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61ª Edição da aNEMia: Entre(meios)

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Editorial Esta edição numerada centra-se essencialmente no tema das relações interpessoais e de todos os processos que intermedeiam esta capital componente da vida humana. Para isso, abordamos projetos nos quais acreditamos, damos voz a pessoas que nos inspiram e debatemos áreas que requerem a nossa atenção, com o rigor e os fundamentos necessários, bem como a empatia e a cosmovisão que nos caracterizam. Saliento também que nunca nos disseram que seria fácil mudar o Mundo apenas com um papel e uma caneta, mas somos inequívoca e irrevogavelmente sonhadores e, como tal, não há nada que nos desencoraje. A 61ª edição é, portanto, resultado de uma série de Entre(meios). Assim, e em nome da fantástica equipa que compõe a Revista aNEMia, desejo ao caríssimo leitor uma agradável experiência. A Coordenadora da aNEMia, Maria Nunes Gomes, 5º ano 61ªEdição – abril de 2022 Propriedade do Núcleo de Estudantes de Medicina da AAC Pólo das Ciências da Saúde da Universidade de Coimbra Subunidade 1 da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra Azinhaga de Santa Comba, Celas, 3000-548 Coimbra geral@nemaac.net www.nemaac.net anemia@nemaac.net revistanemia.blogspot.com Departamento da aNEMia Direção: Maria Nunes Gomes Redação: Ana Sousa, Andreia Nossa, Bernardo Monteiro, Inês Pires, Inês Serafim, Margarida Simões, Maria Inês Esteves, Maria Inês Ramalho, Pedro Silva, Rita G. Rodrigues, Rodrigo Fortes Revisão: Ema Felgueiras, Maria Inês Ramalho Design e Grafismo: Madalina Birsanu Capa e Contracapa: Maria João Santo Distribuição Gratuita

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Índice

Nosso Mundo-4

A atualidade desatualizada da MGF Viver em acolhimento

8-Mundo de Todos

Educação Médica-12

À distância de uma agulha Não te esqueças da pílula

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades A cultura do Individualismo – S.O.S.

Casos Clínicos-20

Escrita Livre-26

17-Entrevista: Dra. Andreia Gi

22-Cultural História da Medicina: Higiene Médicos da Minha Terra

Crónicas sobre dizer, ver e escutar Reflexão sobre o Mundo A luz que roubou Casa de madeira A senhora assustadora

31-Sugestões Literárias e Cinematográficas 3


Nosso Mundo

A atualidade desatualizada da MGF Margarida Fonseca Simões, 2º ano

“A clínica geral é a mais fácil no mundo de se fazer mal, mas a mais difícil de se fazer bem.” (Denis Pereira Gray) Este é o mote que introduz uma das especialidades médicas mais abrangentes e amplamente conhecida por todos: a Medicina Geral e Familiar (MGF). Esta é uma especialidade que promove os cuidados de saúde a todos, independentemente da idade, género, etnia ou estado de saúde, de forma personalizada, global, acessível e em continuidade. Destaca-se pela sua prática que assenta vivamente no modelo biopsicossocial que inclui, por sua vez, os dados da pessoa, o seu passado, a sua estrutura familiar e o contexto da sua comunidade e entende que a interação com a pessoa pode ser, por si só, terapêutica. No entanto, e injustamente, a sua ampla abrangência e generalidade tem sido confundida com indiferenciação: como se um médico de MGF não tivesse nenhuma especialidade específica e como se os cuidados de saúde primários fossem sinónimo de um cuidado de saúde incompleto. Esta ideia está errada e deve ser desmistificada. A verdade é que o panorama da especialidade em causa denota uma crescente falta de interesse por parte dos médicos recém-formados: em 2021, segundo a Administração

central do sistema de saúde, foi uma das especialidades que ficou com vagas por preencher. A problemática da escolha de especialidades médicas tem sido estudada noutros países onde se verifica o mesmo fenómeno da anunciada crise dos Cuidados de Saúde Primários e do denominado declínio da Medicina Geral e Familiar. Em Portugal, vários autores, que vislumbram um reduzido número de médicos de família portugueses num futuro próximo a par do declínio do interesse dos estudantes de medicina e dos jovens médicos por esta disciplina, têm manifestado uma crescente preocupação no sentido de alertar os decisores políticos para a redução do número de médicos da carreira de MGF. Estes autores advertem, assim, para a necessidade do desenvolvimento de medidas eficazes no contexto do exercício profissional desta atividade, assim como a criação de estratégias que permitam orientar as escolhas dos jovens médicos no sentido da medicina preventiva e dos cuidados primários. O padrão de escolha dos últimos anos revela um maior volume de escolhas desta especialidade centrado nas classificações mais baixas e parece transformar a opção pela MGF num recurso para quem não consegue uma especialidade interpretada como “melhor”. Vários estudos têm explicado que este declínio da MGF é fortemente influenciado pelo poder da tecnologia e pelos desafios e exigências de uma sociedade em mudança: a atração pelas especialidades hospitalares, que refletem a imagem da tecnologia, proporcionando maior prestígio em termos de cultura médica, é uma realidade que tem repercussões sobre as escolhas profissionais dos jovens médicos, na atualidade. De facto, cada vez mais se verifica que os estudantes não estão interessados em disciplinas generalistas (em 2018, passada já

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uma semana da abertura do concurso à especialidade, 80% das vagas ainda por preencher correspondiam precisamente a MGF e a medicina interna) e preferem as especialidades orientadas para os procedimentos técnicos, mais bem remuneradas, pelo que escolher ser médico de família, hoje, é encarado como uma escolha corajosa. Corajosa também no sentido de procurar contornar os obstáculos organizativos e logísticos que têm sido encontrados para a plena concretização da prática da clínica geral. Estes decorrem do sistema retributivo, das rotinas dos profissionais, do modelo funcional dos centros de saúde, das expectativas dos utentes e do, por vezes, deficiente funcionamento da equipa de saúde. É, ainda, de notar que no Plano de recuperação e resiliência enviado pelo governo português a Bruxelas, em 2021, foram descritas ao pormenor as falhas dos sistemas digitais do SNS, nomeadamente, as tecnologias obsoletas utilizadas que, compreensivelmente, afetaram de um modo particular o desempenho das funções dos cuidados de saúde

primários, face à pandemia da COVID-19. Fica, então, claro que o acompanhamento deste declínio da MGF é cada vez mais urgente, especialmente, num país como Portugal onde existem mais de meio milhão de pessoas sem médico de família. A adoção de sistemas retributivos mais bem adaptados à prática da medicina geral e familiar que privilegiem o trabalho organizado em equipas multidisciplinares, baseando-se no princípio da “discriminação positiva”: pagar melhor a quem trabalhar melhor e a reorganização dos centros de saúde podem constituir as bases de uma reforma estrutural do sistema de saúde, que permita resolver a crise verificada nos cuidados de saúde primários. É neles que deve começar o processo terapêutico e, portanto, o seu melhor desempenho conduzirá ao primeiro passo para o melhor funcionamento subsequente de todo o sistema de saúde.

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Nosso Mundo 2.

Viver em acolhimento Maria Inês Esteves, 3.º ano

1.

Entrada

Em Portugal e no mundo, existem muitas crianças, que, por distintos motivos, ficaram privadas de cuidado parental. É importante referir que as diferentes fases da infância ajudam a construir a identidade pessoal e a definir algumas características, para sempre definitivas. É, também, a fase em que a criança mais depende das pessoas à sua volta, sendo essa a característica principal da qual resulta a sua vulnerabilidade. Lamentavelmente, algumas crianças não recebem, por parte dos adultos responsáveis, os cuidados necessários para o seu desenvolvimento, sendo muitas vezes despojadas da sua dignidade. Em alguns casos ocorrem, inclusive, episódios de agressão com consequências abismais no desenvolvimento da criança. Quando estes casos são detetados a tempo, são iniciados vários processos jurídicos, que contam com o envolvimento de assistentes sociais, tribunais e Comissões de Proteção de Crianças, cujo resultado poderá ser o estabelecimento de medidas de acolhimento residencial com acordo de promoção e proteção, ou até entrada no sistema de adoção. Em 2020, um total de 6.706 crianças e jovens estavam em instituições de acolhimento. Existem inúmeras instituições reconhecidas por terem esse papel na sociedade. Dá-se o exemplo da Casa do Pai - Bissaya Barreto Foundation, Aldeias de Crianças SOS, Casa do Gaiato, entre outros Centros de Acolhimento Residencial que se destacam pelo seu papel ativo em Portugal.

Estadia

Em acolhimento residencial, proteger, reparar, cuidar e educar crianças com passados marcados por vazios afetivos, maus tratos, negligência e abuso, são tarefas de responsabilidade e compromisso profissional exigentes, uma vez que a criança necessita de um investimento acrescido e de poder estabelecer uma vinculação segura com adultos cuidadores. Aliás, numa instituição de acolhimento, quando a criança tem capacidade de o fazer, estabelece, normalmente, um vínculo com mais do que uma figura parental (cuidador). Dá-se o exemplo d’A Casa do Pai, que se destaca por investir na reconstrução psicoterapêutica da condição de vitimação a que a criança esteve precocemente sujeita, iniciando um caminho de reparação da devastação provocada pelo trauma. Devem reunir-se as condições adequadas que promovam a reparação dos sentimentos de abandono e de rejeição através da criação de vínculos com os cuidadores da instituição. No entanto, apesar do importante papel desta e outras instituições em Portugal, pode acontecer o caso do vínculo poder ser caracterizado como pouco seguro e incoerente. Está, de certa forma, relacionado com o facto de o cuidador trabalhar, de forma remunerada ou não, na instituição. O papel de cuidador é atribuído, pela criança, a alguém que a poderá ver como um trabalho e função. Em certos casos, porém, mesmo sem intenção de o fazer, o cuidador não cumpre o seu papel da melhor maneira. Dá-se o exemplo de desistência ou demissão destes cargos ou até a própria pandemia, que influenciam negativamente a estabilidade necessária inerente ao estabelecimento de um vínculo. Faz-se, deste modo, um alerta para quem tenciona, no futuro, envolver-se com alguma instituição de apoio a crianças nesta situação. Torna-se necessário ter consciência que estas crianças estão habituadas à instabilidade

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e que, a perda injustificada de um cuidador pode ser mais prejudicial que propriamente o bem feito durante o tempo que a pessoa lá ficou. Refletir se se pretende realmente estabelecer um compromisso com elevada responsabilidade emocional, deve ser feito antes de começar a trabalhar com os menores. 3.

Sair de uma instituição

Se fizermos uma reflexão sobre o processo individual e familiar que antecede a entrada num sistema de acolhimento, ficamos, certamente, reticentes. É, no entanto, crucial mencionar que o processo de saída do próprio sistema é, por si só, um verdadeiro desafio. Os jovens adultos são colocados à prova. Não só nascem inúmeras questões burocráticas e responsabilidades para as quais estes não estavam preparados, como é mais uma instabilidade na sua vida. É necessário ter em consideração que muitos destes jovens não têm ainda maturidade ou saúde mental que lhes permita iniciar uma vida estável sozinhos. Aliado a traumas de infância, instabilidade fa-

miliar e inúmeros problemas socioeconómicos e comportamentais que daí advêm, o processo de saída tem vindo a ser associado a várias perturbações de desenvolvimento comportamental e, consequentemente, a dificuldades na adaptação para a vida autónoma. Deste modo, refere-se o exemplo da instituição Solar do Mimo, que, para além de ser um Centro de Acolhimento de crianças em risco, desenvolve inúmeros outros programas que tentam dar resposta às necessidades da comunidade. Entre eles destaca-se o projeto “Na Rota da Autonomia”, que nasce de uma necessidade clara de proporcionar a estes jovens oportunidades de aprendizagem e competências para a vida autónoma, permitindo a continuidade de resultados efetivos. De nada serve acompanhar uma criança até à data legal estabelecida, sem garantir a continuidade e individualização do mesmo apoio até que esta seja capaz de lidar com as adversidades que a vida lhe impõe.

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Mundo de Todos

À distância de uma agulha Ana Isabel Coelho de Sousa, 4º ano Caminhamos para um futuro onde a aparência é mutável, ou por necessidade, vaidade ou capricho. Estará a cirurgia plástica, e tudo o que lhe está associado, a mudar a forma como nos vemos? Nos anúncios, apresentam-nos uma fonte da juventude após injeções indolores, a promessa de um Instagram body, um rosto a fazer duelo com o melhor filtro. Se, por um lado, temos quem se aventure, sem sequer questionar, nas maravilhas da medicina estética e da cirurgia plástica, por outro lado temos os mais conservadores e moralistas que defendem que nascemos com determinadas características que não devemos mudar, porque fazem parte da nossa herança genética e cultural, a não ser que tenhamos tido o azar de nascer ou de adquirir alguma deformidade ao longo da vida. Hábitos como tomar banho, usar maquilhagem, pintar o cabelo, as unhas, fazer a depilação, são socialmente bem aceites na maioria das comunidades. Mas quando o as-

sunto escala para a cirurgia estética, em que tudo se pode tornar mais arriscado, doloroso e permanente, o moralismo intensifica-se. Ninguém fica indiferente com procedimentos milagrosos como reconstruir maxilares com osso das pernas ou preencher maçãs do rosto com gordura e tecido do paciente. Remontando a algumas décadas atrás, já se tentava fazer o possível para devolver a aparência original, ao longo de vários anos, de homens que voltavam desfigurados da guerra. Quando os próprios tecidos da pessoas não eram viáveis e não se conseguia de outra forma, contratavam-se artistas para fazer máscaras prostéticas. Já desde aí, não procuravam apenas a funcionalidade, mas também a forma. Esses cirurgiões muitas vezes ajudavam judeus a apagar sinais étnicos para passarem despercebidos e isso acabou por incluir a cirurgia plástica no espetro como algo que se pode fazer apenas por estética. Atualmente, a cirurgia plástica, sendo mais barata, segura, acessível e havendo vários tipos de fornecedores, tornou-se um serviço como outro qualquer, com um vasto leque de valores. Qual é a diferença entre conceitos como “rotina” e “radical”? Será um sutiã push-up radical? E um aparelho ortodôntico ou depilação definitiva? Tirar um sinal? Fazer criolipólise? Enchimentos? Botox? Este último, por exemplo, era visto como algo que os famosos excêntricos faziam, “injetar veneno no rosto”. Mudou radicalmente. Agora há menos culpa, cada um escolhe o seu espetro de procedimentos. Depende de quem somos e da cultura de onde provimos. Há locais onde a cirurgia estética é rotina, um ritual de passagem. Ivo Pitanguy, um cirurgião de ricos e famosos de renome mundial, encontrou na cirurgia estética um negócio lucrativo e comprou a sua ilha privada, mas também operou pobres pro bono, o que lhe valeu o título de “Papa da cirurgia plástica”. Criou técnicas de abdominoplastia com costuras debaixo da linha do biquíni, inovou

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em mini lifts faciais menos invasivos e desenvolveu o Brazilian Butt Lift, uma cirurgia onde é sugada gordura de qualquer parte do corpo, normalmente coxa ou barriga, e depois injetada no rabo. Tornou-se uma das mais requisitadas. Um sociólogo alegou que o ideal de beleza das curvas remontava às escravas africanas que carregavam os filhos dos donos brancos, dando azo a experiências estéticas que evitavam exageros “africanóides”. A obsessão por rabos grandes, por exemplo, é claramente uma apropriação, e agora as mulheres negras sem esse tipo de corpo são vistas como menos negras ou como mulheres negras menos atraentes. A atuação da cirurgia plástica tornou-se uma mescla de traços de várias etnias. Os olhos amendoados e os lábios volumosos foram ridicularizados em caricaturas racistas durante séculos, mas são hoje dos procedimentos mais desejados. Há uma certa expectativa da aparência que devemos ter, quase como norma social, especialmente no mundo ocidental. E torna-se um círculo vicioso. Fazemos escolhas para nos aproximarmos do

ideal de beleza e isso ajuda a reforçá-lo, afastando o alvo de perfeição ainda mais. O problema reside no facto de, nesse ímpeto de alcançar cada vez melhores resultados, se adotarem práticas profundamente nocivas e arriscadas, contudo vistas como benéficas. A que custo? Já vários investigadores tentaram medir os benefícios da cirurgia plástica e os resultados foram contraditórios. Conclui-se, no entanto, que em geral parece melhorar a qualidade de vida. Permite a algumas pessoas uma existência mais facilitada. A outros permite-lhes afirmar a sua identidade de género. Talvez o mérito, o valor próprio e a autoconfiança não sejam ideais arbitrários… Individualmente, a medicina estética pode ser opressiva ou empoderadora. Idealmente viveríamos num mundo onde não precisaríamos de cirurgias para sermos a nossa melhor versão, mas talvez devêssemos parar de ter menos conversas sobre o lado bom e mau da cirurgia plástica, e mais sobre o que significa ser alguém num corpo marginalizado e por que motivo a desejabilidade é tão importante para essa experiência.

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Mundo de Todos

Não te esqueças da pílula

Maria Inês Esteves, 3.º ano

Encontra-se, nas próximas páginas, uma reflexão referente à controvérsia dos métodos contracetivos. Temas como a desigualdade de acesso a informação e a soluções, incongruência da influência dos mesmos métodos nas diferentes comunidades, bem como a assimetria discrepante na oferta para o sexo feminino e masculino serão aprofundados. Tentar-se-á apresentar uma justificação fundamentada, à luz de domínios científicos e histórico-sociais, que interprete a ideia da (anti)conceção no mundo atual, como o resultado de diferentes vertentes infundidas que competem entre si e com a ética na obtenção de resultados práticos. Os métodos contracetivos mais utilizados, atualmente, são os contracetivos orais, disponíveis apenas para a mulher, sendo utilizados por, pelo menos, 19% dos elementos deste grupo. Estamos todos cientes, porém, dos efeitos secundários que acarreta a primeira opção. Ganho de peso, alteração da durabilidade e fluxo menstrual, náuseas, alterações de humor e líbido, acne, aumento de pilosidade, cefaleias e aumento do risco de trombose são exemplos dos inúmeros efeitos secundários associados à toma da pílula, e parecem ser preferíveis a uma gravidez indesejada. Não obstante, nem sempre foi uma opção fazer uma escolha informada, com o devido acompanhamento médico que introduzir uma terapia hormonal deveria pressupor. A pílula foi introduzida pela primeira vez no mercado, em 1960, com o nome de ENOVID nos EUA, altura em que separar o ato sexual da possibilidade de reprodução se tornava

uma necessidade com crescente urgência. Assim, em 1950, iniciaram-se os primeiros ensaios clínicos em mulheres porto-riquenhas. Acreditava-se, na altura, que elementos que viviam na pobreza ou sofriam de uma patologia psiquiátrica, deveriam ser “limpos” do mundo para criar espaço para membros mais ajustados, e foi nesta perspetiva que nasceu o primeiro ensaio clínico anticoncecional. É de referir que, na altura, um terço das mulheres porto-riquenhas eram submetidas, involuntariamente, a histerectomias após o nascimento da segunda criança, devido a políticas internacionais. Quem participou neste ensaio? Mulheres, com um nível de escolaridade baixo, que não sabiam que estavam a fazer parte de um ensaio clínico, não tinham acesso a acompanhamento médico personalizado e desconheciam a potencialidade dos efeitos secundários associados à toma da pílula. O resultado registado foi positivo, uma vez que, devido às doses hormonais elevadas, a eficácia na prevenção de uma gravidez era de 100%, tendo sido colocada no mercado em 1960. E voltamos ao início da nossa história. A 1ª pílula hormonal, ENOVID, continha 10x mais hormonas que o necessário, sendo que os efeitos secundários não eram reportados, nem estavam devidamente estabelecidos. É crucial ter consciência de que só após audiências, manifestações, protestos, e inúmeros ensaios não éticos é que, hoje, temos acesso a métodos

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concretos e transparentes que permitem à sua utilizadora realizar uma escolha informada com o devido acompanhamento médico. A verdade é que, para algumas mulheres, estar submetida a efeitos secundários de um método contracetivo é o preço a pagar pela sua emancipação. Relativamente à contraceção masculina, esta tem sido tópico de pesquisa há aproximadamente 50 anos. Atualmente, contrastando com as inúmeras opções disponíveis para as mulheres, os únicos métodos disponíveis para o homem são o preservativo, vasectomia cirúrgica e coito interrompido. Embora o esforço crescente para arranjar uma solução reversível viável, esta parece não estar disponível, e não existe, atualmente, nenhum método contracetivo hormonal disponível para o homem. Entre as inúmeras vantagens relacionadas com a disponibilidade de contraceção masculina no controlo demográfico, esta permitiria que o homem partilhasse a responsabilidade com a mulher na prevenção de uma gravidez. Porque é que não existem métodos contracetivos para homens? Existem vários desafios, nomeadamente, a falta de financiamento da indústria farmacêutica e de aceitação por parte da comunidade masculina e existência de efeitos secundários associados. Estes incluem dor associada à injeção, acne, ganho de peso, alterações de humor e líbido. Como uma gravidez indesejada não representa um risco direto para a saúde física dos homens, e não existem estudos viáveis que explorem os riscos mentais e económicos de uma gravidez indesejada para o sexo masculino,

torn a - s e impossível estabelecer uma comparação de risco viável, o que faz com que a contraceção masculina tenha de atingir uma fasquia de qualidade elevadíssima comparativamente com a do sexo oposto. O resultado prático traduz-se na realidade de que um medicamento, com exatamente os mesmos efeitos secundários, possa ser aprovado para a mulher e não seja aprovado para o homem. Atualmente, investigar a aceitabilidade social do método parece ser crucial antes que haja o investimento necessário. Em vez disso, ainda se espera, de uma maneira geral, que as mulheres assumam a responsabilidade por não engravidar.

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Educação Médica Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades Maria Inês Ramalho, 6º ano

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” escrevia Luís de Camões, há cerca de 450 anos. Em pleno século XXI este é um paradigma cada vez mais atual, em que reconhecemos uma necessidade de nos atualizar constantemente numa sociedade em permanente evolução. Os cursos de Medicina não são exceção, tendo mudado imensamente desde a sua criação – presume-se que o ensino de Me-

dicina mais antigo em Portugal remonta a 1131 no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, que viria, mais tarde, a originar a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Deste então, todo o paradigma do que é ser médico e quais as suas funções foi sofrendo sucessivas atualizações, com o avançar da ciência, a intervenção cada vez mais essencial da Ética como disciplina reguladora e com o amanhecer de uma época em que a tecnologia é um poderoso aliado dos cuidados de saúde – seja em investigação, como meios complementares de diagnóstico ou até como meio de tratamento. A cirurgia robótica, algo que há uns meros 40 anos pareceria ficção científica, é hoje uma realidade. Também o ensino médico se tem vindo a alterar, estando este a entrar numa nova era em diversas Escolas Médicas do nosso país: o aumento do número de alunos por Faculdade, com os desafios que daí advêm na tentativa de lecionar um ensino prático de qualidade, a

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quantidade absolutamente imensa de informação existente, tal como a facilidade de acesso à mesma e a alteração do exame de acesso à especialidade, conduzem, inevitavelmente, à necessidade de mudança nos formatos de ensino. Se há 30 anos o importante era saber listas intermináveis de interações medicamentosas e decorar classificações, cada vez mais o que se impõe num ensino atual de medicina é a compreensão e raciocínio lógico como objetivo final – o importante não é saber escalas cujo acesso está à distância do telemóvel mais próximo, mas saber identificar criticamente quando e como as usar, como contactar com o paciente como pessoa e não apenas um fator negligível no processo de doença, como discernir entre a multiplicidade de opções de diagnóstico e terapêutica, como navegar um meio hospitalar tendencialmente mais informatizado e burocratizado, com menos recursos humanos, cada vez mais sobrecarregados, como desenvolver soft skills que possibilitem um trabalho em equipa efetivo.

Tal impõe a necessidade de um ensino prático mais próximo da realidade – um ensino prático não fixado em modelos estáticos de aulas práticas semanais, que condicionam um contacto diminuto e dependente de fatores impossíveis de controlar (desfasamento de conteúdos em relação ao lecionado na teoria, trabalho realizado pelo docente no tempo letivo da aula: estará sempre em consulta? Na UCI? A realizar MCDT?), implicando que o aluno só tem contacto com determinada parte da vivência do médico, nunca tendo a oportunidade de apreender o funcionamento de um serviço hospitalar, na sua multiplicidade de áreas de atuação e no trabalho em equipa requerido numa área dependente da multidisciplinaridade dos diversos profissionais de saúde. A isto juntam-se rácios tutor-aluno, por vezes impossíveis de controlar, de tal forma elevados que os alunos chegam ao 6º ano – a um estágio que se deveria focar na preparação para a entrada na vida profissional – sem prática clínica ou

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Educação Médica

contacto com doentes de forma efetiva. Alunos que nunca deram um ponto, quiçá que nunca tiveram a oportunidade de colher uma história clínica ou realizar um exame objetivo sozinhos. Diversas Escolas Médicas têm vindo a tentar colmatar estes problemas de forma diferente, e, apesar de não existir uma resposta perfeita aos desafios crescentes de formar médicos de qualidade, há uma preocupação igualmente crescente com o tema. Cada vez mais, o ensino médico se preconiza como necessitando de rácios tutor-aluno pequenos, para que possa ocorrer uma passagem de conhecimentos (fundamentalmente práticos) adequada, com uma oferta gradual de formato de estágios em detrimento de aulas práticas e com a existência de uma multiplicidade de hospitais em contacto com as diversas Universidades, oferecendo aos alunos a possibilidade de vivenciar as diversas realidades existentes nos cuidados de saúde portugueses – Hospitais Centrais do SNS, Hos-

pitais Privados ou Hospitais Distritais – com os seus desafios distintos, sejam estes uma maior necessidade de discernimento na utilização do material e tecnologia disponíveis ou na multiplicidade de patologias que se apresentam, muitas de difícil diagnóstico e tratamento. Todos estes desafios têm sido exacerbados pela pandemia em que vivemos, – a abolição de aulas práticas, ou a rotatividade das mesmas (melhorando o rácio tutor-aluno, mas diminuindo exponencialmente o número de horas de contacto prático) - que impôs a necessidade de priorizar a Saúde Pública, e o funcionamento do SNS. A questão que, infelizmente, se impõe é o que acontecerá a estes futuros médicos que viram a sua educação, já de si fundamentalmente teórica e mal-adaptada aos desafios atuais, crescentemente prejudicada. “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” - não estará também na altura de mudarmos com eles?

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A cultura do Individualismo S.O.S.

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Andreia Nossa Ferreira, Medicina USC

Será esta cultura do individualismo o começar do declínio de uma sociedade que deveria ser coesa ou caso contrário dissolver-se-ia? Antes de tudo, é importante salientar, que o mundo está em constante mudança, foi evoluindo com o tempo: desde o surgimento de novas invenções a novos costumes, que podem ter concebido uma geração individualista, egoísta e indiferente com os seus semelhantes, limitada por uma tolerância necessária à coexistência, onde cada um age de acordo com a sua conveniência, enquanto “não perturbe ou cause danos a outrem”. Em pleno séc. XXI, no qual a sociedade contemporânea tem passado por diversas provações, esta parece ainda não ter aprendido que se conjuntamente rumar num mesmo sentido, isso levar-lha-á a lugares inatingíveis de forma individual. A sociedade sem se dar conta tem enfrentado uma pandemia muito superior a qualquer outra, provocada por diversos fatores, sendo um deles, por mais incrivelmente paradoxo, a rede social, que se a alguns une, a outros cria abismos tremendos, obtendo-se níveis críticos de despersonalização num mundo alternativo, para o qual nenhum ser humano tem manual e, consequentemente, não está preparado. Podemos abranger e aplicar esta temática a vários âmbitos, seja ao âmbito social como ao profissional, pois a nossa cultura quotidiana é fortemente influenciada e bombardeada pelos media, publicidade e consumo que pregam o bem-estar e lazer individuais. O próprio interesse desmedido pelo corpo, e os valores indi-

vidualistas do sucesso e do dinheiro, conduzem algumas pessoas à tendência de afirmar a sua identidade por meio do consumo próprio. O resultado é óbvio: uma privatização de crenças, valores e estilos, que dessa forma cria identidades frágeis e temporárias, as quais surgem como uma fatalidade e não de uma escolha. Atualmente, a rede social (virtual) engoliu a sociedade de tal forma, que as pessoas já não são capazes de comunicar, relacionar-se ou comprometer-se consigo mesmas e com os outros. O tédio é um fantasma constante com o qual o indivíduo já não consegue lidar, e o scroll a maneira mais fácil de abafar esse temor. O virtual transcendeu o real, sem que muitos consigam diferenciá-los, e o conectar-desconectar passou a ser o modus vivendi de muitos num

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Educação Médica

mundo em que cada um se contenta, na sua maioria, com o que mais lhe é conveniente. Um exemplo claro são os relacionamentos contemporâneos, que podiam facilmente ser mencionados como palavra “rede” no lugar de “relações”, “parcerias” ou outras definições semelhantes, pois uma rede serve tanto para conectar como desconectar, enquanto as demais expressões ressaltam o engajamento mútuo ao mesmo tempo que excluem ou omitem a falta de compromisso. No seguimento, quando surge a tendência de substituir as parcerias pelas redes, ao não ser possível sustentar um relacionamento real, entra em cena a maior dificuldade de estabelecer-se, pois já não existe a habilidade que pode ou poderia fazer a união funcionar. E daí advém a facilidade do corte e do rompimento nos relacionamentos, a qualquer momento, que não reduz riscos, apenas os distribui de forma diferente, junto com as ansiedades que provoca. No âmbito profissional, como exemplo, temos a área da Saúde, onde somos acarretados a participar numa competição feroz e onde desde o início o fazemos, mesmo que involuntariamente, já que se trata de alcançar sempre o melhor, sem certezas sequer de o conseguir. A competição poderia ser saudável, mas muitas vezes é só um fardo e uma exigência que cada um traz consigo e do qual não tem como fugir, mesmo sujeito a danos irreversíveis.

Contudo, ao mesmo tempo, somos encharcados com a moral e bons costumes, com princípios de ética, com o papel importante que se tem e se jura com Hipócrates de não fazer mal ao próximo. E além disso, temos o conceito “perfeito” de trabalhar de forma multidisciplinar (esta essencial!), mas como bem sabemos na maioria dos casos um mito, e que infelizmente haverá egos que superam negligências, porque perguntar a opinião ao outro em relação a uma dúvida, na sua crença individualista, poderá desvalorizá-lo ou enfraquecê-lo, quando numa visão coletiva, seria sim uma ação digna de enaltecer. Como seres únicos e individuais podemos ser sim a nossa prioridade, mas sem que para isso olhemos apenas para nós próprios e desordenemos uma sociedade regida por propósitos a evitar o caos, quando está claro que a sociedade e os indivíduos se determinam reciprocamente. Com certeza que é um tema controverso, como tudo o que envolve o ser humano, d’onde se presencia a inevitável posição do indivíduo moderno entre muitos caminhos com a missão de escolher como agir e quem ser, que só de si transporta uma angústia que promete persistir e muitas vezes derrubar ou vencer. Sendo assim, o individualismo poderia ser num amanhã a junção de todas as capacidades de um indivíduo para o benefício coletivo de uma sociedade, caso contrário, arrasá-la-ia.

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Entrevista

À conversa com Dr.ª Andreia Gi Bernardo Monteiro, 1º ano 1- Antes de mais, gostaria de perguntar o que a levou a ingressar em medicina e que partilhasse, brevemente, a sua experiência ao longo do curso. Ingressei em medicina por vocação, queria ajudar pessoas e marcar a diferença nos cuidados que lhes são prestados. Um médico, a par da prática clínica, pode atuar em diversos contextos, como a gestão hospitalar, a indústria farmacêutica, a investigação, a educação médica... são portas que se abrem e que nos permitem ter um papel ativo na saúde e na melhoria dos cuidados. “O médico que só sabe de medicina, nem de

medicina sabe”, por isso, ao longo do curso, fui procurando outras experiências que complementassem o conhecimento clínico e me dessem a oportunidade de crescer profissionalmente noutras áreas relacionadas com a saúde. Dessas experiências, tenho de destacar a Pfizer, a Acta Médica Portuguesa-Student, e mais recentemente, a UpHill. Nem sempre foi fácil conciliar a exigência do curso de medicina com estes projetos extracurriculares, mas hoje as minhas perspetivas são diferentes. Não sinto a pressão da escolha de uma especialidade e desenvolvi competências que, de outra forma, não teria adquirido. 2- Além de médica, trabalha na startup UpHill, conhecida por desenvolver software e conteúdos médicos. Para que serve, especificamente, esse software? Qual a sua importância? A UpHill tem como grande objetivo aumen-

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Entrevista tar a qualidade da Saúde e garantir que todas as pessoas recebem os melhores cuidados. Para isso, desenha e implementa nos hospitais, ou outras instituições de saúde, jornadas de cuidados eficazes, do ponto de vista da efetividade dos cuidados, e eficientes, do ponto de vista da gestão de recursos. Além de conteúdo, desenvolve também software de suporte à decisão, nomeadamente o Route e o Simulate. O Route é um software clínico que centraliza health data e suporta a decisão clínica dos profissionais de saúde, através de algoritmos de atuação clínica (clinical pathways) interativos. Estes clinical pathways recriam toda a jornada do doente, permitindo aos médicos saber qual a melhor decisão a tomar, de acordo com o percurso e condições do utente. São planos de cuidados multidisciplinares, desenhados com base na melhor evidência científica, e que detalham as ações de diagnóstico, tratamento, acompanhamento e encaminhamento de uma determinada doença ou sintoma. Desta forma, são as ferramentas necessárias para os prestadores de cuidados de saúde transporem as melhores práticas para a realidade do diaa-dia, garantindo que os doentes recebem os melhores cuidados, tendo em consideração os recursos e infraestruturas disponíveis. O Simulate é um software de simulação clínica avançada que mimetiza um sistema de registos eletrónicos. Sinteticamente, este software apresenta aos profissionais de saúde um caso clínico, constituído por um ou mais momentos sequenciais e permite-lhes simular todas as ações feitas em contexto real. É possível recolher a história clínica do doente, escrever notas clínicas, requisitar exames, prescrever fármacos, submeter o doente a intervenções, e monitorizar a sua evolução em tempo real. Após a conclusão de cada simulação, é dado um feedback individual detalhado, que compa-

ra a performance do médico com as guidelines ou protocolos em estudo. Deste modo, é uma solução de treino clínico, que permite ao profissional atualizar-se sobre as mais recentes evidências na abordagem diagnóstica e terapêutica, capacitando-o nas suas tomadas de decisão. 3- Como é que o seu percurso na aNEMia contribuiu para a atividade que desempenha agora? Todas as experiências que tive até agora, quer na Acta Médica Portuguesa-Student, quer na aNEMia, foram importantes para o cargo que hoje desempenho na UpHill. Em ambas, tive a sorte de ter chefes que confiaram nas minhas decisões e me deixaram arriscar, e equipas disponíveis para criar os conteúdos com que tínhamos sonhado e que, de facto, iam ao encontro das necessidades da comunidade médica estudantil. A rubrica da aNEMia “Por Detrás Das Paredes Dos Hospitais - À Conversa Com IFGs” é a prova disso. Conseguimos ter trinta entrevistas diferentes no site, que, pelo número de acessos e feedback, ajudaram muitos finalistas na sua escolha. Esta capacidade de estar atenta ao público-alvo, a proatividade e o trabalho em equipa são as grandes competências que tiro destas experiências e que continuo a desenvolver este ano na UpHill. 4- De que gosta mais no seu trabalho? Porquê? Gosto sobretudo do desafio de otimizar os cuidados de saúde através da construção e revisão de pathways, que sabemos que vão ser úteis à prática clínica e que podem impactar positivamente a vida dos doentes. Para além disso, como o nosso portefólio é bastante diversificado, tenho oportunidade de contactar e colaborar com médicos de diferentes especialidades, o que é muito enriquecedor. São também pontos positivos na UpHill: o

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ótimo ambiente de trabalho, a flexibilidade de horários e a possibilidade de trabalho remoto . 5- No seu ponto de vista, quais são as vantagens e as desvantagens da utilização da tecnologia ao serviço da saúde? A utilização da tecnologia ao serviço da saúde permite antecipar necessidades e analisar dados rapidamente, aumentando a eficácia dos cuidados de saúde e a eficiência dos recursos financeiros. Utilizando a aplicação ou o site da UpHill, todos os profissionais de saúde têm um acesso rápido, sistematizado, intuitivo e gratuito à melhor evidência científica existente, apresentada de forma estruturada numa jornada clínica. Outra vantagem da tecnologia é que, a partir de um smartphone ou computador, podemos promover a literacia em saúde e a autogestão da doença. Recentemente, a UpHill criou uma plataforma interativa, de livre acesso e com

linguagem simples, onde a população pode esclarecer as suas dúvidas acerca da infeção por COVID-19. Passo a passo, qualquer pessoa fica a saber como agir caso tenha sintomas, um teste positivo ou contacto com um caso confirmado de COVID-19. É uma mudança de paradigma que não substitui o aconselhamento médico, mas que, ao entregar respostas muito dirigidas ao contexto de cada pessoa, alivia a pressão sobre os sistemas de saúde numa altura em que assistimos a um aumento exponencial dos casos. Não nos podemos esquecer também do papel da tecnologia na centralização dos processos clínicos e no desenvolvimento de novos fármacos, que foram tão importantes para esta pandemia. A maior desvantagem é que dependemos da informática para trabalhar, o que pode, por um lado, aumentar o tempo que o profissional de saúde passa em frente ao computador e, por outro lado, restringir o acesso às iniciativas de telessaúde em locais sem acesso à Internet.

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Caso Clínico C. Pericardiocentese D. Penso oclusivo em 3 bordos E. Remover a faca e explorar as lesões

Caso Clínico A

Pergunta 1: Um homem de 24 anos é trazido à noite pelo INEM ao SU após sofrer 2 facada no peito 30 minutos antes. O doente foi abordado por ladrões à saída de uma discoteca e resistiu ao assalto. À entrada do SU, o doente está consciente, mas agitado e combativo. Ele responde às questões com um hálito a álcool dizendo que quer que o deixem sozinho e tenta afastar com os braços o enfermeiro que lhe mede os sinais vitais. A sua tensão arterial é 80/70 mmHg, o pulso é 110 e as respirações 20/minuto. A auscultação pulmonar revela ausência de murmúrio vesicular à esquerda. Ele tem 2 lesões de facada no hemitórax esquerdo, uma imediatamente acima e outra imediatamente abaixo do mamilo, sem movimento de ar através das lesões. A lesão de baixo ainda apresenta a faca empalada na lesão. Existe crepitação à palpação da pele do hemitórax esquerdo. As veias do pescoço parecem estar distendidas. A traqueia está na linha média. A auscultação cardíaca é difícil de ouvir mas parece ser regular sem sopros. O abdómen é mole, não distendido e sem dor à palpação. O doente é virado e não apresenta lesões nas costas. É iniciada oxigenoterapia por máscara de alto débito. São colocados 2 catéteres iv (um em cada braço), colhido sangue para tipagem e administrado lactato de ringer em bolus enquanto se aguarda por unidades de sangue. O técnico de raio x e ecografia estão a caminho da sala. Qual é o próximo passo mais adequado na abordagem deste doente? A. Intubação orotraqueal B. Dreno torácico

Pergunta 2: É colocado um dreno torácico à esquerda com drenagem imediata de 500cc de líquido hemático. Uma radiografia de tórax revela hemopneumotórax à esquerda. Ecografia FAST revela líquido livre intra abdominal e na cavidade pericárdica. Subitamente, enquanto os médicos internos discutem entre eles se devem ir acordar o especialista, o doente deixa de responder. Não há pulso central palpável e movimentos de respiração espontânea. São iniciadas compressões torácicas segundo o protocolo do SAV. Além das manobras do suporte avançado de vida, qual o próximo passo mais adequado na abordagem deste doente? A. Toracotomia B. Pericardiocentese C. Janela pericárdica subxifóide D. Declarar hora da morte E. Laparotomia Consulta a solução no episódio de dia 8 de março do podcast 96s - Casos Clínicos para a PNA pela equipa medapprentice.com em colaboração com o Prof. Dr. Henrique Alexandrino. https://www.medapprentice.org/course/ episodio0060

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Caso Clínico B

Creatinina 0.9 mg/dL Albumina 2.8 g/dL

Foi realizada uma TC abdominal com conUma mulher de 49 anos é trazida ao serviço de traste que mostrou um aumento bilateral das urgência pelo marido por quadro de febre, fa- glândulas supra-renais. diga e perda de apetite com cerca de 1 mês de PERGUNTA 1 evolução. Refere também ter notado uma per- Qual a causa mais provável para o quadro que a doente apresenta? da ponderal de cerca de 3,6 kg e queixa-se de A) Adrenalite auto-imune uma tosse seca e incomodativa que dura já há 2 meses, sem alívio após a toma de antitússico. B) Amiloidose C) Enfarte da glândula supra-renal Emigrou das Filipinas há cerca de 7 semanas, D) Infeção por bacilos ácido-álcool resistentes. onde foi diagnosticada com diabetes mellitus E) Tumor da hipófise. tipo I há cerca de 15 anos. Relativamente aos antecedentes familiares, apresenta história materna de LES. Não apresenta hábitos tabágicos PERGUNTA 2 Qual dos seguintes achados poderá encontrar ou alcoólicos. Como medicação habitual refcom maior probabilidade ao exame físico comere a toma diária de insulina do tipo glargina, pleto? no entanto alerta para alguns esquecimentos A) Áreas de pele despigmentadas. nos últimos meses. Tem 1,65m e pesa 49 kg (IMC de 18 kg/m2). Ao exame físico, a mulher B) Espasmos faciais com a percussão do nervo facial apresenta-se letárgica, com temperatura axiC) Hálito com odor frutado. lar de 38.1°C, frequência cardíaca de 58/min, D) Hemianópsia bitemporal. frequência respiratória de 14/min e pressão E) Queda dos pêlos púbicos e axilares. arterial de 90/60 mm Hg. À auscultação pulmonar detetam-se roncos predominantes no PERGUNTA 3 lobo superior direito e a auscultação cardíaQual o próximo passo mais importante na ca é rítmica, com sopro II/VI sistólico, mais audível no foco aórtico. À palpação abdominal gestão desta doente? existe um desconforto abdominal generalizado, A) Administrar bólus endovenoso de insulina. B) Iniciar antibioterapia de largo espectro por sem sinais de irritação peritoneal. No exame neurológico sumário destaca-se apenas uma di- via endovenosa. minuição da sensibilidade ao toque e vibração C) Iniciar fluidoterapia endovenosa. em ambas as extremidades inferiores. Realizou D) Iniciar tratamento com hidrocortisona endovenosa. um estudo analítico que revelou: E) Realizar uma TC do crânio. SORO: Consulta a solução em: https://www.medapNa+ 122 mEq/L prentice.org/course/cc52 e deixamos um Cl- 100 mEq/L agradecimento especial à Dra. Manuela Lopes, K+ 5.8 mEq/L Alumna da FMUC e interna de cardiologia Glicémia 172 mg/dL pediátrica no CHUC. Ureia 30 mg/dL

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História da Medicina stringiam aos aristocratas e poderosos do Império Romano. Os pobres e menos favorecidos também tinham esse direito, até porque os noImportância da higiene e a bres viam os locais como um ponto de troca de sua evolução ao longo dos informações e de aferir sobre a sua popularidade. tempos A influência do banho chegou até à toDr. Pedro Silva, Alumnus FMUC ponímia, conservando-se ainda hoje no nome de alguns locais como Bath, no ReA pandemia acabou por trazer à tona a im- ino Unido, Baden Baden e Wiesbaden, portância da Higiene como medida im- na Alemanha, e Aix-le-Bains, na França. portante de prevenção na nossa vida. Mas de onde vem a origem deste conceito? Idade Média – retrocesso O termo Higiene vem do nome da Deusa Grega da Saúde, Hygeia, filha de Aesculapius, Deus Nos séculos III e IV d.C., o Cristianismo da Medicina. Atualmente, a palavra divide-se tinha cada vez mais crentes e tinha cada vez em vários tipos: mental, individual (como tomar maior importância no Império Romano e banho, lavar as mãos, escovar os dentes, dor- em 380 d.C. o corpo passou a ser visto como mir adequadamente e realizar atividade físi- uma fonte de pecado pelo que se deveria dar ca), coletiva (inclui rede de esgoto, água trata- menos importância, em detrimento do espírida, recolha de lixo e campanhas de vacinação) e de alimentação. No entanto, centremo-nos num hábito que está enraizado na população. Banhos – a importância sagrada Durante muitos séculos, este conceito era ignorado pelos humanos que viviam em pleno convívio com a sujidade. Contudo, os primeiros relatos sobre os banhos vêm do Antigo Egipto, em que eram vistos como uma forma de purificar o espírito. Este hábito pode ter salvo esta população de várias pragas que afetaram diversas civilizações da Antiguidade. Na Civilização Grega, o contacto com a água fazia parte da educação dos jovens e os banhos eram atos públicos e faziam parte da realização dos banquetes. O Império Romano bebeu a influência dos Gregos e não só continuou com o hábito, como criou locais destinados a este ato, as Termas. As maiores eram de Caracala e de Diocleciano, em Roma, a capital do Império. As visitas às Termas para os banhos não se re-

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to. O banho passou a ser visto como um ato de luxúria e as Termas passavam à história. Nessa altura, as pessoas passavam a limpar-se com recurso a panos molhados e os perfumes e maquilhagem tentavam amenizar o odor corporal das classes mais favorecidas.

achavam que a água permitia um aumento da transmissibilidade da doença, por abrir os poros… O pano voltava a ser o recurso possível… Aliás, os Judeus eram considerados agentes de bruxaria, por não serem tão afetados pela patologia infecciosa. Um dos hábitos que este povo tinha era lavar as mãos antes das refeições…

Guerras Santas devolvem banho até à Peste Banhos impuseram-se definitivamente Negra As guerras religiosas, entre os séculos XI e XIII, permitiram uma renovada visão dos banhos por parte dos combatentes. Sem o jugo da Igreja Católica, os guerrilheiros banhavam-se tal como os Muçulmanos não deixaram de fazer, espalhando o costume novamente pela Europa. Contudo, o desconhecimento científico permitiu que os banhos voltassem a ser um hábito do demónio. A Peste Bubónica, também designada por Peste Negra, estima-se que terá matado um terço dos europeus e os médicos

No século XIX, o Iluminismo colocou a ciência no centro do Mundo e o ato de se lavar para a Saúde foi destacado. No entanto, decorreram bastantes décadas até que os banhos fossem bem vistos e se tornassem um hábito na população europeia. Um facto é que a maioria das casas não tinha qualquer local para os seus habitantes se lavarem. Além disso, apesar de os hospitais, já no final do século XIX, utilizarem os banhos, os doentes assustavam-se e viviam um autêntico terror, obrigados a lavarem-se.

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Cultural: Médicos da Minha Terra António Lobo Antunes Inês Serafim, 3º ano

A profissão da medicina sempre foi reconhecida como algo bastante nobre. No início da carreira, médicos juram praticá-la de forma honesta, tendo em vista o respeito pela vida do doente, tratá-lo quando possível e cuidando em qualquer circunstância. A escrita tem o poder também de curar e cuidar pelas palavras, mas sobretudo o poder de criticar e alertar para o que está errado, tanto para quem escreve, como para quem lê. Encontro neste ponto de vista uma das possíveis explicações para o facto interessante e feliz de haver tantos médicos que são também escritores, de que é exemplo Dr. Antó-

nio Lobo Antunes, para muitos já conhecido. Decorria o ano de 1942 quando a 1 de setembro nascia Lobo Antunes, em Benfica, no seio de uma família já ligada à medicina através do seu pai, que foi um importante neurocirurgião português e assistente de Egas Moniz. Estudou no Liceu Camões e continuou os seus estudos na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Quando acabou a sua formação, foi destacado em 1970 como médico militar para a Guerra Colonial em Angola que então decorria. Em algumas das suas obras é notável a influência bélica destes períodos. Mais tarde, depois de regressar a este local à beira-mar plantado, especializou-se em psiquiatria onde via muitas semelhanças com a escrita, interesse que já cultivava desde a adolescência. A área da psiquiatria com a qual contactou durante os seus anos de trabalho no Hospital Miguel Bombarda tiveram alguma influência no seu processo criativo.

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Mais tarde, António Lobo Antunes passa a dedicar-se a tempo inteiro à escrita, deixando o seu emprego no hospital, mas nunca deixando a medicina que decerto ainda fará parte dele. Porém, outra memória que acredito que ficará para sempre, e escrevo isto baseada apenas nos relatos de pessoas que já o viveram, é a guerra e todo o seu impacto posterior na vida. Estes dois temas são abordados num dos livros do médico/escritor “Conhecimento do Inferno” (1980), que encerra a trilogia dos livros da sua memória, de índole autobiográfica… Tentando trazer de maneira superficial alguns dos aspetos abordados nesta obra, o hospital psiquiátrico é visto na narrativa, como metáfora do Inferno, sendo visível em algumas passagens a visão contrária do autor face aos métodos utilizados na psiquiatria naqueles tempos. Na realidade da guerra, cenário de horror e tragédia, o autor, quando compara ao que viveu depois como médico no hospício, ainda não tinha visto o Inferno. “Em 1973, eu regressara da guerra e sabia de feridos, do latir de gemidos na picada, de explosões, de tiros, de minas, de ventres esquartejados pela explosão das armadilhas, sabia de prisioneiros e de bebés assassinados, sabia do sangue derramado e da saudade, mas fora-me poupado o conhecimento do inferno.” Um livro que nos dá um autêntico conhecimento do Inferno, consegue inverter os papéis na realidade vivida pelo narrador, quando os médicos são vistos como os doentes e estes últimos apenas fingiam as comorbilidades que tinham para tratar dos médicos, também tidos como os inventores da loucura… “Nas reuniões do hospital, de dia, assaltava-o a impressão esquisita de

que eram os doentes quem tratavam os psiquiatras com a delicadeza que a aprendizagem da dor lhes traz, que os doentes fingiam ser doentes para ajudar os psiquiatras, iludir um pouco a sua triste condição de cadáveres que se ignoram…” São feitas duras críticas à terapia de choques, aos antidepressivos, à psicoterapia, à desumanização da medicina que acompanham um arrependimento posterior do narrador por ter tido também um papel nesta realidade infernal. “Sempre que uma pessoa vai morrer agrupam-se, guiados por qualquer estranho instinto de insetos, à volta de um doente emagrecido e pálido, compulsando alegremente radiografias, análises, relatórios de biopsia, prontos a discutir aquilo que denominam eufemisticamente um caso bonito: cancros complicados, leucemias esquisitas, infeções incuráveis, farejando radiantes a iminência de um cadáver”. Assim, creio que a intenção do escritor ao narrar tais acontecimentos, para além de criticar, é alertar para a mudança, tentar que isto não seja mais realidade. Medicina centrada no doente e não na doença é urgente! O médico que se preocupa vê o doente como um todo, vê as preocupações que o assombram, vê o impacto que o diagnóstico de uma doença pode ter na sua vida. Que seja possível ao médico ver mais além que as radiografias, que os relatórios de biópsias, que as TACs, que as análises, para que não caia na identificação como um inseto, que António Lobo Antunes nos detalhou neste livro cuja leitura é recomendada, bem como de todos os outros do autor que lhe valeram já alguns prémios, como o prémio Camões (2007) e que eu pessoalmente manifesto curiosidade de ler mais.

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Escrita Livre

Crónicas sobre dizer, O que é o Mundo? ver e escutar Dr. Rodrigo Alexandre Fortes, Alumnus FMUC

Rita Gonçalves Rodrigues, 6º ano

Esta é uma reflexão sobre – o mundo. Com M ou m? Já nem sei, assim como não sei a sua definição, embora a tenha aprendido algures durante a escola. Para mim, Rita, mulher nascida em Portugal e que cresceu à beira-mar, livre para caminhar até onde quiser e com a certeza de ter uma escola à sua espera: o mundo tem anos-luz de dimensão. Querendo, tê-lo-ei a meus pés, basta lutar por o conquistar. Kali passa o dia com a sua mãe a cuidar da casa, dos animais que habitam o pequeno terreno nas traseiras do T0 que serve de abrigo a uma família de cinco. Não desce a rua sem o seu pai ou irmãos mais velhos. Vê na família o seu propósito e, por isto, considera-a o seu mundo. Sem fazer ideia que existam galáxias, é capaz de desenhar o céu noturno de cor. Kali e Rita vieram ao mundo, através de uma mulher, para ser(em) Mulher. Não nos esqueçamos que o útero foi a nossa primeira casa, o nosso primeiro mundo. A vida de alguém é um mundo, e este precisa de cada um de nós.

O calar de um poema “Se, depois de eu morrer…” é uma das orações da condimentada excelência literária de Fernando Pessoa que nos torna franqueados à verdadeira dimensão da nossa finitude. O modo condicional encerra na mesma redoma a maior esperança e a maior desesperança. Embora a Medicina seja meritoriamente científica, ela flerta com esse condicional demais humano para o nosso gosto. Como Interno de Formação Geral deparei com o transmutar da imagem teórica numa realidade pessoa a pessoa, dor a dor, dispneia a dispneia, cansaço a cansaço, vida a vida, morte a morte. O pulsar tranquilo do meu corpo em compasso com as palavras de uma filha, que por telefone tentava saber da mãe, foi o momento a partir do qual pariu, no meu terceiro turno no serviço de urgência, uma indelével experiência. De repente, a exaustão do meu dizer: “o estado da sua mãe inspira cuidados. O prognóstico é reservado”. Os meus superiores hierárquicos pediramme para transmitir essas palavras. Trabalhei-as como se fossem minhas, para lembrar-me delas presas à doença e libertas da doente. Entretanto, respondeu-me com a voz mergulhada no desencontro: “Sim! Qualquer coisa, estou na sala de espera”. A estrada larga daquela esperança foi-se fechando em mim a partir do momento em que ouvi “Ela está em paragem!”. O silêncio raptou o pulso e as árvores pulmonares deixaram de estar vaidosas com o vento. Invadiu-me o ónus do olhar apreensivo. Fezme vibrar de espanto e tristeza na minha primeira viagem como marinheiro daquelas águas. O silêncio daquela vida chega com a voz rouca e seca. Um bater cardíaco abafa-

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do pela retirada, a esconder o semblante. Foi nesse momento que a vida viveu a morte. O rio dela estava plácido, algo que Shakespeare faria declamar: “Inconsciente da sua própria desgraça como se fosse uma criatura daquele rio”. Continha uma fronte de água gélida, sem pulso… parada! Concebam a imagem de um rio sem voz, em assistolia e com cheiro a adrenalina derramada. A mão que eventualmente amou disse adeus e o coração que segurou a vida já não estava. Sem o charme do caudal, sem o esperar ansioso dos planos próprios, sem a desconcentração elegante, numa neutralidade demais convincente, esvaziada de ser única. Juntamente de um colega, dirigi-me à sala de espera com a alma povoada de receios. Foi um “Nãaaaoo!” pantanoso. O que move o início da despedida? Um choro para lá de sonoro, enquanto segurávamos as mãos dela. Acho que não soubemos sentir algo justo. Aquelas 63 primaveras não desconfiavam de um invernal desfecho. Vedei-me de ser um interno do ano comum tecnicamente movido, orei por ela, regressei à minha vida de recém médico com as cortinas do “aconteceu” escancaradas. Escutai um poema Um poema com os olhos laços e sentimentos claudicantes abordou um amigo dizendo: Conheci mais uma vez a ardente lança da vida que sempre, por mim vem ávida. Como se, o olho da vida fervesse ódio por mim. Quem és tu? Desordem que todos falam, que todos sentem? Eu sinto não só desordem, sinto muita desordem. Em vez de escutar, o amigo vestiu-se de poema e compenetrado de sua própria importância disse: De que falas? As minhas crises são hecatombes emocionais, coisas expropriantes, coisas que se refestelam com a desgraça e, por isso, junto-me aos vazios maiores que os teus. Queremos ser ouvidos! Apenas nos emprestem o silêncio, um abraço não inflacionado e, de quando em vez,

u m a palavra dona de si. A ditadura da comparação abalroa o foco de quem deveria confortar. Queremos o gancho emocional que nos permita dizer que estamos piores ou melhores. Escuta, só! Glamourizamos os extremos ao longo dos forçados desfiles dialéticos condescendentes e demagogos da sociedade. Quando alguém exclama “Tenho dormido muito mal”, não quero escutar um “Eu também! Tenho dormido menos de 5h”. Ninguém acalenta a dor de ninguém. Dispensamos ininterruptamente o papel de “casa do cidadão”. Escuta! Escuta! Não damos espaço ao contágio emocional e abominamos captar estados de espíritos, temos medo de fugirmos de nós mesmos emocionalmente. Imitamos sentimentos, fazendo apelos às valências de “ser cuidado” e não de “cuidar”. Não escutamos os outros, as piores memórias que temos serão inevitavelmente de nós mesmos. Trata-se de um “eu” desproporcionado e deslocado. Mendigamos condescendência, daí a maximização do stress e o descontrolo do impulso de narrar os nossos factos. As raras vezes que paramos para escutar alguém somos passíveis de não saber a diferença entre sentimentos e ações. Afinal, as nossas causas são sempre maiores que as dos outros. Estamos treinados a ser elaboradores de respostas sem antes sermos um bom fazedor-de-perguntas. Precisamos de diminuir as autorreferências de tristeza, de reconhecer as características de um exílio interno e de abolir os arroubos de superioridade moral. Caminhar com os ouvidos é o meio que nos faz ir de lés-a-lés. Se o próximo a ti veio pelos próprios pés, escutai!

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Escrita Livre

A luz que roubou Inês Pires, 5ºano

Tu estavas sozinho. Tu andavas sozinho. No meio das sombras, tu eras a tua luz. Convencido que o Mundo era sombrio, Isolaste-te na tua própria gruta. Mas, então, nova luz te encontrou Trouxe-te à superfície Mostrou-te as cores do Mundo e as várias luzes que o povoam. E tu apaixonaste-te Por tudo, e para sempre esqueceste a escuridão E feliz sentiste-te completo. Até que a luz fugiu, cansou-se E, tu voltaste para o vazio. Algo agora insuportável. E o que em tempos era o teu espaço de conforto Acabou por te tirar a tua mais ténue luz

Casa de madeira Casa de madeira solitária encoberta pela tempestade, abalada pelo vento, abandonada pela Humanidade Por dentro és de ouro… porém ninguém sabe Valores ocultos ignorados E lentamente… Morre. Perece com todo o seu potencial O ouro oxida; A madeira apodrece; E a casa desvanece…

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A senhora assustadora

Dr. Pedro Silva, Alumnus FMUC

Era uma vez uma senhora muito sozinha que não saía de casa. Os miúdos viam-na à janela, quando estavam no campo de futebol, mas nenhum deles tinha coragem de se aproximar perto da janela por estar sempre com a cara zangada. Por outro lado, ninguém sabia nada da senhora, apenas que ela vivia há muitos anos naquela casa, o que não deixava de despertar curiosidade. Um dia, o Zé Tiago e os amigos decidiram ir jogar futebol, tal como faziam durante muitas tardes, no final dos dias das aulas. O Zé Tiago tinha a baliza para defender como gostava. Início de jogo. Carlos dá o primeiro toque a meio campo e passa a Vítor que remata assim que vê que tem espaço, mas o guarda-redes, Zé Tiago, defende de forma seguríssima. Zé Tiago, com o esférico bem seguro nas mãos, vê António desmarcado e tenta colocar a bola rapidamente no

amigo. Contudo, o remate foi alto demais e acertou precisamente na janela da senhora… A bola tinha partido os vidros e ficou dentro da casa! E agora? Quem lá iria? Obviamente que a maioria absoluta foi para o Zé Tiago, o único que não estava de acordo com a decisão. Enfim, lá teria de ser… Muito devagarinho, com passos encurtados, o miúdo dirigiu-se à porta de cor verde escura com pequenos pontos já descolorados e com algumas marcas irregulares de embates provavelmente de outros jogadores que utilizavam o campo. Din-don. A campainha tocou. A senhora acordou da sua sesta. As noites já não eram passadas a dormir e os dias serviam para alguns períodos de repouso absoluto. A mulher vai à porta, interrogando-se quem seria: há anos que ninguém a procurava…. A porta abre. Zé Tiago vê a senhora e assusta-se com uma pessoa descuidada, despenteada, com um pijama com um aspeto gasto e já com alguns pontos corroídos. O rapaz de 12 anos explica, a gaguejar, que lamentava ter partido a janela e vinha buscar a bola. A senhora não se tinha apercebido de nada, o seu quarto era no

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Escrita Livre piso debaixo e tinha tirado o aparelho auditivo para se repousar, mas o som da campainha era tão alto que despertava ainda o seu tímpano. A senhora não deixou o rapaz entrar, foi até ao piso superior e deparou-se com um cenário algo assustador: pequenos cacos de vidros pelo chão e uma bola negra, com uma linha contínua encarnada, que deixou uma marca na parede. O miúdo teria de reparar os danos. Zangada, mesmo furiosa, em passo pesado como um tanque de guerra, a senhora voltou até à porta e disse: “O que fizeste foi muito feio! Vais ter de limpar aquilo que fizeste. Caso contrário, nunca mais vês a bola!”. Zé Tiago teria de aceitar, os amigos, em especial o Carlos, não iriam aceitar ficar sem o objeto. Este teria sido oferecido pelo seu pai, que só vê no Natal, por estar emigrado nos Estados Unidos da América e era uma memória dele. Zé Tiago entrou, com bastante receio. A decoração da casa tinha parado no tempo: tons escuros, chão de madeira, com um tapete verde a tapar alguns tacos algo gastos. Quando olhava para cima, a vista não melhorava: havia muitos quadros, com cenários muito tristes e sombrios, desde uma réplica de “O Grito”, de Edvard Munch, ao “Menino da Lágrima”. As escadas eram algo escorregadias, parecia que tinham sido envernizadas, mas pé-ante-pé, Zé Tiago chegava ao topo. À entrada do espaço, onde tinha entrado a bola, estavam uma vassoura e uma pá. O menino, sem perder tempo,

para sair o mais depressa possível daquela casa, começou o trabalho, sob supervisão da senhora. O trabalho estava finalizado, os vidros removidos do chão e a mancha da parede também foi removida com recurso a um pano velho que a senhora também tinha perdido numa gaveta de um armário, que tinha uma camada de pó tão densa que desfocava o próprio móvel. Ao ver o cuidado do rapaz, a senhora ofereceu-lhe bolachas com pepitas de chocolate que teria feito no dia anterior. Cozinhar era um dos poucos prazeres que a vida não lhe tinha tirado. Zé Tiago, espantado, mas ainda hesitante com medo da mulher, lá acabou por aceitar. Mmm, tão bom! O sabor fazia-lhe lembrar algo… As bolachas da mãe! A sua progenitora tinha-lhe dito que a receita vinha da sua própria mãe, uma senhora meiga e muito dedicada à família. Infelizmente, Zé Tiago não teve a oportunidade de a conhecer… O rapaz compartilhou as memórias com a senhora. A dona da casa ficou feliz com a partilha e convidou o Zé Tiago para beber um chá. A tarde terminou, mas o diálogo ainda continuava até que Zé Tiago viu as horas. Já passava das 20:30 e a mãe esperava-o em casa para jantar. Já sem medo, o rapaz despediu-se da senhora e antes de sair, ainda lhe perguntou: “Qual é o seu nome?”. A senhora, com uns olhos tão meigos, disse “Dulce”. E assim, a imagem da senhora transformou-se na cabeça do menino, que passou ali a ter mais uma amiga.

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Sugestões Literárias: “A Passa-Espelhos - Livro 1: Os Noivos do Inverno”, Christelle Dabos “A história de Uma Serva”, Margaret Atwood “Leite e Mel”, Rupi Kaur “Presos por um Fio - Portugal e as FP-25 de Abril”, Nuno Gonçalo Poças “Quando Eu Era Invisível”, Martin Pistorius “Franny e Zooey”, J. D. Salinger “The Octunnumi”, Trevor Alan Foris “The Man from Taured”, Jeremy Bates “Retalhos da vida de um médico”, Fernando Namora “Não faças mal”, Henry Mash “A mão que nos opera”, Atul Gawande

Cinematográficas: “O Clube dos Poetas Mortos”, Peter Weir “O Rapaz do Pijama às Riscas”, Mark Herman “O Físico”, Philipp Stölzl “Um Novo Final”, Craig Zisk “Páginas de Liberdade”, Richard LaGravenese “O Substituto”, Tony Kaye “Amelie”, Jean Pierre Jeunet “Atriz Milenar”, Satoshi Kon “Night is short, walk on girl”, Masaaki Yuasa

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