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Anemia - edição de Julho

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mais não fosse o niilismo de rua, o supérfluo pensar de cigarrilha, fumegado no sadismo do gasto e a perda irrepreensível dos sinais de portabilidade de personalidades, e isto seria tudo assim, na mesma.

Seria, hoje, especialmente, porque desisti de alinhar com a complacência de saberes “populuchos”, adormecidos na afeção anestésica da resiliência, moldados pelo “não pensar demais”. Às vezes, é preciso pensar demais, porque há coisas que o merecem. Não é possível cair 7 vezes e levantarmo-nos 8. Não é mesmo fisicamente possível, nem humana nem inumanamente. E há tanto de angustiante como de capacitante nisto tudo. Bichos povoadores de terra seca, seca de luz, seca de chuvas, seca de trovoadas, somos todos nós. Trovoadas secas de gente, que a levam consigo no limiar de um coma acinético de existir naquele lugar, naquele momento. 7 momentos de queda, 6 de levante. Caí, hoje, na delonga do dia que teima em dar lugar ao novo, à esperança renascida, não só do contexto simples de esquecer e remediar, do “viver como se pode”, mas da complexidade da erosão das vicissitudes e da reconstrução estável do espaço para respirar a um tempo cheio. Sobre isto, sob circunstâncias alucinatórias, encontram-se frases atafulhadas de sentimentos que se rasgam em atropelamentos precoces, em toda e qualquer plataforma pública de dissipação de boas vontades e mistérios. A partilha incessante de motes chamativos, lucrativos, perturbadores na sua instância sagaz, por todas as redes sociais, mas, mais importante que isso, por toda A rede social, é um alerta necessário, agregador, mas perigoso quando sem anastomose de mão a mão. Na medida em que, por vezes, não são mais do que a expressão do eu mais baixo: “estou aqui”, “vê-me”, “gosta-me”, “eu sou uma BOA pessoa”! Mas haverá bondade alguma que se sustente meramente nisso? Poderá existir, mas não se fixa, não se impregna, certa-

mente. A bondade está, muitas mais vezes, no silêncio e na ação que a ele se subjuga. Está no respeito e na gratidão. Sejamos humildes donos de nós, ativos, conhecedores. Sejamos não reféns de aprovação e de seguidores, mas de iniciativa real. Sirva ela de apoio a causas solidárias ou de interdição ao bullying cibernético e ao abaulamento da vida humana. Sugere-se-me, na REDE, diariamente, um oximoro delgadamente balanceado de fases intuitivas sedentas de humilhação alheia, de invasão da intimidade privada, de rebeldia estriónica no avesso da reserva, e o alarido altruísta salpicado de ego. Tudo isto, bem do fundo do assento das nossas cadeiras de bom recosto. Sejamos iniciadores, com o esforço que “sai do pelo” e que encanta. E é difícil um encanto não ser efémero. Mas este, garanto-vos, do assento deste banco instável de areia que nem é bem areia, não é nunca. Nunca existe fora de si mesmo, humilde dono da sua boa essência, boa a valer! Se o praticarmos, como à escrita, perde todo e qualquer traço de extraordinaridade e eleva-se a uma coreografia plena, planalto imutável, seguro e cheio de pequenas modelagens vivas e frescas do tempo que lhe passa amigável, agradecido e com respeito. Há momentos em que convém (convir é um verbo desagradável e desonesto, mas, aqui, há, de facto, uma conveniência plural) lembrar as verdadeiras pessoas, é preciso relembrarmo-nos delas. Urge uma necessidade nessa conveniência, que a obriga a existir como ritual, para que, juntamente com o triplo da área metropolitana do Porto e de Lisboa, não arda aquilo que vamos deixando de ser, levados pelas fragilidades do jogo vitalício, pela prematuridade das ideias e pela precaridade da gestão dos vícios e da ferocidade dos sentimentos. E não fosse o niilismo de rua e alguém a escrever “o teu nome por toda a parte”, atribuindo a toda essa loucura um estado lancinante de ferida aberta, exposta à infeção liquefeita da dor e da tortura, e talvez não fosse tudo assim. Talvez conseguíssemos procurar e encontrar “no amor, a nossa cura”.

Por Vitória Silva de Melo, 4º Ano


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COIMM Texto por Cláudio Ferreira, 3º ano

CRÓNICA

MENTE CONSCIENTE

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cérebro e a mente humana são das áreas da ciência que mais nos fascinam, pelo facto de nos permitirem aceder a fenómenos tão complexos, que fazem do ser humano uma espécie com capacidades intelectuais extraordinárias, responsáveis pela consciência, perceção que temos de nós e do mundo e do papel das emoções na construção desses processos, que explicam muito daquilo que é a nossa identidade e subjetividade. No entanto, estes fenómenos são, muitas vezes, associados à filosofia e entendidos como objeto de estudo complexo e desafiante para as neurociências, desnudando-se através de bases biológicas neurais objetivas. Contudo, um dos mais brilhantes neurocientistas, o português António Damásio, não concorda, e dedicou grande parte da sua vida a estudar estas questões, que constituem o tema de eleição dos seus trabalhos e pelos quais é mais conhecido. Assim, a mente consciente poderia ser descrita, de uma forma simplista, como aquilo que se perde durante o sono profundo, sem sonhos, ou sob o efeito de uma anestesia geral. Mas, para António Damásio, a mente é um fluxo de imagens mentais que podem ser padrões sensoriais, visuais ou auditivos, como, por exemplo, aqueles que o leitor experiencia neste preciso momento, enquanto lê este artigo. Não creiamos que somos expositores passivos desse fluxo de imagens que é a mente, pois temos um ego, uma perceção do “eu” que está dentro das nossas mentes e que nos permi-


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te sermos nós, e não os outros, a vivenciar uma determinada experiência. Portanto, uma mente consciente é uma mente que contém uma perceção do “eu” intrínseca, a qual permite assimilar uma perspetiva subjetiva, com a plenitude da consciência de si própria. Mas como é que as nossas mentes se reúnem no cérebro? Bem, segundo Damásio, para se criarem mentes é necessário construir mapas neurais, isto é, padrões criados pelos nossos neurónios relativamente aos diversos estímulos. Todavia, alterações mecânicas nos neurónios sensoriais podem provocar distorções na experiência mental. De seguida, a informação proveniente dos órgãos sensitivos é reunida no cérebro, onde se formam as imagens, através desses mapas neurais. Depois, todos os mapas neurais fornecem sinais ao córtex de associação, no qual se registam os acontecimentos, cuja acessibilidade se garante através da memória, que permite reproduzir, novamente. essas imagens. E como são construídos os “eus”? A teoria de Damásio é a de que “Nós geramos mapas cerebrais do interior do corpo e usamo-los como referência para todos os outros mapas”. A forma como chegou a esta conclusão advém do facto de cada um de nós ter apenas um corpo, que apesar das suas diferentes partes, não deixa de ser apenas um. E no interior desse corpo, os parâmetros mantêm-se estáveis ao longo do tempo, dentro de intervalos que permitem a sobrevivência, pois, caso contrário, adoecemos ou morremos. Por fim, existe uma união muito forte entre a regulação do nosso corpo, dentro do cérebro, e o corpo em si mesmo. Efetivamente, todos os dispositivos de regulação vital do corpo encontram-se no tronco cerebral. Esta região é tão específica que, por exemplo, se houver lesão de uma região situada na parte

superior do tronco cerebral, entramos em coma ou estado vegetativo. Nesta condição, a mente e a consciência desaparecem e perdemos a perceção do “eu”. No entanto, se a lesão ocorrer na região anterior a essa região do tronco cerebral, também na parte superior do mesmo, o que acontece é uma paralisia total, mas com manutenção da consciência, ou seja, a pessoa fica, na verdade, presa dentro do seu próprio corpo. De facto, no tronco cerebral existem mapas cerebrais de diferentes aspetos do nosso corpo, interligados entre si. E é a partir desta união, entre o tronco cerebral e o corpo, que, segundo o neurocientista, se fornece a base para a construção do “eu”, na forma de sentimentos. Então, parece que temos uma interligação entre o tronco cerebral, no qual está a perceção do “eu”, o corpo e o córtex cerebral, no qual se reúnem as mentes, com as imagens que são o seu conteúdo. E desta interligação resulta a mente consciente. Relativamente ao “eu”, este pode ser dividido em três níveis: o proto, o núcleo e o autobiográfico. O proto e o núcleo são partilhados com muitas outras espécies. É o “eu” autobiográfico, que apenas algumas espécies possuem, que é construído com base em recordações passadas e planos futuros. Foi este “eu” que conduziu à memória ampliada, raciocínio, imaginação, criatividade e linguagem, e foi daí que resultaram os instrumentos da cultura: religião, justiça, comércio, artes, ciência, tecnologia. Em suma, concluímos, assim, que é através da cultura que somos algo mais do que a biologia e desenvolvemos aquilo a que Damásio chama a “regulação sociocultural”. A mente, a consciência e a perceção do “eu” são, sem dúvida, processos igualmente tão complexos como fascinantes da criação humana!


Fotografia: Cláudio Noy

JEAN-BAPTISTE ENTREVISTA

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Jean-Baptiste Mignardot é um afamado jovem especialista nas áreas da Neurociência, Reabilitação, Bioestatística, Biomecânica, Eletromiografia, entre outros, formado em Lausanne, que conta com inúmeras contribuições científicas de remarque. Entre elas apontam-se trabalhos desenvolvidos no âmbito da restauração de movimento após lesão de medula espinhal, da reabilitação motora recorrendo a neuropróteses e da estimulação elétrica neuromuscular. Veio a Portugal em Fevereiro deste ano, para participar no congresso In4Med, a fim de nos falar do seu novo projeto, Wi-fi Brain. A Sara Brandão, da redação da revista Anemia, esteve à conversa com Le Bon Docteur e, daí, resultou esta entrevista. Sabemos que se formou em França, particularmente em Grenoble. Gostaríamos de saber qual a sua formação de base. Jean-Baptiste (JBM): Tenho uma licenciatura e um mestrado em Ciência do Movimento Humano. Fiz a minha licenciatura na Faculdade de Ciências do Desporto, na Universidade de Burgundy, em Dijon (França) e completei um mestrado em biologia relacionado, tam-

bém, com a motricidade humana. Depois, mudei-me para Grenoble, para fazer um doutoramento em neurociências, no hospital universitário de Grenoble. Q: Quais as suas principais áreas de interesse no ramo das neurociências? JBM: Movimento! Existe um complexo mecanismo por detrás do movimento, incluindo vias mole-

culares, a forma como as pessoas se posicionam e controlam os movimentos... Interesso-me, sobretudo, acerca das vias de motricidade e da relação entre o sistema nervoso e o sistema músculoesquelético. E porquê o movimento? Porque sou um ginasta! Fiz competição em ginástica durante muitos anos. O meu treinador fazia-me sempre analisar a biomecânica do movimento, tendo por base conhecimentos de anatomia

"Não podemos olhar para estas tecnologias como uma forma de substituir uma função perdida"

e fisiologia. Comecei a interessar-me tanto por isso que pensei em fazer investigação nessa área, sobretudo para ajudar pessoas com problemas de movimento, que têm de aprender (ou reaprender) a andar, a movimentar-se ou manter-se em pé, à semelhança de um atleta, que também tem de otimizar todos esses processos. Q: Que conselhos daria a estudantes interessados em seguir uma carreira em neurociências? JBM: Hmm… Uma pergunta difí-

cil! Bom, em primeiro lugar, têm de ter paixão por essa área. Para mim, trabalhar em neurociências nem é bem um trabalho, mas uma forma de lazer, de passar o tempo. Trabalho numa equipa com estudantes, professores… Trabalhamos em equipa no brainstorming, na relação com os doentes, na colheita e análise dos dados… E tentamo-nos divertir enquanto fazemos isso! Será o conselho que dou para quem quer seguir esta área da ciência – explorem a parte “divertida” por detrás da mesma.

Q: Há uma frase de Alan J. Perlis que diz que “na simbiose entre o Homem e a máquina, é o Homem que tem de se ajustar, não a máquina”. Quais considera serem os maiores desafios nesta simbiose? JBM: Bom, no nosso caso, aplicamos as tecnologias robóticas para melhorar a reabilitação dos nossos pacientes. É certo que ,para isso, precisamos de robots e tecnologia sofisticada, mas a forma como estes são construídos tem de ser inspirada na biologia e anatomia humana. Por exemplo,


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na minha área (lesões da medula espinhal) foram construídos vários tipos de exoesqueletos. Há uma grande variedade de exosqueletos, desde aqueles que não se enquadram na anatomia humana a outros que foram construídos de forma a aproximar a tecnologia robótica ao funcionamento e à anatomia humana. Seja como for, não podemos olhar para estas tecnologias como uma forma de substituir uma função perdida, mas sim em auxiliar ou promover a recuperação dessa função, tendo por base as necessidades do

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doente e a sua anatomia. Q: Poderia descrever, em breves palavras, quais os principais objetivos deste projeto em que está envolvido na Ècole Polytechnique Fèderale de Lausanne? JBM: A ideia é ajudar as pessoas com lesão unilateral da medula espinhal a voltarem a andar, ou maximizar a forma como a sua reabilitação é feita. Basicamente, utilizamos várias tecnologias para transformar os circuitos neuronais dormentes, no local da lesão,

em circuitos funcionantes. A combinação dessas tecnologias faz a estimulação da espinhal medula e da placa motora. Em paralelo, dispomos de um sistema robótico que providencia uma estrutura otimizada para possibilitar a recuperação e o treino da marcha. No nosso laboratório, fazemos investigação translacional, desde roedores a humanos, passando por investigação em primatas. Queremos desenvolver novas tecnologias, testá-las em animais de forma a aplicá-las a humanos. Estamos, de momento, num ensaio


clínico com oito doentes, dois dos quais já foram implantados, o terceiro será implantado daqui a um mês. E, até agora, temos resultados muito promissores, não apenas com a recuperação da marcha, mas também com outros efeitos secundários positivos. Claro que não podemos generalizar, para já, que esta tecnologia funciona, porque estamos a falar apenas de dois doentes, temos de esperar pelos oito. Mas, de momento, estamos muito confiantes pelo facto destes dois doentes, pelo menos, já terem recuperado os movimentos que lhes permitem voltar a andar. Q: E qual foi o feedback desses dois doentes? JBM: Um deles começou a recuperação apenas há dois meses, então a sua reabilitação ainda não terminou. O primeiro está perto de terminar o estudo. Estão felizes, mas o mais importante é sermos honestos com eles e sabermos gerir as suas expectativas desde o início. O primeiro talvez não tenha percebido muito bem o que poderia ser feito. Tinha expectativas muito altas com esta tecnologia. Temos de explicar que o doente não poderá esperar, de repente, voltar a correr na rua, fazer escalada ou esquiar! Temos trabalhado arduamente em comunicar com o doente e explicar-lhe que estamos a desenvolver uma ferramenta para ajudá-lo na sua reabilitação, e não uma ferramenta para substituir a função perdida. Então, a par do trabalho científico, tivemos um importante trabalho

de aprendizagem em como falar com os doentes, em gerir as suas expectativas e sermos claros com eles acerca do que se pretende com esta tecnologia. Em suma, os doentes estão satisfeitos com a forma como esta estimulação os permitiu movimentar-se na plataforma do laboratório. O nosso próximo desafio é deixá-los felizes por poderem vir a fazê-lo fora do laboratório. Q: Em suma, a sua equipa está interessada em estudar a reabilitação da marcha através da estimulação elétrica da espinhal medula com lesão unilateral. Para além da reabilitação do controlo dos movimentos voluntários, pensa que esta tecnologia poderá ter aplicação na recuperação dos movimentos involuntários, tais como o controlo de esfíncteres, tão importante para estes doentes? JBM: Isso é um ponto muito importante. Até agora, promovemos estimulação da espinhal medula para ajudar na recuperação do funcionamento motor, em particular dos membros. Mas esperamos que esta estimulação, a longo prazo, ajude a desenvolver plasticidade neuronal que permita a recuperação de outras funções nervosas. Acreditamos que, ao treinar os doentes 5 dias por semana, não promovemos apenas uma reabilitação, mas também um treino de capacidades. E é duro… Mas fazemo-lo de forma a gerar plasticidade. E já dispomos de alguns resultados eletrofisiológicos promissores. Mas ainda é

prematuro dizer que esta tecnologia irá ajudar a recuperar essa função vegetativa. Para já, sabemos que funciona ao nível dos movimentos motores voluntários, o que já é muito bom! Q: Se esta tecnologia se provar eficaz tal como os resultados estão a prever, isto terá um impacto enorme na Ciência, na história da Humanidade! Como se sente por fazer parte deste capítulo da história da Ciência, uma vez que se trata de algo tão grandioso? It’s really crazy! Não é um trabalho, é uma paixão… E não nos podemos esquecer que é um trabalho de equipa. Contribuí para este projeto, mas é um trabalho de 50 pessoas! Às vezes, sentimos muita pressão, porque é um desafio enorme, mas entreajudamo-nos. Mas requer 95% da nossa vida, porque não queremos falhar, claro… E não nos podemos esquecer que testámos apenas em dois doentes e com uma lesão medular muito específica… Q: Não acredita que possa vir a ser aplicável a uma lesão completa da medula? Hmm não… Penso que, no futuro, precisamos de combinar esta tecnologia com outras medidas, por exemplo, através da injeção de células estaminais neuronais na medula ou até usar outros fármacos para potenciar a neuroestimulação. Mas, para já, estamos focados nos estudos de validação desta tecnologia.


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DNEIMM Texto por Muhammad Issá

UM OLHAR DO AVESSO

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MOÇAMBICANO

no sudeste do continente africano que se situa Moçambique. A sua costa é banhada pelo Oceano Índico, toda ela de uma beleza fenomenal que fez com que o país recebesse o nome de Pérola do Índico. É um país enorme no que toca a extensão territorial, assim como no número de habitantes, que chega aos 25 milhões. Moçambique é um país de clima tropical e possui uma fauna rica em diversas espécies animais, que o tornam num atrativo turístico inabalável. Mas não vim escrever-vos apenas sobre isto; quero que possam, comigo, conhecer um pouco deste país, através dos olhos de quem nele cresceu e tenham ideia de uma realidade diferente. Assim como o leitor, também fui criança, num lugar onde a natureza foi, e continua a ser, o principal meio de diversões durante a infância de várias gerações, mesmo com a globalização a surtir efeito, nos dias de hoje, na infância das crianças atuais. Nas cidades, as crianças transformam as ruas das suas casas em campos de futebol, os passeios

em locais de salto à corda; e nos bairros periféricos, onde não há ruas nem passeios, as crianças têm a mesma capacidade inventiva, jogando com bolas feitas de panos velhos envolvendo uma câmara de ar, substituindo o salto à corda por corridas de pneus, onde ganha quem cruzar primeiro a meta. Os quintais das casas servem de lugar para que se jogue às escondidas. Nas zonas rurais, os rios são as piscinas, as árvores são os baloiços, os campos de pastagem são pistas de atletismo onde se corre de pés descalços. O ensino escolar em Moçambique inicia-se aos 6 anos de idade, sendo composto pelo ensino primário, secundário e pré universitário. Infelizmente, nem todas as crianças e adolescentes têm acesso à educação e, para além disso, muitas das que têm frequentam escolas com problemas de infra estruturas, sendo que apenas uma pequena fração tem acesso a estabelecimentos de ensino privado, tornando o país palco de desigualdade. Nas zonas rurais, observa-se uma elevada taxa de abandono escolar, muitas vezes ligado a questões


culturais e a gravidez adolescente. O acesso aos serviços de saúde também carece de políticas eficazes, havendo ainda muito terreno por desbravar no desenvolvimento deste setor. Todavia, há que valorizar as melhorias significativas na vertente de prevenção da infeção pelo vírus do HIV, um dos dramas colossais da realidade subsaariana e não só. O sistema de saúde está dividido, como aqui, em público e privado. A rede hospitalar está organizada em hospitais centrais, hospitais provinciais, hospitais rurais, centros de saúde e postos de saúde. Em muitas regiões, há a necessidade de percorrer longas distâncias para se ter acesso a

um posto de saúde ou centro de saúde, fazendo com que muitas vidas sejam perdidas por falta de unidades sanitárias próximas. Devido a este problema, a taxa de mortalidade infantil, nestes locais desprovidos de cuidados primários e inóspitos, é, ainda, muito elevada. Como referi, o país tem, de facto, desenvolvido um plano de ação de destaque na prevenção e tratamento da infeção por HIV/SIDA, tendo-se tornado um exemplo por todo o continente, quanto às metas atingidas na redução da taxa de seroprevalência. Tal como acontece no acesso à educação pré universitária, o ingresso no ensino superior,

com principal atenção para a área da medicina, também não respira facilidade. A existência de poucas universidades públicas, com o curso de Medicina, torna difícil a vida de quem aspira ser médico, na medida em que as opções são escassas, se os estudantes não conseguem admissão numa universidade pública, através do exame nacional. São escassas, porque as universidades privadas que integram o curso de medicina, no seu plano, exigem mensalidades avultadas, muito contrastantes com os rendimentos mínimos da maioria das famílias. Mas apesar das dificuldades atuais, as universidades públicas conseguem formar médicos

competentes que, após a conclusão do curso, são enviados para regiões mais carenciadas, do ponto de vista de recursos humanos para a realização da prática clínica. O que, em Moçambique, é como uma aventura, pois um médico está para 22 mil habitantes, um rácio distante do recomendado pela OMS (que é de um Médico para 10 mil habitantes). Ser médico, neste país, implica ter de lidar com doenças de caráter infeccioso, na maior parte do tempo, assimilar a falta de antibióticos e, mesmo assim, saber como resolver o problema. Põe-se, consequentemente, em prática a medicina ervanária, que agrava a saúde de diversas pessoas,


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suturam-se doentes em condições precárias de luminosidade nos hospitais recônditos. São múltiplos os relatos de cirurgias realizadas sob um apagão assustador e rezas desesperadas para que os geradores de emergência funcionem. Implica percorrer centenas de quilómetros para que as populações sejam vacinadas. Ser médico, neste país, é atuar no limite das capacidades físicas e mentais, priorizando a saúde num tapete espinhoso de logística deficitária. Embora existam estas dificuldades, muitas vidas são salvas, muitas mulheres dão à luz, muitas pessoas são tratadas com êxito. As adversidades vão sendo, aos poucos, ultrapassadas e farão, espero

eu, num futuro próximo, parte do passado. Sendo estudantes e futuros profissionais da área de saúde, não nos podemos esquecer que vivemos inseridos numa sociedade, dependemos, também, do lugar onde habitamos e que a simbiose entre as suas características e as nossas nem sempre é pacífica. A sociedade moçambicana é multicultural, as 11 províncias que constituem o país tinham a sua língua e os seus costumes. Foi por este motivo que o português foi instituído como língua oficial, após a independência do país, para que, através da língua, existisse o espírito de unidade nacional entre os moçambicanos, pois se assim não fosse,

seriam faladas 11 línguas diferentes. Do norte ao sul do país, a organização das sociedades é diferente, de salientar que no norte a sociedade é matriarcal, tendo as mulheres o papel de líder na comunidade e na família, enquanto que do centro ao sul o cenário inverte-se. Embora existam estas disparidades linguísticas, há certas características que são comuns por todo o país, como o papel da família na formação das crianças e dos jovens, através da transmissão de valores e do apoio ao crescimento. Este cuidado familiar torna-se recíproco, quando os jovens atingem a idade adulta, pois sentem a obrigação de cuidar de quem os amparou.

Os idosos são considerados bibliotecas de sabedoria, devido à sua longa experiência de vida e são eles que, até hoje, transmitem ensinamentos relacionados com o respeito, ajuda ao próximo, tolerância, torcendo para que esta passagem seja contínua, ao longo de várias gerações. Chegada ao fim, esta pequena viagem, espero que o leitor tenha desfrutado e aprendido sobre uma realidade diferente da sua. Fica o meu kanimambo pela sua atenção (kanimambo que, numa das línguas do sul de moçambique, quer dizer obrigado)!


Texto por Mariana Andrade, 4º ano, FCS|NMS

CRÓNICA

NEUROMARKETING

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E quando o cérebro e o marketing têm um date?

as o que é, afinal, o neuromarketing e o que têm os estudantes de medicina, assaz servos do conhecimento sobre o ser humano e seus comportamentos, a dizer em relação a isso? Permitam-me equipará-lo a um date entre o cérebro e o marketing, com todos os embaraços que lhe estão inerentes. O cérebro, assertivo e ponderado, antecipa e treina o discurso, horas a fio, em frente ao espelho, e segue convicto de que nada pode falhar. O marketing, parceiro persuasivo e controlador, sabe todas as manhas necessárias para fazer o modesto cérebro ceder às suas provocações. E este encontro pode ter tanto de harmonioso como de desastroso. Ora, o neuromarketing faz uso e abuso do estudo da biologia dos sistemas nervosos, monitorizando e observando a resposta a determinados estímulos, de forma a verificar a intensidade das emoções despertadas, inferindo, assim, acerca da biologia da conduta humana e dos comportamentos que levam à compra. Criam-se conceitos como o food styling, que nos põe todos, literalmente, a comer com os olhos, recorre-se a celebridades, como role models que todos nós, consciente ou inconscientemente, almejamos seguir, associam-se mulheres bonitas e ruídos sexualizados a champôs (cuja marca nem é preciso referir) ou espalha-se um odor intenso a pipocas à entrada do cinema, garantindo que, sejam doces ou salgadas, os 4,99€ por aquele pacote caiam na caixa registadora, sem sequer questionar. E a música, a música… Os jingles e as canções catchy que teimam em não abandonar, por nada, o nosso vulnerável encéfalo. Quem não reconhece, em qualquer canto do mundo, um “panpaparapapam I’m lovin’ it”? E quem não conheceu os Dandy Wharols e a sua Bohemian Like You através do anúncio da Vodafone? Bem, que atire a primeira pedra. São estas as artimanhas que nos levam a comprar aquele objeto, que agora jaz imóvel e mumificado nas profundezas da gaveta do fundo, ao lado de todos os souvenirs que fomos colecionando, porque ‘’podia dar jeito’’. Ora, é o cérebro primitivo que guia o instinto e, para nosso infortúnio, é a cargo dele que está a tomada da maior parte das decisões. Por vezes, trabalha a razão e o grande número


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de cifrões impede a compra; outras vezes, a emoção pesa mais na balança e o produto seduz, por mais inútil que seja. António Damásio, na sua forte defesa das emoções como parte fundamental das tomadas de decisão, elucida-nos através da alegoria de Phineas Gage, o famoso operário americano que teve o seu crânio perfurado por uma barra de metal que atingiu o lobo frontal, responsável pelas emoções, funções executivas e personalidade, o que inviabilizou, a partir daí, qualquer deliberação coerente. Este forte sustento no perícia da gestão emocional parece provocar um efeito nas pessoas sobre o qual não estão informadas, colocando as nossas experiências e os nossos sentimentos “à venda”. Existe, inclusivamente, o conceito de neuropricing, no qual se pesquisa qual o preço mais elevado que as pessoas estão dispostas a pagar por um determinado produto – e ao qual, feliz ou infelizmente, os estudantes de medicina são imunes, por se encontrarem numa crise mais profunda que a de 1929, com propinas em atraso. Podemos, até, pensar se será mais sensato estu-

dar detalhadamente o comportamento do consumidor, de forma a forçá-lo a comprar determinado produto, através da medição da actividade eléctrica e metabólica do seu cérebro, submetendo-o a técnicas de EMG, eyetracking ou facial coding, ou, simplesmente, roubar-lhe a carteira. É a ciência a auxiliar o Big Brother a alcançar as nossas mentes. E nós, pobres estudantes de medicina, conhecedores das vias nervosas responsáveis por estes crimes da vontade, vemo-nos na impossibilidade de fazer alguma coisa ou, simplesmente, comentar as astúcias por detrás da ditadura comercial, porque, enfim, somos só uns miúdos que leram umas coisas nuns calhamaços. E, ainda que a nossa mente seja quase impenetrável, por estar 95% preenchida por dezenas de capítulos de anatomia, não é por isso que não somos vítimas desta dita manipulação. O que podemos dizer é que, na verdade, medir ondas cerebrais ou sinais corporais através de sensores não é o mesmo que ler pensamentos. O que as técnicas de neuromarketing conseguem dizer, com alguma precisão, é que, a dado momento, o indivíduo está a exibir certos estados físicos que podem ser associados a outros mentais e que não significam, necessariamente, pensamentos. As ondas cerebrais exibem uma forma diferente, quando se está a prestar atenção a algo; no entanto, essas mesmas ondas cerebrais não identificam, com certeza, a que é que se está a atentar – pode ser, efetivamente, ao anúncio ou pode ser ao relógio, porque o tempo teima em não passar e o publicitário nunca mais se cala. Poderá, até, balançar em pensamento que cuecas se vão vestir no dia seguinte ou se precisaremos de ir à Primark comprar “daqueles packs de 7 a 3,50€”. Precisamente nesta linha, se entende que os produtos não têm valor por si só, somos nós que o atribuímos através de processos mentais, que são variáveis de pessoa para pessoa, e são os lugares comuns, o que apraz um grande número de indivíduos, que são explorados pelo neuromarketing e que vai conduzir ao branding da marca. É esta ideia de impenetrabilidade que me fascina, porque, afinal de contas, o nosso cérebro é tão mágico e encriptado, que as respostas que os imperadores do capitalismo tanto procuram não vão surgir tão depressa. Mariana Andrade faz parte da equipa de redação da Revista FRONTAL da NMS|FCM – Universidade Nova de Lisboa, com a qual a Anemia estabeleceu protocolo de colaboração


Texto por Sara Brandão, 4º ano

CRÓNICA

ESCREVER É ESQUECER

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izia-nos Fernando Pessoa, na voz de Bernardo Soares, que “Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida”. Mas sabes… eu, na verdade, escrevo-te para ignorar a ausência dela… Por isso, um dia destes, escrevi-te uma carta. Revisitei-te no recôndito poço que é o fundo dos olhos. Abracei-te em palavras que nos eram comuns, naquele nosso idioma que dispensa sons, num timbre mudo do qual adivinhas os gestos, no nosso vernáculo que não ecoa no estoma, aquele, na garganta, por onde te entrava o ar e saía a vida, lembras-te? Um dia destes, escrevi-te uma carta, a tinta permanente (para fazer jus à distância), desfiz-me em parágrafos que escorriam salgados por linhas tortas, tal é o supradesnivelamento do segmento

da memória, com a melhor caligrafia que a isquémia da saudade me permitiu, contando-te, desta vida, de um dia querer salvar vidas, aquela à qual nunca sucumbiste enquanto a tinhas, lembras-te? Nessa carta, como em tantas outras às quais me entrego metade prosa, metade necrose de liquefação, contei-te dos planos de me vestir de branco para ir trabalhar, de auscultadores de sopros ao peito, de bloco de notas de dores no bolso, de conhecimento latejando na cabeça. Contei-te dos planos de um dia chegar a tempo, dos planos de lhes dar mais vida aos dias, dos planos de casar a arte e o mister, num vínculo vitalício, como aquele que tinhas no teu ofício, lembras-te? Escrevi-te sem eufemismos, abusando nos neologismos sobre esta loucurocitose de tanto ter de saber. Descrevi-te em hipérbole o cansaço nos olhos e o sorriso daqueles que o fazem desvanecer. Perdi-me em figuras de estilo sobre os en-

fermos que transbordam esperança e não ousam ceder. Mas, a páginas meias, fiz-me soneto, poema de fado incompleto, qual choro de guitarra portuguesa, numa incompletude que não cabia em sílabas, num desabafo tão sedento de terapia da fala. Em midríase fixa, escrevi-te sobre as inseguranças. É que a ultrassonografia do Saber tem tantos tons de cinza, e tão escuros…. e o Futuro! Com semiologia de cataratas… Que vista tão baça de miradouros tão puros! Escrevi-te tudo isto, em letra graúda, em papel de rascunho, com receituário no verso. Escrevi-te, quase sem tempo, tal é o investimento que implica o sucesso. Escrevi-te, deixando conselhos, cuidados tama-

nhos, esquecendo evidências. Fiz-me verso, rimei com a saudade, despedi-me em reticências… Enderecei a carta no tempo, já que nos desencontrámos no espaço. Selei-a com um beijo, como brasão em anel de sinete. (Se ao menos houvesse transplantes de tempo, e por breves segundos pudesses responder com um simples bilhete… ) Um dia destes, voltarei a escrever-te. Talvez um artigo. Quem sabe uma ode? Porque, se “escrever é esquecer”, que de demência eu padeça para a saudade passar. Que a escrita é paliativa, é um derivado do ópio, para quem dói por amar….


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IMMM MEI hospital, Texto por Simão Cruz, 4º Ano

Nos dias de hoje, poucos são os que nada sabem sobre o tema Erasmus. Todos já ouvimos episódios, histórias e expressões que nos cativam, a partir nesta aventura. O que pretendo é dar a conhecer aquilo que foi diferente do que julgava saber. Escrevo a partir de Kosice, Eslováquia, e convivo numa residência chamada MEI Hostel, perto do Novo Hospital. No último dos doze andares desta residência, estão hospedados mais de cinquenta estudantes de Erasmus, sendo que a maior parte são de medicina. Temos, apenas, acesso a uma cozinha comum, que é modesta e insuficiente, no entanto a maior parte do tempo foi passado a olhar para o lado positivo das deficiências. Foi uma ótima oportunidade para nos integrarmos e sermos uma família, uma vez que cozinhar, comer, beber e socializar eram realizados num espaço pequeno, em que era inevitável conhecermo-nos bem. Não só nos conhecemos uns aos outros, como também fomos sinceros, como se nos conhecêssemos há anos. Ninguém fingiu,

ninguém era realmente estrangeiro e vivemos como se não estivéssemos longe de casa. Durante este tempo, não era surpreendente ter um dia criativo, animado, alegre, amigável e, por vezes, excêntrico. Fizemos desta residência a nossa casa e chamámo-la MEI Hospital. A cidade não é a melhor, as pessoas, no geral, são frias, não falam inglês e não se esforçam por falar. Acaba por ser bom sentir o contraste entre estar dentro ou fora da residência, assim como sentir o quão bom é o nosso país, neste aspeto. Não podia imaginar que uma das pessoas com quem estabeleci maior amizade, na residência, tivesse 30 anos. Nem que ia ter ajuda de um turco, que sabe algumas palavras inúteis em português, para escrever este artigo. Na verdade, fazer Erasmus é sempre imprevisível e isso deixa-nos reticentes, no momento da decisão. No entanto, não sei se imprevisível será a palavra certa, uma vez que, afinal, no espectro da imprevisibilidade, apenas há bons desfechos.


CLOACOI

MM Texto por André Salvada , 4º Ano

MANIFESTO X

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O que leva um pianista a encher a maior e mais recente sala de espetáculos de Coimbra? E um artista de Jazz? (Sim, estou a falar de Salvador Sobral, com a sala esgotada, a mais de um mês do seu concerto). O primeiro, Grigory Sokolov, atuou no passado dia vinte e quatro de abril, no Convento de São Francisco, num recital com mais de cinco encores magníficos. Não por estar em Coimbra (o mesmo aconteceu na Gulbenkian, no dia anterior), mas pelo seu muito aplaudido virtuosismo. Creio que o público reconhece uma partilha genuína; aí, recebe-a, sem grande necessidade de se vender o espetáculo. Por outro lado, se não tivesse acontecido o fenómeno do Festival Eurovisão da Canção, dificilmente Salvador Sobral esgotaria o Auditório do Convento de São Francisco, em dois mil e dezassete.

CULTURA, DIVULGADA E VIVIDA É quase sempre necessário um “empurrão”, uma estratégia, mais ou menos fortuita, mais ou menos eticamente aceitável, para dar a conhecer ao público um produto, neste caso, um artista. O belo é quando ele deixa de ser produto e passa a ser cultura. Quando passa de mero entretenimento (que também é necessário – sabe tão bem ter as nossas, guilty pleasures) a cultura. Que também entretém. Aliás, acredito que a verdadeira cultura, seja sob que forma se apresentar, tem, necessariamente, de saber entreter. É esse, enfim, o seu testamento de qualidade. Não tenho uma fórmula, nem guidelines, para definir objetivamente aquilo que se pode definir como sendo promotor de cultura. É possível que varie de sociedade para sociedade, até de pessoa para pessoa. Mas há um terreno comum, quando nos apercebemos que estamos a cultivar-nos, a crescer. É aquele sentimento de compreensão, apreensão do que está em nós e, ao mesmo tem-


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po, para além de nós. E que mesmo que nos faça ter vontade de lutar, nos traz mais perto da paz. Ou, pelo menos, de conhecer o que ela possa ser. Para além de nos fazer esquecer, por momentos, as nossas preocupações mais rotineiras, a cultura leva-nos a um sítio novo. Não só através de trabalhos artísticos, mas de todas as intervenções e interações que se podem considerar cultura. Para continuarmos a caminhar para lá, não basta financiamento, embora seja importante alertar (cada vez mais, tendo em conta a situação política internacional) os agentes políticos para a neces-

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sidade de não desinvestir no futuro. É preciso saber gerir esse financiamento, de forma a produzir material de qualidade e partilha de qualidade. É preciso saber utilizar as redes sociais, os novos media, para apoiar, divulgar e vender, em última análise, boas apostas culturais. Mas a mensagem, o conteúdo, aquilo que se passa numa sala de espetáculos, galeria ou conferência, deveria ser sempre o alvo principal de investimento. Porque quando há substância e novidade, a divulgação acaba por se seguir mais organicamente. Assim como o crescimento.


MAIS CULTURA, MAIS VIDA


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49ª Edição – Maio de 2017

Propriedade do Núcleo de Estudantes de Medicina da AAC - Pólo das Ciências da Saúde da Universidade de Coimbra Sub-Unidade 1 da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra Azinhaga de Santa Comba, Celas 3000-548 Coimbra geral@nemaac.net www.nemaac.net anemia@nemaac.net

Departamento de Cultura e Arte Direção: Vitória Silva de Melo Redação: Vitória Silva de Melo, Cláudio Ferreira, Simão Cruz, André Salvada, Sara Brandão, Mariana Andrade, Muhammad Issá, Marina Cruz. Design e Grafismo: Hugo Pereira e Ana Catarina Lopes Capa: Inês Sério e Ana Catarina Lopes Impressão: Singular Print Tiragem: 200 exemplares, Distribuição Gratuita


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Anemia - edição de Julho by NEM/AAC - Issuu