59ª Edição - abril 2021
(Re)Nascer EDUCAÇÃO MÉDICA
Entrevistas:
Violência Doméstica na 1ª Pessoa
Nascer no Corpo Errado Transplantação Facial Violência Obstétrica Emergência Pré-Hospitalar E muito mais
Editorial No presente número, o leitor deparar-se-á com o lado mais perverso do Homem. Escolhemos demasiadas vezes ignorá-lo, mas porque o fazemos, sendo certo que habita este planeta há tanto ou mais tempo que nós? Acreditando que um Médico só será realmente digno de tal cargo, caso compreenda, estude e faça por travar aquilo que de mais podre existe na sua espécie, a aNEMia decidiu traze-lo para a luz. A nossa 59ª edição defende nada mais do que o direito de cada um viver o Eu na sua plenitude. Às pessoas que tenho a honra de chamar meus colaboradores: o meu obrigada mais sentido. São a força motriz do Departamento da Revista ANEMIA e provam que o futuro da Saúde está em boas mãos. A Coordenadora da aNEMia, Rita Gonçalves Rodrigues, 5º Ano.
Ficha técnica
59ª edição - abril 2021
Propriedade do Núcleo de Estudantes de Medicina da AAC Polo das Ciências da Saúde da Universidade de Coimbra Subunidade 1 da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra Azinhaga de Santa Comba, Celas, 3000-548 Coimbra geral@nemaac.net www.nemaac.net anemia@nemaac.net revistanemia.blogspot.com
Departamento da aNEMia Direção: Rita Gonçalves Rodrigues Redação: Ana C. Pastilha, Ana Sousa, Andreia Nossa, Carla Maravilha, Francisca Medeiros, Francisca P. Rocha, Inês Sampaio, Inês Teixeira, João L. Camelo, Josefa Guerra, Luís B. Fernandes, Maria Gomes, Mariana Santos, Rita G. Rodrigues, Rita Nunes, Rodrigo Fortes, Sara Gama, Sara Meirinhos Revisão de texto: Maria Inês Ramalho Design e Grafismo: Beatriz Borges e Madalina Birsanu Capa e contracapa: Sara João Freitas
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Distribuição gratuita
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Índice
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Caso Clínico
Nosso Mundo
4. Concurso de Medicina para Licenciados 6. Violência Obstétrica 8. Emergência Pré-hospitalar
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38. Ai Mena, Crack My Case!
Mundo de Todos
40. História da Medicina: Contraceção Feminina 42. História da AAC: Dia do Estudante 44. Médicos da Minha Terra: Dr. Maçãs
9. Body-Positivity and BodyNeutrality 12. Consciência Europeia 14. Redes Sociais 16. Mundo Pós-Pandemia 18. Antidepressivos
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Cultural
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Escrita Livre
Educação Médica
21. Entrevista: Violência Doméstica na 1ª Pessoa 26. Entrevista: Nascer no Corpo Errado 32. Entrevista: Transplantação e Reconstrução Facial
46. De Todas as Cores 48. Amendoeira em Flor 48. PO)E(MAS)! 49. Hipnose 49. Vida Primaveril 50. Corpos Enl(am)eados
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Sugestões
51. Sugestões de leitura
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Nosso Mundo especial de acesso para licenciados. Afinal, será a forma de entrada justa? Contribuirá para o aumento do numerus clausus? O concurso especial para alunos licenciados surgiu em 2007, baseando-se na importância das competências humanísticas num médico, para além das competências científicas e de investigação, muitas vezes adquiridas noutras licenciaturas e que podem beneficiar a sua formação. Esta metodologia de acesso ao curso já é praticada em várias Mariana Santos, 1º ano universidades estrangeiras. Atualmente, um dos assuntos Para além mais debatidos entre a comunidade do número e Escolas Médicas é o numerus de vagas clausus do curso de Medicina, variar entre pois estamos a testemunhar a universidades, degradação da formação médica também a pré-graduada e saturação da pós- “triagem” dos graduada. Este fenómeno culmina c a n d i d a t o s nos “médicos indiferenciados”, difere de local profissionais de saúde que não para local. Em conseguem ingressar no Internato Coimbra, são de Formação Específica, por falta de p r o c u r a d a s vagas no SNS. A eliminação de formas competências excecionais de acesso ao curso básicas nas de Medicina surge, assim, como áreas da possível solução, nomeadamente o Biologia Celular e término do concurso especial para Molecular, licenciados. Bioquímica, Enquanto estudante (licenciada) Matemática do primeiro ano do Mestrado e Línguas, como Integrado em Medicina, participei a língua inglesa. no 1º Plenário Ordinário do NEM/ Podem, ainda, ser AAC. Aí, percebi existir um profundo alvo de avaliação o desconhecimento face ao concurso currículo e percurso
Concurso Especial de Acesso ao Curso de Medicina para Licenciados
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me foi dito, de “exigir ao Estado, aos portugueses e aos nossos pais, o suporte financeiro de pelo menos mais 10 anos de formação”. A nota mínima de candidatura é de 10 valores e, na Universidade de Coimbra, conseguem ingressar no MIM apenas cerca de 20 pessoas, Falando agora de números. por ano curricular. Quem concorre a Medicina como Nos últimos anos, a Faculdade de Medicina da Universidade de licenciado está convicto do quanto Coimbra abriu 38 vagas para alunos quer ser médico e consciente da licenciados. Uma vez avaliadas as necessidade de abdicar, várias vezes, médias e idades dos concorrentes, do seu emprego e estabilidade por é publicada a primeira lista de um sonho, por uma vocação. Fará seriação, na qual c o n s t a m sentido eliminar este concurso, os 48 onde apenas entram cerca de 8% do escolhidos total de caloiros de Medicina? Não para a será o Concurso Nacional de Acesso, fase da aquele com a metodologia de acesso e n t r e v i s t a . errada? Se entrevistarmos todos os Nesta, os alunos do CNA, será o número de candidatos são ingresso tão elevado? académico/profissional do concorrente, à qual se seguirá uma entrevista. Globalmente, a seleção inicial tem como critérios: a média final do Ensino Secundário, a média de fim de licenciatura e idade do candidato (à medida que a idade avança, a bonificação diminui).
avaliados por três jurados, que podem fazer perguntas sobre qualquer assunto, abrangendo a cultura médico-científ ica, cultura geral, motivações do concorrente, percurso pessoal, académico e profissional. É uma entrevista exaustiva, e na qual temos de provar o quão realmente queremos ser médicos. Temos de justificar a oportunidade de ingressar novamente no ensino superior e, como
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Nosso Mundo deparamos com um conceito de violência que o transforma em experiências tão traumatizantes quanto infernais. É através desse conceito que nasce este artigo.
Violência Obstétrica Inês Teixeira, 4º ano
A mulher é tão especial que possui a capacidade de gerar vida no seu interior, multiplicando o número de pessoas no mundo e criando gerações que escrevem a história da humanidade, que determinam a mudança e que acompanham a evolução. Dar à luz é o momento mais esperado e mais bonito da vida da mulher, tanto na teoria como na imaginação, mas deixa de o ser quando nos
De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), “todas as mulheres têm direito ao mais alto padrão de saúde atingível, incluindo o direito a uma assistência digna e respeitosa durante toda a gravidez e o parto”. A violência obstétrica assenta nos abusos físicos e verbais, nas práticas invasivas, nos comportamentos negligentes, no desrespeito durante o parto que muitas mulheres vivenciam e sob os quais escondem memórias de sofrimento, humilhação e terror. Quem vive a gravidez e o parto na primeira pessoa é a mulher, que não esquece o momento em que é submetida a procedimentos médicos coercivos ou não consentidos; à realização indiscriminada de episiotomia ou a procedimentos desnecessários e invasivos; o momento em que lhe é proibida a presença do acompanhante que escolheu, o marido, o companheiro, o irmão, o amigo. A mesma mulher não esquece que lhe foi imposta a posição do parto, que a impediram de andar, comer e beber, que lhe realizaram o exame de toque múltiplas vezes (através de mãos diferentes e rostos desconhecidos) e que lhe administraram hormonas para acelerar o parto. A mulher chora e recorda as palavras feias, rudes e insensíveis, a infantilização,
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a desvalorização completa das suas emoções e a falta de privacidade que a fez desejar sair dali a correr, se não estivesse a morrer de dor. Privaram-na de tanta informação, que ficou sem compreender o que aconteceu. Não se lembra de consentir o que lhe fizeram. Desconhecia que fora alvo de violência obstétrica e que esta assumiu, em múltiplas dimensões, a sua perda de autonomia como mulher. Esta forma de violência prolonga-se na recuperação física e psicológica durante o puerpério, na autoestima, na vida sexual, na saúde mental e na relação com o bebé. Portugal é um dos países da Europa com maior taxa de intervenção no parto. Observamos uma banalização da episiotomia e da manobra de Kristeller, recorrendo-se a elas mesmo quando não existem critérios para tal. Em 2014, a OMS publicou a declaração sobre “Prevenção e eliminação de abusos, desrespeito e maus-tratos durante o parto em instituições de saúde”. O abuso de intervenções médicas, sobretudo sem justificação clínica, constitui uma das principais manifestações de violência obstétrica, encobertas pela inexistência de um enquadramento legal. Os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres na gravidez, parto e pós-parto são “protegidos” pela Lei 15/2014, a qual concede às mulheres o direito a um acompanhante, a cuidados de assistência adequados, a um
tratamento humano e respeitador, direito à informação, consentimento informado, privacidade e confidencialidade. Dada a urgência em atribuir maior visibilidade a este problema, foi aprovada na Assembleia da República a Lei 110/2019 com o objetivo de fortalecer estes direitos. A Natureza concebeu um corpo capaz de gerar vida no seu interior, de desenhar o embrião perfeito e desenvolver o feto no mundo interior. O parto é um fenómeno fisiológico que deve ocorrer de modo natural a experiência negativa pode magoar a intimidade feminina ao ponto de apagar o desejo de uma nova gravidez.
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Nosso Mundo apenas aí, fica a vítima entregue aos cuidados hospitalares. Terminada mais uma missão, aguardam pela próxima.
Emergência Pré-hospitalar Carla Maravilha, 4º ano
O telemóvel toca, as sirenes ligam-se e lá vão eles, prontos para mais uma missão. A viagem nem sempre é a melhor, mas a vontade de querer ajudar faz com que seja rápida. Chegando ao destino, encontram mais um desafio, mais uma vítima assustada à procura de ajuda. No meio de tanta aflição, têm o sangue-frio necessário para tranquilizá-la e estabiliza-la. Por muitos protocolos, ABCDE’s e malas de abordagem que existam, o mais importante é perceber o que a vítima está realmente a sentir.
Eis o que é a emergência pré-hospitalar. Dela, fazem parte médicos, enfermeiros, psicólogos e técnicos, quer voluntários quer profissionais, pertencentes ao Institudo Nacional de Emergência Médica (INEM), à Cruz Vermelha Portuguesa e às diversas corporações de Bombeiros do nosso país. São eles que recebem e assistem quem liga para o 112, 365 dias por ano, 24 horas por dia. Em cada saída, levam consigo a ansiedade, o nervosismo, o medo do que possa estar à sua espera, mas levam sobretudo a coragem, humanidade e vontade de ajudar o outro.
São estranhos que entram nas nossas casas, com o compromisso de dar alento ao coração e acalmar as preocupações de quem está muitas vezes com ele nas mãos, an Prestados os primeiros socor- gustiado e sem saber o que fazer. Da mais pequena ferida, ao ros, vão para o hospital o mais célere mais grave cenário de trauma, estas possível. Uma vez desligadas as sirenes equipas têm uma enorme capacidae no hospital, o seu trabalho não de de adaptação e resiliência, sendo acaba. É preciso assegurar que a vítima à sua frente o seu foco toda a informação relativa à vítima central. Não importa se são 3 ou 14 é transmitida aos profissionais de saúde desse centro hospitalar e, horas: eles estão prontos a ajudar.
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Mundo de Todos
Nós e o Espelho: Body Positivity e Body Neutrality Maria Nunes Gomes, 4.º ano
Os ideais de beleza inalcançáveis foram talhados desde muito cedo na história da humanidade, variando entre gerações e culturas. Com as redes sociais, essas mesmas aspirações de beleza são constantemente divulgadas. O endeusamento das mais notórias personalidades leva-nos a tentar replicar as suas
aparências e, com tudo isto, fica o onírico exterior, o impalpável visual e a inevitável objetivação do corpo, especialmente o da mulher. Numa tentativa de quebrar este ciclo e construir resiliência em relação à imagem corporal, formaram-se diversas ações coletivas e dinâmicas que importam destacar. Body positivity é um movimento social que afirma que todas as pessoas merecem ter uma imagem corporal positiva de si mesmas, pretendendo: desafiar a visão da sociedade em relação ao corpo; promover a aceitação de todos os corpos; fomentar a autoconfiança, autoaceitação e contestar os padrões corporais irrealistas.
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Mundo de Todos Contudo, este movimento não se limita à celebração de todos os tipos de corpo. Reconhece que a maioria dos juízos de valor se baseiam em fatores como sexo, raça, sexualidade e incapacidades. Teve início há algumas décadas e, originalmente, focava-se em exclusivo na aceitação da gordura corporal. Foi em 2012 que transitou da “aceitação do peso” para “todos os corpos são bonitos”. A conexão entre “como nos vemos” e “como nos sentimos” é inevitável. Vários estudos sugerem que ter uma imagem corporal negativa de si próprio, aumenta o risco de desenvolver patologias psiquiátricas, como depressão e distúrbios alimentares. O movimento “positividade corporal” procura ajudar-nos a reconhecer o que influencia a forma como vemos o corpo. Contudo, foi alvo de várias críticas, devido a: não incluir a comunidade negra e LGBTQ+, que foram fulcrais na sua expansão, perpetuando-se assim o conceito eurocêntrico de beleza; o foco do movimento tender para a imagem
corporal, negligenciando os outros elementos que compõem a nossa identidade. Diversos estudos mostram que esta autoobjetificação é frequente no sexo feminino (embora progressivamente crescente nos homens) e limita a performance praticamente em todas as áreas, desde modalidades desportivas a exames cognitivos; empresas fazem campanhas dietéticas, autointitulando-se Body Positive sem o realmente ser e destroem o conceito para benefício próprio; o movimento não é uma solução transversal. A sociedade afirmar que todos somos imperfeitos mas, ao mesmo tempo, dita que devemos ter uma atitude positiva em relação a isso, o que gera ansiedade. Algumas investigações feitas neste sentido mostram que, quando pessoas com baixa autoestima repetem afirmações positivas nas quais, na realidade, não acreditam, ocorre um efeito rebound e acabam por agravar o seu estado inicial. Para ultrapassar estes problemas, é necessário redefinir não só o conceito de beleza,
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O movimento Body Neutrality requer um esforço prolongado e contínuo, mas a meta passa por eliminar os padrões de pensamento negativo. Juntamente, enfatiza o corpo como um instrumento para nosso uso e intransmissível, independentemente da sua aparência. Pretende atingir um estado de autossatisfação e gratidão que permita dar ao nosso organismo aquilo que realmente necessita, promovendo o seu bom funcionamento e longevidade. “É desafiante, mas libertador”, afirmam os seus defensores. Não existem regras no que diz respeito à imagem corporal, nem atalhos fáceis para obtermos a tão desejada tranquilidade e estabilidade com o nosso corpo. É um trabalho mutável, para praticar mas também o de saúde. Este ao longo de toda a vida, em último deverá ser independente parceria com os outros e, acima de do primeiro, para que joguem a tudo, connosco próprios. nosso favor e não nos impeçam de progredir. Nasceu, assim, uma nova abordagem: Body Neutrality, na qual adorar todo o corpo deixa de ser condição obrigatória. Podemos ser neutros ou indiferentes a ele, pois o nosso valor não se mede pelo nosso aspeto. Ao invés de destacar a valorização e a beleza de todos os tipos de corpo, body neutrality dedica-se à valorização da Pessoa. Apesar de reconhecer a correlação entre a imagem corporal e autoperceção, salienta que estas não são tudo na vida.
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Mundo de Todos da UE, expressando a vontade dos 27 Estados-Membros, cujos representantes se reúnem regularmente a nível ministerial, numa votação por maioria qualificada, em que o peso do voto difere consoante o Governo representado.
Consciência Europeia Sara Velho Meirinhos, 6º ano
Com berço na Comunidade Europeia do Carvão e do Aço e na Comunidade Económica Europeia, a União Europeia (UE) é constituída por 27 Estados-Membros, numa fusão sobretudo económica e política, que é composta por sete Instituições. A Comissão Europeia, politicamente independente, materializa e defende os interesses da União Europeia e Comunidade Europeia na sua globalidade. É liderada pela política alemã Ursula Ven Der Leyen, a primeira mulher no cargo, tendo já tido a chefia do português José Manuel Durão Barroso entre 2004 e 2014.
De carácter sobretudo político, o Conselho Europeu é formado pelos Chefes de Estado ou de Governo dos países membros da União, pelo Presidente da Comissão Europeia e pelo Presidente do Conselho Europeu, que preside às reuniões. O seu Presidente, atualmente Charles Michel, é eleito pelo próprio Conselho Europeu, por maioria qualificada, cargo criado pelo Tratado de Lisboa.
O responsável pela moeda única da Zona Euro é o Banco Central Europeu, cuja principal função é preservar o poder de compra do euro, assegurando assim a estabilidade de preços na respetiva zona. Estabelece e aplica a política monetária europeia, dirigindo as operações de câmbio e garantindo o bom funcionamento dos sistemas Presidido por David Sassoli, o de pagamento. É comandado pela Parlamento Europeu é formado primeira mulher na função, Christine por 705 eurodeputados, de oito Lagarde. grupos políticos, partilhando poder O Tribunal de Justiça da União legislativo e orçamentário com o Europeia é o Supremo Tribunal da Conselho da União Europeia. UE. Tem sede no Luxemburgo, ao O Conselho da União Europeia contrário da maior parte dos corpos goza de uma rotatividade de de governo da EU, com jurisdição presidência, a cada seis meses, sobre matérias de interpretação da cabendo a Portugal o primeiro legislação europeia. semestre de 2021. Constitui a O Tribunal de Contas Europeu principal instância de decisão
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exerce as suas funções com total independência, assegurando a boa gestão financeira, ao verificar a legalidade e regularidade das receitas e despesas da UE. O português Vítor Manuel da Silva Caldeira foi eleito seu Presidente entre janeiro de 2008 e setembro de 2016. A
política europeia está de tal forma desaproximada dos cidadãos dos Estados-Membros, que frequentemente se confunde o Tribunal de Justiça da União Europeia com o Tribunal Europeu de Direitos Humanos, sediado em Estrasburgo, que não faz parte da UE, mas sim do Conselho da Europa. O Conselho da Europa, que integra a Convenção Europeia dos Direitos Humanos e o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, é a mais antiga instituição europeia em funcionamento, fundada com o propósito de defesa dos direitos humanos, valorizando o desenvolvimento democrático
e a estabilidade político-social na Europa. Tem personalidade jurídica, reconhecida pelo direito internacional em 47 Estados, sobre processos em que cidadãos europeus reivindicam direitos violados por determinado EstadoMembro. As mudanças são evidentes: há mulheres nas lideranças europeias, há partilha de responsabilidades e luta pela transparência. Mas há, ainda, um longo caminho a percorrer. Temos uma hierarquia europeia à qual é preciso dar corpo pelo interesse dos cidadãos em votar conscientemente. Detemos uma estrutura que merece o nosso ato fundamentado, pela capacidade de defesa dos mais altos interesses das nações no mundo.
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Mundo de Todos
Redes Sociais Ana Sousa 3ºano
Quantas vezes já deram conta de estarem impávidos, de olhos fixos no ecrã do vosso aparelho, numa personificação indigna de uma “pseudo-cifoescoliose” inteiramente desaconselhável?
E os anúncios inocentes em letras gordas que surgem do nada e parecem corresponder às vossas utopias de última hora? Já não preciso de perguntar se estão a par da enchente de (des)informação emaranhada em quilómetros de novelo nas redes sociais e suas anastomoses (ou vomitando o último grito dos estrangeirismos… fake news), certo? Não é novidade para nenhum comum mortal que estas teias sociais podem ser viciantes a níveis a esbarrar o susto. Facebook, Instagram, Twitter, Reddit, YouTube, etc. Maravilhas virtuais alinhadas na vossa tela, num mosaico bem ao estilo avant-garde, à distância de um clique. Mas, e se a perniciosidade destas plataformas não for um bug, mas sim um recurso, e rentável “pra chuchu”? Quem o diz são alguns ex-funcionários (desertores e testemunhas conscienciosas) dessas empresas que enriquecem desmedidamente e sobreexploram
este terreno fértil. Juram que o sistema que ajudaram a criar manipula a mente do utilizador para obter margens gigantes de lucro, com precisão astuta e engenhosa. Scrolling exaustivo, notificações sem fim, sugestões personalizadas e constantes… Tudo mecanicamente engrenado para influenciar as nossas ações, tornando-nos presas da propaganda. Como não pagamos pelos produtos que usamos, os publicitários pagam-no, sendo eles os clientes. Somos a “coisa” vendida, entenda-se. O modelo de negócio passa por prever (quem tiver o melhor modelo de previsão ganha), recorrendo a informação pessoal, o que mantém as pessoas interessadas e conectadas o máximo de tempo possível! Um mercado com monitorização e registo rigorosos que fatura na ordem dos biliões de dólares. O grau de solidão ou angústia, likes das publicações, pesquisas, horários, entram na equação como variáveis dependentes. Falamos em manipulação? Talvez, se pensarmos que, de alguma forma, nos tentam implantar um hábito inconsciente com “pirataria psicológica”, no sentido de expandirem o negócio. Estará esta era digital (que traz vantagens, se bem usadas) a chegar a um ponto de não retorno? Interferências na saúde mental e nos pilares da democracia, têm sido postas em cima da mesa. A partir do momento em que o comportamento humano é afetado,
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bem como emoções, sem despertar real consciência do utilizador, tudo é possível, inclusive o vício. Estes sistemas afetam diretamente a libertação de dopamina na via da recompensa. Somos recompensados com sinais de curto prazo, e associamos uma realidade dúbia e frágil a valor e verdade. Funções primitivas da nossa essência, imutáveis, são usadas convenientemente!
autorrítmica e pulsante de vida. Os sintomas estão dispersos, o quadro é muitas vezes refratário. O problema reside na tecnologia como causa de comportamentos destrutivos e no capitalismo desenfreado, como impulsionador dessa tecnologia.
A sociedade não se consegue curar a si mesma e caminha para o caos. A continuar assim, destruiremos a civilização devido à ignorância. O problema não A promoção de ideologias é só existencial. Estamos tão radicaliza públicos-alvo. Dados embrenhados na matriz que fazer pessoais alimentam marionetas um recuo será complicado. invisíveis. Nunca o impacto foi tão Mas não impossível. Ainda. devastador e a sociedade esteve tão formatada, intolerante, polarizada e triste, “escrava” de uma inteligência artificial, cuja força motriz é
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Mundo de Todos capacidade de domesticação do meio ficou atonita. A terceira ferida narcísica proposta por Freud abriuse ainda mais: “não estamos no centro de nós mesmos”.
O Mundo Pós-Pandemia Rodrigo Alexandre Fortes, 6º ano
A “Ode à Alegria” hasteada pela nona sinfonia de Beethoven tem em suspenso, há mais de um ano, os seus versos: “Abracem-se milhões! Enviem este beijo para todo mundo!”. A teoria dos sistemas diz que todas as relações do sistema e o meio se autoproduzem, ou seja, o meio é transformado na mesma proporção com que o meio se transforma. Com a pandemia, a nossa
Pela tradição histórica, depois de um período de recolhimento e morte, há uma grande explosão de vida. É o caso do Renascimento após a Peste Negra; é o caso da moda de Paris, internacionalmente famosa após a Revolução Francesa. O estouro de sociabilidade foi uma realidade em todos esses momentos, embora não possamos ignorar a natureza pendular do ser humano. Nos próximos tempos, a nossa agenda deverá ser global! Os países de renda média representam um terço do produto bruto do planeta, portanto, o entusiamo ideológico da autonomia individual seria o óbice da boa política e um suicídio em várias ordens. A visão da justiça social sofrerá emendas! A ONU estima que mais de 235 milhões de pessoas serão afetas por uma crise humanitária a curto prazo, além de haver cálculos que apontam 56 países como futuros necessitados de ajuda internacional. O capitalismo é o mais potente sistema de domesticação criado pelo sapiens. Não temos uma narrativa à altura dele e a pandemia não tem pujança para o desativar. Isso não coíbe a possibilidade de alterar o modo de vida. Estaremos simplesmente a alterar para a modalidade do capitalismo de
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vigilância – quando a escolha é entre segurança e liberdade, o utilizador é “coagido” a autorizar a sua vigilância. Essa nova conceção será o repositório de experiências culturais imersivas, que tentam conectar o real com o virtual, a partir do uso de tecnologias – por exemplo, shows e espetáculos online, tours virtuais a museus, etc. Outra tendência para o futuro pós-pandemia, passará por políticas assentes no protecionismo empresarial, ficando de lado as políticas mais liberais. Dentro da seara ambiental, a pandemia foi prática a demonstrar que podemos operar sem o mesmo patamar de estrago ambiental.
“O dilema do porco espinho” de Schopenhauer define que, quanto mais próximos estiverem os indivíduos, maior a probabilidade de se ferirem mutuamente, contudo, mantendo-se distantes, irão sentir a dor da solidão. Esse dilema nunca foi tão atual. E isso abrirá mais espaço para a solitude como base do ócio criativo, e potencializará mais avanços intelectuais. Por outro lado, o isolamento, o medo do contágio e o desespero quanto ao futuro, têm feito com que muitas pessoas desenvolvam transtornos emocionais, como a depressão e a ansiedade.
A pandemia pôs à prova a capacidade da ciência se comunicar para o grande público, o que impõe um futuro com uma linguagem menos tecnocrata e igualmente confiável. O sector da saúde terá renovada importância e será alvo de maior desvelo por parte dos governos. Haverá duas reações: primeiro, potencialização do planeamento de recursos humanos e da telemedicina; segundo, vender a ideia de que os profissionais de saúde têm romanticamente superpoderes e abnegação, de modo a mascarar falhas e convalescer as fraturas com a “classe”. A ciência sairá mais fortificada e a política Enfim, o trauma não pode superar (lideranças globais) mais fragilizada. o desejo de superação!
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Mundo de Todos propósito, de antidepressivos.
Antidepressivos
João Lobo Camelo, 4.º ano
Foi-me sendo lembrado enquanto cresci, perante as preocupações do dia-a-dia, que o mais importante era ter saúde. Tal como não entendia a saudade nos fados de Amália, não levava também muito a sério essas palavras, ouvia-as como uma lengalenga sem substância, a resposta pronta às verbalizações de qualquer preocupação menor, numa tentativa de amenizá-la. Hoje, dou por mim a pensar, evidentemente, que a sociedade está doente. Desapegamo-nos das pequenas coisas da vida à medida que vamos deixando de ser crianças. Entretemonos com futilidades, tiramos muito pouco do nosso tempo para ajudar o próximo, gastamo-nos dia após dia, num ignorante esbanjar de horas, até a altura do nosso partir. Ver-nos assim entristece-me, mas haja esperança - lembro-me das palavras de Bukowski: “Your life is your life / there is a light somewhere / it may not be much light but / it beats the darkness”. Por este nosso funcionamento insalubre, que nos impacta de forma negativa, em menor ou maior medida, é urgente, mais do que nunca, falar de saúde mental, de depressão e, também a
No último ano, aprendemos o que a minha mãe me dissera, que a saúde, inclua-se a mental, é de facto o bem mais importante a preservar. Como não é possível falar de saúde mental sem que se ocupe toda uma edição de revista, foquemonos naquela que é principal causa de anos vividos com incapacidade, uma patologia que nos é familiar de uma forma ou doutra e que afetará uma em cada sete pessoas em determinada fase da sua vida. Muito mais do que um sentimento de tristeza, a qual faz parte da pletora de experiências emocionais normais de todos, esta reflete um transtorno do humor intimamente associado a numerosas alterações fisiológicas, cognitivas e comportamentais, que apresentam elevada cronicidade, redução da qualidade de vida e perda de produtividade brutal para o indivíduo, levando assim a custos económicos diretos e indiretos para a sociedade. Apesar da depressão existir, possivelmente, há tanto tempo quanto a nossa espécie, a farmacologia implicada no seu tratamento, tão fundamental, é ainda um bebé na imensa árvore genealógica da Medicina. Poderse-á dizer, até, que a descoberta dos antidepressivos foi acidental. Em 1951, o doutor e investigador Irving Selikoff, trabalhando num sanatório – lugar para onde eram enviados os doentes com tuberculose – começou os ensaios clínicos com
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isoniazida (sendo ainda hoje um dos tratamentos de primeira linha contra esta doença contagiosa). Verificou-se, surpreendentemente, que os doentes tratados revelavam um renovado vigor. No ano seguinte, o psiquiatra Max Lurie, tendo lido acerca dos resultados estimulantes da isoniazida, decidiu usá-la nos seus doentes, verificando melhoria da depressão em dois terços destes. No entanto, mesmo depois dos significativos avanços da ciência, o tratamento deste tipo de patologia ainda nos apresenta diversos desafios. Para que possamos falar de um renascer, urge abordá-los nas suas várias frentes: educar a consciência individual e social no que diz respeito à saúde mental, para reduzir os grilhões do estigma; reunir esforços para aumentar o acesso aos cuidados de saúde
mental e tratamentos eficazes, e ainda pesquisar novos tratamentos que possam constituir uma melhoria dos atuais. Como se não bastasse, existe ainda o verdadeiro efeito de arrastamento provocado por poderosos interesses individuais e monetários. A título de exemplo, vejamos a questão da publicidade à medicação sujeita a prescrição médica levada a cabo nos Estados Unidos. Como acontece com qualquer indústria multibilionária, a obrigação lucrativa sobrepõe-se, não raras vezes, à da transparência perante os consumidores, e a publicidade aos medicamentos antidepressivos, frequentemente, não só exagera os benefícios como largamente oculta possíveis efeitos secundários graves. Este modus operandi acaba por conduzir
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Mundo de Todos terapêutico.
a repercussões sérias na forma como a eficácia destes fármacos é percecionada, como o seu consumo é feito e, consequentemente, na própria terapêutica do doente.
Por todas estas variáveis, é necessário que haja um papel educativo junto da população, dando-lhe a conhecer as verdadeiras características dos antidepressivos, para que estes não sejam percecionados como respostas milagrosas no qual o tratamento da depressão se limite à prescrição de um medicamento. Sendo importantíssimo o papel da medicação na depressão, são imensamente indispensáveis a compreensão, a explicação, a motivação, bem como o apoio psicológico individual e familiar. Em suma, a eliminação do estigma, o maior conhecimento das causas exatas da depressão, a maior transparência da indústria farmacêutica e o conhecimento das limitações deste “filho pródigo da medicina”, permitirão assim um verdadeiro e saudável avanço
Gostaríamos que houvesse menos transtornos no mundo, dos mentais, dos pandémicos, dos de toda a espécie. Acontecimento atrás de acontecimento, revolta e contrarevolta, catástrofe e aprendizagem, cada dia nunca é verdadeiramente igual ao outro, e neste tango imemorial de aprendizagem vamos crescendo coletivamente. Em criança, a minha irmã cantava Amália todas as manhãs, a plenos pulmões. Queixava-me do barulho, considerava-o mesmo um drama da minha curta vida que ainda não conhecera a saudade, e ela brincava comigo, desarmava a situação, dizendo que a saúde a tinha eu. E lá aguentava, ouvindo algures entre o fado de Amália e a voz da minha irmã, a frase que hoje espelha o que todos temos sentido: “que estranha forma de vida”.
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Educação Médica a vários tipos de violência. Houve algum tipo de violência durante o namoro? Consegue explicar-me como tudo começou? Durante a fase de namoro, ele nunca foi violento comigo. Tudo começou numa viagem de carro para Portugal (pois éramos emigrantes), acompanhados dos pais dele. Na altura, ele tinha 22 e eu 19 anos, estando grávida de 8 meses do meu Andreia Nossa Ferreira, Erasmus 20/21 primeiro filho. “Açucena” é a personagem Os pais dele não sabiam que ele principal desta história, uma mulher fumava e, tendo ele dito algo que me de 44 anos e mãe de 2 filhos irritou profundamente, retorqui-lhe maiores de idade. Agradeço em desvendando esse segredo. Reagiu nome de toda a revista a cedência dando-me uma estalada, parou o desta entrevista, não apenas pela carro e mandou-me sair. Essa foi a coragem em desenterrar as suas primeira vez que me agrediu. feridas, mas também pelo altruísmo Qual a reação que cada um de e determinação em ajudar outras vocês teve? Eu disse que não sairia pessoas que possam estar em do carro, pois também era meu. Os situações semelhantes. Com esta pais dele não tiveram sequer reação, entrevista, pretendemos mostrar uma vez que a mãe dele já tinha sido que é possível pedir ajuda, sair desse vítima de violência e a situação era pesadelo e voltar a ser feliz. normal para eles. Simplesmente Infelizmente, a violência continuámos a viagem e nunca doméstica marcou a sua vida e da mais se falou disso, como se sua família. Essa violência foi por nada tivesse parte de quem? Sofri de violência ocorrido. doméstica pelo pai dos meus filhos. Apaixonámo-nos muito jovens. Foi um namoro assumido, mas não consentido pelos meus pais, já que a família dele era bastante Porqu e não saiu do disfuncional. Na idade da rebeldia, carro? Primeiro, porque ele não tinha eu 18 e ele 21, fiz ouvidos podia mandar-me sair daquilo que “moucos” aos constantes avisos da era meu. Depois, por ter de ir para família, acabando por casar, apenas casa sozinha e dar razão à minha ao fim de um ano de namoro. Esta família, que sempre fora contra a decisão expôs-me, durante 10 anos, relação e ouvir um “eu bem te avisei”.
Entrevista: Violência Doméstica na 1ª Pessoa
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Educação Médica O facto de ser jovem e arrojada para pontapeava-me, insultava-me… Isto a época, permitiu-me saber que foi sendo cada vez mais frequente, aquilo não estava certo, mas o até que passou a ocorrer facto de estar a acontecer diariamente. comigo paralisouPosteriormente, me. Acrescento a ele demonstrava nossa situação arrependimento? económica, pois Fazia-a pensar deixando-o teria merecer tal de sustentar os atrocidade? Ou nossos filhos simplesmente sozinha. Todos fingia que nada os dias me a contecera? arrependo disto. Nunca pediu Se naquela altura d e s c u l p a , tivesse saído do mas nos dias/ carro, muita coisa semanas seguintes, na minha vida teria tentava compensarsido diferente. nos fazendo algo que Depois deste episódio, queríamos, fora do nosso dia-acomo evolui a relação? O meu dia habitual. primeiro filho nasceu e a época Sentia que confrontar o seguinte foi maravilhosa. Até que agressor, pioraria a situação? o meu pai, na altura também Perguntei-lhe muitas vezes o emigrado connosco, voltou para motivo de agir assim, mas a própria Portugal e ficámos sozinhos com pergunta ofendia-o. Nunca me uma criança de um ano. respondeu, apenas nos dizia “não A tortura veio a partir daí. Ele começou a beber descontroladamente, coisa que não fazia antes, pois sempre dissera não querer seguir o exemplo do seu pai. Dizia-me “hás de me pagar”, mas nunca entendi o significado. Relaciona os períodos de maior agressão com algum acontecimento específico? O pior era quando o álcool começava a fazer efeito. Não se lhe podia dizer nada, partia logo para a violência física e psicológica: batia-me,
valem nada” e ameaçava-me constantemente, caso falasse ou o deixasse.
Temeu pela sua vida e dos seus filhos? Pensou na possibilidade de ficarem traumatizados por assistirem a essa violência? Sim, sem dúvida! Tinha muito medo dele, das ameaças contra mim e a minha família. Houve momentos em que maltratava o menino, rebaixando-o, dizendo “não vales nada”, ao nosso filho de 5 anos. Na maior tareia que me deu, estava grávida de 3 meses do
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segundo filho (desconhecendo-o), e fui bater à porta de uma vizinha amiga. Ele preferia que tivesse perdido a criança, pois temia que a gravidez fosse motivo de despedimento e comprometesse as nossas economias. Vendo como eu estava, a vizinha quis chamar a polícia, mas não deixei. Apenas consenti ver um médico da confiança dela.
fosse entregue à minha irmã. Mas não a vi como uma ajuda e até lhe pedi segredo. Quando houve o click que mudou tudo? Passei por várias situações humilhantes, mas houve uma particularmente cruel. Um dia, ele provocou-me de tal forma, que lhe disse: “Que mal fiz eu a Deus para merecer um gajo destes?”
Algumas vez pensou em terminar com a sua vida? Passoume várias vezes pela cabeça atirarme do sexto andar. Nunca tentei nada contra ele, pois tinha mais força do que eu. Estava sempre a dizer-me: “Se fizeres alguma coisa As crianças normalmente contra mim, terás de acabar mesmo assistiam às agressões, acabando comigo. Caso contrário, quando me por se esconder debaixo da cama levantar, acabarei eu contigo!” ou num armário. No dia seguinte, Ninguém desconfiou do que se fui trabalhar e levei os meninos passava? Toda a família dele sabia, comigo. Foi nesse mesmo dia que mas apenas uma irmã sua, me o meu filho mais velho disse: “Mãe, perguntou o porquê de não o deixar. porque é que não vamos embora e “É fácil falar, difícil é fazer”, retorqui. deixamos o pai? Pensei que fosses Quando vínhamos a Portugal, ele morrer!”
Acredita que o seu filho lhe salvou a vida? Sim, sem dúvida. Apesar do receio em ser mãe sozinha, foi naquele momento que decidi ligar à minha irmã e contarlhe tudo. Programámos a minha fuga durante um mês, da qual, Alguma vez pensou em pedir felizmente, ele nunca suspeitou. ajuda a alguém da sua confiança? Deixei-lhe uma carta a contar Tinha o meu primeiro filho 3 anos tudo o que sentia e preparei-me quando fiz uma carta para a minha de forma a nada me fazer voltar. melhor amiga, a contar o que se Quatro dias depois, ele estava em passava. Na carta, pedia que caso Portugal, o que resultou em 2 anos algo me acontecesse, o meu filho de perseguição, 8 processos em subornava a minha família com presentes caros, sempre impecável e altruísta, pelo que não desconfiavam de nada. Nas costas deles, tentava pôr-me contra eles. Queria quebrar qualquer ligação que eu tivesse, mas nunca cedi.
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Educação Médica tribunal, danos materiais, ameaças por intermédio das crianças, como: “vou por fogo à vossa casa, matarvos e a “Açucena” apenas viverá até o nosso filho mais velho fazer 18 anos”. Os processos em nada deram e ignorou os filhos quando viu que me perdera. Mais tarde, separámo-nos judicialmente por bens e pessoas.
contribuíssem para a minha segurança. Acreditava que a polícia não o prenderia, que ele voltaria para casa e tinha medo do que pudesse acontecer.
As instituições de apoio podiam retirar-me do local do agressor, mas aconselhar-me-iam a voltar para junto da família, algo que não estava Considera que encontrou disposta a fazer pois tinha a certeza alguma vez amparo e orientação de que ele me perseguiria. por parte de médicos, associações A minha cabeça de jovem de apoio à vítima, polícia? desesperada e amedrontada, Nunca senti que os médicos fazia de tudo para evitar que os ou forças de autoridade médicos de família sinalizassem
as autoridades. Apenas quando já tinha o plano de fuga pronto, obtive um relatório das minhas marcas, garantidamente de maus-tratos, com intenção de denunciar o meu ex-marido às autoridades competentes.
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Levei à polícia o relatório medico, e, fundamentalmente, a trabalhar contei o que planeava fazer e eles mais em mim. abriram processo. Atualmente, o que mais É possível continuar a gostar valorizo é a minha felicidade e dos de alguém que nos trata assim? meus filhos, independentemente No princípio, eu acreditava que ele do que estiver à nossa volta. mudaria por, pelas palavras dele, “me amar muito e ser a mulher da vida dele”. Mas, que forma estranha de amar é esta? Mais tarde, eu apenas sentia medo, que nada o faria mudar e que não era aquela a vida que eu queria. Tendo refeito a sua vida, sente necessitar, ainda hoje, de ajuda profissional por possível trauma? Inicialmente, tinha medo de estar com alguém, não confiando ao ponto de entrar numa relação. Ao mesmo tempo, não me sentia segura sozinha. Felizmente, acabei por encontrar a pessoa que foi um pai para os meus filhos, que me trata como mereço. Cheguei a falar com um psicólogo, mas apenas em tom de amizade e não profissional. Este mesmo psicólogo, acompanhou profissionalmente os meus filhos durante bastante tempo. Para terminarmos, quer deixar algum conselho a quem possa estar a passar pelo mesmo? Sim, claro. Não tenham medo de falar, de pedir ajuda, do julgamento dos outros e de sair desse ambiente tóxico e isento de amor, porque quem bate, não ama. Eu sei que é difícil, mas é importante não se deixarem dominar pelo medo e vergonha. A minha experiência ensinou-me a pensar mais por mim
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https://apav.pt/apav_v3/index.php/pt/apav-1/contactos-onde-estamos https://www.apavparajovens.pt/pt/go/o-que-fazer
Educação Médica do consultório.
Entrevista: Nascer
no Corpo Errado, com Júlia Mendes Pereira
Convidámos Júlia Mendes Pereira a conversar connosco sobre a identidade de género e as dificuldades que enfrentou no seu percurso. Júlia é uma mulher transgénero, ativista feminista, dirigente do Bloco de Esquerda e Codiretora da ONG Ação Pela Identidade.
Francisca Medeiros, 5º ano Obrigada por falar connosco, Rita Nunes, 2º ano Júlia! Gostaríamos de começar
Quando falamos de disforia de género, nem todos os profissionais de saúde parecem estar prontos a entender a sua génese, muito menos a lidar com a situação. Haverá transfobia nas consultas médicas? É possível que persistam estigmas sociais na saúde? A verdade é que no nosso percurso académico, não recebemos grande formação para estas questões. E que melhor solução do que falar sobre o assunto? Esta entrevista permite-nos perceber a visão de quem está do outro lado da secretária
por conhecê-la melhor, antes de passarmos às questões médicas. Houve um momento em que percebeu que não queria viver no corpo em que nasceu? Aconteceu-me o mesmo que a qualquer pessoa: desenvolvi a minha identidade de género à medida que cresci. Só que no meu caso, chegou um momento em que percebi que aqueles em meu redor não estavam à espera que me desenvolvesse como mulher. Não sei precisar a altura, mas foi antes da escola primária. Lembro-me de estar no cabeleireiro com a minha mãe, a folhear uma revista onde vinha uma reportagem com a Roberta Close e ficar extasiada com o facto de haver alguém como eu.
Dentro do SNS, dificuldades enfrentou?
que
Hoje, nota-se ainda uma grande falta de informação em relação a todo o processo. Na adolescência, fui encaminhada para profissionais de saúde, nomeadamente uma
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psicóloga, por estar depressiva. Ela pais para menores de 18 anos foi bastante transfóbica comigo e, iniciarem a terapia hormonal? como não estava a correr bem e o Sim, é, e nunca ma quiseram serviço era muito caro, acabei por dar. Só compreenderam e entrar no SNS. começaram a mudar a perspetiva Na altura, fui acompanhada deles aos meus 21 anos, quando no Hospital Garcia de Horta, numa saiu a lei da identidade de género. consulta da adolescência mais Esta lei permitia a alteração dos genérica, onde também houve documentos de identificação, que algumas práticas questionáveis. eu fiz. Os meus pais diziam que eu Numa primeira fase, estes iria ter problemas, até a viajar para profissionais queriam trabalhar fora do país, se me apresentasse comigo, por um lado, para que eu como Júlia. Esta abordagem era aceitasse que era homossexual, extremamente violenta para mim, e com os meus pais, por outro, porque davam a entender que para que também eles aceitassem eu vivia alguma mentira. Quando esta “homossexualidade”. Isto não finalmente tive o documento que tinha por onde correr bem, não declarava o meu género feminino era a minha realidade, portanto e o meu nome Júlia, lembro-me de resultou numa Júlia com 13/14 anos, pegar nele e metê-lo à frente deles, revoltada. Não era expectável que eu para lhes mostrar que, se dissessem tivesse maturidade emocional para o contrário, eles é que estariam a lidar com isto. mentir. A partir daí já aceitaram Essa terapeuta acabou por nos melhor, e neste momento temos convidar para a Sociedade onde uma relação “ok”. estava o professor Daniel Sampaio. Pelo que sabemos, a nível do Fomos a uma sessão de terapia SNS apenas se realizam cirurgias familiar e ele acabou por ser a de mudança de sexo no Hospital minha salvação. Percebeu, com toda Universitário de Coimbra. Foi o a clareza, que eu era uma jovem seu caso? trans e passou a acompanhar-me A minha história tem vários no Santa Maria, mas já em sexologia, com um diagnóstico e feitas todas detalhes curiosos. Em relação à as avaliações necessárias ao meu cirurgia, estava a ser acompanhada por um cirurgião do Santa Maria, processo. que me informou que eu seria a O problema era a minha família. próxima da lista em 2011. Em janeiro Só aos 18 anos é que pude iniciar a desse ano, soube que o cirurgião terapia hormonal, pois eles nunca tinha “batido com a porta” e acabei aceitaram. por ser operada no privado, e só em É necessária a autorização dos 2014. No Santa Maria não atribuíram
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Educação Médica as minhas cirurgias a outros profissionais, pelo que Coimbra assumiu-as, mas só passados alguns meses é que começaram realmente a fazer cirurgias, com resultados questionáveis. Sei, por exemplo, de uma pessoa que ficou com o intestino afetado. No entanto, o Hospital de Coimbra é uma referência nacional e eu fui seguida lá para uma segunda opinião. Considero que o serviço funciona muito bem, os pacientes gostam e a psiquiatra responsável é impecável. Por isso, acaba por ser triste que a unidade cirúrgica tenha sido criada num ambiente político e prejudique o bom nome já então criado.
Quais foram as principais dificuldades que sentiu neste processo? Gostaríamos de saber como foi do seu lado e o que sentiu.
público teve exatamente as mesmas dificuldades que eu: falta de acompanhamento nos pós-operatório. Há consultas de acompanhamento posterior com o cirurgião, mas as equipas de acompanhamento psicológico estão tão sobrecarregadas, que não há capacidade para acompanhamento psicológico pós-cirurgia. E isso acaba por ser o mais importante. Antes da cirurgia, sentia que estava numa avaliação, em que tinha que provar de alguma forma que merecia a cirurgia. No fim, senti uma descompressão completa na minha vida, mas também acabei por entrar numa fase depressiva. Na altura, estava com 24 anos e a pensar o que iria fazer a seguir, porque tinha vivido toda a minha vida em função de fazer a cirurgia, que era o significado da minha existência. E acabei por sentir que podia ter explorado mais a minha sexualidade, os meus relacionamentos, ter feito esse tipo de coisas, que não era agora aos 24 anos que iria experienciar... E nesta fase não tive nenhum tipo de acompanhamento, ou alguém a quem pudesse recorrer. Também em relação às complicações pós-cirúrgicas, podiam ter sido evitadas e senti-me totalmente desacompanhada. O próprio cirurgião estava desconfortável com o assunto.
Para mim foi o tempo de espera, viver com a incerteza do que irá acontecer. E se as coisas correrem mal, o que acontecerá a seguir... Quando vamos fazer esta cirurgia, estamos conscientes do quão complicada é e dos riscos que corremos. Nem sempre há acesso a esta informação e é preciso que seja disponibilizada de forma clara e transparente, que haja abertura para falar sobre as coisas. E como movimento, é isso que tentamos Sentiu discriminação ou fazer, deixar de estigmatizar. comportamento inadequado Acabei por fazer a cirurgia por parte dos médicos que no privado, mas quem fez no conheceu? Quer deixar alguma
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dica aos nossos leitores, futuros médicos, sobre como abordar uma pessoa transgénero? Sim. Destaco a importância da linguagem como ponto de partida. As palavras usadas pelos profissionais de saúde, mostram-nos se estão sensibilizados para este tema. Por exemplo, o termo transexual tem sido questionado e até já foi abandonado pelos manuais de saúde, apesar de ser usado sem má intenção. Eu prefiro a expressão transgénero e se perceber que o médico conhece a terminologia, tenho maior confiança nele. Recentemente, têm saído, pela DGS, estratégias de saúde focadas na comunidade LGBT, que são ferramentas ótimas por terem a linguagem atualizada e facilitarem a pesquisa aos profissionais de saúde.
medo ou foi v í t i m a de alguma ameaça, que pusesse a sua vida em perigo, principalmente pela visibilidade que tem? Demasiadas vezes. E qualquer vez que aconteça, já é uma a mais. São experiências muito traumáticas e que, na maioria das vezes, não me envolveram só a mim. O caso Gisberta moldou a minha vida e reflito muito sobre ele, até tenho trabalhos publicados sobre isso. Eu tinha 15 anos na altura e lembro-me do impacto que me causou, ver uma mulher trans, como eu, assassinada. Já estava ciente de que era trans e a receber acompanhamento, mas sentiame isolada porque não conhecia pessoas como eu. Pareceu, durante muito tempo, que a Roberta Close era a única mulher trans que existia. Até que apareceu a Gisberta, uma irmã, que foi morta de forma brutal por miúdos que tinham mais ou menos a minha idade.
No entanto, há mais questões a abordar. O problema não são os profissionais que nos acompanham diariamente, esses fazem o melhor que podem com os recursos que têm, mas sim a falta de transparência nas chefias. Falta um enquadramento dos cargos de cima, para que quem nos acompanha no dia a dia possa otimizar a sua prática e para que os serviços deixem de estar tão centralizados. Há aspetos que poderiam ser resolvidos por um Na escola sofri de bullying e dos MGF, por exemplo. primeiros casos de violência física, Todos conhecemos o caso muitas vezes extrema. Não podia usar os balneários e a solução era Gisberta e, atualmente, esconder-me nos cubículos para ainda acontecem situações poder mudar de roupa. Havia semelhantes. Alguma vez sentiu miúdos que se empoleiravam para
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Educação Médica me ver, porque tinham curiosidade. Fui apedrejada, cuspida e agredida na rua. Com este caso, apercebi-me que o bullying poderia chegar ao homicídio. Esse medo foi crescendo e moldou-me de alguma forma. Infelizmente, quando se sai da escola, a violência não desaparece. Ainda mais agora, em que as pessoas têm tantos modos de se agredir umas às outras: é tão fácil atacar online, de forma gratuita e descontextualizada, sem consequências. Eu e outros ativistas de várias áreas, tentamos fazer queixa na polícia do que acontece online, mas há sempre alguém a colocar a situação noutra perspetiva: “Mas olhe lá, pode não ter sido bem isso...”. O maior problema, é que não é só online: é na rua, no dia a dia. Eu já fui atacada em casa, já tive pessoas a entrarem pela minha janela, para me agredirem e ao meu namorado.
forma desvalorizada? Bastante desvalorizada. Cada vez tenho menos medo de dizer que a polícia é cúmplice da transfobia e do racismo. Acho que temos de ser cada vez mais frontais e dizer isto, pois é uma questão que está a ser politizada. Já há forças de extrema-direita com capacidade eleitoral, nas quais pessoas com responsabilidades dentro da polícia estão claramente a alistar-se e a demonstrar aquilo que são. Nem a invasão à minha casa teve consequências. Já tive outras situações de agressão, em que quis apresentar queixa criminal e a polícia disse que não tinha onde a colocar, porque não havia enquadramento jurídico para o fazer. Insisti, pois sei um bocadinho sobre os meus direitos, mas disseram que tinha de arranjar uma advogada para fazer queixa por mim.
Chegou a fazer queixa na Já me aconteceu, também, sair polícia? Sente que foi de alguma da esquadra, olhar para os papéis
com calma e perceber que houve um registo de ocorrência e não uma queixa formal, o que não é nada. Isto é o padrão e não é exclusivo das pessoas trans. É uma realidade comum às minorias, como nos chamam. Temos de ser nós a encontrar formas e estratégias de lidar com isto. Eu tive de sair de Lisboa, da minha cidade, para ir retomar a minha saúde mental e capacidade de resiliência noutro sítio.
Apesar de estarmos no
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século XXI, a transexualidade ainda é rejeitada na maioria das religiões. É religiosa ou alguma vez foi? A questão religiosa ou, como prefiro dizer, espiritual, é uma realidade recente na minha vida. Não integro nenhuma religião organizada, pois nunca encontrei nenhuma que fizesse sentido ou me desse vontade de participar. Não tive uma educação religiosa, a igreja nunca foi significativa na minha vida. Mas, de forma muito pessoal, cultivo a minha espiritualidade, que é muito importante para mim. Até partilho com outras pessoas, em especial com outras mulheres trans, a importância de nos cultivarmos e encontrarmos, porque para mim tem sido uma forma de lidar com a vida. É curioso fazerem esta pergunta depois do que partilhei sobre a violência e a minha experiência no espaço público, porque a espiritualidade tem sido a minha forma de conseguir encontrar respostas e melhorar a minha saúde mental.
Quer reforçar alguma ideia, para os nossos leitores? É importante terem alguns conceitos e ideias base, mas não é preciso saberem tudo. Saibam o suficiente, para saberem o que perguntar: o mais importante é sempre ouvirem as pessoas. São estudantes de Medicina, no futuro poderão aparecer-vos pessoas
trans, e não há problema em fazer perguntas. Há, sim, problema se assumirem coisas que podem não corresponder à realidade. O mais importante – e esta mensagem é o motor do meu ativismo – é a empatia. Infelizmente, quando falamos com médicas e médicos mais velhos, parece que algo falhou a esse nível. Felizmente, com os mais jovens parece haver outra capacidade e vontade de desenvolver empatia. Em relação à identidade de género, há muito a fazer. Há falta de recursos e de informação, mas já há oferta lúdica e entretenimento de qualidade, que nos permitem conectar com estas realidades. Séries como a RuPaul’s, acessíveis em plataformas que todos têm... é tão simples quanto isso! Não pedimos às pessoas que leiam quilos de informação e estejam a par de tudo a nível científico, às vezes basta ver uma série e perceber que aquelas pessoas, são só pessoas com as suas vidas, que querem que isto funcione, que não seja uma dificuldade. Na minha associação, estamos a criar um grupo de reflexão sobre questões de saúde e não só. Se souberem de colegas ou profissionais interessados nesta causa, contactem-nos, gostaríamos de integrar alguém de Coimbra. Será um trabalho continuado, em ambiente digital, na perspetiva de poderem aprender algo connosco, pois podemos ter um papel facilitador.
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Educação Médica
Entrevista: Transplantação e Reconstrução Facial, com Ricardo Horta Rita G. Rodrigues, 5º ano
Foi com prontidão que Ricardo Horta, professor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e médico especialista em Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética, aceitou o convite da Revista ANEMIA para esta entrevista. Recorda-se dos tempos do jornal “O ANEMIA”, uma vez que estudou na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.
é uma especialidade muito variada, vasta e diversificada. Essencialmente, envolve duas grandes áreas de atuação: a cirurgia reconstrutiva e a estética. Apesar de alguns a considerarem um luxo, esta especialidade é, na verdade, transversal a todas as classes sociais e uma necessidade para muitos. É uma especialidade que vê várias pessoas que apresentam problemas de autoestima e imagem corporal significativos, situações oncológicas graves (tumores da cabeça e pescoço, cutâneos), queimados, doentes mastectomizadas, malformações congênitas, esfacelos/ ferimentos graves dos membros e outras lesões traumáticas. Trata o doente de forma integral e em todas as áreas anatómicas, sendo que cada doente tem especif icidades próprias, pelo que temos de adaptar e individualizar os planos, obrigando-nos a estar em constante atualização.
Doutor Ricardo Horta, gostava que começasse por nos explicar que área da Medicina é esta, a da Cirurgia Reconstrutiva. Se um leitor nosso quiser seguir as suas passadas, quais as escolhas a tomar no final do 6º ano Fez o seu do Mestrado Integrado em doutoramento Medicina? na área da A cirurgia Plástica e Reconstrutiva
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Reconstrução Facial Autóloga de grandes defeitos e Transplantação Facial, pelo que deduzo ser apaixonado por ela. Pode-nos contar o motivo desta paixão? Sempre tive interesse na área facial, quer estética quer reconstrutiva. Talvez pelo impacto que a desfiguração, deformação, malformação facial ou corporal possam ter do ponto do vista físico, emocional e social, afetando as relações pessoais e profissionais, podendo mesmo algumas pessoas sofrer a chamada “morte social”. Implica também utilizar as técnicas mais adequadas, a co m pa n h a n d o a evolução da especialidade. Privilegiamos tecidos do próprio doente, que são bem tolerados e compatíveis, evitando materiais protésicos com risco de infeção, extrusão, encapsulamento, necessidade de substituição ou revisão. Contudo, temos também utilizado materiais sintéticos biocompatíveis e estamos a desenvolver um projeto na área
de Engenharia Tecidular com o 3Bs (Universidade de Minho), que poderá trazer resultados promissores no futuro.
Quais as principais razões pelas quais alguém se submete e esta cirurgia? São sobretudo pessoas com traumatismos agudos (por exemplo, acidentes de viação, lesões por armas de fogo) ou sequelas de traumatismos, malformações congênitas ou adquiridas (oncológicas, lesões vasculares), queimaduras, entre outras.
É possível recorrer a cirurgia plástica e reconstrutiva sem ter uma patologia propriamente dita? Ou é necessário ter algo “destruído” para se reconstruir? Sim, é possível. Vejamos o caso da cirurgia estética facial e cirurgia plástica de contorno corporal, onde recebemos pessoas que querem atenuar os sinais de envelhecimento (como a queda gravitacional dos tecidos, diminuição do volume) e dispostas a procedimentos de rejuvenescimento, ou ainda quem queira corrigir cicatrizes de várias etiologias.
É difícil chegar até si, ou a outro colega da mesma área? Não, na realidade, atualmente o processo de referenciação no setor
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Educação Médica público pode ser simplificado, dado os hospitais poderem receber doentes de outras áreas de residência, mediante pedido de consulta por parte do médico assistente de Medicina Geral e Familiar. Além disso, tanto eu como outros colegas da especialidade, também damos consultas no sector privado, no qual o doente pode através de
um simples contacto telefónico ou digital, agendar uma consulta.
Transplante facial, é ainda Transplante facial, é ainda uma utopia em Portugal? uma utopia em Portugal?
Existem centros em Portugal centros em Portugal e comExistem capacidade técnica com capacidade e logística para a suatécnica realização, logística para aos sua realização, nomeadamente, com afiliação nomeadamente, os com afiliação universitária. Os candidatos universitária. Os candidatos terão que ser rigorosamente terão que ser rigorosamente escrutinados e deverão ter sido escrutinadospreferencialmente, e deverão ter sido submetidos, ao submetidos, preferencialmente, menor número de procedimentos ao menorautólogos. número reconstrutivos Porém,de há procedimentos reconstrutivos falta de legislação específica para autólogos. Porém, há falta de este procedimento, levantando-se legislação específica para este questões éticas e relacionadas com procedimento, levantando-se a necessidade de imunossupressão questões éticas e relacionadas
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com a necessidade de imunossupressão vitalícia, que acarreta sequelas. Têm-se vitalícia, quealguns acarretaóbitos, sequelas. verificado o que, Têm-se óbitos, o numa verificado cirurgia alguns considerada que, numa cirurgia life-enhancing mas considerada não lifelife-enhancing mas lifesaving, é preocupante, não como no saving, como no primeiroé preocupante, transplante realizado primeiro transplante a nível mundial. Outrosrealizado tipos adenível mundial. Outros alotransplantação ou tipos de de alotransplantação ou de transplante de tecidos compostos, transplante de tecidos compostos, podem também ser considerados podem tambémcomplexos ser considerados extremamente (mão, extremamente complexos (mão, laringe, útero, língua, etc.). laringe, útero, língua, etc.).
Porque há tão poucos casos de sucesso a nível mundial?
funcionalmente satisfatória, gravidade das lesões inicialmente presentes e impossibilidade de otimizar as coaptações nervosas necessárias.
Todos os atos médicos, até mesmo a inércia, podem ter complicações. Quais as principais complicações da Cirurgia de Reconstrução? E da Transplantação Facial? Sim, existem sempre riscos, devendo-se sempre equacionar um plano B ou C. No caso da reconstrução facial autóloga, há risco de infeção, hematoma, necrose de retalhos livres (microvascularizados) ou pediculados, da não integração de enxertos, formação de fístulas, má integração ou exposição óssea ou de placas de reconstrução, lesões nervosas ou iatrogénicas, entre outras.
Para além da questão ética e do enorme planeamento que terá que ser realizado, existem ainda os riscos de infeções graves, aparecimento de situações oncológicas no contexto de elevada imunossupressão, má recuperação funcional devido a No caso do transplante, incompatibilidade morfológica entre dador e recetor, incapacidade existem as consequências que já de regeneração motora e sensitiva referi anteriormente, ou seja, infeções
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Educação Médica graves, incluindo choque séptico, surgimento de lesões neoplásicas ou alterações metabólicas (ex: diabetes, dislipidemia, hipertensão arterial) associadas à imunossupressão, risco de rejeição aguda/crónica, incluindo até complicações psicológicas e a não aceitação da nova identidade.
Qual o caso mais complexo com que se deparou? Se não conseguir falar de apenas um, pode escolher dois. Qual a duração da(s) cirurgia(s)?
fabricação facial complexos, como do 1/3 médio da face, através das costas, para tratar sequelas graves de queimaduras. Poderia citar muitos e distintos casos de reconstrução de grandes defeitos, como os resultantes de osteoradionecrose, de situações oncológicas ou traumáticas.
No SNS, qual o apoio monetário que estes pacientes recebem?
O SNS apoia-os desde o momento da consulta, internamento, estadia em unidade de cuidados intensivos/ intermédios caso seja necessário, medicação, quimioterapia em situações oncológicas, assim Tive vários! como nas sessões de radioterapia, O caso de fisioterapia, entre outras. reconstrução É dado apoio psicológico a total de uma orelha, através estes doentes? de prebabricação Sim! Várias vezes, é fundamental, no antebraço, principalmente em doentes com incluindo biomateriais desfiguramento e evicção social, e transferência pelo risco de depressão, de prejuízo microcirúrgica para da autoestima e de instigação do a face após 3 meses suicídio. (durante esse período, o Terminemos em Coimbra. doente andou com uma orelha no antebraço). A orelha tinha Tem saudades da cidade dos sido amputada após um acidente estudantes? de viação e estava destruída. Sempre. Gostei muito de estudar Devido aos danos existentes nos em Coimbra. É verdade que as tecidos à sua volta, impedindo a épocas de exames do curso de reconstrução com tecidos locais, Medicina eram e continuam a ser este procedimento foi a melhor longas, mas depois existiam aqueles solução. períodos de confraternização, de Já realizámos outros casos de convívio e conhecimento de pessoas
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de outros cursos. Até do tempo em que frequentávamos as salas de estudo, as cantinas, das romarias para a Latada e Queima da Fitas... Estudava muitas vezes na sala de estudo da AAC, embalado ao som dos ensaios das guitarras de grupos de Fado de Coimbra ou tunas. Emocionei-me muito ao ouvir fado de Coimbra no meu último jantar de curso, como ainda hoje ouço Fado de Coimbra para recordar, com saudade, as noites de serenata. Hoje, vivo no Porto e gosto de viver nessa cidade, sou natural de Viseu e gosto de ambas as cidades, mas também tenho um carinho especial por Coimbra, que foi também escola de vida. Saudades ainda de ir ao “Zé Manel dos Ossos”, comer uma “feijoada de javali”... e queremos novamente a Académica de volta à 1a divisão! Obrigado pelo vosso convite.
Doutor Ricardo Horta, só lhe posso agradecer pela colaboração, em meu nome, de toda a ANEMIA e dos nossos leitores. Tenho a certeza que terá um impacto extremamente positivo nos médicos em formação e que os “bem educará”.
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Casos Clínicos 1.
Com a colaboração do Professor Doutor Edgar Tavares da Silva
Doente do sexo masculino, de 55 anos, que se dirige ao Serviço de Urgência com quadro de dor lombar direita que irradia pelo flanco, até ao testículo ipsilateral. A dor teve início há 2 horas, é de intensidade 8 em 9. Não tem posição antálgica e é acompanhada de náuseas e vómitos. Refere ainda que tem aumento da frequência urinária. Ao exame objetivo o doente encontra-se apirético, TA 140/90mmHg, FC 90BPM e saturação de O2 98% em ar ambiente. A percussão do ângulo costo-vertebral direito é dolorosa, mas à esquerda não desperta dor. É um doente com antecedentes de diabetes. Está habitualmente medicado com metformina. Qual parece ser o diagnóstico clínico mais provável? a) Cólica renal b) Colecistite aguda c) Pancreatite aguda d) Hérnia discal e) Gastroenterite aguda O doente apresenta vómitos porque o plexo renal recebe aferentes do? a) Plexo sagrado b) Cadeia simpática látero-vertebral c) Vago d) Plexo celíaco e) Gânglio mesentérico superior Sobre a ecografia, indique a afirmação verdadeira: a) É um exame importante nos casos de cólica renal porque consegue identificar cálculos em toda a extensão do ureter b) É mais importante que a radiografia, porque a maioria dos cálculos renais são radiotransparentes c) Deve ser complementada com radiografia do aparelho urinário d) A presença de dilatação do bacinete e dos cálices renais deve-se sempre a uma obstrução do ureter e) A melhor forma de avaliar o ureter distal é com a bexiga vazia Se és aluno do 1º ano ao 3º ano do MIM, resolve este caso clicando aqui
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Ai Mena, Crack My Case!
2.
Doente do sexo masculino, de 20 anos, vem ao SU por quadro de dor testicular à esquerda com 4 horas de evolução. Nega traumatismo. Nega outros sintomas acompanhantes, tais como sintomas urinários de armazenamento ou febre. Nega outras doenças ou medicação habitual. Ao exame objetivo apresenta o testículo esquerdo horizontalizado e alto na bolsa escrotal. O escroto não apresenta sinais inflamatórios.
Como se realiza a manobra do exame objectivo que poderá realizar para ajudar a confirmar o seu diagnóstico? a) Rotação do testículo, para fora, num movimento de “abertura de livro” b) Percussão do ângulo costo-vertebral c) Elevação manual do escroto, aproximando os testículos do púbis d) Estimulação da face interna da coxa, junto à prega inguinal e) Transiluminação do escroto com ajuda de uma lanterna Qual a primeira atitude clínica? a) Aguardar pacientemente pela realização de ecografia escrotal diagnóstica b) Realizar a destorção manual para dar alta para o domicílio ao doente c) Se necessário, aguardar que o doente faça jejum, para proceder ao tratamento cirúrgico d) Uma vez que já tem 4 horas de evolução, informar o doente que vai ser realizada orquidectomia esquerda e) Contactar o bloco operatório para exploração escrotal imediata Em regra, qual o período de tempo ótimo para identificar e tratar estas situações antes que se tornem irreversíveis? a) 2 horas b) 4 horas c) 6 horas d) 8 horas e) 10 horas Se és aluno do 4º ao 6º ano do MIM, resolve este caso clicando aqui
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Cultural: História da Medicina os atuais.
Contraceção Feminina Inês Sampaio, 4º ano
Ter um filho é o motivo menos frequente pelo qual a maioria das pessoas têm relações sexuais. O planeamento familiar sempre foi uma preocupação do ser humano, que procurou pô-lo em prática mesmo em sociedades regidas por códigos sociais, políticos e religiosos que priorizavam a natalidade. Contudo, os métodos contracetivos utilizados antes do século XX, não eram tão seguros e eficazes como
Alguns séculos atrás, na China, bebia-se chumbo e mercúrio como contraceção, o que muitas vezes levava à esterilidade ou morte da mulher. Na Idade Média, alquimistas aconselhavam as mulheres a usarem testículos ou patas amputadas de doninhas atados às suas coxas e pendurados ao pescoço, para além de amuletos como fígados dissecados e ossos de gatos pretos, para prevenir a gravidez. No Norte de África, os gregos e romanos descobriram uma planta de flor que denominaram “Sílfio”, capacitada de um elevado poder contracetivo e que se tornou num sucesso tal, que era vendida ao preço da prata, acabando por se extinguir pela sua sobre-exploração. Mulheres da Índia tropical e Sri Lanka, comiam uma papaia por dia para contraceção e, de facto, de acordo com estudos realizados em 1993 por uma equipa de investigação inglesa, esta fruta possui uma enzima que interage com a progesterona e valida este costume. A partir do século XVI, o medo de que o ensinamento dos métodos de contraceção resultasse em acusações de heresia e bruxaria, com punições de tortura e até mesmo de morte, levou a um decréscimo na sua procura e investigação. Em 1914, Margaret Sanger, uma ativista norte americana, foi acusada judicialmente por distribuir por correio uma revista chamada “The Woman Rebel”,
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Fonte: WHO
onde criticava as restrições legais nos EUA relativas à contraceção. A Lei, de 1873, enunciava que era crime informar, aconselhar ou medicar com vista à contraceção ou aborto, e proibia a menção por escrito de doenças sexualmente transmissíveis. Margaret defendia que “a maternidade forçada, era a completa negação do direito da mulher à vida e à liberdade” e, apesar de ter sido condenada a 30 dias de prisão por criar a primeira clínica de controlo de natalidade, não baixou os braços. Após ter sido libertada, ganhou um recurso em tribunal que veio a permitir os médicos aconselharem sobre a contraceção. Em 1921, fundou a Liga Americana de Controlo de Natalidade.
e do endométrio. Recentemente, tem-se desenvolvido uma pílula masculina, que poderá ser um passo importante para um maior equilíbrio nas responsabilidades contracetivas.
Foi nos EUA, no ano de 1960, que a primeira pílula foi aprovada. Era eficaz e de simples uso, mas tinha vários efeitos adversos, devido às suas elevadas doses hormonais. A eficácia da pílula atual como anticoncecional ronda os 100% e, mais ainda, protege contra a doença inflamatória pélvica, cancro do ovário
O aparecimento de um método contracetivo acessível e de fácil uso como a pílula, promoveu o planeamento familiar, um menor número de gravidezes indesejadas, uma menor incidência de abuso, negligência infantil e abortos clandestinos.
Segundo um estudo da OMS realizado em 2019, 58% das mulheres em idade reprodutiva utilizam métodos contracetivos. A pílula é um dos métodos preferidos e há já 58 anos que faz parte da vida das mulheres portuguesas. Não só diminuiu drasticamente a morte neonatal e melhorou significativamente a saúde materna e infantil, como também contribuiu para que as mulheres tivessem maior liberdade nas suas escolhas de vida, conseguindo progredir a nível educacional e profissional.
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Cultural: História da AAC
Dia do Estudante Josefa Guerra, 4.º ano
O dia 24 de março passa despercebido como qualquer outro dia do ano. No entanto, é tradição já antiga deste Dia do Estudante, além de celebrar a vida académica inerente ao ser-se isso mesmo – estudante –, destacar os problemas por estes vividos e procurar por soluções, habitualmente de forma bem audível. Exemplos são os programas de reivindicação que muitos movimentos associativos jovens têm vindo a realizar. Salta à vista o Querido, Mudei a UC, liderado pela Associação Académica de Coimbra em 2019, que visou, entre campanhas de divulgação e ações de sensibilização, procurar resposta a três dos grandes problemas vividos no dia a dia dos estudantes
do Ensino Superior: Cantinas, Residências e Salas de Estudo. As Cantinas Amarelas, recémrenovadas, tinham então reaberto portas à comunidade estudantil. No entanto, não contemplavam o serviço de “Refeição Social”. Os estudantes da Direção-Geral da AAC adquiriram a “Refeição Social” nas Cantinas Azuis, localizadas a uma passadeira de distância (e cuja capacidade é claramente diminuta para o universo de estudantes que dela usufrui), deslocaram-se até às Cantinas Amarelas e lá consumiram a sua “Refeição Social” como forma de protesto, no âmbito do Querido, Mudei a UC. Um gesto tão simples quanto levar um tabuleiro de comida para outro local, foi ouvido: a Universidade de Coimbra comprometeu-se a instaurar a “Refeição Social” nestas cantinas. No que respeita às Residências e Espaços de Estudo, o problema parece ser o mesmo: não são suficientes. As associações de estudantes vêem-se obrigadas a criar espaços de estudo próprios, para colmatar a insuficiência dos espaços disponibilizados pela Universidade de Coimbra. Um exemplo gritante é visível no Polo das Ciências da Saúde, cuja biblioteca tem uma capacidade exponencialmente inferior ao número de alunos que esse mesmo polo alberga, obrigando os estudantes a procurar alternativas. A estes problemas, juntam-se os recém-criados (talvez recémexacerbados, ou mesmo, atrevo-
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me a dizer, recém-expostos) pela situação pandémica que atravessamos. Um estudo da AAC, datado de janeiro de 2020, auscultou mais de 1500 estudantes do Ensino Superior, apresentando resultados aterrorizantes: 7 em cada 10 alunos ponderaram abandonar o Ensino Superior. Pior, 1 em cada 5 ponderou tirar a sua própria vida. “Não podemos encarar estes dados como menos do que são: alarmantes”, diz o Presidente desta associação estudantil, João Assunção. É esta a realidade que vivemos atualmente. Mesmo não nos afetando diretamente, pode muito bem afetar o colega que costumava estar na fila da cantina atrás de nós; o colega que ficava na residência ao fim de semana porque esta tinha melhores condições do que a sua própria casa; o colega que parecia bem, mas passava dificuldades em silêncio. Acredito que neste 24 de março de 2021, a reivindicação por condições e apoios dignos é ainda
mais importante. Urgem medidas de apoio para os que perderam o chão com a pandemia (e para os que já não o tinham). Por isto e por muito mais, além de reivindicar, temos de ser uns para os outros. Vamos todos alargar a celebração deste Dia do Estudante e passar para a ação, olhando para os nossos colegas e perguntando se estão bem e se precisam de ajuda. Por vezes, fazer a diferença está ao nosso alcance e custa tão pouco. Vamos trabalhar juntos para que um estudo futuro reporte que nenhum estudante ponderou abandonar os Ensino Superior pela sua condição socioeconómica; pela falta de ajuda psicológica; por não ter ninguém com quem falar. Os 7 em cada 10 e o 1 em cada 5 não podem ocorrer. E cada um de nós pode contribuir com o simples prestar atenção e estar lá para quem precisa.
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Cultural: Médicos da Minha Terra
Dr. Maçãs Sara Gama, 2º ano
Todos estamos bem cientes do impacto que um médico consegue ter na nossa vida. Já todos experienciámos situações marcantes num consultório médico, tanto pela positiva como pela negativa, ou, pelo menos, já ouvimos com certeza relatos de tais acontecimentos. Na segunda edição desta rubrica, trazemos a história de um médico que marcou a vida de inúmeras pessoas: Carlos Maçãs Nogueira, mais conhecido simplesmente como Dr. Maçãs. Oriundo de Ribeira de Nisa, no concelho de Portalegre, frequentou o curso de Medicina na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Terminados os estudos, regressou à sua terra natal, onde começou a exercer num consultório construído pela freguesia. No entanto, a sua atividade médica não estava de todo confinada aos limites daquelas quatro paredes, ia muito além disso. Sempre que era necessário, deslocava-se às restantes povoações pertencentes à freguesia, para que nunca ninguém ficasse impossibilitado de ter o diagnóstico e o tratamento de que necessitava.
Fosse chamado de dia ou às mais altas horas da madrugada, o Dr. Maçãs estava sempre disponível, “sempre pronto para atuar”, partindo em direção à casa do doente que dele precisava, inicialmente deslocando-se a cavalo, mais tarde numa charrete e, por fim, num automóvel. Era o médico “de todas as especialidades”. Procurava ao máximo ajudar os doentes dentro do seu vasto leque de conhecimentos. Inclusivamente, acabou por se tornar numa espécie de dentista daquela freguesia: tratava cáries, arrancava dentes e colocava próteses dentárias modernas que trazia de Coimbra para Ribeira de Nisa. Tentava ainda evitar que as pessoas se tivessem de deslocar de propósito às grandes cidades e aos seus hospitais, algo
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que, por vezes, se revelava deveras crescimento. Penso que nunca se complicado. poderá aspirar ser um profissional Muitas foram as consultas de saúde realmente bom, se a que não cobrou, já que alguns empatia for posta de lado. Para isso, dos habitantes da região não tem de partir de cada um de nós, tinham capacidade financeira futuros médicos, não esquecer a para tal. O que considerava parte Humana inerente à profissão verdadeiramente importante, era e recordar vivamente exemplos de que todos recebessem os cuidados médicos como o Dr. Maçãs. adequados, independentemente do seu estatuto social ou das suas posses.
Exerceu ininterruptamente até ao final da sua vida, quando já tinha ultrapassado a marca dos 80 anos de idade. Recordado com ternura por muitas das pessoas que tratou como sendo alguém “muito humano, o amigo de toda a gente”. Após falecer, foi erguido um busto seu no centro da aldeia, em forma de homenagem ao trabalho e à dedicação de uma vida inteira. Encaro esta história de vida com olhos repletos de admiração e respeito. Um médico humilde, acessível e empático, qualidades que, infelizmente, parecem estar a entrar em vias de extinção no “currículo” de bastantes médicos com os quais nos cruzamos hoje em dia. Muitos serão, talvez, os que virão rapidamente em defesa destes profissionais, desculpando-os pelos seus inúmeros anos de serviço, alegando que contribuíram para os “endurecer”. Não é minha intenção negar que tal possa acontecer. No entanto, gostava que esta não se tornasse uma tendência em
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Com a colaboração de Ana Catarina Pastilha, 5º ano
Escrita Livre
De Todas as Cores Francisca Pinho Rocha, 6º ano
Gostava de acreditar que o mundo se pinta numa tela cheia de cores, cheia de vida, onde a mistura e a diversidade ganham formas bonitas e não causam dor, sofrimento, desrespeito. Gostava de acreditar que o mundo se pinta numa tela cheia de cores onde todas elas são vistas de igual forma. Onde o preto-preto se confundisse com o branco-velho, com o branco-sujo, com o amarelo-torrado. Onde o “cor de pele” não desse nome a um dos lápis, mas sim a todas as variedades de cores que compõem uma paleta. Gostava que o mundo a cores fosse um lugar melhor onde, para lá da pele, o coração pintasse e nutrisse os nossos sentimentos por inteiro e não fossem criadas opiniões com base no nosso tom. Vivemos tempos em que a luta pelos mesmos direitos começa a ter alguns frutos, é certo, mas também o é que, ainda hoje, milhares de pessoas sofrem de racismo, xenofobia e ataques pessoais, simplesmente porque existem. Paradoxos à parte, nenhum de nós é igual e, por isso, também nenhum é diferente. Somos feitos do mesmo e é no mesmo que encontramos as magníficas diferenças que nos tornam especiais e únicos. Segundo o relatório anual sobre discriminação do Conselho da Europa, “estamos a viver um agravamento das desigualdades”. Talvez essas desigualdades tenham sido provocadas pela pandemia, pela diminuição do respeito pelo próximo – sendo o próprio umbigo prioridade suprema
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- perante situações de crise mundial, mas também pela diminuição das condições de vida das comunidades ciganas e outras minorias, ou, ainda, ligadas ao aumento de ataques contra muçulmanos e judeus. Pensar que existem desigualdades é inevitável. Claro que existem desigualdades, claro que existirão sempre. Creio que são essas mesmas diversidades (porque prefiro diversidade a desigualdade) que fazem de nós tudo aquilo que compõe as múltiplas formas de vida. A diferença não deveria ser uma preocupação. A diferença deveria ser aceite, ser incentivada, ser acentuada, ser estimulada, acolhida e recebida de braços abertos por todos. A diferença deveria ser tão banal que se tornaria, sem darmos por isso, na igualdade de todos: o direito de ser para lá da cor que pinta os nossos corpos porque, mais importante do que o tom que nos bronzeia no verão, será – sempre, a cor do sangue que nos corre nas veias e, esse, é invisível a olhos nus.
Sugestões: Livros: “O Ódio que Semeias” de Angie Thomas, “Eu e a supremacia branca”de (Layla F. Saad), “Sou Um Crime” de Trevor Noah, “Why I’m no Longer Talking to White People About Race” de Reni EddoLodge Filmes: “ Selma”, “Mãos Talentosas”, “ A Cor Púrpura” Séries: “13th”, “When They See Us” Associações: SOS racismo, FEMAFRO
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Mais importante do que o tom que nos bronzeia no verão será – sempre – A cor do nosso coração.
Escrita Livre
Luís Bernardo Fernandes, 4º Ano
Amendoeira em Flor Num robusto arvoredo, Semeias a tua esperança E, em tão ínfimo penedo, Vejo raízes de lembrança.
PO)E(MAS)!
Amendoeira colorida em flor, Que me dás todo o teu esplendor, Em tão inocentes flores puras, Que nesses teus braços seguras. Encerras doce fruto proibido, Que não menos me é apetecido, Quando foge do meu alcance, Por mais que queira e me canse. Semeia os meus áridos terrenos, Que esperam teus doces venenos, Já regados de toda a confiança E ávidos por tempos de bonança.
Cria a palavra, Renasce do pó, Evita o nada Da vida que não é! Hoje, Como ontem, O ausente presente, Que se dá sem mas... Meras palavras! Evidências dadas, Que o vento levou E o poema juntou.
Belo hino à Natureza! Que alarga meus horizontes Para além dos altos montes Com o enlevo de beleza.
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Hipnose Olhei-me do monte mais alto E revi o meu sobressalto, Em hipnose ou sono profundo, Eu hoje tomo parte do mundo E planto, em pranto errante (Nómada hesitante), O elevar vagueante do norte, Fazendo da sorte o sim da estrada. Sabei que eu recomecei a jornada! Sabei que usei de novo a enxada Para encher de tudo esta terra de nadas. Sim, plantei crianças e fiz mares azuis, Levantei marés e toquei as estrelas, Roubando centelhas ao fogo dos céus. Depois libertei a dor dos infernos E amainei os ventos desertos de cor. Por fim, vi o amor na raiva da dor E a terra engravidar de esperança... Assim vi nascer a lembrança!
Vida Primaveril A vida deve ser total Primavera Qual doce e fantasiosa quimera, Descobrindo em cada cheiro novo anseio E em cada vista nova eterna conquista. Afinal, ser só o somos uma vez E inteiro seremos se, com avidez, Nesta fugaz e traiçoeira passagem Pincelarmos a vida qual bela miragem.
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Escrita Livre Corpos enl(am)eados Ana Catarina Pastilha, 5º ano
Com pegadas nervosas de lama, Espezinhas-te a sujidade visceral Conspurcada Por quem já não te ama. Beijos de fel Banham o teu corpo de nojo, Fazem-te querer arrancar a pele. (L)ama com mel. Suspiros disfarçados de gritos Amordaçados. Reprimendas rarefeitas em lágrimas Correm dos olhos dolorosos e cansados. Corre o rio do tempo nas tuas marcas, Semanas em que não revives tudo são parcas. Pensamentos abomináveis, Vida em ansiedade por sonhos insufláveis. Mas procuras renascer na Primavera do teu ser: Semeias força nas cicatrizes do sofrimento, Deixas lentamente o teu amor no coração crescer, Inalas a felicidade dos momentos bons a florescer!
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Sugestões de leitura Não sabes o que hás de ler a seguir? A aNEMia ajuda-te! Eis algumas das obras mais especiais para a nossa equipa:
“Memorial do Convento”, José Saramago
“Nunca me Deixes”, Kazuo Ishiguro
“Nunca Te Distraias da Vida”, Manuel Forjaz
“Pachinko”, Min Jin Lee “Six of Crows”, Leigh Bardugo
“O Peso do Pássaro Morto”, Aline Bei
“Maus”, Art Spiegelman
“Toda a Luz que Não Podemos Ver”, Anthony Doerr
“Confissões”, Kanae Minato
“A Redoma de Vidro”, Sylvia Plath
“Ratos e Homens”, John Steinbeck
“Next”, Michael Crichton
“O Retrato de Dorian Gray”, Oscar Wilde
“Ensaio Sobre a Lucidez”, José Saramago
“1 minuto e 36 segundos”, Pilar Burillo Simões
“A Ilha”, Aldous Huxley Boas leituras!
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