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Anemia - edição de Maio

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Por Vitória Silva de Melo, 4º Ano

Quebra o silêncio, Idealmente, Alucinante na benignidade De um ego que se contorce, Irascível, Na verdade perdida de todos. Insurge-se. Não no silêncio, mas no seu ego. No pluralismo cínico, Senil, cioso, só, Da sobriedade desintegrada e pálida, Do que já passou. Mas já passou, E já passou. Bem sonhada ou a bem sonhada, Abençoada sanidade de poder crescer disso tudo. A quem fica - que não faça por partir. A quem foi - abençoada senilidade. E ainda que não houvesse nada disto, Ficava.

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ou nova nisto, por isso, decidi fazer o editorial em forma de poema. Ser um poema, envelhece-me, mas há tanto mistério nesta velhice. A poesia é, no final do dia, o mistério de si própria. Sou nova, e por isso, decidi dar-vos o meu interior de passageira, em versos, com ideias que não sairão dali e que estarão, contudo, por toda esta edição. Nesta história que vos contamos, em páginas de manifestação, voz, refúgio e viagem, augurava que a crítica e o romantismo se mascarassem nas águas de abril, sem que os pudéssemos distinguir. Quando peço romantismo, não

digo falar de amor, basta que se escreva (e vocês que o leiam) com uma generosidade extrema, de partilha, de sátira, de memória, de futuro, de pessoas, de quanto se possa povoar. Basta que à última palavra lida, não saia nenhuma falada, tal seja o enlevo em que vos deixou. Esta seria, e é, a primeira página de uma infindável novidade, para mim e para quem se queira juntar, peço eu, humildemente. Há um excesso de coisas no mundo, difícil é definir-nos um foco. Tantas coisas e falta de tem po… Contudo, um papel e uma caneta são tão demolidores quanto

o tempo e a falta dele. Foi isso que pedi, e foi isso que, abençoadamente, retornou de todos aqueles que decidiram dar de si um pouco de tempo, de papel e caneta. E há tanto por trás disso! Sou nova nisto, mas percebi que qualquer desafio, por mais incógnito que se apresente, é contornável, e há sempre algo antigo, nato, que, em simbiose com a novidade fluorescente, se pode transformar em algo de uma riqueza inebriante. Partilhá-la é o mote!


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sta intervenção, bem como a divisão de um só fígado por dois recetores ('splits'), é o corolário da elevada competência técnica que a equipa foi adquirindo" – esta frase foi publicada por vários jornais nacionais, como o DN e o Observador. A minha questão vai no sentido de perceber em que termos se define esta competência? Dr. Emanuel Furtado (EF): Esta estratégia de tratamento, do domínio da cirurgia, e da qual faz parte uma operação, como gosto de lhe chamar, porque há toda uma série de questões em torno da cirurgia que tornaria redutor

chamar-lhe apenas intervenção cirúrgica. Um cirurgião também tem, muitas vezes, de decidir que não deve operar, decisão essa, muitas vezes, mais difícil do que a de operar. No entanto, o foco é o de operar e quanto mais complexo o procedimento, mais ele depende de uma enorme equipa, que extravasa muito o âmbito dos cirurgiões. Há os anestesiologis-

tas, os enfermeiros do bloco operatório, a avaliação do pré e do pós operatório. Quando se fala em competência de equipa, fala-se do longo percurso percorrido por essa equipa multidisciplinar e que nos permitiu chegar até aqui. De facto, este é um tipo de operação extremamente complexo e arriscado. Portanto, não basta haver a habilidade cirúrgica para conseguir fazer, com sucesso, um procedimento tão agressivo como este. Exige um treino, tanto das competências dos cirurgiões, como das competências de manutenção de toda a equipa. Dra. Dulce Diogo (DD): Esta competência define-se pela agrega-

ção da formação científica teórica, atualizada com o treino cirúrgico, continuado, na área da transplantação hepática e cirurgia hepatobiliar, o que possibilita que os nossos doentes tenham acesso a terapêuticas cirúrgicas com elevado grau de diferenciação técnica, disponíveis nos centros de referência internacionais. Isto só foi possível, porque a Unidade de

Transplantação Hepática é dirigida por um coordenador verdadeiramente empenhado em formar equipas com autonomia técnica e científica para procedimentos mais complexos. Q: De que se compõe uma dinâmica de equipa favorável a suportar intervenções deste calibre? EF: É no processo em que a equipa, eventualmente liderada por alguém, uma pessoa ou um conjunto de pessoas (normalmente é um conjunto de pessoas) que consegue motivar essa equipa para fazer mais e melhor, ao mesmo tempo que lhes vai dando os meios práticos para irem crescen-

do, do ponto de vista prático, que se consegue alcançar um ponto em que se podem e devem fazer coisas incomuns, que nem todos os centros fazem e que implicam, realmente, um risco muito grande, mas que oferecem uma possibilidade única a determinados doentes de serem tratados, que, de outra forma, não seriam.


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DD: Em transplantação, a equipa não se resume à equipa cirúrgica; o processo inicia-se com a identificação de um potencial dador, logo é uma equipa muito mais alargada (cirurgiões, anestesiologistas, hepatologistas, intensivistas, coordenadores de doação hospitalar, enfermeiros, entre muitos outros), muitas vezes a funcionar, simultaneamente, em hospitais e cidades diferentes de todo o país. A dinâmica da equipa é sustentada pela confiança no trabalho dos restantes elementos e na segurança de que nos orientamos por critérios científicos e técnicos padronizados.

rir a condição física e os períodos de descanso, de forma a garantir uma performance adequada. Na relação médico-doente, neste tipo de intervenções, aplicam-se os mesmos princípios que se aplicam aos restantes procedimentos médicos: o esclarecimento, o consentimento e a confiança. Q: Sabemos que é uma defensora ativa dos direitos das mulheres e da igualdade de géneros. Ainda sente que, na área cirúrgica, haja quem não assuma essa mesma postura? DD: Defendo o direito à igualdade no acesso e a meritocracia; as discrepâncias não se aplicam apenas ao género. Esta é uma questão complexa, cultural e social, profundamente enraizada em Portugal, onde só a partir do 25 de Abril de 1974 se abriram portas, com a criação de alguma legislação. Pas-

Q: Dr. Emanuel, em que medida, concretamente, se propõem aumentar a capacidade técnica da equipa? EF: Continuando a fazer o que estamos a fazer. Executar mais ope-

rações, mais transplantes, conseguindo executar os casos mais difíceis e num processo longo de aquisição de competências cirúrgicas, de anestesia, de enfermagem, para lidar com casos complexos. Q: Dra. Dulce, de que preparação pessoal se mune para levar a cabo uma cirurgia deste calibre? E em

que medida a relação médico-doente interfere no sucesso da intervenção? DD: A preparação é pessoal, mas também é em equipa. Preparação teórica, discussão dos casos e programação da estratégia cirúrgica. Tendo em conta o tempo de duração deste tipo de intervenções cirúrgicas, é importante ge-

saram pouco mais de 40 anos... A Medicina e a Cirurgia não são exceções, principalmente, quando falamos de lugares de topo. É o chamado teto de vidro. Não é difícil entender este conceito, quando comparamos os ratio por género, com os do acesso a determinados patamares, em que os critérios de seleção são objectivos, como por exemplo, o Ensino


Superior. Q: Dr. Emanuel, estamos num hospital universitário, até onde vai a autonomia dos cirurgiões internos em procedimentos como este?

EF: Em procedimentos como este, não têm nenhuma. Mas isso levanta outras questões quanto à autonomia dos internos no Internato Complementar, e esse é um processo delicado, porque. em último caso, eles nunca são autónomos como internos da especialidade. Todavia, à medida que vão avançando, vão, de acordo com os que o supervisionam, dire-

ta ou indiretamente, recebendo a oportunidade de decidir autonomamente. Nestes, não tem de facto nenhuma. Mas isto não é um handicap do internato médico. O que se passa é que os internos, não só aqui, como noutros centros, têm muito pouco contacto com estas áreas tão diferenciadas, porque estão sobrecarregados noutras áreas, na minha opinião. E participar nesta aprendizagem seria, e será sempre, extremamente importante para a formação do interno, mas sobretudo a título de conhecerem o que se faz e como se faz. Q: Como é que surgiu esta direção de vida profissional? A cirurgia e, mais tarde, a transplantação hepática? EF: Eu escolhi a Cirurgia Geral como percurso de formação inicial, mas depois, dentro da Cirurgia Geral, hoje em dia, é absolutamente fundamental que ainda haja uma sub diferenciação. Aconteceu que, quando eu era interno, no segundo ano do meu internato de Cirurgia, houve início de esforços para desenvolver a transplantação de fígado, neste hospital e no Curry Cabral. E portanto, sendo uma área de extrema diferenciação, na altura e atualmente, assume-se como uma das opções que

um interno de Cirurgia que ambicione ir mais longe, tem ao seu dispor. Também aconteceu, é verdade, e não foi irrelevante, que esse esforço, aqui em Coimbra, teve como um dos personagens principais, o meu pai, que era, na altura, o Diretor do Serviço de Urologia, sendo, no entanto, Cirurgião Geral de formação. E então, todas essas circunstâncias se conjugaram, na altura, de forma a que eu ficasse, desde logo, envolvido na transplantação hepática. Algum tempo depois, também se conseguiu começar a fazer a pediátrica, que durante algum tempo, ainda foi feita fora do país. Desde logo, e, de igual forma, me envolvi nisso. E no fundo, à parte de um pequeno interregno de um ano e meio, nunca deixei de estar envolvido na transplantação hepática. DD: Desde que ingressei na Faculdade de Medicina, o meu objetivo centrou-se numa área cirúrgica. Como surgiu? Não sei. Acho que o desígnio é vocação. A área da transplantação hepática surgiu mais tarde, quando me foi dada a oportunidade de fazer parte da equipa. A partir daí, só foi preciso muito trabalho e resiliência. Q: Sente que o seu sucesso se deveu à constância dos propósitos que a movem ou pelo contrário à divergência dos mesmos? DD: Há sempre uma linha de pensamento e atuação

que orienta os vários aspetos da nossa vida. Logo, sim, há uma constância. No entanto, não devemos ser rígidos; a flexibilidade é importante para moldar o trajeto, à medida que vão surgindo os novos desafios. Q: Neste momento, não há lista de espera para transplantes hepáticos pediátricos? Como se encara esta estabilidade, Dr. Emanuel? Tem acontecido em Portugal, de vez em quando, não termos nenhuma criança em lista de espera e isso é a expressão de um programa que está a funcionar regularmente e que consegue transplantar a um ritmo muito bom as crianças que necessitam de transplantes, num país inteiro, porque somos o único centro que o faz. Essa situação é o corolário de um conjunto de evoluções que foram acontecendo, ao longo dos anos,em que é extremamente importante o critério de alocação dos enxertos, dos fígados, para as crianças que, em Portugal, são provavelmente, os melhores do mundo. Isso deveu-se à influência de pessoas, como a Dra. Isabel Gonçalves, responsável pela Pediatria, e eu próprio, que tiveram, junto das instâncias de superiores em Portugal; e do reconhecimento, por parte dos outros personagens envolvidos na transplantação hepática, em Portugal, de que podíamos ter estes critérios, altamente favoráveis, sem criar graves prejuízos aos doentes adultos


C que estão, num país, em lista de espera. Q: Concordam com a frase de Oscar Wilde “O progresso não é senão a realização das utopias?” EF: concordo, sem mais comentários (risos). DD: Sim, concordo. Tudo pode ser considerado utopia até ser concretizado. A ciência e o progresso resultam da capacidade do homem de imaginar e fantasiar e da persistência dos que acreditam que é possível transformar ideias e conceitos (muitas vezes considerados pouco credíveis), em resultados concretos.

Q: Alguma vez viu alguma das cirurgias revolucionárias que hoje executa como uma utopia? E como progrediu desse estado para o que faz hoje em dia? Dr. Emanuel Furtado: Essa é a pergunta mais difícil de todas. Não, acho que nunca vi nenhuma destas cirurgias como uma utopia. Vi-as, sempre, como algo extremamente difícil e que eu não sabia se, alguma vez, ia conseguir concretizá-las, mas também é verdade que nenhuma delas é to-

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talmente inovadora. Todas elas já tinham sido executadas noutros centros do mundo e aquilo que eu sempre pensei e continuo a pensar é que se eles conseguiram fazê-las, nós também conseguimos. Só houve um procedimento que foi, verdadeiramente, iniciado aqui, que foi o transplante em dominó, há muitos anos. Mesmo esse, do ponto de vista técnico, podia ser considerado uma utopia, porque todos estes procedimentos resultam da evolução dos conhecimentos e da capacidade de execução da nossa equipa e das outras que se aventuram na mesma jornada. Claro que é difícil, por vezes, mas é possível.

Desejar: desde logo, neste meio mais restrito de hospital, no seio desta equipa, que ela continue a fazer o que tem feito, que se consiga manter o nível geral da atividade e melhorar a qualidade; que se con sigam fazer estes procedimentos excecionais e que toda a equipa continue a evoluir, conseguindo, por isso, cumprir este plano; que haja um conjunto de profissionais que adquiram autonomia para os fazer. Para isso é preciso uma coisa que esta equipa tem tido, que é a vontade de ir mais longe, sem que sejam meros exercícios técnicos, podendo ser encarados e executados estes procedimentos não apenas podem sê-lo.

Q: O que lhe sobra para pedir, para desejar ou para “deitar fora”?

DD: para deitar fora, nada. Todos os resultados contribuem para a experiência, e com tudo se aprende. Para pedir e desejar, apenas mais. A região centro tem das maiores taxas de doação de órgãos do mundo; em 2016 a UTHPA realizou 79 transplantes hepáticos (o maior número anual, desde o início do programa de transplantação, há 25 anos), o que possibilitou tratar ainda mais doentes. É sempre possível fazer mais e melhor.

EF: afinal, essa é que é a pergunta mais difícil! (risos). Deitar fora, francamente, não sei. Sempre me pareceu muito estranho dizer “se fizesse outra vez o meu percurso, faria de forma diferente”. Nunca consegui fazer esse tipo de raciocínio, considero irrelevante. O que é totalmente diferente de reconhecer que houve erros nesse percurso.


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primeira questão que gostaria de lhe colocar prende-se com as suas memórias de infância… De que forma julga que o seu lar, a sua estrutura e ambiente familiar influenciaram as suas escolhas durante o seu percurso académico? Lynette Charity (LC): Bem, essa é uma boa pergunta. Como eu disse antes, nasci nos EUA, durante os anos de segregação, entre 1950 e 1960. Era uma época difícil, era difícil ter modelos para minorias, e eu não tinha ninguém para admirar. A primeira grande marca na minha memória, a que me moldou mais profundamente, foi a morte

da minha irmã, quando eu era ainda uma criança. Fez-me olhar para a vida de uma maneira diferente, querer ser alguém melhor. Quando não se tem inspiração em alguém próximo, temos de a ir buscar a outro lado. Uma das minhas inspirações foi apenas um ator de televisão, que fazia de médico numa série televisiva, o Ben Casey. E só o facto de o ver, semana após semana, a ganhar o respeito dos seus colegas e dos seus doentes, fazia-me perceber que queria aquilo para mim. E que tinha de ir atrás dessa sensação o melhor que podia. Q: Como referiu na sua palestra, no Congresso In4Med, a sua jornada de se tornar médica nem sempre foi fácil, pode explicar-nos,

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em linhas gerais, em que medida? LC: Durante aquele período de tempo havia segregação, vivia numa família disfuncional, a minha irmã morreu. Foi muito difícil quando decidi ser médica. Não sabia exatamente o que significava na altura, mas queria que as pessoas olhassem para mim e vissem, não uma mulher negra, mas alguém que conseguia ter o trabalho feito, ser bem sucedida e respeitada. Tal como o médico na série de televisão. Essa ambição fez-me usar a minha inteligência, que eu sabia que tinha, para passar do ponto A para o ponto B. Tudo o que eu podia fazer para alargar a minha inteligência, eu fazia. E assim que se integraram as escolas, a primeira escolha que

Eu sou uma mulher negra, enérgica, viva, inteligente e estou muito orgulhosa disso. Tomem-me como sou, se não gostam, podem procurar noutro lugar. Q: Pensa que teria sido útil ter-se cruzado e privado com uma Lynette Charity na sua adolescência? LC: Todos precisamos de modelos. Se isso me tivesse acontecido, talvez tivesse sido melhor. Tudo o que consegui na vida, fi-lo por mim, não tinha ninguém que me ajudasse. Os meus pais não tinham formação superior. Lia muito e via muita televisão. E tinha uma enorme ambição e motivação para cumprir a minha missão, que era ser médica.

fiz foi ir para a escola dos brancos.

Q: Porquê anestesiologia?

Q: Qual é a sua maior motivação para continuar a defender as suas crenças e ideais, na sua vida?

LC: Há muitas especialidades à escolha. E nada parecia assentar comigo, durante as rotações entre serviços, no hospital. Até que cheguei a anestesiologia e, por qualquer razão, tudo o que eu fazia, ou me mandavam fazer, parecia tão natural, tão simples. Senti, pela primeira vez, a minha real vocação. E daí eu falar tanto de vocação, é dos melhores dons que podemos ter, é sentir a nossa vocação, verdadeiramente, e não aquela que parece bem ou que nos impõem. E já o faço há mais de 40 anos.

LC: Penso que, depois de fazer da minha vida um palco de motivação para os outros, há tantos anos, ou o simples facto de estar viva há tantos anos, me permite dizer que o facto de nos mantermos verdadeiros connosco próprios é muito importante. Durante muito tempo, eu sentia que me esforçava para ser alguém que não era. Todos nós, porque está na natureza humana, mas, especialmente, as mulheres, temos a tendência de simular, de tentar ser igual a outra pessoa. A melhor coisa que fazemos é sermos nós próprios.

Q: Qual considera ser a parte mais fascinante da sua área de expertise?


A tecnologia, os avanços que têm ocorrido. Dantes, não havia sequer um ecógrafo, e agora, o que me mantém viva e desperta neste campo é aprender coisas novas e mexer em coisas novas, com uma regularidade desconcertante. Antes era cru e rude, quase, agora é sublime e delicado. Florescemos, a cada dia, numa especialidade maravilhosa. Qual pensa ter sido a questão mais relevante, mais inteligente, que colocou a si própria, aquela que criou a maior reviravolta no seu caminho profissional? LC: Preciso de pensar um pouco sobre essa (risos). Quando era nova, tive de tomar uma decisão fundamental. Tive de pensar se queria ficar na situação em que me encontrava, que era, basicamente, ficar com a educação de liceu, na minha comunidade, fazer os trabalhos que era suposto os “pretos” fazerem, ou ir embora e lutar pelo que queria. E pensei “isto não é para mim”. Olhava para a minha mãe, para o meu pai, para os meus familiares e disse “isto não é o meu mundo, o meu mundo está lá fora, à minha espera, não em segregação, mas em integração”. E assinei o papel para ir para a escola dos “brancos”, falsifiquei a assinatura da minha mãe, porque, na altura, eu não sabia se ela me ia deixar fazê-lo. Havia demasiado medo nas casas, nas ruas. Lembro-me de dizer, para mim “tenho de fazer isto, não há maneira alguma de ir para onde quero na vida, se ficar aqui”. Q: Como lida com o fracasso? LC: É difícil, a vida nem sempre foi cor de rosa para mim. Tive situações em que, mesmo já sendo médica, os doentes olharam para mim e viram apenas a mulher negra, tendo chegado mesmo a pedir uma médica diferente. Choca-me, porque, às vezes, esqueço-me dessa parte óbvia de mim, que sou mulher e que sou negra. Para mim, no hospital, sou ape-

nas uma anestesista e o resto não devia importar, as minhas credenciais deveriam falar por si. Portanto, já tive várias maneiras de lidar com o insucesso, já estive deprimida, já fiz psicoterapia, procuro refúgio na minha família, que tem sido, efetivamente, o meu maior apoio, e mais importante que tudo, decidi que o que as pessoas pensam não importa, não sou eu, são eles que estão mal. É preciso diferenciar o processo de pensamento deles do meu, se não me querem como amiga, se não querem estar associados comigo, é com eles. Eu posso encontrar outras pessoas. Q: Alguma vez sentiu desdém por parte dos seus colegas e pares? LC: Sim, sim! Conto muitas vezes uma história, que foi muito triste, para mim, na altura, e ainda é, quando a recordo, que aconteceu quando decidi casar com o meu marido. O meu marido é branco; quando nos conhecemos e decidimos casar, disseram-me que não o deveria fazer, porque não era suposto casar fora da minha raça, do meu “tipo”. Quando andávamos de mãos dadas na rua, fomos muitas vezes olhados como se tivéssemos uma doença contagiosa e foi horrível. Éramos médicos, e podia ver-se que pertencíamos a um estatuto social que devia dizer às pessoas “está tudo bem!”, mas não. Houve sempre pessoas a desdenhar, a dizer que não devíamos ter filhos, porque eles iriam ter uma vida difícil na escola, por serem fruto de um casamento interracial. Bem, os meus filhos estão perfeitamente bem, tal como sempre estiveram. Q: Qual é a mensagem de força que gostaria de passar aos futuros médicos, tendo em linha de conta os desafios mais difíceis que se avistam? LC: O que eu ouvi até agora, em perguntas que me colocaram durante a palestra, é que o princi-

pal problema é o stress. O stress de ser estudante de medicina, o stress de ser médico. O mais importante é saber o que se quer. Vai haver, inadiavelmente, obstáculos e adversidades. Como se lida com isso? Primeiro, nunca sozinho, evitem ser lobos solitários! Vai haver sempre alguém para ajudar, desde que não haja inibição de pedir ajuda. Isto não é uma profissão em que se possa seguir sozinho, depende, inequivocamente, de trabalho de equipa e de esforço conjunto. Q: É a sua primeira vez em Portugal? LC: É a minha primeira vez em Portugal, sim, e estou a adorar. Aterrámos no Porto e passámos lá alguns dias, dei 20000 passos! Foi um desafio, porque não me lembrei que depois de descer tanto, tinha de subir! Mas as pessoas são fabulosas, prestáveis. Mesmo havendo a barreira da língua, todos tentaram ajudar. Q: Que conhecimento tem acerca da realidade médica em Portugal, atualmente? LC: Não sei muito, na verdade. Sei que não pagam pela escola, que os impostos ajudam a assegurar isso, e que pagam propinas anuais. Nos EUA, os gastos com a educação podem ir dos 50 aos 70000 dólares, por ano. Muitos alunos ficam, desde logo, com dívidas enormes. E falávamos de stress! Tínhamos um sistema de saúde que ajudava a pagar o curso de medicina, mas não funcionou, o que é terrível, porque a verdade é que há falta de médicos, em todo o mundo, e, assim, não há incentivo nenhum. Toda a gente retribuiria esse investimento, quando começasse a trabalhar. O mundo precisa de médicos e o vosso sistema é ótimo para isso. Ainda não vi nada, desde que cheguei a Coimbra, que não entusiasmo e boa vontade. Ninguém vos pagou para organizarem este congresso, estão a fazer isto no vosso tempo,


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e mais de metade são mulheres! Vocês podem ser tudo o que quiserem! Q: O que gerou a vontade de escrever um livro? LC: Quando decidi ser oradora, apercebi-me de que sempre falei em público sem ter o rótulo de oradora, porque, como médicos, levantamo-nos e damos palestras. Não falamos verdadeiramente com as pessoas, só palestramos, com termos técnicos, sem espaço para diversão. Por isso, quando decidi ser oradora profissional, tive muita formação nessa área e uma das coisas que repetiam nesses cursos é que é sempre importante ter uma base escrita daquilo que vamos defender ou partilhar, um livro, que poderia ser pequeno ou testamental. E por isso, estou a escrever uma autobiografia, na esperança de que através da minha história, que considero única, consiga chegar a muito mais pessoas. Mas não posso dizer que o empurrão não veio das pessoas. Aconteceu que no final de uma palestra, que dei na Malásia, uma senhora chinesa aproximou-se e disse-me “Devia escrever um livro” e eu disse “Oh, ok, vou escrever um livro!” (risos).

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Q: Como se imagina daqui a 20 anos? LC: Em 20 anos, terei 85 anos, mas não importa, porque, agora que encontrei esta nova vocação, esta capacidade de poder inspirar estudantes de medicina, de partilhar as minhas experiências com tantas pessoas, de oferecer-me, apenas, para ouvir os dilemas com que se debatem, sinto que podia fazê-lo para sempre. Aí, a minha idade desaparece. Contudo, penso que, daqui a 20 anos, não serei capaz de viajar tanto. Vou continuar a falar, espero ter o meu livro terminado nessa altura (risos), e apreciar a vida! Simplesmente! Rir, ser saudável, aproveitar a vida! Q: Concorda com a frase: “O único local onde sucesso surge antes do trabalho é no dicionário”? LC: Muitas pessoas sentem que a única maneira de ser bem sucedido é tendo o seu nome num artigo, ser publicado, ser famoso mundialmente. Eu nunca tive essa fama e considero-me uma mulher com sucesso. No meu ponto de vista, não tenho de aparecer na televisão para me sentir recompensada. Sou aquele tipo

"Encontrei esta nova vocação, esta capacidade de poder inspirar estudantes de Medicina"

de pessoa que “põe a mão onde é preciso”, sou uma eterna aluna e vou para casa contente quando um doente me diz “muito obrigada!”, isso é sucesso. Um doente de cada vez, uma pessoa de cada vez. Tem de se trabalhar muito, mas o sucesso não se faz apenas disso. Para algumas pessoas, é natural ser uma pessoa bondosa, altruísta e, em vários sentidos, devia ser esse o significado de ser médico - cuidar! Se não se acreditar nisso verdadeiramente, estudar muito nunca vai ser suficiente. E nunca, mas nunca, podemos olhar para o sucesso de outra pessoa e julgar que é o nosso próprio sucesso. Q: Se estivesse frente a frente com alguém desconhecido durante 2 minutos, o que pensa que os seus olhos transmitiriam? LC: Quero ir para a festa (risos)! Estou a brincar, tem tudo a ver com linguagem corporal e é complexo, baseia-se, frequentemente, em primeiras impressões. Eu, por exemplo, rio-me muito e tenho sempre uma postura muito direita. Por isso, penso que posso afirmar que, em 2 minutos, transmitiria uma sensação de bem estar, de que estou bem, de que sou uma boa pessoa!


OPINIÃO Texto por Cláudio Ferreira, 3º Ano

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segregação social é uma marca bastante profunda na história dos E.U.A. e que, talvez de uma forma diferente, continua a ser uma realidade e um dos maiores problemas sociais deste país. Na verdade, o sonho de Martin Luther King está ainda longe de se concretizar, mais de cinquenta anos após o seu famoso discurso em Washington. De igual modo, a Europa também não é inocente nesta matéria. A segregação e discriminação, tendo por base a origem e a etnia, por parte de indivíduos naturais de países que recebem bastantes imigrantes, e até do próprio Estado, não é difícil de percecionar. Por exemplo, vejamos o caso particular dos Estados Unidos. Devido ao elevado número de imigrantes, nomeadamente Africanos e Latino-Americanos, uma grande parte da população Caucasiana, que até então não tinha competitividade e, facilmente, conseguia um nível de vida razoável, sem grande formação académica,

é confrontada com um crescente número de pessoas, oriundas de países pobres, que lutam por vingar a sua vida. Obviamente que, sujeitando-se estas pessoas a salários mais baixos, que ainda assim são superiores àquilo que o seu país de origem lhes poderia garantir, o comodismo dos indivíduos americanos naturais chegara ao fim. Assim, ou se aplicavam muito mais do que antes para se manterem na competição, ou ficavam claramente para trás. A globalização batia-lhes à porta. Ora, mas para que haveriam eles de trabalhar mais, pelo mesmo, só porque haviam mais pessoas à procura de uma vida melhor? Se os outros países tinham menos condições, isso não era problemas deles. E assim, fruto deste descontentamento, aparece alguém que lhes promete um regresso à prosperidade do passado, alguém que lhes diz que antes de pensarem nos outros, pensam neles, que eles estão primeiro e só depois, se sobrar, estão os outros. E os americanos para quem estas palavras foram música, correram pronta-

mente para as urnas e elegeram Donald Trump seu presidente. Deste modo, a nova administração dos E.U.A. não perde tempo e faz jus às promessas da campanha. As políticas anti-imigração são uma prioridade na sua agenda. O facto do grupo terrorista, autoproclamado “Estado Islâmico” utilizar o nome da religião islâmica, a segunda maior do mundo, para fazer guerra, foi rapidamente um pretexto para os E.U.A. suspenderem a emissão de vistos de entrada para indivíduos de nacionalidade de países nos quais a maioria da população segue a religião islâmica. E esta foi só a primeira medida para impedir a entrada de mais imigrantes. Pelos lados do velho continente, a mesma base de ideias surgira quando os britânicos disseram não à União Europeia. Juntamente com os acontecimentos nos Estados Unidos, os movimentos nacionalistas e anti-imigração ganhavam força, um pouco por toda a Europa. Neste caso, movidos pela crescente vaga de refugiados que cruza o Mediterrâneo


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à procura de um lugar seguro. De facto, não se pode ser egoísta ao ponto de negar o direito à paz de quem foge da guerra, com a desculpa de que economicamente esse não é o caminho mais vantajoso para o país. As políticas não se podem centrar unicamente na economia e no bem-estar absoluto dos europeus. Efetivamente, um dos argumentos utilizado pelos opositores da imigração, são os potenciais distúrbios que estes grupos de indivíduos possam causar nos países que os acolhem, sendo fatores de insegurança para os povos locais. É verdade que a segregação e discriminação de povos muito martirizados, levando-os ao ponto de já não terem nada a perder, provoca sentimentos de frustração e raiva, que podem levar a atitudes agressivas. Mas as pessoas que eventualmente poderão reagir assim, existem em todas as comunidades. O exemplo dos guetos, nos quais os governos na Europa durante muitos anos alojaram as classes socioeconómicas mais desfavorecidas, incluindo muitos imigrantes, comprovam que a segregação é propícia à formação de grupos de pessoas mais radicais, descontentes com a sua situação, que incitam a prática de atos violentos.

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Por isso, se daqui podemos tirar alguma lição, é que a segregação e divisão das pessoas provocam mais raiva, frustração e ódio e em nada contribuem para a resolução dos problemas de ninguém. Sejamos inclusivos, humanos e solidários! Só assim poderemos diminuir o sofrimento no Mundo.

Hoje são eles, amanhã podemos ser nós!


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uando era pequena, corria à janela, ao ouvir o som das sirenes. Tinha um fascínio curioso por aqueles homens e mulheres de vermelho, que ajudavam as pessoas que se sentiam mal e que tinham a coragem de enfrentar as chamas. Nos dias de hoje, fazendo já parte de uma instituição que presta socorro, continuo a ficar ansiosa quando ouço uma sirene. Decidi, muito cedo, que queria que o meu futuro se regesse pelo princípio de salvar pessoas, o que me fez ir para os bombeiros e, também, para medicina. Hoje, pouco a pouco, em cada serviço que presto, vou sentindo que esse sonho se realiza. Os Bombeiros Voluntários de Viseu acolheram-me calorosamente, agradecidos pela vontade de ajudar de quem se dedica a esta causa. Dão-me, em continuum, as ferramentas necessárias para executar a minha missão com profissiona-

lismo. A nossa ação é de largo espectro, desde a resposta às chamadas DO cudo, passando por socorro, em caso de acidentes de viação, aos incêndios florestais e incêndios urbanos e industriais. Já tive a oportunidade de prestar assistência nas situações que referi e, em todas elas, me apercebi da pequenez do ser humano, bem como da fugacidade da vida. Tal como na medicina, fazer parte dos bombeiros confere-nos uma humildade natural, pois damos conta de que precisamos de saber sempre mais, estar prontos e de que não há duas situações iguais. Em ambas as áreas, temos alguma pressão, pelo facto de termos de estar nas melhores condições, quer em termos de conhecimento teórico, quer a nível físico e mental, visto que as pessoas que vamos socorrer esperam o melhor de nós. Esta área permitiu-me crescer muito enquanto pessoa, adquirir novos conhecimentos, nas mais diversas valências, conhecer novas realidades e fazer mais pela minha comunidade. Tudo isso é plenitude, é dar sem esperar receber algo em troca. É, sem dúvida nenhuma, uma vantagem aliada à medicina, pela experiência que proporciona no contacto com doentes, urgentes e não urgen-

tes, em contexto de rua; torna-nos mais resistentes para lidar com situações difíceis, com o stress, e confere-nos mais sensibilidade no que concerne às relações interpessoais. A minha recruta teve a duração de um ano de instrução, duas vezes por semana, com interrupção nos meses de verão, onde abordámos todos os conhecimentos básicos para a nossa atuação. Seguidamente, acresceram três meses de período probatório, que se define como a introdução à prática em cenários reais, testando se estamos realmente aptos. Correntemente, há uma escala que comanda obrigatoriedade de fazer serviço uma noite por semana, sendo que poderemos ser solicitados para efetuar prevenções, para atuar de urgência ou para reforçar prontidão, na altura dos incêndios de verão. É perfeitamente possível conciliar esta atividade com a medicina, obtendo bom aproveitamento em ambas! Requer algum esforço, mas compensa completamente, quando sentimos que cumprimos a nossa missão. Deixo, por fim, o apelo, a quem acha que pode dar o seu contributo, de abraçar esta causa!-feira


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oimbra, a bela cidade adormecida no tempo… Cidade de história, cidade de memória. Para mim, e para ti, caro estudante… Se não sentires falta, é porque nunca a viste. Não com os olhos que eu a vejo; e quem pouco tempo cá passa, nunca a entenderá. Chegados a Coimbra de fresco, os estímulos são imensos, aulas a ser assistidas, amizades a ser criadas, amores a ser conquistados. Percorres as ruas que gritam por amor, mas não as consegues ouvir, porque não estás a escutar. Atentas os degraus da Velha Sé, mas não vês as guitarras que fizeram lágrimas escorrer da alma e embater na calçada, gasta pelo choro desta cidade. Porque os teus olhos não amadureceram ainda… Dá-lhe tempo e ela entranhar-se-á em ti. Dá uma oportunidade às “velhices”, que tanta gente fala e admira… Foi o que fiz, e a minha visão nunca foi tão clara sobre amor e saudade, como agora. Dentro de uma monotonia difusa de aulas, amigos e copos, dei por mim a escutar pedaços de poesia transformados em música. E foi aí que me atingiu todo o alvoroço que alguns vivem em torno do Fado. Esta arte, criada por homens imortais, que pairam, agora, sobre a cidade, é uma das mais belas criações em torno da música portuguesa que assisti e me orgulho de integrar. Beleza única e excêntrica, que, a uma quinta-feira de Maio, faz espantar a alma de todo aquele que de negro se traja. Foi então que, à conversa com

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amizades que partilhavam da mesma paixão, nasceu o Grupo de Fado “Desassossego”. Seis estudantes dos 4 cantos da UC decidem criar um refúgio do dia-a-dia e enveredar nas memórias de tempos passados, na saudade de amores perdidos, ao interpretar a Canção Coimbrã. Com o objetivo de perdurar uma tradição, que parece cada vez mais esquecida pelos estudantes, juntamo-nos, semanalmente, para aprimorar o trabalho desta arte, de forma a levarmos uma interpretação fiel por todo o nosso belo Portugal, com a ambição de a tornar tão icónica e conhecida, como em tempos áureos se viu e admirou. Apesar de parecer só mais trabalho, este grupo é muito mais que isso. É união, é convívio, é amizade, é aventura, que ficam para a vida. Apesar de o palco ser o foco onde os olhos descansam a atenção, para ver o nosso trabalho, o nosso maior divertimento apoteótico acontece quando as pessoas se juntam, num registo informal, e nos acompanham nas letras, quando rasgamos noite dentro com música de saudade e copos de alegria! Perceber que fizemos as pessoas voltarem atrás no tempo, recordando-o com carinho, sentirmo-nos a viajar com elas para momentos lonO A sentimentos de gínquos, entre melancolia e saudade que conduzem esta máquina de tempo. Saudade, palavra tão forte e tão única, que tentar descrevê-la corretamente seria um erro, mas todos sabemos ao que

se refere na hora da verdade. Caminhamos com a ambição de crescer para estarmos prontos no objetivo supremo de qualquer grupo de Fado de Coimbra, juntarmo-nos a vós na mítica quinta-feira desse mês de maio, que se vem a repetir por décadas a fio. Nesse dia prometido, perante e entre um mar negro de almas, choraremos pelas guitarras e pelo canto, para que vos ecoe na alma e também vocês possam viajar no tempo. Enquanto isso, continuaremos a encher as ruas desta antiga cidade com melodias e, quem sabe, por entre o silêncio desta cidade adormecida, surpreender os mais belos corações com as míticas serenatas à janela, abraçados pelas grandiosas capas negras que fazem já parte de nós. Por Coimbra!


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odos Pelo NEM? Escrever para a Anemia não é tarefa fácil. Entre a tentativa de ser (parcialmente) imparcial, que exige um certo controlo de traços de afetuosidade lábil, e não querer deixar transparecer a falta de prática, fica aqui o meu melhor. Duas listas, o mesmo objetivo, planos diferentes: Tantas vezes fomos questionados sobre o porquê de duas listas. Acredito que a resposta seja essa. No momento em que se escolhe fazer parte de uma lista, é consequente a escolha e defesa de um plano de ação e prioridades a serem empregues. Mas, é sobretudo neste ponto que se escolhe fazer parte de uma equipa (e eu não podia ter tido melhor). Acredito e entendo que um dos grandes pontos positivos para ambas as listas foi a dinâmica e o espírito de entreajuda fortalecido, o que resulta num ótimo pontapé de saída para qualquer que fosse a lista vencedora. O decorrer das campanhas gerou um alvoroço que, há já muito, não era vivido na FMUC, aquando de eleições para o Núcleo. Espero que este facto tenha arrastado consigo a divulgação de que existe, efetivamente, uma entidade

formada por colegas que nos representa, enquanto estudantes da FMUC, colegas que se pretendem inteirar das lutas dos seus pares e defendê-las. No entanto, quem nunca se cansou do spam "Vota P" ou "Vota T"? A quantos colegas não chegou a mensagem da diferença que marcou a cisão entre as duas listas? Foi falta de interesse ou falta de dinâmica das últimas? Terá sido o debate esclarecedor? P de Perdemos (?) Quando nos vimos invadidos pelo nervoso miudinho da expectativa, senti-me obrigada a reconhecer e valorizar a capacidade de alguns de separar as pessoas ao nosso lado das ideias que defendem. Senti que, de certo modo, foram postas amizades à prova - a afetuosidade lábil, de novo. Felizmente, chegou a surpresa de um número total de 850 votantes - algo de inédito, em comparação com eleições de anos anteriores. Espero que tenha sido o marco de uma mudança de paradigma - há mais colegas nos plenários, confirmando, pelo menos, 85 colegas informados. Vamos aos poucos, mas vamos. E agora, o que fica? Ao facto de terem existido duas listas candidatas, acresce um cer-

to dinamismo e fica a vontade de fazer sempre mais e melhor. Espero que esta campanha eleitoral tenha sido um grito à pró-atividade, ao "levanta-te", à luta pelos teus interesses e ideais. Sonho com um Núcleo que representa a voz de todos os colegas que dele fazem parte. Espero que tenha ficado sempre a boa vontade, humildade e sentido de privilégio que é representar todos os colegas da faculdade. À nossa Direção, o desejo de um mandato cheio de sucessos. Lembrar: 22 colegas dirigem o núcleo mas a realidade é que ele também é teu, também é meu. Porque somos todos NEM! Sara de Carvalho

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ela primeira vez, desde que estudo nesta Faculdade, as eleições para a direção e mesa do plenário do NEM tiveram duas listas candidatas. Ao contrário do costume, a campanha não passou apenas por “no dia 14, não te esqueças de ir votar!”, por só haver uma lista candidata. Ao contrário do costume, a campanha não foi à base de “vamos continuar o bom trabalho que vem de trás”. Desta


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vez, vi verdadeira preocupação, não só em divulgar que haveria eleições, mas também em dar a conhecer tudo o que de bom cada lista se propunha realizar, tudo aquilo que achavam ter corrido mal até agora e tudo aquilo que queriam fazer de diferente. Tudo isto obrigou a que, quer de um lado, quer do outro, se reinventassem estratégias a cada dia de campanha, com o objetivo de levar a cada vez mais colegas a vontade de fazer mais e melhor. Também pela primeira vez, desde que assisto a estas andanças eleitorais, realizou-se um debate, que pôs à prova as duas candidatas a Presidente. Este parecia ser, finalmente, o momento de comparação de ideias, propostas, críticas e projetos de ambos os lados. “Afinal serão assim tão diferentes?”. Uma excelente oportunidade perdida. Um debate que não fez jus ao seu nome, pela moderação muito aquém da expectativa. Cada parte argumentou apenas consigo própria, com perguntas diferentes para cada uma. Nem sempre se fizeram respeitar os tempos de intervenção, favorecendo-se um dos lados, o que, paradoxalmente, acabou por não ser expressivo. Para futura referência, fica a sugestão de tomar como exemplo os debates levados a cabo pelos colegas da RUC e da tvAAC. Num balanço geral, é de salientar o empenho e dedicação demonstrados por parte de todos os elementos de ambas as listas, muitos deles caloiros e “caloiros” nesta organização. Pessoalmente, é gra-

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tificante ver tanta vontade de trabalhar naquele que é o Nosso Núcleo. A qualidade das campanhas foi notória e os objetivos alcançados, no que respeita à apresentação e divulgação de ideias, embora haja algumas falhas a assinalar no decurso do debate. Julgo que foi uma excelente iniciativa, que gostaria de ver repetida na agenda eleitoral das próximas campanhas. Resta-me desejar um mandato de sucesso aos nossos representantes e que nada os impeça de atingir os seus objetivos! Salomé Afonso

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s eleições vieram em boa hora, mas de maneira errada. Enquanto membro da Direção anterior, notei um claro decréscimo de interesse por parte dos meus colegas, face à ação do NEM/AAC, quer nas atividades que realiza, quer em ações menos práticas, igualmente importantes, de política educativa ou tomadas de posição. Neste aspeto, as eleições foram, por mim, vistas com bons olhos; batemos recordes no número de votantes, trabalhámos por uma campanha que chegasse ao maior número possível de pessoas, de colegas; lutámos pelas nossas ideias e em como poderiam ser exponenciadas. Toda a atmosfera despoletada por, finalmente, existirem eleições disputadas, ajudou a colmatar o que já se sentia há muito, o

desinteresse por parte dos nossos colegas. Porém, não se iluda quem ache que, no final, houve um vencedor e um derrotado. De alguma maneira, todos fomos derrotados. E é isso a que me refiro quando, acima, utilizo a expressão “maneira errada”. A certo ponto, será que se estava a lutar pelo melhor para o NEM e para os estudantes que representa? Estariam as duas listas motivadas pela causa certa? Não me incumbe fazer julgamentos, mas, se do resultado concreto das eleições saí vitorioso, por saber sermos a melhor opção, saí derrotado pela surrealidade de que este contexto se vestiu. Pedro Manuel Pinto


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Por Ana Margarida Ribeiro, 3ยบ ano


48ª Edição – Maio de 2017

Propriedade do Núcleo de Estudantes de Medicina da AAC - Pólo das Ciências da Saúde da Universidade de Coimbra Sub-Unidade 1 da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra Azinhaga de Santa Comba, Celas 3000-548 Coimbra geral@nemaac.net www.nemaac.net anemia@nemaac.net

Departamento de Cultura e Arte Direção: Vitória Silva de Melo Redação: Vitória Silva de Melo, Cláudio Ferreira, Ana Margarida Ribeiro, Diogo Simões, André Salvada, Sara de Carvalho, Salomé Afonso, Pedro Manuel Pinto, Pedro Peixoto, Mariana Almeida. Design e Grafismo: Hugo Pereira e Ana Catarina Lopes Capa: Inês Sério Impressão: Singular Print Tiragem: 200 exemplares, Distribuição Gratuita


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Anemia - edição de Maio by NEM/AAC - Issuu