Skip to main content

Anemia Maio

Page 1

Editorial

Gonçalo Engenheiro

Margarida Carmo

A

NEMIA. Ontem jornal. Hoje revista. Porquê esta mudança? Porque o projeto ANEMIA merece um lugar de maior destaque no mundo FMUC! Porque é necessário fazer chegar a informação que todos precisam de saber de uma forma mais apelativa. Porque na internet estão todos os decretos de lei que vão (estão) a mudar o nosso mundo, mas poucos os lêem. Não por falta de interesse nas consequências, mas por falta de interesse no conteúdo. Não porque tu não vás sofrer com o que aí vem (porque vais!), mas porque não és tu quem tem que fazer alguma coisa para mudar isso. O problema é que o nosso futuro está a ser decidido em bunkers e nós andamos todos de peito cheio e queixo levantado. É natural que custe a olhar para baixo, para o que NEM toda a gente vê! E é precisamente aí que a nova revista ANEMIA entra! A nossa redação está a desbravar a densa mata de informação plantada por agricultores de fato e gravata, colhendo pelo caminho os frutos das raras laranjeiras que por lá vão crescendo, para no final vos servir um agridoce copo de sumo de laranja. Hoje ainda um bocadinho amargo. Amanhã mais doce. A questão é: será que tu podias ter plantado mais uma laranjeira em vez de te teres deixado a ver crescer outra silveira?

O

baby ANEMIA. A baby ANEMIA. Porquê este transexualismo? Porque, na verdade, não o é. Impercetível ou não, o hermafroditismo espelhava-se nas páginas do nosso amado jornal. E agora, chegou a hora. A hora de optar. A hora de crescer. E, assim, desponta a revista! Pela necessidade de elevar o abismo estudantil à montanha informativa. Mas não só! O sumo de laranja, apenas, não sacia a alma. É preciso um doce que nos divirta. Que nos reconforte o ser. Que nos preencha. No fundo, um “gap moment” ao ensurdecedor zumbido informativo. E, igualmente, um “gap moment” ao constante e habitual mundo médico, que frequentemente nos absorve, não restando espaço às inúmeras riquezas que o mundo exterior nos proporciona, quer a nível profissional, quer a nível pessoal! Sejam elas sensações, livros, serenatas, espaços, experiências ou até um olhar aprofundado sobre a pessoa doente, e não a máquina, ou sobre a personagem médica, e não o seu trabalho! Desta maravilhosa dualidade poderás fazer parte! Constrói estas maravilhosas receitas. Ou, então, que estas receitas sejam o gatilho porque tanto esperas!

Ficha Técnica

41ª Edição - Maio 2015 Propriedade do Núcleo de Estudantes de Medicina da AAC - Rua Larga, FMUC, 3000-548 Coimbra - tel: 239 487 291 geral@nemaac.net www.nemaac.net Departamento Cultural Direcção: Mariana Almeida Direcção Editorial: Gonçalo Engenheiro (Director Externo) e Margarida Carmo (Directora de Conteúdos) Redação: Ana Mafalda Gonçalves, Bárbara Mota,Carolina Cabaços, Carolina Pimenta, Diogo Silva, Gonçalo Torres, Hugo Gomes, José Alarcão, Juliana Magalhães, Liliana Jesus, Margarida Carmo, Margarida Duarte, Maria José Temido, Miguel Correia da Silva, Paulo Alexandre Pina, Rita Xavier, Rui Duarte Armindo, Tiago M. Lorga Design e Grafismo: Beatriz Castro Silva e Miguel Serôdio Capa: Beatriz Castro Silva Impressão: Printhouse Tiragem: 300 exemplares Distribuição Gratuita 2


Índice

Índice Aqui faz-se Ciência 3

Os Efeitos BenéFicos do exercício físico no humor depressivo provocado por dependência de substâncias e outras doenças

Vive Coimbra! 16 Serenata monumental 17 Choupal e museu machado de castro

Ciência Actual 4

Fora da Medicina

Com o cérebro na Lua

18, 19 Entrevista a Diogo Carvalho

à Procura do NEM

6, 7 Entrevista a

Creativa-te

Harald Zur HAusen

20 Nós Médicos e Medicina made easy

8 Inmotion

Creativa-te

O que vem aí...

9 Estórias Clínicas

21, 22 Corte a eito

Gap Year

Secção Cultural

10, 11 Entrevista a Gonçalo

23 Dicas de Leitura, Cartoon, Vencedores do Concurso "Entre Livros e Cerveja"

Azevedo

12, 13 Entrevista a Ana Lúcia

Medicina Lá Fora 14 Long live the queen 15 Erasmus em itália

3


Aqui faz-se Ciência

Os Efeitos BenéFicos do exercício físico no humor depressivo provocado por dependência de substâncias e outras doenças neurodegenerativas

F

rederico Guilherme de Sousa da Costa Pereira, professor auxiliar, é docente das unidades curriculares de Farmacologia I e II do Mestrado Integrado em Medicina e Farmacologia e Toxicologia do Mestrado Integrado em Medicina Dentária. É licenciado em Bioquímica e mestre em Biologia Celular pela FCTUC e doutorado em Ciências Biomédicas pela FMUC. Pertence ao grupo de investigação Neurofarmacologia das Drogas de Abuso do IBILI. No seu trabalho mais recente, tem-se debruçado sobre os possíveis efeitos neuroprotetores/neurorreparadores do exercício físico regular no tratamento da sintomatologia depressiva, fortemente associada a vários modelos de doença como, por exemplo, doença de Parkinson e dependência de substâncias. Em fase de publicação, encontra-se um estudo sobre o efeito antidepressivo que o exercício físico regular exerce sobre ratinhos injetados com metanfetamina, contrariando o fenótipo depressivo que o abuso da droga cria. Em laboratório, é possível medir a progressão de sintomas típicos da depressão, como a anedonia e a desesperança, através de testes como o tempo de “grooming” e o teste de suspensão pela cauda. Isto permitiu observar que o grupo de ratinhos

tratados com metanfetamina desenvolveu um

fenótipo depressivo em relação ao grupo controlo e que, após um programa de exercício sob a forma de corrida em passadeira, o fenótipo normalizou e os resultados igualaram os do grupo controlo! O mecanismo através do qual o exercício produz resultados tão satisfatórios é ainda desconhecido. Na verdade, o estudo demonstrou que os níveis totais de dopamina e outras monoaminas, não foram alterados pelo exercício físico. A próxima hipótese a testar é a atividade antidepressiva do exercício físico estar relacionada com o aumento da densidade sináptica, tendo dado origem a outro projeto de investigação que já foi submetido à FCT. Este tem como objetivo observar possíveis alterações na morfologia da árvore dendrítica, em modelos animais de Doença de Parkinson, com fenótipo pré-motor depressivo, que sejam submetidos a um programa de exercício físico semelhante ao estudo anterior. A melhor compreensão dos mecanismos envolvidos neste fenómeno trará novas luzes sobre o tratamento não farmacológico das síndromes depressivas

Ana Mafalda Gonçalves

4


Ciência Actual

Com o cérebro na Lua...

A

doença de Alzheimer é um problema global ainda insolucionável. No mundo, eram cerca de 27 milhões de pessoas diagnosticadas com esta doença, em 2006, e a cada 67 segundos aparece mais uma. Na procura de uma nova explicação para a fisiopatologia da doença, a medicina aliou-se à

Institute of Technology que propôs esta teoria. Acreditam que se trate de um processo coloidal em vez de bioquímico e, dada a experiência da NASA em química coloidal, desenvolveram esta experiência, com o objetivo último do desenvolvimento de uma cura com base numa abordagem diferente do problema. Woodard diz que já foi visto quase ao nível atómico a interação entre várias proteínas individuais, mas é a primeira vez que este processo será estudado no espaço, porque na Terra a gravidade impede as estruturas proteicas de crescer mais de que um certo tamanho em laboratório, ao colapsarem sob o próprio peso. Se a teoria se corroborar, as proteínas deverão agrupar-se em estruturas maiores do que na Terra. O que intriga Woodard é o facto de que, na população que não tem a doença, estas proteínas permanecem solúveis nos neurónios durante toda a vida, enquanto que, em pessoas com doença, se tornam insolúveis e agregam-se. Além disso, na maior parte dos doentes com Alzheimer, não existe uma causa genética subjacente identificável e, por isso, Woodard pensa que, como as proteínas são geneticamente normais, o que as torna deficitárias deverão ser as forças coloidais, uma vez que as proteínas são moléculas e, portanto, sujeitas a ações e forças não biológicas. Todavia, as conclusões isoladas deste estudo não irão levar à descoberta de uma cura. A SABOL

astronomia, ao realizarem uma experiência na International Space Station (ISS) para descobrir a origem do Alzheimer. Acredita-se que esta e outras

doenças neurodegenerativas têm por base uma alteração na conformação das proteínas e no seu folding, resultando na sua acumulação nos neurónios, sob a forma de longas fibras ou tranças. Contudo, a acumulação destas proteínas leva vários anos e até mesmo décadas, reforçando a ligação do Alzheimer com o envelhecimento. Na ISS, ao contrário de na Terra, as fibras acumuladas não colapsam sob o próprio peso, pois não existe gravidade, o que torna este sítio privilegiado para o seu estudo. A experiência chama-se SABOL (Self-Assembly in Biology and the Origin of Life: A Study into Alzheimer’s), é totalmente automatizada e foi construída no NASA’s Kennedy Space Center, Florida. É um cubo que contém um set de proteínas, que, ao chegar ao espaço, estariam livres para se organizarem em maiores e mais complexas estruturas sem a influência das forças gravíticas.

está direcionada para compreender a progressão da doença e só depois se poderá pensar no desenvolvimento de um comprimido milagroso.

Os responsáveis por esta experiência pensam que a causa da doença de Alzheimer poderá ser bastante simples e por isso é que se decidiu alargar os seus horizontes para fora da exosfera. David Tipton, chief

Pretende-se descobrir se a ausência de gravidade levará a alguma alteração no folding das proteínas ou se o efeito será semelhante ao verificado na Terra. Os resultados da experiência só serão conhecidos depois das amostras serem examinadas sob um microscópio de força atómica

medical officer, especula que as teorias atuais sobre o Alzheimer e doenças similares falham na identificação da causa. Ele está a trabalhar em associação com Dan Woodard, o físico aeroespacial e professor no Florida

Paulo Alexandre Pina

5


À Procura do Nem

Entrevista

H

arald zur Hausen, viu a sua carreira ser reconhecida por todo o mundo, tendo recebido vários prémios internacionais. Nos anos 80, formulou e confirmou a hipótese que o HPV (Papiloma Vírus Humano) era responsável pelo cancro cervical, durante um dos seus projetos no instituto de Virologia da Universidade de Friburgo. Esta descoberta levou ao desenvolvimento da vacina e expandiu o conhecimento deste tipo de neoplasia, o que o levou a ser laureado com o prémio Nobel da Medicina ou Fisiologia em 2008, juntamente com Françoise Barré-Sinoussi e Luc Montagnier. No IV In4Med, a Anemia teve oportunidade de o entrevistar. MS: Quando a Segunda Guerra Mundial terminou, acerca de biologia molecular, já que as descobertas tinha apenas 9 anos. De que forma a guerra influenciou mais importantes ainda não tinham ocorrido. a sua vida e carreira? Quando terminei o meu HH: Bem, esse período mudou treino médico, tive um profundamente a minha vida, uma “Vírus persistentes, requerem internato de 2 anos em vez que a minha família foi muito virologistas persistentes.” cirurgia geral, ginecologia afetada: o meu irmão mais velho e medicina interna, de que foi combater com 16 anos e gostei muito. Na verdade, nós vivemos numa área que f o i altamente bombeada. Não frequentei a escola de 1942 houve um momento, quando terminei esse internato, até 1945 e terminei a escola primária muito tarde. Para que considerei a prática clínica, especialmente em além disso, os primeiros anos após o final da Guerra ginecologia ou pediatria. Mas assim que comecei foram igualmente difíceis já que havia muito pouca a trabalhar no laboratório de microbiologia, com comida disponível e nós vivíamos praticamente à base sucesso, decidi que era o que queria fazer da minha vida. de batatas. MS: Antes de escolher trabalhar em investigação, teve algumas dúvidas entre estudar biologia ou medicina. Mais tarde, também considerou a hipótese de trabalhar na clínica. O que o fez escolher a investigação médica? HH: Estás certo, por uns tempos estava indeciso se deveria estudar biologia, medicina ou química. Um dos meus irmãos escolheu química mas no final, eu decidi tentar estudar medicina e biologia em simultâneo. Não foi a melhor opção porque a maior parte das minhas aulas de biologia eram incompatíveis com o meu treino médico. Como tal, desisti da biologia após 7 semestres. Atualmente, não me arrependo, porque na biologia dessa época não aprendíamos muito

6

MS: A sua hipótese que o cancro do colo do útero é causado pelo HPV foi considerada uma ideia pouco ortodoxa por parte dos pares. Foi difícil ultrapassar estes obstáculos? HH: Acho que vírus persistentes, requerem virologistas persistentes. Eu acreditava fortemente que o HPV era o agente causador, pelos resultados de vários estudos que fizemos. É verdade que alguns artigos reportavam que o herpes vírus simplex estava relacionado com o cancro cervical mas não, eu não estava nada convencido que essa história fosse verdade. Foi um trabalho muito difícil e demorado porque não dispúnhamos das técnicas que temos actualmente, mas ainda bem que fomos persistentes.


à Procura do NEM

MS: Estou particularmente fascinado pelo seu 1 para 100,000. E esta reação adversa é uma alergia trabalho e descobertas porque elas salvaram à proteína estrutural da vacina, que é facilmente diretamente milhares de vidas, e vão continuar a tratável. Não há nenhuma vacina sem risco e esta salvar. Acha que teve um grande impacto na Saúde é uma das que tem riscos muito baixos. Em alguns Mundial? casos, há doenças que ocorrem após a toma das HH: Não é razão para ficar orgulhoso, pois ainda vacinas mas não têm qualquer relação com a toma há tanto por fazer. Por exemplo, se vires quantas da vacina. mulheres ainda morrem cada ano por cancro do colo do útero, é extremamente MS: Acha que pode haver alguma desapontante. Portanto, temos relação entre infeções virais e “O problema é o entendimento outros tipos de cancro? de fazer mais. Isso é importante. Relaxar não é a forma como errado da população de que estes HH: Se olhares com atenção trabalho. problemas têm uma causa única.” para a epidemiologia de alguns cancros, há boas razões para MS: Há uma grande diferença suspeitar que algo infecioso pode entre o número estimado de novos estar por detrás. Essa é a nossa motivação para casos e de morte por cancro cervical entre países continuar a trabalhar intensivamente. Outra questão desenvolvidos e em desenvolvimento. Por exemplo, em é se o cancro da mama tem um componente viral. O 2008 quando recebeu o prémio Nobel, este cancro era problema é o entendimento errado da população de o segundo mais frequente em mulheres, com 529,800 que estes problemas têm uma causa única. Isso não novos casos estimados em países em desenvolvimento. acontece, em nenhum caso. De qualquer forma, os Qual é a importância de fazer chegar a vacina a estes vírus, como o HPV, podem ser na mesma o suspeito países? E a importância do rastreio? primário do desenvolvimento de cancro e caso HH: São os dois importantes. O rastreio é muito previnas essas infeções, não tens esse tipo de cancro. importante para mulheres já infetadas, pois se a Mas por si só, é claramente insuficiente, é preciso neoplasia for diagnosticada precocemente é possível que ocorram outros eventos adicionais. No geral, são tratar cirurgicamente através de conização, por precisos entre 10 a 60 anos desde estes eventos até ao exemplo. Mas, obviamente, a vacinação tem um efeito aparecimento destas neoplasias. mais abrangente, porque previne o aparecimento destas lesões e evita estas intervenções cirúrgicas, que MS: Algum conselho para os estudantes da FMUC? têm sempre algumas complicações. De certo modo, HH: Eu acho que se fizeres o teu treino médico temos de propagar estas informações. Enquanto tens de fazer uma decisão relativamente cedo: não tivermos um programa seguir o curso clínico, ou a de erradicação através da investigação ligada à clínica. vacinação mais global, “Há tanto que podemos fazer para Neste último caso, tenho claramente que precisamos muita experiência, sim. prevenir doenças, e não apenas Se fores um clínico do rastreio. esforçado, recomendo que cancros!” MS: Atualmente, trabalhes arduamente para estamos perante uma nova tentar melhorar as aplicações “moda”, particularmente nos Estados Unidos, em que os pais estão relutantes a vacinar os seus filhos. Qual é terapêuticas de que hoje dispomos. Por outro lado, a minha opinião é que há muito mais a fazer a nível a sua opinião acerca deste tema? HH: Esta é, na minha opinião, uma das vacinas da prevenção, e não só em termos de vacinação. Há mais seguras que temos, mesmo comparando tanto que podemos fazer diariamente para prevenir com as vacinas que damos a pequenos bebés. A doenças, e não apenas cancros! Isso requer muito frequência de reações adversas é aproximadamente mais atenção do público e particularmente dos clínicos Miguel Correia Silva

7


À Procura do Nem

Inmotion

V

iver sem saneamento básico, em “habitações” inacabadas, ter acesso limitado a água, sendo esta não canalizada e guardada em bidões, viver em bairros conflituosos, em que as ruas são de terra ou rios de lama e lixo quando chove, viver no seio de famílias destruturadas, ser filho da prostituição… não é uma questão de nacionalidade, não é uma questão de raça ou cor, não é uma questão de mentalidade, não é até mesmo uma questão de sorte, é uma questão de oportunidades! Quantos de nós são incapazes de agir, passando os dias sentados no sofá, em frente à televisão ou ao computador, protegidos da realidade dramática que nos rodeia? Todos os dias nos cruzamos com alguém que pode beneficiar da nossa ajuda, um idoso, um semabrigo, uma criança esfomeada, e quantas vezes lhes estendemos a mão e oferecemos ajuda, um pedaço de pão, um gole de água, um agasalho quente ou apenas a nossa companhia? Há projetos que nascem da criatividade. Outros da necessidade. É desta última, que nasceu o InMotion! Humildemente, sonhamos em contribuir para a mudança do paradigma social a que se assiste nestas populações. Propomo-nos voluntariamente, durante as férias de verão, a prestar ajuda humanitária e a trabalhar em ações de cooperação para o desenvolvimento, em benefício das populações mais vulneráveis. Propomo-nos a trabalhar lado a lado com instituições locais nossas parceiras e a colocar ao dispor das mesmas os nossos conhecimentos e vontade de ajudar.

Não nos atrevemos a afirmar que criaremos as oportunidades necessárias, mas atrevemo-nos a agir! Nós, estudantes universitários, futuros médicos, cidadãos atentos, acreditamos que a ação é que gera mudança e, assim, criamos também as nossas próprias oportunidades. Organizado pela primeira vez em 2013, pelo Departamento de Direitos Humanos e Paz do NEM/AAC, o InMotion tem vindo a crescer para se tornar um dos maiores projetos de Voluntariado Internacional organizado por estudantes e para os estudantes. Atualmente, conta já com a sua 3ª edição e, aquilo que começou por ser uma aventura em Cabo Verde, é hoje um projeto que se estende também a Moçambique, Camboja e Timor-Leste, dando a oportunidade aos estudantes da Faculdade de Medicina de realizar um período de voluntariado de um mês, integrados em diversos projetos de voluntariado locais. O InMotion é, para nós, uma aventura, uma jornada, uma aprendizagem constante. Temos apostado não só no apoio a mais países, mas também na formação e angariação de fundos e bens para as comunidades. Somos, acima de tudo, voluntários desejosos por fazer mais, porque acreditamos veemente que “o que fazemos para nós mesmos morre connosco, o que fazemos para os outros e para o mundo, permanece e é imortal” - Albert Pine

Juliana Magalhães e Liliana Jesus

8


Creativa-te

Estórias Clínicas N

em todas as Estórias são sobre heróis. Primeiro, porque onde há heróis há vilões e por vezes também há que escrever sobre vilões. Segundo, porque ainda mais vezes do que essas há simplesmente pessoas mais complexas do que essas duas gavetas permitem agrupar. No hospital, muitas vezes somos confrontados com situações extremas em que essa complexidade é mais fácil de notar.

Infelizmente, nem só de cultura se faz uma história clínica. E Augusto teve que falar de saúde: “tenho DPOC porque fumo, doença coronária porque como, hepática porque bebo”. O à vontade manteve-se enquanto o explicava. Não só os nomes das doenças e comportamentos que poderiam tê-las causado; pior, explicava os condicionalismos que essas doenças tinham colocado nos últimos anos da sua vida. Já lhe era difícil sair da cama, mas ainda chegava à máquina de escrever; os internamentos eram cada vez mais frequentes e duradouros, mas a imaginação também andava fértil; já nada fazia com a família (“eles que vivam as suas vidas”), mas tinha os livros como companhia.

“Augusto era um homem complexo.” Escritor de profissão. Ou melhor, escritor de sonho; professor de história de profissão. Que hoje em dia não é fácil ser-se escritor de profissão. Augusto era um homem culto, com quem dava gosto falar... que dava gosto ouvir falar. Falava de tudo com a vontade de quem percebe bem tudo aquilo de que fala, e para tudo tinha uma citação de um qualquer autor “que devíamos conhecer” a fundamentar a sua posição.

No fim de tudo, deixava algumas certezas: “assim

que me derem alta, volto ao meu cigarrinho, a acompanhar a refeição com a bebida alcoólica que tiver mais à mão”. “Todos vamos ter que morrer. Esta é a vida que escolhi. Sou feliz assim, sem arrependimentos.” Augusto não é um doente, mas muitos. Esta visão hedonista da nossa existência está presente em todas as enfermarias do hospital, sendo muitas vezes levada a um nível que já não achávamos possível. Não há heróis nem vilões, há pessoas a tratar. Augusto tinha 54 anos. Faleceu uma semana depois.

“Os homens dizem que a vida é curta, e eu vejo que eles se esforçam para a tornar assim.” Jean-Jacques Rosseau

Rui Duarte Armindo

9


Tema central

Gap Year

L

ançou-se o debate sobre o projeto Gap Year Portugal junto dos estudantes de medicina da nossa faculdade. Mas o isco parecia não ser tentador o suficiente para atrair ninguém do cardume dos grupos aliciados. Foi apenas através do contacto direto que se percebeu que o conceito não é nem desconhecido n e m indiferente aos estudantes, à nossa geração de futuros doutores/ cidadãos/humanos crescidos. Pelo contrário, ao que parece, a semente do Gap Year cresce já em muitos de nós, e aqueles que ainda não desenvolveram raízes nessa ambição, estão pelo menos, segundo os próprios, abertos a essa possibilidade. Decidimos, assim, entrevistar o Presidente da Associação Gap

Year Portugal, o Gonçalo Azevedo Silva, 22 anos, estudante de Economia na FEP e a Ana Lúcia Oliveira, 23 anos, aluna do primeiro ano de MIM e que se aventurou num Gap Year pela Europa e Moçambique, para nos esclarecerem um pouco mais acerca deste projeto.

Gonçalo Azevedo Silva

1

Quando e em que circunstâncias começou este orientando-os. Por exemplo, quem está a acabar projeto em Portugal? o Secundário pode passar por várias Faculdades, Começou com um convite da Fundação Lapa do experimentando vários cursos de interesse, de modo Lobo para fazer uma apresentação sobre um tema a tomar uma decisão mais consciente. Já a quem se ligado à educação. Decidi abordar o tema Gap encontra no Ensino Superior, fomenta-se a aquisição Year, uma prática muito comum em muitos países de experiências profissionais antes da entrada no europeus, e não só, e que se viria a tornar uma prática mercado de trabalho. Esclarecemos ainda todas as suas em Portugal, dizia eu, em cerca de 20 anos. Passado dúvidas, proporcionamos várias formações e criamos um mês, o Presidente da Fundação, o Dr. Carlos as pontes com empresas, faculdades, associações de Torres, ligou-me a propor a realização de voluntariado. um Gap Year, em conjunto com um amigo Qualquer pessoa, acima dos 18 “Não é perder um ano, e financiado por esta. E assim começou anos, pode fazer um Gap Year. é ganhar muitos anos de a minha história do Gap Year, com o Mas há momentos em que isto Tiago Marques. é mais comum: no término do desenvolvimento” A ideia da Associação Gap Year Ensino Secundário e do Ensino Portugal nasceu na Índia, durante uma Superior. reflexão sobre esta experiência e da minha vontade de divulgar o projeto perante os jovens portugueses. O que leva um jovem a fazer um Gap Year ? E como defines o papel dos pais neste processo? Em que consiste exatamente o projeto e quem pode Normalmente as razões são as mesmas: os jovens no fazê-lo? Ensino Secundário sentem-se imaturos perante o A associação tem como primeiro e principal objetivo Ensino Superior. Já quem acaba o Ensino Superior, fáa promoção do conceito Gap Year em Portugal. lo, não só pelo percurso demasiado académico, mas O segundo objetivo é ajudar todos os jovens que pela necessidade de ir mais além. decidem embarcar neste projeto, apoiando-os e

2

3

10


GAP YEAR

Tema central

4

Qual o investimento necessário e o que é realmente financiado pela Associação? É possível fazer um Gap Year bastante interessante com 5000 €, o valor que, em média, se gasta num ano no Ensino Superior. Hoje em dia, dependendo muito do que queremos fazer, conseguimos fazer um Gap Year barato. Dou o exemplo extremo de uma Gapper

não é alcançável, para o público, o que se poderá ganhar com um ano destes. O facto de sermos constantemente colocado à prova num Gap Year vai contribuir para a formação de alguém que será mais capaz de estar no mercado de trabalho. Não é perder um ano, é ganhar muitos anos de desenvolvimento. E, muito provavelmente, teremos mais e diferentes que fez um Gap Year de 5 meses pela Europa, uma oportunidades de emprego após a saída da faculdade, pois temos uma das regiões mais caras, com apenas experiência cultural 500 € . “A oportunidade de desfrutar, de viver que nos permite uma A associação não tem como prática do mundo é muito enriquecedora” diferente sensibilidade. recorrente financiar Gap Years. Este Além disso, a maioria ano, temos um concurso (até 15 de dos jovens está a acabar junho), resultante da parceria entre a o curso com 21 anos. E Associação Gap Year, a Fundação Lapa do Lobo e a depois vem a entrada no mercado de TAP e que irá financiar um jovem com o valor de trabalho, de onde sairemos com 65 anos. É com uma 5000 € ou 6500€ euros em participação conjunta, bem como as viagens de ida e volta oferecidas. Mas enorme pressa que se entra nas rotinas. Assim, o facto o objetivo deste não é o financiamento, mas sim a de termos a oportunidade de desfrutar, de viver do promoção do conceito em Portugal. É antes uma forma mundo é muito enriquecedor. de pedagogia: se um jovem consegue fazer o Gap com esse valor, qualquer jovem que tenha dinheiro para aceder ao Ensino Superior também o consegue.

5

Qual é o normal feedback de um Gapper? Sentem-se diferentes, mais capazes, ambiciosos e, acima de tudo, com horizontes mais alargados. Isto poderia ser tudo um conjunto de clichés mas a verdade é esta. Verifica-se em todos os participantes.

7

Que perspetivas tens sobre as vantagens de um Gap Year para a profissão médica? Dou o exemplo de um jovem que, após o primeiro ano em Medicina, decidiu parar e ir trabalhar para o MacDonalds durante um ano. A explicação foi de que, apesar de ser um ótimo aluno, tinha dificuldades no relacionamento com as pessoas e queria melhorar isso. Assim, além das vantagens globais, em

termos médicos realço o facto de se crescer no relacionamento com as pessoas mas também Face ao preconceito existente, por parte de alguns, que afirmam ser um desperdício de tempo e de ser uma excelente oportunidade de ganhar experiência. dinheiro, o que tens a contra-argumentar?

6

Eu percebo que digam isso pois, provavelmente,

11


Tema central

GAP YEAR

Ana Lúcia Oliveira

1

Quando fizeste o Gap Year e porque decidiste fazê- Contudo, penso que a maioria das pessoas não me lo nessa altura? apoiou. Ouvi muitas vezes: “depois vai ser difícil Fiz o meu Gap Year durante o ano letivo 2013- voltar a estudar ”; “vais perder um ano da tua vida 2014, após ter terminado a licenciatura em Ciências e vais começar a ficar para trás”. Lembro-me que, Biomédicas. em pleno GY, a minha consulta do viajante para a Antes de terminar a minha ida para Moçambique foi focada em licenciatura, lembro-me de “Quando tu mudas, o derrubar as minhas ideias. A médica “olhar” para o meu futuro e disse-me com todas as letras: “É uma mundo muda contigo” sentir que a minha vida já tremenda irresponsabilidade sujeitaresestava, de certo modo, traçada te a condições tão hostis, tudo por uma por aquilo que a sociedade ideia ilusória de crescimento pessoal”. considera correto e lógico: realizar um curso, encontrar emprego e constituir família. Não gostei dessa prolepse. Faltava o desafio, o fator surpresa, o Economicamente como conseguiste sustentar esse desconhecido e o improvável. ano? Os custos foram suportados, maioritariamente, pelos meus pais, mas também por mim. Para isso, Como reagiram as pessoas mais próximas de ti à tua trabalhei durante algum tempo num restaurante, principalmente no verão. Alem disso, sempre explorei decisão? Os meus pais apoiaram-me desde o início, mil e uma maneiras de poupar durante o ano e garanto principalmente devido a dois fatores: ter um irmão que é possível fazer um GY low cost. Sugiro alguns mais velho apaixonado por viagens, e o facto de eu exemplos de como se pode poupar: Couchsurfing, abordar esta ideia com seriedade, responsabilidade Workaway e Crewseekers. Existem mais mil e uma e convicção. Disse-lhes o que queria fazer, como e maneiras de viajar sem custos de milionário. Por isso, em que datas. Integrei-os nos meus planos e fi-los se o dinheiro é o problema, nada que umas horas sentir parte desta fase da minha vida. Afinal, é muito perdidas no Google e uma planificação adequada não resolvam. importante ter o apoio de quem mais gostamos.

3

2

12


GAP YEAR

Tema central

4

O que retiraste de mais importante desta experiência O tradicional é nas transições da vida escolar e/ou e em que medida é que isso mudou a tua vida? profissional, pois não se deixa nada pendente, e o que Consegui reduzir-me a mim mesma. Deixei a minha se tem que iniciar, pode esperar um tempo. A melhor área de conforto para entrar onde a magia acontece. altura é aquela em que precisamos de rever, afinal, o E garanto que acontece mesmo. Aprendi a simplificar porquê de vivermos neste mundo. e a desfrutar o que há de melhor. Aprendi a não pensar muito e a dar valor ao que tenho. Percebi que Achas que Portugal está ao mesmo nível do resto da os sentimentos são universais, mas que a forma de Europa no que toca à adesão a este projeto? pensar é individual, tornando-me numa pessoa mais Sem dúvida que não. A Associação Gap Year Portugal, tolerante. Percebi que queria dar uma volta de 180º por exemplo, está a caminho dos 3 anos de existência. graus na minha vida e tentar entrar em Medicina. Na Europa e nos Estado Unidos da América Basicamente, percebi que existe esta prática remonta aos anos 70. A ideia uma panóplia enorme de coisas “Se não tivesse feito começou, agora, a suscitar curiosidade, muito mais importantes do que um Gap Year, hoje não mas ainda falta enraizar a ideia de que é os meus problemas. uma mais-valia e não um ano perdido ou estaria em Medicina” Não é o que vais mudar nos dinheiro mal gasto. Lembro-me de falar outros locais que conta, é com uma mãe irlandesa sobre o Gap Year o que mudas em ti. E quando tu do filho e as preocupações dela eram saber quais mudas, o mundo muda contigo. seriam as melhores aventuras para ele.

6

5

Recomendarias a qualquer pessoa fazer um gap year? Se sim, qual a melhor altura da vida para fazê-

lo? Eu só recomendo convictamente porque, se pudesse, obrigaria. Dizer que vale a pena não é cliché. Viajar está na moda? Não concordo. Considero apenas que descobrimos o Santo Graal da leveza, da liberdade e da felicidade. A melhor altura? Qualquer. Nunca vamos encontrar a altura ideal, aquela que reúne a conjuntura perfeita.

7

Estás agora no 1º ano da faculdade de medicina. Achas que essa escolha foi influenciada pelo ano que passaste fora? Sem dúvida. Se não tivesse feito um Gap Year, hoje não estaria em Medicina. É uma loucura estudar mais 6 anos? É, mas depois do ano que vivi, as minhas baterias estão recarregadas e penso ter outra maturidade e consciência para este passo pessoal e profissional. Agora, imagino-me uma futura médica com um part-time vitalício de viajante

Margarida Carmo e Bárbara Mota

13


Medicina lá fora

Especialidades no estrangeiro “Long Live the Queen”

D

esde sempre que o Reino Unido se apresenta como um destino apetecível para todos os Estudantes de Medicina. Apesar do clima um pouco desagradável, a atmosfera cultural e de progresso científico que emana do Reino de Sua Majestade Queen Elizabeth II constitui um engodo ao qual é difícil resistir. Contudo, este Santo Graal da Medicina Mundial só é alcançável após uma longa e árdua travessia. O internato de especialidade no Reino Unido constitui um processo longo, com inúmeras etapas e extremamente competitivo em algumas especialidades. Como a relação médico-doente é algo imprescindível, a primeira certificação exigida é a capacidade de comunicar. Posto isto, é necessária a realização de um exame para obtenção do certificado internacional de Inglês. O exame mais realizado é o IELTS (International English Language Testing System), o qual é constituído por quatro componentes – Listening, Reading, Writing and Speaking. Para obtenção de reconhecimento é necessária uma pontuação igual ou superior a 75% nas quatro componentes. De seguida, o proponente deve efetuar uma candidatura para o General Medical Council (GMC). Só após esta candidatura ser aceite e o proponente reconhecido como membro do GMC será emitido o visto de trabalho no Reino Unido. Existem duas possibilidades de registo no GMC: -Provisional Registration: para candidatos sem qualquer experiência profissional; -Full Registration: para candidatos com um mínimo de doze meses de experiência em contexto hospitalar, sendo que esta confere autonomia.

Na mesma altura em que é efetuada a candidatura ao GMC, é necessário realizar a candidatura ao Foundation Programme (FP). O FP constitui um programa de estágio laboral com a duração de 2 anos, o qual visa fazer a transição entre a formação universitária e a prática clínica. Basicamente, é a versão inglesa do Ano Comum. Contudo, para os estudantes/médicos portugueses que pretendem candidatar-se ao FP, é necessário serem reconhecidos como elegíveis pelo Foundation Programme Office’s Eligibility Office (UKFPO). Para isto, é necessário submeter o certificado de conclusão do Mestrado Integrado em Medicina e a inscrição na Ordem dos Médicos. Reconhecida a elegibilidade para o FP, o candidato deverá efetuar a candidatura propriamente dita. Com base nos dados fornecidos pelos candidatos é atribuída uma pontuação entre 0 -100, a qual servirá para seriação dos mesmos. A pontuação é atribuída de acordo com os seguinte critérios: 50 pontos – Performance escolar (34 – 43 pontos para as classificações durante o MIM e 7 para publicações científicas e graus académicos obtidos); 50 pontos – resultantes da classificação obtida no Situational Judgement Test . A pontuação obtida determinará o ingresso nas diferentes instituições responsáveis por ministrar o Foundation Programme. Por fim, concluído o Foundation Programme, o estudante encontra-se apto para se candidatar a uma especialidade. Esta candidatura é feita de acordo com as vagas disponibilizadas por cada Colégio de Especialidade

Diogo Silva

14


Medicina lá fora

Erasmus A

cho que somos uma geração induzida a se sentir perpetuamente insatisfeita com o chamado sonho americano. Aos 20 e poucos anos estamos entre uma juventude que prolongamos a custo e uma vida adulta que teima em chegar. Pelo caminho fazemos de tudo por um momento que nos possa saber a verdadeiro, tão genuíno que necessariamente seja só nosso. É isso que andamos à procura, no fundo vivemos para colecionar momentos, daqueles que ao olhar para trás nos obrigam a esboçar um pequeno sorriso de orgulho. Erasmus em modo resumido, é uma miríade deles. Justificada a escolha, minha e de tantos outros, em ir de Erasmus, espero! Já justificar Itália, disse-me a Luísa Urbano que está em Perugia, que “Erasmus em Itália é todos os dias te balançares entre o exaspero e o encanto da Dolce Vita italiana”. Acho que fica tudo dito, e agora com conhecimento de causa fica também a certeza que com o tempo o último acaba sempre a superar o primeiro. Entretanto não posso negar que me apaixonei por esta única cidade chamada Génova, mas creio, por ela como poderia ter sido qualquer outra. Qualquer paixão é fortuita, e serve-me o propósito para aconselhar a que nunca ninguém deixe de ir de Erasmus pelo país ou pela cidade. Itália, à semelhança de Coimbra, tem outro encanto, sim, mas Erasmus é uma experiência que não se deixa definir por onde é, mas com quem é, e acreditem, que onde quer que vão, hão de encontrar sempre pessoas extraordinárias com quem partilhar aqueles que vão ser os melhores meses das vossas vidas.

o que se ganha em Erasmus não se pode medir em créditos ECTS. Quando regressares vais perceber que a tua zona de conforto perdeu pontos para a atração do desconhecido, mas sobretudo que essa insaciedade de novos caminhos te tornou muito mas muito melhor pessoa. Sem te teres apercebido, vais regressar mais adulto, vais ver que ganhaste muito em humildade e empatia, e vais descobrir que te tornaste mais tolerante com quem te rodeia. Tudo coisas que te farão mais feliz, e sobretudo, já o disse, melhor pessoa. E se o que faz de nós melhores pessoas, não fizer de nós melhores médicos, estaremos a formar os médicos errados. “Go on Erasmus, then die”, sei que parece uma premissa insustentável, admito, mas fica a dica que vive à altura das expectativas. Por isso vão, vão e aproveitem

“Erasmus em Itália é todos os dias te balançares entre o exaspero e o encanto da Dolce Vita italiana”

É inevitavelmente certo que nunca poderei dizer que serás melhor médico por uma formação no estrangeiro que perde, admitidamente, muitas horas para outras facetas mais aliciantes desta jornada, mas

José Alarcão

15


Vive Coimbra!

Serenata Monumental

U

m murmúrio invade a cidade. O Mondego recorda os que por ele passaram ao som das melodias que, como manda a tradição, ano após ano se repetem no soberbo panorama da Sé Velha. A noite, amena por natureza e impregnada com vapores de uma fatal saudade, promete uma contemplação de tom nostálgico e sagrado. Do Cabido ao Quebra-Costas o panorama é idêntico: um mar de estudantes ocupa o Largo, revestidos de um austero negro rasgado com encantadores suspiros de branco, de teor clássico e académico. A caótica multidão comprime-se e condensa-se. O alarido é constante, agravado pela impaciência aliada à expectativa. Pela meia-noite, a serenata inicia-se. Quem a escuta aprecia as notas suspensas na atmosfera que extasiam e se elevam na noite, desprendendo-se da real fugacidade, alcançando uma duradoura sensação de plenitude – como se por momentos todos os

tempos de maior felicidade fossem revividos intensamente, culminando num amargo travo de solidão e saudade.

O sabor dessas memórias dança no céu, denunciado por um ligeiro tom melancólico e plangente. As vozes que se conjugam com as notas tiradas das guitarras revelam uma angústia perdidamente apaixonada pela vida. Cantam com as lágrimas nos olhos, mas de vozes firmes e resolutas, com a grande audiência mergulhada e absorta na música. Cantam a alma e o coração. Emocionam-se os ouvintes, quer os mais novos que se estreiam e procuram um futuro imensamente feliz, quer os mais velhos que relembram a consagração 16

amorosa que lhes invade o espírito, lacrimejando ao som de baladas belíssimas e infalíveis, que acordam um âmago sentido. Paira uma triunfante ode aos grandes feitos e às maiores alegrias, um requiem pelos tempos dourados, um solene momento que prende os olhos na imensidão da fresca tela nocturna onde se tinge uma cascata de sensações despertas pela música, tão incólume e sublime, tão pura e plena, tão preciosa e memorável. Assim se passa a mais célebre noite da cidade que prende e desfere fatais golpes de saudade, tão portuguesa palavra e nacional sentimento, que faz sofrer antes da infame partida, capaz das maiores tragédias e dos mais supremos amores, Coimbra de poetas, estudantes e doutores; histórias de jantares e convívios, venturas e fortunas, vidas boémias e tentações. A última nota escapa morosamente do pórtico. Reina um silêncio momentâneo. Quebram-se almas, estilhaçam-se encantos, observam-se olhares presos no imenso céu que outrora prendera a harmonia musical e que se mostra estranhamente vazio. Desaparece o feitiço, o suspiro esvai-se em dor e saudade, combustado pela esperança e memória de tempos imensamente felizes que o coração erra em considerar alcançáveis, despertados pela magnífica serenata. Ao fundo, as águas do Mondego lamentandose baixinho, reflectem uma cidade imersa numa nostálgica constelação de almas. Por momentos, no auge sonoro da serenata, celebra o Homem a efémera existência, esquecendo que desde o nascimento, da morte já é pertença Este autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico. Tiago M Lorga


Vive Coimbra!

A Visitar! Choupal

Museu Nacional Machado de Castro

C P

ara conviver, fazer exercício físico ou simplesmente refletir, a Mata Nacional do Choupal já existe desde os anos 70. Construída com o intuito de prevenir a acumulação de detritos no fundo do Rio Mondego, que condicionava a alteração da sua topografia, este parque é hoje em dia um local de passagem quase obrigatória a quem visita a Cidade dos Estudantes. No entanto, muitos de nós, estudantes, não conhecemos o Choupal, apesar de este ser uma presença assídua nos poemas do Fado de Coimbra. Com uma área de 79 hectares, a mata do Choupal acompanha o rio Mondego numa extensão de 2 km, sendo estes para descobrir e disfrutar da beleza natural providenciada por choupos, plátanos, loureiros, entre outras espécies de plantas. E não há desculpas para não descobrir este pedaço do nosso património, dado que há diversos autocarros que passam por lá (5, 14, 25, 28, 29, 30, 35, 36, 39). Fica a dica! Margarida Duarte

lassificado como Monumento Nacional, o Museu Nacional Machado de Castro, cujo nome é uma homenagem da cidade ao mais notável representante da escultura portuguesa do séc. XVIII, sobrevive desde 1910 até aos nossos dias em pleno coração da Alta de Coimbra. Convidamo-vos a (re)descobrir a história e a percorrer um espaço arqueológico e arquitetónico excecionalmente distinto, que cria o ambiente ideal para contemplar uma das mais completas coleções de arte em Portugal. Poderás iniciar a visita pelo criptopórtico (séc. I d.c.) – um monumental conjunto de galerias que constituem testemunhos arqueológicos das origens romanas de Coimbra e sobre a qual a cidade foi fundada. Os restantes pisos desafiam a deixar-monos surpreender pela maior coletânea de escultura do país, da qual de destaca a “Última Ceia” (séc. XVI) de Hodart Vyryo, uma obra em terracotta e executada em tamanho real, considerada uma obra prima da escultura mundial. De entre as coleções permanentes destacam-se ainda obras de ouriversaria e joalharia, mobiliário, cerâmica, pintura, e ainda de têxteis. Não fiques indiferente à oportunidade de mergulhar nos reflexos da história da arte e cultura portuguesas, ousando percorrer os recantos deliciosos deste magnífico espaço museológico. Usufrui de 50% de desconto com cartão de estudante ou da entrada gratuita no 1.º Domingo de cada mês. Macte animo! Hugo Gomes

17


Fora da Medicina

Entrevista Diogo Carvalho fora da Medicina

T

em 27 anos e é o melhor na história da natação portuguesa. Diogo Carvalho, estudante da FMUC e atleta do Clube dos Galitos de Aveiro fala-nos da sua carreira na alta competição e da forma como a concilia com os estudos.

F

oi no Complexo Olímpico de Piscinas, em Coimbra, que durante o Campeonato Nacional de Juvenis, Juniores, Seniores e Absolutos se estabeleceram os primeiros mínimos A para os Jogos Olímpicos de 2016 no panorama da natação. 4 de abril de 2015 foi o dia em que Diogo Carvalho atingiu mais uma marca notável (2,00,00 aos 200m estilos) que lhe garantiu a presença em mais umas olimpíadas.

dedicação, sacrifício, com prejuízo de um percurso académico e consequente entrada no mercado de trabalho. Isto, muitas vezes, torna-se desmotivador, sobretudo quando os resultados não aparecem de imediato e toda a estrutura extradesportiva se questiona e acaba por levar a um abandono precoce do atleta. Ainda falta um conjunto de medidas que permitam conciliar um trabalho desportivo consistente e contínuo sem comprometer gravemente RX: Como é que tudo começou? Como é que a natação a carreira académica. entrou na tua vida? DC: Tudo começou quando tinha 3 anos de idade e RX: És atualmente detentor de 9 recordes nacionais. a minha educadora levou as crianças para a piscina... Lembras-te do primeiro que bateste? nunca mais larguei a natação. DC: Sim. É algo que me vai acompanhar para o resto RX: Em comunicado recente, o COP (Comité Olímpico da vida. Foi em 2002 nos 200 metros livres, numa de Portugal) afirma que “os resultados obtidos em piscina que hoje já não tem as mínimas condições grandes competições são fortuitos e dificilmente para se realizarem competições oficiais, mas que na repetíveis” desdramatizando as questões financeiras e altura, para mim, foi a melhor piscina do mundo. a carência de infraestruturas. Concordas com isso? Na tua opinião, o que justifica este “baixo rendimento”, RX: Em 2013, nos Campeonatos da Europa de piscina particularmente no mundo da natação? curta, em Herning, chegaste a um brilhante 3º lugar e DC: Para que haja um alto rendimento não são só acabaste com um jejum de medalhas de Portugal que necessárias infraestruturas. No mundo da natação durava há já 14 anos. Como descreves o momento em os bons resultados a nível internacional só poderão que subiste a um pódio europeu e elevaste a bandeira aparecer ao fim de alguns anos de muito trabalho, do teu país? DC: Foi o realizar de um dos objetivos que nos propusemos desde que a natação tomou o principal foco na minha vida. Representar Portugal, Aveiro e a Universidade de Coimbra é sempre um grande motivo de orgulho e honra para mim, independentemente do resultado, mas quando se atinge um lugar de pódio torna tudo mais memorável.

18


Fora da Medicina

RX: Durante 6 meses, treinaste nos EUA a cargo de portuguesa nesta edição? Gregg Troy, treinador de uma grande estrela da natação DC: O Alexis é um grande amigo meu mesmo fora mundial que é o Ryan Lochte. O que mais te marcou do mundo da natação. Penso que a natação está a nessa experiência? Quais consideras ser as grandes viver um momento que poderá ficar para a história diferenças entre a natação portuguesa e a americana? da modalidade do país. Esperemos que consigamos DC: Poder passar o dia a dia, treinar e competir ambos atingir a meia-final, o que seria histórico. diariamente com grandes nomes do desporto RX: Como é que se concilia uma carreira de alta mundial. A grande diferença entre eles e nós é a competição com um curso de medicina? profissionalização (dos atletas e treinadores) e tudo DC: Na verdade não se concilia, uma vez que a o que envolve o desporto. A Faculdade molda-se às natação é um desporto que requer muitas horas dentro necessidades dos atletas e da sua carreira desportiva, para não falar do orçamento incalculável que têm para de água, no ginásio, fora do país e, consequentemente, suportar o desporto académico, o que em Portugal é fora da faculdade. O que eu tento, tendo o apoio dos meus é fazer duas ou três disciplinas para não perder uma realidade a anos-luz. RX: Estás a caminho das tuas terceiras olimpíadas. o contacto com os livros e as aulas. Mas tenho a Em Pequim, foram 8 os centésimos a afastarem-te das certeza que, em Portugal, conciliar os estudos com meias-finais e em Londres apenas 12. Qual é a sensação uma carreira de alto rendimento ao mais alto nível é de falhar uma meia-final olímpica por tão pouco? Estes praticamente impossível. dois infortúnios deixam-te com ainda mais vontade de RX: Sentes o apoio e compreensão necessários por o conseguir no Rio? parte da faculdade para facilitar essa conciliação? DC: Sinto que estou mais concentrado e focado no DC: Na verdade, penso que ainda não há medidas que tenho para fazer. Para mim, na altura, achava-me nem um apoio enraizado no ensino, mas espero que o atleta com mais “azar”, mas na verdade, hoje vendo no futuro tudo isto seja mudado e tenhamos as coisas como elas são, sinto-me as condições que os nossos adversários lá abençoado por ter muitas outras “A minha motivação fora têm. coisas para as quais trabalho tanto. raramente fica afetada. RX: Pretendes, no futuro, continuar a A minha motivação raramente Posso ficar triste, mas não aliar estas duas paixões, a medicina e o fica abalada, posso ficar triste, desmotivado.” desporto, num contexto profissional? mas não desmotivado, por isso, os pequenos infortúnios fazem me DC: Sim. Esse é o meu o sonho a longo querer sempre chegar mais longe, e a próxima meta prazo. O desporto e a medicina estarão sempre a longo prazo é a meia final no Rio. interligados, e o meu objetivo será potencializar ao máximo os atletas. RX: Ao realizares o mínimo A aos 200m estilos, entraste para a 7ª RX: “Fora da Medicina” e da natação, tens tempo para posição do Top10 Mundial. Logo a vida normal de um jovem de 27 anos? de seguida neste top 10, surge DC: Quero acreditar que sim, que não estou a perder outro português, Alexis um segundo da minha vida. Mas tudo se resume às Santos. Pela primeira vez, escolhas e opções de cada um. Se vou à queima das Portugal tem dois atletas fitas? Não vou. Vou aproveitar esse tempo que não com mínimos A para a tenho aulas para fazer um estágio fora do país, a mesma prova em treinar. Mas os momentos em que não estou a treinar, Jogos Olímpicos. dormir, ou estudar tento sempre aproveitá-los para É um sinal de passar algum tempo com a minha família e com os evolução? Até onde meus amigos. Boa sorte, Diogo! pode ir a natação

Rita Xavier

19


Creativa-te

Nós Médicos

Medicina Made Easy

O que faz de nós médicos?

Colonoscopia – A História Por De Trás

H

á uns dias atrás, um Professor, em contexto de aula, informou-nos de que nós, pré-médicos, somos pessoas passivas. Depois de 21 anos convencida de que sou uma pessoa muito ativa, não gostei nada de ouvir aquilo! Só depois de uma detalhada explicação percebi que me encaixo naquele molde de pessoa passiva, bem como todos nós: temos tendência para pôr as

prioridades, os interesses e as opiniões dos outros à frente das nossas. E isso que aparentemente pode ser um grande defeito, é, a meu ver, uma grande qualidade.

Foi isto que nos levou a querer passar mais de dois terços da nossa vida a querer ajudar os outros, a querer resolver problemas que não são nossos, a querer melhorar um sofrimento que nada nos teria que afectar. Todos nós dentro de poucos anos vamos ter que, não só saber, como também gostar de colocar completos desconhecidos no topo das nossas prioridades. Só assim, a D. Antónia e o Sr. Manuel vão poder encontrar em nós a esperança e o conforto de que necessitam. Por quinze minutos, uma hora, o tempo necessário, a nossa vida será a vida do nosso doente, nada a mais, nada a menos Maria José Temido

E

m 1968, o cineasta visionário Stanley Kubrick tornou célebre o conceito do Monolito: um misterioso bloco negro que conferira a uma população de chimpanzés o dom da inteligência e consciência do próprio, originando a Humanidade e inspirando a sua interminável demanda da descoberta do desconhecido, incluindo o próprio Homem. Num sentido bastante literal, como quem diz, os confins do intestino grosso. Foi Philip Bozzini que tentou pela primeira vez, em 1805, observar um corpo humano com vida diretamente através de um objeto tubular. Em 1868, o Dr. Adolph Kussmaul da Alemanha tornou-se o pioneiro da endoscopia gástrica, com o auxílio de um engolidor de espadas capaz de enfiar pela guela abaixo um tubo metálico. O primeiro gastroscópio flexível surgiria em 1932 pela mão do Dr. Rudolph Schindler. Em 1963, Hiromi Shinya sairia do seu país natal, o Japão, para completar a sua especialidade cirúrgica em Nova Iorque. Começando em 1967, Shinya inteirouse da prática colonoscópica, experimentando com um esofagoscópio, mas aplicando-o segundo uma perspetiva diferente, e logrou alcançar o ângulo esplénico do cólon em cerca de 50% das sessões. Shinya encabeçou também a invenção da pinça (“snare”) de polipectomia eletrocirúrgica. Mesmo antes de confirmada a conexão entre pólipos cólicos e carcinoma colo-retal, Shinya tinha concluído que a remoção desses pólipos podia reduzir o risco de surgimento do cancro. Em setembro de 1969, Shinya realizaria a primeira polipectomia colonoscópica, tendo até à data realizado aproximadamente 370 mil colonoscopias. Como já devem saber, o Carcinoma Colorrectal é o tumor maligno mais frequente entre os países da União Europeia. É a principal causa de mortalidade de causa oncológica em Portugal. A colonoscopia realizada atempadamente pode prevenir essa situação. Cuidem de vocês, e cuidem dos vossos cólons. Não deixe que lá hibernem ursinhos-goma Gonçalo Torres

20


O que aí vem...

N

Corte a Eito

ota inicial: Este texto não é mais que uma compilação de pensamentos e ideias soltas que, aos 23 anos, vão fervilhando na minha cabeça, no momento em que me preparo para finalizar os estudos e embarcar no mundo do trabalho. Perdoem-me, desde já, qualquer falta de coerência intelectual ou literária.

O

curso de Medicina em Coimbra (falarei da realidade que conheço melhor) está longe da perfeição, algo que salta à vista de todos os estudantes desde o momento em que iniciam esta longa aventura. Poderia aqui discorrer sobre uma série de diferentes problemas do curso, da faculdade, etc.. No entanto, esses, já todo o estudante conhece (e bem) e nada iria trazer que não uma repetição dos queixumes do costume.

Assim, resolvi antes reflectir sobre um outro aspecto que, aos olhos das experiências que vou tendo (sobretudo no estrangeiro), cada vez mais me preocupa e intriga: a crescente homogeneização dos estudantes de Medicina e, futuramente, dos médicos do nosso país. Começando pelo início. Tal como aconteceu comigo, uma boa maioria de vós vive desde os 15 anos “focado” para entrar neste curso. Chegados ao 9º ano, há que escolher a vida que queremos ter daí para a frente (ok, estou a exagerar um pouco, mas tem o seu “quê” de verdade). Não nos é dada qualquer margem para errar e os que não conseguem à primeira submetem-se a sucessivas melhorias e repetições. Ninguém pára para pensar. “Será que é mesmo isto que quero fazer?”. A ideia de um rendimento fixo, emprego estável, aliada a um pressuposto “elevado” estatuto social (saído dos inícios do século XX), continua, infelizmente, a ter um grande peso na decisão de muitos de nós.

Para não falar da eterna questão das notas: será um aluno de 18 melhor estudante de medicina que um de 16? Será ele, no futuro, um melhor médico? Excluindo o conhecimento científico, nada

21

mais é posto à prova. Qualidades como capacidade de decisão e comunicação, empatia e entrega, tão importantes na nossa profissão, são “chutadas para canto”. Resultado: saímos todos do ensino secundário com um background comum. Somos (praticamente) todos jovens imaturos, na casa dos 18 anos, que tudo o que provou até então foi a sua capacidade de estudo. Não desvirtuando a mesma, não considero um melhor médico aquele que sabe na ponta da língua todos os mais recentes protocolos terapêuticos mas que não sabe comunicar com o doente (à volta do qual a Medicina se centra, infelizmente, cada vez menos). Esta clara falta de diversidade saltou-me à vista quando, há poucas semanas, falava com uma colega americana vinda de Harvard. Se por um lado tenho grandes reservas para com o sistema de ensino americano, devo reconhecer-lhe algumas qualidades. Tomando a Medicina como exemplo, os estudantes têm fazer uma licenciatura primeiro, não necessariamente ligada à saúde ou ciências, antes de se poderem candidatar. Isto faz com que estes venham das mais diversas áreas e sejam mais maduros quando optam por seguir este caminho. Além de permitir uma escolha mais consciente, permite que os estudantes construam o seu percurso individual e, com isso, possam oferecer diferentes ideias e perspectivas à própria Medicina.

O problema é que esta homogeneidade não desvanece durante o nosso curso. Pelo contrário, é fomentada, incentivada. Estudamos todos pelas mesmas sebentas, reutilizadas anos a fio, frequentamos todos as mesmas cadeiras, fazemos todos os mesmos exames (literalmente).


O que aí vem!

Temos horários feitos à medida dos interesses dos professores, relegando para o tempo livre (leiase, aquele “buraco” entre as 9h e as 14h) qualquer actividade extra-curricular. Perdemos mais tempo a procurar estacionamento, procurar as salas de aula, procurar os assistentes, (procurar espaço dentro da sala ou da enfermaria também) do que propriamente a aprender. Contactamos com, praticamente, uma única realidade hospitalar – CHUC, ou apenas HUC –, como se essa realidade fosse transponível para todos os hospitais do nosso país. Nem no último ano, momento decisivo para nosso futuro, nos é permitido explorar melhor uma área pela qual nos interessemos. Não há - e não haverá para breve - espaço para qualquer diversificação, quer pessoal quer curricular, ao longo dos 6 anos. E poderia ficar por aqui, mas não é o que acontece. Na verdade, para quê mudar alguma coisa quando, no momento de escolher, o trabalho individual desenvolvido ao longo deste percurso, de pouco ou nada serve? Uma vez mais, chegados ao fim, só uma coisa interessa: a nota (onde é que já vi este filme?). Neste momento, avoluma-se a esperança de “ficar nos noventas”, nota essa que permitirá escolher aquela especialidade de que tanto gostamos. De nada valem os projectos de investigação que desenvolvemos, os estágios extra-curriculares que fizemos, muito menos o nosso gosto, a nossa motivação, o nosso interesse, a nossa paixão. “Boa merda, um 67... Bem, lá terei de repetir para o ano que vem.”

Continuará a fazer sentido manter este método de selecção, negligenciando a real capacidade de trabalho individual (e não de estudo obsessivo) de cada um? Como se não bastasse, a nova legislação irá em breve introduzir a nota de curso no método de acesso à especialidade (não desvirtuando, no entanto, uma tão necessária renovação da PNS). Brilhante forma de incentivar ainda mais à padronização dos nossos futuros médicos... Ir de Erasmus, essa fantástica oportunidade que os nossos estudantes têm de contactar com outras realidades médicas e culturais por essa Europa? Envolver-me no associativismo,

essa “entidade” que explora a minha capacidade de tomar decisões e trabalhar em grupo em prol de um bem maior? Perder semanalmente horas do meu tempo para desenvolver um projecto de investigação? Integrar um grupo de fado? Praticar desporto de alta competição? “Se calhar é melhor não, senão me sobra tempo para fazer os portfólios, relatórios, histórias clínicas, etc. (tão úteis que são para a nossa formação como médicos) e ainda fico para trás nesta corrida.” E isto tem um grande impacto no nosso futuro! Esta uniformização da massa médica, aliada a cada vez mais precárias condições de trabalho, está a transformar-nos em simples mão-de-obra da grande fábrica da saúde em Portugal.

Deixámos de ter voz crítica na política, nas artes e na sociedade. As nossas referências deixaram de ser Miguéis Torgas e Lobos Antunes, deixando no seu lugar as mortes nas urgências e a “insustentabilidade do SNS”. Será mesmo este o caminho a seguir? Continuamos ligados a costumes e ritos ancestrais, com receio de mudar sistemas que, apesar de imperfeitos, são a única realidade que conhecemos. Há que ver na mudança uma oportunidade, não um obstáculo. Porque é certamente mais fácil para nós, estudantes, saber que contamos com 6 anos préformatados, e que, no fim, teremos a PNS à nossa espera (para a qual nos resta estudar mais ou menos, consoante queiramos Dermatologia ou MGF). É a vitória da segurança sobre a insegurança, do que é certo - ainda que mau – sobre o desconhecido. Há que pensar diferente! Há que valorizar o trabalho e dedicação em detrimento do sistema. Temos de querer ser melhores estudantes, mais críticos, mais interventivos, mais participativos, pois só assim poderemos ser melhores profissionais.

E este esforço terá de partir de nós. A união dos nossos estudantes não pode resumir-se às noites e aos convívios. Se tivermos de ser veículos da nossa própria instrução e educação, pois que assim seja! Mas ao menos moldamos o nosso próprio futuro, em vez de deixarmos que o façam por nós

João Martins

22


Coffee Break

Secção Cultural

Dicas de leitura

Cartoon

I

mortalizadas em Tustkagee nos anos 50, as HeLa foram as primeiras células humanas a sobreviver in vitro. Largamente utilizadas em investigação científica, permitiram a escrita de importantíssimos capítulos na História da Medicina – um dos mais notáveis terá sido, sem dúvida, o desenvolvimento da vacina contra a Poliomielite, destacando-se também a clonagem, mapeamento genético e a fertilização in vitro. Henrietta Lacks foi a dadora destas células quando, de forma não consentida, foi biopsada a um carcinoma do colo uterino na “ala de cor” do John Hopkins Hospital. Nunca foi informada da investigação decorrente em laboratório, nem tão pouco dos fascinantes e inesperados resultados alcançados. Os próprios familiares só tomaram conhecimento da ampla utilização das HeLa décadas mais tarde, nunca tendo beneficiado com a multimilionária comercialização das mesmas. Neste livro aclamado pela crítica, Rebecca Skloot levanta questões sobre ciência, bioética, discriminação racial e Direitos Humanos, ao mesmo tempo que dá a conhecer a magnífica e imortal vida da mulher que, sem saber, revolucionou a Medicina

E

se se adivinham tempos em que a Biblioteca se torna o teu lugar cativo, nada como perspetivá-la de um modo diferente, original e com um toque humorístico. É assim que o escritor sérvio Zoran Živkovic constrói seis breves histórias, reunidas num livro galardoado com o prestigiado World Fantasy Award em 2003 e que promete surpreender. Desde uma biblioteca virtual, onde um escritor descobre livros seus que ainda não escreveu, às condenações literárias em pleno Inferno, esta é uma leitura leve, ideal para quando o tempo escasseia, mas que certamente transformará o teu domínio de bibliologia – e, quem sabe, as tuas próximas sessões de estudo!

Ana Mafalda Gonçalves

Vencedores do Concurso “Entre Livros e Cerveja”

Carolina Pimenta

Ana Rita Almeida

Carolina Pimenta

23

Alexandra Cardoso


Tens sugestões de temas para a próxima edição? A escrita é uma paixão? Gostarias de pertencer a esta grande equipa? Contacta a tua Revista: anemia@nemaac.net Esperamos por ti!


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Anemia Maio by NEM/AAC - Issuu