Skip to main content

Anemia - edição de Dezembro

Page 1

EDITORIAL

m

“Mais de 100 mortos que pesam na consciência” – uma reflexão que “não vale a pena” ter O título é provocatório e leal a uma não banalização do que vemos, estrada fora, dia fora, sob a luz ainda quente de outubro. A não banalização da tortura sádica começa aqui. Para mim, começa aqui, porque daqui partirá toda a tomada de consciência apoteótica que se lavra das minhas catarses confusas e dantescas. Uma consciência dantesca, inabalavelmente irónica, que acaba por se dissipar no cenário alvo da minha reflexão. Lamento-a de noite e de dia, quando abro ou fecho os olhos e conto. Conto e relembro, na humildade que o valor, nada numerário, da cidadania e os meus pais me impõem e na rotura com a grotesca falta de entendimento de um atentado público. Mal surgiram as primeiras horas de notícias, repliquei de olhos fechados, de corpo num não movimento perturbador, a dor que aquelas pessoas deveriam estar a sentir. Quase que a sentia, como uma asa de garça em vento denso. Alienação. Bizarria. Calamidade. Dor. Escárnio. Família. Guerra. Heresia. Iniquidade. Podia escrever uma ou meia dúzia de parágrafos sobre cada uma das inumeráveis palavras que me assolam os momentos de silêncio de pensar e que, tal folhas de eucalipto, se inflamam e voam em golpe de sabre assim que ganham letra. Podia fazê-lo, como podia escrever sobre cada um dos nomes que, agora, jaz em lápides e na memória viva de quem ficou por eles. Ainda que os não

conhecesse, podia dedicar-lhes as palavras que tenho, cobertas do amor que sei que precisaria se não pudesse escrevê-las aqui. Toda esta necessidade percentualmente egoística de crítica, de revolta manuscrita, de choro guerreado de mim para mim e de mim para lá, de punho cerrado em indignação e medo, não vai cessar, porque é essencial. Mas valerá a pena? Valerá a pena limpar a alma do que nos consome, valerá a pena refletir, quando tempo já o houve, excedendo quase tudo o resto que existe? Infelizmente, toda esta proclamação de temor, de choque que se quer dissipado, valerá sempre mais em favor da nossa leveza de espírito do que para quem foi humanamente vítima. Infelizmente, desta e de outras vezes, não foram só palavras que o vento levou. É tempo, e tempo houve já em demasia para reflexões, de agir, a curto prazo, porque o calor, a seca, a maldade, o descuido, a impreparação, estão sempre para chegar. É agora, agora, a chamada de estabelecer um perímetro de segurança efetivo em redor das habitações, das vias de circulação, é hora de cortar de raiz, sem metáforas ou hipérboles, toda a vegetação que circunda infraestruturas de uso do homem. Urge, sem tempo, dizimar as manchas de eucaliptos. Urge, sem tempo, haver segurança interna com recursos humanos vastos, prontos, sem lobbies, sem jogos de influências. Urge antever. Urge capacitar. Urge cadastrar. Urge não compactuar. Urge preservar na consciência a morte deste país e, sem mais reflexões teóricas, distantes, perpétuas, sem proficuidade imediata, agir.


Uma boa amiga diz-me que sob a lei dos grandes números, pode chegar a altura em que ninguém exista que queira assumir funções governamentais; ao dizer-me isto e fazendo a conta que retira as brigas de influência, a sagacidade de poder, a corrosão das primeiras motivações, diz-me analogamente, que acredita que a ousadia, a bravura inocente de querer fazer mais, pelos outros e por si, diga-se, a ramificação da bondade e da intervenção que se encontram a meio caminho, cessarão também. Algo que brotará, inequívoca e ininterruptamente, do circo a que a manta governamental ou o simples erro humano, se expõe quando uma atrocidade se pluraliza e se vê pública. Será isto intrinsecamente suportável? Valerá mais o dilema infinito entre não fazer parte da nódoa dilacerante a que se almeja o constante cuspe do povo e o ativismo mais ou menos precoce de quem quer um lugar na mesa para emendar, requalificar, defender e repor. Andei no terreno e do terreno tirei o tempo para ocupar estas páginas a relembrar o que na primavera já estará mais verde. Até lá, os quilómetros que percorri de estrada negra, rodeada de cinza, metades, nada, fazem-me pensar que refletir é uma perda de tempo, porque tempo já não há para quem saiu da vida como que de uma passagem bíblica tenebrosa. Escrever sobre o que aconteceu é comunicar de mim para vós a minha dor que será, percentualmente, em alguma parte destes lugares muito e pouco nossos, a dor múltipla dos sofredores. Escrever é não esquecer, já se disse por aí. E não esquecer é importante. Não esquecer é vital. Espero, num mundo em que a comunicação se vê

tarjada de simbologia obscenamente dúbia, em que a memória dos outros ocupa um lugar cativo nos interesses promíscuos que vêm de cima, ou de baixo, que consiga quebrar esse paradigma, não da forma ingénua e efémera que o desejo implica, mas com a exposição de uma verdadeira reivindicação, com um aperto de mãos bem dado entre mim e o desassossego. Não podemos esperar alcançar certas verdades, se persistirmos em embalsamar em nós os seus paradoxos. Por isso, o desafio seria escrever uma edição em que a clave transversal fosse “novos encontros”, uma agitação às águas que teimamos imutáveis. Nada o é, bem vemos. Das viagens, imagens, histórias, linhas e espaços desta compilação romanesca em revista podia retirar belíssimas passagens para desfilar por entre ideias de primeira página apropriadas. Riqueza não lhes falta. Permitam-me ter-me feito subserviente da ausência como promessa de um novo encontro, sempre menos meu que de quem a vive e ficou. Para que, depois disto, possa ir com o silêncio e com as árvores. Não esquecer. Por Vitória Silva de Melo, 5º Ano


ClOA

COIMM

INTERCÂMBIO CLÍNICO

O que é que nos faz sair do nosso conforto? O que é que nos faz querer ir além fronteiras e conhecer o desconhecido? No meu caso, talvez um pouco de insaciedade, a inquietude de estar sempre no mesmo local, algo semelhante à música de António Variações: “vou continuar a procura do meu mundo, o meu lugar… ” Sendo assim, procuro ter experiências que me enriqueçam, tanto no cariz pessoal, como profissional. Uma das oportunidades que temos para arriscar e conhecer outros locais, como estudante de medicina, é o programa de intercâmbios clínicos ou científicos. Quando chega a Outubro, o burburinho em redor do tema é praticamente diário e inicia-se a pesquisa: para onde é que eu vou? Confesso que, inicialmente, pensei na América do Sul, mas, no momento da escolha… Indonésia! A curiosidade pela cultura asiática foi mais forte e, enfim,… por que não? Era a primeira vez que iria para o oriente. Sempre me habituei a rumar a sul e a sentir o calor da música e do sol africanos. Decidi arriscar e mudar de tom musical e cultural. Os receios claramente apareceram…. o de ir sozinha, as condições que iria encontrar, o lidar com a religião muçulmana, a língua, a gastronomia… havia tantas dúvidas de como iria ser o meu mês de agosto. Cheguei a Sumatra, aquela ilha de que não se costuma ouvir falar em relação a turismo, mas sim a tremores de terra, tsunamis, chuva, etc. Após a aterragem, ainda no controlo internacional, já se iniciava aquela que seria a habitual abordagem diária: posso tirar uma foto? Achei

mo-nos a favorecer novos encontros e criar laços. Bem, nada como pô-la em prática com um bom banho de caneco de água fria e ter de acordar às cinco da manhã, com o melhor despertador - as orações na mesquita. Estas foram, provavelmente, as duas coisas que mais me custaram nos primeiros tempos. O resto é levado com um sorriso na cara, mesmo quando não percebemos o que nos dizem, seja em casa, na rua, no táxi ou no hospital. Neste contexto, uma comunicação corporal amistosa, a boa disposição e o simples saber cumprimentar, salamat pagi (bom dia), por exemplo, eram mais valias em momentos em que imperava criar uma relação de empatia. Após a adaptação diária ao espaço envolvente, vem a tentativa de compreender o que é realmente viver numa cidade no Este de Sumatra e, em particular, como se aplica o conceito de saúde na rotina daquele lugar. Foi aqui que recebi e que, julgo de uma forma pluralista, se recebe o maior “choque”. Apesar de denotar uma razoável prestação de serviços, foram duas as situações que me intrigaram imenso. A primeira prende-se com a elevada prevalência de cancro da mama em jovens, entre os 20 e os 35 anos. A segunda concerne ao papel primordial que a medicina tradicional assume na vida diária, sendo que os casos que chegam ao hospital são já os de cuidado extremo, em estadios muito avançados, no caso do cancro. Nos países em desenvolvimento, haverá sempre a luta pela mudança de comportamentos e pela educação das

A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos senão o que somos

"

Fernando Pessoa estranho, mas não me fiz de rude e lá foi uma rodagem de fotos com este e aquele… Pensei: serei assim tão diferente? Será de ser branca, a altura ou o nariz? A bem dizer, acho que nunca cheguei a perceber a real diferença que tinha em relação a eles. Quando decidimos embarcar numa aventura deste género, em que vamos contactar com culturas diferentes, a máxima que devemos ter é “mente aberta”, dispor-

populações. Mesmo com estas diferenças, a experiência, a aprendizagem e a partilha são, a meu ver, ganhos muito difíceis de contabilizar. O conhecimento que adquiri a cada consulta, cirurgia, urgência, seja a nível de comunicação, atuação, objetivado no de devemos ou não dizer ou fazer, é por demais valioso. Acima de tudo, relembro a partilha, a curiosidade não só minha, mas deles face


I às técnicas europeias. É esta valência que garante a autenticidade e a beleza destas experiências. Desta dinâmica tão verdadeira, parte a minha vontade imensurável de querer descobrir novos mundos. Nessa medida, e abordando um pouco a temática do voluntariado, sendo um dos meus lugares, haveria, sem dúvida, mais bondade no mundo se utilizássemos o provérbio chinês “Não dês um peixe a um homem, vê como ele pesca na sua parte do mundo, e percebe o que lhe faz falta para pescar melhor”. Com isto, pretendo dizer que sim, é incrível e espetacular dar de nós a outros povos. Evidentemente que ganharemos mais do que o que damos. Contudo, para não prejudicarmos, é necessário estar bem ciente de cada necessidade. Será preciso conhecer bem o terreno que, a meu ver, é uma vertente em falta. Há imensa vontade de ir, muitas vezes motivada, ingenuamente, pelo pensamento de que “qualquer ajuda é bem vinda”, uma formação, uma reconstrução. Por vezes, estas lacunas seriam mais eficientemente supridas se estudássemos o porquê de ir, as reais carências. A balança do dar e receber nem sempre é equilibrada. Não o digo de forma maldosa, porque, para mim, existe uma bagagem emocional difícil de retribuir. Abandonar o país com a sensação de coração cheio e que não nos cabe no peito, o sorriso rasgado, de orelha a orelha, e o quase sentimento de que, em outras vidas, pertenci e vivi naquelas terras, associado à certeza de que consegui contribuir para o bem estar de alguém seja através de cuidados, educação ou investigação, é, sem dúvida, o que me move e me faz deixar o conforto

ICTM

da minha família. Porém, enganam-se se pensam que não se criam outras famílias! “A vida é a arte do encontro”, e esse encontro, seja com pessoas locais ou estrangeiras, marca, toca e ensina, fazendo parte da alavanca que vai mudando o mundo. Por tudo isto, aconselho, vivamente, a saírem do vosso ninho e lançarem-se, mesmo em voo inaugural, para qualquer uma destas experiências. Quer através de programas de voluntariado em países em desenvolvimento, quer através de um intercâmbio. Sem dúvida que haverá e sentirás muitos receios, mas, no fim, compensarão! Mesmo quando se vai sozinho, nunca se está sozinho, a disponibilidade para conhecer e fazer novas amizades será sempre maior. No fim, olharás para trás com saudosismo e carinho e, para a frente, com uma capacidade de pensar e olhar o que te rodeia muito mais rica. Arrisca!

Texto por Carina Castro Silva, 5º ano


Entrevista conduzida por Sara Brandão a Dr. João Alves Martins

INTERNATO MÉDICO NO ESTRANGEIRO

ENTREVISTA


I

Dr. João Miguel Alves Martins, de vinte e seis anos, natural de Coimbra, foi estudante de Medicina na FMUC, tendo sido membro da Direção do Núcleo de Estudantes de Medicina, desempenhando funções de Coordenador do Departamento de Mobilidade Internacional. Colaborou, por diversas vezes com a redação da revista Anemia e é afamado por ser autor do fenómeno “Martins”, a sebenta da cadeira de Anatomia que já salvou muitas vidas nesta muy nobre instituição. Antes de iniciarmos as questões preparadas para o João, ele fez questão de tomar a palavra e de, através dela, nos acarinhar de forma muito gratificante.

I

CTM

A

ntes de começarmos a entrevista per se, queria só agradecer, genuinamente, o convite que me foi endereçado, sobretudo tendo, durante o meu tempo na FMUC e no NEM/AAC, também escrito para a Anemia. Q: Poderias começar por nos contar um pouco do teu percurso académico? JM: Ora bem, eu sou de Coimbra e foi lá que vivi, cresci e estudei antes de entrar para a Universidade. Apesar de não ser capaz de apontar uma razão para tal ter acontecido - foi antes uma combinação de fatores e circunstâncias – a verdade é que acabei por ficar “em casa” (no sentido literal e figurado). Isso, de certa forma, criou em mim um “bichinho”, uma certa irrequietude. Por altura do final do primeiro ano, já estava bem marcada a minha vontade de sair, ainda que não soubesse bem como nem para onde. No início do segundo ano, comecei a aprender alemão, já que apontava a Alemanha e a França (dado que sou fluente em francês) como potenciais destinos para Erasmus. Acabei por ir para Bonn, na Alemanha, onde passei um quarto ano inesquecível. Fui à procura de novas experiências médicas e clínicas, mas regressei com uma nova perspetiva sobre quem eu era e o que queria atingir. No regresso a Portugal, integrei a Direção do NEM/ AAC, enquanto Coordenador do Departamento de Mobilidade Internacional (e aqui agradeço ao João Cardoso a não-tão-subtil capacidade de persuasão), experiência que me enriqueceu ainda mais a nível pessoal e profissional. No entanto, o “bichinho” não desapareceu e, até ao fim do curso, fiz, ainda, Intercâmbio – SCOPE – no Québec, Canadá e cinco meses de Erasmus Placement em Viena, Áustria (durante o meu último ano). Por esta altura, tinha já decidido que não iria fazer a Prova Nacional de Seriação, não só por estar um pouco perdido sob ponto de vista profissional – mais comumente conhecido como “acabar o curso e não saber que especialidade querer” – mas tam-


bém por ter experienciado, na primeira pessoa, o quão aliciante era poder moldar o meu próprio caminho. Decidi, então, que precisava de trabalhar e ganhar experiência, sem pressões nem pressas, antes de me comprometer com uma decisão que, afinal de contas, é para o “resto da vida”.

"Quando fui para Viena no sexto ano, fui já com a perspetiva de explorar possibilidades e preparar caminho."

previsto, fiz cinco meses de ano comum (AC) na Figueira da Foz e, desde Julho de dois mil e dezasseis, que estou no Reino Unido (RU). Q: O que te motivou a escolher o Reino Unido? Quando te candidataste, já tinhas o feedback da experiência de algum médico português a passar por essa experiência? JM: O que me aliciou, sem dúvida, foi o FP. Para quem não está a par, o FP é um programa de treino/formação pós graduada – isto é, pós curso mas pré especialidade – com a duração de dois anos, na qual os médicos fazem três rotações de quatro meses por ano. Isto permite experimentar diferen

Q: Em que fase da tua carreira médica te encontras atualmente? JM: Eu estou neste momento no meu terceiro ano pós MIM. Estou em Truro, Cornwall, na Inglaterra rural e remota, a fazer o segundo ano do Foundation Programme (FP). Não estou ainda a fazer nenhuma especialidade nem me devo candidatar tão cedo. Q: Em que fase do teu percurso académico começaste a ponderar prosseguir a tua formação médica no estrangeiro? E, nessa fase, já tinhas algum destino em mente? JM: Acho que pensei nisso, a sério, pela primeira vez, quando regressei a Portugal para o meu quinto ano. Foi um choque voltar, quer pelo que o ano de Erasmus tinha representado a nível pessoal para mim – emancipador é understatement – mas também a nível profissional. A partir daí, a ideia foi crescendo e, quando fui para Viena no sexto ano, fui já com a perspetiva de explorar possibilidades e preparar caminho. Quando finalmente acabei o curso (em julho de dois mil e quinze), o meu plano inicial - e mais lógico - era tentar a Alemanha. No entanto, por esta altura, sentia-me um pouco perdido a nível profissional, sem saber sequer se queria continuar a fazer Medicina. E aqui, não ajudava o facto de o sistema alemão obrigar a uma candidatura direta numa área específica (medicina, cirurgia, etc.). Mais ainda, por muito que fosse capaz de comunicar sem problema, o alemão nunca deixou verdadeiramente de ser uma barreira, já que é uma língua cansativa e que exige muito esforço diariamente. Cheguei ainda a fazer dois meses de Erasmus Placement pós curso em Augsburg, no sul da Alemanha, mas por esta altura a minha cabeça já estava noutro sítio (já me tinha candidatado ao FP). Acabei por regressar a Portugal mais cedo que

tes áreas da Medicina, sem nenhum compromisso posterior, e ganhar calo, ao mesmo tempo. Dado que não sabia bem que especialidade queria seguir, foi a forma que arranjei de adiar a decisão, temporariamente, e ganhar a minha autonomia. O facto de ser em inglês ajudou imenso, por ser uma língua com a qual estava perfeitamente à vontade. Não conhecia ninguém que tivesse feito o FP, apenas me baseei naquilo que fui lendo online. Conhecia, no entanto, duas pessoas que estavam ou tinham estado no RU em diferentes momentos da sua formação, com quem entrei em contacto. Q: Como se processa a candidatura à especialida


I

I

"O que me aliciou, sem dúvida, foi o FP (...) permite experimentar diferentes áreas da Medicina, sem nenhum compromisso posterior, e ganhar calo, ao mesmo tempo."

de no RU? Que requisitos são solicitados aos médicos com formação no exterior? Onde se encontra disponibilizada informação mais detalhada para quem está interessado em candidatar-se? JM: O ponto de entrada para a grande maioria dos médicos é o FP. Os estudantes do RU candidatam-se entre o penúltimo e o último ano do curso, dado que o processo de candidatura dura, aproximadamente, um ano. Aos estudantes vindos do resto da Europa, no entanto, é exigido que apresentem o certificado de conclusão do curso para fazer a candidatura. Isto significa que tive de esperar um ano entre terminar o MIM e começar o

CTM

FP (daí ter ido para Augsburg e feito parte do AC nesse período de transição). A candidatura é feita online e baseia-se em duas componentes: cinquenta pontos são atribuídos à parte académica – aqui é valorizado o decil (isto é, a posição relativa), em que cada um se encontra na sua faculdade (quarenta e três pontos para quem está no primeiro decil, quarenta e dois no segundo, ... para um mínimo de trinta e quatro pontos), bem como publicações (até dois pontos) e formações adicionais (até cinco pontos); os restantes cinquenta pontos concernem ao SJT (Situational Judgement Test) - um exame não clínico que avalia a capacidade de decisão e atuação, perante determinadas situações do dia a dia hos

pitalar (feito presencialmente em Londres). Não vou entrar em grande detalhe, até porque o site oficial do FP disponibiliza um Handbook fantástico com toda a informação necessária. Acrescentaria, apenas, o facto de um dos pré requisitos necessários ser o IELTS (International English Language Test System), com uma nota mínima de sete e meio em nove, em cada uma das quatro partes (Listening, Reading, Writing e Speaking). Em alternativa, é possível a candidatura diretamente às diversas especialidades, embora experiência prévia no RU/NHS seja um pré requisito para a grande maioria. Aqui, poderá haver alguma flexibilidade em áreas mais carenciadas como General Practice (GP, equivalente a MGF) e Psiquiatria, embora convenha conhecer o sistema antes de começar. Para quem opta por esta última via (ou para quem já concluiu o AC, o que impossibilita a candidatura ao FP), é possível procurar, diretamente, nos diversos hospitais por non-training posts - isto é, vagas de seis meses a um ano não integradas em programas de formação -, para ganhar alguma experiência e currículo. Existe, ainda, a possibilidade de ocupar vagas não preenchidas do FP (FY1/FY2 stand-alone), que são disponibilizadas no site do FP.


Q: Qual a duração e dinâmica deste programa que escolheste no RU e como se processa a avaliação, ao longo da mesma? JM: Fiz o meu primeiro ano (FY1) em Exeter, Devon. Estive quatro meses em Cirurgia Geral (equipa de Upper GI Surgery), quatro em Pneumologia (Respiratory Medicine) e quatro a fazer Anestesia e Cuidados Intensivos. Estou, agora, desde início de agosto, em Truro, Cornwall, a fazer o meu FY2 em Urologia. Segue-se AMU (Acute Medical Unit) e Saúde Pública. As especialidades pós FP variam muito. Existem as run-through (do início ao fim, sem necessidade de voltar a candidatar) como GP (três anos), Radiologia e Saúde Pública (cinco anos), Ginecologia e Obstetrícia e Oftalmologia (sete anos) e Neurocirurgia (oito anos). As restantes são uncoupled, isto é, exigem uma primeira candidatura a um dos core training (tronco comum) que dura dois (médico e cirúrgico) ou três anos (ACCS e Psiquiatria) e uma candidatura posterior a cada uma das áreas de especialidade. Quanto ao processo de avaliação, é, certamente, transversal a todas as etapas da formação pós graduada. É-nos atribuído um portfólio eletrónico que vamos atualizando, com determinados requisitos e competências (casos clínicos, procedimentos, reflexões, avaliações de equipa, etc.). No final de cada ano, somos sujeitos a uma avaliação curricular - o ARCP (Annual Review of Competence Progression). Se atingirmos todas as metas, temos aprovação para prosseguir a formação. Q: Comparando Portugal e RU, quais as principais diferenças na formação entre o programa que frequentas e o Internato de Ano Comum? JM: A maior e mais gritante diferença prende-se com a disparidade de responsabilidades que nos é dada no AC. Por não temos um “lugar para nós” - isto é, uma vaga destinada a nós e com funções claramente bem definidas - o nosso trabalho (e, consequentemente, as responsabilidades que assumimos) ficam, inteiramente, dependentes da equipa ou tutor que nos é atribuída/o e do número de IACs que esse serviço recebe. No FP, nem que seja por haver uma vaga criada especificamente para mim, sinto que integro verdadeiramente uma equipa desde o primeiro dia e que, seja em que circunstância for, a minha presença (ou ausência) faz muita diferença. Outro aspeto que me fez muita confusão quando estava na Figueira da Foz foi o facto de não haver quaisquer metas ou objetivos a cumprir durante esse ano. Não há requisitos formativos ou qualquer tipo de suporte ou supervisão do ponto de vista educativo. Obviamente que isto tem que ver

com o sistema em que o AC se insere, já que somos relembrados da creche à reforma que o que conta é a nota e não o currículo ou o percurso. No FP há, então, metas educacionais a cumprir, já que o principal objetivo do programa é a formação do médico e não apenas a sua utilização para provisão de serviços. Q: O programa de internato no RU contempla horário remunerado específico para dedicação à investigação? JM: Não é um assunto sobre o qual me posso pronunciar tão facilmente, mas sei que existe ainda o Academic Foundation Programme (AFP) – cuja candidatura é simultânea e paralela ao FP – que disponibiliza programas que substituem tempo clínico do FY2 por uma vertente académica (investigação, educação médica, liderança, management, etc). Vagas semelhantes existem pós FP – os Academic Clinical Fellowships (ACP) – para quem pretende seguir uma vertente mais académica, mas não é uma opção que tenha explorado. Para quem se limitar a fazer o percurso “normal”, existe a possibilidade de trabalhar com redução de horário - less-than-full-time - mediante uma justificação válida (que pode ser investigação ou obtenção de uma pós graduação, mestrado, doutoramento, etc.). Q: No Hospital em que te encontras, existe algum programa de “acolhimento” específico para a integração de internos recém imigrados ou, pelo menos, são oferecidas condições especiais que permitam uma adaptação ao sistema de saúde inglês, ao desenvolvimento linguístico e/ou cultural? JM: Não creio que haja nenhum programa exatamente nesses moldes. No entanto, os FY1 fazem uma semana de shadowing, antes de começar a trabalhar que, pelo menos a mim, ajudou a amortecer a queda a frio no mundo do NHS. É também possível pedir períodos semelhantes de observação (não remunerados), para quem nunca tenha trabalhado no NHS, o que facilita a adaptação. Quanto à língua, o IELTS é um pré requisito obrigatório para a inscrição no General Medical Council (GMC) – entidade reguladora da atividade profissional no RU, equivalente à Ordem dos Médicos -, pelo que obriga os médicos imigrantes a ter um bom nível de inglês. Q: Quais as principais barreiras com as quais te tens confrontado? Em que medida as diferenças culturais com as quais te deparaste facilitaram / dificultaram a adaptação?


I

I

JM: O facto de ter começado o FP ao mesmo tempo que todos os médicos recém graduados - muitos vindos de diferentes partes do país, ao estilo do AC – facilitou muito a minha integração, porque rapidamente fui “adoptado” e criei um grupo de amigos próximos. A maior barreira foi mesmo ter começado um relacionamento pouco tempo antes de emigrar, pelo que ando, há mais de um ano, para trás e para a frente. Mais que as diferenças culturais, foi isso que me impediu, até agora, de assentar verdadeiramente. Q: Sendo um médico de nacionalidade diferente (e recentemente emigrado, ainda com possíveis barreiras linguísticas e culturais), que influência tem tido esse aspeto na relação médico-doente? JM: Não diria que a língua tenha sido uma barreira, embora tenha levado algum tempo até se tornar uma coisa natural (comunicar, pensar, escrever em inglês). Já o ser português nunca foi, de todo, um problema. O NHS é um sistema de saúde multicultural e multiétnico, com milhares de profissionais oriundos de todas as partes do mundo, e os doentes lidam com isso de forma natural. Quanto muito, a minha nacionalidade suscitou perguntas curiosas e conversa fiada (“beautiful country”, “Yes, I’ve been to Allbufêra and Lágóx”, “páxtél de nátáh”, coisas do género). E sim, muita dificuldade em pronunciar João...

CTM

JM: Antes disso tenho de a começar! Neste momento estou a pensar seguir Saúde Pública aqui no RU, embora não me pretenda candidatar imediatamente após terminar o FP. Quanto a regressar a Portugal, nunca fui de extremos e aqui não fujo à regra: nem sempre, nem nunca. Se tiver algo que me faça voltar (seja a nível pessoal ou profissional), a opção está em cima da mesa. Mas por agora não penso nisso. Q: Que conselhos poderás deixar aos finalistas, e teus futuros colegas que, neste momento, temem não usufruir da possibilidade de concluir a sua formação médica em Portugal, quer por não poderem aceder à especialidade que pretendem ou por nem sequer poderem vir a obter uma vaga num colégio de especialidade? JM: Não tenham pressa. Sei que é muito fácil falar, e que nem todos podem (seja por motivos financeiros, pessoais ou qualquer outro) nem querem emigrar, e aí não há problema nenhum! Mas também é muito fácil deixarmo-nos ir com a corrente sem pensarmos bem no que estamos a fazer ou porquê. Procurem o vosso caminho, à vossa maneira, dentro do que forem as vossas limitações. Concedam a vocês mesmos algum tempo para bater com a cabeça, cair e levantar, essa experiência ser-vos-á certamente muito útil.

Q: E na relação com os pares? Podes contar-nos um pouco como tem sido a tua integração na equipa de profissionais de saúde? JM: Exatamente pelas razões que descrevi acima, eu sou mais um (e não uma exceção ou aberração). Sempre fui tratado com o mesmo respeito e profissionalismo que qualquer outro médico britânico ao meu nível ou na minha posição. E aproveito o seguimento da pergunta para lançar um dos aspetos que mais me tem atraído no exercício da profissão médica no RU: a multidisciplinaridade. Enfermeiros/as, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, farmacêuticos/as hospitalares, técnicos/as, enfermeiro/as especialistas (da diabetes, da dor, oncológicos, prescritores ou não), há uma abundância de profissionais de saúde a trabalhar em conjunto para um único propósito, um único recipiente: o doente. Q: Depois de concluíres a especialidade, pretendes ficar no Reino Unido? Pensas voltar a Portugal um dia para exercer Medicina? (E neste último caso, o que te faria voltar?)

"Procurem o vosso caminho, à vossa maneira."."


FAMÍLIAS "BOAS" E FAMÍLIAS "MÁS"

DR. HERNÂNI CANIÇO

CRÓNICA


II

CTM

Assistente Graduado Sénior em Medicina Geral e Familiar, Doutorado pela Universidade de Coimbra / Faculdade de Medicina, Competência em Gestão dos Serviços de Saúde

E

m saúde da pessoa, contamos com a realização pessoal, a família, o trabalho, os amigos, a sociedade, o estilo de vida e as morbilidades. Há novos tipos de família, havendo necessidade de analisar a estrutura, a relação conjugal, e a relação parental, articulando-as na definição, funções, limitações e potencialidades. As novas definições introduzem novos factos e papéis individualizados e do todo familiar, criadoras de sinergias, mas também fatores de possível disfunção. O desejo de afirmação, o individualismo, a competitividade, a oportunidade, a par da sensibilidade, consciência, alegria de viver, ser útil, ser feliz, são elementos (quais pratos da balança), que se posicionam, em globalização ou humanidade. Não têm sido classificadas famílias como “ideais”, imunes aos problemas do todo familiar e da sociedade, nem são caracterizadas famílias como “defeito”, incapazes de reagir a estímulos e não se superiorizar nas dificuldades. A família “global”, considerada chave no conceito de cuidados e Desenvolvimento, com interpenetração das várias famílias tipificadas e os reflexos sociais, condiciona a estabilidade familiar e essa função social, em

aproveitamento ou disfunção. O equilíbrio familiar aumenta as sinergias propícias à dimensão humana, ao tecido produtivo e à ação social, enquanto a disfunção e a família desestruturada potenciam o sofrimento da pessoa, o risco profissional, o comportamento insociável e, até, a criminalidade. A relação médico/doente constitui um meio sólido e eficaz para aproveitamento das capacidades da família em crise, interagindo em conhecimento, independência e conciliação, bonomia e afabilidade. O médico de família, enquanto médico pessoal e de proximidade, é a pessoa/profissional mais bem colocado para, quanto à família, classificar quadros, detetar disfunção, gerir conflitos, rentabilizar capacidades, orientar problemas, tratar com qualidade de cuidados, promover saúde, prevenir riscos e doenças, ser solidário. Entre as principais fragilidades relativas ao desempenho dos responsáveis com óbvias consequências nos profissionais, encontra-se o desconhecimento global da saúde da família como fator de paz e coesão social. A crise económica instalada e ainda não completamente debelada e as dificuldades da família em ultrapassar as carências e

satisfazer as necessidades, assegurando a sustentabilidade do agregado familiar, sem prejuízo dos direitos humanos, fundamentam a saúde da família como necessário fator de paz e coesão social e tornam-no recurso sólido a desenvolver. A familisofia e a famililogia Caracterizámos objetivamente 34 tipos de família, discriminados quanto à estrutura / dinâmica familiar (21), quanto à relação conjugal (6), e quanto à relação parental (7), objurgando a classificação de “outras famílias”, pela falta de clareza e rigor científico, insensibilidade humana e ausência de perspetivas de intervenção familiar, quanto a essa designação. Avaliamos também áreas de análise em saúde da pessoa. Na família, analisamos o tipo de família (quanto à estrutura / dinâmica global, à relação conjugal e à relação parental), o grau de satisfação familiar, a funcionalidade da família e a sua transformação, com mudança da composição e dinâmica. A realização pessoal inclui a saúde, o bem estar, o lazer e o perfil da pessoa. No trabalho, consideramos o estatuto profissional, as relações laborais, a remuneração, a igualdade de oportunidades e a


influência do trabalho na família. Quanto aos amigos, consideramos as suas características, as capacidades, as redes de amigos e o grau de importância/influência. A sociedade inclui as áreas relativas à rede social, ao voluntariado, a motivação e preocupações sociais, os tipos de organizações, instituições e associações, e o contributo da sociedade para a pessoa. O estilo de vida integra as áreas alimentação e nutrição, exercício físico, hábitos e prejuízo, participação cultural e grau de promiscuidade. Quanto às morbilidades, consideramos as áreas consequências em saúde das doenças crónicas, a limitação da vida diária provocada pela doença, e as dificuldades dos cuidadores no apoio aos idosos e doentes crónicos. O retrato da pessoa e da família As nossas conclusões retratam o pensamento dos inquiridos, constantes da população-alvo, o que nem sempre coincide com a imagem que nos é dada pelos mass media, ou por perspetivas, quiçá, sensacionalistas, que pretendem e podem condicionar o comportamento das pessoas. A ciência comprova a caracterização do ser humano, o seu

pensamento e ação, as vicissitudes e consequências da atitude das pessoas, contribuindo para o desenvolvimento dos povos, em progresso, ação social, democracia representativa e primado da pessoa. Os inquiridos consideraram, quanto ao mais importante para si: 1 – A saúde mental é o mais importante, quanto à sua saúde, ter objetivos de vida é o que mais contribui para o bem estar, ser útil aos outros (família, amigos, sociedade) é o que mais valorizam / apreciam no seu espaço de lazer, e ser responsável, empenhado, dedicado é o que os inquiridos mais valorizam / estimam nas características do seu perfil. 2 – A maioria está satisfeita com a sua família, embora apenas 57,8% estejam muito satisfeitos, e a maioria (63,8%) considera a sua família funcional sem limitações. 3 – A profissão, que consideram adequada à sua formação, é o que consideram mais importante / satisfatório, quanto ao seu estatuto profissional; o ambiente de trabalho em harmonia, sem conflitualidade, é o que conside-

ram mais importante/satisfatório; quanto às relações laborais, assegurar a sua sustentabilidade e da família, é o que consideram mais importante; quanto à sua remuneração, ter as mesmas oportunidades que os colegas, para idênticas qualificações, é o que consideram mais importante; quanto à igualdade de oportunidades, e o trabalho não interferir com a afetividade familiar, é o que consideram mais importante, quanto à influência do trabalho e a família. 4 - Demonstrar afeição, estima, companheirismo, é o que mais apreciam, quanto às características dos seus amigos; a capacidade de compreensão e interajuda, é o que mais valorizam; quanto às qualidades e capacidades dos seus amigos, a participação em

"Toda a família é uma oportunidade de encontro entre pessoas, num quadro idílico e enternecedor, mas pode ser simultaneamente um problema" grupos de intervenção / ação (causas sociais, voluntariado, solidariedade), é o que mais valorizam; quanto às atividades dos seus amigos, darem ânimo e estímulo, combatendo o abati-


II

mento e a tristeza, é o que mais valorizam, quanto à importância e influência dos amigos na sua vida. 5 – Ser solidário com causas, princípios e valores da comunidade, é o que consideram mais importante, quanto ao que fazem ou poderiam fazer a favor da sociedade; ser voluntário é ser solidário é o que consideram mais importante, quanto ao voluntariado; combater a pobreza e exclusão social dando o seu contributo em esforço ou económico, é o que consideram mais importante, quanto à sua motivação e preocupações sociais; as organizações humanitárias são o que consideram mais importante, quanto à classificação dos tipos de organizações, instituições e associações; reduzir os fatores de risco humano e vulnerabilidade pessoal e familiar, é o que consideram mais importante, quanto ao que acham que a sociedade deve contribuir para si. 6 - A alimentação e a nutrição devem ser equilibradas e de qualidade para proteger a saúde, é o que consideram mais importante, quanto à importância da alimentação e nutrição na sua saúde e bem estar; é ou deve ser uma prioridade na prevenção, cura e

CTM

reabilitação de doenças da civilização, é o que consideram mais importante, quanto à importância do exercício físico para a sua saúde e bem estar; o consumo de drogas leves ou duras conduz à perda de saúde e à viciação, é o que consideram mais importante, quanto ao tabagismo, abuso do álcool e consumo de drogas e ao prejuízo que representam para a sua saúde física e mental. 7 - A participação regular em espetáculos de música, cinema,

teatro, ópera, dança, viagens e turismo cultural, etc., é o que consideram mais importante, quanto ao modo como a participação em atividades culturais influencia a saúde; os comportamentos de risco sexual, que envolvem


consequências para os praticantes, parceiros e famílias, é o que consideram mais importante, quanto à forma como o grau de promiscuidade afeta a saúde. 8 - Afetar a autoimagem e a autoestima, pode afetar a personalidade, perturba a relação familiar, influencia o meio ambiente e cultural da pessoa, é o que consideram mais importante, quanto à forma como as doenças crónicas afetam a saúde; pela incapacidade física e motora, com perda de autonomia dessas funções, é o que consideram mais importante, quanto à forma como as limitações da vida diária provocadas pela situação de doença são prejudiciais; quando há falta de apoio dos cuidados continuados da rede pública, é o que consideram mais importante, quanto à forma como a ação dos cuidadores de idosos e doentes crónicos lhes é prejudicial à sua vida pessoal, profissional e familiar. Famílias-problema, médico para quê? Toda a família é uma oportunidade de encontro entre pessoas, num quadro idílico e enternecedor, mas pode ser simultaneamente um problema, em que os afetos são substituídos por ausência de objetivos comuns

aos seus elementos, desconfiança multilateral, agressão verbal ou física, rotura e consequências. Encontrei famílias em que os seus elementos sustentam as suas dificuldades do dia a dia no amparo coletivo e nos recursos profissionais da comunidade. Tenho presente um casal com uma filha estudante universitária, em que o desemprego atingiu ambos os pais, ficando sem recursos económicos para o agregado (incluindo propinas e outros custos de educação), o que levou os pais à depressão reativa e a jovem a uma tentativa de suicídio. Que podia fazer o médico? Conforto sem conformismo, apoio em assunção de direitos sem estímulo à “caridadezinha”, apelo às convicções sem miserabilismo, insistência em alternativas laborais sem desqualificação, diálogo com a estudante sobre motivação e bons resultados do empenho académico, conveniência e vantagem do suporte afetivo no agregado e namoro, valor da vida e sua (in)constância, onde o desespero não é solução. Hoje, os pais têm novos empregos (e novas oportunidades), a filha é licenciada e quadro de instituição bancária segura. Esta nova situação não terá sido por intervenção direta do médico,

mas o olhar terno dos pais e da filha (esta já com o marido e um nascituro que o médico também acompanha), são uma gratificação para o médico que assim cumpriu a sua missão, para além das terapêuticas farmacológicas e estilos de vida. Também encontrei famílias em que o ódio predomina (disse bem, “ódio”) e a correlação interpares não permite um happy end, pelo contrário, prevê-se alguma fatalidade. O casal tem perfis díspares, com o pai confuso em relação à vida, sem capacidade de organização seja do que for e limitações físicas, a mãe enredada no trabalho com crianças em infantário e sem capacidade pedagógica para orientação do seu filho de 14 anos, e o filho sendo um perfeito “gabiru” (só lhe “faltam” 2 alunas da turma…), consumindo substâncias nocivas, sendo líder estudantil e adquirindo roupas de marca, e aumentando o seu pecúlio económico por meios pouco ortodoxos. Que fez o médico? Propôs a (re)organização hierárquica da família (chefia e democraticidade responsável), acompanhou clinicamente os elementos da família de forma individualizada e conjunta, contribuiu para a preparação psicopedagógica dos pais,


II

“massacrou” o jovem não com lições de moral, mas em ação de proximidade e perspetivando-lhe o futuro infausto, articulou-se com os serviços de ação social e correspondente parcela jurídico-legal. Hoje, o pai está destroçado pelo insucesso da sua função paternal, a mãe está envolvida na sua incapacidade, refugiando-se no trabalho, o filho parece estar “bem”. Porque os seus lucros estarão a aumentar… O médico está insatisfeito e não desistirá desta sua (outra) missão. É uma família descontrolada (em que há um problema de comportamentos) e uma família sem objetivos (em que a família como sistema e relação não alcança a união). Famílias, para que vos quero? Sou médico há 40 anos, médico de família há 35 anos, professor durante 27 anos, voluntário durante 23 anos, político desde os 15 anos de idade (o tempo da ditadura). As famílias são o cerne da questão, onde a relação médico-doente permite a medicina de proximidade, a saúde das pessoas influencia o agregado familiar, ser médico é ser humano. Estudar a família é compreender as outras famílias (além da sua),

C TM

segundo a estrutura / dinâmica global, a relação conjugal e a relação parental. Ignorar o estudo da família é ignorar o conhecimento científico, a competência e os recursos da família, a mais valia do médico de família, a função académica da lecionação, a sociedade e os estilos de vida. O plano de cuidados à família Não há famílias boas ou famílias más, há famílias que precisam de boa identificação e caracterização, de forma que o plano de cuidados à família, no seu todo, seja estabelecido com apropriação e partilha, reforçando os poderes agregadores da família, ampliando a dinâmica de coesão familiar, estimulando as competências dos elementos da família, eliminando os fatores perturbadores da homeostase. A elaboração do plano de cuidados à (s) família (s), adaptado caso a caso, introduz uma mais valia no interesse da classificação e na continuidade de cuidados, demonstrando a insuficiência do plano individual de cuidados aplicado isoladamente. O plano de cuidados à família sai reforçado na sua utilidade, a partir da classificação do tipo de família, podendo constituir um complemento modelo anexo dessa classificação, no processo

clínico familiar, onde conste a caracterização daquela família e sugestões de intervenção a concretizar e avaliar, pelo que propomos a sua inclusão no processo familiar em papel e eletrónico. É necessária preparação dos alunos para a adequação dos planos de cuidados à família à boa caracterização das famílias, bem como estudos complementares, recomposição da bibliografia disponível, elaboração de novos materiais didáticos, reforço formativo e formador, e experiência continuada de Assistentes, Tutores e Alunos. Tais desideratos implicam a necessidade de mais formação de alunos e Tutores, em educação médica futura, para apoiar a família no seu todo e a saúde da pessoa, tornando-as mais felizes. Dr. Hernâni Caniço


TEMA DE CAPA Por André Salvada, 5ºAno

ENTREVISTA

Prof. Dr. Júlio Machado Vaz

Q: Hoje em dia, num mundo cada vez mais digital, comunicar tornou-se mais fácil ou mais desafiante? PDJMV: Sim, porque declaramos “comunicação” o que muitas vezes não passa da sua caricatura. O “Outro” está ao nosso alcance, aqui e agora, de um modo instantâneo, mas quando analisamos o conteúdo das interacções somos obrigados a admitir que, o mais das vezes, é muito pobre. Q: O ritmo a que se vive parece ter-se acelerado. Surgem daí consequências relevantes nas relações que forjamos com os outros? PDJMV: Muitos de nós vivem no reino do efémero, do superficial, da aparência. Da baixa tolerância à frustração, da recusa da angústia e da tristeza, na nostalgia da pastilha mágica que leva à beatitude. Q: Recentemente, no programa “O Amor é...” (Antena 1) mostrou-se preocupado com a continuada perpetuação da cultura de humilhação na praxe académica. Sente que a Universidade corre o risco de ir lentamente perdendo os seus valores base? PDJMV: A Universidade não devia pactuar com práticas baseadas na humilhação, no poder do estatuto, na obediência acéfala. O seu objectivo é continuar a formação de cidadãos, não passear carneiros pelas ruas. Q: Tem um álbum e espetáculo,


IIC

“desconcerto” nas suas palavras, com Júlio Resende (Poesia Homónima). Apresentou-o ainda este ano no TAGV, numa noite com poesia, música e pintura. São para sim uma fonte de prazer esses momentos? PDJMV: Enorme. Tem sido a experiência mais gratificante dos últimos anos, estou profundamente grato ao Júlio pelo risco que assume por estar com um amador em palco. Q: Nesse espetáculo confessou um especial carinho por Coimbra. O que guarda com mais afecto desta cidade e das pessoas com quem aqui travou caminho? PDJMV: Tenho boas recordações de Coimbra, mas sobretudo amigos. E entre eles, sabendo que não corro o risco de ofender nenhum, destaco o Chico Allen Gomes, meu mestre e meu irmão. Dedicar-lhe o espectáculo foi um dos momentos altos desta digressão. Q: O que diria a sua mãe (cantora) ao vê-lo agora num projeto com a música como um dos grandes alicerces?

TM

PSJMV: Acho que diria assim: “Menino, fazes muito bem. Mas por favor não cantes!!!!!!!!!!”. Q: O que traz vida à poesia e a poesia à vida? PDJMV: Os poetas buscam a palavra definitiva que dá sentido à vida e nos permite mergulhar num silêncio pacificado. Q: Falando ainda de histórias de vida, a anamnese assume um papel particularmente relevante em Psiquiatria. O que colhe das histórias que ouve no consultório? PDJMV: Quarenta anos volvidos, o espanto perante a diversidade, riqueza e sofrimento dos trajectos de vida. Q: Considera que os alunos de Medicina já desenvolvem conhecimentos e aptidões fundamentais em sexologia clínica ou ainda há muito a fazer nesse sentido? PDJMV: Nem sequer andam lá perto . Dizem-mo eles nas USF e nos Centros de Saúde…

Q: Gostaria de deixar algum conselho à nova geração de estudantes de Medicina e jovens médicos? PDJMV: Pensem a Medicina. Qualquer coisa está errada quando se organizam tantos Congressos sobre a Humanização dela… Q: Tem atuado não só em Medicina mas também nas artes, na comunicação social e também no âmbito da solidariedade social. Tudo é importante ou há algo que lhe preencha mais o coração? PDJMV: Neste momento o maior gozo vem dos Desconcertos. Q: Sem querer forçá-lo a ser futurologista, como vê a saúde da Medicina no futuro? PDJMV: Quando em determinados artigos leio que a expressão “Arte da Medicina” deve ser abandonada por não se coadunar com as “certezas científicas” sinto medo. O rigor que todos almejamos nunca dispensará a arte da consulta necessária para compreender o que se passa com “aquele” doente.


MAIS CULTURA, MAIS VIDA


IICT

M


50ª Edição – Maio de 2017

Propriedade do Núcleo de Estudantes de Medicina da AAC - Pólo das Ciências da Saúde da Universidade de Coimbra Sub-Unidade 1 da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra Azinhaga de Santa Comba, Celas 3000-548 Coimbra geral@nemaac.net www.nemaac.net anemia@nemaac.net

Departamento de Cultura e Arte Direção: Vitória Silva de Melo Redação: , André Salvada, Ana Margarida Ribeiro, Carina Castro Silva, Hernâni Caniço, Sara Brandão, Vitória Silva de Melo. Design e Grafismo: Hugo Pereira, Ana Catarina Lopes e Brenda Maria Toro Capa: Hugo Pereira Impressão: Singular Print Tiragem: 200 exemplares, Distribuição Gratuita


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Anemia - edição de Dezembro by NEM/AAC - Issuu