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ANEMIA #53

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Bem-vinda/o à Anemia! Trazemos-te uma nova edição, para os meses de inverno, com novos conteúdos e projetos a estrear. Queríamos, desde já, falar-te de dois deles. No separador Científico, esta edição inaugura uma parceria com a revista Acta Médica Portuguesa-Student (AMP-Student), em que publicaremos casos clínicos da Acta Médica Portuguesa em formato interactivo, tanto na revista física como on-line, no site da AMP-Student. Na vertente Cultural, deixamos-te alguns dos textos criados no Workshop de Escrita Livre, organizado pela Anemia em novembro de 2018, em conjunto com outros enviados por colegas para o e-mail da revista (anemia@nemaac.net). Aproveitamos assim, para agradecer a todos aqueles que têm contribuído para tornar a revista mais sua, mais nossa! Esperamos ainda por mais contribuições e sugestões. É sempre com satisfação que as recebemos e tentamos dar-lhes voz. Continuamos a apostar na Atualidade, em assuntos amplos que acreditamos valer a pena discutir numa óptica médica. Apresentamos um trabalho sobre o assédio sexual na comunidade médica, que conta com um estudo focado nos estudantes e profissionais de saúde, realizado pela Anemia, e que vos trazemos em primeira mão. Mas mais que números, cada caso deve ser valorizado, e é isso também aquilo a que queremos apelar. Viajamos pelo mundo, desde o Bangladesh à Austrália, para conhecer experiências de voluntariado humanitário e especialidade no estrangeiro. E falamos de Educação Médica, desde os alicerces às provas. Pelo meio, mais ciência, com a ligação de estudos que nascem no laboratório e vêm a beneficiar doentes, focando-nos na Medicina Translacional. Falamos da ética da genética, tão complexa e tão atual também. E deixamos-vos algumas ideias culturais para a próxima época festiva. Desejamos a todos os que nos lêem e aos que da Anemia fazem parte, um Ano Novo de grandes sucessos académicos e pessoais. Ana Margarida Ribeiro, 5º ano André Salvada, 6º ano


DESCODIFICAR A (DES)HUMANIDADE CONTEXTO GEOPOLÍTICO NO BANGLADESH Mariana Cardoso, 5º ano Pedro Silva, 6º ano Tiago Jorge Costa, 5º ano

B

angladesh, país do Sul Asiátco cuja religião oficial é o islamismo, é a oitava nação mais populosa do mundo. O povo do Bangladesh inclui uma panóplia de grupos étnicos e religiões. Bengalis, cuja língua oficial é o Bengali, perfazem uma percentagem de 98% da população. Este país tem muitas ilhas, um coral de recife, a maior praia ininterrupta do mundo, Cox’s Bazar Beach, e ainda uma vasta floresta designada Sundarbans. O Bangladesh é um país em desenvolvimento e um dos maiores exportadores de têxteis do mundo. Com a sua localização estrategicamente vital entre o sul, leste e sudeste asiático, este país é um importante promotor de conectividade e cooperação regional. Além disso, é um dos maiores contribuintes das forças de paz das Nações Unidas. O Myanmar, também conhecido como Burma, é um país localizado

ATUALIDADE

também no sul do continente asiático que faz fronteira com o Bangladesh. Foi durante muito tempo considerado um estado pário enquanto estava sob o domínio opressivo de um regime militar antes de este ser dissolvido. A ONU relatou violações sistemáticas dos direitos humanos durante a ditadura da antiga colónia britânica após um golpe em 1962. A instalação de um governo nominalmente civil em 2011 e a libertação do líder da então oposição Aung San Suu Kyi da prisão domiciliária melhoraram o histórico de direitos humanos do país. Mas tem havido críticas contínuas à maneira como as minorias étnicas são tratadas. Neste país são praticadas muitas religiões, sendo 89% da população budista. As comunidades cristãs e muçulmanas, constituindo uma dessas minorias, continuam a enfrentar violações dos direitos humanos, nomeadamente, perseguição religiosa, desde a

independência do país, na década de 40. A comunidade Rohingya é uma delas. O povo Rohingya é constituído por mais de 1 milhão de pessoas, maioritariamente muçulmanas. Este povo tem língua e cultura próprias. Estão espalhados por todo o país, mas a maioria está no estado de Rakhine, desde que comerciantes muçulmanos vindos do Bangladesh lá se instalaram, há vários séculos. Estima-se que o número de Rohingyas a viver neste país antes da crise de refugiados seria de 1.2 milhões. A sua necessidade de ajuda começou há décadas, após o governo do Myanmar os ter declarado, oficialmente, imigrantes ilegais do Bangladesh, tendo-lhes negado a cidadania. Começaram a ser discriminados pelo governo e pelo povo budista. Consequentemente, direitos a educação, a um lar, a higiene e cuidados de saúde foram-lhes igualmente negados. Em 2012, esta tensão culminou em


protestos e desacatos por parte dos Rohingyas. Foi o início de uma guerra civil que tem levado diretamente à morte de militares e civis dos dois lados do conflito. O governo chamou-os de terroristas e começou assim uma campanha de ódio, violência e intolerância étnicos e religiosos. Uma “limpeza étnica”, segundo a Amnistia Internacional. Há registos de presos de consciência, restrições à liberdade de expressão, violações, aniquilação de aldeias inteiras através de incêndios e homicídios. Tudo isto cumpre requisitos para que possamos falar num genocídio, mas a verdade é que, oficialmente, nenhuma entidade o considerou como tal, não se sabe bem porquê. E o governo do Myanmar nega a maior parte das acusações, é claro. Em 2016 e 2017 deram-se os ataques militares mais mortíferos. Foi a gota de água para um povo que já não sabia como sobreviver no próprio país. Apesar de terem começado a exilar-se desde os anos 70, foi neste período mais recente que o número de Rohingyas a partir do seu país em busca de

paz, segurança e refúgio aumentou drasticamente. Grande parte esperou encontrar isso no Bangladesh, para onde iniciaram uma migração em larga escala, o que a ONU descreveu como “a crise de refugiados com crescimento mais repentino a nível mundial”. Porém, têm sido diversas as vezes em que, quer o Bangladesh, quer outros países asiáticos rejeitaram a sua entrada nos seus territórios. Índia, Malásia, Tailândia, Arábia Saudita e Paquistão são outros dos países de destino dos Rohingya. Desde agosto de 2017 que mais de 720 mil Rohingyas fugiram à ameaça do exército e de milícias budistas de Myanmar para se refugiarem no vizinho Bangladesh. É no Cox’s Bazar, uma das principais zonas turísticas no sudeste do país cuja língua oficial é o Bengali, onde está refugiado o maior número de pessoas, cerca de 240 mil pessoas. Os refugiados recusavam voltar até que a sua segurança e direitos estivessem garantidos. O governo de Myanmar admitiu que perto de 40% das aldeias onde viviam

as populações minoritárias foram sinalizadas pelo exército nacional para as chamadas “operações de limpeza”. Já em junho do presente ano, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) e o Programa da ONU para o Desenvolvimento (PNUD) estabeleceram com as autoridades oficiais birmanesas um acordo para fomentar a criação de condições de segurança necessárias para um regresso voluntário das pessoas do grupo minoritário. As autoridades de Myanmar afirmaram que, durante 2018, aproximadamente 100 refugiados regressaram ao país, embora as autoridades do Bangladesh tenham afirmado que os trâmites oficiais do regresso dos Rohingya ainda não tinham começado. No entanto, está previsto o repatriamento de 2200 refugiados que, segundo o comissário da repatriação de Bangladesh, Abul Kalam, está a ser monitorizado pela agência de refugiados das Nações Unidas. Os próximos meses vão ser decisivos para o futuro dos Rohingya.●

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MISSÃO DE AMOR

CAMPOS DE REFUGIADOS DOS ROHINGYA - BANGLADESH TESTEMUNHO - NOVEMBRO DE 2018 Independentemente das missões que fizemos antes ou dos sítios do mundo onde tivemos a sorte de estar, cada sítio é sempre novo, cada sítio faz-nos ter de reaprender, de redescobrir, de redescobrir-nos. Cada sítio é muito próprio, com dinâmicas sociais e culturais que são só deles. O Bangladesh também é assim. Carrego no coração a graça grande de estar aqui agora: de poder fazer de Cox’s Bazar abrigo, dos campos de refugiados casa. Cheguei há um mês e não me canso nunca das cores do pôr-do-sol e de como desaparece no horizonte tão rápido como quem tem pressa; do verde demorado das plantações de arroz que se multiplicam por toda a parte; do azul-verde-cinzento-transparente do mar. Todos os dias fazemos pelo menos 3 horas de viagem desde o centro do Cox’s Bazar até ao campo. Três horas de contemplação destas paisagens tão bonitas que aos bocadinhos também nos curam das feridas que trazemos. A verdade é que nem tudo é pôr-do-sol e nem tudo é verde. O dia-a-dia no campo é duro, por vezes escuro, por vezes frio. Este campo é casa de 1 milhão de pessoas, uma casa improvisada, sem condições, sem condições para lhes ser casa. Mas moram aqui só porque esta casa improvisada e sem condições continua a ser melhor do que a casa que tiveram de deixar. Os Rohingya são uma minoria étnica muçulmana cujo direitos de cidadania nunca foram assegurados no Myanmar. Não podem ir à escola, trabalhar, casar, viajar, ser, existir. Desde Agosto do ano passado que as perseguições desta comunidade se acentuaram dramaticamente. Carregam no coração a dor do significado de palavras como genocídio ou limpeza étnica. Aldeias queimadas, violações em massa, tortura de olhos fechados, valas comuns de mortes que não deviam ser comuns. Crimes contra a humanidade, contra o mundo, contra o direito de ser. Crimes cometidos pelas forças militares do próprio governo, limpeza geral como quem limpa o jardim das ervas daninhas. Uma limpeza que carrega uma dor que não sei explicar: a dor de todos que morreram; a dor de quem morreu a cada um que conseguiu sobreviver; a dor do que viram; a dor do cansaço destas feridas por curar. Não há nada que canse mais do que este sofrimento que não passa. O tempo passa - mais de um ano passou desde que procuraram abrigo no Bangladesh - mas a dor está intacta, por cuidar, por curar. Tenho a sorte de estar todos os dias num hospital no campo a trabalhar com uma ONG local que se chama “Hope Foundation for Bangladesh”. Tenho a sorte de estar lá todos os dias à espera deles, de que me contem o que lhes dói, o que os preocupa, o que lhes tira o sono. Tenho a sorte de estar lá todos os dias para saber das suas feridas, conhecer as suas dores aprender a curá-los. Tenho a sorte de estar lá todos os dias, mesmo nos que doem demasiado, mesmo nos que são escuros. Precisamos de doer juntos. Precisamos de saber o que é ver morrer toda a família, o que é fugir pela selva durante 14 dias, o que é carregar um bebé que nasceu duma violação. Precisamos de deixar doer em nós, precisamos de dar-lhes as mãos, lembrar-lhes que não estão sozinhos. Não há nada maior que lhes possamos dar do que esta esperança de que o mundo os consegue ver, de que não assistimos em silêncio mas que juntamos as nossas vozes às deles até que o mundo lhes volte a ser casa. Como em todos os sítios do mundo, também nem sempre é escuro. Há um lado deles que é só luz: a maneira como lançam papagaios no ar contrariando um mundo que lhes diz que não podem ser crianças; a maneira como pegam nas mochilas e vão a correr para a escola contrariando um mundo que lhes diz que não podem aprender; a maneira como as mães cuidam dos filhos contrariando o mundo que diz que não se pode ser mãe num campo de refugiados; a maneira como nos agarram nas mãos, nos olham, nos agradecem, nos são casa, contrariando um mundo que não fala do quão bons eles são. Este lado luz-amor-coração inspira-nos todos os dias, cura-nos todos os dias. Descansamos neles, nesses abraços, nessa casa comum. Somos casa uns para outros. Acredito muito que no meu coração vai ser sempre tempo de partir enquanto houver sítios como este onde dói demasiado. Precisamos de ir lá, de fazê-los casa, de fazer do mundo casa, não como quem não tem raízes mas como quem tem raízes que não nos prendem. ● Drª Ana Paula Cruz

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ME TOO Assédio Sexual na Comunidade Médica uas pequenas palavras, sujeito e predicado, que dançam nos lábios de tantos nós, ganharam peso e força, tornando-se no símbolo do assédio sexual da nossa geração. A história leva-nos a 1996, quando após ouvir o relato de uma criança acerca do seu abuso sexual, Tarana Burke, ativista, sentiu estas palavras correrem-lhe boca fora:

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Me too.

Foi a primeira vez em que foi relatado o uso da expressão a favor do movimento igualitário feminista. Vinte e dois anos voltados e as cinco letras têm direito a um lugar especial na história. Uma pesquisa pequena e fugaz pelas diversas redes sociais usando o #metoo revela milhares de histórias acerca de assédio e abusos que, tempos fossem outros, ficariam apenas gravados na memória das vítimas. Estes relatos incentivaram uma onda de denúncias, partindo grandes paredes e deixando expostos comportamentos condenáveis de algumas das estrelas mais amadas de Hollywood. O ambiente mudou. Os tapetes vermelhos enchiam-se de preto, as conversas abandonaram futilidades e passaram a rodar acerca não só da questão do assédio mas também da sua relevância para a discrepância entre géneros. O que é assédio sexual? A definição oficial de assédio sexual é:

“todo o comportamento indesejado de caráter sexual, sob forma verbal, não verbal ou física, com o objetivo ou o efeito de perturbar ou constranger a pessoa, afetar a sua dignidade, ou de lhe criar um ambiente intimidativo, hostil, degradante, humilhante ou desestabilizador”. Noutras palavras, o espectro do assédio sexual é vasto e inclui ações com diversos graus de gravidade, segundo o ponto de vista jurídico. No início do espectro, temos ações como ocupar o espaço pessoal de alguém durante longos períodos de tempo, mesmo quando a pessoa se mostra incomodada, olhar durante um tempo prolongado inferindo constrangimento no outro ou fazer comentários inapropriados acerca da apresentação do outro, incluindo a roupa e o corpo. Por outro lado, temos a ameaça, caso os favores sexuais não sejam cumpridos e a agressão sexual. Os casos mais graves são facilmente classificados como assédio sexual, contudo, a maioria das situações de assédio localizam-se na região mais cinzenta da escala. Será que fui assediado(a) sexualmente? Existem duas categorias em que podemos agrupar o assédio sexual: Assédio sexual verbal - inclui fazer comentários inapropriados, mandar mensagens ou emails inapropriados, fazer propostas sexuais explícitas ou

implícitas e ameaçar caso haja resistência. Assédio sexual físico - inclui olhares prolongados, toque inapropriado, ocupar o espaço pessoal, agarrar, forçar fisicamente, tentativa de abuso sexual e abuso sexual propriamente dito. Se suspeitas que foste assediado(a) mas não tens a certeza, a probabilidade de teres sido é elevada. Muitas das vítimas tentam criar uma justificação para o comportamento do agressor, quer seja pela roupa que tinham vestida, pela forma como falaram ou se dirigiram ao(à) agressor(a), ou pelo que é dito “normal”. Todos estes fatores levam a uma desvalorização da situação e a um atraso na denúncia. O comportamento do agressor pode limitar-se a um tipo de assédio, mas também pode escalar tornando-se mais evidente e, eventualmente, grave. A existência de conversas sociais em redor deste tópico é comum. As histórias são partilhadas na segurança de grupos de amigos e, muitas vezes, repetem-se de elemento para elemento. O facto de já ter acontecido no passado e a tantas outras pessoas, faz com que as vítimas de agora sintam a obrigação de, também elas, manterem o silêncio e não agirem perante a agressão. Outro problema é o medo de retaliação. Isto acontece pois a maioria dos agressores ocupa cargos hierarquicamente superiores às vítimas. Assim,

“Em contexto de urgência, o professor/médico deixou implícito (...) que (a minha amiga) se podia sentar no colo dele, insistindo para que o mesmo acontecesse.” Anónimo

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temos o atraso ou a ausência de denúncias pelo receio de “chumbar à cadeira”, “ser despedido(a)” ou “não ser promovido(a)”. Nas faculdades, hospitais e outras instituições de saúde, as agressões são frequentes. Um estudo realizado pela UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta em Coimbra) revelou que cerca de 94% das mulheres dizem ter sido assediadas sexualmente pelo menos uma vez em contexto académico. Noutros países, como os EUA, as taxas de assédio em contexto académico são mais frequentes nas áreas científicas, com especial realce para as faculdades de Medicina. Os investigadores justificam esta incidência pelo facto de comportamentos abusivos serem mais frequentes em ambientes dominados por pessoas do sexo masculino. A dificuldade que existe em manter um espaço pessoal preservado, pela proximidade física que certos procedimentos exi-

gem ou a grande quantidade de horas que as pessoas necessitam de passar juntas também são apontados como fatores de agravamento. O assédio sexual na saúde não é muito investigado, contudo, o Gabinete de Prevenção de Assédio Moral e Sexual e do Centro de Prevenção e Tratamento do Trauma Psicogénico do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) fala de cerca de 50% dos profissionais de saúde já terem tido pelo menos um episódio de violência física ou psicológica em cada ano. Este gabinete dá agora os seus primeiros passos, porém visa apoiar as vítimas de assédio e trauma. Para aceder a uma destas consultas, é necessária uma triagem prévia por um psiquiatra. Quais os efeitos nas vítimas? Após uma agressão deste tipo, os diagnósticos mais comuns são a depressão, a ansiedade e a perturbação de stress pós traumático. Como tal, a associação com baixos níveis de confiança e baixa-autoestima são frequentes e afetam o

A quem acontece?

rendimento laboral e/ou escolar da vítima. Podem surgir patologias relacionadas com o padrão de sono, náuseas e cefaleias. Vítimas de assédio sexual tendem a ter mais dificuldades no avanço na carreira, por duas principais razões: pela eventual patologia desenvolvida pela vítima e pela obstrução que o(a) agressor(a), numa posição hierarquicamente superior, poderá criar. Criar um sistema que apoie vítimas e sancione agressores é imperativo em cada sistema laboral, incluindo nas faculdades: as histórias circulam pelos círculos sociais. Muitos de nós sabemos o nome dos agressores de repetição, contudo, principalmente pelo medo de retaliação, uma denúncia é pouco provável de acontecer porque sabemos que não estamos a pôr em risco uma cadeira apenas, estamos a pôr em risco uma carreira.

Apesar de ser uma luta maioritariamente feminina, com estatísticas que revelam que 80% das mulheres do mundo já foram sexualmente assediadas, pelo menos uma vez na vida (os valores podem chegar aos 99% em países como o Egito), os valores de assédio no sexo masculino não são de discriminar - 35% dos homens dizem já ter sido sexualmente assediados pelo menos uma vez na vida. A maioria dos agressores é do sexo masculino.

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AI, NÃO PERCEBO! “Se foi verdade, e eu altamente duvido, ele tinha 17 anos. Elas, agora acusadoras, 36 anos depois!!! Tinham 15 e 16. Então porque não se queixaram antes??” (comentário a notícia acerca do caso de abuso sexual a Drª Ford por Brett Kavanaugh, no facebook da SIC Notícias) Do ponto de vista psicológico: a decisão de fazer uma denúncia implica que a vítima admita que foi agredida. Admitir uma agressão implica que a vítima reconheça que perdeu o controlo sobre a sua vida e principalmente o seu corpo. Muitas vítimas passam uma fase de entorpecimento, em que se sentem fora delas, despersonalizadas. São usados mecanismos de coping, como a negação, e muitas delas permanecem anos sem contar a ninguém, incluindo família e amigos. O medo do impacto da notícia nas relações (com o cônjuge, a família, os filhos) e o risco de vitimização também são de referir. Do ponto de vista laboral: estando a maioria das vítimas em posição hierarquicamente inferior aos agressores, a denúncia pode implicar, em muitos casos, que a carreira da vítima saia prejudicada. Nem ela sabe... uma coisa que terá

acontecido há 36 anos atrás não pode ser perfeitamente recordada! (comentário a notícia acerca do caso de abuso sexual a Drª Ford por Brett Kavanaugh, no facebook da SIC Notícias) Momentos traumáticos poderão ser gravados de maneira especial na nossa memória. Da mesma maneira de que o dia de um acidente ou da morte de um ente querido poderá ficar registado na nossa memória (mesmo que tenha acontecido há 10, 20, 60 anos), uma agressão sexual poderá criar recordações vívidas que a vítima carregará para a vida. Algumas terapias poderão ajudar a atenuar estas memórias. Hoje em dia nem podes dizer a uma mulher que ela é bonita, ou sequer olhar para ela que já é assédio sexual. (comentário a notícia sobre denúncias de abuso sexual em Hollywood, no facebook da SIC Notícias) Uma palavra chave dos casos de assédio é o contexto: uma frase dita por uma amigo ou namorado poderá ser adequada, porém, na boca de um colega de trabalho ou de um estranho, poderá criar um ambiente hostil e desconfortável. O problema do olhar prolongado é a sensação de insegurança que é capaz

de induzir. Quando decidirem andar vestidas em vez de semi-vestidas, pode ser que as coisas mudem. (comentário a notícia sobre denúncias de abuso sexual em Hollywood, no facebook da SIC Notícias) Este comentário levanta duas questões importantes: a primeira é relativa ao direito básico da liberdade de expressão, na qual se inclui os roupas que escolhemos vestir. A segunda é relativa aos dados estatísticos de assédio sexual em populações mais conservadoras e com tradição de uso de roupas que cobrem a maioria do corpo e cara. Nestes países, os níveis de assédio sexual são superiores chegando a valores como 99% das mulheres já terem sido vítimas de assédio sexual , tirando aqui algum poder ao argumento usado. Em Janeiro do corrente ano, uma exposição chamada “What were you wearing?”, em Bruxelas, dispunha lado a lado a roupa que as vítimas de violação estavam a usar quando foram agredidas. Nesta exposição, são visíveis desde vestidos de verão a fardas da polícia. ● Joana Lourenço, 6º ano

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Estudo ANEMIA Nº de respostas: 88

Principal conclusão

31,5% dos inquiridos revelaram ter sofrido de algum tipo de assédio sexual em contexto médico.

Demografia da população: Rapazes - 15 Raparigas - 73 Profissão: Alunos - 79; Médicos - 2 ; Enfermeiros - 4 ; Terapeuta - 2.

Já alguém... ...ocupou deliberadamente o meu espaço pessoal e/ou manteve-se demasiado perto de mim? ...fez comentários acerca do meu corpo e/ou me fixou durante um longo período de tempo? ...me abraçou, agarrou, beijou ou tocou sem eu querer? ...me convidou repetidamente para ter um encontro apesar de mostrar que não estava interessado(a)? ...fez propostas implícitas ou explícitas de carácter sexual? ...me mandou mensagens/e-mails inapropriados? ...me tocou inapropriadamente ou me forçou fisicamente? ...me ofereceu uma vantagem em troca de favores de carácter sexual? ...partilhou fotografias minhas inapropriadas contra a minha vontade? ...me forçou a ter relações sexuais? ...me ameaçou caso negasse ter relações sexuais?

De que sexo era o agressor?

Qual o papel do agressor na comunidade médica?

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15 pessoas 17 pessoas 9 pessoas 2 pessoas 4 pessoas 3 pessoas 4 pessoas 0 pessoas 1 pessoa 0 pessoas 0 pessoas

Das 28 pessoas que disseram ter sofrido algum tipo de assédio sexual, 28 responderam que o seu agressor teria sido do sexo masculino.


ENSINO CENTRADO NO ESTUDANTE A vida de P(h)i parte II

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epois da viagem pelo envolvimento estudantil, queespero que tenha valido a pena, vamos para o próximo destino. Ensino. Formas de ensinar e aprender. Se por um lado, enquanto estudantes reclamamos de aulas pouco interessantes, por outro temos exemplos de Professores ou Assistentes que agradecemos que tenham passado pela nossa vida académica. No nosso dia-a-dia estamos formatados para um tipo de ensino onde o Professor é a fonte de informação. Vamos para a aula, ouvimos, não questionamos muito e depois estudamos o tema perto da altura de uma avaliação. Sim, resulta, como todos vemos. Mas será esta a melhor forma? Com toda a evolução científica e tecnológica, não teremos novas formas de ensino? Pois bem, falarei agora de uma delas que tem mostrado grandes resultados em Faculdades de Medicina no estrangeiro. Ensino centrado no estudante. Já ouviste falar? O ensino centrado no estudante significa que as necessidades e dificuldades do aluno são o enfoque durante a sua formação. Ademais, este tipo de ensino deposita uma responsabilidade no estudante pela condução do seu estudo e aplicação de conhecimentos. Com este tipo de ensino prevê-se que os alunos sejam o elemento ativo da sua aprendizagem. Esta é autónoma; o Professor vai acompanhando o aluno com metodologias ativas (recurso a aulas on-line, preparação de casos clínicos com discussão para as aulas presenciais) com o objetivo principal de aquisição de competências, para além da tradicional transmissão de conhecimentos. Sei que já poderás ter algumas perguntas a borbulhar, mas porque não pensar em algo assim? As limitações

são imensas para poder aplicar esta metodologia de ensino, mas porque não? Podemos começar por recordar que temos por ano cerca de 300 alunos a entrar na nossa faculdade; o número de docentes, em algumas disciplinas, não é suficiente; o modelo de plano de estudos tradicional; a carga letiva extensa para a atividade real de ensino; os professores e assistentes com demasiado trabalho clínico; etc… Aplicando este método de ensino, as aulas teóricas poderiam ser vistas de modo on-line pelos alunos em casa, quando quisessem; os alunos preparavam a aula prática, estudando o tema dessa semana, e nesta teriam resolução de casos e esclarecimento de dúvidas em relação à matéria estudada. E onde aparece o contacto com o doente? Claro, isso nunca poderia ser desprezado. As aulas práticas deveriam continuar a ser fonte de recolha de uma boa história clínica para posterior discussão ou apresentação do caso em grupo. No papel tudo isto parece fazer sentido, mas como referi há limitações. Num plano de estudos que funciona por módulos, esta abordagem faz sentido porque os alunos estão durante 2/3 semanas focados numa só área e podem dedicar-se a esta na totalidade. Porém, com um currículo semestral poderá fazer sentido? Poderia desligar ainda mais o aluno da Faculdade? Penso que se vão deparar, ao longo dos anos, com algumas propostas que podem fazer lembrar o ensino centrado no estudante. E quando ouvimos esse pedido, a ideia é logo: “Eu pago propinas, o Professor tem é de vir dar as aulas.” Será, então, este modo de pensar o correto? A mudança pode começar por nós. E aqui voltamos ao tópico da parte I da vida de P(h)i. Porque não propomos mudanças? Porque não aceitamos as propostas de um tipo de ensino diferente? Será que olhamos apenas para o nosso próprio umbigo, não dando oportunidade de ver o quadro por completo? O exemplo mais prático que se pode dar é o do doente. Não devemos olhar só para a cicatriz se estivermos na cirurgia; não podemos só pensar em doenças respiratórias, se estivermos em Pneumologia; devemos sim ser críticos e olhar para o doente como um todo. Como se fosses tu o doente. Que importasse não só a patologia em si, mas também a forma como a sentes e a geres de forma emocional. O ensino é isto. Seja centrado no estudante ou Professor. A capacidade que temos de criticar, ser criticados, e crescer. Vale a pena abrir os horizontes, vale a pena derrubar as barreiras mentais que temos. Vale a pena dizer que sim às mudanças. Vale a pena olhar para lá do horizonte. ● Filipe Alfaiate, 6º ano

EDUCAÇÃO MÉDICA


PROVA PILOTO O FIM DE UM CAPÍTULO

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o dia 15 de novembro de 2018, deu-se por encerrado mais um capítulo na História da Medicina. Nesta data assinala-se a última vez que o temido “Harrison” foi realizado, depois de cerca de 40 anos de aplicação enquanto único método de seriação no ingresso para a Especialidade. Após este marco histórico, vemos surgir uma nova Prova (a Prova de Acesso à Formação Especializada, doravante designada por PNA), um exame baseado em casos clínicos que desvaloriza a memorização de detalhes da bibliografia. O Gabinete da Prova Nacional de Acesso (gabinete responsável pela PNA), de forma a testar a implementação desta prova, realizou uma Prova Piloto, elaborada nos mesmos moldes que a PNA e pretendendo simular todas as suas condições de realização. Esta Prova Piloto decorreu na tarde do dia 23 de novembro de 2018, na qual 1413 estudantes de Medicina espalhados por Coimbra, Covilhã, Braga, Lisboa e Porto participaram voluntariamente na mesma, de forma a verem esclarecidas as suas inquietações e medos! Na maioria, foram os alunos do atual 6º ano que realizaram a prova, mas também os recém-graduados (que vão concorrer ao internato médico 2019), estudantes do 4º e 5º anos e provenientes de Escolas Médicas estrangeiras tiveram essa oportunidade. Conforme estava descrito nos regulamentos, o exame consistiu em 150 questões, estando associada uma vinheta clínica diferente a cada uma, no formato de escolha múltipla com seleção da resposta mais correta (single best answer). Relativamente à duração total, esta foi de 240 minutos (4 horas), dividida em duas partes de 120 minutos cada uma,

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com um intervalo. Na generalidade, os estudantes focam as principais dificuldades a nível da gestão de tempo, alegando que tiveram muito pouco tempo para responder a todas as questões e com a devida atenção, uma vez que os enunciados com a vinheta clínica eram de grandes dimensões e existia um caso clínico por pergunta, reconhecendo especial dificuldade na primeira parte por ainda não estarem adaptados. Mais ainda, relatam que o intervalo entre as duas partes do exame é de longa duração e que este deveria de ser encurtado. Por outro lado, os alunos sentiram que, de facto, a prova não se baseia na memorização, apelando, ao invés disso, ao raciocínio clínico, o que favorece uma integração dos conhecimentos adquiridos ao longo do curso e se mostra adequado à prática clínica. Alguns descrevem este momento como “tranquilizador e uma sensação de alívio”, dado que têm agora plena consciência para que tipo de prova irão realizar preparação. É de realçar ainda que os estudantes referem já ter abordado os conteúdos da prova ao longo dos 6 anos, tendo uma perceção dos mesmos, apesar de não terem realizado uma elevada preparação prévia. Agora, para todos nós, alunos da FMUC, iniciarmos este capítulo histórico da melhor forma, importa ao NEM/AAC estar atento a todos os desenvolvimentos neste tópico, procurando trabalhar conjuntamente com a FMUC a nível da melhoria constante no ensino e avaliação na nossa Faculdade, para a melhor preparação possível, tanto para a PNA, como para o futuro profissional que se avizinha.● Catarina Dourado, 3º ano


Liliana Sousa Nanji, ex-aluna da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e presentemente a trabalhar como Surgical Resident em Melbourne, Austrália.

Quando e porquê que tomaste a decisão de tirar a especialidade no estrangeiro? Comecei a testar essa hipótese mais ou menos a meio do curso. Foi nessa altura que me candidatei para fazer um estágio de Verão com a IFMSA, e o meu primeiro destino foi os Estados Unidos da América. A experiência de estar num ambiente diferente, em particular a Land of Dreams, fez-me perceber que o curso é apenas algo que cumprimos e que depois nos abre a porta a um mundo de oportunidades que não se esgota no nosso país. Foi assim que nasceu o “bichinho” pelas viagens e pela descoberta e acabei por fazer 6 estágios num total de 4 países diferentes. No final do curso, o país que venceu foi a Austrália, por ser, na minha opinião, aquele que oferecia o melhor equilíbrio entre trabalho e vida pessoal e onde acabei por conhecer o meu namorado. Quando entraste no curso de Medicina, já colocavas essa hipótese? Honestamente, quando entrei no curso, não pensava muito no que seria a minha vida depois disso. Durante tantos anos, tinha estado tão focada em entrar em Medicina que não tinha sequer considerado outros aspetos associados à carreira. Só mais tarde me apercebi que não me imaginava a fazer o “Harrison”, ou a fazer a especialidade em Portugal, mas também não me imaginava de imediato a mudar-me para outro país. Esta acabou por ser uma ideia que se foi construindo a pouco e pouco durante o curso. Onde procuraste informações sobre o Internato Médico na Austrália? Enquanto estava na Austrália, pedi o conselho de alguns médicos que lá conheci, mas a maioria das respostas que obtive era muito vaga. O que me disseram mais frequentemente foi que é muito difícil vir para a Austrália. Eu e o meu namorado não conhecíamos ninguém que tivesse passado pelo processo de transição, portanto tivemos de ser muito proativos com a nossa pesquisa na Internet. Toda a informação está disponível online, essencialmente nos sites da AHPRA e MBA (correspondem à nossa Ordem dos Médicos) e AMC (responsável por acreditar os médicos estrangeiros). Quando tínhamos dúvidas, tivemos de pôr a vergonha de lado e telefonar ou enviar email a quem as soubesse tirar. Que habilitações, tanto na área médica, como fora, necessitaste para te candidatares? Como esperado, tive de demonstrar as minhas habilitações na área da Medicina. Não só tive de comprovar que fiz o curso numa Universidade reconhecida na Austrália e que completei um ano de Internato Comum, mas tive também de fazer os exames clínicos da AMC, compostos por um exame de escolha múltipla e outro tipo OSCE.

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INTERNATO MÉDICO NA... AUSTRÁLIA Infelizmente, estes exames são muito exigentes e custosos, o que acaba por colocar barreiras a muitas pessoas, principalmente porque não é frequente que alguém consiga passar ambos na primeira tentativa. Adicionalmente, tive de fazer um exame de inglês, comprovar a minha identidade e demonstrar que não tinha registo criminal. Na minha situação em particular, também me candidatei a um Partner Visa com o meu namorado, mas as outras pessoas acabam por obter um visto de trabalho assim que lhes é oferecido emprego num hospital ou clínica. Como funciona o acesso à especialidade na Austrália? A candidatura é feita diretamente com cada Colégio de Especialidade, pelo que é necessário analisar os critérios de entrada de cada Colégio, que estão disponíveis online. De uma forma geral, pode ser necessário fazer um exame de entrada específico da área, submeter currículo que demonstre experiência e investigação suficiente nessa área em particular, ter boas cartas de recomendação, cumprir alguns cursos pré-requisitados e comparecer na entrevista. A competição é alta e os critérios exigem alguns anos de preparação durante o trabalho como Intern e Resident (aqui a lógica é diferente e os médicos trabalham durante alguns anos como generalistas até se candidatarem à especialidade). Sentes que o facto de existirem anos de construção de currículo antes do início da especialidade é benéfico? Este é um aspeto no qual a minha opinião mudou recentemente. Anteriormente, sentia uma ânsia por começar a especialidade e avançar com a minha carreira sem ter de me preocupar em saber os aspetos das outras especialidades. Contudo, após trabalhar na Austrália durante 1 ano, percebo que estes anos introdutórios são, na verdade, muito importantes. São anos em que ainda somos apoiados por médicos séniores, pelo que existe alguma segurança no nosso período de apren-

dizagem, o que nos permite ganhar “estaleca” e perceber um pouco mais sobre todas as áreas. Mesmo que, por vezes, esteja a obter conhecimento que não vá aplicar diretamente aos meus doentes no futuro, esses mesmos doentes vão ter comorbilidades e vou ser capaz de ter uma discussão eficaz quando pedir a opinião de outras especialidades. A população na Austrália dá muito valor aos médicos que os conseguem tratar de forma holística. Quando contactaste com a Medicina na Austrália, sentiste que ias bem preparada pela tua escola médica? Que dificuldades sentiste? É um pouco difícil avaliar se a minha escola médica me preparou bem ou mal, porque a escola ensinou-me essencialmente a ser médica em Portugal. A realidade na Austrália é diferente. Apesar de a componente teórica e científica ser essencialmente a mesma, a forma como é aplicada na prática varia. A barreira linguística foi (e continua a ser) obviamente um desafio, mesmo depois de ter tido tantos anos de ensino de Inglês numa escola privada. Outra dificuldade importante que, por vezes, pode ser ignorada é o facto de estar num país tão longínquo sem o apoio frequente das pessoas com quem cresci e que via de forma regular. A internet é uma ferramenta extremamente útil que facilita a comunicação entre países, mas não consegue substituir o contacto humano a que estamos acostumados. Apesar destas dificuldades, sinto que este ano na Austrália foi o meu ano de Internato Comum australiano e que me preparou para o que der e vier. Que diferenças existem a nível do tempo que demora a tirar a especialidade entre a Austrália e Portugal? Está claro que o período de tempo entre o término do curso e o início da especialidade é mais longo na Austrália, considerando o tempo que é necessário para preparação à candidatura. Assim que se começa a especialida-

de, no entanto, o período de tempo até a terminar é semelhante. Como exemplos extremos, Medicina Geral e Familiar (General Practice) demora 2 anos e Neurocirurgia demora 6 anos. Estes números são apenas exemplos, pois há muita flexibilidade para ter filhos durante a especialidade e para fazer a especialidade em regime de part-time, o que naturalmente demora mais tempo. E na remuneração? Tendo em conta que o custo de vida é mais elevado na Austrália, também a remuneração terá de ser mais elevada. Os salários dependem do Estado em que se trabalha e do número de anos pós-graduados, e podem ser encontrados online. De forma geral, penso que o salário na Austrália é mais ou menos o triplo de Portugal. Apesar de a vida ser mais cara cá, o balanço final acaba por ser positivo, com muita oportunidade para poupança, mesmo depois de gastar algum dinheiro em alguns eventos divertidos para aproveitar a vida. Recomendarias a Austrália para estudantes que pretendam tirar a especialidade médica no estrangeiro? Porquê? Penso que esta resposta vai variar ao longo dos anos. Apesar de a Austrália e a Medicina cá combinarem muito comigo, o custo da transição e as dificuldades que se enfrentam não são de menosprezar. De igual forma, quem passar por tal processo terá de aceitar que ficará na Austrália durante um período de tempo considerável, para que o investimento traga retorno. Recomendo este destino para se fazer um estágio durante o curso e posso dizer que a decisão de vir para cá enquanto sou uma médica júnior tem sido muito gratificante – em relação à experiência na especialidade, terão de voltar a perguntar daqui a alguns anos! ● Ana Margarida Ribero, 5º ano


GLOSSÁRIO

EMPREENDEDORISMO 101 Startup

Surgindo como conceito durante a ‘bolha’ da internet e do “ponto-com”, pode ser definida como “empresa ou negócio novo ou em fase de arranque, geralmente de caráter inovador e ligado à tecnologia”. Será esta definição redutora a mais correta? Serão todas as novas empresas ou todas as empresas de foro tecnológico startups? A resposta é não! Segundo economistas e especialistas neste modelo, startups definem-se como pequenas empresas, num período inicial, com um modelo de negócios repetível, escalável e com baixos custos de manutenção, em condições de extrema incerteza, significando que é independente da rentabilidade ou sucesso da ideia.

Aceleradora/incubadora

Frequentemente confundidas, ambas surgem para desenvolvimento mais profícuo das empresas, auxiliando-as no seu modelo de negócio e no processo de crescimento. O que as difere? As incubadoras, tal como o nome sugere, procuram “proteger” as startups em início de vida, apostando em apoios como aconselhamento, assistência administrativa, financeira e mercadológica, muitas vezes a custo zero; as aceleradoras apostam no investimento direto na startup, normalmente a troco de participação acionária, e normalmente limitam o tempo do programa de aceleração a 3-4 meses.

Pitch

Termo inglês para uma pequena apresentação, entre três a cinco minutos, com o objetivo primordial de apresentar algo, desde uma ideia a um produto, a potenciais investidores. Caracteriza-se por ser uma apresentação dinâmica, interessante e resumida, onde o essencial é apresentado de forma simples e objetiva, cativando a audiência.

Crowdfunding

Ou financiamento coletivo, em Português. Consiste na obtenção de capital para iniciativas, através da agregação e apoio de múltiplas fontes de financiamento. Normalmente é estipulado um objetivo monetário a ser atingido. Este modelo começou por ser usado em projetos de filmes, livros ou caridade, mas rapidamente se estendeu ao financiamento de ideias e empresas, representando uma rampa de lançamento para muitas startups.

Networking

Capacidade de estabelecer uma rede de contactos, profissionais e pessoais, em benefício de ambas as partes envolvidas. Constitui uma simbiose fulcral entre know-how e oportunidade. Atualmente, uma boa rede de networking é indispensável, tanto na área empresarial como em todas as restantes, uma vez que potencia oportunidades que de outra forma não seriam possíveis. Joana Silva, 5º ano João Sequeira, 2º ano

CIENTÍFICO


ENTREVISTA

EMPREENDEDORISMO 101 por Joana Silva, 5º ano O Engenheiro Jorge Miguel Figueira é Licenciado em Engenharia Química pela Universidade de Coimbra e Pós-Graduado em Ciências Empresariais pela mesma Universidade, desempenhando atualmente as funções de Coordenador da DITS. Em entrevista, esclarece-nos acerca desta Divisão e ainda da iniciativa Académica Start UC (ASUC) da Associação Académica de Coimbra (AAC) e Universidade de Coimbra (UC). 1. O que é a DITS? A DITS é a Divisão de Inovação e Transferências do Saber da Universidade de Coimbra. Uma estrutura ágil que visa prestar assistência à academia em três áreas distintas: A dinamização da procura e oferta do saber, procurando valorizar económica e socialmente os resultados de investigação que são desenvolvidos na nossa universidade com um propósito científico, e contactar com o tecido empresarial identificando oportunidades de colaboração com a UC; Gestão da carteira de patentes e pedidos de patente da UC. Desde o momento que investigadores nos comunicam ter atingido um resultado de investigação inovador, a DITS procura avaliar o potencial desse mesmo resultado, procedendo à proteção deste ativo comercial e desenvolvendo uma estratégica com vista à sua valorização, quer através do licenciamento deste conhecimento à indústria, quer através do apoio ao desenvolvimento de empresas spin-off; Estímulo a uma cultura empreendedora e inovadora. Ao longo do ano letivo a DITS, por sua própria iniciativa ou por solicitação e terceiros, organiza, co-organiza e promove numerosas iniciativas de estímulo ao empreendedorismo e inovação, desde cursos de empreendedorismo, workshops de sensibilização para a propriedade intelectual, concursos de ideias e planos de negócio, programas de aceleração e ideias, a oferta é variada e desenhada para dar resposta às principais áreas onde existe uma procura por arte da academia. 2. Como surgiu e como podem os estudantes da UC usufruir? A DITS surgiu em 2003 por iniciativa da Equipa Reitoral e então para fazer face a uma lacuna existente na universidade relativa ao que hoje é comummente designado por terceira missão universitária: a aproximação e colaboração com benefícios mútuos entre as instituições produtoras do saber e a sociedade. Os estudantes da UC encontram nos serviços da DITS um ponto de apoio para desenvolver e capacitar as suas aspirações empreendedoras. Não procuram a DITS estudantes que apenas pretendem criar o seu negócio, mas igualmente quem deseja apenas adquirir competências sobre estas áreas de empreendedorismo, inovação, propriedade intelectual, numa perspetiva de se capacitar profissionalmente.

3. O que é a ASUC? A iniciativa Académica Start UC é uma iniciativa singular no panorama do ensino superior português que surgiu há 3 anos por iniciativa conjunta da Universidade de Coimbra e da Associação Académica de Coimbra. “Académica Start UC – Rede de Embaixadores para o Empreendedorismo” – é um projeto de sensibilização, educação e formação dos estudantes da UC para a inovação e empreendedorismo que tem por base uma rede de 26 estudantes embaixadores para o empreendedorismo que, durante um mandato de um ano, ficarão responsáveis por tarefas específicas como seja: i) Divulgação, junto dos seus pares, de iniciativas de inovação e empreendedorismo; ii) Liderarem a organização de um evento, direcionado aos estudantes do seu Núcleo de Estudantes; iii) Captarem e encaminharem para a DITS estudantes da UC com ideias de negócio; Os 26 embaixadores são coordenados e acompanhados por um secretariado que conta com dois representantes da UC e dois representantes da AAC, que coordenam e acompanham o desenvolvimento das atividades. 4. Qual o impacto das últimas edições desta iniciativa na comunidade estudantil? O Impacto desta iniciativa tem sido enorme, com a realização anual de cerca de 40 eventos promovidos pelos embaixadores que resultaram no envolvimento de mais de 4000 participantes e quase três centenas de parceiros complementares (empresas e outras entidades externas que foram envolvidas). Acresce ainda que esta rede identificou 67 estudantes com potencial empreendedor e que foram participantes ativos nas iniciativas de apoio ao empreendedorismo promovidas pela DITS e que mencionei há pouco. 5. O que é expectável para o futuro deste projeto? Temos grandes ambições para o futuro do ASUC que poderá passar pelo alargamento desta prática a outras universidades nacionais ou internacionais bem como, entre outros, a criação e uma rede de ex-embaixadores por forma a não apenas acompanhar o progresso profissional destes estudantes mas igualmente estimular o networking desta rede constituída por pessoas de elevado potencial e que certamente, em diversas áreas, se distinguirão, estou convencido disso. ●

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TERAPIA GÉNICA GENES COMO MEDICAMENTOS terapia génica é a utilização de ácidos nucleicos como “medicamentos”. Baseia-se na adição, substituição, silenciamento ou reparação de genes, permitindo tratar diretamente a origem da doença. Para a alcançar, a terapia génica depende dos sistemas de transporte de ácidos nucleicos. Uma vez que os vírus desenvolveram, ao longo de milhões de anos, a capacidade de infetar células alvo, é possível tirar partido destas características, criando vetores virais que são capazes de transportar as porções génicas. O conceito surgiu nos anos 80 e em 1990 W. French Anderson liderou o primeiro ensaio clínico para tratar a Imunodeficiência Severa Combinada. Esta é causada pelo défice da adenosina desaminase, indispensável para o desenvolvimento do Sistema imunitário. As “crianças bolha” melhoraram significativamente e seguiram-se anos de enorme entusiasmo. Contudo, depois de dois acidentes nos finais dos anos 90, o processo tem sido mais demorado.

A

Em 1999, na sequência de um ensaio clínico para a deficiência da ornitina transcarbamilase, um dos participantes (Jesse Gelsinger) sofreu de uma reação imunológica muito severa, causada pelo adenovírus injetado, que evoluiu para falência multi-orgânica e morte. No ano seguinte, num outro ensaio para tratar a Imunodeficiência Severa Combinada, foi utilizado um retrovírus gama de RNA, que integra o material genético preferencialmente na proximidade de determinados oncogenes. Como consequência, 3 das 11 crianças que integraram o ensaio clínico desenvolveram Leucemia. Estes dois acidentes foram um grande balde de água fria para a terapia génica, dificultando a translação para a clínica. Seguiu-se um período de aperfeiçoamento das vias e das técnicas utilizadas e atualmente há dois casos que parecem ser bastante promissores. A Amaurose Congénita de Leber é geneticamente heterogénea (associação com 6 genes diferentes) e provoca

cegueira progressiva, iniciando-se com perda significativa da visão nas primeiras semanas de vida e progredindo para cegueira total. Em 2017 foi aprovado o Luxturna®, um vírus adeno-associado que permite tratar doentes com a mutação do RPE65, libertando uma cópia normal do gene diretamente nas células da retina. Estas células passam a produzir a proteína que converte luz num sinal eléctrico da retina e os doentes recuperam a perda de visão. Ainda no mesmo ano, para a Hemofilia B (em que há défice do fator IX da coagulação), a injeção de um vírus adeno-associado diretamente no fígado permitiu repor os níveis de fator IX, bem como suspender a administração do mesmo sem ocorrência de hemorragias ou efeitos adversos significativos. Os sucessos multiplicam-se com o passar dos anos e apesar de haver um longo caminho a percorrer, a terapia génica parece ser uma resposta promissora.● Ana Claúdia Almeida, 5º ano

CURA PARA A CEGUEIRA “À VISTA”?

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oas notícias do mundo da investigação trazem até nós uma possível cura para uma das formas hereditárias mais comuns de cegueira atualmente intratável, que poderá ser conseguida através da terapia génica. A coroideremia é uma distrofia coriorretiniana com hereditariedade ligada ao X e caracterizada pela degeneração progressiva da coroide, afetando a própria retina e o seu epitélio pigmentar (REP) o que leva, por vezes, à cegueira total. Pelo seu padrão de transmissão hereditária, é uma patologia rara e que afeta essencialmente indivíduos do sexo masculino. Afeta 1 em cada 50 mil pessoas e surge na primeira ou segunda

década de vida, manifestando-se inicialmente por nictalopia (cegueira noturna), seguida por constrição do campo visual periférico e, eventualmente, perda de visão total até aos 50 anos. A coroideremia surge por mutações no gene REP-1 ou pela sua ausência. A proteína codificada pelo REP-1 é essencial para a ativação pós-translação e localização de proteínas de ligação ao GTP, responsáveis por controlar o tráfego de vesículas nas vias de secreção e endocitose. Mutações do REP-1 sustentam, assim, um compromisso da associação destas proteínas às membranas, levando à morte prematura das células da retina. Tratando-se de uma doença genética facilmente reconhecível por fundosco-

pia, dado o aparecimento de manchas características na retina, torna-se um excelente alvo para a terapia génica por ser relativamente fácil reunir um grupo de doentes que tenham, com certeza, a patologia. A terapia génica pode ser definida como a inserção de um gene funcional em certas células para corrigir uma disfunção celular ou para induzir uma nova função. Para a execução desta terapia devem considerar-se diversos elementos como as células-alvo, as propriedades do gene que pretendemos modular e o modo como se pode proceder à transferência do mesmo para o genoma. A transferência génica, mediada por vetores, é ainda a etapa mais desafiante para o sucesso clínico


da terapia. A utilização de vetores virais parece ser a mais vantajosa, dado que as alternativas não-virais, ainda que possam mostrar-se mais seguras, são significativamente menos eficazes. A terapia génica encontra-se, atualmente, na corrida como alvo terapêutico para um vasto leque de patologias. A 8 de Abril de 2014, o Prof. Doutor Miguel Seabra, Professor Catedrático da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa e um dos principais investigadores de medicina molecular e celular a nível internacional, foi o vencedor do Grande Prémio Bial Medicina, no valor de 200 mil euros, por trabalhos desenvolvidos exatamente nesta área que cruza a terapia génica com a coroideremia. O trabalho premiado, publicado na revista Lancet, intitulava-se “Da descoberta do gene à terapia genética em 20 anos: o caso da coroideremia, uma degeneração hereditária da retina”. Os resultados publicados em 2014 apontavam para a melhoria da visão de vários doentes, esperando que esta doença genética pudesse vir a ser uma das primeiras a nível mundial a ser tratada de forma curativa e não apenas sintomática. Eis os detalhes dos estudos desenvolvidos: Em 2011, Cirurgiões no Oxford Eye Hospital (Reino Unido), sob o comando do Doutor Robert MacLaren (olftalmologista), iniciaram um ensaio clínico

envolvendo 6 indivíduos com coroideremia e injetaram o gene responsável pela doença diretamente nas células fotossensitivas dos doentes, utilizando um vetor viral. A equipa liderada pelo Prof. Doutor Miguel Seabra identificou o gene e estudou a sua função em ratinhos que desenvolvem a doença e, além disso, foi responsável pelo desenvolvimento do vírus utilizado no ensaio clínico. Em 2012, tendo em conta os resultados favoráveis nos primeiros 6 pacientes, o estudo evoluiu para envolver 14 indivíduos com coroideremia. Em 2016, o Doutor Robert MacLaren anunciou que 2 dos 6 pacientes iniciais não só mostravam um cessar completo da progressão da doença como também uma melhoria da visão no olho tratado. Agora, em 2018, os resultados positivos deste ensaio clínico vêm confirmar aquilo que já na altura se previa. No final do estudo, revelou-se um ganho significativo de visão no grupo de doentes. Dos 12 doentes que receberam o tratamento sem complicações, 100% dos mesmos ganhou ou manteve a visão no olho tratado, resultado este que foi mantido nos 5 anos de follow-up. Durante este tempo, apenas 25% dos olhos não tratados, utilizados como controlo, mantiveram a acuidade visual. O tratamento com terapia génica

foi, em geral, bem tolerado pelos doentes, sem problemas de segurança significativos. Para que seja mais fácil compreender, expliquemos da seguinte forma o maravilhoso impacto que o tratamento teve na qualidade de vida destes doentes: O aumento da acuidade visual no olho tratado foi, em média, de 4,5 letras, sendo que 6 dos doentes conseguiram ler mais do que uma linha adicional em relação ao início do estudo. Por outro lado, os olhos não tratados apresentaram uma diminuição média de 1,5 letras neste período. Desta forma, os autores do estudo concluíram que a terapia génica demonstra ser um excelente alvo terapêutico para a coroideremia e o próprio estudo pode ser uma descoberta que virá abrir muitas portas no mundo da investigação e terapêutica. Um Ensaio Clínico de Fase 3 (última fase antes de um fármaco poder ser aprovado pela FDA) encontra-se já em andamento e envolve mais de 100 doentes espalhados por 9 países da União Europeia e América do Norte. Se bem-sucedido, este ensaio pode resultar na aprovação formal do tratamento com terapia génica para esta causa de cegueira e permitir uma nova visão das abordagens terapêuticas como hoje as conhecemos.● Sara Cardoso, 3º ano

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CASO CLÍNICO NEUROLOGIA

Um doente de 21 anos, do sexo masculino e nacionalidade Belga, a residir no Porto há 4 meses (estudante), recorre ao Serviço de Urgência por quadro com quatro dias de evolução de cefaleias tipo tensional de predomínio frontal, fono e fotofobia, dificuldade na construção de frases e nomeação de objetos, e vómitos alimentares frequentes. Sem febre documentada. Refere que, duas semanas após viagem à Eslovénia há 7 meses atrás, onde caminhou ao ar livre, teve durante uma semana vários episódios de cefaleias holocranianas intensas, que o acordavam durante a noite, sem outros sintomas acompanhantes. Foi observado por um neurologista, com estudo inconclusivo (TC-CE normal e resolução gradual espontânea). Persistia desde então astenia, impossibilitando a atividade física habitual. Sem outros antecedentes relevantes. Ao exame objetivo estava apirético, com rigidez terminal da nuca. Sem outros achados relevantes. 1. Qual a hipótese de diagnóstico mais provável? a) Meningoencefalite linfocítica aguda vírica b) Meningoencefalite linfocítica aguda bacteriana c) Meningite linfocítica aguda vírica d) Meningite linfocítica aguda bacteriana 2. Qual a terapêutica a aplicar segundo a hipótese de diagnóstico selecionada anteriormente: a) Ceftriaxona b) Aciclovir c) Ceftriaxona e aciclovir d) Não aplicar terapêutica farmacológica e vigiar e) Solicitar mais exames complementares de diagnóstico antes de aplicar terapêutica farmacológica Exame complementares de diagnóstico às 48h: Imagiológicos: Ressonância Magnética cerebral e do neuro-eixo sem alterações. Punção lombar (PL): diminuição da pleocitose, mas aumento das proteínas (proteínas 1,84 g/L, N 0-0,45g/L). Exame direto, cultural e pesquisa molecular de vírus: (herpes simplex 1 e 2, VZV, EBV, CMV, adenovírus, enterovírus) sem isolamento microbiológico Serologia sérica: positiva (IgM e IgG) para Borrelia spp. Western-blot: positivo para Borrelia spp. Serologia LCR: positiva para Borrelia spp. com evidência de produção intratecal de anticorpos IgG específicos com índice de Reiber de 60. Estudo autoimune: sem evidência de alterações (C3, C4, anti-dsDNA, anti-SS-A, anti-SS-B, ANCA, ANA inespecífico) Outras avaliações: sem evidência de atingimento cardíaco ou osteoarticular; foram excluídas imunodeficiências (VIH 1-2 e imunoglobulinas). 3. Qual o diagnostico definitivo: a) Neuroborreliose b) Meningoencefalite aguda c) Meningoencefalite linfocítica aguda vírica d) Meningite linfocítica aguda bacteriana 4. Qual a terapêutica a aplicar segundo o diagnóstico final de neuroborreliose: a) Ceftriaxona b) Aciclovir c) Ceftriaxona e aciclovir d) Doxiciclina O doente manteve terapêutica com ceftriaxona (2g, 24/24 horas) durante 14 dias no internamento, tendo após a alta realizado 14 dias de doxiciclina (100mg, 12/12 horas) em ambulatório. Teve boa resposta ao segundo dia de terapêutica e ausência de recidiva das cefaleias, com melhoria do estado geral, em consulta um mês após a alta. por Ana Sofia Correia, 4º ano RESPOSTAS 1. a) 2. c) 3. a) 4. a)

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Que estas páginas continuem a ser local de partilha, de quem a escrita desafoga para quem a leitura embala. Para que o resto da Faculdade possa ter acesso ao deslize da tua caneta, submete os teus textos para anemia@nemaac.net, para que os possamos publicar, assinados ou anonimamente, na próxima edição da tua revista!

A 20 de Novembro, a Professora Doutora Graça Capinha veio, a convite da ANEMIA, desmaterializar o nosso pensamento e estimular a nossa criatividade. Aqui fica um cheirinho do Workshop de Escrita Livre:

A história a adorar ela levantou-se e foi à janela oferecer uma rosa. Não tenho a dizer e a cabeça, corpo, sinapse e específica poesia a dizê-lo fome em diferentes contextos amamos os insetos e por exemplo vivendo e desejando visível. Carolina Machado, 5º ano

História Preso Separar Foi E viu Todos os dias

Colagem Folha de papel Apanhada em movimento Poesia é isso

Importância Cabeça Sinapse Corpo Estou a dizer Poesia

A singularidade namora a escassez Convulsão do corpo Representação não é relação

Falhar Ser capaz Lá onde o lugar A trajetória Doce Vivendo palavras

Ela levantou-se História acaba. Tiago Jorge Costa, 5º ano

Ana Catarina Pastilha, 3º ano

CULTURAL


FITAS Do vermelho do direito Ao vermelho do teu coração, Escrevo-te esta fita Carregada de emoção. Cada letra e cada verso Transparecem cada história Que se queima nesta fita Mas que fica na memória. Ó Mondego viste passar A mais bela donzela E as tuas águas refletem ao luar A beleza dos olhos dela! A sua voz traz à tona O mais forte sentimento. E cada balada tua, Coimbra Ó Cidade, É um choro de saudade Que é levado pelo vento! Capas negras, Cruz de Celas Da baixa à Universidade. Os recantos destas ruelas São laços da nossa amizade. São laços do nosso amor! Um amor que é trajado Pelo preto das nossas capas: Sob a forma de traçado, Amo-te como afilhado! Sob a forma de rasgado, Amo-te como namorado! Do cimo da Cabra, olho o horizonte A cidade, o céu e o Mondego. E vejo com sossego, Com olhos de quem te ama, O futuro claro e brilhante que te chama. Ao longe Vejo-te a ti, meu amor, A segurar na espada e na balança De olhos vendados com louvor. Outrora a pequena criança De seu nome Melissa Torna-se hoje mulher De mãos dadas com a Justiça! Rui M. Terêncio Sobrinho, 4º ano


ESCRAVA DO VENTO No caos de uma vida atarefada, Paro no rosto de uma escrava. Sincero cumprimento: Um beijo, uma palavra.

Foges com a tua loucura Da realidade irreal tão louca. Escondes-te numa carapaça dura, Corpo de pedra mouca.

Olho-te, atentamente. Estás folha seca… doente. Tens olhos esgazeados, Lábios na tua boca afundados.

O teu ser já não te pertence. Parece-te um mero devaneio. É a sombra parasita que te vence, Semente negra em espiga de centeio.

Toco-te levemente. Os meus dedos tornam-se um pente. Mas afastas-me com violência. Corpo impregnado de ausência. Tento requisitar-te uma palavra rouca. Mas nem o ar ousa percorrer a tua boca. Tento acordar o teu coração, Mas não me serves nem uma migalha da tua emoção. Quero lutar pela tua liberdade, Mas é uma guerra perdida na eternidade. Encontro só ruínas na tua cidade, Até as raízes e o tronco apodrecem com a enfermidade. Porém, frondosa é a copa do teu cabelo: Branca amendoeira em flor. Teus olhos são as amêndoas doces… Pelo menos, pintados à nascença da mesma cor. Porque por detrás dos teus cristais Só vejo a sorte desfeita. É essa maldita maleita! Nevoeiro que te inunda a casa e os quintais… Sussurra-te malícias o vento. Mostra-te personagens, sonhos: Facas com desejo de sangramento, Bruxas que comem animais medonhos. Brisa que te corrompe! Corres em contracorrente… É constante a mentira da serpente, Veneno que da planície faz monte.

Partirás na paragem do Dia Certo. Mas viagem começaste num dia longe. Cadáver vivo ao perto, Silêncio inquebrável de monge. E meus olhos cegos de luz Nem as letras dos teus gritos decifraram. Alma presa numa cruz, Nem no nosso abraço os teus pregos me espetaram. Surda com as buzinas da rotina, Arrasto de pesada corrente soou-me a colar de prata fina. Andava tão prostrada com a preocupação, Que me esqueci de sentir e usar a razão. Vida de Furacão é repelente: De quem quer chegar ao teu coração e não mente; De quem fala, mas não tem voz audível; De quem está à tua frente, mas se sente desprezível. E vagueando nos subúrbios do esquecimento, Definham na espiral dos problemas, Marionetas da solidão e do sofrimento, Abandonadas capas que perdem a cor e os emblemas… Ana Catarina Pastilha, 3º ano


NUM FUTURO NÃO MUITO DISTANTE CRÓNICA

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munoterapia na luta contra o cancro, suporte circulatório mecânico, tratamento eficaz para a hepatite C, estimulação cerebral profunda...” É realmente extraordinário podermos, não só testemunhar, mas, acima de tudo, participar na chegada do futuro aos mais variados campos da medicina. O constante desenvolvimento tecnológico/científico a que assistimos na nossa sociedade tem permitido o aperfeiçoamento quer dos meios de diagnóstico quer das terapêuticas ao dispor da medicina, colocando-a, assim, mais próxima do seu verdadeiro objetivo: “A SAÚDE E BEM ESTAR DO MEU DOENTE”. Uma das áreas menos desenvolvidas, e onde existe por isso uma enorme margem de progressão, é a psiquiatria. Até há relativamente pouco tempo, os diagnósticos desta especialidade eram exclusivamente clínicos e as teorias neuroquímicas em que estes assentavam eram muito difíceis de provar ou refutar. Contudo, o aparecimento de novas e melhoradas técnicas de neuroimagem, como a tomografia por emissão de positrões ou a ressonância magnética espectroscópica e funcional, tem permitido iniciar a fundamentação de muitas destas teorias. Devido ao conhecimento que estas técnicas nos podem vir a fornecer, é praticamente inevitável que as doenças mentais passem a ser cada vez mais encaradas como doenças cerebrais. À primeira vista, a mudança de uma única palavra parece ser algo insignificante, no entanto, a verdade é que esta

mudança conceptual pode alterar profundamente toda a psiquiatria assim como o papel dos seus intervenientes. Um dos maiores problemas com que os doentes psiquiátricos se deparam é sem dúvida o estigma. Este pode ocorrer na família, círculo de amigos, local de trabalho... no entanto, muitas vezes, parte do próprio doente. Para percebermos o porquê, devemos ter em conta que na sociedade contemporânea a palavra “mente” é uma palavra forte que acarreta consigo um peso quase esotérico, sendo muito difícil a sua dissociação do conceito de “alma”. Como a maioria das pessoas acredita que a “mente/alma” corresponde à centelha divina que nos torna únicos, admitir que se tem um problema mental torna-se bastante difícil, sendo quase como admitir que nós somos o nosso próprio problema. A utilização da palavra “cerebral” pode, assim, diminuir bastante este estigma, tornando muito mais fácil admitir e aceitar que se tem um problema, pois o cérebro, apesar de bastante complexo, é “apenas” um órgão, e admitir que um órgão nosso não está bem e precisa de ajuda é algo que se pode aceitar sem grande resistência. Apesar da diminuição do estigma só por si ser bastante importante, o futuro da psiquiatria só pode ser considerado risonho se a terapêutica se tornar mais eficaz. Hoje em dia, o diagnóstico das doenças psiquiátricas é feito sobretudo através da sintomatologia e do exame mental, porém, devido ao estudo de outras doenças como Parkin-

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son, Huntington e Alzheimer, sabemos que os sintomas comportamentais apenas ocorrem muito tempo após serem verificadas as primeiras alterações a nível cerebral, ou seja, atualmente só começamos a tratar a doença após a sua instalação completa. No futuro, ao possuirmos os métodos de neuroimagem necessários para a identificação e compreensão das alterações precoces que ocorrem nas doenças psiquiátricas vamos conseguir intervir muito mais cedo, o que irá levar a um prognóstico incomparavelmente melhor do que o atual. No entanto, no futuro, não vão ser apenas as técnicas de aquisição de neuroimagem as responsáveis pela evolução da psiquiatria, a inteligência artificial vai ter um papel fundamental com o desenvolvimento de programas com a capacidade de detetar alterações de discurso precoces características da esquizofrenia, capazes de detetar alterações nos movimentos oculares típicas do autismo (dificuldade em estabelecer contacto visual e olhar para a parte central da cara)... Este tipo de programas podem-se tornar extremamente importantes para a deteção precoce de patologias psiquiátricas em massa, uma vez que a sua utilização irá muito provavelmente estar disponível em smartphones ou noutro tipo de equipamentos que nos acompanham no dia a dia. Para além da inteligência artificial, também a realidade virtual é um mundo que já começou e continuará a ser explorado pela psiquiatria, nomeadamente no tratamento de fobias, do stress

pós-traumático, de comportamentos aditivos, OCD... Esta tecnologia permite que os psiquiatras controlem, estudem e intervenham em tempo real na exposição do doente a determinados ambientes, o que poderá revolucionar por completo a abordagem e tratamento deste tipo de perturbações. Apesar do futuro da psiquiatria parecer extraordinário, não nos devemos deixar deslumbrar, pois se a substituição da palavra “mente” pela palavra “cérebro” parecia ser até aqui sinónimo de libertação e progresso, a verdade é que esta mudança conceptual, se levada de forma leviana, rapidamente poderá levar ao eclipse do sujeito enquanto ser individual. A não ser que ocorra algum cataclismo a nível global que leve à regressão ou estagnação da evolução tecnológica, irá chegar um dia no futuro em que o cérebro humano será um órgão totalmente compreendido, em que toda a experiência humana poderá ser reduzida e manipulada a nível molecular, o doente deixará de ser encarado como um ser complexo com medos, expectativas e ilusões, passando a ser apenas a manifestação de um conjunto de reações químicas. Este será o expoente máximo e paradoxal da psiquiatria, onde sob a intenção de aliviar o outro de todo o sofrimento psicológico, poderemos finalmente materializar o nosso complexo de Deus.● Luís Carrasqueira, 5º ano

CÉREBRO

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CARTAZ CULTURAL JANEIRO

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YOGA NIDRA

Espaço Ritual Yoga nidra é uma prática com origem no Tantra, e que convida a uma profunda jornada interior. Muito mais do que relaxamento profundo, é um portal onde a consciência pode emergir na sua forma mais pura, algures num espaço entre o sono e a vigília, espaço sagrado onde a testemunha interna observa.

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Concerto ‘NÓS 19’ Convento São Francisco

A orquestra comunitária ‘NÓS 19’ é dirigida pelo maestro inglês Tim Steiner e junta pessoas com diferentes experiências musicais, amadores ou profissionais, de cada um dos 19 municípios da Comunidade Intermunicipal da Região de Coimbra.

Depois do Medo De e Com Bruno Nogueira TAGV O regresso de Bruno Nogueira ao stand up e um novo espetáculo, onde Bruno Nogueira aborda questões que só incomodam as pessoas que têm demasiado tempo livre. Entre os temas, a intrigante problemática das pessoas que, sem terem nada na boca, mastigam quando estão a olhar para alguém a comer...

FEVEREIRO

1

Tiago Nacarato

Convento São Francisco

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Depois de The Voice-Portugal, Tiago Nacarato lançou o primeiro single, “A Dança”, em abril e encontra-se a preparar o primeiro disco de originais. Já com alguns concertos em território nacional, bem como a estreia no Brasil, em Outubro, o seu concerto chega agora a Coimbra.

Xutos & Pontapés

Festival “Montepio às vezes o amor” Convento São Francisco

‘Montepio às vezes o amor’ é uma festa de música e emoções distribuídas por dezassete cidades portuguesas. Dezassete amados nomes da música portuguesa fazem da paixão o mote para noites românticas e calorosas. Em Coimbra, serão os Xutos & Pontapés.

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Cabeça Ausente Salvador Martinha TAGV

Em que pensa Salvador Martinha quando desliga do mundo? Porque desliga tanto e ao mesmo tempo está tão ligado? Sobre medo e sobre verdade, este espetáculo é um “share location” do seu pensamento alheado.

Andreia Gi, 4º ano


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