58ª Edição - dezembro 2020
Telemedicina - Burnout - Tortura no séc. XXI - Proibição do Aborto Alterações Climáticas - Liberdade de Expressão - Hipnose Clínica Entrevistas Exclusivas - E muito mais
Editorial Conhecemo-nos na fragilidade. 2020 testou-nos a todos os níveis e devemos usar isso a nosso favor. Como tábua de salvação, surge a escrita. A nossa mente pode ser o lugar mais solitário do mundo, mas pode igualmente ser a nossa melhor companhia. Findo o ano, todos entendemos a importância de cultivar esta relação. Espero que a minha primeira edição enquanto Coordenadora da aNEMia vos faça companhia e acalente neste Admirá/Abominável Mundo Novo. Em nome de toda a equipa, desejo-vos uma ótima leitura. Carinhosamente, A Coordenadora da aNEMia, Rita Gonçalves Rodrigues, 5º Ano.
Ficha técnica 58ª edição - dezembro 2020
Propriedade do Núcleo de Estudantes de Medicina da AAC Pólo das Ciências da Saúde da Universidade de Coimbra Subunidade 1 da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra Azinhaga de Santa Comba, Celas, 3000-548 Coimbra geral@nemaac.net www.nemaac.net anemia@nemaac.net revistanemia.blogspot.com
Departamento da aNEMia Direção: Rita Gonçalves Rodrigues Redação: Ana Sousa, Ana Catarina Pastilha, Andreia Gi, Inês Sampaio, Inês Teixeira, Joana Mendes, João Lobo Camelo, Josefa Guerra, Luís Bernardo Fernandes, Madalina Birsanu, Maria Gomes, Mariana Santos, Rita G. Rodrigues, Rodrigo Fortes Design e grafismo: Beatriz Borges Capa e contracapa: Beatriz Borges e Rui Ferreira Distribuição gratuita
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Índice
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Caso Clínico
Nosso Mundo
4. Telemedicina 5. Burnout nos Estudantes de Medicina
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26. Ai Mena, Crack My Case!
Mundo de Todos
Educação Médica
16. Entrevista: Hipnose Clínica, com a Psicóloga Ana Rita Freitas 20. Entrevista: Ensino clínico no estrangeiro em tempos de pandemia - Split, Croácia 22. Entrevista: Associação “The Pineapple Mind”, com Diana Pereira
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Escrita Livre
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Sugestões
28. História da Medicina: Anestesia - Um passado doloroso 30. História da AAC: Centenário da Tomada da Bastilha - Um dia para recordar e RECRIAR 32. Médicos da Minha Terra: Miguel Torga
8. (Sobre)viver na tortura 10. Aborto, inconstitucional? 12. SOS Terra: soluções sustentáveis em contrarrelógio 15. Je suis libre - Na sombra do totalitarismo de pensamento
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Cultural
36. Crónica de Gerações 38. Escuridão de afetos
39. Sugestões de leitura
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Nosso Mundo
Telemedicina
Mariana Santos, 1º ano
A telemedicina não é um conceito recente. Durante a 1ª Grande Guerra Mundial, foi fundamental nas frentes de batalha e hospitais de retaguarda. Mais tarde, começou a ser utilizada nas viagens espaciais e pelos marinheiros em alto mar. Se outrora a grande revolução da telemedicina surgiu com o aparecimento do telégrafo e rádio, a massificação atual do uso da internet e outras tecnologias permitiu a popularização e disseminação do sistema de Medicina à distância. Mais ainda, podemos agora telemonitorizar o doente, medindo constantemente os seus sinais vitais. Mas, como estará a regulamentação deste serviço? Será assim tão benéfico economicamente? E as relações entre médico e doente? Afinal, quais são os riscos? O mercado de venda destes dispositivos exerce uma elevada pressão sobre o doente para a sua aquisição. Porém, a carência de regulamentação esbate o limite entre os cuidados de saúde diários e doença, levantando importantes questões de privacidade e confidencialidade. Continuam a existir custos fixos, dada a necessidade em ter um médico especialista para fazer esta monotorização e suportar os
custos associados aos equipamentos. Para além de estudar, sou Médica Dentista e posso falar um pouco da minha experiência. A telemedicina surgiu no meu serviço como forma de triagem, fazendome atender presencialmente apenas os casos urgentes e inadiáveis. Nós, médicos, nunca podemos esquecer que os gestos e expressões do doente são fulcrais para o nosso trabalho. Apenas assim avaliamos o grau e origem da dor, por exemplo. Se é certo que a telemedicina permite a redução das deslocações no caso dos doentes crónicos, dúvidas relativamente a posologias e efeitos secundários, podem perder-se no digital. Também a nossa postura, a confiança que transmitimos ao paciente, pode acabar deturpada pelas consultas online. A telemedicina é uma aposta no futuro, mas apesar da clara melhoria na acessibilidade aos serviços de saúde, a telemonitorização e os contactos remotos podem levar à fragmentação e desumanização das relações. Na área da saúde, a linguagem não verbal é crucial para o estabelecimento de uma relação médico-doente de confiança e prestação de um bom serviço. Devemos ainda ter em consideração que, numa população cada vez mais envelhecida, não há uma uniformização do acesso às novas tecnologias, o que realçará as já existentes desigualdades sociais.
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Nosso Mundo Segundo um estudo publicado na Ata Médica em 2020, no qual se pesquisou a incidência de Burnout nos estudantes da FMUC, 40% revelaram elevados níveis de Burnout pessoal (estado de exaustão relacionado com problemas de saúde, familiares ou não académicos) e 28,1% de Burnout relacionado com os estudos académicos. Mais ainda, revelou que os alunos que têm atividades extracurriculares (associativas, desportivas, entre outras), apresentam menor incidência de Burnout, ansiedade e stress.
Burnout
nos Estudantes de Medicina
Inês Sampaio, 4º ano
O que é o Burnout?
Em 2019, a Organização Mundial de Saúde anunciou que o até então considerado fenómeno ocupacional Burnout, passará a fazer parte da nova Classificação Internacional de Doenças da OMS, que vigorará em 2022. O Burnout é descrito pela OMS como uma síndrome resultante de um estado crónico de stress, gerado em contexto de trabalho e associado a dificuldades de gestão emocional e coping. O Burnout pode ser caraterizado pela coexistência de: sensação de fadiga acentuada, com perda de energia; sentimentos negativos e de cinismo para com o trabalho, havendo um afastamento do mesmo por exaustão emocional; redução da eficiência e produtividade profissional.
O que leva os estudantes e os profissionais de saúde a entrar em Burnout?
A profissão médica exige dos seus profissionais caraterísticas específicas, nomeadamente capacidades intelectuais que lhes permitam ser
capazes de lidar com situações de extrema sensibilidade, aliadas a uma margem de erro diminuta. É uma profissão que requer uma elevada concentração e por longos períodos. Esta exposição prolongada a situações de stress e ansiedade, muitas vezes associadas ao sofrimento por antecipação, leva a uma maior incidência de quadros depressivos, abuso de substâncias e ideação suicida nos profissionais de saúde. De facto, traços de personalidade bastante comuns entre os alunos de medicina são um nível elevado de perfecionismo, atitude autocrítica e neuroticismo. Daqui, surge
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Nosso Mundo um maior risco de desenvolver ansiedade social e Burnout. De salientar que, segundo um estudo realizado por uma equipa da investigação da FMUP durante a Pandemia COVID-19, mais de metade dos profissionais de saúde apresentaram sinais de Burnout, stress e ansiedade.
Qual o motivo da grande incidência de Burnout no curso de medicina?
Começando no processo de candidatura ao Ensino Superior, há uma elevada competitividade por vagas nas escolas médicas. A discrepância entre os métodos de
ensino da faculdade e secundário gera dificuldades de adaptação, aliada a uma menor proximidade aluno-professor e tendo o aluno de se tornar autodidata. Em vários casos, o próprio ensino pré-clínico é gerador de frustração, dado os alunos não terem esperado algo tão teórico e se verem obrigados a adquirir competências num tempo escasso. Mais ainda, existe uma sobrevalorização dos métodos de avaliação. A intensa e exigente atividade académica pode gerar dificuldade em corresponder às expectativas do próprio e, por vezes, da família. Pode levar ao adiamento de projetos pessoais e à dificuldade
Figura 1
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em equilibrar o estudo com a vida destas pessoas evitarem situações social. Devido à dificuldade de evocadoras de stress. gestão de tempo e tarefas, pode haver comprometimento de outros Quais os apoios hábitos essenciais para o bem-estar, disponibilizados? como ter uma dieta equilibrada, Devido ao estigma que existe praticar exercício físico e ter bons relativamente à saúde mental, hábitos de sono. muitas das pessoas que sofrem stress crónico, ansiedade e/ou Como se manifesta e quais burnout, tendem a inibir-se de as suas consequências? procurar ajuda. É importante O Burnout pode manifestar-se de reconhecer os sinais de exaustão diversas formas, sendo a exaustão e arranjar mecanismos para lidar emocional (com a consequente com eles, prevenindo situações redução da empatia) e física mal adaptativas como depressão (cefaleias, alterações do sono, dores e abuso de substâncias. Na figura musculares) as caraterísticas mais 1, estão elencadas algumas das prevalentes. Pode dificultar a gestão estratégias no processo de coping e emocional, levando a ataques gestão emocional, perante situações de pânico e ansiedade, surgindo de stress e ansiedade . Entre as várias então uma desmotivação e auto- opções de ajuda, deixamos algumas desvalorização crescentes. Ignorar o a que é possível recorrer. trabalho acaba por ser uma forma
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Mundo de Todos que mergulha numa era cada vez mais digital, que desafia permanentemente a velocidade da luz, é que existe TORTURA em ¾ do mundo, documentada pela Amnistia Internacional.
(Sobre)viver na Tortura Inês Teixeira, 4.º ano
De acordo com o artigo 5º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, “ninguém será submetido a tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes”. O artigo 1º da mesma declara que “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos”. A realidade atual, que acompanha a evolução da tecnologia,
Vivemos na ignorância, à sombra das imensas lutas pela sustentabilidade de um planeta que se desmorona de dia para dia; por um minuto de paz após anos de guerra; por menos um caso positivo para o novo coronavírus; por mais um momento de lucro numa economia em decadência. As nossas preocupações fechamnos a mentalidade. Vivemos ao lado de milhões de homens, mulheres e crianças torturadas, detidas, contidas e abandonadas, sem espaço para a dignidade. Cada vez é mais difícil encontrá-los, pois não os procuramos; mais difícil ainda investigá-los, porque são torturados à porta fechada; pior é documentálos, porque não há testemunhas; porque as autoridades o negam; porque estas vítimas são colocadas em isolamento; porque sofrem demasiado para conseguirem referenciar o que aconteceu; porque temem as represálias; porque são ameaçadas; porque serão novamente torturadas. Existe tortura quando uma autoridade provoca dor e sofrimento intencionalmente, com uma finalidade específica. Não existe diálogo para colher informação, nem critério para obter uma confissão. São arrancadas castigando, intimidando
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e ameaçando, oferecendo gratuitamente o máximo de dor, promovendo o medo, quebrando o espírito humano, vencendo toda a resistência física, psicológica e emocional. A base é uma crueldade sem limites. A tortura tem métodos cada vez mais sofisticados, com o objetivo de não deixar marcas. Contudo, não há uma única forma de tortura física que não torture a mente e toda a tortura psicológica tem alguma repercussão física. Esta violência transforma e mata lentamente a vítima, sendo internacionalmente proibida desde 1948. Surgem assim as queimaduras de cigarro; a privação do sono; a simulação de afogamento; os choques elétricos; a posição
dolorosa por longas horas; a violência sexual; a humilhação pública; a cadeira de imobilização; a utilização dos cintos paralisantes; o recurso a bastões elétricos e pontiagudos; a aplicação de coleiras; substâncias químicas e espancamentos repletos de ódio. O espetro só termina com o irreversível: a morte. A liberdade do Homem termina onde começa a do outro e entre as duas não há espaço para a desumanização das relações interpessoais e dos comportamentos sociais. A vida, comum a todos, só pode ser plenamente vivida e realizada se nela estiver incluída a justiça, a dignidade, o equilíbrio e a paz.
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Mundo de Todos Vamos primeiro passar a lente Vamos lente pelo contexto polaco prévio, no que pelo que respeita àà IVG: IVG: respeita A IVG legal era de livre acesso? A acesso? Não. Não.
Aborto,
inconstitucional? Josefa Guerra, 4.º ano
A Polónia sempre foi e continua a ser um país extremamente conservador. Esta tendência observa-se nas mais diversas vertentes, mas algumas delas têm vindo a criar revolta (inter)nacional. Destacam-se as propostas de restrição do acesso ao aborto, de proibição da Educação Sexual nas escolas e ainda a legalização da participação de crianças na caça. Os mais recentes acontecimentos foram despoletados quando a ativista Kaja Godek criou uma petição online com a finalidade de restringir ainda mais o acesso à interrupção voluntária da gravidez (IVG), o vulgo “aborto”. Visava impedir a IVG em casos de malformação fetal. Acrescenta-se que um dos partidos ultraconservadores no poder, o “PiS” Partido Lei e Justiça, apoiou este movimento.
Quando ééque que uma mulher Quando uma mulher popodia optar pela IVG? Apenas em dia optar pela IVG? Apenas em 4 4 situações: incesto; violação; se a vida situações: vida da mãe mãe estiver em risco e em da em casos casos específicos de de malformação malformação fetal fetal. específicos Quantas IVG IVG Quantas ocorremocorrem anualanualmente na Oficialmente: Polónia? mente na Polónia? Oficialmente: 2000. Clandestinas/ 2000. Clandestinas/ilegais: estiilegais: estimam-se 200000. mam-se 200000. Porqueapenas apenas ouvimos falar, Porque ouvimos falar, em em peso, deste movimento agora? peso, deste movimento agora? Esta Esta não é a primeira petição deste não é a primeira petição deste génegénero, mais recente tinha ro, mas amas maisa recente tinha ficado ficado “congelada” por interesses “congelada” por interesses políticos. políticos. O aPiS adiou a com discussão, O PiS adiou discussão, receio com receio de nas repercussões nas de repercussões urnas, aquando urnas, aquando das eleições das eleições presidenciais. presidenciais. A decisão do Tribunal Constitucional Polaco, de que a IVG em caso de malformação fetal é inconstitucional, levou milhares de pessoas para as ruas em plena pandemia, motivadas por aquilo que é uma clara violação dos direitos humanos, segundo a Amnistia Internacional. A pergunta que mais surgiu após a explosão deste tema, foi: “E tu, és a favor ou contra o aborto?”. As respostas parecem ser “sim” ou “não”, mas não é assim tão simples. Ninguém é a favor do aborto. Ninguém quer que o aborto aconteça. O que queremos é que
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Agencja Gazeta via Reuters
seja seguro, legal, acessível e não estigmatizado. Trata-se de um direito básico, o direito de escolha do que acontece com o próprio corpo. Outra misconception é a de que uma IVG é leviana, que sempre que uma mulher engravide de forma não programada, lhe seja fácil optar por uma IVG. Não é! Esta é uma decisão morosa e traumática, por muito que se pense que não. O próprio processo de IVG inclui um período de reflexão, após explicação do mesmo e suas consequências, para que nenhuma decisão seja tomada de forma irracional e desesperada.
impedir que a mulher tenha direito a escolher entre dois caminhos seguros, forçando-a a perpetuar uma gravidez indesejada ou a recorrer a opções clandestinas, ilegais e perigosas. Não se enganem, ilegalizar a IVG não impede uma mulher de “abortar”. Impede-a de o fazer com segurança. Legalizála não a promove. Potencia a informação, a segurança e a decisão consciente.
É hora de acabar com os dogmas “legalizar é promover” e “ilegalizar é impedir”. Não é! Ilegalizar a IVG não é impedir que esta aconteça, é
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Mundo de Todos
SOS Terra:
soluções sustentáveis em contrarrelógio Maria Nunes Gomes, 4.º ano
7 anos, 4,3,2,1 dias, horas, minutos e segundos… conta o “Climate Clock”, um relógio colocado em M a n h a tt a n , Nova Iorque, em setembro de 2020. Este relógio expõe o tempo que temos para salvaguardar a vida no Planeta Terra. A partir daí, a quantidade de CO2 emitida para a atmosfera e a elevação da temperatura do planeta serão incompatíveis com a vida. De braço dado com a competição pela economia mais poderosa, estão, segundo o relatório anual da ONU de 2019, as elevadas emissões de CO2 para a atmosfera pela China e EUA, seguidas pela UE. Os possantes setores da energia, indústria e agricultura, continuam a consumir os recursos do planeta,
nomeadamente combustíveis fósseis e água potável em quantidades alarmantes, numa escalada sem precedentes. A estes, junta-se a maior produção de plástico descartável na história do planeta - 8,3 mil milhões de toneladas de plástico ao longo das últimas seis décadas foram fabricadas e inevitavelmente tornarse-ão resíduos nos oceanos. O plástico veio para ficar (500 anos, mais precisamente!) e, se a sua produção for a mesma que a atual, em poucos anos existirão mais embalagens de plástico no mar do que peixes. Até quando vamos considerar isto aceitável? Até quando vamos assistir serenamente ao aquecimento global e à destruição da nossa casa? Temos um planeta a crédito, pelo que a questão fulcral é: O que estamos dispostos a fazer para o preservar? A outra face do relógio, conta a percentagem crescente de energia renovável que alimenta o globo. É imperativo que atinja os 100% antes da primeira face do temporizador marcar os 0 segundos. Estimase que em 2030, mais de 60% da população mundial resida em áreas metropolitanas, por isso a criação de “florestas verticais” é um dos mais recentes e interessantes projetos que têm vindo a ser desenvolvidos. Passam pela construção de residências recobertas por centenas de árvores, arbustos e outras plantas. É uma forma eficiente de aumentar significativamente as zonas verdes
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Mundo de Todos nas cidades, com a consequente remoção de CO2 e libertação de O2 na atmosfera. Para além disso, amenizam a atmosfera, isolam ruídos e promovem a biodiversidade. Este projeto já existe em Milão, Itália e, se fosse distribuído num plano horizontal, ocuparia mais de 40.000 m2. Estão em andamento planos para a sua construção em
várias partes do mundo, inclusive de florestas verticais em habitações sociais, para que esta realidade seja acessível a todos. As inundações são uma das principais consequências das alterações climáticas e as “cidades esponja” podem ser uma resposta para este problema. Usando materiais permeáveis,
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Mundo de Todos com vegetação incorporada, constroem-se parques e estradas, em detrimento do betão e asfalto. Assim, mimetiza-se a natureza e respeita-se o ciclo natural da água, absorvendo-a, filtrando-a e levando-a para a rede urbana (podendo ser reaproveitada). A água também pode evaporar, contribuindo para o arrefecimento do ambiente. Já os diques e outras infraestruturas aprisionam a água, pelo que devemos privilegiar os terraços e outros espaços abertos, que se adaptem e estabeleçam a harmonia entre água e terra. Cada cidade necessita de um plano distinto, de acordo com as suas necessidades e encargos. Outro notável projeto e bem mais próximo é o primeiro Parque Eólico flutuante da Península Ibérica, construído na costa portuguesa e chamado “WindFloat Atlantic”. As plataformas e s t ã o ancoradas a 100m de profun dida de, não explorando as águas profundas. A superfície do mar ou de um lago quase não influencia o vento, fazendo do alto mar o local ideal para a produção de energia eólica. Quando este
sistema estiver 100% operacional, irá gerar energia suficiente para abastecer 60 mil famílias por ano. Entrámos numa nova década, que parece marcada pela mudança e, portanto, ideal para iniciar boas práticas ambientais. O caminho a percorrer é longo e laborioso, mas tomar medidas é fulcral e exigirá compromisso, responsabilidade e esforço. Não deixemos o relógio ditar um desfecho fatal. Proteger o Planeta é, indubitavelmente, a missão mais nobre que teremos.
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Mundo de todos Je suis libre...
na sombra do totalitarismo de pensamento
Ana Sousa, 3º ano Num subúrbio a oeste de Paris, Samuel Paty, um professor de História e Geografia de 47 anos, foi decapitado próximo à escola em que lecionava. Por exibir caricaturas do profeta Maomé durante uma aula sobre liberdade de expressão. Por usufruir de um direito básico. Por tentar transmiti-lo aos seus alunos. Por ser vítima direta de um fanatismo religioso (e perigoso) mascarado de desculpabilização cega na fé islâmica, já que qualquer representação do profeta é uma blasfémia. Em “nome de Ala”. Em nome de um terrorismo invisível, mas estridente. A culpa não é da religião. É de quem a usa como escudo ou combustível para inflamar multidões extremistas. Massacres, atentados, armas, bombas, sequestros, profanações. Poderíamos criar uma linha cronológica com todos estes ataques deliberados e calculados ao pormenor. Por muito que retrocedêssemos no tempo, a origem do caos acabaria por encontrar sempre as mesmas raízes. O que pode ser visto como ofensa condenável, proclamase como expressão pura da liberdade no seu sentido mais individual e, simultaneamente, social. No simbolismo de nações livres e integradoras, hospeda-se um parasitismo hostil e quase surdo de ideias e ideais como arsenal letal. Vive-se, morre-se em Seu nome. E mata-se. Também. Samuel, e todos os que se lhe antecederam e sucederam (como no mais recente terror em Moçambique), tornou-se mais um mártir da apregoada secularidade (e não secularismo, se queremos radicalismos à margem). Num enfoque mais holístico, o problema está perfeitamente escondido sob um véu transparente: as palavras, as opiniões, as crenças, a liberdade de expressão, não vão com o vento. Inertes, adensam-se vagarosamente numa redoma envidraçada e ganham forma. Revolvem-se, expandem-se como uma teia, ocultam-se até ocuparem o seu espaço. Se a redoma não quebrar, é-lhes fadado um eterno silêncio onde se alimentarão tão somente de vazio. Até que o próprio vazio se transforme num buraco negro. Mártires silenciosos também contam histórias e dão voz a batalhas sem nome. No final de contas, pergunto…
Onde se esconde o medo?
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Educação Médica pouco se torne num tema de debate constante, que se perceba que, de facto, é uma prioridade falar da Psicologia, torná-la acessível a todos. Desmistificar alguns dos temas associados a ela.
Entrevista:
Hipnose Clínica, com a Psicóloga Ana Rita Freitas Rita G. Rodrigues, 5º ano
Ana Rita Freitas, Psicóloga com formação e prática clínica na área da Neuropsicologia, MDR e Hipnose Clínica, acedeu prontamente ao nosso convite para esta entrevista, que visa quebrar estigmas e abrir horizontes aos futuros médicos.
Muito obrigada, Rita, em nome de toda a revista, por aceitares falar connosco! É mesmo uma honra poder entrevistar-te. Começo por te pedir para nos explicares o porquê de teres escolhido ser psicóloga. O que te fascina na tua profissão?
Desde pequena que dizia aos meus pais e a quem me perguntava que gostaria muito de seguir uma profissão que me permitisse conhecer e ajudar os outros. Dizia que queria “perceber a mente humana” e, portanto, sempre tive esta curiosidade e fui percebendo que a Psicologia era o caminho ideal para mim. Sempre tive este projeto de vida e quando tive de escolher, foi uma decisão fácil. É um privilégio fazer parte de uma profissão com uma missão tão nobre. Todos os dias, torna-nos melhores quer a nível pessoal como profissional. É sem dúvida gratificante.
Uma das tuas ferramentas em consulta é a Hipnose Clínica. A maioria das pessoas é cética a esta abordagem. Também tinhas algum preconceito, antes de a estudar? Se sim, o que te Antes de mais, agradeço o convite fez perdê-lo? em poder contribuir com o meu conhecimento na área da Psicologia nesta entrevista. É um grande gosto poder responder às vossas questões. Acredito que a Psicologia e as ferramentas que os psicólogos estão habilitados a usar poderão chegar cada vez mais longe. Acho, até, que é uma missão dos psicólogos da atualidade levar a Psicologia mais longe e fazer com que pouco a
No final da formação académica, temos de fazer um estágio profissional para podermos pertencer à Ordem dos Psicólogos e sermos considerados membros efetivos. O meu estágio foi feito na Clínica Dr. Celso Oliveira, em Ovar, e esta clínica tem uma abordagem diferente da maioria. Aborda a Psicoterapia Integrativa, com ou
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sem hipnose. Ao longo do estágio contactei e aprendi com o Dr. Celso acerca da hipnose. A Hipnose é uma ferramenta de trabalho, ou seja, durante uma consulta de Psicologia, recorro à hipnose como acréscimo áquilo que é feito. Continuo a trabalhar na clínica em que estagiei e uso-a para obter melhores resultados. É um mundo muito interessante.
Durante a hipnose, o paciente está consciente? Tem algum controlo sobre si? Há alguns mitos ainda associados à hipnose que acredito que a pouco e pouco serão quebrados. A Hipnose Clínica não é a “hipnose de palco”. Como já referi, é uma ferramenta de trabalho. Permite ajudar as pessoas Que tipos de patologia de uma forma muito prática e respondem bem à Hipnose? acredito que, a pouco e pouco, Pode ser utilizada em qualquer poderá desconstruir algumas ideias patologia, atuando em vários pré-concebidas. contextos. Dependendo das Em relação ao paciente estar características individuais, será ou não consciente: a pessoa está “administrada” de uma outra forma. totalmente consciente e não É um processo adaptável a qualquer faz nada que não queira. Está patologia. totalmente presente e apercebeÉ verdade que é possível se de todo o processo - que é bem natural e tranquilo. A pessoa substituir a anestesia pela permite que o seu lado consciente hipnoterapia, numa cirurgia? fique a observar, enquanto que o Muitos estudos têm sido seu lado não consciente (não gosto feitos nesse sentido. A expressão de utilizar o termo inconsciente, “Hipnosedação” tem vindo a ganhar pois pode ser usado de forma peso no mundo da saúde, mesmo pejorativa) atua e dá algumas entre médicos. Pode analgesiar e respostas. preparar o doente para determinada cirurgia. Por exemplo, em França
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Educação Médica já foram feitas algumas cirurgias ao cérebro recorrendo à hipnose como anestesia e os resultados foram muito positivos. É importante sabermos que dias antes da cirurgia, o utente deve ter algumas consultas de hipnose, de forma a preparar a cirurgia e ir deixando que o seu lado consciente se habitue a estar do lado do observador. Também já se ouve falar na possibilidade de, em breve, as equipas de cirurgia integrarem profissionais da área da hipnose. É um tema que sem dúvida se irá debater cada vez mais. Em consulta, acompanho vários médicos e vejo neles uma grande curiosidade relativamente ao que faço e isto deixa-me muito satisfeita.
Alguns até revelam interesse em aprender sobre a Hipnose Clínica e em usar esta ferramenta no seu dia a dia. Acredito que será uma skill capaz de diferenciar os profissionais de saúde e que será muito benéfico para os pacientes.
Quais as histórias mais marcantes com as quais te deparaste, ao longo da tua experiência? Conta-nos, dá-nos algum exemplo que te venha à cabeça. Já vi a Hipnose Clínica a ser realizada nos mais diversos casos e vários deles marcantes. Por exemplo, lembro-me de um caso de violação na infância. Ao usarmos a hipnose como ferramenta, a vítima da violação relembra o processo, vê conteúdos duros “do lado de fora”,
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sendo mais fácil encaminhá-la e ajudá-la uma vez assumido o lado do espectador. Também doenças físicas são particularmente responsivas a esta ferramenta e, aqui mais concretamente, trabalho bastante em parceria com médicos, desafiando-nos mutuamente. Grande parte dos problemas físicos têm uma componente mental. É importante combater nas duas frentes – física e emocional. Assim, seremos mais eficientes.
Qual o feedback dos teus pacientes? Tanto na prática clínica online como presencial, o feedback tem sido, felizmente, muito positivo. Reparo que as pessoas começam a perceber o processo e a envolverse nele, ficando cada vez mais motivadas e interessadas. Quando notam a mudança que esta ferramenta traz às suas vidas, ficam com vontade de continuar a resolver os seus problemas com esta abordagem.
podermos estar aqui a falar sobre o tema!
Mais uma vez, muito, muito obrigada pela tua disponibilidade! De certeza que conseguiremos abrir horizontes com esta entrevista. Eu é que agradeço muito o convite e por poder falar convosco! Estou totalmente disponível para esclarecer as vossas dúvidas, de quem ler ou ouvir esta entrevista. Fico verdadeiramente feliz por este convite. Estou disponível para futuras conversas que queiram ter sobre o mundo da Psicologia, este grande mundo pelo qual sou apaixonada. Luto constantemente para poder levar mais longe a nossa mensagem e o nosso trabalho.
Contactos: • anaritafreitas.psicologia@gmail.com • 915 514 345
Qual prevês que seja o futuro papel da Hipnoterapia, no SNS? Não sei qual o futuro da Hipnoterapia nem da Hipnose Clínica no SNS e estas são diferentes. Cada vez mais, vejo enfermeiros e médicos a tirar formações na área da Hipnose e acredito que será cada vez mais posta em prática. Há psicólogos a trabalhar no SNS que usam esta ferramenta e acho ótimo
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Educação Médica Entrevista:
Ensino clínico no estrangeiro em tempos de pandemia - Split, Croácia Andreia Gi, 6.º ano
Com o intuito de aferir quais as medidas adotadas pelas faculdades de Medicina de diferentes países para fazer frente à pandemia, entrevistámos Ivan Covic, aluno do 4º ano de Medicina na Universidade de Split, Croácia.
Antes de mais, obrigada pela tua disponibilidade em falar connosco. Conta-nos, qual a atitude adotada pela tua Universidade, quando a pandemia surgiu? A minha Universidade não tomou nenhuma ação significativa até o Estado ter declarado o confinamento obrigatório. Após essa decisão, a transição do ensino presencial para o online foi rápida, ainda que o começo tenha sido acidentado. Foi difícil para os professores, muitos com mais de 50 anos, mudar com sucesso para o ensino digital. Nos primeiros meses da pandemia (março até maio), as aulas teóricas online variavam drasticamente na qualidade entre si e ninguém tinha aulas práticas presenciais. Se o confinamento tivesse durado mais tempo, o comprometimento da nossa formação seria ainda maior. Quando o confinamento terminou, a Universidade teve mais espaço de manobra na organização das aulas. O governo orientava, mas a última palavra era dada pelas faculdades. Assim, as próximas medidas e regras que mencionarei foram implementadas pela Faculdade de Medicina de Split. O corpo docente quis seguir as diretrizes epidemiológicas globais e permitir o ensino presencial durante o maior tempo possível. Assim, as aulas práticas no hospital passaram a ser possíveis pela transição para
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grupos menores de alunos. Todos os primeira dias, ao chegar ao hospital, é-nos mão a medida a temperatura corporal. batalha contra As máscaras eram e continuam a este vírus. Tivemos ser obrigatórias, tanto no campus oportunidade de ir à como em espaços fechados. As Unidade de Cuidados Intensivos aulas teóricas clássicas, em que da COVID-19, observar todo o todos os alunos estariam presentes, processo de descontaminação e passaram a ter apenas 1/3 dos como é trabalhar nestas condições. estudantes.
A tua faculdade está a Quais consideras serem os assumir os custos do material de principais desafios e oportunida- proteção, como máscaras, luvas des para os estudantes de e batas? Medicina durante esta época? O maior desafio, eu diria, é adquirir competências práticas. O status de aluno não nos permite continuar o nosso processo de aprendizagem facilmente. Já o maior obstáculo, a meu ver, é o facto de alguns professores/médicos, encarregues de nos ensinar competências práticas em ambiente hospitalar, poderem facilmente usar a desculpa “precauções COVID-19” e negaremnos o acesso às aulas práticas. Ter de contar com a sua boa vontade é um grande problema.
A Universidade forneceu aos alunos máscaras para as atividades dentro do campus. Quanto à faculdade em si, deu-nos máscaras cirúrgicas para quando estivermos no hospital, mas não em número suficiente. Enquanto conversamos, acabo de receber as viseiras de proteção, também distribuídas pela faculdade.
Relativamente à autonomia para tomar decisões clínicas, têm-na?
Sim, mas de forma bastante Envolvem apenas Também gostaria de mencionar limitada. que, atualmente, somos culpados por habilidades clínicas básicas, como a termos comportamentos “normais”. anamnese e exame físico. Chamam-nos egoístas, dizem-nos Muito obrigada, mais uma vez, que não somos suficientemente em nome da revista pela tua sérios, por tentarmos continuar as disponibilidade e boa sorte para nossas vidas da forma mais normal o teu percurso! possível (sem colocar ninguém em Podes consultar a entrevisperigo, obviamente). ta original (Inglês) no website da A maior oportunidade, na minha aNEMia (clica aqui). opinião, é ver e experienciar em
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Educação Médica aulas. A dada altura, o meu estado psicológico alterado fez-me pôr em causa a escolha do curso e decidi congelar a matrícula. Na altura da recuperação, apercebi-me de uma grande lacuna no que diz respeito a conteúdos de psicoeducação escritos em português, páginas online com testemunhos e dicas de recuperação de doenças do foro mental, tão comuns noutros Luís Bernardo Fernandes, 4.º ano países. Ao mesmo tempo, tentei psicoeducar-me, utilizando conteúO rosto que abraça a entrevista dos estrangeiros. (…) é o de Diana Carvalho Pereira, de Entre a medicação que fiz, estava 24 anos, estudante da FMUC, que preside a Associação “The o triptofano. Este está presente Pineapple Mind” (TPM), a em alguns alimentos, sendo que qual pretende erradicar um dos frutos mais ricos nele é o o estigma da saúde ananás. Assim sendo, depois de me mental pela via da sentir recuperada, decidi tatuar um sensibilização ativa ananás, para me lembrar de tudo da população para o que posso fazer para promover o meu bem-estar. Quando criei o este flagelo. projeto, fez sentido para mim darEnceto a lhe o nome “mente do ananás”, e n t r e v i s t a , uma mente sã.
Entrevista:
Associação “The Pineapple Mind”
agradecendo em nome da revista a tua disponibilidade. Assim, quais as razões que te impulsionaram a criar a Associação que coordenas e qual a história por detrás do nome?
Eu é que agradeço o convite. Em 2017, tive uma depressão tão limitadora que cheguei a congelar a matrícula na faculdade, quando já estava no 4º ano. Deixei de ter prazer em tudo o que fazia, inclusivamente frequentar as
Lançaste recentemente um eBook intitulado “A mente também dói, mas pode doer menos!”, com a contribuição de outros elementos da TPM. Sucintamente, de que trata? O eBook contempla práticas promotoras da saúde mental, com tudo o que funcionou comigo e poderá também funcionar com quem o ler. Ou seja, não serve para tratar nada, mas sim para prevenir doenças. Não existem fórmulas mágicas universais no
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que diz respeito a terapias não farmacológicas e alternativas. Cada pessoa deve experimentar várias opções e ver o que faz sentido consigo.
A associação da qual és fundadora leva a cabo uma petição pela contratação de mais psicólogos nos Cuidados de Saúde Primários. Quais as vossas motivações? (…) Urge entender que a psicologia em Portugal ainda é um luxo, uma vez que só quem tem dinheiro para pagar consultas no privado tem acesso garantido a esse serviço. Quem não tem, sujeita-se a listas de espera intermináveis no serviço público. Em 2019, existiam apenas 213 psicólogos a trabalhar nos centros de saúde. Existem mais do dobro de centros de saúde em Portugal, ou seja, não há profissionais da psicologia disponíveis em todos eles. Se esses 213 psicólogos fizerem quarenta horas semanais, cobrem pouco mais de 34 mil portugueses. E os outros? Um em cada cinco portugueses sofre de uma doença do foro mental. (…)
causa de morte nos jovens é o suicídio. As estatísticas são preocupantes e a maioria das pessoas desenvolve patologias do foro mental no início da vida adulta, por dificuldades de adaptação e lacunas no desenvolvimento. É necessário psicoeducar devidamente as crianças e jovens para que não desenvolvam patologias evitáveis, fazendo-o também nas escolas, onde se fala muito do corpo humano mas pouco da mente. É necessário falar abertamente sobre emoções, sentimentos e preocupações.
Tendo em conta a alta incidência de burnout nos estudantes universitário, consideras que se desvaloriza esta temática ou que pecam as medidas tomadas para o seu combate?
Consideras relevante a “psicoeducação” desde os tenros anos de idade, pelos pais ou escolas? A
segunda
principal
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Educação Médica Considero que existem universidades preocupadas com esta temática, outras nem por isso. Em Coimbra, por exemplo, sinto que muito pouco se faz. Os SASUC têm consultas de psicologia com uma lista de espera complexa. Quando congelei a matrícula, ninguém me ligou a perguntar o porquê e se precisava de apoio. Para além disso, quando os estudantes revelam absentismo ou falta de aproveitamento, ninguém indaga sobre motivos. (…)
ao tratamento, cinge-se frequentemente à parte farmacológica, não estando nem a terapia comportamental nem a psicoterapia contempladas na terapêutica. O que pensas em relação a isto?
Na maioria dos casos estão recomendadas, só não são usadas por falta de recursos humanos no serviço público. Existem inúmeros estudos que comprovam a eficácia da terapia cognitivo-comportamental e outras No que concerne ao raciocínio psicoterapias, em alguns casos igual clínico que nos leva a um ou superior a psicofármacos.
diagnóstico, consideras que o Urge-me perguntar-te, como recurso a ECDs na Psiquiatria aprendeste a encontrar tempo poderia ajudar? para dar azo à “The Pineapple Não gosto de rotular doentes Mind”, enquanto tens de dar com diagnósticos, gosto de conta das obrigações inerentes estudá-los e perceber como ao curso? podemos ajudar, orientados para o seu problema em específico. Nos Estados Unidos e países nórdicos, os estudos
d i n â m i c o s (que juntam o estudo da anatomia e da função, como PET/ CT) já são usados há anos, na Psiquiatria. Cá em Portugal, não há dinheiro nem vontade.
Já
relativo
“Quem corre por gosto não cansa”, dizem. Tento todos os domingos organizar a minha semana, tendo em vista conciliar as aulas, estudo e tese, com o trabalho associativo e gestão de diversos projetos. Ao mesmo tempo, nunca fui de exigir exageradamente de mim, no que diz respeito a resultados. Prefiro estudar para saber a longo prazo do que estudar para mostrar a curto prazo, como costumo dizer. E por isso mesmo, ponho o meu
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bem-estar e qualidade de vida à frente do resto. E acho que estarmos bem psicologicamente e felizes é o primeiro passo para tudo o resto correr bem.
Quais os conselhos que deixas aos nossos leitores para cuidarem da sua saúde mental?
um dia não tenha de existir, estando todos sensibilizados para a importância da saúde mental e deixando de contribuir para o estigma. Não sei se será possível, mas não custa idealizar. No entretanto, pretendo que a Associação cresça e continue a intervir não só na psicoeducação em rede da nossa comunidade, como também social e politicamente.
Os conselhos passam por não se privarem do que vos faz feliz, com os devidos cuidados. Assim, Podes consultar a entrevista na passeiem, ouçam boa música, sua íntegra no website da aNEMia aproveitem os momentos em (clica aqui). família e tentem manter contacto com os amigos, mesmo que seja só virtualmente. E tentem desligar, nas horas de descanso, das notícias sensacionalistas. Se têm dificuldade em relaxar, experimentem praticar mindfulness ou técnicas de respiração. Fazer exercício é sempre positivo, pela conhecida e famosa libertação de endorfinas, que nos causam bemestar. Manter a higiene de sono e hábitos de alimentação saudável, é igualmente i m p o r t a n te para nos sentirmos bem.
Em jeito de conclusão, o que ambicionas futuramente para a Associação? Costumo dizer que o meu grande objetivo é que a Associação
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Caso Clínico A Dra. Mena está de serviço nas urgências. Consegues ajudá-la a resolver este caso?
Ai Mena, Crack My Case!
História da doença atual: Doente de 71 anos, com história ocupacional de exposição a asbestos, foi admitido no Serviço de Urgência por dor no hemitórax anterior direito, permanente, com 2 meses de evolução, agravada nos passados 3 dias. Associadamente, apresenta perda ponderal progressiva (20% peso basal) e incapacidade na marcha por desequilíbrio, associada a vómitos matinais incoercíveis em jejum, após o despertar.
Exame objectivo: PA 113/70 mmHg, FC 110 bpm, FR 18 cpm, SpO2 (FiO2 21%) 94%. Desorientado, colaborante passivamente. AC: taquicárdica, regular. Sem ES ou sopros. AP: MV diminuído no hemicampo pulmonar direito superior. Sem ruídos adventícios. Abdómen sem alterações. Exame neurológico sumário: GCS 14. Hemianópsia homónima. Ataxia axial. Romberg positivo. Fundoscopia com papiledema.
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Departamento de Radiologia, St. Vincent’s University Hospital, Dublin
Obtém a seguinte radiografia torácica:
Questão 1.
Qual das seguintes lesões não se enquadra no diagnóstico diferencial? a. Abcesso pulmonar; b. Neoplasia do pulmão; c. Tuberculose pulmonar d. Aspergiloma; e. Bronquiectasia cística
Questão 2.
Indique a afirmação correta. a. A fibroscopia está contra-indicada na suspeita de tuberculose pulmonar; b. Tratando-se de uma neoplasia, a lesão é típica de um adenocarcinoma; c. A lesão é provavelmente de sede pleural; d. A PET/CT com 18F-FDG é de utilidade limitada na distinção entre etiologia neoplásica e infecciosa; e. A lesão é sugestiva de metástase.
Questão 3.
Indique a afirmação correta. a. A PET/CT com 18F-FDG é útil na pesquisa de lesões secundárias encefálicas; b. É essencial obter neuroimagem neste doente; c. A corticoterapia está contraindicada na presença de lesões ocupantes de espaço encefálicas; d. Na presença de metástases encefálicas, deve iniciar-se terapêutica citotóxica mesmo sem um diagnóstico histológico; e. O estádio da doença será provavelmente IVa. Envia as tua resposta para o instagram ou facebook da Mena! @anemia.revista
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Cultural: História da Medicina descrevem técnicas de anestesia por inalação, nomeadamente a “esponja soporífica” - um pano embebido em narcóticos. Esta técnica adquiriu particular popularidade na Itália do século XIII e acabou por se difundir pela Europa, onde manteve um papel basilar até ao século XIX.
Anestesia um passado doloroso
Os primeiros passos anestesia na clínica
da
O óxido nitroso foi descoberto 1772, sendo inicialmente considerado um gás letal. Esta suposição foi posteriormente desmentida por Humphry Davy que, testando o gás em si próprio, descobriu que o fazia rir e batizou-o como laughing gas.
Joana Mendes e Madalina Birsanu, 4.º ano em
No nosso quotidiano, tomamos muitos aspetos como garantidos. A anestesia não faz parte da rotina da maioria das pessoas, mas é um recurso indispensável em Medicina. Assim, na sua primeira visita ao bloco operatório do CHUC, muitos se questionam: “Como é que antigamente se operava sem anestesia?”
Anestesia na Antiguidade Os primeiros registos da utilização de substâncias para fins de analgesia e sedação vêm da Mesopotâmia, onde há milhares de anos se usava o álcool pelas suas propriedades neuro-depressoras. Já a civilização Inca, era conhecida pela utilização de anestésicos durante a trepanação – abertura de um orifício no crânio como terapia. A anestesia local era conseguida com folhas de coca, uma planta conhecida pelo seu alto teor em cocaína. Textos arábicos do século XI
Em 1844, a curiosidade do dentista Horace Wells pelo óxido nitroso levou-o a submeter-se à extração de um dente sob o efeito do gás. Satisfeito com o resultado e com o conhecimento adquirido, Wells começou a utilizar óxido nitroso na sua prática clínica. Contudo, ao realizar a demonstração da técnica no Hospital Geral de Massachusetts, foi surpreendido quando as coisas não correram como o esperado - o doente gritou de dor. Nos finais do século XIX, o éter
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era bastante popular como droga recreativa. Curiosamente, a juventude da época realizava eventos com o propósito de o consumir. Estas festas eram designadas ether frolics e os seus participantes não sentiam dor quando, inevitavelmente, tropeçavam e se lesionavam. William Morton, um médico que fora aluno de Horace Wells e inconformado com a demonstração em Massachusetts, decidiu procurar uma substância que proporcionasse melhores resultados de analgesia. O éter revelou-se uma boa alternativa e Morton conseguiu provar a sua eficácia.
prática clínica, chegaram também as primeiras mortes associadas ao seu uso, devido não só à falta de conhecimento farmacológico, mas também à frequente delegação da tarefa de anestesiar aos membros menos experientes da equipa cirúrgica. Partindo destas modestas origens e chegando ao presente, o ramo da Anestesiologia sofreu um enorme progresso.
Com cada avanço, foi possível desenvolver novas técnicas cirúrgicas, mais seguras e que seriam impensáveis num doente não anestesiado, avanços esses que continuam a notar-se na atualidade, permitindo que cada vez mais A descoberta de que o éter doentes sobrevivam ao trauma provocado pela cirurgia. provoca irritação pulmonar, levou o médico escocês James Simpson a buscar fármacos mais seguros, trazendo à luz o clorofórmio. Mas foi apenas a administração de clorofórmio à Rainha Vitória, durante o parto do seu 8º filho e pelo médico John Snow, que levou à massificação do recurso a este composto como anestésico. Com a chegada da anestesia à
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Cultural: História da AAC
Centenário da Tomada da Bastilha: Um dia
para recordar e RECRIAR
Josefa Guerra, 4.º ano
A madrugada de 25 de novembro de 1920 ficará para sempre marcada como a noite da Tomada da Bastilha. Cerca de 40 estudantes da Academia de Coimbra, descontentes com as condições do Colégio de São Paulo Eremita, decidiram reivindicar uma nova sede para a Associação Académica de Coimbra. Nessa noite, tomaram a Casa dos Lentes, um espaço com condições dignas que se tornou, assim, na nova sede da Associação Académica de Coimbra. Ao mesmo tempo, outro grupo de estudantes subiu à Torre da Universidade de Coimbra, apadrinhada d’A Cabra, para tocar os sinos e assinalar a conquista estudantil. Em vez das típicas bandeiras, hastearam uma capa negra, mostrando a toda a cidade que os estudantes não se resignariam e que,
mais uma vez, juntos triunfariam. Ainda nessa madrugada, realizaram um cortejo desde a alta à baixa da cidade de Coimbra, munidos de tochas e vestidos com o seu traje académico. Desde então, todos os anos os novos estudantes celebram esta data, recriando a conquista dos seus antepassados, fazendo um cortejo pelo percurso de outrora, entre outras comemorações. Esta parece uma história muito simples, mas não é - tratase da nossa História, enquanto estudantes de Coimbra e herdeiros do legado dos que antes de nós vieram. A Associação Académica de Coimbra desde sempre marcou uma posição forte na defesa estudantil, sendo estas conquistas, a par de tantas outras, que mostram a sua força e poder reivindicativo. Agora, em 2020, num ano marcado por tantos percalços e dificuldades, celebramos o centenário da Tomada da Bastilha. Esta celebração e a memória dos acontecimentos passados apresentam-se hoje, de certa forma, como um símbolo de esperança. Esperança de ultrapassarmos os obstáculos, como tantos outros fizeram antes de nós. Apesar da crise sanitária que vivemos com a pandemia, não nos podemos esquecer de olhar para trás, relembrando os feitos dos nossos antepassados e as suas lutas estudantis. Não para ficarmos presos ao passado, mas sim para reconhecermos que os estudantes
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têm força e que, num período tão conturbado, não podemos deixar de lutar pelos nossos direitos e pela educação digna, que tanto merecemos. É importante termos consciência que todos somos capazes de tomar a Bastilha, basta
querermos. Se não o fizermos, sujeitamonos a uma crise ainda maior, com consequências inigualáveis. Uma crise de indiferença.
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Cultural: Médicos da Minha Terra
Miguel Torga João Lobo Camelo, 4.º ano
Como primeira edição desta rúbrica, optámos por escrever sobre um médico que nos é familiar, cujas palavras nos são transmitidas desde tenra idade, as quais já nos foram
história, da que se sabe que foi vivida por outrem, debruçar-se, por exemplo, sobre o quartzito rasgado das Fisgas do Ermelo e lembrar as suas palavras, acerca do mesmo lugar: “A contemplação dos abismos naturais é necessária de vez em quando a quem tem a atracão dos outros. Toma-se consciência, com rigor físico, das asas que nos faltam para estar à altura da máxima de Nietzsche…”. E, portanto, sem que se queira aqui abordar os ventos
“Corre por estes montes um vento desolador de miséria que não deixa florir as urzes nem pastar os rebanhos”
citadas por alguém; que se nos gravaram tal e qual foram esculpidas nas lajes de casas da Baixa do Porto, ou porventura as lemos numa livraria ou em manuscritos empoleirados nas estantes das nossas casas. Pessoalmente, gosto de encontrar as suas palavras pelos lugares onde andou, nos quais se enterneceu e dos quais se serviu para produzir a sua obra; há um certo prazer em pisar chão com
desoladores da pandemia atual que todos enfrentamos parece-nos, no entanto, imperativo relembrar os ventos revoltosos que enterneciam e motivavam o médico escritor Miguel Torga, para que em vez de más notícias e contagens de infetados, possamos refrescar as nossas próprias aspirações no enredo da sua belíssima sensibilidade. Antes de vos expormos as suas motivações e, para compreender
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esta eclética personagem, há que a contextualizar no seu percurso, ainda que só o possamos fazer com infeliz brevidade. Em 1907, na pequena aldeia de São Martinho da Anta, Vila Real, nasceu Adolfo Correia da Rocha. De origem humilde e criado na dura ruralidade do interior, passou a adolescência entre Porto, Lamego e Minas Gerais, período ao longo do qual se familiarizou com os textos sagrados. Estes, assim como as paisagens, gentes e memórias da sua terra natal, “reino maravilhoso” do qual se afastou por imposição da precariedade, viriam a ter enorme relevância ao longo da sua obra, fornecendo todo o contexto social e geográfico de muitas das suas histórias e personagens. Volta a Portugal em 1925 e ingressa na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra três anos depois, tendo-se radicado na mesma cidade, posteriormente, como médico otorrinolaringologista. Entre a sua primeira publicação (altura em que já se deixava conhecer pelo célebre pseudónimo), Ansiedade (1928) e criações postumamente publicadas, atribuem-se-lhe mais de 50 obras, distribuídas pela poesia, contos, memórias, críticas sociais e contemplações, muitas das quais
traduzidas em diversas línguas. Contam-se ainda os inúmeros prémios e distinções, reconhecimentos e homenagens, que refletem não apenas o prolífico génio literário de Torga, mas sobretudo o caráter devotamente humanista, o percurso de desobediência aos grilhões da opressão (chegou a ser preso em 1940 pelas críticas tecidas ao regime de Franco) e o valor das inúmeras palavras consagradas à denúncia da pobreza, da fome, e da injustiça social. Sendo mais atual do que nunca a problemática da desumanização na Medicina, na qual se verifica uma cada vez maior mecanização e evolução tecnológica a par de, por vezes, uma comunicação médico-doente pouco empática, afastada das vertentes psicossociais e emocionais da doença, parecenos justa a menção, em jeito até de humilde homenagem a este homem - competente médico e fabuloso escritor, que soube falar sobre a dor tanto do ponto de vista de quem procurou mitigá-la, como do ponto de vista de quem a sofria. Aliás, as profundas observações éticas, a forma sincera como nos apresenta os povoadores dos seus contos e a pintura de histórias repletas de verdades, como a morte,
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Cultural: Médicos da Minha Terra tristeza, abandono, perda irreparável e solidão o são nas nossas vidas, tornam-se responsáveis por uma inegável sensação de confiança e familiaridade com Torga. Esta mesma sensibilidade, que o escritor cultivava nas suas relações humanas e a qual devemos procurar nutrir (alguns de nós enquanto futuros profissionais de saúde), não pode ser esquecida perante os avanços da Medicina. Quanto à ponte entre medicina e escrita, apesar do autor nesta última raramente mencionar a atividade profissional da saúde, são palpáveis o humanismo e a presença da imprescindível qualidade do Médico - a empatia - nas suas meditações sobre a emoção humana, a opressão exercida pelo regime e ainda as condições precárias em que viviam os desfavorecidos. Estes, lembravaos em personagens transmontanas que perpetuam os ciclos da natureza, sulcando as margens do Douro e as terras pedregosas do interior lusitano, refletindo, desta forma, o respeito que nutria pelas gentes humildes e trabalhadoras, “heróis altivos, cingidos às leis da condição”. Há que sublinhar, ainda, a inspiração subversiva do escritor. Tendo presenciado alguns dos horrores da Guerra Civil Espanhola e lamentando que o mesmo fascismo totalitário se tivesse instalado em Portugal, Torga desafiava-o através de participações em movimentos libertários, manifestações e da escrita. Vergastando o regime com
“cada palavra e cada pensamento, que eram um risco que se corria”, foi repetidamente alvo de censura pela PIDE, tendo mesmo sido obrigado a permanecer três meses na cadeia do Aljube. Viria posteriormente a deixar a seguinte reflexão, escrita a 27 de Abril de 1961 no IX volume do seu Diário, que uma vez mais reflete o seu humanismo e coerência moral: “Há trinta e cinco anos que olho com o mesmo consternado espanto os sujeitos que me vigiam. Nos tempos da Inquisição, ainda se poderia aceitar - com dificuldade, mas enfim… - que o fanatismo da fé levasse certos homens a comportamentos desumanos, embora Deus lhes não encomendasse o sermão. Mas agora nenhuma cega força interior motiva semelhante deformação. Um polícia secreto de hoje procede à margem de qualquer impulso sectário. Atua simplesmente por ofício. E é isso que me penaliza e assombra: que a intolerância possa constituir um modo de vida”. Hoje, felizmente, podemos tecer reflexões abertamente, expressar a plenitude da nossa criatividade e abrir a janela do nosso interior em voz alta, graças ao esforço incansável de bravos como Torga. Mas longe estamos de nos podermos dar ao luxo de baixar os braços e aceitar o mundo como está – há muitas frentes do bem pelas quais combater. A última lição do Poeta que vos queria trazer, é a da necessidade de travarmos destemidamente essas batalhas, na direção de um
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mundo mais equilibrado e justo. Se o mundo nos parecer demasiado complicado, demasiado grande para que possamos compreendê-lo, nas suas revoltas, acontecimentos e motivações, aconselhamos a leitura de Torga: é um bom começo.
“E foi por isso que fiz aqui uma promessa que te transmito: que estava certo de que tu, habitante dos nateiros da planície, terias em breve compreensão e amor pela sorte áspera destes teus irmãos. Que um dia virias ao encontro da aridez e da tristeza contidas nas suas fragas, não como leitor do pitoresco ou do estranho, mas como sensível criatura tocada pela magia da arte e chamada pelos imperativos da vida.”
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Escrita Livre sobre as gerações da sua mais nova moradia, quais seriam as minhas reflexões?
Crónica de Gerações
Rodrigo Alexandre Fortes, 6.º ano
Por estes corredores já sinto no ar uma proverbial altiloquência da vida nova, pelo choro dos bebés que aqui nascem. Este ambiente está impresso sob a rúbrica da arte materna, dos primeiros cuidados, dos primeiros momentos. Observo atentamente o pequeno Santiago e pergunto-me: se tivesse de lhe falar
Para cada geração há uma vontade indómita em exercer ao máximo o poder, o monopólio da razão, deter o título de “bem-fazejo”. Faz parte desse cocktail teórico o mantra “no meu tempo não era assim”. A salvaguarda ética, ou o namoro da matriz conservadora imbuída em rotulações deve ser substituída por referências, segundo diferentes prismas. A reflexão sobre as gerações apenas oferece uma heurística. Advogando os princípios
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da tecnologia, cria-se o intervalo entre as gerações, criam-se marcas temporais, cultua-se uma noção de tempo e contemplação. Em sobrevoo panorâmico sobre a obra da nossa geração, vejo uma geração aguda, instantânea, um homem que se satisfaz com a forragem da urgência, gestante da impaciência, adepto da sacralidade da obsolescência programada. Procura mostrar a si mesma que a motivação vem de fora e nesse terreno pantanoso não reconhece fronteiras simplesmente as confunde com barreiras. Antes, tínhamos de nos adaptar ao mundo dos nossos pais. Hoje, são eles que se têm de adaptar ao nosso. A celeridade das mudanças criou uma extenuante necessidade de adaptação e criação de adendas. Tudo vai assumindo raias de impessoalidade. A transmissão de uma imagem do passado deixou de ter como executor um indivíduo com o qual estabeleço uma aliança de ensino-aprendizagem. Passou a ser um click. A felicidade tornou-se obrigatória e a dimensão trágica da existência deixou de ser importante. A fama é a Deusa alada do nosso século. Estamo-nos adaptando a essa nova demanda, de lidar com um eu mais próximo, potencialmente aliciado e um tecido social mais amplo. Ainda estamos canalizando medidas para amparar e esperamos procedimentos de contramedida para desarmar o egoísmo. Estamos
num momento heterónomo da humanidade, resultado da contenda entre temor e cobiça. Mas… Caro avô do Santiago! A terceira idade não é apenas próxima da finitude de maneira velada. Não vale nomenclaturar a nossa sociedade atual como “Sociedade fraturada”, porque isso implica dizer que ela algum dia foi coesa (mentira!). Meus queridos, não sois a geração de ouro. Nenhuma geração assim caracterizada daria origem a uma geração de lata. Analisemos alguns pontos soltos da “vossa virtude”: 1. Afetividade – não existe mais ódio agora, apenas mais contacto e visibilidade para aqueles que odeiam. Quantos de vós aprendeu a dizer “amo-te”? Uma geração com sérios problemas em termos de inteligência emocional. Falar em cordialidade quando temos 2 guerras mundiais no curriculum? O recrudescimento autocrático dos vossos pais ainda tem reverberações em vossos âmagos. 2. Funcionalidade – A virtude é prática e não teórica. A Hipocrisia não é de hoje. 3. Sociabilidade – Há uma crença que a linguagem institui realidade, isso não é verdade.
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“Então Santiago? ‘Tás pronto?”
Escrita Livre Escuridão de afetos Ana Catarina Pastilha, 5º ano
O cansaço...
Despe-se o dia De luz Para ver a noite.
O instante que aparece E desaparece...
Vem a noite Envolta em véu de estrelas Para lhe mostrar a Luz.
A expectativa que não vem... Busca incessante de felicidade. Feliz cidade?
Sedentos de escuridão Procuram os nossos olhos cegos O aconchego das pálpebras.
Cidade que repousa No véu da noite. Insónias.
Cegueira de informação, Fotópsias constantes de ecrã, Distância (que) mente.
Noites em claro Pela azáfama da claridade. Uma escuridão de afetos.
Palavras presas no olhar, Gestos reprimidos, Humanidade enclausurada. Um abraço De sonhos e esperança Perdido no mar do entendimento. O querer ser um ser Que não pode ser. A (im)perfeição. Um ter Que não tem para ser. Damos tudo sem dar.
Ilumina-te com a compaixão Do pequeno grande ser Que podes ser. Dá no olhar ao outro A certeza de estares Mesmo na tua ausência. Sê um sol para a lua Nas horas de noite escura. Coração quente que dá Luz e cura.
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Sugestões de leitura Não sabes o que hás de ler a seguir? A aNEMia ajuda-te! Em 2020, foram estas as obras literárias que mais marcaram a nossa equipa: “Equador”, Miguel Sousa Tavares
“O filho de mil homens”, Válter Hugo Mãe
“Sinto muito”, Nuno Lobo Antunes
“Ensaio sobre a cegueira”, Saramago “Caim”, Saramago
“Viagem do Elefante”, Saramago “Vaticanum”, José Rodrigues dos Santos
“O processo”, Kafka
“A metamorfose”, Kafka
“O Arquipélago de Gulag”, Alexandre Soljenitsine
“Dune”, Frank Herbert
“1984”, George Orwell
“Cem anos de solidão”, Gabriel García Márquez
“A Rapariga que Roubava Livros”, Markus Zusak
“O rapaz do pijama às riscas”, J. Boyne
“The hate u give”, Angie Thomas Boas leituras!
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