tomar o pequeno-almoço no Caniço, a uma confeitaria chamada Ravioli. Ravioli é uma espécie de croissaint , o que acabou por ser o meu pedido. Partimos para o Campanário, Ribeira Brava e por fim Paúl do Mar. -----Paúl do Mar é uma pequena cidade piscatória na zona oeste da ilha. Todas as ruas têm o mesmo nome – 1ª/2ª/3ª vereda, consoante a sua distância à igreja. Aqui existe também uma praia pequena, com pouca gente e um porto. -----O dia terminou em Câmara de Lobos, em casa de outra amiga, onde fiquei durante o resto da minha estadia na ilha.

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LOBOS

8 E 9 DE AGOSTO

-----Estes dias foram passados em Câmara de Lobos e serviram essencialmente para descansar. Após uma semana de viagens diárias e com vários quilómetros em cima, soube bem este repouso. Visitei o centro de Câmara de Lobos, comi e bebi muito. Aproveitei para conhecer a Praia Formosa, uma extensa praia de areia mesmo ao lado do Funchal. -----Foram mais dias de vida boa, em suma. Diário | 31


APITOS

10 DE AGOSTO

-----Após mais uma manhã de praia, partimos em direção à costa oeste da ilha. A primeira paragem foi na Ponta do Pargo, o ponto mais a oeste da ilha. Aqui o terreno é árido como no Caniçal, dado estarmos numa zona muito ventosa. Existe apenas um restaurante e um farol, neste local. Com uma encosta acentuada e mar azul turquesa, que mais será necessário para tornar uma paisagem iílica? Nada, creio. necessário para tornar a paisagem idílica? Nada, creio. -----Com canaveiras, fizemos apitos à moda antiga e regressámos para casa ainda a tempo de ver o pôr-do-sol. Apercebi-me que estava na ilha há mais de uma semana e ainda não vira o pôr-do-sol uma única vez. Assim, numa esplanada na praia da Ribeira Brava, vi o sol "ir dormir", tingindo o céu de rosa, laranja e vermelho vivo. Era visível a ponte da Ponta do Sol ao fundo, onde o sol desapareceu. Talvez seja por isto que se chama Ponta do Sol? Por ser onde o Sol desaparece?...

Diário | 32


ANJOS

11 DE AGOSTO

----Mais uma manhã de ronha. Findo o almoço, bebi uma nikita no centro de câmara de Lobos, no sítio onde, por fama, ela é melhor. E a fama é merecida. Esta bebida é uma mistura de ananás com gela-

do: doce, espessa, refrescante... maravilhosa. -----Saímos do nosso estado de êxtase para irmos para a praia. Inicialmente, o plano era ir até Porto Moniz. Acabámos por ir a um sítio que nunca tinha ido e, ainda bem que assim foi. -----A praia dos Anjos, pouco depois da Ponta do Sol, foi o local escolhido e revelou-se a minha preferida de toda a ilha. Se virem uma fotografia deste paraíso, o vosso primeiro palpite será dizer que estão a olhar para uma paisagem tailandesa. Não acreditarão estar a ver Portugal. -----Olhando para as suas arribas altas, verdejantes e com várias quedas de água, fiquei subitamente agradecida por poder estar ali. Sei que devemos praticar a gratidão regularmente, mas esta foi uma das ocasiões em que pensei "ainda bem que vivi para ver isto". O mundo é lindo, estar vivo é uma prenda. -----Passámos uma tarde incrível, a conversar, jogar e nadar. Desejei congelar o tempo. Foi muito difícil partir.

Diário | 33


BOLA DE BERLIM 12 DE AGOSTO

-----Depois do almoço, parti uma vez mais em direção ao outro extremo da ilha. Em S. Vicente, parámos apenas para comprar bolas de Berlim e seguimos viagem para o Seixal. Julgara não regressar aqui e, nesta segunda visita, a sua praia pareceu-me ainda mais bonita. -----Passei muito tempo a nadar, ler e morenar. -----No regresso a Câmara de Lobos, percorremos um pouco mais a costa Norte, em direção às piscinas naturais do Seixal.

Diário | 14

Por ser já perto do pôr-do-sol, não descemos até às piscinas, ficando antes por um miradouro no seu topo. -----Tempo, porque não paras? Como irei partir daqui?


REIS

13 DE AGOSTO

-----Hoje regressei à Praia Formosa. Estou pela primeira vez desde que me lembro, realmente morena. Sou branca que nem mármore e esta é uma mudança que nunca julguei possível. “Espero que não desapa-

reça tão cedo", pensei eu. -----Depois do almoço, regressei ao Caniço, indo desta vez até à Praia dos Reis Magos. Aqui havia imensos jovens a saltar do paredão para o mar, o que infelizmente acabei por não poder fazer por não estar de bikini. Não obstante, fica mais um item na lista do que fazer na minha próxima viagem à ilha. -----Prosseguimos para Santa Cruz, onde parámos brevemente, fazendo o mesmo em Machico. Por fim, chegámos a Porto da Cruz. Porto da Cruz é uma cidade na costa Norte da ilha, albergando uma serra monstruosamente grande – a Penha Dáguia. Dizem ter este nome por, antigamente, uma águia sobrevoá-la com o intuito de alertar os madeirenses para a aproximação de barcos. -----É impossível olhar para esta serra sem questionarmos a nossa pequenez. Não somos mais do que um pontinho na terra. Somos parte da enorme mãe natureza. -----Rodeada por montanha, mar e palmeiras, coloco os meus fones e ouço Frank Ocean. Quero abstrair-me do facto de a minha viagem estar prestes a acabar.

Diário | 35


----Último dia, estou em negação. Desejo secretamente adiar mais uma vez a minha viagem. -----Na Madeira, reconectei-me. Conheci pessoas verdadeiramente boas, de quem

BRAVA

14 DE AGOSTO

nunca me vou esquecer. Senti fazer parte desta ilha. No meio da loucura de 2020, foi aqui que tive oportunidade de voltar a sentir-me bem, profundamente feliz. Talvez por ser longe de tudo aquilo que para mim é normal. Cresci a amar o desconhecido. Ainda hoje, quero partir, quero viver fora. O novo não me assusta. Assusta-me sim, verdadeiramente, a rotina. Ter a certeza que todas as segundas serão iguais. -----A única certeza que preciso é a de que os meus estão bem. De resto, descubro-me na novidade. Onde a maioria não me conhece, onde nunca estive. -----Obrigada, do fundo do coração, por teres embarcado comigo nesta aventura. Em especial, à Catarina, Mariana e suas famílias, que me trataram da melhor forma possível e me fizeram sentir em casa. -----"A minha vida é um vendaval que se soltou/ É uma onda que se alevantou/ É um átomo a mais que se animou.../ Não sei para onde vou/ Não sei para onde vou/ - Sei que não vou por aí!" , José Régio -----Até já!

Diário | 36


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Diário de Viagem à Madeira by NEM/AAC - Issuu