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55º Edição aNEMia

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Editorial

Sejam bem-vindos à revista do NEM/AAC, a aNEMia! Com o iniciar de um novo ano letivo, trazemo-vos uma nova edição que marca a criação de um Departamento do NEM dedicado exclusivamente a esta revista. Abraçámos este projeto com a certeza de que esta é a atenção verdadeiramente merecida pela aNEMia. Nesta maré de mudanças que nos dá a oportunidade de alargar os horizontes do papel que desempenhamos junto dos nossos estudantes e da comunidade, pretendemos alargar ainda mais a dedicação prestada a esta revista e permitir que ela faça parte do vosso dia-a-dia, seja a lê-la ou a escrevê-la. Para isso, além das edições impressas, criámos uma Página do Facebook e estamos a trabalhar no Site da aNEMia! Na 55ª Edição, que agora vos apresentamos, mantivemos a estrutura base da revista utilizada em edições anteriores, preenchendo-a com temas atuais e “fora da caixa” que, esperamos, serão do vosso agrado. Nunca é demais relembrar que serão sempre bem recebidos no seio da Redação da aNEMia. Seja simplesmente pela experiência ou porque a escrita faz parte das vossas paixões e gostavam de a integrar no vosso percurso académico, convidamo-vos a fazer parte desta aventura! Para quem regressa, desejamo-vos mais um ano de muito sucesso. Para quem traz as malas pela primeira vez, esperamos que se sintam acolhidos e preparados para triunfar. Bem-vindos a casa! “O médico vê na palavra um recurso terapêutico, o escritor parte dela para a criação artística. Há momentos, porém, em que literatura e medicina se sobrepõem. Escritores escrevem sobre doença. Médicos procuram dar uma forma literária a seu trabalho.” Moacyr Scliar A Coordenadora da aNEMia, Sara Cardoso, 4º ano O Editor Assistente, Filipe Barbosa, 4º ano

Ficha Técnica

55ª Edição – Setembro de 2019

Propriedade do Núcleo de Estudantes de Medicina da AAC Pólo das Ciências da Saúde da Universidade de Coimbra Subunidade 1 da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra Azinhaga de Santa Comba, Celas, 3000-548 Coimbra geral@nemaac.net www.nemaac.net anemia@nemaac.net

Departamento da Anemia

Direção: Sara Cardoso (Coordenadora) e Filipe Barbosa (Editor Assistente) Redação: Ana Sousa, Andreia Gi, Carla Maravilha, Eduarda Sá Marta, Joana Neves, Josefa Guerra, Inês Teixeira, Madalina Birsanu, Maria Gomes, Rodrigo Fortes, Sara Meirinhos, Sofia Pereira Design e Grafismo: Inês Nunes e Mariana Pinto Capa: Inês Nunes e Mariana Pinto Impressão: Singular Print Tiragem: Distribuição Gratuita


ATUALIDADE CULTURAL

CIENTÍFICO

EDUCAÇÃO MÉDICA

MUNDO 4 NOSSO Médicos Indiferenciados 7 MUNDO Crise Refugiados 9 MUNDO Crise Humanitária 11 MUNDO Assédio Sexual

CLÍNICA 13 FORMAÇÃO Intercâmbios - Estágios clínicos no estrangeiro OUT 15 INSIDE “The American Dream” E FORÇAS ARMADAS 17 MEDICINA “Batas Brancas ou Camuflados? Ambos!”

CLÍNICO 19 CASO“Doctor, Crack My Case!” DE CANCRO DA MULHER 21 BIOMARCADORES “Um pequeno passo na ciência… Uma grande esperança para a medicina”

23 ESCRITA LIVRE 25 CARTAZ CULTURAL 26 CRÓNICA “As vozes das redes sociais” 28 UC CIENTíFICA 30 FICÇÃO “O que aconteceria, num hospital, se ficasse sem internet durante 24h?”


Nosso Mundo

Médicos Indiferenciados

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e acordo com o Decreto Lei n.º 13/2018, de 26 de fevereiro, que define o Regime Jurídico do Internato Médico, que por sua vez regula a formação médica pós-graduada, o procedimento concursal para ingresso no internato médico inicia-se com uma candidatura (que, para todos os candidatos que tenham iniciado o curso de Mestrado Integrado em Medicina em 2018 ou em data posterior, contemplará 20% da classificação final do mesmo), seguida da prestação da prova nacional de acesso à formação especializada não dependente da obtenção de nota mínima e, posteriormente, escolha e colocação na formação geral (Ano Comum), finda a qual é concedida autonomia ao médico. Por fim, colocação na formação especializada entre outubro e novembro. Tal diploma não prevê, no entanto, que a carreira médica possa ser interrompida. Mas assim o tem sido, assim o é, e poucas medidas – para não dizer nenhumas – se veem ser implementadas no combate a tal intempérie que precariza e inviabiliza a formação médica, pondo em risco o próprio Sistema Nacional de Saúde (SNS). A partir de 2015, tornou-se notória a existência de um número crescente de médicos recém-diplomados que não consegue obter vaga para complementação da sua formação conducente ao grau de especialista. A evidente incapacidade de se garantirem vagas de formação específica resulta do aumento, em cada ano, do numerus clasus, do número de candidatos em cada concurso devido à existência de médicos que concorrem novamente para ingresso numa especialidade diferente, bem como pela recandidatura daqueles que desistem no ano anterior e, particularmente, pelo aumento exacerbado do número de candidatos provenientes de Escolas Médicas Estrangeiras. Assim, torna-se insustentável a capacidade formativa e pedagógica dos Hospitais e Centros de Saúde, não garantindo a todos os candidatos a finalização da formação médica, que invariavelmente apenas se concretiza com o grau de especialista. Desde 2017, a Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM) defende a redução do numerus clausus no curso de medicina, emitindo comunicado, na pessoa da então presidente Ana Rita Ramalho, a dar conta dos “efeitos deletérios que advêm do desinvestimento na saúde que se verifica no nosso país e que resulta na suspensão da formação de 158 médicos em 2015, de 213 em 2016 e de 347 médicos [em 2017]”. Já em 2019, a Associação reforçou a necessidade de promover um melhor planeamento dos recursos humanos no setor da saúde. Na verdade, cabe ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior regular o número de ingressos no ciclo de estudos em Medicina, assim como a rede de oferta formativa das Escolas Médicas portuguesas e o concurso nacional de acesso ao Ensino Superior. Desde 2009, o numerus clausus para o curso de Medicina aumentou de 180 para um número fixo de 1800 estudantes, aos quais se somam aqueles que ingressam a partir do concurso especial de acesso para licenciados e os contigentes das ilhas. Todos os anos, por cada 100.000 habitantes, são diplomados

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cerca de 15,9 médicos, valor que excede consideravelmente a média dos países da OCDE. Porém, com isto não se quer dizer que exista um número excedentário de médicos em Portugal. Num debate promovido pelo “Expresso” no mês de julho do ano presente, o ex-Ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes afirmou que o problema se prende com a distribuição geográfica assimétrica dos profissionais médicos pelas várias zonas do país, a qual tem sido realizada de forma claramente desigual e desajustada às necessidades das populações. A tudo isto, de acordo com declarações recentes à RTP1 de Miguel Guimarães, Bastonário da Ordem dos Médicos, soma-se a perda dos já especialistas do SNS por falta de cativações (mais evidente a partir de 2009 com a alteração dos regimes de dedicação exclusiva ao SNS), bem como o crescente apelo para a prática médica privada e para a emigração dos mesmos – especialmente aliciante pelos ordenados mais avultados e propiciação de melhores condições laborais – o que contribui para a menor disponibilidade de vagas no acesso à especialidade, dado que um serviço depende do número de especialistas no quadro para poder capacitar e formar novos. Torna-se, portanto, clara a urgência na solução que passa por responsabilização do Estado no planeamento dos recursos humanos em saúde, através da promoção de políticas de fixação de médicos no SNS. Já a Associação de Médicos pela Formação Especializada (AMPFE), perante “este cenário anacrónico, no qual os médicos deixam de estar enquadrados em processos formativos tutorados, desintegrados das equipas e arredados das carreiras médicas”, expecta serem criados pela falta de tomada de medidas pela tutela “mais de 4000 médicos sem especialidade até 2021”. Assim, vai mais longe e defende uma reforma ao Internato Médico, sumarizada nos seguintes pontos: 1. Alteração do Regime Jurídico do Internato Médico, com alargamento da formação geral para 2 anos; 2. Inclusão na formação especializada de todos os médicos que até então não tiveram acesso, através de um concurso extraordinário, aproveitando o gap year criado pelo alargamento da formação geral para 2 anos, no qual os internos do 1.º ano da formação geral transitam para o 2.º ano da formação geral, não se prejudicando os candidatos incluídos no concurso “regular”, uma vez que não lhes são retiradas quaisquer vagas; 3. Implementação de um planeamento integrado da formação médica, permitindo a articulação de vagas entre as escolas médicas e o internato médico, para que uma situação semelhante não se repita no futuro e para que os recursos médicos em Portugal sejam planeados com racionalidade, tendo em conta as necessidades da população; 4. Inclusão dos candidatos com autonomia para o exercício da medicina no grupo que concorre até 5% da totalidade das vagas, o qual já inclui os candidatos especialistas ou aqueles que se encontram a realizar o internato. A insegurança e o descontentamento crescentes relativos à incerteza do futuro do médico, aliados às declarações recentes da Ministra da Saúde, Dr.ª

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Marta Temido – “Um não-especialista pode ser igualmente qualificado”; “A força de trabalho faz-se com especialistas, mas também com médicos com um perfil mais genérico de competências” – refletem uma inadmissível falta de transparência na informação dada à população sobre os trâmites da formação médica, a qual defrauda a confiança dos profissionais de saúde ao tornar cada vez mais evidente a perda de direitos, descredibilizando cada vez mais as condições de trabalho médico em Portugal. Neste contexto, são ainda mais preocupantes as declarações recentes prestadas pelo Sr. Primeiro-Ministro António Costa, acusando a Ordem dos Médicos (OM), na sequência do seu protesto contra a abertura da nova Faculdade de Medicina da Universidade Católica, de “restringir a concorrência e limitar o acesso à formação”, impedindo que haja mais profissionais. Na verdade, a OM não tem um parecer vinculativo no que respeita à aprovação de cursos ou definição do número de vagas, razão pela qual já emitiu comunicado a refutar tais declarações. Maior “estranheza” surge perante a crítica de falta de médicos, em virtude de o Sr. Primeiro-Ministro e o Sr. Ministro das Finanças terem já declarado publicamente que o SNS nunca teve tantos médicos como agora. Quase parece que a memória política padece de uma certa efemeridade, chamemos-lhe de “gente que não sabe estar”. E deixemos, já agora, de parte o facto de a formação de um maior número de médicos não significar que estes exerçam profissão no SNS.

(...) Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM) defende a redução do numerus clausus no curso de medicina (...) Interpelada sobre a questão da indiferenciação médica, Ana Rita Fradique, recém-diplomada pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC) que se encontra neste momento a estudar para a Prova Nacional de Acesso à Formação Especializada, chega à inevitável conclusão da possibilidade de “esforço não recompensado”. Esta prova que define em grande parte o seu futuro está sobretudo associada a “uma grande incerteza” porque “por um lado, é uma nova prova e ninguém sabe muito bem como será, mas que [forçosamente] consolida o conhecimento dos últimos 6 anos, sendo uma mais valia enquanto médica; por outro lado [encerra em si] a possibilidade de entrada numa especialidade de menor interesse, de que não goste tanto ou ausência completa de vaga”. Todo este cenário nos leva a crer que os gritos cada vez menos silenciosos que soltamos enquanto estudantes e médicos do amanhã, na luta pela finalização da nossa formação, ecoam a curto alcance. Resta-nos manter acesa a chama reivindicativa, movida, em última instância, pelo sonho maior que nos une a todos nós: salvar vidas humanas. Sara Meirinhos, 5 º ano

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Mundo de Todos

Mediterrâneo: um mar de (im)possibilidades

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iariamente, milhares de pessoas vêem-se obrigadas a abandonar o seu país de origem pelas mais variadas razões. Contudo, a forma como é feita a passagem pelo Mediterrâneo é comum a todas estas: é uma viagem dura e perigosa onde muitos perdem a vida. Já neste ano, 559 pessoas morreram a cruzar o Mediterrâneo ou encontram-se desaparecidas. Tendo em conta este problema crescente, torna-se importante perceber de onde vêm e para onde vão estes migrantes e conhecer os obstáculos que enfrentam na sua jornada. Cerca de 67% dos refugiados são originários de 5 países: Síria, Afeganistão, Sudão do Sul, Myanmar e ainda Somália. Estes são países onde se vivem graves crises humanitárias, devido a sucessivos conflitos armados por motivos políticos, étnicos ou religiosos e que geram insegurança, pobreza extrema e uma série de violações dos direitos humanos. Perante este panorama, as opções que restam são escassas e, portanto, estas pessoas procuram ajuda internacional, deslocando-se para países vizinhos. Os países que mais acolhem são a Turquia (1,1 milhões), seguida do Paquistão, Ugan-

Maria Nunes Gomes, 2º ano

da, Sudão e da Europa, a Alemanha. Embora seja impossível manterem-se no lugar de onde fogem, os desafios que encontram não são fáceis. Uma vez que o controlo das fronteiras da Europa é bastante apertado, tendo-lhe sido dado o nome de “Fortaleza Europa”, a única rota para os refugiados é a marítima e é feita na maior parte das vezes em barcos sobrelotados e sem condições de segurança. Para além dos perigos no mar, ainda em terra firme os refugiados são alvo de burlas perpetradas por traficantes ou mesmo autoridades corruptas que lhes prometem uma fuga segura para os destinos que pretendem em troca de elevadas quantias, acabando em campos sem condições de saneamento e alimentação e muitas vezes vítimas de agressões e violações. Nos países de acolhimento, os refugiados começam a ser usados como bodes expiatórios para permitir a ascendência de partidos extremistas que criam a perceção de que os refugiados são intrusos que pretendem usufruir dos benefícios dos cidadãos europeus quando na verdade se verifica precisamente o oposto: os refugiados que se encontram ao abrigo de programas de recolocação e reinstalação e, prin-


cipalmente, caso optem por ficar a residir no país de acolhimento, geram um aumento das receitas fiscais líquidas no mesmo, compensando os gastos públicos aplicados no ano da sua chegada. De acordo com o Banco Mundial, a migração internacional é positiva, pois o dinheiro que os migrantes enviam para os seus países subdesenvolvidos vale três vezes mais do que o que governos gastam na ajuda ao desenvolvimento desses países. A desinformação, combinada com o surgimento destes movimentos, constrói aos poucos um ambiente pouco tolerante à diferença e que dificulta a integração destas pessoas. Ainda em relação aos países de acolhimento, além das inevitáveis barreiras linguísticas e culturais, é frequente existir um excesso de trâmites administrativos e falta de reconhecimento das qualificações que impedem uma adaptação mais adequada e rápida dos migrantes. Em Portugal, no âmbito do quadro do progra-

ma de recolocação e reinstalação do governo, que terminou em março de 2018, foram acolhidos 1552 refugiados e distribuídos por 99 municípios. No entanto, 45% dos refugiados acolhidos já não se encontram em território português. Contudo, neste silêncio de inocentes há quem fale mais alto para se fazer ouvir e alertar para este problema que se vive todos os dias, como é o caso do jovem português de 26 anos, Miguel Duarte. O estudante de doutoramento de Matemática no Instituto Superior Técnico de Lisboa decidiu aos 24 anos intervir ativamente na resolução deste problema e embarcou no navio Iuventa pertencente à ONG alemã Jugend Rettet (em português, Juventude Salvadora), cujo objetivo é resgatar refugiados que atravessam o Mediterrâneo, pretendendo ser ao mesmo tempo um campo de ação prática e um símbolo, desafiando o ‘status quo’ das políticas europeias que se desres-

Para além dos perigos no mar, ainda em terra firme os refugiados são alvo de burlas perpetradas por traficantes ou mesmo autoridades corruptas que lhes prometem uma fuga segura para os destinos que pretendem em troca de elevadas quantias, acabando em campos sem condições de saneamento e alimentação e muitas vezes vítimas de agressões e violações. ponsabilizam pelas mortes no Mediterrâneo e restringem a mobilidade dos refugiados na Europa. Em 2016 e 2017, o navio Iuventa realizou 15 missões nas quais salvou mais de 14 000 vidas, oferecendo primeiros socorros, água potável e comida. Contudo, assistimos à criminalização da solidariedade e com isso esta embarcação foi apreendida e acusada de apoio à imigração ilegal e os seus tripulantes constituídos arguidos numa investigação que decorre em Itália. Tudo aponta para que o julgamento comece em meados de outubro de 2019 - o Miguel e os restantes tripulantes podem vir a enfrentar até 20 anos de prisão. As autoridades italianas tentaram ainda obrigar as ONG de salvamento marítimo a assinar um código de conduta que as impediria de salvar mais pessoas, o que vai contra os princípios mais básicos da humanidade. O reforço das fronteiras e a diminuição de meios de salvamento não evita a imigração, mas antes fomenta o número de mortes no mar e como vimos estas não fogem por escolha própria e, como tal, não é a existência deste tipo de operações de busca que atrai mais pessoas. Numa entrevista ao Observador, Miguel afirma: ‘Existem

leis internacionais que protegem a ajuda humanitária. (…) estamos a agir de acordo com a lei internacional, que protege a vida humana. Existe inclusivamente a lei do mar das Nações Unidas que diz que uma embarcação encontrada em situação de emergência deve ser resgatada e trazida a porto seguro.’. Protegidos ou não pela Lei, a situação do Miguel e de tantos outros jovens que embarcaram nesta missão de proteger estes vulneráveis migrantes é impossível ser-nos indiferente e sem dúvida que despoleta em nós a vontade de ajudar. Sabemos que muitos cidadãos optam por um discurso de ódio e preconceito, mas é nosso dever desconstruir este pensamento e inteirarmo-nos deste problema. À distância de apenas um “clique”, podemos assinar inúmeras petições para defender os Direitos Humanos ou fazer pequenos donativos financeiros a esta causa levadas a cabo por ONG´s como, por exemplo, a Amnistia Internacional e a Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR). Mantermo-nos informados, envolvermo-nos com a comunidade são coisas que estão ao nosso alcance. Tentemos ser um bocadinho mais como o Miguel e dar um pouco mais de nós.

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Fotografia: Proactiva Open Arms


Mundo

Clint e El Paso: Pesadelo Americano?

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Madalina Birsanu, 3º ano

que tem vindo a suceder nos centros de detenção de migrantes nos E.U.A, na fronteira com o México, não parece encaixar-se no século em que vivemos, certamente não num país como os Estados Unidos. Menores são separados dos pais ou acompanhantes e forçados a viver em celas sobrelotadas, submetidos a condições que têm vindo a ser descritas por muitos como análogas às dos campos de concentração nazi. No passado mês de junho, vários advogados de imigração e congressistas visitaram as instalações em que os imigrantes detidos na fronteira sul são mantidos, nomeadamente as estações de Clint e El Paso. Os seus relatos incluem crianças a dormir no chão de cimento, sem acesso ou com acesso muito reduzido às mais básicas medidas de higiene, como banhos, roupa limpa, escovas de dentes e até mesmo fraldas. Durante a inspeção aos alojamentos, os advogados encontraram menores de todas as idades, alguns com apenas cinco meses, os quais, pelo reduzido número de agentes encarregues dos chamados U.A.C.s (unaccompanied alien children), se encontram aos cuidados de outras crianças e adolescentes detidos nos centros. As circunstâncias em que os detidos se encontravam aquando da vistoria eram ainda piores do que o esperado. Muitas das crianças estavam doentes (fruto da sobrelotação dos centros, mas também das fracas condições de saneamento e alimentação) e sem tratamento adequado. Na estação de Clint uma das celas, a chamada “flu cell”, era usada como sala de quarentena para crianças com doenças contagiosas. Os adultos detidos não estão em posições mais favoráveis. Congressistas como Alexandria Ocasio-Cortez e Judy Chu chegaram com relatos de mulheres detidas em El Paso sem acesso a água canalizada, estando algumas detidas há cinquenta dias na altura da visita. Uma das mulheres entrevistadas viu-se privada dos seus medicamentos antiepiléticos. Outra detida confessou ter-lhe sido dito por um dos agentes do centro que saciasse a sede bebendo água de uma sanita. À luz da situação em que estas pessoas estão a ser mantidas, podemos perguntar-nos quais têm sido as consequências. Durante a administração Trump até Fotografia: John Moore

à data de 12 de julho, haviam falecido sob custódia americana 24 imigrantes, dos quais 7 crianças. Uma dessas crianças, filha de uma candidata a asilo, desenvolveu febre, vómitos e diarreia cerca de uma semana após chegar a um dos centros de detenção. Apesar dos apelos da mãe, não foram efetuados mais exames de modo a estabelecer um diagnóstico e proceder a um tratamento adequado. Dez dias depois, mãe e filha foram libertadas e a criança, na altura com cerca de 19 meses, permaneceu internada num hospital durante 6 semanas, com o diagnóstico de infeção respiratória viral. A intervenção médica chegou, porém demasiado tarde, acabando a menina por falecer. Há quem discuta políticas de imigração, quem defenda que aceitar mais imigrantes irá diminuir a qualidade de vida e aumentar os gastos dos cidadãos estadunidenses, quem questione se é de facto válida a comparação entre os campos nazis e o que está a acontecer nos E.U.A. O problema em mãos, não pode, no entanto, ser visto como uma questão administrativa, mas sim como a crise de direitos humanos que é. É imperativo solucionar as situações de maus tratos, a negligência, e as falhas em proporcionar aos detidos um ambiente seguro e salubre, como previsto por lei. É impensável e inadmissível, numa das maiores potências mundiais, que pais sejam separados dos filhos e crianças cuidem de bebés.

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Mundo (RE)APRENDER A VIVER em Burquina Faso

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Burquina Faso é um país africano que faz fronteira com outras seis nações, é membro da União Africana, está localizado a sul do Mali e é alvo, neste momento, do nosso olhar perante um gesto de humanidade que se procura, se necessita e, muitas vezes, não se encontra. Na capital de Burquina Faso – Uagadugu – existe o Centro Pan-Bila, um lugar que acolhe crianças e jovens, sobretudo do sexo feminino, que vivem na rua e estão expostas a um grau elevado de pobreza, assim como aos riscos e perigos desencadeados por estarem sozinhas, vulneráveis e sem qualquer tipo de proteção paternal. De significado “Poder Pequeno”, este centro é orientado pela máxima “Eu posso ajudar-te a lavar as costas, mas tu tens de lavar o teu rosto”, de modo a que as jovens em causa adquiram novos conhecimentos, estratégias e possibilidades de serem autossuficientes e assumirem, posteriormente, a sua independência e a própria responsabilidade na superação da pobreza. A diversidade de jovens ligadas ao Centro abrange um leque muito vasto de origens, perfis e situações vividas no país ou em países vizinhos, tais como adolescentes grávidas expulsas da família, jovens víti-

Maria Inês Teixeira, 3º ano

mas de abusos sexuais e/ou sociais, jovens forçadas a casar com homens sem consentimento, mulheres pressionadas a exercer prostituição e mulheres expostas ao tráfico humano. Perante esta descrição, tudo se sintetiza num agressivo atentado à dignidade humana e numa violação dos direitos que a vida concede a cada uma destas pessoas. O Centro não procura combater direta ou indiretamente os casos apresentados, mas pretende abraçar cada uma das vítimas, assim como os bebés que nascem destas circunstâncias, e acolher e educar para transformar. Para além das condições essenciais derivadas da estadia no Centro, as jovens recebem acompanhamento de uma psicóloga e iniciam, desde cedo, um processo terapêutico que tem como objetivos principais o saber lidar com a história pessoal, o compreender que a dor não é única e não tem de ser enfrentada sozinha, o recuperar a autoestima e o permitir que futuramente possam amar e deixar-se amar pelos outros. São-lhes proporcionados meios para a escolaridade, alfabetização e cursos de culinária, costura ou fabrico de sabão. São sensibilizadas para o desenvolvimento de uma maturidade afetiva que as una intimamente às crianças nascidas por fruto de violação ou abuso sexual continuado, ao invés de as rejeitarem; esta realidade é extremamente delicada, dado que a gravidez ocorre numa fase da vida em que elas se sentem desumanas e, antes de mais nada, necessitam de amor, proteção e compreensão. O Centro fortalece o cuidado das crianças e tenta que estas jovens, no fundo, confiem na vida e aprendam a ser mães, apesar da carência de atenção e amor. Por outro lado, o Centro acompanha as famílias através da distribuição de alimentos e fornece um sistema de apoio financeiro que auxilia na formação de microempresas por meio de um programa de empréstimos. É nos termos de solidariedade e compaixão que o Centro Pan-Bila dá as mãos a estas jovens e as ilumina no caminho escuro que atravessam praticamente sozinhas, recuperando nelas a esperança de um futuro quase apagado pela sombra do passado, garantindo a sua sobrevivência e incutindo nelas uma vontade maior de querer viver o que ainda está por acontecer.


Educação Médica Estágios clínicos no estrangeiro Uma viagem pela Europa e não só

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oje em dia, é patente a falta de preparação dos estudantes de Medicina portugueses no que diz respeito à componente prática do seu curso. Talvez por esse motivo se mantenha a realização da Formação Geral como ponte entre os seis anos de ensino universitário e o início da Formação Especializada. Uma forma de colmatar esta lacuna é a realização, quer durante as férias quer durante um programa de mobilidade, de um estágio em contexto hospitalar, que poderá ser efetuado a nível local, nacional ou internacional. Com este texto, pretende-se abordar, pois, o panorama dos estágios clínicos em três países diferentes, nomeadamente: Alemanha, Reino Unido e Canadá. Como se pode facilmente concluir, a lista de países não é exaustiva, e inclusive dentro do mesmo país as experiências clínicas para estudantes de Medicina podem ser bem diferentes. No entanto, as experiências relatadas são da perspetiva da mesma pessoa, pelo que é possível estabelecer uma comparação entre os vários países. Vamos então começar esta viagem!

Alemanha

Local do estágio e afiliação: Universitätsklinikum Heidelberg, Universidade de Heidelberg Estágios efetuados: Hematologia; Endocrinologia; Cirurgia Geral Requisito mínimo: 3º ano (candidatar com antecedência de ~1 ano, i.e., a partir do 2º ano) Modo de candidatura: ERASMUS+(recomendável) - Estudos ou Estágios A maneira como encaro a Alemanha é a seguinte: enquanto cada país poderá ter as suas várias mas quiçá “pequenas” desvantagens, a Alemanha tem apenas um problema major, mas diabolicamente difícil de ultrapassar: a língua. Claro que tal depende da experiência de cada um, mas o mínimo recomendável para se estar confortável em ambiente hospitalar é o nível C1 do Quadro Europeu Comum de Referência para Línguas, bem como cerca de, pelo menos, 4 anos como estudante de alemão. Fora isso, a Alemanha é um excelente sítio para se adquirirem competências clínicas básicas, desde tirar sangue, aprender a manusear alguns instrumentos na sala de operações (apenas como primeiro ou segundo assistente da(o) cirurgiã(o) principal) e assistir a vários procedimentos, tais como inserção de cateter venoso central, punções lombares, aspiração de medula óssea, entre outros. As escolas médicas e hospitais na Alemanha são também caracterizadas pela sua meticulosa organização, pelo que é possível um rácio tutor-aluno de 1:1 na maioria dos estágios. Ao contrário de outros países, seria difícil rotular uma faculdade de Medicina na Alemanha como sendo “má” – apesar de existirem universidades mais “famosas” como Heidelberg, Munique e Berlim, praticamente todas as escolas médicas na Alemanha são de grande qualidade! Um estágio na Alemanha poderá ser efetuado ao abrigo do programa ERASMUS+, pelo que, com uma bolsa ERASMUS+, o custo do estágio acabará por ser mais baixo do que noutros países. A Alemanha é também um país onde, apesar do custo de vida ser globalmente mais caro, os bens essenciais, como a comida e o alojamento universitário, são mais baratos relativamente a outros países com o mesmo nível salarial. Como aspetos menos positivos, para além da dificuldade da língua, encon-

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tram-se a exigência e o número de horas inerentes ao próprio estágio. Na Alemanha, são geralmente os alunos quem realiza atos básicos como tirar sangue, canulação/acessos venosos, eletrocardiograma e outros gestos que em Portugal seriam maioritariamente realizados por enfermeiros ou técnicos. Sou da opinião que saber fazer estes procedimentos como estudante é muito vantajoso (qualquer médico devia saber tirar sangue!), mas significa ao mesmo tempo muito trabalho durante o estágio e que este poderá ter um horário extenso - por exemplo, das 7h30 às 18h (ou até mais tarde, no caso de Cirurgia). Pela minha experiência, muitos médicos alemães tendem a julgar estudantes internacionais não pelo conhecimento que estes últimos têm de Medicina, mas antes pela sua competência linguística, pelo que são necessários anos de estudo em alemão para que uma pessoa esteja convenientemente preparada. Resumindo, a Alemanha oferece estágios clínicos extremamente úteis no sentido de aquisição de competências clínicas, podendo-se começar desde muito cedo no curso, para além de ser relativamente barato e acessível obter um estágio num dos hospitais universitários desse país.

Canadá

Local do estágio e afiliação: Institut universitaire de cardiologie et de pneumologie de Québec, Université Laval Estágio efetuado: Cirurgia Cardíaca Requisito mínimo: 5º ano (candidatar com a antecedência de ~10 meses, i.e. a partir do início do 4º ano) Modo de candidatura: International Federation of Medical Students Associations (IFMSA) Até agora, considero que o Canadá foi o melhor país do ponto de vista de aprendizagem de técnicas cirúrgicas de todos os países nos quais já estagiei. Invariavelmente, trata-se de uma Medicina “à americana”, pelo que julgo ser essa a razão pela qual os estudantes de Medicina lá podem realizar tantos gestos clínicos. No Québec (parte francesa do Canadá), acresce a vantagem de um nacional português (inclusive um estudante a estagiar por pouco tempo) ter direito a ser beneficiário do sistema de saúde quebequense, devido a um acordo entre o Québec e Portugal. Dado ter sido um estágio da IFMSA, apenas será necessário pagar pela viagem e alimentação, apesar da primeira ter um custo muito elevado. No hospital, todo o pessoal é muito simpático e atencioso, incluindo cirurgiões! Como estudante, pude realizar exame físico, tirar fios de pacemaker temporário e, na sala de operações, suturar pele e planos profundos, “segurar” um coração a bater (e também alguns parados, verdade seja dita!) e algaliar doentes. Para além disso, quase sempre um dos cirurgiões assistentes estava disposto a ensinar-me a como suturar melhor, e dar-me a oportunidade, por vezes, de o substituir para que pudesse realizar mais gestos cirúrgicos. A verdade é que, por mais manequins de simulação a que um estudante possa ter acesso, não há nada que substitua completamente o ser humano! Outro ponto alto foi a cidade de Québec (a capital oficial do estado de Québec, embora Montreal seja definitivamente maior): uma cidade linda, histórica (o mais histórica possível em termos da América do Norte, claro), extremamente limpa e agradável. Temo que não seja a mais quente durante o inverno (pode chegar aos - 40ºC), mas no verão certamente que era de aproveitar em termos turísticos. No estado de Québec, existem também muitos parques naturais, e é também possível ir ver as baleias do norte do atlântico (altamente recomendado!). A clara desvantagem deste estágio é o seu custo elevado, bem como, embora dependendo das pessoas, a necessidade de se ter um nível razoável de francês. É, contudo, um sítio muito especial para quem deseja quebrar as barreiras com as quais um estudante de Medicina em Portugal normalmente se depara! Esta viagem continua na próxima edição da aNEMia… Não percas! Eduarda Sá Marta, 6º ano

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The American Dream: Internato nos EUA

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om o corrente clima de instabilidade que rodeia a nossa futura profissão em Portugal, é apenas natural que muitos jovens médicos procurem outras alternativas que não o exercício da Medicina no país de origem. Inclusivamente, é cada vez mais comum esse processo de emigração começar já na especialidade, para que se torne menos penosa a obtenção de equivalências da formação especializada no país de destino. Para quem procura opções menos convencionais (leia-se “fora da Europa”), um dos países de eleição é os Estados Unidos da América. Com a vantagem indubitável de nele se falar inglês, permite uma rápida aclimatização à linguagem e termos médicos usados no dia a dia, visto que grande parte da nossa bibliografia académica é inglesa. A candidatura a um programa de especialidade nos Estados Unidos pode iniciar-se a partir do quarto ano do Mestrado Integrado em Medicina e deve ser efetuada junto do Educational Comission for Foreign Medical Graduates (ECFMG), o órgão responsável pelo reconhecimento da acreditação académica do estudante estrangeiro. Várias etapas estão envolvidas no envio da candidatura, desde a certificação da faculdade frequentada pelo ECFMG (todas as faculdades de Medicina em Portugal são devidamente reconhecidas), até ao cumprimento dos requisitos do hospital ao qual o recém-licenciado se candidatar. Após a verificação da universidade estrangeira (a lista pode ser consultada no World Directory of Medical Schools), segue-se o cerne de todo o processo: o USMLE – United States Medical Licensing Examination, uma série de três exames que visam avaliar o conhecimento médico e as habilidades dos candidatos. É óbvio compreender toda a minúcia envolvida: o próprio ingresso em Medicina nos Estados Unidos processa-se de maneira muito díspar relativamente a Portugal. É requerido aos candidatos uma licenciatura prévia (com duração normal de quatro anos) e a realização do MCAT, um exame que avalia conhecimentos bioquímicos, fisiológicos e até mesmo sócio-psicológicos. As cartas de recomendação e um currículo variado de atividades extracurriculares são tidos em grande conta, nunca esquecendo aquilo que muitos europeus consideram um mito urbano, mas que é de facto, real e tangível – as “essays” e entrevistas nas faculdades. O primeiro exame, de nome Step 1, foca-se nas ciências básicas nas quais toda a

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Medicina se baseia. Os conteúdos seriam equiparados aos lecionados durante os dois primeiros anos do curso de Medicina em Coimbra, abordando questões de Bioquímica, Anatomia, Microbiologia, Fisiologia e Patologia. Seguindo o típico modelo de teste americano, ao qual, sem dúvida, já estamos perfeitamente adaptados, o aluno tem de responder a aproximadamente 280 questões de escolha múltipla repartidas por sete blocos, com a duração de uma hora cada. O Step 2 divide-se em duas porções. A primeira, Step 2 CK (Clinical Knowledge), testa as capacidades de raciocínio clínico, com a duração de oito horas para resolver 316 escolhas múltiplas. O Step 2 CS (Clinical Skills) é inteiramente prático, passando pela simulação de situações reais de modo a avaliar a recolha da história clínica, o exame físico objetivo e o estabelecimento de um diagnóstico – usando um inglês oral claro e eficiente. Por fim, se o estudante obtiver classificações satisfatórias aos Steps 1 e 2, poderá realizar o Step 3, que o irá qualificar para a prática não-supervisionada da profissão médica. Realizado durante o curso de dois dias (sete horas no primeiro, nove horas no segundo), baseia-se na resolução de problemas de escolha múltipla e treze casos clínicos a computador. É necessário ter em consideração que este processo não é isento de custos. O primeiro exame e a primeira metade do segundo, por poderem ser realizados no país de residência, rondam os 880 dólares cada um. Os centros de testes são geridos pela organização Prometric, cujo website só é acessível após inscrição prévia no ECFMG. O Step 2 CS tem um custo de 1535 dólares e o Step 3 de 830 dólares e são obrigatoriamente realizados nos Estados Unidos. Talvez atestando a dificuldade dos exames, a ECFMG permite a repetição de cada Step até cinco vezes, perfazendo seis tentativas no total. Cumprida a maratona árdua de exames que reconhecem o recém-licenciado como médico capaz, pode ser feita a escolha da especialidade pretendida, quer por hospital ou por área geográfica. A partir daqui os critérios variam – cada instituição terá inevitavelmente diferentes estratégias para filtrar os candidatos; cabe a cada um a procura de informação junto dos hospitais-alvo. Tendo em conta o acima descrito, poderia pensar-se que seria bastante mais simples obter a especialidade médica em Portugal e emigrar para os Estados Unidos com o propósito de lá trabalhar. Infelizmente, essa situação é ainda mais complicada. É uma cacofonia burocrática de certificação de documentos, realização de exames que comprovem o domínio do inglês e também do USMLE – em suma, a repetição do internato, no pior dos casos. É questionável se a complexidade destes programas exista para demover médicos estrangeiros de trabalhar noutros países. No que toca à União Europeia, segundo a legislação comunitária, o reconhecimento do grau médico é automático entre todos os estados-membros, embora, na prática, tal não se verifique na maior parte das vezes. Como palavras de conforto, talvez seja oportuno recordar que a obtenção de equivalências em Portugal é igualmente morosa. No entanto, os benefícios e as regalias que derivam de uma experiência profissional no estrangeiro contribuem não só para a formação médica de cada um, mas também para a formação humanística, tão fundamen- tal com os conhecimentos científicos que possamos obter noutros países. Joana Neves, 3º ano

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Batas Brancas ou Camuflados? Ambos!

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lguma vez pensaste em seguir um percurso diferente do normal após a conclusão dos seis anos do curso? Interessas-te pelas Forças Armadas e pela Medicina Militar? Então lê este artigo onde vamos explicar-te um pouco sobre o processo de candidatura e as funções de um médico nas Forças Armadas!

Medicina Militar

As forças armadas são constituídas por três ramos: o Exército, a Marinha (ou Armada) e a Força Aérea. A medicina militar é um serviço das Forças Armadas que garante as boas condições sanitárias de todos os militares, tanto em tempo de paz como em tempo de guerra, podendo ser naval, terrestre ou aérea consoante o ramo militar que serve. Integra um serviço assistencial, prestando assistência hospitalar e cuidados primários; operacional, aquando de emergências e na preparação de forças; e ainda ocupacional e de “medical advisor”. No entanto, não é um sistema isolado e com a evolução dos cuidados de saúde o Serviço de Saúde Militar tem vindo a articular-se cada

vez mais, ao longo dos últimos anos, com o Sistema Nacional de Saúde (SNS), sendo que os graus técnicos, ou seja, as especialidades das carreiras médicas militares, são equiparados e dão equivalência aos graus correspondentes da carreira médica nacional. Como funciona o Concurso Ordinário Médico às Forças Armadas? Os concursos ao Quadro Especial de Saúde das Forças Armadas são chamados de “Concursos Ordinários”, o que significa que apenas abrem quando há necessidade de médicos num determinado ramo militar. A ficha de candidatura pode ser preenchida online no website de cada um dos ramos.

Constituem condições de admissão a estes concursos as seguintes condições gerais: 1. Ter nacionalidade portuguesa; 2. Ter idade igual ou inferior a 30 anos no dia 31 de dezembro do ano de abertura do concurso; 3. Ter aptidão física e psicotécnica; 4. Possuir mestrado integrado em medicina obtido numa universidade portuguesa ou reconhecidos em Portugal; 5. Ser membro da Ordem dos Médicos; 6. Possuir ou frequentar o ano de Formação Geral (FG) ou frequentar a Formação Especializada (FE), no caso de concurso ao Exército e à Marinha; 7. Possuir a licenciatura com a FG concluída com aptidão, no concurso à Força Aérea; 8. Não ter “piercings”, tatuagens ou outras formas de arte corporal que sejam visíveis no uso dos uniformes, com calças, sem luvas e sem boné.

A admissão é constituída por várias provas, sendo que, para passar à prova seguinte, os candidatos devem ser classificados como aptos na prova anterior. A primeira prova é documental, consistindo na apresentação de documentação comprovativa do cumprimento dos pontos acima referidos. É ainda

necessária a apresentação do Curriculum Vitae, que deve contemplar alguns aspetos obrigatórios passíveis de apreciação e valorização. A segunda prova é de aptidão física, sendo a terceira de inspeção médica e a quarta de avaliação psicológica. A quinta prova é de avaliação de conhecimentos e consiste numa

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prova escrita, de escolha múltipla, bem como uma prova prática de discussão e intervenção de um caso clínico de um doente crítico. Estas provas têm uma classificação mínima igual ou superior a 10 valores. A última prova é a de aptidão militar. No concurso à Força Aérea, é necessário realizar-se ainda uma prova de avaliação de conhecimento de inglês, na qual é imprescindível uma classificação igual ou superior a 65%. A classificação final do concurso será estabelecida pela classificação das provas de avaliação de conhecimentos e pela apreciação do Curriculum Vitae por parte de um júri. E após a aprovação em concurso? Após aprovação no concurso de admissão, os médicos que ingressam nas Forças Armadas, independentemente do ramo, passam a pertencer ao corpo médico do Serviço de Saúde Militar e iniciam o seu treino e formação. Passam por um treino interno, característico de cada um dos ramos das Forças Armadas, destacando-se, por exemplo, a Medicina do Mergulho para os médicos da Marinha ou a Medicina Aeronáutica e Fisiologia do Voo para os operacionais da Força Aérea. São ainda submetidos a um treino externo que engloba vários cursos, realizados em parceria com identidades externas ao serviço militar, como a North Atlantic Treaty Organization (NATO) e o Instituto Nacional de Emergência Mé-

dica (INEM). Para além disso, no âmbito da medicina operacional, são realizados exercícios e intervenções nacionais e internacionais como, por exemplo, transporte de órgãos. Após a admissão, os médicos começam também a ter formação e a prestar serviços em hospitais militares, como é o caso do Hospital das Forças Armadas, comum aos três ramos, e em hospitais específicos do seu ramo militar. Na formação dos médicos recém-admitidos está também envolvida a Escola Superior da Saúde Militar. Desta instituição destaca-se, sobretudo, a pós-graduação em Saúde Militar, que visa promover um melhor apoio sanitário às missões internacionais em que as Forças Armadas participam. Esta questão acentuou a necessidade de preparar adequadamente os profissionais de saúde e conduziu à necessidade de criação de uma Pós-graduação em Saúde Militar, com as áreas base de Medicina Preventiva e Saúde Pública, Medicina Tropical, Medicina em Ambiente e Suporte Avançado de Vida. Quais as especialidades mais procuradas pelas Forças Armadas? Após a conclusão da FG em Medicina e ingresso num dos ramos das Forças Armadas, é possível tirar a especialidade dentro da mesma. O processo de escolha da especialidade por parte dos médicos admitidos em concurso faz-se de maneira diferente à feita no SNS. Neste processo, são essencialmente tidas em conta as necessidades do ramo militar em questão e, por isso, apenas abrem vagas para determinadas especialidades. O processo de seriação dos candidatos para as vagas é feito por ordem de antiguidade que tem em igual proporção a nota de ingresso nos quadros e a nota da Prova Nacional de Acesso. Claro está que as especialidades mais procuradas são referentes a áreas relacionadas com as circunstâncias militares e prontas a atuar no imediato, no campo de batalha e a salvar vidas, tais como a Cirurgia Geral, a Anestesiologia, Ortopedia e Traumatologia, Medicina Intensiva, além de especialidades que visem o acompanhamento dos militares após eventos traumáticos a nível mental, como a Psiquiatria. Se ficaste interessado por este assunto, consulta os websites das Forças Armadas para obteres informação mais pormenorizada. Força Aérea: https://www.emfa.pt/ Marinha: https://www.marinha.pt/pt Exército: https://www.exercito.pt/pt

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Carla Maravilha, 3º ano


Em parceria com o Departamento Científico do In4Med, apresentamo-vos um caso clínico para desafiar as vossas capacidades! Nesta edição, escolhemos um caso de Cirurgia elaborado pelo Dr. Henrique Alexandrino, a quem agradecemos o excelente trabalho e colaboração.

Homem, 67 anos, engenheiro reformado, dirigiu-se ao serviço de urgência com queixas de dores abdominais localizadas no hipocôndrio direito, febre, icterícia, urina escura (colúria) e fezes pálidas (acolia). Afirmava que estes sintomas tinham começado há cerca de duas semanas, evoluindo significativamente nos últimos dois dias. O doente apresentava antecedentes de hábitos tabágicos e referiu ter vivido grande parte da sua vida no sudeste da Ásia (Tailândia e Vietnam).

Questão 1 Qual dos seguintes é o diagnóstico menos provável? a. Cancro da vesícula biliar b. Neoplasia da cabeça do pâncreas c. Colangiocarcinoma d. Colangite aguda e. Cirrose hepática Questão 2 Qual das seguintes é a melhor forma de analisar este doente? a. Tomografia Computorizada (TC) Abdominal b. Marcadores tumorais CEA e CA 19.9 c. Colangiopancreatografia por Ressonância Magnética (CPRM) d. Colangiopancreatografia Endoscópica Retrógrada (CPRE) e. TC toraco-abdominal, CPRM e marcadores tumorais A realização de uma TC toraco-abdominal revelou dilatação dos canais biliares intra e extra-hepáticos com uma interrupção ao nível de um cálculo radiopaco de grandes dimensões, localizado no infundíbulo da vesícula biliar. Não foi encontrada nenhuma massa. Resultados confirmados por CPRM.

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Caso Clínico

Ao exame físico, encontrava-se apirético, ictérico e hemodinamicamente estável. Abdómen com hipersensibilidade à palpação do hipocôndrio direito, sem defesa. Sinal de Murphy ausente. Os resultados laboratoriais apresentavam níveis elevados de bilirrubina 7.6 mg/dL (N< 1.2), Gama-GT 356 U/L (N<50), PCR 13,4 mg/dL (N<0.5) e leucocitose leve 12.000 G/L (N<10.000). A ecografia demonstrava uma vesícula biliar distendida e canais biliares intra-hepáticos distendidos.


Respostas

Questão 3 Qual dos seguintes é o diagnóstico mais provável? a. Carcinoma da Vesícula Biliar b. Síndrome de Mirizzi c. Colangiocarcinoma peri-hilar (tumor de Klatskin) d. Litíase do canal biliar comum e. Parasitose biliar

Questão 1 – E. A cirrose hepática resulta de uma agressão tóxica, infeciosa ou autoimune ao parênquima hepático. Por norma esta patologia é assintomática, sendo que os sintomas, quando presentes, atribuem-se à hipertensão portal. Estigmas cirróticos incluem distensão abdominal com ascite, circulação colateral na parede abdominal e outros, como aranhas vasculares e ginecomastia. Quando existe icterícia, esta tem um carácter pré-terminal e associa-se a mau prognóstico. A apresentação clínica de dor abdominal, febre e icterícia sugere colangite aguda. Colúria e acolia indiciam obstrução biliar. Devido à idade, género e antecedentes pessoais, é provável um diagnóstico maligno. Para além disso, o doente viveu durante muito tempo no Sudeste da Ásia - uma área endémica para parasitas biliares (Clonorchis spp. e Opistorchis spp.) associados a um risco aumentado de colangiocarcinoma. Finalmente, a elevação da GGT e dilatação do canal biliar sugerem uma icterícia obstrutiva. Questão 2 – E. Num doente com suspeita de cancro biliar ou pancreático, o diagnóstico e o estadiamento são geralmente obtidos com recurso a TC toraco-abdominal. Para além disso, a CPRM é crucial na avaliação de uma icterícia obstrutiva, podendo assegurar um estadiamento adequado do envolvimento biliar em casos de colangiocarcinoma, bem como, caso seja benigno, fornecer um diagnóstico. Os marcadores tumorais, nomeadamente o CA 19.9, apesar de serem vantajosos, são pouco específicos. A CPRE não é utilizada para fins diagnósticos pelo seu caráter invasivo, tendo como finalidade terapêutica a remoção de cálculos ou resolução de estenoses malignas. Questão 3 – B. Obstrução biliar causada por compressão externa e/ou erosão de um cálculo da vesícula biliar de grandes dimensões com síndrome inflamatória associada, conhecida como Síndrome de Mirizzi, em homenagem ao insigne pioneiro argentino da cirurgia biliar, Pablo Luis Mirizzi.

Bibliografia recomendada: Mirizzi syndrome: History, current knowledge and proposal of a simplified classification. Béltran. World J Gastroenterol 2012 September 14; 18(34): 4639-4650 Hepatobiliary and Pancreatic Surgery - 6th Edition - A Companion to Specialist Surgical Practice. Editors: Rowan W Parks. 2018, Elsevier Sabiston Textbook Of Surgery. Editors: Townsend Jr. Courtney M. Md Beauchamp R. Daniel Md. Evers B. Mark Md. Mattox Kenneth L. Md.

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Um pequeno passo na ciência… UMA GRANDE ESPERANÇA PARA A MEDICINA

H

á sessenta e seis anos atrás, foi descoberta a estrutura do DNA por Crick, Watson e Wilkins. Este marco viria a tornar-se num dos maiores feitos para a evolução do conhecimento, “por todos os cadeados que foram (e que ainda vão sendo) possíveis de abrir”, num mundo cheio de mistérios e equações indecifráveis. Ainda nesta altura, pensar, por exemplo, que o Homem pisaria a superfície lunar seria tanto uma utopia como uma esperança vaga, inerte no pequeno cosmos que é a imaginação. Alguns anos depois, lá estávamos nós, de bandeira em riste, a desafiar a própria gravidade, com a convicção de que o que se seguiria seria ainda melhor. Habituámo-nos à ideia de que talvez fôssemos invencíveis. Não por sermos, mas por acharmos o contrário. O que pode fazer uma grande diferença. O cancro tem sido uma palavra que tem batido em todas as frentes neste nosso pensamento megalómano mas necessário. No decorrer do século XX, assumiu o papel de doença estigmatizante, devastadora e “incurável”, cuja etiologia tem vindo a ser descortinada, aos poucos, pelos grandes esforços no campo científico. Numa era cada vez mais bioinformatizada, tecnológica e molecular, cada pequeno avanço dá origem a uma expectativa, numa proporção ainda maior, para o futuro da oncologia e da medicina de precisão. Milhares de estudos visam a importância crescente e cada vez mais emergente das ciências “-ómicas” como aliadas imprescindíveis para a melhoria da deteção, prognóstico e tratamento da doença oncológica, designada pelo historiador David Cantor como “a metáfora da doença dominante” do nosso tempo. As projeções da Organização Mundial da Saúde estimam que, até 2030, haja um aumento do número de óbitos por cancro. Várias instituições são forças motriz na sustentação da investigação multidisciplinar nesta área, sendo a procura por marcadores não-invasivos um foco desta pesquisa. Sandra Nunes, licenciada em Bioquímica e mestre em Oncologia pela Universidade do Porto, desenvolveu o projeto da sua dissertação de mestrado no grupo de Epigenética & Biologia do Cancro do Centro de Investigação, em colaboração com as Clínicas de Mama, Trato Digestivo e Pulmão e Serviço de Epidemiologia, do IPO do Porto. O seu trabalho, publicado recentemente na revista Cancers, revelou que a metilação aberrante de determinados genes (fenómeno epigenético por excelência), detetada em DNA que circula livre no sangue, constitui um biomarcador bastante promissor na deteção precoce dos três cancros mais frequentes e com maior taxa de mortalidade na mulher: mama, colorretal e pulmão. Isto é notável porque no decurso do desenvolvimento tumorigénico ocorrem vários fenómenos moleculares, muitos deles numa fase ainda precoce, como é o caso da metilação

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aberrante do DNA. Aliás, a boa notícia é que esta metilação pode ser detetada em DNA tumoral circulante, constituindo um potencial e encorajador marcador para a deteção precoce do cancro de uma forma não invasiva. O principal objetivo, na verdade, foi desenvolver um teste que funcionasse como um “detetor” simultâneo dos cancros da mama, colorretal e pulmão, tendo em conta essa metilação do DNA circulante extraído de amostras de plasma, e cujas especificidade e sensibilidade fossem elevadas. A metilação do promotor dos vários genes selecionados foi avaliada por uma técnica que tem sido um “hotspot” na ciência, o PCR específico de metilação em multiplex. Esta técnica permite uma rápida análise da metilação em biópsias líquidas. Efetivamente, determinou-se um painel, designado PanCancer (APC, FOXA1 e RASSF1A) que detetou simultaneamente os três cancros com uma especificidade de 74% e sensibilidade de 72%. Um outro painel, o CancerType (SCGB3A1, SEPT9 e SOX17), estabelecido com o intuito de localizar a possível topografia do tumor, distinguiu os diferentes tipos de cancros. O cancro da mama foi detetado com a metilação do gene SCGB3A1, num espetro de especificidade de 80%, o cancro colorretal pela metilação da SEPT9, com uma especificidade de 99% e, por último, o cancro do pulmão pela metilação do SOX17, com uma especificidade de 85%, embora com baixa sensibilidade. Desta forma, no sentido de uma mais correta orientação para exames de rastreio (como mamografia, colonoscopia ou tomografia), os painéis PanCancer e CancerType podem ser sugeridos como um procedimento de pré-rastreio. É de salientar que este rastreio é fundamental, por permitir a deteção de tumores em estadios iniciais, apesar do risco de haver falsos positivos que induzam ao tratamento de cancros possivelmente indolentes.

para ir apresentá-lo ao Tracking Cancer a Barcelona e a outros congressos. Sandra Nunes é atualmente bolseira da Liga Portuguesa Contra o Cancro/Pfizer e está a desenvolver um trabalho relacionado com marcadores de prognóstico em cancro da mama usando também biópsias líquidas, no mesmo grupo, no IPO-Porto. Este tipo de avanço científico transformar-se-á numa ferramenta clínica útil, numa arma carregada de esperança contra a célula neoplásica, a pequena vilã que é uma versão alterada das nossas próprias células e que, silenciosamente, nos “suga a vida aos bocadinhos”. Resta-nos a crença, desprovida de pudores ou vaidades, de que conseguimos ser invencíveis, mesmo quando não o somos. Na verdade, é aquilo que a Medicina é nos dias de hoje: a crença inabalável na evolução do conhecimento multifacetado de várias ciências, como combustível para a concretização.

Para uma análise mais pormenorizada: Cell-Free DNA Methylation of Selected Genes Allows for Early Detection of the Major Cancers in Women, Cancers 2018, 10(10), 357; https://doi.org/10.3390/cancers10100357

Avaliar os níveis de metilação em DNA circulante é, portanto, uma estratégia auspiciosa e aliciante para o rastreio simultâneo dos cancros da mama, colorretal e do pulmão. É almejada como complemento dos métodos em uso corrente, para ajudar os médicos a triar indivíduos com suspeita de cancro. Além disso, promove aumentar a adesão aos programas de rastreio e melhorar a relação custo-efetividade, que é o que se pretende sempre. Este trabalho que é, no mínimo, inovador, para além da publicação (que foi o seu primeiro artigo original) valeu-lhe também uma bolsa da EACR

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Ana Isabel Coelho de Sousa, 2º ano


Escrita Livre Para combater a macicez do texto científico, resta-nos a fluidez da mão dos nossos colegas. Se a escrita é um dos meios pelos quais te exprimes, submete os teus devaneios para anemia@nemaac.net, para que os possamos partilhar, assinados ou anonimamente, na próxima edição da tua revista!

RECORDO-ME DO TEU SORRISO SOBRE A TELA (Escrevo-te aqui e hoje) não te quero conhecer plano construir-te sobre paredes mudas. o conflito do amanhã começa hoje. ontem já não me pertenceste e esse já vai longe. só uma vez mais um beijo mais. um sim um não é indiferente. ter-te de frente sobre luz decrescente isso meu amor é diferente de te ter e não ter sempre que te guardo no bolso.

Anónimo

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Mãe, que agora perco… Tardo em saber como aguentavas. Quem fez de ti A mais forte de todas as mulheres? Saber que tudo podias Torna mais difícil saber, agora, Que nem tudo pudeste. Que a vida te acabou. Te abandonou. Mãe, cujos olhos fecho… Não compreendo porque nos deste tanto. Quem dá tanto amor, Tornando-se impossível retribuir? Saber que tanto nos querias, Torna mais difícil tentar, agora, Deixar de te querer desta forma. Deixar-te ir. Voltar a viver. Mãe, que hoje me abandona… Nunca esqueço a vida de sofrimento. Menina feita mulher antes de ser, Trabalhando sem ter o que comer. Com tanta vontade de vencer. Torna mais difícil ver, agora, Que não venceste. Alguém vence? Mãe, que hoje dorme… Como podes espelhar-te tão perfeita, Quase intocável, Nos olhos de um filho que te viu sofrer? Tardo em saber como ser sem ti. A ti dediquei toda a minha vida. Quem serei agora, que não estás? Anónimo


OUT

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VÂO - Erva Daninha (TAGV) Um espetáculo de circo contemporâneo com acrobacia e malabarismo, que desafia o espetador num ambiente intenso e imprevisível.

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Playoff - LaJoven (ES) (TAGV) Uma tragicomédia de Marta Buchaca dirigida por José Luis Arellano García, que reflete acerca do futebol feminino.

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DEZ

NOV

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Coimbra Salsa Congress 2019 Um fim de semana cheio de workshops e shows de salsa. Running Wonders Coimbra (Corrida do Conhecimento) Uma das corridas mais fascinantes, desejadas e participadas de Portugal, numa experiência que pretende envolver todos os participantes numa atitude de sustentabilidade para com o Património. Workshop de Escrita Livre Promovido pela aNEMia, trazemos-te a segunda edição do Workshop em que poderás dar asas à tua imaginação e aprender novas formas de pôr em prática a tua paixão pela escrita. (Em)Cena Trata-se de uma série de quatro workshops de teatro, organizados pelo Departamento de Arte e Lazer do NEM/AAC. Em cada uma das aulas será abordado um dos seguintes temas: interpretação, movimento, voz e trabalho de texto.

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Queen Tribute - Kind of Magic & The Flashing Voices (Caves de Coimbra) Os Kind of Magic têm causado sensação nas três digressões já realizadas e regressam novamente aos palcos, com o objetivo ambicioso de recriar fielmente a música original de Queen.

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Nouvelle Vague - 15th Anniversary Acoustic (TAGV) A banda francesa celebra o 15º aniversário e presenteia-nos com um concerto acústico, onde as suas vocalistas mais icónicas, Phoebe Killdeer e Melani Pain, serão as estrelas de noite e interpretarão temas clássicos e inéditos (que serão editados ainda este ano em vinil).

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Good Times Tour - The Black Mamba (Convento de São Francisco) Quase a completar 10 anos de carreira, The Black Mamba apresentam uma série de concertos exclusivos, apenas em teatros, em que a banda irá reviver os seus primeiros tempos e tal como no início, apresentar-se-á em trio.

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Andreia Gi, 5º ano


As T vozes das redes sociais

odos os dias ouço uma polifonia retumbante, e em meio a tantas vozes, olho para os rostos e nada vejo. Minto! Vejo máscaras, inclusive a minha. As faces das manifestas companhias de cada dia – as presenças virtuais – esboçam sorrisos viciantes, travestidos de cinismo e conteúdos rasos. Crescentemente, nas nossas vidas, o efetivo virtual tem vindo a sobrepor-se ao efetivo real. O usufruto das redes sociais calibra este nosso olho engenhoso, como forma de desvelar um estar desassossegado das ambições. Temos o inteiro ímpeto de estímulo. Clamamos e vociferamos por atenção e mais estímulos. Não existem estímulos capazes de nos manter na completude libidinosa. Ser visto ou ver os olhos de outrem pousados em nós, passou a ser uma obstinação, um objetivo de vida. Sentir-se seguido e visto serão os estanques da solidão perseverante. Não há o traquejo de querer ter a nossa própria companhia. Vendemos isso tudo à uma comunicação breve, banal, frequente. As palavras circulam, não velozmente, mas sim, apressadamente. O paradigma preponderante é o sentido de Poder. As redes sociais fazem haver o advento de um poder que rompe as espectativas de qualquer efetivo real. A minha identidade pode ser descartável e o ónus do contato pode ser terceirizado. Podemos assumir múltiplas identidades, retirando-nos o fardo de sermos ininterruptamente nós mesmos. Vendemos a indiferença como algo sublime, não como sinónimo de autossegurança, mas como retalhação. “Não gosta de mim? Pegue a senha, entre na fila e espere que eu me importe” – publicação do Facebook. Face às críticas, temos de ter tranquilidade e não indiferença. O Instagram reduziu as nossas possibilidades de posicionamento em: gostar (like) ou ser indiferente - embora, como é óbvio, só o aspeto positivo regimentado pelo like é manifesto. A polaridade é categórica. Todo o regime ferreamente polarizado deixa pouco espaço de manobra à tolerância ativa.

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Os nossos atos ilocutórios emotivos aferram-se de uma Hipersensibilidade franca. Publicar, interpelar uma publicação prévia, ganhar posição, ficam ao sopé do monte da minha dor e tudo quanto sejam lágrimas oriundas dos lugares cimeiros desse monte “chegam chegando, balançando a zona toda”. Basta muito pouco para sentirmos ofendidos e remexidos na ferida. Sente-se uma utilidade explícita quando exerço a minha dor perante os peixes da rede, em nome de uma sociedade mais justa, amparadora do indivíduo, e quase nos leva a acreditar que queremos conquistar a filhação da Humanidade. São essas, reações levianas e exageradas do nosso “sistema imune”. Tudo aquilo que me é estranho, tenho tendência a mirá-lo e objetivá-lo como ameaçador e potencial cadáver nas mãos das minhas reações de hipersensibilidade. Reparem que, não quero com isso, generalizar o ato reivindicativo à leviandade, mas sim, entender a existência de conceitos frívolos que costumeiramente subjazem as nossas intervenções nas redes sociais. Elas anuíram que por unidades básicas de tempo eu pudesse congregar tantas dores semelhantes às minhas. Deu azo ao choro coletivo, facilitou o que Guimarães Rosa apelidou “viver em voz alta”. O que me impede de desapartar das redes sociais? 1. A ideia de que o esforço e o tempo investido para criar a rede de amizades, os seguidores, os Lovers & Haters, devem ser valorizados, preservados. A ação sucessiva de povoar a minha linha de publicações com o meu narciso e com os meus feitos, é sim, um património aos nossos olhos. Desfazer-se de um “investimento” requer uma clarividência e uma determinação, caso contrário não há espaço para isso. 2. A minha imagem deve ser exposta o tempo inteiro como forma de me sentir desejável, querido e passível de ser seguido. É uma massagem ao ego (ou relaxamos demasiadamente ou dormimos).

4. A partilha de um risco comum. Ou seja, todos falam dos efeitos deletérios do uso desmedido das redes sociais, mas todos o fazem, todos correrem esse risco. Porque não correr esse risco também?! Eis explicito o efeito de massa. 5. A institucionalização das redes sociais nas nossas vidas. Grupos de trabalhos; grupos da religião que eu frequento; informações sobre eventos importantes e inscrições em congressos; Grupos escolares; Plataforma de calendarização de atividades de vida diária; referências sobre aniversários de pessoas com as quais tenho relações próximas ou apenas de networking, mas que ajuda de qualquer forma a fortificar esse meu interesse em estar presente; etc. Elas tomaram uma proporção ainda maior do que as questões frívolas. Estamos diante de uma secretária ad hoc. Há uma perda da barreira público-privada. A mesma plataforma de trabalho, é a plataforma que eu publico “Estou na praia, tomando uma cerveja.”, ou atualizo um estado “a sentir-se triste”, “a sentir-se entusiasmado”, “a sentir-se engraçado”. Elas tornaram-se instituições. Apartar das instituições que criamos e nutrimos, não é tarefa fácil. A instituição é uma estrutura social que regula o comportamento de um grupo de indivíduos, ou seja, abarca uma função social que transcende os indivíduos e as intenções mediando as regras que governam o comportamento vivo. Traz consigo: um compromisso com a cultura de instituição; Foco expandido; alinhamento com as principais partes interessadas; equipas (sentido de minis ajuntamentos dentro das redes); atendimento; Normatização (avidez por estar sempre dentro do padrão estabelecido pela tendência). 6. O poder do hábito. Não obstante todo este palavreado, eu, acordo e sigo essas vozes!...

3. Estar informado sobre a vida das outras pessoas é uma condição que me torna interessante. Isso desde já é uma armadilha, pois fomenta cada vez mais a arte da detração.

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Rodrigo Alexandre Fortes, 5º ano


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AREE ou Assembleia de Revisão de Estatutos Extraordinária parece passar por um dos acontecimentos menos conhecidos na comunidade estudantil. Como o nome indica, trata-se de uma Assembleia de caráter extraordinário, convocada pela Assembleia Magna (AM) para proceder à alteração de normas estatutárias que têm vindo a mostrar precisar de alguns retoques. Para quem ainda está perdido, comecemos pelo início. A Assembleia Magna trata-se do órgão deliberativo máximo da AAC. Vamos trocar isto por miúdos, sim? Para todos os efeitos, a AM, composta por todos os associados efetivos da AAC, de modo basilar, os estudantes da UC, tem o poder de tomar decisões que vinculam outros órgãos abaixo dela, passando pela Direção-Geral da AAC (DG/AAC), Núcleos de Estudantes e Secções Culturais e Desportivas. Apenas o Conselho Fiscal (CF/AAC) e a Comissão Disciplinar não são abrangidos pelas suas deliberações. É organizada pela Mesa da Assembleia Magna (MAM/AAC), a quem compete promover a mesma, convocar, elaborar as suas atas, permitir que a informação das mesmas e das deliberações tomadas estejam disponíveis a todos, bem como organizar eleições e dar posse aos órgãos centrais da AAC. É formada por quatro membros, que no presente mandato são João Bento, Presidente; Camila Ferreira, Vice-presidente; Maria Semedo e Josefa Guerra, Secretárias. Em AM, enquanto na mesa, os membros da MAM/AAC têm de abdicar momentaneamente das suas funções para apresentarem propostas, moções ou usar a palavra, por exemplo.

De forma simplista, a Assembleia Magna apresenta-se como uma democracia direta, em que cada associado pode dar a sua opinião e votar enquanto pessoa singular para cada uma das deliberações. Foi o que aconteceu com a proposta da DG/AAC para a revisão dos Estatutos da AAC: estudantes deram a sua opinião e votaram em prol de uma alteração estatutária antes da ARE ordinária a realizar em 2021. Voltando ao tema principal, os Estatutos da AAC correspondem ao conjunto de normas pela qual esta casa se rege. Este documento define competências, constituição, deveres e direitos de cada associado e órgão. A AREE tem assim o objetivo de tornar reais as alterações propostas com vista a uma melhoria do texto estatutário e melhor decorrer de trabalhos em toda a Academia. É constituída por membros eleitos, membros da DG/AAC, do CF/AAC, das Secções Culturais e Desportivas, dos Núcleos de Estudantes e pelo presidente da MAM/AAC, sendo que às secretárias deste órgão compete a elaboração das atas de cada reunião da AREE. Apesar de estas reuniões ocorrerem à porta fechada, existiu um período de Audição Pública, de 1 a 31 de maio deste ano, em que todos os estudantes puderam dar as suas propostas de alteração para os artigos em discussão. Falámos com João Bento, Presidente da MAM/ AAC, que nos concedeu a seguinte entrevista: Consideras que esta AREE ocorreu num momento oportuno? Depende do ponto de vista. Em 2017 terminou a

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UC maior Revisão de Estatutos de que há memória na história da AAC. A estrutura base dos núcleos, secções e dos organismos intermédios foi completamente reformulada, o modelo do conselho fiscal foi repensado de raiz e foi criada a comissão disciplinar. Até a assembleia magna sofreu alterações (...). Contudo, a questão da Queima das Fitas ficou por discutir, praticamente na íntegra. Na minha opinião, a criação de uma assembleia extraordinária com este foco, trouxe capacidade de discutir a fundo este ponto de forma a ser possível alcançar uma solução o mais acertada possível, que traga qualidade à festa e estabilidade à casa. A par da Queima, foram introduzidos vários pontos a discutir cujo timing poderá não ser o mais adequado, devido ao pouco tempo desde a sua implementação.

(...) serão 6 estudantes, num universo de 23000, efetivamente um bom resultado? As propostas de alteração parecem-te adequadas? Sim, sem dúvida. Penso que não há um único tópico em cima da mesa que não tenha interesse e prova disso foi o debate sempre muito participado (...). Quando pensas que irão terminar os trabalhos desta AREE e qual o desfecho da mesma? Essa é uma pergunta que nem eu sei responder. Neste momento já está a ser discutido o último ponto da revisão, a Queima das Fitas. No entanto, a assembleia tomou a iniciativa inédita de ouvir cerca de 40 personalidades que já estiveram envolvidas de forma direta ou indireta na festa ao longo de gerações completamente diferentes. Este processo trouxe-nos alguns atrasos, mas acredito que só não teremos estatutos em outubro se a assembleia não trabalhar para tal.

Consideras que, além das propostas existentes, existem mais alterações que devam ser feitas aos Estatutos da AAC? Sem dúvida. Em primeiro lugar, penso ser importante realçar que, por mais que pensássemos na revisão de estatutos, nunca conseguiríamos definir tudo o que todas as estruturas e todos os associados sentem que deva ser mudado. No entanto, considero que teria sido essencial haver um momento de debate entre todas as estruturas da casa, desde a DG/ AAC, a MAM/AAC, o CF/AAC, a CD/AAC, os Núcleos e Secções e os Conselhos Intermédios, que teria possibilitado trazer a esta assembleia a discussão sobre vários assuntos, principalmente de administração e gestão de secretaria, que trariam muitos benefícios à AAC no seu todo. Penso ser sempre importante ouvir todas as componentes da casa para que o objeto final do nosso trabalho seja sempre o mais profícuo possível. Relativamente ao período de audição pública, consegues dizer-nos como foi a afluência e pertinência da mesma? As propostas apresentadas vão de encontro às deliberações tomadas na AREE? Recebemos 6 propostas por parte de associados ou grupos de associados da AAC. Atendendo ao facto de, na revisão anterior, não ter havido qualquer proposta, este foi um número que nos deixou muito satisfeitos pois demonstrou vontade dos associados fazerem parte da discussão do funcionamento da AAC. Apesar de este ser um assunto que passa ao lado da maioria, parece-me importante o suficiente para aqui ser falado. Parecendo que não, a definição de Estatutos afeta todos nós. A Queima das Fitas, por exemplo, não tem geração espontânea, é necessário que alguém a pense e organize: tudo com base nos estatutos. Agora, esse tópico encontra-se em discussão e 6 pessoas externas à Assembleia deram a sua opinião. João Bento referiu ser um melhor resultado que na anterior ARE, mas serão 6 estudantes, num universo de 23000, efetivamente um bom resultado?

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Josefa Guerra, 3º ano


Ficção Científica

O que aconteceria, num hospital, se ficasse sem internet durante 24h?

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eguramente, cada hospital já viu a sua quota-parte de tragédias – a gravidade de cada uma proporcional ao tamanho e capacidade da respetiva instituição. Não obstante, e por ação de forças maiores, existe um desastre transversal a todos os estabelecimentos de saúde, grandes ou pequenos, clínicas ou hospitais, centrais ou periféricos. Um revés que não olha a faixas etárias nem ao sexo, que afeta todos de maneira síncrona, constante; que muda o paradigma da profissão médica, invertendo comicamente os papéis dos seus intervenientes; desvia o balanço do poder, retira ao médico a sua omnipotência, desmascara-o perante o doente surpreso! Esta calamidade afigura-se improvável, pois há várias salvaguardas que têm como função a sua prevenção. Mais facilmente cairia um avião do que esta situação hipotética se verificasse. No entanto, a ameaça paira em cada gabinete médico, escondida à vista de todos. E ironicamente, aqueles que têm mais a perder são os que menos fazem para evitar a situação. Resistem, barafustam, reclinam-se na cadeira e resmungam que não conseguem trabalhar senão com aquela caixa à frente dos olhos. Até que, um dia, de rompante, a hora chega. O sistema informático falha. Vista de fora, a situação é burlesca. Médicos às voltas como baratas tontas, suando copiosamente de tanto correr e matutar, só parando para explicar a qualquer doente especado “Os arquivos, os arquivos!” e resumindo a corrida que há muito que saiu da rotina. Não admira, sentados doze horas por dia em frente a uma secretária, é impensável que se queiram exercitar ao chegar a casa. Nem vale a pena falar no embaraço de toda esta circunstância. Tantos doentes maravilhados com os seus cuidadores, que coagem toda a família a visitar o Dr. José ou a Dr. Maria, porque se “lembrou do meu nome, e também daquela vez que vim às urgências por causa dos joanetes e sabe tudo o que me afligiu nos últimos anos”, agora defraudados, abandonados,

Joana Neves, 3º ano

a terem de conter uma lágrima triste quando entram no gabinete e o médico, vermelho de tanto puxar pelo córtex frontal, não se consegue lembrar de quem são. Perdida a cábula, perdida a dignidade. Passada a vergonha inicial, a consulta não tende a melhorar. A dona Alzira não trouxe o papel com a medicação porque achava que o senhor doutor já a sabia de cor, pela maneira como a prescrevia como se estivesse numa prova de contrarrelógio. No entanto, para grande alívio do médico, a senhora utente já tem alguma idade, já é cliente habitual. Lá vai ele consultar o processo em papel, precipitando-se na respiração funda que faz – as informações estão, de facto, lá, mas já não são atualizadas há anos porque surgiu uma caixa milagrosa chamada computador. Entretanto, a cara senhora foi operada ao coração e tem como fiel companheiro, não o marido, que Deus o tenha, mas o Varfine. O Doutor José retorna ao consultório, lívido com toda a sua fragilidade. E mesmo assim, a epítome da sua desonra está guardada para o fim. Terá de admitir o que se passa, que houve uma falha do sistema, que a senhora Alzira tem de puxar pela memória e recordar-lhe o que costuma tomar. Não é preciso. A filha da doente tem tudo em suporte de papel, para o caso de uma emergência como esta. Uma chamada depois, a dona Alzira sai do consultório com o seu Varfine, o seu Concor, mas ligeiramente incomodada. O seu médico não lhe pareceu muito bem – no mínimo, severamente perturbado. Este último, após ouvir o tímido clique do trinco da porta, enterra-se na cadeira. Um médico dependente de um doente, onde já se viu tal coisa? A ter de interagir com ele, estabelecer contacto visual… Até teve de lhe medir a pressão arterial para parecer que fazia alguma coisa de útil que não balbuciar! Habituado a olhar para o canto inferior direito do computador, agora dirige o olhar para o punho e analisa os ponteiros. O estômago contorce-se numa lamúria. Ainda são 9:15 da manhã. Malditos computadores…

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