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Filosofia e Organizações

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A filosofia é um importante instrumento de compreensão para todas as atividades humanas e tem papel fundamental na reflexão e na prática das empresas. Discussões sobre percepção, ética, racionalidade humana, cidadania, entre outras, mostram-se extremamente ricas para os estudiosos e gestores que queiram refletir mais profundamente sobre as organizações.

Filosofia e Organizações

Isabella F. Gouveia de Vasconcelos Flávio Carvalho de Vasconcelos André Ofenhejm Mascarenhas

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Esta obra, da Coleção Debates em Administração, aborda vários princípios filosóficos fundamentais de grandes pensadores, tornando-os compreensíveis ao leitor e confrontando-os com o cotidiano das empresas. Seu objetivo é mostrar que há uma relação estreita entre os discursos milenares da filosofia e o moderno estilo empresarial.

ORGANIZAÇÕES

Aplicações Obra recomendada para a disciplina filosofia nos cursos de Administração.

Sobre o autor Yvon Pesqueux

Yvon Pesqueux é professor titular da cadeira Développement des Systèmes d'Organisation do Conservaitore National des Arts et Métiers (CNAM), em Paris.

Yvon Pesqueux Para suas soluções de curso e aprendizado, visite www.cengage.com.br


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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Pesqueux, Yvon Filosofia e organizações / Yvon Pesqueux ; tradução Marcela Vieira. -- São Paulo : Cengage Learning, 2008. -- (Coleção debates em administração / coordenação Isabella F. Gouveia de Vasconcelos, Flávio Carvalho de Vasconcelos, André Ofenhejm Mascarenhas)

Título original: Philosophie et organisation Bibliografia. ISBN 978-85-221-2602-6

1. Administração 2. Filosofia 3. Organização Filosofia I. Vasconcelos, Isabella F. Gouveia de. II. Vasconcelos, Flávio Carvalho de. III. Mascarenhas, André Ofenhejm. IV. Título. V. Série.

08-04014

CDD-658.101

Índices para catálogo sistemático: 1. Filosofia e organizações : Administração 658.101

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COLEÇÃO DEBATES EM ADMINISTRAÇÃO

Filosofia e Organizações Yvon Pesqueux Tradução: Marcela Vieira

Coordenadores da coleção Isabella F. Gouveia de Vasconcelos Flávio Carvalho de Vasconcelos André Ofenhejm Mascarenhas

Austrália • Brasil • Japão • Coréia • México • Cingapura • Espanha • Reino Unido • Estados Unidos


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Filosofia e Organizações Yvon Pesqueux Gerente Editorial: Patricia La Rosa Editores de Desenvolvimento: Fábio Gonçalves e Ligia Cosmo Cantarelli Supervisora de Produção Editorial: Fabiana Alencar Albuquerque Produtora Editorial: Fernanda Batista dos Santos Título Original: Philosophie et Organisation Tradução: Marcela Vieira Revisão Técnica: Pedro F. Bendassolli Copidesque: Caline Canata Devèze Revisão: Adriane Peçanha e Camilla Bazzoni Composição: ERJ – Composição Editorial e Artes Gráficas Ltda. Capa: Eliana Del Bianco

Impresso no Brasil. Printed in Brazil. 1 2 3 4 10 09 08

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© 2008 Cengage Learning Edições Ltda. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro poderá ser reproduzida, sejam quais forem os meios empregados, sem a permissão, por escrito, da Editora. Aos infratores aplicam-se as sanções previstas nos artigos 102, 104, 106 e 107 da Lei n 9.610, de 19 de fevereiro de 1998. O

Para informações sobre nossos produtos, entre em contato pelo telefone 0800 111939 Para permissão de uso de material desta obra, envie seu pedido para direitosautorais@cengage.com © 2008 Cengage Learning. Todos os direitos reservados. ISBN-13: 978-85-221-2602-6 ISBN-10: 85-221-2602-X Cengage Learning Condomínio E-Business Park Rua Werner Siemens, 111 – Prédio 20 Espaço 3 Lapa de Baixo – CEP 05069-900 São Paulo – SP Tel.: (11) 3665-9900 Fax: (11) 3665-9901 Para suas soluções de curso e aprendizado, visite www.cengage.com.br


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apresentação Debates em Administração E o fim de nosso caminho será voltarmos ao ponto de partida e percebermos o mundo à nossa volta como se fosse a primeira vez que o observássemos. T. S. Elliot (adaptação)

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conhecimento transforma. A partir da leitura, vamos em certa direção com curiosidade intelectual, buscando descobrir mais sobre dado assunto. Quando terminamos o nosso percurso, estamos diferentes. Pois o que descobrimos em nosso caminho freqüentemente abre horizontes, destrói preconceitos, cria alternativas que antes não vislumbrávamos. As pessoas à nossa volta permanecem as mesmas, mas a nossa percepção pode se modificar a partir da descoberta de novas perspectivas. O objetivo desta coleção de caráter acadêmico é introduzir o leitor a um tema específico da área de administração, fornecendo desde as primeiras indicações para a compreensão do assunto até as fontes de pesquisa para aprofundamento. Assim, à medida que for lendo, o leitor entrará em contato com os primeiros conceitos sobre dado tema, tendo em vista diferentes abordagens teóricas, e, nos capítulos posteriores, brevemente, serão apresentadas as principais correntes sobre o tema – as mais importantes –, e o leitor terá, no final de cada exemplar, acesso aos principais artigos sobre o assunto, com um breve comentário, e


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indicações bibliográficas para pesquisa, a fim de que possa continuar a sua descoberta intelectual. Esta coleção denomina-se Debates em Administração, pois serão apresentadas sucintamente as principais abordagens referentes a cada tema, permitindo ao leitor escolher em qual se aprofundar. Ou seja, descobrirá quais são as direções de pesquisa mais importantes sobre determinado assunto, em que aspectos estas se diferenciam em suas proposições e logo qual caminho percorrer, dadas suas expectativas e interesses. Debates em Administração deve-se ao fato de que os organizadores acreditam que do contraditório e do conhecimento de diferentes panoramas nasce a possibilidade de escolha e o prazer da descoberta intelectual. A inovação em determinado assunto vem do fato de se ter acesso a perspectivas diversas. Portanto, a coleção visa suprir um espaço no mercado editorial relativo à pesquisa e à iniciação à pesquisa. Observou-se que os alunos de graduação, na realização de seus projetos de fim de curso, sentem necessidade de bibliografia específica por tema de trabalho para adquirir uma primeira referência do assunto a ser pesquisado e indicações para aprofundamento. Alunos de iniciação científica, bem como executivos que voltam a estudar em cursos lato sensu – especialização – e que devem ao fim do curso entregar um trabalho, sentem a mesma dificuldade em mapear as principais correntes que tratam de um tema importante na área de administração e encontrar indicações de livros, artigos e trabalhos relevantes na área que possam servir de base para seu trabalho e aprofundamento de idéias. Essas mesmas razões são válidas para alunos de mestrado stricto sensu, seja acadêmico ou profissional. A fim de atender a esse público diverso, mas com uma necessidade comum – acesso a fontes de pesquisa confiáveis, por tema de pesquisa –, surgiu a idéia desta coleção.

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A idéia que embasa Debates em Administração é a de que não existe dicotomia teoria-prática em uma boa pesquisa. As teorias, em administração, são construídas a partir de estudos qualitativos, quantitativos e mistos que analisam e observam a prática de gestão nas organizações. As práticas de gestão, seja nos estudos estatísticos ou nos qualitativos ou mistos, têm como base as teorias, que buscam compreender e explicar essas práticas. Por sua vez, a compreensão das teorias permite esclarecer a prática. A pesquisa também busca destruir preconceitos e “achismos”. Muitas vezes, as pesquisas mostram que nossas opiniões preliminares ou “achismos” baseados em experiência individual estavam errados. Assim, pesquisas consistentes, fundamentadas em sólida metodologia, possibilitam uma prática mais consciente, com base em informações relevantes. Em pesquisa, outro fenômeno ocorre: a abertura de uma porta nos faz abrir outras portas, ou seja, a descoberta de um tema, com a riqueza que este revela, leva o pesquisador a desejar se aprofundar cada vez mais nos assuntos de seu interesse, em um aprofundamento contínuo e na consciência de que aprender é um processo, uma jornada, sem destino final. Pragmaticamente, no entanto, o pesquisador, por mais que deseje aprofundamento no seu tema, deve saber em que momento parar e finalizar um trabalho ou um projeto, que constituem uma etapa de seu caminho de descobertas. A coleção Debates em Administração, ao oferecer o “mapa da mina” em pesquisa sobre determinado assunto, direciona esforços e iniciativa e evita que o pesquisador iniciante perca tempo, pois, em cada livro, serão oferecidas e comentadas as principais fontes que permitirão aos pesquisadores, alunos de graduação, especialização, mestrado profissional ou acadêmico produzirem um conhecimento consistente no seu âmbito de interesse.

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Os temas serão selecionados entre os mais relevantes da área de administração. Finalmente, gostaríamos de ressaltar o ideal que inspira esta coleção: a difusão social do conhecimento acadêmico. Para tanto, estudiosos reconhecidos em nosso meio e que mostraram excelência em certo campo do conhecimento serão convidados a difundir esse conhecimento para o grande público. Por isso, gostaríamos de ressaltar o preço acessível de cada livro, coerente com o nosso objetivo. Desejamos ao leitor uma agradável leitura e que muitas descobertas frutíferas se realizem em seu percurso intelectual. Isabella F. Gouveia de Vasconcelos Flávio Carvalho de Vasconcelos André Ofenhejm Mascarenhas

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SUMÁRIO Prefácio

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Introdução – A Filosofia e as Empresas 1. Modelos e Empresa

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2. Metáfora, Imagem e Figura

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3. Enraizamento Filosófico da Ética Empresarial Referências Bibliográficas

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prefácio Filosofia e Organizações

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autor desta obra, Yvon Pesqueux, era professor da Ecole des Hautes Etudes Commerciales (HEC), Paris, quando lá cursei o meu doutorado entre 1993-1998. Atualmente, é professor titular da tradicional escola francesa Conservatoire National d’Arts e Metiers (CNAM), que oferece cursos nas áreas de Engenharia e Administração. Ocupa a cátedra Developpement des Systèmes d’Organisation (Desenvolvimento de Sistemas Organizacionais) e dirige também o Laboratório para Investigação em Estratégia Prospectiva e Organização (Lipsor) (www.cnam.fr/lipsor). Ph.D. em Economia pela Universidade de Paris 1, Panthéon-Sorbonne, professor Pesqueux possui também sólida formação em Filosofia. Publicou diversos livros e artigos científicos e tem participado dos principais congressos. É um dos coordenadores da divisão Critical Management Studies da Academy of Management, um dos maiores congressos e encontros mundiais da área de administração, realizado anualmente nos Estados Unidos. Pesqueux, em suas pesquisas e textos, muito contribui para o desenvolvimento do senso analítico e crítico dos pesquisadores e de seus leitores em geral. O autor concentra seus estudos nas áreas de Filosofia e Ética e suas interfaces com a área de Sociologia das Organizações, preocupando-se com as dimensões globais da Economia e da Sociedade em geral; é editor da revista Society and Business Review, publicada pela Emerald Publishing. Especialmente em seu livro Mercure et Minerve, des perspectives philosophiques sur l’entreprise (Mercúrio e Minerva: perspectivas


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filosóficas sobre as empresas), ele mostra ao leitor como a Filosofia não é esta disciplina “distante dos pobres mortais” e própria a uma elite de filósofos e intelectuais que cursaram mestrado e doutorado na área. Ao contrário, ele nos convida a uma jornada em vários temas filosóficos, “traduzindo” e “tornando palatável” ao leitor diferentes abordagens filosóficas e suas interfaces com o estudo das empresas, da administração e das organizações em geral. Assim, o leitor verificará que em uma empresa existem diversas percepções “temporais” baseadas, por exemplo, na cadência e na organização de cada trabalho, e que filósofos como Bergson, entre outros, possuem contribuições ao entendimento deste fato, e que, para o gestor, compreender essas percepções pode auxiliar em seus processos de comunicação e interação com os diversos grupos organizacionais. Discussões sobre percepção, ética, racionalidade humana, mudança, realidades múltiplas do ponto cultural, cidadania etc. mostram-se extremamente ricas para os estudiosos das organizações e gestores que queiram refletir mais profundamente. A rica aproximação que faz o autor de temas de filosofia e ética com empresas e organizações nos motivou a convidá-lo para escrever na Coleção Debates em Administração, a fim de apresentar aos leitores e pesquisadores brasileiros sua obra. Neste trabalho, o autor trata das interfaces entre Filosofia, Ética e Organizações, utilizando para tanto imagens e metáforas para expor diversos temas. Nosso objetivo é mostrar ao leitor e pesquisador brasileiro o que nos impressionou no trabalho do professor: que o entendimento da análise de temas filosóficos deve ser desmistificado e que podemos e devemos nos permitir “navegar” na Filosofia aproximando-a de nossas realidades. Para tanto, é essencial contar com a ajuda de estudiosos como o professor Pesqueux. Que esta obra possa ser útil para o leitor neste processo de descobertas e aproximação. São Paulo, 18 de março de 2008. Isabella F. Gouveia de Vasconcelos

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introdução A Filosofia e as Empresas

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filosofia é tão antiga quanto a humanidade; guardamos marcas e memórias de uma civilização que data do século VI a.C. Teoricamente, nunca teve a intenção de mudar o mundo – o que, aliás, Marx vai criticar –, e questiona até mesmo o que reconhece ser supérfluo. Por outro lado, nunca se mostrou interessada em mudar alguma coisa, e nem a ação, nem o benefício são seus temas de pesquisa. Assim, protegidos das inquietações e tentações do mundo – ao menos é essa a intenção –, os filósofos formaram, ao longo dos séculos, um pequeno grupo que observa, pensa e dialoga com seus antigos precursores, e, quando escrevem para seus contemporâneos, destinam suas obras aos próximos sucessores. Essa organização é, de certa forma, recente – surgiu com o projeto que a indústria moderna deu seqüência, durante o século XIX, com o império da riqueza de bens materiais –, e tem características essencialmente econômicas. A filosofia é, por definição, curiosa. No entanto, ela só pode alcançar seu objetivo com recursos que, em pouco mais de um século, literalmente desestruturaram o mundo.


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A princípio, a filosofia transformou a sociedade econômica liberal, da qual é o principal motor. É graças a ela que o extraordinário impulso econômico de tal sociedade foi possível. Ela permitiu o desenvolvimento de todos os grandes setores que lhe deram prosperidade e que, grosso modo, definiram seu modo de vida; desenvolveu-se nas atividades mais tradicionais, como a agricultura – que durante muito tempo não dependeu da filosofia –, assegurando-lhe uma notável produtividade, assim como o fez nos órgãos públicos e de defesa; respondeu de várias formas às necessidades dos homens; e, de certo modo, assegurou as exigências da vida moderna. Também assumiu a responsabilidade de garantir o desenvolvimento e a constante transformação dessa modernidade. A intenção deste livro é mostrar que, entre os discursos muitas vezes milenares da filosofia e o moderno estilo empresarial, entre as reflexões desse pequeno grupo de homens – que, ao longo da história, sem a intenção de inspirar a sociedade, estão somente preocupados, salvo exceções, em pensar –, e a massa de nossos contemporâneos que trabalha em empresas, sem se preocupar com a filosofia e sem a menor intenção de reivindicá-la, a distância não é, talvez, tão grande como se acredita: de um lado a outro das práticas humanas, um tipo de eco repercute, revelando afinidades ou reminiscências que, ao que tudo indica, vale a pena estudar a natureza e entender a profundidade. Pretende-se constatar que os problemas levantados pelos filósofos, e as instituições às quais eles são dirigidos, estão longe de ser as “nuvens” inconsistentes que, segundo Aristófanes, eram contempladas em um céu incerto por alguns sonhadores. Os problemas podem reaparecer, de outra forma, depois de ter atravessado o filtro do tempo que separa a sala do filósofo do sistema de produção, grandes testemunhas do modo de trabalho nas empresas contemporâneas. Muito pelo contrário, à medida que as empresas não podem ser auto-suficientes, a filosofia, ao confrontar-se com elas, pode encontrar material de reflexão sobre a atividade humana e, por que não, sobre sua própria prática. 2


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Assim, com a filosofia, os empresários terão a oportunidade de criar suas próprias percepções e enriquecer suas reflexões, ao colocarem-se em uma perspectiva de fundo filosófico. Talvez alguns fiquem curiosos para ler sob outro ponto de vista, com distanciamento, aquilo que está diante de seus olhos, no seu espírito, em suas mãos, dando assim uma nova cor a suas ações, descobrindo-se herdeiros distantes, mas diretos, de uma certa sabedoria. Durante a leitura, tais leitores poderão se deparar com questões que não podem deixar de ser feitas. A única certeza é a da crise da humanidade. O triunfo do Princípio Prático e a abertura das instituições responsáveis por categorizar o mercado resultaram em um duplo efeito: • o desaparecimento progressivo do que é destinado à formação dos indivíduos; • uma normalização dos conteúdos pedagógicos, isto é, em outros termos, uma generalização que leva à formação de “clones”. O primeiro aspecto, aquele do desaparecimento progressivo do que era destinado à formação do indivíduo, está inscrito no próprio espírito do capitalismo. É isto o que Weber (1994) nos fez observar, de maneira preditiva, em L’éthique protestante et l’esprit du capitalisme. Nesse livro, ele chama a atenção para a expansão da expertise na esfera econômica e social ao constatar: De fato, essa idéia particular – hoje em dia tão familiar, mas, na realidade, tão pouco evidente – que o dever se realiza no exercício de um ofício, de uma profissão (Berufspflicht), é a principal característica da “ética social” da civilização capitalista; de certo modo, ela é o fundamento. É uma obrigação que o indivíduo é levado a experimentar, e isso se dá na sua atividade “profissional”, não importando qual ela seja; na verdade, pouco importa que ela apareça ao sentimento ingênuo (dem unbefangenen Empfinden) como o uso, pelo indivíduo, de sua força de trabalho pessoal, ou somente como utilização

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de seus bens materiais (enquanto “capital”)... Com o aparecimento da economia capitalista, organizada em um imenso cosmos, cada um encontra uma função dentro da qual deve viver, e não pode mudá-la – ao menos enquanto indivíduo. (ibidem, p. 51)

Ou seja, a referência a um “espírito do capitalismo” exprime uma concepção comum aos indivíduos – daí a necessidade de compreendê-la. Weber demonstra, de fato, como as crenças e os valores do protestantismo calvinista que se referem a Deus – causa e objetivo final – oferecem uma legitimidade aos deveres do cristão na Terra, especialmente no que diz respeito às atividades comerciais. Mas o desenvolvimento do capitalismo se opera também independentemente dos valores do protestantismo calvinista. Deve-se falar, de preferência, de correlação, mas, ao mesmo tempo, de secularização dos valores religiosos em sistema de valores do profano, que vem se expressar dentro dos estabelecimentos e das empresas. Essa secularização atende hoje ao sistema educativo, especialmente no ensino das ciências organizacionais e, em relação aos temas do Princípio Prático, vem desclassificar “as humanidades”. É um dos aspectos do desencantamento do mundo que Weber nos descreve, e de forma igualmente preditiva. É também o que criou uma necessidade de significação em que o quadro conceitual se encontra nas humanidades, inclusive sob a forma moderna de disciplinas, como a história, a filosofia, mas também a sociologia e a psicologia. De fato, o capitalismo não teria sentido se não estivesse ligado a valores de um universo em que as trocas comerciais têm o mesmo valor do que as trocas que não têm preço, ou seja, a doação. É evidente que o capitalismo se apóia, antes de tudo, na troca econômica, principalmente nas simbólicas e de condições jurídicas que desempenham o papel de trocas econômicas. Pensando assim, perde-se toda a riqueza da análise de Mauss, que atribui à doação a importância do fato social, e a troca e a vida econômica são reduzidas então a perspectivas 4


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estritamente utilitárias. É dessa ambigüidade que o espírito do capitalismo nasce, como concretização da predestinação divina no trabalho. A idéia calvinista da confiança em Cristo, da confiança em si mesmo, da confiança em um trabalho incessante, leva à justificativa de uma atividade intensa e terrena, já que o mundo existe graças a Deus. O segundo item é conseqüência da rotulação do ensino das ciências em Masters e MBAs, a ponto de criar o que se poderia chamar de “jogo/diversão social”. As ciências organizacionais têm, de fato, um lugar específico nas disciplinas das ciências humanas. Se pensarmos em sua extraordinária expansão desde o começo dos anos 1970, percebemos como marginalizaram uma disciplina irmã, a economia, ao lhe fornecer a idéia de empresa, a fim de provocar uma ressignificação da idéia de firma, tentando juntar, conceitualmente, seus próprios métodos, relacionando-os sempre às categorias econômicas. Percebe-se então o modo com que as ciências organizacionais copiam conceitos de outras disciplinas, empobrecendo-as, sem qualquer escrúpulo. É também desde a década de 1980 que as categorias clássicas de pesquisa (pesquisas fundamental, aplicada, e pesquisa e desenvolvimento) perdem força, momento em que os recursos empresariais se tornam objetos de pesquisa. Basta citar, como exemplo, as dúvidas sobre as práticas de gestão ligadas aos impactos das técnicas de automatização e de informação sobre as empresas. É aí que vai ser criada uma cooperativa de pesquisa como a Computer Aided Manufacturing Incorporated (CAM-I), com o objetivo de definir e ajustar as técnicas e formas de administração relacionadas a tais aspectos, resultando na configuração da atividade, a qual a própria cooperativa vai iniciar o raciocínio em termos de atividade que modifica as representações dos processos empresariais atualmente, questionando-os. As conseqüências vão muito além das fronteiras das ciências organizacionais. Sendo a empresa o cruzamento de fluxos econômicos, consideráveis

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fundos de pesquisa serão mobilizados pelas próprias empresas, pelos organismos que as une e por aqueles que têm alguma relação com elas – sobretudo os órgãos públicos que financiam a pesquisa. Essas contribuições não são, portanto, disponíveis a outras disciplinas, a menos que estas tomem a empresa como objeto de pesquisa. É assim, por exemplo, que conceitos como os da cultura ilustram tal aspecto. As disciplinas de administração, ao atribuir uma cultura às empresas, vão adaptar-lhe o conceito, copiando-o da antropologia, sem interferir na sua história, nem na sua estrutura. Os antropólogos, assim desarmados, deverão considerar a empresa como terreno de investigação e abandonar o conceito, e até mesmo as disciplinas sociológicas de empresas – estas, resultado do relativo abandono da obrigação de entender a sociedade como objeto de estudo. É também isso o que leva à constituição de uma “área nebulosa” entre o ensino, a pesquisa e as instituições, resultando em uma abertura no ensino superior de cursos voltados para o mercado. A tradição secular do “altruísmo” do saber é colocada em questão, já que temas mercadológicos são apresentados às universidades e seus corpos docentes, ao mesmo tempo que temas do Princípio Prático são legitimados, e a educação continuada do ensino superior é apresentada às instituições. As políticas de comunicação dos estabelecimentos, aquelas dos ratings, da normalização, da imagem, são necessariamente postas em prática, assim como as traduções desses cursos, os temas mercadológicos e os exemplos dados às outras disciplinas: os atores das ciências são então convidados a criar empreendimentos e disciplinas “altruístas”, no máximo tolerantes, e normalmente arruinadas, como nos mostra o caso inglês. O desenvolvimento da pesquisa em administração é o símbolo da expansão das ciências organizacionais como disciplina, mas também como prática social. A profissionalização do sistema americano no que diz respeito à implementação dos MBAs e sua hipostasia ideológica, acompanhada do fra-

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casso do sistema capitalista, conduziram então à normalização do ensino e da pesquisa à luz dessas categorias; o que é possível classificar como dependência dos temas do Princípio Prático, apesar da resposta européia com o desenvolvimento dos Masters. É a hipertrofia dessa dimensão que indica como a filosofia pode contribuir para a formação dos empresários. O propósito desta obra gira em torno de dois grandes projetos e uma ilustração: • a filosofia como referência (principalmente diante da fraqueza do quadro conceitual das ciências organizacionais); • a filosofia como método (sobretudo diante da importância da abordagem psicossociológica) com o exemplo da maiêutica.

A FILOSOFIA COMO REFERÊNCIA É aí que a filosofia vem oferecer uma referência diante da fraqueza conceitual das ciências organizacionais. A filosofia está apta a fornecer as “últimas referências” validadas com o passar do tempo. De fato, é a especificação dessas “últimas referências” em um certo lugar e momento que permitem o esclarecimento das ações por meio da identificação de recursos conceituais confrontados com os fenômenos. É isso o que vai permitir o esclarecimento da atuação específica de princípios gerais ligados aos métodos de administração, dando corpo aos valores de uma entidade, a empresa, como lugar específico da co-produção de valores pela interação entre o agente, a empresa e a sociedade. A filosofia possibilitará então a tradução de termos com conteúdos essenciais. Trata-se, efetivamente, de alcançar o “fundamental”, ou seja, os elementos que permitem entender a maneira de pensarmos. As empresas contemporâneas devem às formas de empresas e de sistemas de valores de hoje em dia e são responsáveis por concretizar suas características atuais. Mas é difícil compreender 7


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o que está em jogo atualmente sem se confrontar com a história e as tradições, voltando ao que parece ter marcado o modo como pensamos, em um universo de rigor intelectual, em que se evita a superficialidade. Trata-se de validar o afastamento do pensamento filosófico àquilo que ele tem de preditivo. Às pressões urgentes é possível então opor a transcendência dos quadros filosóficos à suposta objetividade da imediatização das práticas. Como, por exemplo, é possível qualificar Aristóteles de “modalizador” do pensamento ocidental, de formalizador do nosso “modelo de pensamento”, a mesma posição assumida por Confúcio no pensamento chinês. É aí, ao se confrontarem, que as crenças desses filósofos nos dirão algo sobre a maneira como pensamos. Mas, na realidade, Aristóteles e Confúcio são mais nossos pais do que nós somos filhos deles. Diria ainda que filósofos como eles, libertos dos contornos da erudição (e também Kant, naquilo que ele nos torna totalmente legítimos em relação a nós mesmos, ocidentais – a dualidade imperativa categórica, imperativa hipotética), serão menos os modelizadores exemplares do nosso modo de pensar e do comportamento que decorrem dele do que os formalizadores, em certo momento, e de modo mais ou menos preditivo, de nosso pensamento, a ponto que se discute ainda hoje sobre os temas que eles formalizaram. Não é, portanto, Aristóteles, Confúcio ou Kant que codificaram esses elementos, que depois se tornaram tratos culturais, e sim o inverso; e é aí que a filosofia deve interessar aos empresários.

A FILOSOFIA COMO MÉTODO Atualmente a filosofia está em alta, em um contexto definido por Bouveresse (1996) de “demanda filosófica”, o qual ele explica de maneira polêmica: “a procura pela filosofia talvez nunca tenha sido tão grande, mas, grosso modo, ela satisfaz cada vez menos os produtores de filosofia” (p. 19). Tal demanda retoma, ao mesmo tempo, a preocupação com a humanidade, e, também, ao que diz 8


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respeito mais diretamente à empresa, a poderosa ascensão de uma perspectiva ética por meio da ética dos negócios. É pelo menos nesses dois temas que os conjuntos empresariais se encontram confrontados na demanda da filosofia. De fato, citamos Bouveresse, “o poder das mídias, do qual se queixa regularmente, não fez, no final das contas, nada mais além de manifestar e acentuar de maneira espetacular a tendência de nossa sociedade em substituir a realidade pela representação, a importância real pela sua imagem e, como diz Musil, a ‘quantidade de efeito’ pelo ‘efeito da quantidade’”. A empresa é um desses lugares que legitima o “efeito da quantidade” e é no mínimo uma razão fundamental para trazer ao empresário essa demanda. Estamos sempre de acordo com Bouveresse, que afirma que a filosofia contemporânea tende a propor às pessoas que anseiam pelas respostas às grandes questões – que, à primeira vista, têm uma importância crucial para a compreensão do mundo e da vida – considerações e análises sempre muito técnicas sobre temas que, à primeira vista, não têm nenhuma relação – ou, na melhor das hipóteses, uma relação longínqua e muito indireta – com os temas importantes com os quais ela supostamente se ocupa. (p. 23)

Transporemos tal proposição aos empresários, para fundamentar o que a presença da filosofia pode lhes oferecer. A filosofia é uma disciplina rigorosa que não se pode evocar assim, como simples pretexto, para qualificar as práticas externas e internas da organização, uma vez que ela questiona de forma profunda. Isso porque se admitimos que a filosofia tem algo a dizer aos empresários, e que não se trata de um simples pretexto, é, portanto, a eles que ela se dirige com a sua vocação de lembrar dos conceitos e temas com que confronta. Pensemos, por exemplo, no conceito de responsabilidade, que é recorrente nas empresas. 9


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Diante da atitude que Jacques Bouveresse reprova em La demande filosophique, e a todos aqueles que estão convencidos de que não se trata somente de um fenômeno da moda, dois tipos de críticas são consideráveis: • aquela que vê no privilégio concedido à filosofia um fenômeno passageiro, simples expressão superficial de uma crise mais profunda ligada ao declínio das ideologias, dos grandes sistemas ou das grandes “narrativas” filosóficas e religiosas; especialmente a tudo aquilo relacionado aos impasses e às incertezas da política que a “economia” de pensamento poderia compensar no lugar do moralismo ostentado, tão mais nocivo que pode corresponder ao triunfo da corrupção, lá onde a “transparência” do mercado pode atuar; • aquela que vê, na filosofia, um pretexto dos empresários, especialmente para o que está relacionado às perspectivas éticas; e que encontra então, nas “ordens éticas” e em suas práticas hipócritas, mais uma maneira de legitimar o uso do poder e melhorar sua imagem, assegurando assim o respeito dos empregados. Paralelamente a essas atitudes – das quais podemos encontrar, no mínimo, uma certa legitimidade –, existe uma condição mais aceitável que, por não estar muito marcada de ingenuidade e por levar em conta as condições que a precede, faz que os empresários necessitem de reflexão filosófica, o que se confirma com a multiplicação dos escândalos divulgados pela mídia.

EM QUE A FILOSOFIA PODE CONTRIBUIR PARA AS CIÊNCIAS ORGANIZACIONAIS A contribuição da filosofia para a formação dos empresários só terá resultado se, além das observações anteriores, dois grandes preconceitos teóricos forem ultrapassados: 10


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YVON PESQUEUX

• na realidade empresarial existem somente as expectativas econômicas, principalmente porque não há valores éticos de fato; essa realidade é, retomando a tese de Forrester, o “horror econômico”, o que se constata pela desclassificação da referência filosófica ou por um comportamento estrangeiro à moral; as empresas são o resultado daquilo que se construiu, e a filosofia, em sua contribuição para fundamentar os conceitos empresariais, oferece então uma perspectiva; • a filosofia é um universo totalmente teórico, subjetivo e abstrato, o que, para uns, são características de sua importância e legitimidade, e, para outros, a justificativa de sua total desqualificação. É, portanto, além desses dois preconceitos que se constrói a referência à filosofia destinada aos empresários, e isso a partir de dois importantes tipos de argumentação: • um, clássico, que evita o obstáculo da erudição ao abordar princípios filosóficos fundamentais e relacioná-los com o cotidiano da realidade empresarial; • outro, mais original, que podemos qualificar, de acordo com Platão e Sócrates, de maiêutica. No primeiro caso, o empresário, representante não-filosófico da empresa, aposta que a leitura ou releitura de alguns grandes filósofos possibilita a descoberta ou redescoberta do sentido de certas práticas do seu dia-a-dia. Os textos filosóficos lhe são apresentados então como uma espécie de narrativa em que os personagens são os conceitos, e deve-se interpretá-los como metáforas de suas próprias ações. A presença da filosofia lhe permitiu um recuo em relação à sua própria existência, e, ao confrontar o passado com esse outro universo, o empresário estará mais apto a refletir e talvez melhor viver a sua realidade. É claro que a preferência por certos filósofos revela as opções escolhidas, 11


A filosofia é um importante instrumento de compreensão para todas as atividades humanas e tem papel fundamental na reflexão e na prática das empresas. Discussões sobre percepção, ética, racionalidade humana, cidadania, entre outras, mostram-se extremamente ricas para os estudiosos e gestores que queiram refletir mais profundamente sobre as organizações.

Filosofia e Organizações

Isabella F. Gouveia de Vasconcelos Flávio Carvalho de Vasconcelos André Ofenhejm Mascarenhas

FILOSOFIA E

Esta obra, da Coleção Debates em Administração, aborda vários princípios filosóficos fundamentais de grandes pensadores, tornando-os compreensíveis ao leitor e confrontando-os com o cotidiano das empresas. Seu objetivo é mostrar que há uma relação estreita entre os discursos milenares da filosofia e o moderno estilo empresarial.

ORGANIZAÇÕES

Aplicações Obra recomendada para a disciplina filosofia nos cursos de Administração.

Sobre o autor Yvon Pesqueux

Yvon Pesqueux é professor titular da cadeira Développement des Systèmes d'Organisation do Conservaitore National des Arts et Métiers (CNAM), em Paris.

Yvon Pesqueux Para suas soluções de curso e aprendizado, visite www.cengage.com.br


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