1
Editorial É ainda no antelóquio do ano letivo 2021/2022, que vos apresento a sexagésima edição da revista aNEMia. Embora já com um número ciente, refletido e impositivo de respeito, esta edição tem os olhos postos no Futuro. Com desígnios traçados, vontade de mudar e zelo por tudo o que se passa ao nosso redor, denunciamos os problemas e apresentamos as soluções. O nosso espírito de missão impede-nos de deixar para amanhã, aquilo que podemos fazer hoje e é com esse mote que abrimos portas ao que está por vir. Olhar-futuro. Em nome da extraordinária equipa da aNEMia, que esta seja uma excelente leitura. A Coordenadora da aNEMia, Maria Nunes Gomes, 5º ano
Ficha técnica 60ª edição - setembro 2021
Propriedade do Núcleo de Estudantes de Medicina da AAC Pólo das Ciências da Saúde da Universidade de Coimbra Subunidade 1 da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra Azinhaga de Santa Comba, Celas, 3000-548 Coimbra geral@nemaac.net www.nemaac.net anemia@nemaac.net revistanemia.blogspot.com
Departamento da aNEMia Direção: Maria Nunes Gomes Redação: Andreia Nossa, Francisca Rocha, Inês Lopes, Inês Pires, Inês Sampaio, Joana Mendes, Joana Neves, Margarida Simões, Maria Inês Ramalho, Marta Mesquita, Pedro Silva, Rita Nunes, Rodrigo Fortes, Sara Gama Design e Grafismo: Joana Mendes, Madalina Birsanu, Sara Gama, Rita Rodrigues Capa e contracapa: Maria João Santo Distribuição gratuita
2
4
Nosso Mundo
8
Mundo de Todos
4. Entrevista: Ser voluntário em Inquéritos Epidemiológicos 6. Saúde Mental: Um Grito Retumbante
Índice
29 31
Casos Clínicos
Cultural
8. O Médico e a Máquina: A inteligência 31. História da Medicina: Vacinas artificial na medicina 43. Médicos da Minha Terra .10“Não há um planeta B” - Objetivos do Desenvolvimento Sustentável 2030 13. Alimentação à base de plantas: A trend que parece ter vindo para ficar 15. Slow Fashion: Para Hábitos Mais Conscientes 17. Economia Digital 20. A nova vida dos partos 35. Um pássaro… 36. A vida de olhos vendados 38. Toucador
22
Educação Médica
22. Psicoterapia – importância e aplicações 24. Testemunho: Erasmus em Pandemia
26
35
Escrita Criativa
39
Sugestões de leitura
39. Sugestões de leitura
Entrevista
26. Entrevista: E se em vez de barreiras fossem criadas pontes?
3
Nosso Mundo Entrevista: Ser voluntário em Inquéritos Epidemiológicos Doutor Pedro Silva, Alumnus FMUC
Janeiro foi o pior mês da pandemia em Portugal. 5 576 pessoas faleceram devido à Covid-19, só no primeiro mês do ano. As hospitalizações atingiram níveis muito elevados e puseram em causa a assistência aos doentes não Covid. Já os números de novos casos diários chegaram a ultrapassar os 10 000. Face ao problema pandémico, o trabalho do Serviço Nacional de Saúde começa na deteção precoce e isolamento dos casos. Para tal, os serviços de Saúde Pública locais procedem aos inquéritos epidemiológicos. No entanto, faltavam recursos essenciais para acompanhar o crescimento exponencial de casos: rastreadores. Para colmatar esta lacuna, cerca de 200 membros da comunidade académica da Universidade de Coimbra (UC) colaboraram como voluntários no apoio à vigilância epidemiológica no âmbito da COVID-19, na Região Centro. A aNEMia conversou com um dos estudantes da Faculdade de Medicina da UC que se voluntariou. Vítor Oliveira colaborou e participou ativamente no rastreamento de contactos na Unidade de Saúde Pública do Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) Dão Lafões.
4
O que te levou a voluntariares no apoio à Saúde Pública no âmbito dos inquéritos epidemiológicos? Quando a pandemia começou, todos fomos enviados para casa e simplesmente ficámos a assistir a uma luta desigual. Como futuro profissional de saúde sentia uma incapacidade no combate à pandemia. Como tal, este apelo para apoiar nos inquéritos epidemiológicos foi algo que rapidamente aproveitei para ajudar um pouco mais nesta luta que é de todos. Tiveste algum tipo de formação para fazer os inquéritos? Sim, quando nos inscrevemos, foi prontamente marcada uma formação no formato online de modo a explicarem todo o processo e organização dos inquéritos. Depois disso, no centro de saúde ao qual fiquei alocado, recebemos também uma formação por parte da médica de Saúde Pública e fomos bem integrados e existiu sempre uma disponibilidade total para colocarmos dúvidas.
Quais foram as maiores dificuldades em muito melhor a especialidade e o seu trabalho, fazeres os inquéritos? percebendo que é essencial para o bom Logo ao início era tentar não esquecer todos funcionamento da sociedade e na garantia da os pequenos pontos necessários a perguntar às sua saúde como um todo.
pessoas, perceber o que podíamos considerar O que aprendeste com esta experiência? um contacto de risco ou não, inserir os Aprendi que todos somos importantes na diversos dados nas plataformas. Mas tudo isto luta contra a COVID-19 e todos podemos se foi tornando mais fácil à medida que íamos fazer algo mais quando nos é dada essa fazendo os diversos inquéritos. oportunidade. Foi uma experiência muito As pessoas com quem contactaste foram enriquecedora não só a nível profissional, mas acessíveis? Respeitavam o que dizias? também pessoal. Além de aprender toda a Depende. Havia um pouco de tudo, pessoas dinâmica, funcionamento e empenho que existe que ouviam, respeitavam e cumpriam. Outras dos profissionais de saúde neste processo, ao que não ouviam nem forneciam a informação falar com as pessoas permitiu-me chegar mais necessária, não respeitavam o dever de próximo de quem mais precisa e desenvolver isolamento e não forneciam os contactos de capacidade humanísticas que me vão ser risco. Nestas situações, recorríamos à Delegada essenciais para o meu futuro enquanto médico. de Saúde para tomar uma posição mais firme. No global, foram mais as pessoas que ouviam e respeitavam do que o contrário. Que ideia tinhas da especialidade de saúde pública? Já tinhas tido contacto? Antes da pandemia apenas conhecia o nome da especialidade. Nunca tive qualquer contacto nem sabia bem qual o trabalho e responsabilidade de um médico de Saúde Pública. Ao ajudar nos inquéritos, conheci
5
Nosso Mundo Saúde Mental:
Um Grito Retumbante Rodrigo Alexandre Fortes, Alumnus FMUC
Ao pôr-do-sol, um plano de fundo com a doca de um fiorde de Oslo convive com as reflexões afetivas de angústia e desespero – assim nos conta “O Grito” de Edvard Munch. Segundo o conceito brejeiro de saúde mental: há ideias que não se comportam bem; o vitimismo está em voga; e há indisciplina face a ortodoxia imposta. Será essa a verdadeira tessitura da saúde mental? Pior que sofrer é não ter o direito de sofrer! Pois há quem se ponha num lugar normativo e se ache capaz de impor aos outros uma patente de normalidade. Nos momentos de paroxismo, esperamos que o mental tenha rebate no físico e só ulteriormente procuramos ajuda. A intelecção de saúde mental no seio social está coberta com o bolor da baixa literacia. Com os olhos no quadro, ouvimos a dor do grito, presente no personagem e no fundo trêmulo-ondulado: a mundividência de quem sofre é distinta da de quem não sofre. As duas pessoas na ponte e a própria ponte representam figuras verticais, diagonais, inabaláveis – traduzem quem não cultua a empatia (os outros) e quem deve servir de base (sistema de saúde). No que toca à “base assistencial” conseguimos desvelar alguns problemas: acessibilidade; falta de literacia em saúde mental e estigma; serviços centrados no hospital psiquiátrico e não a nível comunitário; e poucos profissionais não médicos (psicólogos, enfermeiros, terapeutas, técnicos do serviço social) nas equipas de saúde mental. Os cuidados continuados em saúde mental constituem um escopo muito acalentado, pois seria um ventre de respostas adequadas. A
distribuição dos recursos envolve assimetrias, estando excessivamente concentrada em Lisboa, Porto e Coimbra. É necessário conhecer esses componentes do território, trabalhando com os saberes ali presentes, com as questões e demandas trazidas pela comunidade, a fim de construir objetivos que são comuns a esse território. Por enquanto, tem havido uma articulação com a segurança social, mediante plano atípico, onde os doentes têm sido alocados em instituições privadas de solidariedade social. Ouvem-se os passos do tempo e mesmo assim o poente se iriza de incertezas: não se sabe quanto se gasta em saúde mental, ou seja, não há orçamento. O Plano Nacional de Saúde Mental (20072016) identificou importantes constrangimentos na prestação de cuidados de saúde mental. Apesar de ter sido consensualmente bem elaborado e de ter traçado objetivos precisos, deparou-se com inúmeros obstáculos que impossibilitaram a sua implementação plena. A falta de priorização política e os insuficientes recursos financeiros dedicados à implementação do Plano, entre outros motivos, têm adiado a sua concretização. O céu plasmado no quadro de Munch, sob observância dos princípios da distorção, está tingido de laranja, vermelho e amarelo, como cosmético de uma atmosfera aterrorizante. Rótulos arcaicos e tacanhos como “louco”, “maluco”, abjetamente discriminam, excluem e instituem o receio... afinal, queremos ser levados a sério e ser tratados como responsáveis. Reminiscências que buscam a consociação entre manicómios (década de 50) e a imagem de doente mental cruciam a boa abertura ao assunto. A prevenção é uma fumegante panela de ferro e deve ser manejada com cuidado para não sonegar integridades e oportunidades de tratamento. Refiro-me ao rastreio de subgrupos
6
de risco, a detecção precoce, o esbater das incapacidades, reabilitação e prevenção de recidivas. Os determinantes sociais, bem-estar e qualidade de vida cristalizam resultados, haja vista as vivências traumatizantes, fatores psicossociais, financeiros, idiossincráticos (coping e personalidade), etc. A doença e a perturbação mental tornaram-se nos últimos anos, na principal causa de incapacidade e uma das principais causas de morbilidade. 12% das doenças em todo o mundo são de foro mental, valor que sobe para 23% nos países desenvolvidos. Portugal é o segundo país com a mais elevada prevalência de doenças psiquiátricas da Europa, sendo apenas ultrapassado pela Irlanda do Norte. A medicalização de todos os comportamentos humanos constitui um risco e é municiada
por questões corporativas (maus hábitos de prescrição), pela falta de resposta em cuidados de proximidade (abordagens não farmacológicas) e pela dependência medicamentosa. Há anos, Portugal é o maior consumidor europeu de benzodiazepinas (os tranquilizantes mais frequentes ou ansiolíticos), com valores também relevantes nos antidepressivos e nas bebidas alcoólicas. Entre o sofrimento e a procura de cuidados, encontram-se óbices do estigma, preconceito, vergonha e exclusão. Precisamos de um discurso verdadeiramente comprometido e menos panfletário. Um quadro pintado em tempos d’antanho não poderia ser mais contemporâneo.
7
Mundo de Todos O Médico e a Máquina: A inteligência artificial na medicina Joana Mendes, 5ª. ano
Nas últimas décadas tem-se assistido a um crescimento expansivo do conhecimento científico e da integração de novas tecnologias no nosso quotidiano, comparável à explosão da inovação que se verificou em meados do século XVIII, com a Revolução Industrial. Nesse período, existia a ideia de que a máquina vinha substituir o homem e deixar muitos no desemprego. Não obstante, o ser humano teve a capacidade de se “adaptar ao futuro”, possibilitando a coexistência de homem e máquina na atividade laboral. Com os recentes avanços tecnológicos, surge novamente o receio da obsolescência da mão-de-obra humana decorrente da automatização do trabalho. Entre estes avanços, a inteligência artificial (IA) é talvez o que mais inquietação traz, pois tem vindo a substituir vários empregos– rececionistas, contabilistas, trabalhadores de armazém e muitos outros. Perante este clima de mudança, há quem se questione sobre o impacto da mecanização do trabalho na prática médica, e de que forma este será alterado nas próximas décadas com o advento da inteligência artificial. Será que esta tecnologia vem mesmo substituir os médicos?
8
O que é a IA? É qualquer sistema capaz de observar o que o rodeia e de se adaptar às circunstâncias para melhor executar a tarefa de que foi incumbido. Estes sistemas conseguem emular vários processos cognitivos humanos como a aprendizagem, raciocínio, percepção do ambiente, comunicação, entre outros. O machine learning é um tipo de IA particularmente interessante, pois aprende automaticamente através da experiência, sem qualquer intervenção humana.
Usos atuais da IA Enfatiza-se cada vez mais a importância destes softwares em medicina e saúde pública, dada a sua capacidade preditiva resultante da análise de extensas bases de dados. Uma das aplicações mais recentes de IA em medicina é no reconhecimento de padrões no âmbito da Dermatologia, Oftalmologia e Oncologia. Através da análise de múltiplas
imagens, estes algoritmos conseguem identificar células cancerígenas em biópsias, sinais de retinopatia diabética em fundos oculares, melanomas e outras anomalias com uma precisão igual ou superior à de especialistas. Em áreas cirúrgicas, a IA surge como uma ferramenta revolucionária, tendo como principal exemplo o sistema DaVinci. Esta plataforma possibilita a realização de cirurgias por meio de braços robóticos que imitam os movimentos da mão de um cirurgião, o que, aliado às opções de ampliação e visualização das estruturas em 3D, proporciona uma maior precisão cirúrgica. Outro uso importante destas tecnologias é no campo da Imagiologia, com a criação de algoritmos de machine learning que quantificam características radiográficas específicas. Estes dados são aplicados a modelos estatísticos, por forma a identificar marcadores de doença e estabelecer rapidamente um diagnóstico. Atualmente, esta tecnologia é usada na identificação de nódulos, lesões e pólipos malignos e na monitorização da resposta tumoral à radioterapia, entre outros.
personalizadas e eficazes. Mais recentemente, surgiram programas que permitem reproduzir o raciocínio clínico através da análise da história clínica do doente, com resultados espantosamente rigorosos. Com efeito, existe mesmo um software que recolhe dados de processos clínicos eletrónicos e, de seguida, propõe hipóteses diagnósticas, exames complementares e opções de tratamento. A IA é algo que veio revolucionar o exercício da medicina e promete trazer uma mudança de paradigma na prestação de cuidados de saúde. O objetivo não será descurar o papel do médico, mas sim atingir um equilíbrio entre máquina e ser humano. Prevê-se assim que, num futuro próximo, esta tecnologia constitua um apoio indispensável à prática médica, permitindo uma maior eficiência, produtividade e precisão diagnóstica.
É, por isso, fundamental equipar futuros profissionais de saúde com conhecimentos que lhes permitam adaptar-se aos desafios trazidos pelas novas tecnologias, dado que o médico constitui talvez o mais importante agente terapêutico – tanto pela relação empática que Os sistemas de apoio à decisão clínica estabelece com o doente, como pelo raciocínio constituem mais uma aplicação da IA e têm clínico que o leva a um diagnóstico. como função reunir e analisar informação proveniente de grandes bases de dados. A partir desta análise, os softwares comparam as características de casos clínicos específicos com a evidência científica existente e propõem estratégias terapêuticas mais
9
Mundo de Todos “Não há um planeta B” - Objetivos do Desenvolvimento Sustentável 2030 Maria Inês Ramalho, 6º ano
Nas palavras de Ban Ki-Moon, secretário-geral da ONU 2007-2016, “não temos um plano B, porque não há um planeta B”. 75 anos depois da sua formação, a ONU preocupa-se com a criação de um mundo melhor, onde o ser humano possa prosperar juntamente com a biosfera que o ro- 2000, aos Objetivos do Milénio – um conjundeia. to de 15 metas a serem atingidas até 2015, com Historicamente, a sustentabilidade como a diversas propostas de soluções e indicadores de conhecemos foi um termo cunhado em 1983 forma a mensurar a sua concretização. pela ONU, no qual se pretendia englobar uma visão que ditava que as necessidades presentes devem ser colmatadas, sem o comprometimento da possibilidade de as gerações futuras colmatarem as necessidades que vierem a surgir– esta visão impunha o desenvolvimento social e económico como áreas inerentemente constrangidas pelos limites ambientais. Apenas mais tarde, nos anos 90, se criou o modelo atual em diagrama de Venn, no qual a coexistência entre o ser humano e a biosfera terrestre se situa na confluência das esferas económica, social e ambiental, não descurando nenhuma das três.
É nesta altura, que a ONU cria os primeiros objetivos com vista à erradicação da pobreza e tentativa de resolução de diversos problemas identificados a nível mundial (direitos das cri anças e das mulheres, desnutrição, …), contando com cooperação internacional para a sua execução. São estes objetivos que dão origem, em
Conforme as medidas vão sendo implementadas por diversos países, são identificados problemas, incluindo uma relação desigual de “dador-recipiente” entre países. É assim que, em 2015, nasce uma ratificação deste projeto, com novas metas e indicadores: preocupação com o ambiente e a preservação da biosfera terrestre, com uma base de cooperação internacional e uma data proposta de conclusão para 2030 – são 17 objetivos, cuja concretização resultará, sem dúvida, num mundo melhor para todos os que o habitam, tal como para as gerações futuras. E nós? Portugal, como membro da ONU, também está a trabalhar no sentido de um mundo melhor. São várias as nossas empresas e companhias que têm ações implementadas em concordância com os ODS (a maioria englobando mais que um), quer em Portugal, quer no estrangeiro. A título de exemplo, aqui ficam alguns desses projetos:
10
Objetivo #2: Erradicar a fome – O Grupo Jerónimo Martins, especificamente na sua empresa polaca Biedronka, em parceria com outras empresas locais e internacionais, implementou em 2006 o Milk Start – um produto alimentar que é vendido a preços reduzidos, de forma que as famílias com mais dificuldades possam providenciar às suas crianças um pequeno-almoço com 25% das necessidades diárias recomendadas de vitaminas e minerais.
Objetivo #7: Energias renováveis e acessíveis – A EDP ajudou um campo de refugiados em Kakuma, Quénia com a implementação de soluções sustentáveis de energia, que se traduziram em fornos, fogões e purificadores de água solares, lanternas solares, formação vocacional e desenvolvimento de competências para pessoas da comunidade, iluminação pública em edifícios e ruas, entre outros, com um impacto direto em mais de 6000 refugiados.
Objetivo #4: Educação de qualidade – Desde 2011, a Navigator conta com o projeto “Dá a mão à floresta”, no qual, para além de proporcionarem atividades lúdicas e pedagógicas a crianças do 1º ciclo sobre a temática da proteção florestal e da importância das florestas na biodiversidade, são ainda distribuídos pelas comunidades locais eucaliptos, pinheiros mansos, sobreiros, carvalhos, azinheiras, alfazemas, alecrim e medronheiros, provenientes dos seus viveiros.
Objetivo #12: Produção e consumo sustentáveis – Transformar.Te é um projeto criado pela Sonae em 2016 com vista à redução do desperdício alimentar, quer pela doação de produtos em bom estado de conservação, mas sem valor comercial a instituições de solidariedade, quer pela reciclagem dos mesmos noutros produtos como compotas, resultando numa diminuição do desperdício e em mais de 1 milhão de refeições doadas.
11
Mundo de Todos Objetivo #13: Ação Climática – Ao longo do tempo, os CTT têm vindo a investir na aquisição de veículos elétricos, perfazendo estes cerca de 10% da frota – o que a torna numa das empresas menos poluentes do nosso país, em especial, tendo em consideração a sua dimensão. Para além disto, os CTT lançaram, em 2015, uma plataforma interna de partilha de boleias disponível aos 1200 trabalhadores da sede – em conjunto, estas ações já permitiram a redução de mais de 1700 toneladas de CO2.
E eu, o que posso fazer a nível pessoal? Desde ações de voluntariado, reciclagem ou uma simples pesquisa de forma a apoiar empresas que se preocupam com a sustentabilidade, todos nós podemos dar um pequeno contributo – é uma questão de deixarmos o cabelo secar ao natural em vez de usar um secador, sermos vocais no nosso local de trabalho em apoio à igualdade de remuneração ou fazermos compras nas nossas lojas locais em detrimento de grandes superfícies.
12
Alimentação à base de plantas A trend que parece ter vindo para ficar Sara Gama, 3º ano
“Vegetariano”, “plant-based”, “vegan” são palavras às quais já nos habituamos ou, pelo menos, temos uma vaga ideia do seu significado. Quer seja na televisão, num documentário na Netflix ou até num post do influencer do momento, a verdade é que estão presentes um pouco por todo o lado no nosso dia a dia. Não é de admirar, já que, segundo um estudo realizado pelo Centro Vegetariano – Associação Ambiental para a Promoção do Vegetarianismo, o número de vegetarianos em Portugal quadruplicou entre 2007 e 2017. Para além disso, a tendência parece ser a de um consumo de peixe e de carne cada vez mais ocasional entre aqueles que não seguem uma dieta vegetariana. Mas de que se trata, afinal, o vegetarianismo? Segundo a Associação Vegetariana Portuguesa, “o vegetarianismo é um estilo de alimentação de base vegetal, que exclui carne e peixe”, base-
ando-se em fruta, hortícolas, cereais, leguminosas, frutos gordos e sementes, de preferência locais e da época, minimamente processados. Existem ainda variações que podem incluir derivados de origem animal como os ovos e os lacticínios, que se designam por ovovegetariano, lactovegetariano ou ovolactovegetariano, consoante o tipo de derivado consumido. Já os veganos procuram que a sua abordagem vá além da alimentação, seguindo uma filosofia de vida que evita o sofrimento animal na totalidade. A título de exemplo, são recusadas peças de roupa de couro ou camurça, acessórios que incluam penas ou marfim e produtos de beleza e de higiene que sejam testados em animais. Os espetáculos realizados à custa de exploração animal, como circos, touradas ou jardins zoológicos, são também condenados pelos veganos. A principal razão que leva alguém a adotar uma alimentação vegetariana parece ser a preocupação com o bem-estar e os direitos dos animais. O facto de ser uma dieta que apresenta benefícios para a saúde também parece atrair várias pessoas a fazer esta mudança. Outro dos motivos invocados é o impacto que a indústria pecuária tem sobre o planeta, como a sua contribuição para a escassez de água doce, a desflorestação e diminuição da qualidade do ar. Um exemplo gritante deste impacto é a quantidade de gases
13
Mundo de Todos “tábua de salvação”. Antes pelo contrário, uma dieta vegetariana pode ser prejudicial, tal como qualquer outro tipo de dieta, se mal estruturada. É perfeitamente possível seguir uma alimentação plant-based que nada tem de saudável, se esta se basear fundamentalmente em produtos altamente processados, com excesso de gorduras e sal. Outra preocupação é a de evitar carências nutricionais e vitamínicas que podem advir precisamente de um mau planeamento. Outro problema relativamente frequente é a falta de com efeito de estufa emitidos para que se produ- conhecimento e desinformação referente a este za 1kg de bife de vaca num regime semi-intensivo tipo de dieta. em Portugal, que equivale a uma viagem de carro É essencial que quem esteja interessado de 146 quilómetros. em adotar este regime alimentar procure inUma questão fulcral impõe-se agora: será formar-se o melhor possível, uma vez que este tipo de alimentação saudável e sustentável não faltam recursos para o fazer e a ajuda de ou tratar-se-á apenas de uma moda sem suporte nutricionistas e de médicos revela-se igualmente de evidência científica? Respondendo de forma preciosa. No entanto, ainda são muitos os profisbastante curta e simples: as dietas vegetarianas sionais de saúde incapazes de auxiliar e orientar são saudáveis em qualquer fase da vida, desde a utentes que seguem uma alimentação plantinfância até à velhice, passando por grávidas e based. Numa tentativa de colmatar a falta de conhecimento sobre o tema mesmo dentro da atletas de alta competição, se bem planeadas. área da saúde, a Direção Geral da Saúde lançou, Nos últimos anos, muita pesquisa tem sido em 2015, um manual intitulado “Linhas de Oridedicada a dietas vegetarianas. Vários estudos reentação para uma Alimentação Vegetariana Sauportaram inúmeros benefícios tanto do menor dável”. Desta forma, tanto profissionais de saúde consumo de produtos animais, como do maior como a população em geral têm ao seu dispor consumo de produtos de origem vegetal. Entre uma fonte de informação fidedigna e de relativa eles estão a redução da prevalência de determifácil compreensão sobre dietas vegetarianas. nadas doenças, como obesidade, doenças cardiovasculares e diabetes, assim como um aparente Links úteis: aumento da longevidade: não será por acaso que • https://nutrimento.pt/activeapp/ as “Blue Zones” (regiões do planeta conhecidas wp-content/uploads/2015/07/ pela maior esperança média de vida da sua popLinhas-de-Orienta%c3%a7%c3%a3o-paulação, com um grande número de centenários) ra-uma-Alimenta%c3%a7%c3%a3o-Vegebaseiem uma enorme fatia da sua alimentação tariana-Saud%c3%a1vel.pdf em alimentos de origem vegetal. • https://www.avp.org.pt/ Com isto não se pretende afirmar que pas• https://www.veggiekit.pt/ sar a seguir uma dieta vegetariana é garantidamente saudável e que representa uma espécie de
14
parece entranhar-se em tudo o que fazemos. Assim nasce a fast fashion: um padrão de produção em massa de têxteis de baixa qualidade, para responder às emergentes e sucessivas tendências. Como se não bastasse, só 1% de todo o vestuário produzido em todo o mundo é reciclado - o resto é incinerado ou Joana Neves, 5º ano deitado em aterros, ao ritmo de um camião de A indústria têxtil é a segunda mais poluente lixo por segundo! do mundo. É responsável por uns espantosos Em resposta a este padrão de consumo não 10% de todas as emissões de gases de estufa, sustentável, surge a slow fashion. Combinando mais do que as emissões combinadas de todos não só melhores políticas éticas empresariais, os voos e transportes marítimos. Contribui para mas também hábitos mais conscientes dos 20% de toda a poluição da água e 35% de todos consumidores, este conceito procura respeitar os microplásticos produzidos no ambiente todos os intervenientes na cadeia de produção, provêm da lavagem de tecidos sintéticos. desde o ambiente aos trabalhadores e animais. Para onde quer que olhemos, o desperdício Não basta usar materiais mais sustentáveis e poupar o máximo de recursos - a slow fashion encoraja o decréscimo do ritmo a que compramos.
Slow Fashion: Para hábitos mais conscientes
Então, como podemos juntar-nos a este movimento mais consciente? Aqui seguem algumas dicas: 1. Evitar tecidos nocivos para o ambiente A máxima a ser seguida é: uma peça de vestuário só é sustentável se o tecido que a compõe o for. Isto leva-nos, obviamente, a identificar as matérias primas mais amigas do ambiente e a recusar as mais custosas. · Algodão: são necessários 20 mil litros de água para produzir um quilograma de algodão; para além disso, o algodão é extremamente volátil às condições ambientais e as culturas necessitam de quantidades gargântuas de pesticidas, contaminando os solos e os lençóis de água. Alternativa: algodão orgânico - não requer o uso de pesticidas e usa 91% menos de água na sua produção do que o seu irmão menos sustentável; a maior parte desta quantidade
15
Mundo de Todos é água da chuva, não de rega, como acontece sustentáveis é reduzir o consumo, e isso inclui com o algodão dito “normal”. não comprar freneticamente 50 novas peças · Poliéster, nylon e acrílico: são plásticos de roupa sustentável - queremos, sim, usar derivados do petróleo; poluem o ar, o solo e são o vestuário que temos o máximo possível e, responsáveis pela libertação de microplásticos quando a sua vida acaba, procurar outros usos para os nossos mares e oceanos, que ainda não para ele. Infelizmente, a capacidade de reciclar conseguem ser filtrados nas máquinas nem nas tecidos é ainda muito rudimentar, e, se os descartarmos, irão provavelmente acabar em estações de tratamento de esgotos. aterros. Alternativa: procurar as suas versões 4. Atenção aos detalhes recicladas, como o poliéster reciclado (rPET); no entanto, as alternativas recicladas Como qualquer bom comerciante sabe, o continuarão a emitir microplásticos quando marketing é tudo, e as empresas de fast fashion lavadas. não querem ficar para trás. · Viscose: apesar de ser uma fibra Por isso, aqui ficam algumas dicas para ver celulósica, a produção de viscose está ligada à se uma marca está a fazer “greenwashing”, desflorestação, e o processamento da fibra em fazendo-se passar por uma coisa que não é: si é quimicamente muito intensivo e nocivo · Se o website tiver centenas de peças, não para os ecossistemas aquáticos. é sustentável, porque a produção é maciça; Alternativa: lyocell - também uma fibra · Se a cadeia de produção passar por países celulósica, tem como único ingrediente a polpa com alto risco de trabalho-escravo, a marca de madeira que, após dissolvida e centrifugada, deve ser evitada, dado que os trabalhadores não permite ser enrolada em fios fáceis de tecer, estarão a ser pagos um salário humano; num processo livre de químicos agressivos. · Se apenas uma dada coleção é dita 2. Criar um armário-cápsula “eco-friendly”, é porque a empresa, no seu Nada como uma dose de minimalismo para todo, não o é; evitarmos a sensação de não termos nada para · Pesquisar o rating da marca no website vestir quando nos deparamos com um armário Good On You: uma compilação exaustiva cheio. Esta nova tendência pretende criar um que avalia a produção têxtil no que toca às portfólio têxtil que seja prático, versátil e se condições ambientais, à sustentabilidade animal adeque ao nosso estilo pessoal. O objetivo é ter e ao respeito pelos trabalhadores. um número finito de peças - 30, por exemplo, sem contar com roupas interior e de ocasião que sejam fáceis de combinar entre si para as Sobretudo, devemos ter em conta que mais diversas situações. menos é mais: sim, devemos apostar em têxteis produzidos de forma mais amiga do 3. Reutilizar, reutilizar, reutilizar ambiente, mas a chave é a moderação. Não O erro mais comum ao aderir à tendência podemos esquecer que uma maior procura por da slow fashion é deitar fora todas as roupas estas alternativas obriga a maior alocação de fast fashion que temos no roupeiro - errado! recursos ambientais para acompanhá-la, o que, O caminho para sermos verdadeiramente inevitavelmente, leva a mais desperdício.
16
Economia Digital Joana Neves, 5º ano
De entre a miríade de moedas digitais, a Bitcoin é a rainha que veio para ficar, dominando mais de 50% do mercado das criptomoedas. A sua popularidade é cada vez mais evidente, tanto que muitas empresas começaram a investir nesta forma de pagamento, tais como a Tesla de Elon Musk, a Microsoft ou mesmo a Starbucks. Mas o que é, então, uma criptomoeda? Nada mais do que uma moeda como o nosso euro, com a exceção de ser exclusivamente
digital, e, por isso, não ser impressa por nenhuma unidade central - de facto, uma das qualidades atrativas da Bitcoin é não ser regulada por bancos, ao contrário das moedas físicas já existentes; a sua gestão é descentralizada e assemelha-se a um livro-razão, no qual estão registados todas as transações alguma vez feitas: quantas bitcoins foram transferidas, quem as transferiu e recebeu, e há quanto tempo atrás - esta tecnologia chama-se blockchain, uma base de dados praticamente incorruptível. Como funciona a blockchain? Pense-se na blockchain da seguinte maneira: num hospital, há centenas de computadores formando uma rede, cada um deles com as mesmas informações: os registos de todos os doentes tratados desde a abertura da unidade de saúde, passíveis de serem acedidos por qualquer profissional de saúde de qualquer especialidade dentro do edifício. Quando um hacker utiliza um computador da rede para alterar os registos pessoais de um único doente, a informação nele presente deixa de estar em concordância com os restantes computadores; é, então, interpretada como falsa, e descartada por não ser de confiança. É precisamente isto que acontece na blockchain. Cada nódulo (ou computador da rede) tem o conjunto de todas as transações efetuadas desde a génese da criptomoeda em causa, tal que, se um desses nódulos deteta um erro, consegue corrigi-lo através do cross-
17
Mundo de Todos checking com os restantes componentes da rede. Esta característica garante fidedignidade e transparência nas transações, visto que qualquer utilizador pode consultar qualquer transferência jamais efetuada, e assim perceber como a bitcoin está a ser movimentada - mesmo que um comprador seja hackeado, o destino das bitcoins roubadas consegue ser rastreado e descoberto, devido à impossibilidade de retirar moedas da rede. É esta a grande vantagem de ter uma blockchain cronológica e em constante atualização e verificação: fazer parte da rede é mais economicamente rentável do que atacála. O processo de verificação dos dados é feito por indivíduos - basta que tenham um computador capaz de processar dados e realizar equações complexas; em troca de tornarem as transações mais seguras, estes utilizadores são recompensados monetariamente.
las impetuosamente, o valor diminuirá. Devido ao facto de o valor da bitcoin derivar do de outras moedas, a procura por mais bitcoins implica pagar mais euros, dólares ou libras para as obter. A segunda curiosidade prende-se com o facto de a bitcoin ser um bem finito: o seu criador estipulou que só poderia haver um máximo de 21 milhões de moedas disponíveis. É, de certa maneira, ouro digital; não pode ser criada arbitrariamente, mas sim “extraída”. Atualmente, já 18 milhões de bitcoins foram criadas, mas estima-se que o processo só estará completo depois do ano 2140 - isto porque o ritmo a que a moeda pode ser extraída diminui para metade a cada quatro anos, invariavelmente. Será arriscado investir em bitcoin? Resposta curta: sim.
As razões pelas subidas e descidas do preço da bitcoin são artificialmente criadas Na verdade, o valor deriva exclusivamente pela sociedade. Os média são frequentemente da lei da oferta e da procura: quantas menos responsáveis por quedas drásticas no seu valor bitcoins houver disponíveis, maior será o seu - má cobertura mediática faz instalar o pânico preço; se os utilizadores começarem a vendêComo é atribuído o valor da criptomoeda?
18
entre os utilizadores, que vendem rapidamente os seus ativos, aumentando assim a oferta e diminuindo o preço. Por outro lado, boa publicidade também faz disparar os números: o valor da Dogecoin, outra criptomoeda, subiu 25% após um tweet escrito por Elon Musk a referi-la.
bens. Assim que as carteiras virtuais começam a ganhar peso e mais empresas se viram para os pagamentos com criptoativos, mais frequente será a utilização destes meios para gastos correntes; os governos terão em mãos o dilema de um mercado que não conseguem fiscalizar nem regular, onde as taxas de câmbio serão Em abril deste ano, no curso de uma semana, eliminadas e todos os indivíduos têm iguais o preço da bitcoin subiu fantasticamente para capacidades de acesso à moeda. 42 mil dólares, para depois cair para 30 mil. Talvez a vida diária nos obrigue a trocar o Ainda antes do fim dessa semana, o valor papel pelo digital mais cedo do que pensamos. voltava aos 40 mil dólares - a volatilidade da Até lá, mal não faz mantermo-nos a par das bitcoin é o preço a pagar pela sua quantidade novas tendências. finita e regulamentação descentralizada, as qualidades chave que mais lhe dão ribalta. Apesar de todas as suas complexidades (parcamente compiladas acima), as criptomoedas vieram para ficar. A função da moeda - seja qual ela for - é facilitar as trocas de
19
Mundo de Todos valores correspondem a 29,79%, enquanto no setor privado se verifica a taxa de 68,5%. Tais valores devem-se a variados fatores. Mas a verdade é que se foi criando a cultura da cesariana como um modo de nascer mais confortável, mais controlado e talvez mais “adequado” a uma sociedade de consumo, por se tornar mais compatível com a agenda médica: uma cesariana conclui-se em alguns minutos, o que contrasta de forma flagrante com as várias horas de trabalho de parto típicas de um parto normal. Apesar disto, é muito importante considerar que, quando mal indicada e efetuada antes do trabalho de parto, a cesariana coloca a mãe e o bebé em risco 3 vezes mais que um parto normal. Estudos da OMS mostram que a cesariana, sem indicação definida, está associada a prematuridade, complicações respiratórias, maiores probabilidade de internamento e de mortalidade a nível neonatal; para a mãe, aumenta o risco de doenças hemorrágicas e infeciosas.
A nova vida dos partos Margarida Fonseca Simões, 2º ano
Hoje, os cientistas conseguem perceber que a capacidade de amar é, em grande parte, organizada e construída durante o período do nascimento. Para dar à luz, a mulher precisa de libertar uma espécie de “cocktail” de hormonas do amor fundamentais para a vinculação entre a mãe e filho, dessas destaca-se a ocitocina. Em todo o planeta, o número de mulheres que dá à luz, somente graças à ação desse “cocktail”, está a chegar ao 0. Zero na época da ocitocina sintética e da cesariana fácil e rápida: isto é inédito na história do nascimento e da humanidade. Segundo a OMS, a taxa ideal de cesarianas seria entre 10-15%. No entanto, no SNS esses
O parto tem passado de um evento fisiológico para um ato cirúrgico: a mulher encontra-se na posição convencional, vê o trabalho de parto ser acelerado, pode sofrer manobras agressivas e desnecessárias, vê-se mergulhada num ambiente estranho com aparelhos tecnológicos, iluminação intensa e com todo o movimento e barulho natural de um hospital. Todos estes fatores também constituem um choque para o bebé, visto que deve ser recebido num ambiente aquecido, escurecido e com o menor número de estímulos
20
sensoriais. De facto, se tivermos uma visão geral sobre os todos os estudos publicados notamos que, quando os pesquisadores exploram uma condição patológica ou um desvio de personalidade como: autismo, comportamento autodestrutivo, adição, anorexia - algo relacionado com a capacidade de amar (o próximo ou nós próprios) concluem, grande parte das vezes, que o que acontece no nascimento é importante, sendo um marco de vida relevante para o desenrolar da mesma. A verdade é que crescemos com a ideia que o parto é, por princípio, ligado ao sofrimento: os próprios media, a televisão, o cinema acabam por fortalecer também esta ideia. É muito importante perceber o parto não apenas como um evento que começa com as contrações e termina com a expulsão da placenta: este é, acima de tudo, um momento de transformação física e emocional, quer para a mãe, quer para o recém-nascido. Os valores tão elevados de cesarianas realizadas nos países desenvolvidos acabam por transparecer uma perda de oportunidade para essa transformação. Posto isto, é urgente encarar o parto como um evento humanista e perceber que a medicina deve constituir um meio para auxiliar, ajudar e melhorar as situações que dela necessitem ao invés de se tornar uma mera imposição. O humanismo é prestar atenção às necessidades da pessoa, cuidá-la com respeito e prestando
atenção à sua unicidade e dignidade. Consequentemente, um parto mais humanizado é mais centrado na mulher, tratando-a não de forma padronizada, mas sim personalizada, e no vínculo entre ela e o seu filho, rejeitando a separação precoce dos mesmos após o parto e denotando o mesmo de mais afeto e menos agressão. Um parto humanizado é marcado, também, pelo respeito pelas escolhas da mulher e dentro delas destacase até o local onde a mesma o pretende realizar: segundo a OMS, o local ideal para o parto, numa situação em que a mulher não acarreta riscos prévios, é o local onde a mesma se sinta mais segura. Desta forma, emergem cada vez mais novos formatos de parto: no domicílio, em “casinhas de parto”, em água, com o acompanhamento de Doulas. No entanto, é muito importante ter em conta que, de facto, o hospital é o local mais capacitado para tratar uma emergência ou uma qualquer ocorrência inesperada e, portanto, a urgência no panorama atual do parto prende-se com o desejo de tornar o hospital um meio ainda mais seguro e voltado, também, para as necessidades emocionais da mulher, de forma a exaltar o renascimento do parto de forma mais fisiológica, como, de facto, deve ser.
21
Educação Médica Psicoterapia:
ponder de uma forma ajustada a situações desafiadoras da sua vida.
Importância e aplicações Marta Mesquita, 5ºano
Apesar de ainda passar despercebida aos olhos de muitos, a terapia psicológica, mais conhecida como psicoterapia, tem vindo a ganhar cada vez mais notoriedade nos últimos anos. Mas, afinal, de que falamos? Tal como o nome sugere, a psicoterapia consiste na utilização de métodos baseados no conhecimento científico do funcionamento psicológico, com vista a modificar emoções e comportamentos indesejados ou desajustados. Deste modo, para além de fazer parte da abordagem terapêutica de diversas doenças mentais, poderá ser útil em qualquer situação (não necessariamente patológica) em que se verifique sofrimento emocional ou dificuldades adaptativas, como luto, divórcio e desemprego. No campo da medicina, está indicada no tratamento de patologias como depressão, perturbações de ansiedade (incluindo pânico e fobias), perturbações obsessivo-compulsivas, perturbações de stress pós-traumático, perturbações do comportamento alimentar, distúrbios de personalidade, doença bipolar, esquizofrenia e outros distúrbios psicóticos. A psicoterapia tem, assim, como principal objetivo melhorar a saúde mental e o bem-estar do indivíduo, constituindo uma ferramenta para resolução de conflitos pessoais, conjugais ou familiares, melhoria da autoestima, controlo de comportamentos impulsivos, pensamentos, emoções e aprimoramento das relações interpessoais e competências sociais. Em suma, pretende-se que, ao tomar consciência da origem dos seus problemas, o paciente fique apto a res-
As sessões de psicoterapia consistem, essencialmente, num diálogo entre paciente e terapeuta (sob a orientação deste último), podendo ser individuais ou em grupo, onde se incluem a terapia de casal e as terapias familiares. Os psicoterapeutas podem ser psiquiatras, psicólogos, enfermeiros especializados na área da saúde mental, assistentes sociais, terapeutas de família, entre outros, sendo essencial que tenham formação académica ou científica específica na área da psicoterapia. Os psiquiatras distinguem-se dos restantes por poderem prescrever medicação, que pode fazer parte da abordagem terapêutica em associação à psicoterapia. É extremamente importante para o sucesso da terapia que se estabeleça uma relação baseada na empatia e na confiança (designada “aliança terapêutica”), entre o paciente e o terapeuta. Assim, o indivíduo estará mais recetivo à mudança, pois ao sentir-se compreendido, apoiado e livre de juízos de valor, é mais fácil para si aceitar a ajuda do psicoterapeuta para identificar e alterar determinados padrões emocionais e comportamentais. Também o facto de o terapeuta ser obrigado a manter a confidencialidade relativamente a tudo o que é abordado nas sessões faz com que o paciente se sinta mais à vontade para partilhar os seus pensamentos e comportamentos. Existem centenas de técnicas psicoterapêuticas, que se distinguem pela forma como os respetivos autores interpretam os conflitos e a sua origem. Em muitos casos, opta-se por uma psicoterapia integrativa, que resulta da fusão de várias abordagens psicoterapêuticas. Os principais tipos de psicoterapia são as terapias psicanalítica, psicodinâmica, cognitiva, comportamental, cognitivo-comportamental e humanísticas (onde se incluem terapias existen-
22
cial, gestáltica e centrada na pessoa). As terapias psicanalítica e psicodinâmica, apesar de apresentarem algumas diferenças, têm como objetivo a resolução de conflitos do paciente através da análise e compreensão do seu subconsciente (incluindo os sonhos), emoções e pensamentos reprimidos. A terapia cognitiva tem como objetivo aumentar a consciência do indivíduo acerca dos seus pensamentos e emoções e o desenvolvimento das competências necessárias para identificar e corrigir pensamentos negativos e falsas suposições. A terapia comportamental foca-se na identificação, análise e modificação de comportamentos maladaptativos desencadeados por um determinado estímulo (por exemplo, medo de cobras). Por sua vez, a terapia cognitivo-comportamental resulta da associação das duas anteriores, tendo como objetivo ajudar o paciente a identificar e desenvolver estratégias para modificar crenças e/ou comportamentos disfuncionais.
As terapias humanísticas focam-se no desenvolvimento humano e necessidades do indivíduo, enfatizando a sua capacidade de fazer as próprias escolhas, com liberdade e responsabilidade. Para além das descritas, existem inúmeras abordagens psicoterapêuticas, como as terapias comportamentais dialética, sistémica, hipnótica, interpessoal e outras. A duração do processo terapêutico e a frequência das sessões de psicoterapia são variáveis, estando dependentes do tipo de psicoterapia e das necessidades e objetivos do indivíduo. Por fim, é importante salientar que, apesar da maioria das abordagens psicoterapêuticas se basear na comunicação verbal, as pessoas incapazes de comunicar por esta via não são excluídas do acesso à psicoterapia. A escrita, o desenho, a pintura, o teatro e a música constituem alternativas eficazes e inclusivas.
23
Educação Médica Erasmus em pandemia Andreia Nossa Ferreira, Erasmus 20/21
Como se o curso de Medicina por si só, e em tempos denominados outrora de “normais”, já não exigisse de nós toda a dedicação e tornasse pessoas desde tenra idade em guerreiros dentro de uma nação, surge uma pandemia para mostrar que ainda podemos superar o que pensávamos serem os nossos limites.
Sem saber o que me esperava, no ano letivo anterior candidatei-me, como tantos outros, a Erasmus 20-21. É certo que poderia ter vindo em qualquer ano, mas o destino levou-me a vir nesse, e mal sabia que enfrentaria uma distância muito maior que meras fronteiras. Muitos foram os países que concordaram em A pandemia foi e continua a ser uma “faca continuar com o desafio Erasmus e tantos de dois gumes”, porque, se por um lado, outros decidiram cancelar. trouxe devastação, também espero que, por outro, tenha aflorado o sentimento do que é realmente importante: o fazer o bem ao outro; o pouco que nos distingue; que todos somos necessários e que juntos, no mesmo caminho, tudo se torna mais fácil, em prol de um futuro comum. E isto, aplica-se a tudo. Falando na primeira pessoa e como estudante portuguesa a estudar no estrangeiro, a distância sentida como saudade e o sentimento do que realmente é importante já cá está desde que se decide emigrar, quando comparado com alguém que não tem a mesma experiência. Sabemos sim o que é a barreira linguística e lidamos sim com alguma discriminação e preconceito, para além de conviver com a dura saudade que faz mossa em coração que sente mais do que deve… Mas Erasmus em pandemia foi um choque, e só vivenciando para saber o que é.
Durante um ano letivo em pandemia, e num contexto de adaptação a uma realidade totalmente diferente, houve privação de contatos, de edificações de amizades, e de ambientes de partilha e troca, que todos necessitamos para seguir em frente de forma mais leve e sã. Sem conhecer ninguém é muito difícil adentrar num novo ambiente.Para nós, a máscara é o menos, já a palavra de apoio e a presença física, essas sim, essenciais. A única forma de comunicação passou a ser uma tela de computador, onde apenas éramos um nome e um número. Vários foram os
24
padrinhos desaparecidos ou mal distribuídos e as informações perdidas pelo caminho, e grande a solidão dos que, respeitando as regras da pandemia, não conheceram bem a faculdade, nem o hospital para passar a teoria à prática, nem fizeram amigos para a vida. A perseverança e a devoção pela futura profissão tornaram-se as únicas bóias de salvação destes “forasteiros”. No sentido de seguir com o objetivo de aceitar estes alunos na sua nova morada, sugiro que as universidades sejam capazes de corresponder às necessidades dos seus novos estudantes, que desconhecem o funcionamento da nova faculdade que integrarão. Com a pandemia, as falhas sobressaíram, como se de um icebergue se tratasse, mas reitero que há falhas que podem ser bem trabalhadas, sendo possível trazer a grande evolução e atualização necessárias. Se a pandemia fez algo, foi mostrar que se deve viver o momento com cautela, sempre olhando ao redor de forma holística e não individual. É urgente mudar! É necessário que se melhore a integração destes alunos na sua nova morada, ceder-lhes a informação mais pertinente para que sejam capazes de continuar e não fiquem “atracados” ou mesmo percam um ano.
Permitam-me, na minha opinião, deixar menções honrosas para quem realmente ajudou e fez diferença: ao Gabinete de Relações Internacionais e Interinstitucionais da FMUC, que teve um papel exemplar de apoio, realizou um trabalho excelente e foi muitas vezes o único elo de ligação entre estes “forasteiros” e a universidade; ao ESN Coimbra, que ajudou a orientar cada um de acordo com as suas necessidades; ao Provedor do Estudante, por escutar e fazer valer os direitos dos estudantes da UC; e aos representantes de algumas disciplinas, que estiveram sempre disponíveis, mesmo quando se perdia a fé. E por fim, uma menção enobrecedora para todos os estudantes em pandemia, pois estamos de parabéns pela difícil adaptação a uma nova realidade que dura há um ano letivo e meio! Mesmo que não o digamos em voz alta, só nós sabemos a luta que travamos: o desenterrar de esforços quando a fraqueza quase nos consome e a entrega ao desespero parece ser o caminho mais fácil. Felizmente, tudo pode acabar bem, e mesmo que não corra sempre bem, que o vejamos como mais uma aprendizagem, mais uma etapa de vida, mais um passo na dura escalada do curso, que é Medicina!
É necessário mudar mentalidades em Medicina, e até, na área da Saúde: criar empatia, incluí-la como disciplina; rever as capacidades de ensino e de avaliação, não só de matérias como de docentes; ajudar os alunos a adquirir estratégias de gestão do seu próprio tempo e do malvado stress… O objetivo é formar futuros médicos sãos, não médicos doentes a tratar de doentes. Não somos robôs, mas sim seres humanos.
25
Entrevista Senti muita pressão para fazer todas as cadeiras, tendo sido Anatomia III a que me fez ficar retida. Talvez, se tivesse focado um pouco mais e não estivesse tão ansiosa, a oral tivesse um rumo diferente. Foi um abalo quando reprovei no exame oral da época extraordinária, mas procurei focar-me no meu próximo Uma reflexão sobre o Ano Barreira com Marta objetivo, que seria concretizar a disciplina em janeiro para que no semestre seguinte me Cunha pudesse inscrever nas cadeiras do 4º ano e Inês Sampaio, 5º ano A não realização de todas as unidades voltar a acompanhar os meus amigos. curriculares no final dos 3º e 5º anos do MIM implica que muitos alunos da FMUC Como geriste o estudo para a única não possam transitar para o ano seguinte. No disciplina que te faltava? sentido de explorar o impacto psicológico e Até janeiro tinha apenas as aulas teóricas e profissional desta experiência, entrevistamos a Marta Cunha, aluna do 6º ano, que ficou retida práticas de Anatomia III no meu horário, por isso tinha muito tempo livre. Pouco depois no seu 3º ano. de reprovar ao exame oral, vi um cartaz de recrutamento da SOS Estudante, uma linha O que sentiste ao te aperceberes que havia de apoio emocional constituída por estudantes risco de ficares retida? universitários, e decidi inscrever-me. Na altura, foi fulcral para mim ocupar-me com outras atividades e ter uma “escapatória” do estudo intenso de Anatomia III. Sempre gostei de me envolver em atividades extracurriculares, já fazia parte da Tuna Feminina de Medicina (TFMUC), e sinto que foram muito importantes para me focar no estudo sem sentir tanta exaustão e desânimo, adquirir novas competências e me sentir produtiva de diferentes formas.
E se em vez de barreiras fossem criadas pontes?
Qual é a importância que as atividades extracurriculares podem ter na vida de um estudante? Permite que possamos conhecer novas realidades e ter novas aprendizagens, fazer novas amizades, promovendo o bem-estar psicológico. Na SOS Estudante, como voluntária pude ajudar outras pessoas e apoiálas em momentos difíceis, e na TFMUC,
26
vivenciar o espírito académico e aprender a integrar um coletivo. Também fui colaboradora do Oitavo Par, um podcast do departamento de Arte e Lazer do NEM, e entrei no ginásio. Por vezes, é difícil conciliar todas as atividades com o estudo, mas é um esforço que vale a pena. O que te ajudou a superares o desânimo e desmotivação durante o semestre?
ansiosa e desanimada. Tinham sido muitos meses de estudo focado em Anatomia III, enquanto que os meus amigos estudavam matérias novas. Voltar a acompanhar os meus amigos foi uma das minhas maiores motivações. Nos primeiros 3 anos, houve sempre muita interajuda e estudávamos juntos, e nesse semestre eu senti muita falta disso. No semestre seguinte inscreveste-te em todas as cadeiras do 4º ano, afim de concretizares num só semestre aquilo que geralmente se faz num ano letivo. Como lidaste com toda a carga e pressão do estudo?
Nas aulas práticas de Anatomia III, a minha turma era constituída por alunos repetentes, o que foi benéfico, já que nos encontrávamos na mesma situação, nos compreendíamos e nos apoiávamos. Não só permitia que O contexto pandémico levou a que as aulas fossemos mantendo a matéria em dia e fossem online, o que permitiu que conseguisse fizéssemos revisões juntos, mas também que se conciliar melhor todas as aulas, teóricas e proporcionasse um momento de convívio. práticas. De fevereiro a março tive algumas semanas a assistir às aulas presencialmente e foi muito cansativo, o horário estava Como te sentiste ao veres os teus colegas a completamente preenchido e tinha de me prosseguir e tu a ficar barrada? deslocar para diferentes sítios constantemente. Apesar das atividades em que me envolvi Tentei ficar na maioria das cadeiras na e do apoio constante dos meus familiares e turma dos meus amigos, que me ajudaram, amigos, em janeiro comecei a sentir-me mais arranjaram apontamentos, tiraram dúvidas e
27
Entrevista me motivaram. O facto de estar mais ocupada e com mais objetivos por concretizar fez-me sentir mais equilibrada psicologicamente, ao contrário do semestre anterior onde só tinha uma cadeira para estudar. Quais os aspetos positivos e negativos que o ano barreira acarreta? Compreendo que para transitar para os anos clínicos seja importante que um aluno tenha as bases teóricas do 1º ciclo de estudos. Contudo, há um número considerável de alunos que ficam barrados e seria interessante a faculdade perceber o motivo e criar pontes com os alunos através de um sistema de apoio psicológico preventivo. Ficar um ano retido tem um impacto psicológico significativo na construção do futuro médico. No final do meu 5º ano, vi colegas meus com muita ansiedade, a
ponderar desistir do curso, devido à pressão de não conseguirem transitar para o ano de estágio. Sendo este um tema que me sensibiliza, envolvime no projeto COMBURNOUT na minha Tese, que visa testar a intervenção baseada na promoção de competências emocionais em estudantes de medicina e medicina dentária com Burnout. É importante formar médicos num ambiente saudável e de bem-estar, dar-lhes ferramentas de gestão emocional para prevenir o desenvolvimento de processos cognitivos disfuncionais e diminuir os níveis elevados de Burnout dos profissionais de saúde.
28
Casos Clínicos Em MedApprentice, nº4
Por Gil Cunha e João Nuno Soares
Um homem de 52 anos de idade vem ao SU de um hospital distrital às 01.30 am devido a dor abdominal intensa. É verão e ele estava numa discoteca a beber bebidas alcoólicas quando teve início súbito de dor abdominal que irradia para a sua virilha direita e testículo. Não tem antecedentes médicos relevantes. A sua tensão arterial é 148/82, o pulso 97/min; a temperatura auricular 37.0C; e as respirações 18/min. Apresenta-se inquieto, procurando mudar várias vezes de posição numa tentativa de aliviar a dor. O abdómen é mole com dor à palpação do flanco direito, sem defesa nem dor à descompressão. O exame inguinal e testicular é normal. O tira-teste urinário (Combur) revela hematúria (++), sem leucócitos nem nitritos. Avaliação laboratorial: sem leucocitose, PCR normal, função renal normal. A radiografia reno-vesical não demonstra alterações. Não há ecografia disponível. É administrado Cetorolac IV com alívio parcial da dor, tornando-se intermitente e progressivamente suportável. Qual é o melhor próximo passo na abordagem deste doente? A. Alta com AINE e tansulosina. B. Morfina IV. C. Referenciar para Urologia em Hospital Central. D. Soro fisiológico IV. E. TC Abdominal. É realizada TC abdominal sem contraste com protocolo de baixa dose, que revelou cálculo renal com 4mm no terço médio do ureter direito, hidronefrose moderada e ligeiro edema perinéfrico. Qual é o melhor próximo passo na abordagem a este doente? A. Alta, com AINE e tansulosina. B. Internar, com antibioterapia IV empírica. C. Referenciar para Urologia em Hospital Central. D. Repetir TC dentro de 12h. E. Nefrostomia percutânea imediata. Solução disponível com objetivo educacional e discussão com especialista em https://www.medapprentice.org/course/cc-4
29
Casos Clínicos Em MedApprentice, nº25
Por Maria Brito e Joana Bastos
Um homem de 27 anos, sem antecedentes médicos relevantes, é trazido pela sua companheira ao Serviço de Urgência por “alterações graves do comportamento” com 2 semanas de evolução. Durante a entrevista refere que chegou recentemente à conclusão de que é a reencarnação de Jesus Cristo e de que a sua missão é ajudar as crianças e os pobres. Diz ainda: “desde que senti este chamamento, tenho curado muitos cancros com as minhas energias positivas”(sic). Segundo a companheira, as primeiras alterações tiveram início há cerca de um mês, altura em que começou a ficar acordado até tarde enquanto lia sobre a Amnistia Internacional e a deslocarse durante o dia a várias capelas e igrejas da sua zona de residência em vez de trabalhar. Desde então tem dormido 4h por noite, em média. A companheira mostra-se ainda muito preocupada com a situação financeira do casal, uma vez que apesar de ambos auferirem apenas o salário mínimo nacional, o doente tem feito grandes doações a várias instituições de solidariedade. A companheira nega comportamento semelhante no passado. A história médica revela apenas consumo pontual de canabinóides. À observação, a sua pressão arterial é 145/81 mmHg, o pulso é de 101 batimentos por minuto, a frequência respiratória é de 20 ciclos por minuto e a temperatura é de 37,4ºC. Apresenta-se vigil e orientado, com marcada distratibilidade. O seu discurso é fluente e organizado com débito aumentado e difícil de interromper, saltando entre ideias sem aparente ligação lógica. Debita espontaneamente as ideias delirantes acima descritas. Não se apuram alterações da sensopercepção. Nega ideação suicida. Não apresenta crítica para a sua situação. A pesquisa de tóxicos na urina é positiva para canabinóides, negativa para opióides e negativa para cocaína. Qual é o diagnóstico mais provável? A. Perturbação Delirante B. Esquizofrenia. C. Perturbação Afectiva Bipolar D. Perturbação Esquizoafectiva. E. Psicose induzida por drogas.
Solução disponível em https://www.medapprentice.org/course/cc-25
30
História da Medicina das pústulas cutâneas de uma ordenhadora de vacas. Surpreendentemente, o rapaz de 13 anos teve uma forma discreta de varíola e ficou Rita Nunes, 3º ano imune. Em 1798, foi desenvolvida a primeira vacina contra a varíola e, uma vez que o material Há descobertas que têm a rara usado na inoculação provinha da vaca (do latim capacidade de mudar o Mundo. A “vacca”), a prática ficou para sempre conhecida vacinação foi uma delas. A par da como vacinação. água potável, do saneamento básico Jenner foi contemporâneo de Napoleão, que e da refrigeração e congelação, considerava vantajoso vacinar os seus exércitos, constituiu um dos o que foi determinante na massificação da d e s e n v o l v i m e n t o s vacinação. Ao longo dos séculos seguintes, responsáveis pela a imunização em massa contra a varíola mudança radical no intensificou-se em todo o mundo, culminando panorama da saúde em 1979 com a sua erradicação. Atualmente, a pública que ocorreu varíola apenas existe em laboratório, para não nos últimos 2 séculos. se perderem as estirpes.
Vacinas
A prática da imunização surgiu há centenas de anos. Monges budistas bebiam veneno de cobra para conferir imunidade às mordeduras destes répteis. Além disso, existe evidência de que os chineses já utilizavam a inoculação da varíola no século XVII, mesmo antes desta prática chegar a África e, finalmente, à Europa.
O próximo grande impacto na história das doenças humanas ocorreu com a vacina antirrábica de Louis Pasteur. As suas experiências envolveram coelhos, nos quais eram realizadas inoculações intracerebrais do vírus da raiva. Pasteur recolhia, de seguida, fragmentos secos da medula espinhal dos animais, que continham o agente inativado. A 6 de julho de 1885, Pasteur administrou, com No entanto, é a Edward Jenner (1749-1823) sucesso, a sua primeira vacina a Joseph Meister, que se atribui, justamente, o título de pai da um menino de nove anos que tinha sido vacinologia. Numa altura em que a varíola era mordido por um cão raivoso. um problema extremamente preocupante para O século 20 revelou-se uma época a Humanidade, causador de uma desfiguração importante para o progresso da vacinação: só terrível e de um número de mortes muito durante a década de 1930, foram desenvolvidas significativo, este médico e cientista inglês antitoxinas e vacinas contra difteria, tétano, fez uma observação que se mostrou ser cólera, peste, febre tifóide e tuberculose, determinante para a história da Medicina. entre outras. Na segunda metade do século, Jenner reparou que as mulheres que ordenhavam vacas não ficavam doentes com varíola humana. Inspirado pelo lema do seu mestre, John Hunter: “Para quê pensar? Porque não experimentar?”, em 1796, inoculou James Phipps, o filho do seu jardineiro, com material
os métodos inovadores de cultura de vírus em laboratório levaram a descobertas rápidas, incluindo a criação de vacinas contra a poliomielite. Graças ao contributo do microbiologista Maurice Hilleman, também o sarampo, a papeira e a rubéola, doenças
31
História da Medicina comuns da infância, foram alvo da criação de A resistência às vacinas não é de agora uma vacina, que reduziu muito a incidência das Apesar da evidente transformação que a mesmas. O sarampo é, atualmente, o próximo vacinação originou na saúde pública, sempre alvo da erradicação através da vacinação. houve resistência ao seu uso. Já em 1803, As últimas duas décadas viram a genética muito pouco tempo depois da experiência de molecular ser aplicada à vacinologia, o que Jenner, existia um tratado sobre os perigos da permitiu o desenvolvimento de vacinas vacinação! Claramente, a ignorância relativa às recombinantes contra a hepatite B, de uma vacinas e o facto de as mesmas serem eficazes vacina acelular e menos reativa contra a papeira incutiram receio nas pessoas. Atualmente, os e de vacinas contra o vírus da gripe sazonal. De movimentos antivacinas são muito diversos e a facto, tecnologias inovadoras como a do DNA maioria não tem qualquer base científica. recombinante e novas formas de inoculação A vacinação é uma prática invasiva, que das vacinas conduziram os investigadores dos tem como objetivo introduzir algo no nosso dias de hoje por novos caminhos, dos quais são organismo de forma a desencadear uma exemplos o desenvolvimento de vacinas contra resposta. A administração das vacinas continua alergias, doenças autoimunes e dependências. a ser feita praticamente da mesma forma que Além disso, a genética molecular abre portas a desenvolvimentos futuros entusiasmantes, incluindo a criação de novos sistemas de entrega de vacinas, novos adjuvantes, o desenvolvimento de vacinas contra a tuberculose mais eficazes e de vacinas em falta contra vírus e bactérias causadores de doenças graves.
nos seus primórdios e muitas pessoas rejeitamna por medo da picada. Na verdade, deveriam existir formas mais evoluídas de as administrar. Desde os seus primórdios, mais mortes do que poderíamos alguma vez contar foram evitadas por vacinas, e ainda mais vidas serão poupadas a um final terrível com as inovações que se adivinham durante o nosso tempo de vida. Basta pensarmos na rapidez e eficácia com que as vacinas contra a Covid-19 foram desenvolvidas para ficarmos com a confiança redobrada.
32
Cultural: Médicos da Minha Terra Inês Cabral Lopes, 5º ano
A rubrica “médicos da minha terra” é o espaço perfeito para vos contar a história de dois médicos muito importantes para mim: Dr. Evaristo de Sousa Gago e Dr. António Pires Cabral, os meus dois bisavôs maternos. Apesar de não os ter conhecido, as suas vidas ecoam pelas memórias da minha família e é com muito prazer que venho aqui passar o testemunho dos seus grandes feitos e do seu espírito de missão. Evaristo de Sousa Gago nasceu a 26 de junho de 1908, em São Braz de Alportel. Estudou no liceu de Faro e ingressou, de seguida, na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. À procura de mais prática clínica, pediu transferência para Lisboa, onde concluiu o curso.
À cabeceira de doentes em perigo de vida, doava até do próprio sangue, a ponto de debilitar a sua saúde – a minha bisavó contava das suas tentativas de encobrir as transfusões para não a preocupar. Porém, ao chegar a casa, o seu pedido denunciava-o: um cálice de porto e um punhado de nozes.
Como naqueles tempos era muito difícil arranjar trabalho, deixou a capital à procura de um lugar para exercer. Assim, na década de trinta, monta o seu primeiro consultório em Grândola e casa-se com Maria Cândida Pereira de Matos. Exerce sempre a sua atividade sem ligação ao EsTransportava frequentemente doentes até tado e, embora trabalhasse também no Hospital de Grândola, não recebia vencimento. Trabalha- Lisboa, no seu carro, para realizarem exames e reva excessivamente e acabava o seu dia a horas tar- ceberem tratamentos, devido à falta de recursos de um consultório de província. As memórias dias, muitas vezes de madrugada. destas longas viagens são contadas pela minha Vai ganhando fama pelas terras vizinhas, não avó, que assistia a tudo em criança, apertada lá só pelo seu olho clínico apurado, como pela sua atrás no banco do carro, a caminho de Lisboa. faceta humana e magnânima: não cobrava conA fama espalhou-se e vinham bater-lhe à porsultas aos pacientes com dificuldades financeiras, oferecia dinheiro para a compra de medica- ta pessoas de todo o país. Passaram a chamar-lhe mentos, realizava tratamentos de forma gratuita. “Nossa Senhora de Fátima do Alentejo”, pelos “milagres”, pelas ajudas e pela “peregrinação” que tantos faziam até Grândola. Como todos os heróis, a morte veio mais cedo: faleceu aos 67 anos. O seu funeral foi o maior da história da terra. Passados alguns anos, para o homenagear, o povo erigiu-lhe uma estátua, que se encontra no centro da vila. Contemporâneo e amigo de Evaristo era,
33
Cultural: Médicos da Minha Terra pois, o meu outro bisavô, António Pires Cabral, pai do meu avô materno. Nasceu a 19 de setembro de 1903 na Beira Alta, em Celorico da Beira Gare. Fez o liceu na Guarda e, à semelhança do colega, iniciou o curso de medicina em Coimbra e terminou-o em Lisboa, com 18 valores! À procura de trabalho, voltou a terras beirãs e montou o primeiro consultório em Loriga, na Serra da Estrela. Após um ano, decide correr o mundo a bordo, como médico da marinha mercante: visitou o Japão, China, Índia, Brasil, Argentina... Mas, três anos depois, a companhia foi extinta e António atraca em Lisboa, desempregado.
Também trabalhava na mina do Lousal e zelava pelos interesses dos mineiros, prejudicados pela baixíssima qualidade de vida e pelos inúmeros acidentes que ocorriam nas minas. A população era muito pobre, por isso, raramente Um dia, pelas ruas da capital, encontra um co- cobrava consultas e urgências. lega que acaba de deixar o cargo de médico numa Conhece eventualmente Evaristo, médico na pequena aldeia alentejana. Sabendo da situação terra vizinha, e ajudam-se mutuamente. Conta o de António, sugere que este concorra à posição. meu avô, que um dos primeiros encontros entre Tempos depois, Dr. Pires Cabral é o novo médi- ambos terá sido quando contraiu febre tifoide, co da Azinheira dos Barros. Passado um ano, em aos oito anos. O seu pai António, aflito por não 1933, casa-se com Emília Gomes Cabral e têm ver melhoras rápidas, procura Evaristo, que o quatro filhos. tranquiliza. Para além da aldeia, muito mais populosa na altura, existiam diversos montes alentejanos, isolados e dispersos naquela região, aos quais António socorria, a qualquer hora. Sem luz elétrica, sem enfermeiros e sem carro, era médico para toda a obra: fazia partos, tirava dentes, realizava pequenas operações cirúrgicas. Quando as doenças exigiam tratamento no hospital, redigia uma carta a colegas cirurgiões e encaminhava os seus doentes para Lisboa.
A partir da década de cinquenta, António deixa a mina do Lousal, para ajudar Evaristo no consultório de Grândola. Ambos procuravam estar sempre atualizados na sua área, comprando livros e assinando revistas médicas. Reformou-se aos 74 anos e faleceu aos 81. O povo construiu-lhe um busto, homenagem a uma vida inteira de dedicação aos mais pobres e necessitados. Vale lembrar que os dois médicos estreitaram ainda mais a sua relação quando o filho de António casou com a filha de Evaristo, em 1964. Trinta e cinco anos depois nasço eu, que vos conto esta história de dois bisavôs, médicos no sentido mais íntegro e humano da palavra. Com muita admiração, procuro seguir os seus passos e tornar-me, também eu, nesta ajuda preciosa e bonita que é ser médico.
34
Escrita Livre
Um pássaro… Inês Pires, 5º. ano
Como será um pássaro?! Ser livre… voar… Ser dinâmico… voar… Ser sem obrigações, Mas Ser sem lar… voar… Ser sem laços… voar… Ser triste em alegre felicidade Voar Cair Preso pela família, amigos, terra Preso atrás da muralha, mas amado, Conformado em precisar dos outros, Feliz, mas sem asas, sem liberdade plena, Partir Voar para longe… voar… Sem obrigações Total liberdade… voar… Não poisando por mais de um dia Sem levar os que não queriam… voar… os que prendiam Mas… Sozinho.
35
Escrita Livre A vida de olhos vendados. Francisca Pinho Rocha, Alumna FMUC
Olhamo-nos nos olhos na busca de entendimento, sem palavras medidas e de conversas cerradas - a sete chaves - fechamo-nos em nós. Procuramos aquilo que não conseguimos dizer e, oxalá, consigamos ver. O mundo está de luto. É de negro que se pinta o céu e de lágrimas que se tingem os olhares. A vida de olhos abertos é mais bonita. Palavras para quê, se os olhos falam tanto e expressam muito mais. Pergunto-me como é a vida de olhos vendados. Sem saber o que nos espera, sem olhar o que nos enfrenta. Pergunto-me como é a vida sem sabermos o que ver nela. Pergunto-me como encerram em si os seus olhos, a sua voz e o seu corpo: centenas e centenas de mulheres que por este mundo fora perderam o olhar e o grito, o corpo e o ser. Pergunto-me como é a vida de olhos vendados: como se alcança o céu se no chão impuseram os limites do corpo e na alma se sente a dor do vazio de liberdade. Pergunto-me como é ser sem ouvir o mundo e sem poder berrá-lo. Pergunto-me como sobrevivem, pergunto-me como sobrevirão. Na resiliência atrás de todas as burcas, escondidos sonhos, desfeitas em lágrimas, de corações partidos e sorrisos roubados, procuram o direito.
36
Apenas isso – o direito. De ser. De ver. De viver. O mundo está de olhos vendados. Não somos capazes de ver, não somos dignos de imaginar. É num profundo silêncio de que tanto se fala que julgamos saber o que se passa, mas, digo-vos, em vozes que tremem, não sabemos absolutamente nada do que vai para lá do preto pano. É triste o que nos separa – seres humanos – capazes de racionalizar. A maldade e a crueldade diante de nós, que somos incapazes de compreender absolutamente. Olhamo-nos nos olhos na busca incessante do conhecimento, de mãos dadas, na procura de abranger todas as religiões, ditaduras e opiniões. Mas – sem mais capacidades - há sempre substâncias que nos ultrapassam. E, agora, de olhos tapados, como se vê o mundo? Pergunto-me, em arrepios, como se vê o mundo, sem saber para onde vamos. Até quando? Até onde?
37
Escrita Livre Toucador Joana Mendes, 5º. ano
Com o vermelho do batom, pinto uma mancha escarlate na minha boca Um botão de rosa que brilha como o orvalho que goteja Tenho um fogo nos lábios que flameja Mas por detrás só há silêncio e uma cavidade oca Com o bege do batom, pinto a minha boca à cor da pele Lábios camuflados e escondidos na uniformidade Mas nestes lábios o silêncio esfuma-se, as palavras surgem à flor da pele E a borboleta esvoaça em liberdade Com o roxo do batom, pinto uma pétala lilás no meu beijo Lábios tingidos de amoras esmagadas Ao som reverberante de gargalhadas Partilhadas numa era a que desejo Voltar.
38
Sugestões de leitura Não sabes o que hás de ler a seguir? A aNEMia ajuda-te! Eis algumas das obras mais especiais para a nossa equipa: “Persépolis” Marjane Satrapi
“A Vida e a Lenda do Sultão Saladino” Jonathan Phillips
“A Biblioteca da Meia-Noite” Matt Haig
“Conversas Entre Amigos” Sally Rooney “No Café da Juventude Perdida” Patrick Modiano
“Os Sete Maridos de Evelyn Hugo” Taylor Jenkins Reid
“Os Combatentes” Konstantin Simonov
“Lá, onde o vento chora” Delia Owens
“A vida imortal de Henrietta Lacks” Rebecca Skloot
“O Terceiro Desejo”, Andrzej Sapkowski Boas leituras!
39
40