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Anemia 52

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Bem-vinda/o à Anemia! A revista do Núcleo de Estudantes de Medicina da Associação Académica de Coimbra (NEM/ AAC), o núcleo que te representa e do qual fazes parte desde que inicias o teu percurso em Medicina na FMUC. Se esta informação é nova para ti provavelmente estás neste momento no ponto de partida desse caminho (bem sabemos que após já outros trilhos, e muito esforço, agora devidamente recompensado). A equipa da Anemia deseja-te os maiores sucessos e um percurso sempre recompensador, não só enquanto por cá estiveres, mas também no futuro, quando fores médica/o. Mesmo que estejas ainda no 1º ano do curso já não falta muito... O tempo vai passar a correr, porque nunca vais ter a desculpa de não ter nada para fazer. Muitas vezes será estudo, muitas outras será também lazer. É importante que assim seja! E nós esperamos poder ser parte dessas duas vertentes. Se estás de volta, bem-vinda/o de novo a casa. Não é fácil deixar as férias, mas é sempre bom regressar aos amigos e à paixão (pela Medicina, bem entendido) que por cá sempre encontramos. Esperamos que abrir uma nova Anemia seja também uma boa razão para regressar. Iniciámos funções enquanto atual direção no final do ano letivo transato, tendo realizado uma call para a redação, da qual surgiram muitos dos membros que atualmente colaboram com a Anemia. Foi a partir do trabalho deste grupo de pessoas (e através da colaboração inestimável de muitas outras, a quem não podemos agradecer individualmente por razões de espaço) que surgiu a revista que agora vos apresentamos. Uma Anemia renovada, que pretende honrar o seu passado olhando para o futuro. Agora com uma nova estrutura, composta por quatro secções distintas, mas com um espírito comum e uma linha condutora. Na secção Atualidade trazemos notícias relevantes, do nosso Mundo e do Mundo mais global. Na secção Educação Médica falamos de temas que vão da importância do envolvimento estudantil a nível pedagógico até ao internato no estrangeiro. Na secção Ciência há espaço para treinar o raciocínio clínico (nesta edição em Gastrenterologia) mas também para refletir sobre posições éticas e deontológicas (nesta revista com dois artigos sobre eutanásia, um tema atual e abrangente, por isso com um dos artigos a figurar na secção Atualidade). Por fim, mas não em último lugar, a secção Cultura. Nesta encontras vários artigos de informação úteis para aproveitares o tempo para lá do estudo, e uma subsecção de Escrita Livre, para que não seja tão difícil voltar aos livros de estudo. Estejas no 1º ou no 6º ano, estás convidado a participar, seja com textos, ideias ou conteúdos. Para tal basta juntares-te à redação (enviando um e-mail para anemia@nemaac.net). A redação reúne-se trimestralmente para preparar a próxima edição da revista (também trimestral) e todos são bem-vindos. Resta-nos agradecer-te por estares connosco e redobrar os desejos de um bom ano letivo. Vemo-nos por Coimbra. Boas leituras! Ana Margarida Ribeiro, 5º ano André Salvada, 6º ano


Gastrenterologia


Joana Lourenço, 6º ano

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e tempos a tempos, entre discussões de aprovação de Orçamentos de Estado, de novas obras nacionais ou das viagens que o presidente deve ou não realizar, surgem algumas questões fraturantes e polémicas no espaço do debate quinzenal. Uma dessas questões é a despenalização da eutanásia. No passado mês de maio, quatro dos sete partidos com representação na Assembleia da República (PS, BE, PEV e PAN) apresentaram propostas para a legalização da morte medicamente assistida. As quatro foram a votação, tendo todas sido reprovadas. A proposta do PS foi a que mais se aproximou da aprovação, com 110 votos a favor, 115 contra e 4 abstenções. A votação foi realizada usando duas modalidades: o voto de partido (em que todos os membros do partido votavam na mesma vertente), como é o caso do BE, PAN, PEV, CDS e PCP; e o voto individual (em que cada deputado toma a sua posição individual), opção do PS e do PSD. Assim, as pequenas diferenças na votação das quatro propostas deve-se, principalmente, à liberdade de voto proporcionada pelo PS e PSD, sendo visível, nos restantes partidos, a opção pelo contra da Direita e o favor da Esquerda. Sobre este assunto, a discussão estende-se mais longe do que o mero “A Favor Vs Contra”. Observando as quatro propostas de legalização, é possível detetar vários pontos que poderão ser alvo de discórdia.

Quem teria direito a usufruir desta possibilidade?

Neste ponto, houve concordância nas várias propostas. A sugestão era de que se aplicaria a cidadãos portugueses ou que residam legalmente em Portugal, maiores de 18 anos, com capacidade de compreensão e sem doença mental, com lesão ou doença séria incurável e/ou fatal que resulta em sofrimento duradouro e insuportável.

A quem é dirigido o pedido de antecipação da morte? PS, BE e PAN sugerem que o pedido seja realizado a um médico assistente designado pelo doente, enquanto que o PEV sugere que o pedido seja realizado à Direção do estabelecimento de saúde onde estará a ser tratado.

De quem depende a aprovação do pedido?

Para além da necessidade de cumprir os requisitos acima listados, a aprovação depende do parecer do médico assistente e de um médico da especialidade relativa à doença que justifica o pedido, nas propostas do PS e BE. O PAN sugere que a avaliação inicial inclua também um psiquiatra, enquanto que os outros partidos apenas indicam a necessidade de o consultar se existirem dúvidas em relação ao estado mental e psicológico do doente. Na proposta do PEV, os termos são ligeiramente diferentes, sendo que a aprovação do pedido depende de uma comissão cuja função inclui obter parecer de um médico titular e de um psiquiatra.

ATUALIDADE

O que é que pode cancelar o pedido ou torná-lo não aceitável?

A qualquer momento, o doente pode pedir para interromper o processo, quer de modo oral ou escrito. Caso o doente perca a consciência (durante ou imediatamente antes do início da administração), o processo é suspenso. A descoberta do incumprimento de um dos itens essenciais para o início do processo ou um parecer negativo de um dos médicos consultados, cancela imediatamente o processo.

Quem pode realizar a antecipação da morte?

O doente decide se a administração de substâncias letais é feita pelo próprio ou pelo profissional de saúde. PS e BE permitem que a administração seja realizada por médico ou enfermeiro, inscritos nas respetivas Ordens, enquanto que PAN e PEV apenas permitem a médico inscrito na Ordem essa possibilidade.

Onde pode ser realizada e quem pode estar presente?

PAN, PS e BE sugerem que a administração pode ser realizada em qualquer local à escolha do doente, desde que o profissional de saúde certifique a existência de um ambiente seguro. PEV indica que a administração de substâncias letais apenas deve ser realizada em estabelecimento de saúde pública do Sistema Nacional de Saúde.


ISTO OU AQUILO? MORTE MEDICAMENTE ASSISTIDA

A quem diz respeito regulamentar e avaliar os casos?

Todas as propostas sugerem a formação de comissões de Verificação e Avaliação dos Procedimentos Clínicos de Antecipação da Morte, no caso do PS e BE, ou Comissão de Controlo e Avaliação da Aplicação da Lei, para o PAN, ou Comissão de Verificação para o PEV. As funções das mesmas são semelhantes entre as várias propostas e incidem sobre a avaliação dos processos e dos pareceres emitidos. A sua composição varia, mas incluem profissionais de saúde, juristas e, em alguns casos, bioeticistas.

É possível realizar objeção de consciência, por parte da equipa médica?

Sim, todas as propostas mencionam esta possibilidade: PS, BE e PAN sugerem que a decisão deve ser comunicada ao doente, devendo ser especificados os motivos da recusa do pedido. O PEV defende que a objeção de consciência diz respeito a convicções pessoais e que, por isso, em situação alguma, deve ser exigida a justificação para com o doente.

O que é que pensa cada lado da Assembleia? Com a esquerda estando claramente a favor da despenalização da morte medicamente assistida, resta-nos apurar as razões que levam uma maioria da direita a optar pelo contra. O Partido Comunista - PCP - emitiu um comunicado no seu site, após a votação. Nele, defende uma conceção de vida puramente humanista, considerando a hipótese da morte medicamente assistida um “retrocesso civilizacional”, defendendo que a melhoria dos cuidados paliativos e domiciliários serão o caminho correto para a dignificação da vida dos que não possuem todas as suas capacidades físicas e mentais. Do CDS apenas temos acesso às declarações feitas por Assunção Cristas ao jornal Expresso, em que defende uma perspetiva humanista e a melhoria dos cuidados paliativos, à semelhança do PCP. Isabel Galriça Neto, também deputada do CDS, chega mesmo a dizer que o que se está a discutir é, não o direito a morrer, mas antes, o “direito a ser morto por outrem”. Do PSD não temos comunicados ou declarações, pois Rui Rio, líder do partido, decidiu usar a modalidade de voto individual e, como tal, cada deputado votou de acordo com as suas convicções pessoais. Se tiveres dúvidas ou quiseres saber mais sobre o assunto, contacta: joanafventural@gmail.com. ●

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DESCODIFICAR A (DES)HUMANIDADE Guerra Civil Síria Daniela Peixoto, 4º ano

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esde há cerca de sete anos que ouvimos falar da guerra na Síria. Aparece-nos, sobretudo, como um monte de palavras soltas: “Bashar-Al-Assad”, “refugiados”, “rebeldes”, (mais recentemente) “Estado Islâmico”, (e, sem relação aparente) “Rússia” e “EUA”.

O que não nos é mostrado com tanta frequência são os números, as pessoas, uma por uma, a prioridade (que não é). Segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, em março de 2018, mais de 400 000 pessoas estavam mortas ou desaparecidas, sendo que, segundo o Centro de Documentação de Violações (dos direitos humanos), das 185 980 mortes em combate, 119 200 foram civis inocentes. Cerca de 1,5 milhões de pessoas ficaram com deficiências permanentes. Segundos os Médicos para os Direitos Humanos, até dezembro de 2017, ocorreram 492 ataques a centros médicos, com 847 pessoas mortas a trabalhar nestes centros. Segundo a Comissão de Refugiados das Nações Unidas (UNHCR), até fevereiro de 2018, dos 22 milhões de pessoas que povoavam a Síria antes da guerra, 11,7 ficaram desalojados e, desses, 5,6 milhões saíram do país e constituem os “refugiados da Síria”, sendo que, des-

tes, 92% ficaram pelos países vizinhos, como o Líbano, a Turquia e a Jordânia, e outros espalharam-se pelo Norte de África e pela Europa, com a requerida Alemanha. Normalmente, é acordado um cessar fogo entre rebeldes e governo, que resulta em “evacuation corridors” (corredores de evacuação) para que os civis possam abandonar o local de conflito em segurança. Este cessar fogo é pedido por várias entidades internacionais, como: Nações Unidas (UN), Organização Mundial de Saúde (WHO), Médicos sem Fronteiras (MSF) ou Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). Quem geralmente ajuda à evacuação é a Defesa Civil Síria (SCD), vulgarmente conhecida como “White Helmets” (capacetes brancos), uma organização de voluntários local, ou o Comité Internacional da Cruz Vermelha (ICRC), “uma organização neutra, imparcial e independente”.

Como é que um país evolui para este estado de guerra, morte e pobreza? A religião do Islão divide-se em dois grandes grupos, os Sunitas e os Xiitas, sendo que dentro destes existem vários subgrupos, alguns com ideais que se afastam o suficiente para serem quase uma nova religião. Sempre houve rivalidades entre as diversas comunidades, contidas, porque cada uma tinha o seu território, que não sofria muitas alterações. Em 1916, o diplomata britânico Coronel Sir Mark Sikes e o seu homólogo francês, François George-Picot, acordaram, caso a Triple Entente derrotasse o Império Otomano na primeira guerra mundial, no traçar de uma linha de Israel ao Iraque, a norte da qual ficaria território controlado pela França e a sul pela Inglaterra. Ao mesmo tempo, ocorria uma divisão do território em países, traçavam-se linhas retas sem

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ter em atenção que comunidades se estavam a separar e, principalmente, a juntar. O acordo Sykes-Picot, em conjunto com a divisão arbitrária da zona, colocou as comunidades dentro do mesmo país em luta pelo seu domínio, e amplificou a violência e o extremismo, aí já existentes, até ao ponto em que os conhecemos hoje. A Síria, tal como a maioria dos países do Médio Oriente, é um país maioritariamente muçulmano, nomeadamente Sunita (70%). No entanto, o presidente Bashar-Al-Assad (que sucedeu ao pai, após a sua morte, em 2000) é Alauita (uma comunidade Xiita). Hafez, pai de Bashar, tinha tomado o poder num golpe de estado, em 1970. Hafez, em 1982, no contexto de uma rebelião da Irmandade Muçulmana, em Hama, matou cerca de 30 000 sunitas. Isso, em conjunto com o descontentamento devido ao alto desemprego, à corrupção e à falta de liberdade política sob o presidente Bashar al-Assad, fez com que, em março de 2011, manifestações pró-democracia surgissem na cidade de Deraa, no sul do país, inspiradas pela “Primavera Árabe” nos países vizinhos. Quando o governo usou força letal para parar a

dissidência, irromperam protestos em todo o país com vista à demissão do presidente. A violência alastrou culminando numa guerra civil.

Como surge o Estado Islâmico?

O Estado Islâmico surge a partir do sub-grupo do Al-Qaeda, no Iraque, no fim da primeira década do séc. XXI, mas apenas se autoproclama em 2014. É composto maioritariamente por sunitas e ser ‘não sunita’ é praticamente uma sentença de morte. Os líderes árabes não conseguiram criar prosperidade, nem liberdade, nos respetivos países. Quando aparece um grupo que promete a conquista de território e a resolução de todos os problemas, quando este grupo ainda tem do seu lado o romantismo religioso, é fácil dizer que sim.

O que acontece agora?

Neste momento, o conflito dá-se entre os rebeldes – que se subdividem em vários grupos, muitos deles com ideais completamente diferentes – (apoiados pelos EUA, a Turquia e a Arábia Saudita), o governo sírio (apoiado pela Rússia e pelo Irão), o Estado Islâmico (EI) e as Forças Democráticas

Sírias (SDF) – uma aliança de milícias curdas e árabes (em que os primeiros são a maioria). Os EUA, o Reino Unido, a França e outros países ocidentais, já realizaram, desde 2014, alguns ataques aéreos e apoiam tanto rebeldes “moderados” como as SDF, sempre com vista à diminuição do território do EI. A Turquia apoia os rebeldes, mas para combater as SDF, acusando-as de serem uma extensão de um grupo rebelde curdo banido do seu território. Os Russos, que entraram no conflito em 2015, são o fator mais importante na abrangência territorial do governo, e são responsáveis por muitos dos ataques aéreos contra os terroristas, que, alguns ativistas defendem, atingem, muitas vezes, civis. O governo recuperou o controlo das maiores cidades da Síria. A maior área mantida por grupos rebeldes é a província de Idlib, no noroeste do país (que abriga mais de 2,6 milhões de pessoas, sendo que os civis estão, em julho de 2018, a ser evacuados). A aliança SDF, liderada pelos curdos controla a maior parte do território a leste do rio Eufrates. O EI, agora, ocupa apenas alguns locais em toda a Síria, estando a perder, pouco a pouco, território. ●

Como se pode ajudar? Um médico, depois da especialidade (por exemplo, no caso da ICRC, é necessário ter pelo menos 3 anos de especialidade), pode tentar a associar-se à ICRC ou aos MSF. No que diz respeito aos refugiados, que são uma das grandes problemáticas desta guerra, a Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR) oferece várias opções, desde doações até voluntariado em campos, na Grécia. Para além de tudo isto, podem fazer-se doações a quase todas as organizações mencionadas ao longo do artigo, como os Capacetes Brancos, os MSF, a ICRC; mas também à Save the Children (Salvem as Crianças), ao International Rescue Committee (Comité Internacional de Resgate), ou ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).

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ENVOLVIMENTO ESTUDANTIL A vida de P(h)i pesar de o título poder ser estranho (sendo eu Filipe), acho que poderás identificar-te com o que vou abordar de seguida. A vida de Pi. Aquele filme que ou se adora, ou se detesta. Resumindo: uma família de um dono de um zoo na Índia, decide mudar-se para o Canadá. A viagem, a bordo de um cargueiro, acaba por correr mal e apenas Pi, o filho mais novo da família, consegue sobreviver. Perdido pelo Oceano Pacífico, ele precisa de dividir espaço com um tigre, chamado de Richard Parker, com o qual aprende a tornar-se seu aliado. E o que tem isto de relacionado comigo e contigo? Pois bem, para os que já estão na FMUC há uns tempos até podem estabelecer algumas correlações, mas para os novos estudantes parece uma parvoíce. Sendo assim, explico onde quero chegar (e no fim justifico o título). Envolvimento estudantil. Mas o que é isto? Estarão já em vias de extinção os estudantes que se envolvem no processo da sua formação? Terá já ocorrido a viagem pelo Oceano Pacífico e são poucos os que estão por aí num salva-vidas? O envolvimento estudantil começa desde o primeiro momento em que se chega à faculdade. No momento da matrícula, onde muitas novas caras aparecem e falam contigo. O interesse, na maioria das vezes, está no máximo. Como bom caloiro, sabes que tens de ir a todas as aulas. No 1º ano, as míticas aulas de Anatomia pelas 8:15h, onde em tempos recentes o chão servia de banco, estão sempre cheias. No 2º ano já se vê um pequeno decréscimo na presença de todos. As noites mais alegres refletem-se em manhãs mais complicadas. No 3º ano surgem os apoios e valorizações que sustentam aquela presença. No 4º e 5º ano, pois bem, algumas teóricas chegam a ter menos de 10% do ano. O que acontece ao longo dos anos que faz com que a motivação não seja a mesma? Falta de interesse? Repetição de temas? Tipologia da aula pouco atrativa? Barreiras entre o Professor e o Aluno que dificultam a exposição dos conhecimentos? Dependendo da disciplina, podemos ter alguma resposta concreta. E são estas respostas que aos poucos vão mudando algo. Porque é da conversa e do diálogo que surgem as mudanças. Visíveis? Nem sempre. Que será da Faculdade sem alunos interessados e dos doentes se não tivermos conhecimentos?

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As perguntas são sempre muitas, mas envolvimento estudantil não é só isto. É muito para além de regulamentos pedagógicos, educação médica e outras burocracias que nos possam atormentar. É núcleo de estudantes (NEM), é Tuna (TMUC e TFMUC), é voluntariado, são as terças e quintas académicas (ou outro dia da semana que assim se deseje), são as míticas tardes no Bar da FMUC (a conviver…), é Latada, é Queima, é construção de um carro, é amizade. Quantas conversas temos entre colegas sobre o que está bem e mal na Faculdade? E aquelas reclamações todas que surgem por não se ter acesso a uma revisão de um exame? E as dúvidas que surgem em relação ao regulamento acerca das orais (basta um Professor estar presente ou tem de haver pelo menos dois?). Tudo isto é envolvimento estudantil. Apesar de a competição estar a aumentar a olhos vistos e com um futuro próximo menos animador, não deixes que isto afete o facto de participares nas várias atividades que a Faculdade poderá dar. E como saber destas atividades? Pergunta e fala com os colegas mais velhos! Como um Professor a mim uma vez me disse (quando era Presidente da Comissão de Curso): “Não tenhas problemas em ficares conhecido, pelos Professores, como o chato. Significa que lutaste pelos teus direitos.” Estando no final da etapa do curso – faltando ainda algumas aventuras – o melhor conselho que posso dar é: não deixes que a má competição molde a pessoa que és. Podes ser sempre muito bom participando ativamente no teu futuro. E não percas o melhor que Coimbra te pode dar: os amigos para a vida. Que comece mais um ano letivo, para muitos o primeiro, para outros o último. Nas próximas edições desta revista irei abordar mais uns temas na área da educação médica de forma a desmistificar o bicho que não é de 7 cabeças. Ah, e justificando o título: a amizade pode surgir de onde menos esperas nas situações mais diversificadas e inesperadas. Pode ser, por exemplo, numa cadeira a teu lado numa aula teórica. ● Filipe Alfaiate, 6º ano

EDUCAÇÃO MÉDICA


O que é a Prova Nacional de Acesso à Formação Específica/Nova PNS?

O curso de Medicina tem 6 anos. Ao terminar o curso, passados uns meses, há um exame que define o acesso à especialidade. A partir de 2019, este exame vai mudar os seus moldes, sendo um exame baseado em casos clínicos e desvalorizando a memorização de detalhes da bibliografia.

A minha média vai ter algum peso na entrada para a minha especialidade? Para os alunos que entram em 2018 no 1º ano do Mestrado Integrado em Medicina (MIM), sim, vai contabilizar cerca de 20%, sendo os restantes 80% provenientes da classificação obtida na Prova. Para os restantes alunos, o exame contará 100% da nota. A média de curso apenas será utilizada para desempate com alunos com a mesma nota de exame.

Para além disso, a média conta para alguma coisa?

Sim, a tua média final de curso irá ser contabilizada para o acesso no Ano Comum (agora designado de Formação Geral).

A média vai sofrer alguma alteração consoante o sítio onde se tira o curso? De modo a que seja justo entre todas as faculdades, vai ser aplicada uma fórmula estatística para que todas as médias finais de curso fiquem uniformizadas entre as diferentes faculdades. Esta normalização ocorrerá tanto para a média no acesso à Formação Geral/Ano Comum, como para o ingresso na Formação Especializada/Especialidade.

Tens dúvidas so Vou ter de pagar a prova?

Sim. Existe um pagamento de 90€ para a sua realização. Este valor poderá vir a ser alterado nos próximos anos, sendo que será revisto de dois em dois anos.

Quem é responsável pela nova Prova Nacional de Acesso?

Passa agora a ser da responsabilidade de um Gabinete, chamado Gabinete Nacional para a Prova Nacional de Acesso à Formação Especializada, composto por representantes indicados pela Ordem dos Médicos, Escolas Médicas/Faculdades e pelo Ministério da Saúde.

No novo exame há uma nota mínima? Não, não há nota mínima.

Como é constituída a nova Prova?

A nova prova terá 150 perguntas, com 1 opção de resposta (escolher a resposta que mais se adequa ao caso), abrangendo as seguintes áreas: Cirurgia, 15%; Medicina Interna (incluindo Cuidados de Saúde Primários), 50%; Pediatria, 15%; Ginecologia e Obstetrícia, 10%; e Psiquiatria, 10%.


Como está assegurada a representação de Medicina Geral e Familiar na nova Prova?

Pretende-se que o tema dos Cuidados de Saúde Primários esteja subjacente à formulação das questões, focando a promoção da saúde e aplicação de medidas preventivas na transversalidade das outras áreas abordadas.

Qual a duração da Prova?

A Prova demorará 240 minutos no total, sendo realizada em duas partes de 120 minutos cada com um intervalo.

Que livros e matéria estudar?

Há uma matriz publicada em Diário da República com os livros sugeridos e a lista de temas que se devem estudar. Esta bibliografia foi também recentemente adquirida na totalidade pela Biblioteca das Ciências da Saúde da UC (Biblioteca do Pólo III).

Como estão divididos os conteúdos a ser avaliados?

Os conteúdos listados na referida matriz estão classificados com as letras A a C por ordem decrescente de relevância para a prova, sendo A o mais relevante. Para além disso, existe uma categorização das competências a testar em cada conteúdo, sendo divididos pela compreensão dos mecanismos de doença (MD), capacidade de estabelecer um diagnóstico (D), promover medidas de saúde e preventivas (P), elaborar um plano terapêutico (T) e plano de gestão do doente (GD). Nem todos estes conhecimentos são necessários para cada conteúdo, como indicado na matriz.

bre... a PNAFE? Prova Naconal de Acesso à Formação Especializada

O que é a Prova-Piloto?

É uma Prova que terá as mesmas características que a nova Prova de 2019, desde a duração, tamanho e metodologia de construção das questões.

Quando irá ocorrer e quem pode realizar a Prova-Piloto?

Esta terá lugar no final do ano civil de 2018, sendo gratuita. É acessível aos seguintes alunos, por ordem decrescente de prioridade: estudantes que frequentem o 6º ano à data de realização da Prova-Piloto; pessoas que realizaram a PNS (vulgo Harrison no ano de 2018); restantes estudantes do MIM nos anos clínicos, em Portugal; estudantes de Escolas Médicas estrangeiras.

Mesmo não realizando a Prova-Piloto, é possível ter acesso a perguntas-tipo? Sim, é! O Gabinete responsável pela Prova irá em breve publicar questões modelo.

Catarina Dourado, 3º ano Filipe Alfaiate, 6º ano


REPRESENTAÇÃO EXTERNA DOS ESTUDANTES DE MEDICINA Como podes fazer mais?

A

o longo dos tempos, os estudantes de Medicina têm vindo a consolidar a sua posição e influência a vários níveis, sendo considerados cada vez mais um importante parceiro nas decisões que intervêm na sua formação e na promoção da Saúde.

O Núcleo de Estudantes de Medicina da Associação Académica de Coimbra (NEM/AAC) é o legítimo representante dos cerca de 2000 estudantes de Medicina da FMUC, defendendo os seus interesses e batalhando em prol de uma constante melhoria na qualidade do ensino ministrado na nossa Faculdade. Desde o início que procura afirmar-se, nas suas demais áreas de interesse, com uma postura ativa e interventiva junto dos seus parceiros, por exemplo com o CHUC, FMUC e Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos. Mas como sabe o NEM/AAC os princípios que deve defender? E mais importante, como garante que esses são os princípios em que os estudantes que representa se revêem? É exatamente por estas razões que existem os Plenários do Núcleo, a estrutura deliberativa do NEM/AAC, sendo estes momentos em que os estudantes se reúnem para debater assuntos, esclarecer dúvidas, aprovar documentos que são utilizados pelo Núcleo e realizar Tomadas de Posição sobre os temas mais pertinentes do momento, como assuntos que concernem o funcionamento do Núcleo (Sala Polivalente), ações a tomar perante entidades externas e tópicos abordados a nível nacional, por exemplo sobre a existência de encargos para a nova Prova Nacional de Acesso à Formação Específica! Estas Tomadas de Posição são as convicções que o NEM/AAC irá sempre defender perante qualquer entidade e nunca poderá assumir outras diferentes. Quer isto dizer que, idealmente, a posição defendida pelo Núcleo é a posição adotada pela maioria dos estudantes da FMUC, sendo por isso imprescindível a presença do maior número possível de alunos para que os princípios a ser defendidos sejam os mais representativos. Deste modo, acresce uma responsabilidade a cada um dos 2000 estudantes, a TI, de marcar presença nos Plenários, de ser ouvido e de ter uma postura ativa, pois TU fazes a diferença nestes momentos. Mais ainda, apesar de não ser o NEM/AAC, os estudantes encontram-se representados num órgão de gestão da Faculdade, o Conselho Pedagógico. Neste, 4 estudantes do MIM participam na formulação do Regulamento Pedagógico e monitorização do seu cumprimento, aprovação do mapa de exames e calendário letivo e coadjuvam na promoção de uma política ativa de qualidade pedagógica. Por fim, localmente, o NEM/AAC representa os seus estudantes na AAC, veiculando as suas posições sobre temáticas do Ensino Superior em geral e pronunciando-se sobre o funcionamento dos Núcleos.

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A Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM) é a representante dos 12.000 estudantes de Medicina em Portugal. Almejando um sistema de formação médica em Portugal de excelência, a Política Educativa surge num plano fulcral da ANEM, debruçando-se em temas como o acesso ao Internato Médico, nova PNA, vagas no curso de Medicina (numerus clausus) e no planeamento dos recursos humanos em Saúde. Assim, tem vindo a reivindicar as suas causas junto de parceiros estratégicos, estando em permanente contacto com a Ordem dos Médicos, Ministério da Saúde, Escolas Médicas, Sindicatos e ultimamente tem alcançado cada vez mais a opinião pública. A ANEM baseia-se numa Federação que tem 8 associados (as 8 associações e núcleos de estudantes de cada uma das Faculdades), sendo o NEM/AAC um dos associados. Todos os associados e a direção da ANEM reúnem-se ordinariamente 4 vezes por ano, durante fins de semana, nas chamadas Assembleias Gerais, que são o equivalente aos Plenários do NEM. Nestas Assembleias, o NEM/AAC defende a posição dos estudantes de Coimbra, sendo que para temáticas de Tomada de Posição a nível nacional, o NEM vota consoante a auscultação dos seus alunos no Plenário (já viste a importância da tua presença?), tal como todos os outros associados.

A IFMSA - International Federation of Medical Students’ Associations -, fundada em 1951 na sequência da II Guerra Mundial, é a organização representativa dos estudantes de Medicina, aproximadamente 1,3 milhões de estudantes a nível global. Colabora de forma próxima com entidades de relevo, como a OMS, a ONU e Associação Médica Mundial de forma a promover uma Saúde Global. A ANEM faz-se representar na IFMSA, participando nas 2 Assembleias Gerais Mundiais por ano e no encontro anual da região europeia. Qualquer estudante de Medicina português pode integrar a delegação da ANEM e marcar presença nestes eventos (Sim, TU tens esta oportunidade!)!

Catarina Dourado, 3º ano

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Raquel Correia, ex-aluna da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, terminou, em junho do ano presente, a especialidade de Medicina Geral e Familiar em Reims, França, no Centre Hospitalier Champagne-Ardenne. Fundou, ainda, a plataforma “Ministério do Sabático”, onde partilha informações sobre o acesso ao Internato Médico em França.

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INTERNATO MÉDICO EM... FRANÇA Quando e porquê que tomaste a decisão de tirar a especialidade no estrangeiro? Fiz Erasmus em Paris no 4° ano e gostei tanto do ensino e da cidade que resolvi fazer um free-moving no 5° ano e repetir o Erasmus no 6°. Ninguém tinha feito nada semelhante no Santa Maria (Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa) até então, pelo que tive de enviar muitas cartas ao Conselho Pedagógico e ao Director da Faculdade, para justificar a minha motivação e propósito. Felizmente, fruto de perseverança e persistência, consegui fazer os três anos clínicos fora. Ao fim destes três anos não fazia sentido voltar: tinha aprendido a clínica toda em França, falava francês, conhecia o sistema por dentro e sentia-me bem. O exame de acesso à especialidade em Portugal parecia-me obtuso, portanto nunca o fiz, nem estudei para ele. Por outro lado, queria poder ganhar tempo, e França permitia-me isso uma vez que as especialidades demoram em geral menos um ano e não há ano comum. Assim, resolvi fazer o exame de acesso à especialidade em França e por cá fiquei. Quando entraste no curso de Medicina, já colocavas essa hipótese? De todo. Entrei em Medicina em 2007, queria fazer Intercâmbios e Erasmus, mas ser emigrante ou fazer a especialidade fora nunca foram objetivos. O que te fez escolher França? De certa forma, puro acaso. Quando me candidatei para Erasmus queria um sítio onde exigissem de mim e onde pudesse ter uma prática clínica intensa. Sabia que em França o Erasmus tinha reputação de ser difícil e que tínhamos, não só os nossos doentes, mas também um salário enquanto estudante. Isso pesou muito na minha decisão. Como fui ficando em França, quando chegou o momento de fazer a especialidade, fazia absoluto sentido ficar no mesmo país.

Onde procuraste informações sobre o Internato Médico em França, antes de o escolheres? Na altura não havia grande informação para portugueses. Informei-me com colegas de cá. Mais tarde, para fazer face a essa falha, criei o “Ministério do Sabático”, www.ministeriodosabatico.com, onde respondo e partilho o abc de como fazer a especialidade em França. Que habilitações, tanto na área médica, como fora, necessitaste para te candidatares? O exame de acesso à especialidade ECN tem de ser feito no 6° ano do curso, mesmo para estudantes de outros países da Europa. Tive de me inscrever em janeiro para um exame que ocorre em maio/junho. Precisei de enviar alguns documentos, incluindo uma certidão da Faculdade em como o curso em Portugal está de acordo com as normas europeias. Nada de muito difícil, mas a ser feito a tempo e horas. Como funciona o acesso à especialidade em França? O acesso à especialidade é feito através de um exame de seriação, ECN, que acontece uma vez por ano. Depois, em virtude da nota, os candidatos escolhem, em setembro, a especialidade e em novembro do mesmo ano começam a especialidade. O acesso é feito no 6° ano, quem está no ano comum já não consegue aceder. Que diferenças existem na duração da especialidade entre França e Portugal? Especialidades médicas quatro anos, cirúrgicas cinco, Medicina Geral e Familiar e Saúde Pública três anos. Não existe ano comum. E na remuneração? Ordenado base que aumenta ao longo da especialidade mas que começa nos 1600 euros no primeiro ano, ao qual se devem juntar os bancos. No geral, em média, um ordenado líquido de 1900 a 2100 euros, que vai subindo ligeira-

mente enquanto interno. Quando iniciaste a especialidade, sentiste que ias bem preparada pela tua escola médica? Que dificuldades sentiste? Tendo feito os três anos clínicos em Paris sim, estava preparada. Se tivesse vindo diretamente de Portugal, não sei. Os internos são muito autónomos - por vezes demais - e espera-se que saibam ser médicos muito rapidamente. Passa-se de estudante a interno de um dia para outro, com responsabilidade e expectativas bastante elevadas. É preciso estofo e energia. Nada que nós portugueses não saibamos fazer. Recomendarias o país onde estás a estudantes que pretendam tirar a especialidade médica no estrangeiro? Porquê? Absolutamente. A especialidade é rápida, a língua aprende-se depressa, pode-se tirar um ano sabático e posteriormente exercer em imensos lugares no mundo. Culturalmente, os franceses são pouco diferentes dos portugueses, pelo que o choque é mínimo. E depois, estou a duas horas de Portugal e tinha, enquanto interna, trinta dias úteis de férias, pelo que podia ir, felizmente, muitas vezes a casa. Como funciona o regresso a Portugal? Ponderas voltar? No regresso a Portugal tens equivalência direta, que tens de pedir na ordem dos médicos. Infelizmente, por agora, a média dos médicos que voltam é (independentemente da nota que tiveram no estrangeiro) igual à nota mais baixa do último colocado a sair da especialidade em Portugal. Para quem quer trabalhar no público, isto significa ir parar a hospitais que não quer, ou a ser o último colocado nos concursos públicos. De momento, não tenho planos a curto prazo para voltar a Portugal por motivos profissionais, e das pessoas que estão fora, poucos tencionam fazê-lo, mas só posso falar por mim. ● Ana Margarida Ribero, 5º ano


A MENINA DA CAMA 917 CRÓNICA ngana-se quem acha que um livro nos ensina mais do que a experiência. Disseram-me um dia que não há nada como ver algo acontecer com os nossos olhos. Digo-vos, então, como futura médica, que não há nada como sentir algo acontecer com o nosso corpo. Não há livro que nos prepare para estar do lado de lá. Para saber ser doente, acreditando que sabemos o que é ser médico. Digo-vos também, que parte da razão por que tantas vezes nos esquecemos de ser Médicos, vem do facto de não sabermos ser Doentes. Quer queiramos quer não, somos durante muito tempo levados a crer que deteremos todas as respostas. No final das contas, é nas nossas mãos que descansa a decisão final de um diagnóstico, da necessidade de uma intervenção. O problema reside no facto de isso nos fazer acreditar que, por vezes, não há uma vantagem em valorizar a opinião daquele que melhor conhece a situação e o que ela implica. O Doente. Tantas vezes se esquecem os profissionais de saúde de ouvir a voz daquele que sofre da doença, que a conhece de cor porque se deita e levanta com ela, porque ela é sua companheira. Fui diagnosticada com Doença de Crohn não há muito tempo, depois de muito sofrimento que, durante anos, parecia inexplicável. Ainda que esta hipótese de diagnóstico me tivesse, a certa altura, passado pela cabeça e pela boca, foi prontamente rejeitada pelos profissionais que procuravam o meu “veredicto”. Ouvi um “Não, não pode ser” e tive de o aceitar. Tomar paracetamol, quando se tornasse insuportável, foi o conselho que recebi depois de experimentar 10 medicamentos diferentes que, sendo-me recomendados sem grande fundamento clínico, só aumentavam a minha frustração. Apesar de tudo isto, nos meses seguintes, segui essa indicação. Passei a queixar-me menos porque não mudava nada. Ensinam-nos tantas vezes a valorizar a dor do doente, a ouvir as suas queixas e a examiná-lo antes de o enviar para todas as clínicas de imagem médica dos arredores. Se me tivessem, simplesmente, ouvido… Tudo o que veio a seguir poderia ter sido evitado. “Devem respeitar os doentes enquanto peritos na sua doença.” Sentada numa cadeira das urgências, depois de um episódio que me levou ao limite, o que eu mais queria e temia estava prestes a acontecer. Uma resposta, uma luz ao fundo do túnel. Ou não. E se afinal fossem apenas fechar a saída do túnel, encurralar-me para sempre? Oito horas depois de chegar ao hospital, no meio de tantas outras pessoas enfermas, um médico que eu não tinha visto antes, aproxima-se de mim e diz-me “Venho dizer-te que tens Doença de Crohn com uma manifestação bastante agressiva. Vais ter de ficar internada na Cirurgia. Neste momento, és uma bomba relógio”. E assim foi, perante todas aquelas pessoas, no meio de uma correria característica do Serviço de Urgência que, muito sucintamente, recebi as “más notí-

E

CIENTÍFICO

cias”. Ora, todos nós sabemos a forma bonitinha e correta de dar uma má notícia – Quantos de vós já pensaram “Oh, que coisa tão pomposa, ninguém precisa disto”? Desenganem-se. Não imaginam, depois de anos de incerteza e sofrimento inexplicável, o que eu teria dado para poder receber aquela notícia num lugar calmo, reservado, com alguém que tivesse tempo de conversar comigo sobre o que estava a acontecer e me desse tempo para perguntar, clarificar e chorar. Chorar de alívio e de medo. Mas não pude. Sozinha no meio de tantos, com mil perguntas por fazer (não fiz nenhuma), assolada por dor e fome, ali fiquei horas à espera que alguém abandonasse o seu número para que eu pudesse adotá-lo. Com a doença veio um melhor entendimento daquilo que é o dia-a-dia de um doente. Não há muito a fazer quando os corredores são curtos e a cama é o lugar onde devemos estar. Presta-se atenção a cada médico que passa no corredor, a cada choro no quarto ao lado, a cada discussão entre enfermeiros ou a cada pessoa que traz comida à nossa cama. Um doente, por muito que não pareça, está sempre atento ao que se passa ao seu redor, analisando o cuidado, o humor, a preocupação daqueles que o rodeiam. Como médicos, devemos ter cuidado com o que dizemos, não só ao doente mas a quem esteja perto. Comportamentos como falar alto no corredor ou entrar em discussões com outros profissionais são inaceitáveis, pois desequilibram a relação de confiança tão ténue que estamos a tentar estabelecer com os nossos doentes. Não há nada que inspire mais confiança do que uma personalidade confiante, que sorri e transmite calma. Estamos constantemente nas luzes da ribalta e o nosso maior trabalho


importante tratar o doente pelo nome. Vamos para o hospital e vemos que raramente acontece. Tantas vezes os doentes são apenas números. Nunca imaginei que um único número, ou o meu simples nome, pudessem ter tanto peso até ao dia em que, precisando do segundo, apenas me deram o primeiro. Quando “Sara” foi substituído por “A menina da 917” e passei de uma pessoa para uma doença.

Tantas vezes se esquecem os profissionais de saúde de ouvir a voz daquele que sofre da doença, que a conhece de cor porque se deita e levanta com ela, porque ela é sua companheira.

é, sem dúvida, assegurar. Fez-me melhor, tantas vezes, o sorriso da médica pela manhã do que o paracetamol que me tirava as dores. Entendi a importância de criar uma relação de confiança entre os médicos e o doente. Imaginem-se numa situação de escuridão quase total, em relação ao que está a acontecer, com a solidão como companhia. Digam-me, então, para onde se viram os doentes procurando por conforto? Para os médicos. Era, talvez, a hora que eu mais esperava: o momento em que os médicos vinham conversar comigo e me traziam, esperava eu, respostas. Não podemos simplesmente entrar no quarto do doente como se de um escritório se tratasse, dizer meia dúzia de palavras e sair como se todo o quadro não envolvesse uma gigantesca carga emocional. Precisamos, mais do que estar, de ser. Ser com o doente, e reconhecer que ele também é alguém, mais do que um número no Serviço Nacional de Saúde ou uma cama ocupada. Devemos preocupar-nos genuinamente com quem temos à nossa frente, pois aquela pessoa vê na nossa bata branca respostas que não pode dar a si mesma. Perguntar, repetir, ajudar e guiar; ser humano e, quem sabe, abraçar. Dizem-nos, naquelas aulas a que tão pouco valor damos, que é

No internamento, vi os mesmos enfermeiros quase diariamente e grande parte deles, ainda assim, deixou-me apenas um número. 917. Num momento em que eu precisava de cuidado e até de um pouco de carinho, despiam-me de mim. Tiravam-me o pouco de mim que ainda restava numa situação que nos consome e de nós se apodera – somos só doentes quando estamos no hospital. Perdemos tudo o resto, fica apenas o eu que sofre. Se me vão tirar o “eu”, o que me resta? Não é fácil lidar com a ideia de que estamos doentes. Ou que somos doentes. Passa a fazer parte da nossa biografia, como uma alínea do Curriculum Vitae. “Para os médicos, a doença é algo que pode ser avaliado e compreendido através de testes laboratoriais e observação clínica. Já para o doente, a doença significa, não raro, uma vida destroçada.”Por muito que saibamos sobre a doença, o pior é a incerteza. Olhar constantemente para trás a ver se o monstro nos segue, com o medo de voltar a perder a batalha. E esta sou eu, que sei o suficiente da fisiologia humana para perceber, ainda que sempre com alguma dificuldade, o que leva a que as coisas sejam desta forma. Agora imaginem alguém que não tem o conhecimento que eu tenho, que nós temos. É muito mais fácil cuidar do que ser cuidado. Tendo um pouco de médica e um pouco mais de doente, ao enfrentar e conquistar a minha doença, surge uma nova compreensão e empatia com aqueles a quem me dedicarei um dia. Estou grata, apesar de tudo, pela experiência – não feliz por estar doente, mas por poder tirar disso algo que me tornará uma médica melhor. Aprendi tanto. Não desejo isto a nenhum de vocês, mas haveria de surgir uma forma de treinar médicos nesta situação. Não sei se é possível ensinar empatia, mas garanto-vos que sentir na pele a necessidade de ser compreendida, cuidada e reconfortada é uma lição valiosa. Isto para vos dizer, no papel de alguém que tem um pé de cada lado da fronteira, que muitas vezes é mais importante sermos o nome que está no crachá do que o “Dr.” que o precede; e mais do que isso, deixar que o nosso doente seja o nome com que se apresenta, mais do que o número da cama em que se deita ou a doença que o trouxe até ali. Não deixemos que o papel que desempenhamos na vida, nos deixe esquecer que somos, antes de mais, humanos. ● Sara Cardoso, 3º ano

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A EUTANÁSIA É TÃO ANTIGA QUANTO A PRÓPRIA SOCIEDADE

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palavra “eutanásia”, utilizada no ocidente europeu, tem raiz greco-romana e deriva do grego eu (boa) e thanatos (morte), ou seja, significa morrer bem ou morrer em paz, ter uma morte tranquila, agradável ou doce, sem sofrimento (Santos, 2011). O termo “eutanásia” foi proposto pela primeira vez no século XVII pelo filósofo inglês Francis Bacon, que argumentava que o médico tinha a responsabilidade de aliviar a dor e doenças, não só com a cura do mal, mas também ao permitir ao doente uma morte fácil e calma (Melo, 2009). Há, contudo, autores que afirmam que o termo terá sido primeiro aplicado somente em 1869, pelo historiador inglês W. H. Lecky, tendo como significado a ação de induzir suave e facilmente a morte, especialmente a doentes incuráveis ou terminais, com o mínimo de dor e sofrimento (Santos, 2011). Apesar destas referências, a “eutanásia é tão antiga quanto a própria sociedade”, pois a prática da eutanásia conduz-nos a épocas longínquas, onde os povos primitivos, os espartanos, birmaneses, bosquímanos indianos, gregos, romanos, celtas e egípcios provocavam a morte aos débeis, aos velhos, aos deficientes físicos e/ ou psíquicos, bem como aos doentes incuráveis (Santos, 2011). Como exemplo, na Antiga Grécia, Platão afirmava que a sociedade deveria livrar-se dos membros enfermos e escreveu “Estabelecerás no Estado uma disciplina e uma jurisprudência que se limite a cuidar dos cidadãos sãos de corpo e de alma; deixar-se-ão morrer aqueles que não sejam sãos de corpo” (Telhado, 2015). Na época medieval, era entregue um punhal, designado punhal da misericórdia, ao soldado que estivesse gravemente ferido para que este pudesse colocar um fim à sua dor (Santos, 2011). Na atualidade a eutanásia, segundo o dicionário infopédia da Língua Portuguesa da Porto Editora, significa

uma “intervenção feita por alguém em favor da vontade expressa de um indivíduo afetado por doença dolorosa e sem perspetiva de cura, com vista à antecipação da sua morte da forma menos dolorosa possível”. A eutanásia pode ser praticada com base em solicitação expressa do doente - eutanásia voluntária – ou contra a sua vontade eutanásia involuntária (Pinto & Cunha, 2016). É importante clarificar alguns conceitos, como morte assistida, suicídio assistido e distanásia, de modo a que não se verifique a aplicação incorreta do termo “eutanásia”. A morte assistida refere-se à morte que ocorre na presença de familiares/amigos e, sempre que possível, assistida por profissionais de saúde (Silvestre, 2017). Por outro lado, o suicídio assistido é o ato de ajudar intencionalmente outra pessoa a pôr termo à sua vida, ou fornecer-lhe meios que permitam que pratique esse ato (Silvestre, 2017). Quanto à distanásia, também conhecida como eutanásia indireta ou eventual ou tratada como “obstinação terapêutica”, é a aplicação de meios inapropriados em doentes com morte previsível a curto prazo, sendo que esses meios se revelariam impróprios e inúteis para poder ocorrer uma morte serena e digna (Silvestre, 2017) (Pinto & Cunha, 2016). Na Europa a eutanásia e o suicídio assistido estão legalizados na Holanda (2002), Bélgica (2002) e Luxemburgo (2009), enquanto que na Suíça (1982) somente o suicídio assistido é legal (Silvestre, 2017). No resto do Mundo, nos Estados Unidos da América, o suicídio assistido é permitido nos estados de Oregon (1997), Washington, Vermont, Califórnia, Montana, Havai e Colorado e no distrito de Columbia (2018) (Porto, 2018). A eutanásia é legal no estado de Victoria (2017), na Austrália, e quer a eutanásia quer o suicídio medicamente assistido são permitidos no Canadá (2016), inicialmente somente permitidos na província do Quebec

(2014) (Porto, 2018). Em Portugal, no passado dia 29 de maio, foram discutidos e votados na Assembleia da República quatro projetos de lei, propostos pelo Partido Socialista, Bloco de Esquerda, Pessoas-Animais-Natureza e Partido Ecologista “Os Verdes”, sobre a despenalização e regulamentação da eutanásia (Henriques & Francisco, 2018) (ver artigo na secção Atualidade desta revista). Todos os diplomas previam que só podiam pedir, através de um médico, a morte medicamente assistida pessoas maiores de 18 anos, sem problemas ou doenças mentais, em situação de fim de vida, sofrimento intolerável e com doença incurável, sendo necessário confirmar várias vezes essa vontade (Simão, 2018). Além disso, todos os projetos garantiam o direito à objeção de consciência relativamente à morte assistida. Todavia existiam algumas diferenças entre os projetos-lei votados. O projeto do PS regularia as condições especiais em que a prática da eutanásia não fosse punível. O projeto do BE definiria e regularia as condições em que a antecipação da morte por decisão da própria pessoa não fosse punível. O projeto do PAN regularia o acesso à morte medicamente assistida, na dupla vertente da eutanásia, quando o fármaco letal fosse administrado por um médico, e de suicídio, quando fosse o próprio doente a administrar o fármaco letal, ainda que sob supervisão médica. Por último, o projeto do PEV definiria as condições e os procedimentos específicos a observar nos casos de morte medicamente assistida. Todos os projetos foram chumbados, pelo que a eutanásia e o suicídio assistido continuam a ser ilegais em Portugal e podem ser punidos pelos artigos 134.º - Homicídio a pedido da vítima ou 135.º - Incitamento ou ajuda ao suicídio, do Código Penal Português, com penas de prisão até 3 anos ou entre 1 a 5 anos, consoante as situações. ● Ana Sofia Correia, 4º ano


Sexo masculino, 58 anos

MOTIVO DE INTERNAMENTO Dor abdominal

HISTÓRIA DA DOENÇA ATUAL Doente recorre ao Serviço de Urgência (SU) com queixas de dor abdominal, com cerca de sete dias de evolução. Caracteriza a dor como sendo tipo cólica, com agravamento progressivo até hoje. Refere trânsito intestinal mantido, com dejeção ontem de fezes moles. Refere manter trânsito para fezes, sem dejecções diarreicas. Sem noção de febre. Nega náuseas ou vómitos associados ao quadro. Sem quaisquer outro tipo de queixas.

ANTECEDENTES PESSOAIS Patológicos Doente com internamento recente no serviço de Gastroenterologia (alta a 30/7), por ileíte terminal em estudo. Colecistectomia há cinco anos. Síndrome Depressivo Hipertensão Arterial

EXAME OBJETIVO

Medicamentosos Fenofibrato Bisoprolol 0,5 Losartan 100+ HCTZ 12,5 Fluoxetina 20 Trazodona 150 Bialzepam 10 Pregabalina 75 Ezetimiba e sinvastatina Sem alergias medicamentosas conhecidas.

CASO CLÍNICO

IDENTIFICAÇÃO

Consciente, Colaborante e Orientado GASTRENTEROLOGIA Temp 37ºC. TA 144/85mmHg. FC 101bpm. Eupneico, Sat 98% AC: Sopro Sistólico grau II/VI, ritmico AP: Murmúrio Vesicular mantido, sem ruídos adventícios. Abdómen mole e depressível, com dor à palpação superficial e profunda dos quadrantes direitos, mais no quadrante inferior direito, sem defesa ou SIP. Ruídos Hidroaéreos presentes com frequência, timbre e intensidade normais. Sem outras alterações ao Exame Objetivo.

EXAMES COMPLEMENTARES DE DIAGNÓSTICO Analíticos PCR 1,09>>0,27. Plaquetas 408>>366. Sem outras alterações. Imagiológicos Raio-X Abdominal - Distensão de ansas do Intestino delegado Ecografia Abdominal – Alterações sugestivas de processo inflamatório: espessamento concêntrico da ansa ileal no hipocondrio direito, que atinge uma espessura máxima de 10mm serosa - mucosa. Há também aumento da reflectividade da gordura adjacente. TC pélvica - O ileo terminal encontra-se espessado, estratificado, com redução de calibre, numa extensão longa. Observa-se densificação do respectivo mesentério, pequena quantidade de derrame, com aumento da vasculatura e múltiplas adenomegalias. Poderão estar em relação com processo inflamatório ileal. Na região umbilical, à direita, observa-se uma imagem de aspecto ósseo, alongada, medindo 23 mm, no lúmen de ansa ileal (provavelmente a visualizada no estudo ecográfico). IleoColonoscopia: Vâlvula íleocecal aberta, patente, com mucosa dos bordos congestiva e erosionada - realizadas biópsias. Mucosa do íleon terminal congestiva, erosionada e com múltiplas úlceras aftoídes, de forma segmentar -realizadas múltiplas biopsias. Mucosa do cólon e reto visualizada sem alterações aparentes.

DIAGNÓSTICO E TERAPÊUTICA?

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A TUA ACADEMIA, A TUA CULTURA

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Joana Galvão, 6º ano Leonardo Fernandes, 4º ano

esde a rádio ao fado, passando pela astronomia ou a fotografia, as Seções Culturais da Associação Académica de Coimbra (AAC) são um espaço de aprendizagem e convívio para os estudantes, fora da normal rotina de aulas, trabalhos e avaliações. Aqui falamos-te um pouco de três delas:

Estudante de Coimbra que se preze já foi a uma Serenata Monumental, seja a da Festa das Latas, na Sé Nova, ou a da Queima das Fitas, na Sé Velha. O que talvez nem todos saibam é que quem está a atuar na Serenata são nossos colegas - membros de grupos de fado integrados na Secção de Fado da AAC. João Teixeira, guitarrista do Grupo de Fado «Ad æternum» e aluno do 6.º ano de Medicina, diz-nos que “entrar na secção acabou por ser resultado de um certo acaso. Eu queria de facto continuar a tocar guitarra e trazer bem de perto a música na minha vida e entrar na Secção de Fado acabou por permitir exatamente isso.” O João acredita também que o seu percurso no Fado, além de o fazer feliz, lhe permitiu desenvolver capacidades extra-medicina, sobretudo musicais, e de organização do tempo. Por isso, aconselha e recomenda que os estudantes se informem sobre o que a Academia tem a oferecer, “porque é praticamente inesgotável”. E remata, concluindo, “Coimbra só será a cidade dos estudantes enquanto nos interessarmos nela e investirmos naquilo que já nos oferece”. Além das Serenatas e da atuação nas Noites do Parque aquando da Queima das Fitas, ao longo do ano a Secção de Fado atua em eventos ligados à praxe, aos núcleos de estudantes, e até atuações privadas em casamentos e festas. Nos últimos anos têm também promovido o «Mês do Fado de Coimbra», organizando concertos e tertúlias que reúnem os melhores nomes da canção coimbrã. Fazemos uma pequena provocação: e as mulheres, não podem entrar no mundo do Fado de Coimbra? João responde-nos que “esse é um tema muito interessante: historicamente só os homens tocavam e cantavam o Fado de Coimbra, e essa tradição tem-se mantido. Mas, e diz-nos João, “penso que havendo um interesse das mulheres em integrar a secção não lhe seriam colocadas objeções”. Resolvidas então as questões de género, se gostavas de entrar na Secção de Fado, mas achas que não podes porque não sabes tocar nenhum instrumento nem cantar, não te preocupes: o João diz-nos que - embora facilite - não é obrigatório ter conhecimentos prévios, pois “pode-se aprender tendo aulas com os professores da secção”. Mas se tiveres alguma dúvida sobre a Secção, não hesites: basta apareceres na sala Dr.Jorge Gomes da AAC para esclarecer qualquer dúvida que tenhas!

CULTURAL


Subir ao 2º piso e virar à direita, é tudo que o precisas para encontrares a Rádio Universidade de Coimbra (RUC), a única rádio-escola da península Ibérica, no edifício da Associação Académica de Coimbra (AAC). Formada em 1986, a RUC é uma das 15 Secções Culturais da Academia e dedica-se há mais de 32 anos a formar pessoas na área da rádio. Distingue-se como um órgão de comunicação social único, não só pelo papel educacional, mas também pela participação na vida cultural e académica da cidade de Coimbra. Todos os anos, em Setembro, os estudantes da Universidade de Coimbra (UC) têm a possibilidade de concorrer aos cursos de formação da RUC. “Há três tipo de cursos que incidem nas três principais áreas da rádio, Locução/

Realização, Técnica de Radiodifusão e Informação”, refere Miguel Santos, aluno do 4º ano do MIM e atual diretor técnico na RUC. Os alunos de Locução/Realização poderão, após a conclusão da formação, realizar tarefas como apresentar ‘talk-shows’ ou coordenar a transmissão de músicas. Por outro lado, a parte da Informação, ou como também é conhecida, InfoRUC, é responsável por todo o conteúdo informativo que a rádio produz (noticiários, reportagens). Em relação à divisão da rádio que coordena, a Técnica como é conhecida na gíria, Miguel explica que “é o departamento que faz com que tudo aconteça na rádio: apoiar noticiários e compactos informativos, tratar de sons e áudios de entrevistas”. Enquanto ex-aluno do curso de técnica de Radiodifusão, enaltece que este dá aos seus formandos uma formação teórica e prática extensa relacionada com o som e equipamento de áudio. É ainda possível a inscrição no curso de Relatos que visa tornar estudantes e não estudantes da UC aptos a reportarem as incidências dos jogos da equipa de futebol da AAC com o “estilo único e característico dos relatos RUC”. Para além da aprendizagem, colaborar na Rádio Universidade de Coimbra pode ser comparado a trabalhar numa empresa. “É uma seção cultural que tem muita gente, inclusive membros fundadores, que levam o trabalho da rádio de uma forma muito séria, o que leva a adquirir competências de gestão e uma certa responsabilidade”. A RUC, através do seu departamento técnico, apoia as atividades da Associação Académica de Coimbra (serenatas, assembleias magnas, processos eleitorais para os corpos gerentes da AAC) e muitas outras iniciativas culturais na cidade de Coimbra. Exemplos disso mesmo são os “Concertos com Saúde”, realizados no Pólo das Ciências da Saúde (III) em Junho deste ano e o Festival “Santos da Casa” que traz todos os anos muitos artistas a Coimbra. Ainda assim, na opinião de Miguel, o papel da rádio da Academia na vida cultural da cidade de Coimbra poderia ser mais marcante se tivesse uma maior adesão por parte dos estudantes. “Toda a gente sabe que os estudantes é que dão vida à cidade, se os estudantes não investem na RUC e nas outras secções culturais, estas perdem a dinâmica”. A falta de participação dos jovens nas atividades da Academia acaba por se refletir na cidade. “Por exemplo, a nível de atrações noturnas, acaba por ser muito repetitiva e pobre. Tens sempre as mesmas discotecas que não acrescentam grande coisa à vida cultural da cidade”. O atual diretor técnico da RUC considera que os estudantes de medicina não devem ter medo de se juntar a outras atividades extracurriculares. “Atividades como a RUC só nos acrescentam coisas, até podes não gostar de rádio, mas depois é muito mais que isso”. De igual forma, valoriza o convívio que a RUC proporciona como um dos principais fatores a valorizar na sua experiência, “para nós de medicina que estamos no pólo 3, acho que é importante conhecer pessoas de vários cursos”. Continuando a valorizar o espírito de envolvimento dos alunos, Miguel reforça que “não se perde nada em ir experimentar”. “Seja a rádio, ou outra coisa qualquer, se tens outros interesses, procura qualquer coisa relacionada com eles”, concluiu.

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A SOS Estudante foi fundada há 21 anos, tendo como principal actividade uma linha telefónica de apoio emocional e prevenção ao suicídio (disponível todos os dias, excepto férias escolares, entre as 20h e a 1h). “Apesar de ter sido criada para estudantes, a Linha atingiu reconhecimento a nível nacional, sendo que, hoje, a maior parte das chamadas recebidas não são da comunidade estudantil”, conta-nos Diana Callebaut, aluna de Medicina e presidente da SOS Estudante. “A Linha é uma ferramenta de apoio emocional e prevenção primária de suicídio. Pretende-se oferecer um espaço livre de preconceito onde se pode falar e ser ouvido sem medo. Qualquer pessoa nos pode ligar para falar de qualquer coisa. O único requisito é falar português, pois é a língua em que realizamos o atendimento”. A plataforma SOS Estudante cresceu também para lá da sua linha telefónica, promovendo momentos de debate e reflexão sobre os temas que frequentemente são abordados na Linha, através de projectos culturais como sessões de cinema. Este ano pretendem também organizar workshops sobre temas relevantes na área do apoio emocional, como o mindfulness. Isto além, claro, de continuarem a divulgar a SOS Estudante na comunidade estudantil, através da participação na Latada e na Queima das Fitas. Da Medicina para a SOS Estudante, Diana diz ter levado alguns conhecimentos específicos, por exemplo na área de saúde mental, úteis na formação e nas reuniões, “mas não tanto no atendimento”. Como nos diz, “penso que tiro da SOS Estudante mais do que dou e sinto que está a ser um verdadeiro complemento à minha formação como futura médica e pessoa na sociedade”, ajudando na abordagem emocional da doença, na capacidade de ouvir melhor (“passei a focar mais a minha atenção na outra pessoa e no que ela tem para dizer, em vez de no que eu vou responder a seguir”) e, sobretudo desde que está na direção, capacidades de gestão e logística. “São muitas personalidades, a minha incluída, para gerir.” Se tivesse de escolher uma só palavra, diz-nos Diana, a escolha recairia na empatia: “é a grande capacidade que aperfeiçoei (e ainda desenvolvo) na SOS Estudante.” Quando questionada se os alunos de Medicina poderiam ter uma ação mais notória em ações de voluntariado semelhantes, Diana afirmou categoricamente que “em vez de seguir estereótipos ou o pensamento que devemos fazer algo porque faz sentido para o mundo, o mais importante é o que faz sentido para nós”. Reforçou a ideia dizendo que “para uns pode fazer sentido fazer voluntariado, para outros faz sentido estar num grupo musical… pode parecer um cliché, mas o papel de cada um na sua comunidade cabe a si descobrir, não havendo resposta certa ou errada.“ De ressalvar que o funcionamento da linha SOS Estudante depende do princípio do duplo anonimato tanto para os voluntários como para quem recorre à linha. Desta forma, é criado um espaço seguro onde as pessoas podem falar abertamente, livre de preconceitos. “Por vezes, a identificação de uma das partes impede-nos de expor totalmente os nossos pensamentos, por medo de algum julgamento do outro”, explica Diana.

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Se ficaste com vontade de te juntares à SOS Estudante, é útil saberes que há dois recrutamentos por ano - e o primeiro está a decorrer agora, de 1 a 23 de setembro. Para qualquer dúvida ou curiosidade podes também contactar a SOS Estudante pelas redes sociais ou através do email geral@sosestudante.pt. ●


DESPORTO Jogos Europeus Universitários 2018 ntre os dias 15 e 28 de julho decorreram em Coimbra os Jogos Europeus Universitários 2018 (EUG 2018). Esta foi a quarta edição desta competição, depois de passagens por Córdoba em 2012, Roterdão em 2014 e Rijeka em 2016. Neste evento desportivo estiveram envolvidos cerca de 3300 atletas provenientes de 291 universidades, de 38 países diferentes. Estes atletas competiram em 13 modalidades desportivas diferentes: Andebol, Badminton, Basquetebol, Basquetebol 3x3, Canoagem, Futebol, Futsal, Judo, Remo, Rugby 7s, Ténis, Ténis de Mesa e Voleibol. A organização do evento contou com a colaboração de aproximadamente mil voluntários e esteve ao cargo de várias instituições: Associação Europeia do Desporto Universitário (EUSA), Universidade de Coimbra (UC), Associação Académica de Coimbra (AAC), Câmara Municipal de Coimbra (CMC) e Federação Académica de Desporto Universitário (FADU). As provas decorreram maioritariamente no concelho de Coimbra, nomeadamente nos pavilhões do Estádio Universitário de Coimbra, no pavilhão Eng. Jorge Anjinho, no Pavilhão Municipal Multidesportivo Mário Mexia, na Academia OAF, no Pavilhão Eng. Augusto Correia, no Campo de Santa Cruz e no Centro Social de S. João, em S. Martinho do Bispo. As modalidades de remo e canoagem foram disputadas exclusivamente no concelho de Montemor-o-Velho. À disposição dos participantes estiveram serviços de transportes urbanos gratuitos, que permitiam uma ligação entre os locais

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de acomodação e os locais de competição. Para que as infraestruturas se encontrassem nas melhores condições para a receção dos atletas universitários foram realizados trabalhos de renovação no Estádio Universitário de Coimbra, permitindo assim a realização da maior parte das competições neste local. Estas intervenções tiveram um custo aproximado de 4,5 milhões de euros, tendo sido utilizadas verbas da Universidade de Coimbra e da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento da Região Centro. Esta renovação contribui também para melhorar as condições dos estudantes da Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física e alojar atividade desportiva dos estudantes da UC. A Universidade de Coimbra marcou o seu lugar no pódio, tendo sido a academia que conquistou o maior número de medalhas, onze: 5 de ouro em canoagem, nas categorias K2 misto 200m, K1 feminino 200m e K1 misto 500m com estafetas, em remo na categoria masculina LM2x e em judo feminino -48kg; 2 de prata em canoagem, nas categorias K1 masculino 1000m e C1 masculino 1000m; 4 de bronze em canoagem na categoria K2 misto 200m, em remo na categoria masculina LM2-, futsal masculino e em rugby 7s feminino. A organização dos EUG 2018 em Coimbra foi considerada um sucesso pela maior parte dos participantes, tendo inclusive Adam Roczek, presidente da EUSA, considerado estes Jogos Europeus Universitários como os melhores de sempre. ● Filipe Ginja, 4º ano

Duas estudantes da FMUC estão de parabéns! Catarina Costa (esquerda), 5º ano, campeã europeia universitária em judo, -48kg feminino e Francisca Laia (direita), 6º ano, campeã europeia universitária em K1 200m.

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projeto intitulado “Ma-deixas feliz” foi criado em 2016 pelo Departamento de Direitos Humanos e Paz (DDHP) do Núcleo de Estudantes de Medicina da Associação Académica de Coimbra, em parceria com a Zélia Teixeira Soluções Capilares®. No âmbito deste projeto toda a comunidade académica pôde doar o seu cabelo que posteriormente foi enviado para Inglaterra para a associação Little Princess Trust™, que faz chegar próteses capilares, produzidas a partir de cabelo doado, a crianças e jovens até aos 24 anos que perderam o seu cabelo devido ao tratamento de doenças oncológicas ou como consequência de outros tipos de doenças. Durante este projeto foram recolhidas 29 doações de cabelo e foi doada uma prótese capilar oferecida ao NEM/ AAC pela Zélia Teixeira Soluções Capilares®. A doação da prótese capilar a uma doente foi o culminar dos objetivos propostos para este projeto. A prótese capilar foi doada, no dia 6 de julho, a uma doente oncológica de 49 anos que se encontra a fazer tratamentos para o cancro da mama no Instituto Português de Oncologia de Coimbra Francisco Gentil. Neste dia tivemos a oportunidade de falar com ela que nos revelou o quão difícil foi aceitar a doença e os

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possíveis efeitos secundários associados aos tratamentos, acabando por referir também que todo este processo lhe permitiu “dar mais valor a pequenos pormenores que não dava valor antes”. Quando surgiu a hipótese de receber uma prótese capilar “foi muito bom” e ficou muito feliz, pois vive com algumas dificuldades económicas e de outro modo não iria ter a possibilidade de adquirir e usar uma prótese capilar. Além disso, a prótese irá ter um “impacto positivo” na sua autoestima e relações interpessoais. Sobre a importância da atividade desenvolvida no âmbito deste projeto que culminou na doação desta prótese capilar referiu “acho muito bem, eu precisei agora e deram-me a mão, se alguém necessitar… acho muito bem mesmo”. Notórias foram as diferenças entre a pessoa que chegou para ir escolher a sua prótese capilar e a mesma pessoa ao colocar a prótese e ver-se ao espelho. Em nome do DDHP/NEM/AAC, obrigada a todos aqueles que contribuíram para o sucesso deste projeto e citando Antoine de Saint- Exupéry “a verdadeira solidariedade começa onde não se espera nada em troca”. Ana Sofia Correia, 4º ano

MA-DEIXAS FELIZ Atuais coordenadoras do DDHP, Catarina Ferreira (esquerda) e Carla Pereira (direita) com a colaboradora Ana Sofia Correia (centro).


Para combater a macicez do texto científico, resta-nos a fluidez da mão dos nossos colegas. Se a escrita é um dos meios pelos quais te exprimes, submete os teus devaneios para anemia@nemaac.net, para que os possamos partilhar, assinados ou anonimamente, na próxima edição da tua revista! Havia na roçagante e pérola brisa O insidioso odor dos sonhos; Havia no pigmento das brilhantes cores A luminosidade quente do prazer; O tempo passava mas não se perdia, E o embalo suave apenas adormecia… Bate levemente com o barulho oco das mentes vazias e dos olhares distraídos, Materializa a outrora agradável memória da leviandade, Prolonga-se como a dor, inexorável como a tentativa; A tudo há a capacidade de atribuir significados que não lhe são inerentes e que nem sequer permanecem imutáveis… Maltratar a ilusão do livre arbítrio É o confronto entre a pálida melancolia, a apatia dos tristes que não são pobres de espírito mas se veem de espírito pobre E a insustentável intensidade, a espiral contrastada dos que repousam a cabeça no inimigo e têm o inimigo na cabeça. Se de fragmentos desiguais e angulosos se constrói a formação, Não se sustentam pedras basilares quebradas; E a nobreza dos propósitos e a beleza das intenções, Apenas desvanecem nas banalidade corpóreas da rotina, Apenas são o longínquo lamento de quem mal se justifica. Anónimo

Desde que me tocaste eu só te espero a ti. Há qualquer atrevimento No desejo de te ter comigo Nunca tudo consegue ser explicado Mas o teu toque O sensual que eleva os meus pecados Às transparências mais ingénuas do meu ser, Minha mais bela desordem, Meu maior mistério. Ana Luísa Delgado, 3º ano


É que para falar de ti eu teria de criar um novo idioma. Prosas inteiras escritas com a humidade de um respirar em janelas geladas do lado de fora. As palavras escorreriam pela superfície do vidro e eu, bem, eu apanhá-las-ia com as conchas das mãos viradas aos deuses e atrevia-me a dizer que o amor acontece agora mesmo, no côncavo interno do silêncio de um dia de inverno. Ou então as palavras cairiam famintas, submersas no encanto hipnótico de quem assistia a um acidente. É que para ti eu criaria todas as palavras Palavras-amor Palavras-ausência Palavras-perdão Palavras-angústia, fé, filosofia Palavras-cinza em forma de círculo Palavrassemespaçosqueseriamfrasesinteirasescondidas Recordo através das fotografias tiradas misteriosamente as tuas mãos enormes E por mais que feche os olhos para não te ver As imagens atravessam-me as pálpebras Tão nítidas como o dia em que descia as escadas Vestida de preto e tu me olhavas ansioso por cima do ombro, com um caderno entre as mãos, olhos postos nos meus e eu a fugir-te. Não acredito que o teu coração tenha o tamanho de um punho fechado Dois mundos inteiros não chegariam Nem uma nova gramática de silêncios, nem o ângulo certo de ereção dos nossos mundos. É que para falar de ti eu teria de criar um novo idioma. O meu luto é branco Repara só a ausência que é um caderno vazio.

Ana Luísa Delgado, 3º ano


NUM FUTURO NÃO MUITO DISTANTE CRÓNICA

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revenção. Esta é sem dúvida uma das palavras que, devido à mudança de paradigma na saúde, será cada vez mais utilizada, ouvida e repetida por médicos e estudantes de medicina. É fácil perceber o porquê desta mudança de paradigma, pois se é verdade que o curativismo é e será sempre essencial na prestação de cuidados de saúde, não é menos verdade que a sua utilidade para o doente está longe de ser ideal, uma vez que apenas vai intervir quando este já se encontra num maior ou menor estado de sofrimento. A grande questão que se coloca é: Quando iniciar a prevenção? “O mais cedo possível!” – é provavelmente o nosso primeiro pensamento e, verdade seja dita parece ser a resposta correta, mas... será que é assim tão linear? Desde a descoberta da dupla cadeia de DNA há pouco mais de 50 anos, a genética tem evoluído a um ritmo frenético, de tal modo que hoje em dia são conhecidas várias mutações responsáveis pela ocorrência de determinadas doenças ou por uma maior probabilidade destas se virem a manifestar. Todo este conhecimento adquirido nas últimas décadas tem uma implicação direta na medicina da prevenção, pois, quer queiramos quer não, num futuro não muito distante, “o mais cedo possível” acima referido passará a ser sinónimo de manipulação genética de embriões . Parece saído de um livro de ficção científica mas a verdade é que o Santo Graal da medicina - acabar com o sofrimento ainda antes deste existir - está cada vez mais perto de se tornar realidade. Quão satisfatório será poder garantir aos futuros pais que os seus filhos serão geneticamente perfeitos? Imaginem a felicidade de alguém com história de cancro familiar ao saber que o risco do seu filho vir a sofrer da mesma patologia será mínimo; o alívio de pais afegãos, somalis ou indianos ao saberem que vão ter um filho e não uma filha; o orgulho e satisfação de um professor universitário ao saber que o seu filho terá grandes probabilidades de possuir uma inteligência acima da média; o conforto em

saber que um filho vai ser branco, loiro, com olhos azuis… Pois, não foi necessário realizar um grande esforço mental para que estas situações hipotéticas rapidamente se tornassem desconfortáveis e eticamente questionáveis. O caso da história familiar de cancro é sem grandes dúvidas o mais consensual. Mas, se a premissa da utilização desta tecnologia for a evicção do sofrimento, não será, em países onde a condição de mulher se situa algo entre o animal e o homem, a pretensão de ter filhos do sexo masculino igualmente válida? E pais negros, não terão o direito de decidir ter filhos brancos sabendo de antemão que o racismo ainda é uma realidade? Se respondermos negativamente estaremos a desvalorizar o sofrimento sexual, psicológico e social em relação ao sofrimento físico, o que se poderá tornar bastante perigoso… Por outro lado, se respondermos afirmativamente podemos estar a reabrir a porta à eugenia e infelizmente, devido a um passado não muito distante sabemos as consequências que daí podem advir. Numa primeira fase, o caso do professor universitário pode não fazer muito sentido pois não parece estar associado a qualquer tipo de sofrimento, no entanto, a verdade é que após a manipulação genética se tornar uma realidade, mais cedo ou mais tarde esta prática irá estender-se à medicina do melhoramento, e como é óbvio irá ter um preço que não será acessível a toda população. Isto pode levar à criação de uma sociedade distópica, onde as desigualdades sociais serão perpetuadas através da criação de um fosso evolutivo entre ricos e pobres. Apesar de todas as questões éticas a ela associada, a manipulação genética será uma ferramenta poderosíssima à mercê do ser humano. Temos por isso, enquanto cidadãos e estudantes de medicina, a obrigação moral de filosofar ativamente sobre este tema pois por enquanto, a diferença entre utopia e distopia parece ser apenas uma questão de perspetiva. ● Luís Carrasqueira, 5º ano

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Andreia Gi, 4º ano e Mariana Cardoso, 5º ano

SETEMBRO

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THE LEGENDARY TIGERMAN

COIMBRA - FESTIVAL LUX INTERIOR Atuação de Legendary Tigerman, projeto de Paulo Furtado, com a primeira parte a cargo da banda de rock de Coimbra Twist Connection, no Convento de São Francisco.

À OPERA: 29 VISITAÇÃO SANSÃO E DALILA,

18 a 23

DE CAMILLE SAINT-SAENS PÁTIO DAS ESCOLAS

Sansão e Dalila é um catálogo de arte musical, progressões, cadências, fugas, bailados, um grande dueto de amor, provocações, escárnio e apocalipse... é ópera em toda a sua paixão.

ENCONTROS MÁGICOS

22.º FESTIVAL INTERNACIONAL DE MAGIA DE COIMBRA Coimbra é a Capital da Magia por uma semana. Mágicos, provenientes dos quatro cantos do mundo, multiplicam-se por todos os recantos da mágica cidade dos estudantes, entre sessões de magia de rua na baixa da cidade e outros, magia nos hospitais e no estabelecimento prisional de Coimbra. O 22.º Festival Internacional de Magia de Coimbra integra duas Galas Internacionais de Magia, no Convento São Francisco, e promete espetáculo, ilusão e capacidade de sonhar, continuando a surpreender os entusiastas da iniciativa.

OUTUBRO

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PEDRO E INÊS (antestreia) DE ANTÓNIO FERREIRA TAGV

Inspirado na lenda de Pedro e Inês, o filme conta a história de Pedro, um homem internado num hospital psiquiátrico por viajar de carro com o cadáver da sua amada Inês, que recorda simultaneamente as vidas de Pedro de Portugal na idade média, Pedro Bravo no presente e Pedro Rey num futuro distópico. Esta antestreia conta com a presença do realizador e dos atores.

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DAVID FONSECA Convento São Francisco

Espetáculo de apresentação do novo disco RADIO GEMINI.

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1.ª MOSTRA DA GUITARRA DE COIMBRA Torre de Anto

Execução de peças para Guitarra de Coimbra, com a participação de músicos provenientes das Escolas e dos Grupos da Secção de Fados da Associação Académica de Coimbra.

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MISTY FEST Convento São Francisco

Coimbra volta a acolher o Misty Fest. A edição de 2018 aposta na melhor música contemporânea, privilegiando apresentações de artistas distinguidos pela qualidade do seu trabalho, alvos de aplausos generalizados da crítica nacional e internacional. Este ano, o Misty Fest vai apresentar espetáculos memoráveis de artistas internacionais de referência, como Scott Matthew, Anna von Hausswolff, PianOrquestra ou Avishai Cohen, a par da melhor música nacional, como a de Danças Ocultas ou Beatriz Nunes.


CARTAZ CULTURAL NOVEMBRO

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COIMBRA INTERNATIONAL SURREALISM NOW EXHIBITION 2018

Museu Municipal de Coimbra Edifício Chiado Uma exposição de pinturas, desenhos, arte digital, fotografias e esculturas que conta com mais de 100 artistas, de 45 países.

24 e 25

BAIXA TERAPIA

Convento São Francisco Uma peça de teatro com António Fagundes que narra a história de três casais que não se conhecem e se encontram inesperadamente num consultório para a sua sessão habitual de terapia, na qual são surpreendidos pela ausência da psicóloga que apenas deixou envelopes com instruções de como deverão conduzir a sessão.

DEZEMBRO

6

LAGO DOS CISNES TAGV

A Russian Classical Ballet apresenta uma produção clássica deste conto de amor, traição e triunfo do bem sobre o mal, com um elenco de solistas e artistas, liderados por duas Estrelas de Dança Internacional.

15

41.ª CORRIDA SÃO SILVESTRE DE COIMBRA com o objetivo de promover a atividade física e os hábitos de vida saudáveis, esta corrida realiza-se em percursos por estrada que englobam as provas Mini São Silvestre de Coimbra, Caminhada São Silvestre de Coimbra e a Corrida São Silvestre de Coimbra.

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JORGE PALMA TAGV

No espetáculo que preparou para encerrar 2018, “Expresso do Outono”, Jorge Palma, acompanhado pelos seus parceiros da estrada, vai rever algumas das músicas que fazem parte da História da música portuguesa.


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