E se fosse possível que o curso “do tecer ao texto e vice-versa” se revirasse em um grupo de estudos em uma cozinha, com perfume de açafrão e palmito pupunha fresco? E se fosse possível que um grupo heterogênio com mulheres de idades e modos de vida variados se reunissem para bordar e ouvir histórias? Tudo isso foi possível e gerou um poder criador que originou esta pequena publicação bordada e que tem como pano de fundo um conto de tradição oral. Um encontro é bom quando aumenta nossas possibilidades de existir e imaginar. Juntas, transformamos as aulas em parceria, grupo de estudo e mãos que se acompanham, evocando a frase que chama para todas as descobertas e invenções humanas “e se fosse possível que...” As metáforas aqui aparecem para iluminar ainda mais os pontos que contornam esse encontro e com palavras fomos levadas a pensar ‘e se esse encontro fosse’.
E se esse encontro fosse uma costura coletiva, onde cada mão costura a sua própria trilha, para chegar num lugar comum? E se esse encontro fosse a conexão e o entendimento de um grupo de mulheres que se põem a bordar e se entregam em conjunto ao movimentar agulhas, linhas e tecidos? E se esse encontro fosse um enigma, a chave, o elo que une, mas que quase ninguém vê? E se esse encontro fosse um ensinamento sobre reunir, ver, olhar, aprender e seguir bordando…. Marcela e Fernanda
Se esse encontro fosse um ponto seria o caseado pois ele regula demarca dá ritmo enfeita espeta a semana bem no meio ilha de calma e de sonho
E se esse encontro fosse um enredo... Seria um enredo campeão!
Carol
Se esse encontro fosse uma cor, seria a cor de todas as cores, a que muda sempre quando a gente olha. Uma cor que não sabemos qual a combinação a compõe porque sempre vai depender de aspectos sutis de cada uma das mãos que ali está presente. Como foram seus dias? Sobre o que têm pesquisado? Quais os desejos e vontades meio escondidos, meio à mostra? Qual o sentimento/movimento que fez com que todas aquelas mãos estivessem às quartas-feiras reunidas e envolvidas com o bordar? Perguntas que servem e não servem... Celina
A porta-bandeira, nossa mestra, Marcela começaria o desfile com seu lindo estandarte bordado, acompanhada por seu mestre-sala que pacientemente cuida das crias durante os ensaios. No abre alas o varal de paninhos carregado pelas passistas Inajah de um lado e Marisa do outro. A segunda ala, composta por Fernanda, Joana e Valéria. A mão, a agulha e o avesso e o vestido. A ala das baianas seria uma festa. Com suas saias rodadas seguras com um grande bastidor, rodopiam na avenida formando um grande círculo. Cada baiana segurando uma grande chave. Seriam elas, Miame, Sandra, Cecília, Marcia e no meio estaria a nossa vovozinha mais nova, Carol. O carro alegórico traz um grande tapete de oração com a mascote Celina, ladeada pelas acrobatas Flor, Alice e Luiza. A última ala seria o “panão” de linho doado por Miame que já indica o enredo do ano que vem! Onde todas bordaremos mais um capítulo da nossa agremiação. Miame
A Chave Era uma vez um homem que foi preso injustamente, acusado de um crime que não cometera. Como prisioneiro portou-se de um modo exemplar e por isso pode receber a visita de sua esposa trazendo-lhe um tapete de orações, que ela mesma havia tecido. Pouco tempo depois, ele pediu aos guardas algumas ferramentas para trabalhar, pois era um artesão de metais e não gostava de ficar ocioso. Um dia, quando foram até a cela, ela estava vazia, e todos pensaram que o homem era uma espécie de mago. Passados alguns anos, sua inocência foi comprovada e ele saiu de seu esconderijo. O rei, curioso, quis saber como ele havia conseguido escapar. O homem então apresentou-se diante dele e lhe contou: Sua majestade, minha mulher encontrou o chaveiro que fez as fechaduras da prisão. Ela bordou o desenho da fechadura no tapete que me trouxe, pois confiou que eu, observando, perceberia o desenho interior da fechadura. Esta é a historia da minha fuga.
o que nos conta a história? Sobre...
Quando a história “A chave” foi apresentada ao grupo e após algumas leituras, identificamos quais as palavras/temas do conto para cada uma de nós naquele momento. Para cada palavra escolhida fizemos um “relato significativo”. Cada uma relatou um fato vivido, algo que nos faz compreender o significado de determinada palavra que não precisa ser exatamente algo grandioso e importante, ou um grande feito, ele é apenas um fato, um cruzamento de uma experiência que flagra o significado daquela palavra no nosso cotidiano. Nossos textos são alinhavos de pequenos relatos significativos. Aqui reunimos um acervo de palavras e imagens com significado e cheias de vida. E se esse conto fosse sobre: Oração? Chave? Mão? Crença? Sintonia? Ou tapete? Que experiências nosso grupo tem com essas palavras que dá sentido ao conto “A chave”?
oração A mulher entrega ao homem um tapete de oração. É sua prática de repetir a oração que o desperta para a fuga, pois possibilita perceber o bordado. Miame teve uma experiência com a palavra Oração.
A oração foi um pretexto para passar um segredo que estava nas linhas do tapete, nas entrelinhas. Mas o que é a oração senão um pretexto para buscar a verdadeira sintonia com a piedade divina? É! Porque a piedade divina ouve mais as entrelinhas do que a oração. Ouve mais o coração do que as palavras. Quem ora usa a palavra para compor seus silêncios (plagiando Manoel de Barros), o silêncio escondido nas entranhas.
Aprendi a rezar com “Santo Anjo do Senhor”. Eu queria entender a piedade divina, minha mãe me explicou. Assim aprendi a confiar na piedade divina. Muito mais fácil confiar na piedade divina do que em Deus. Depois, mas muito, muito depois, confiei no sempre “merrege". Agora todo os dias de manhã rogo que a Piedade Divina me reja. Sabe que funciona?
chave No relato da Carol está o título do conto "A chave”
Uma chave abre Uma chave fecha Carregando em si o fim e o começo Enquanto atravessa o meio
mão As mãos da mulher bordam o tapete. A mão do homem não quer ficar ociosa. A ação das mãos liberta o prisioneiro e enreda a história. Fernanda, pesquisadora das mãos, tem um relato.
E se esse conto fosse sobre mãos? Hoje vi um menino pintando as mãos para sair da sala de aula e dar um voltinha no pátio, uma menina enfiando um alfinete na pele do dedo polegar e outra que furou a palma da mão com o grafite pontiagudo... Vi também um garoto que pegou, sem autorização, uma faca na cozinha para descascar uma laranja e uma adolescente que veio falar comigo para limpar as mãos sujas de sumo na minha blusa... Outra criança separou dentro do prato os pedacinhos de cebola que estavam no feijão... Na hora da despedida vi várias mãozinhas acenando e me dando tchau! Tchau!
crença
O homem, os guardas, a mulher, o chaveiro, o rei, todos os personagens têm crença e acretidam na palavra, tem fé nos outros e em si. Inajah tem um relato sobre crença.
Quando ouvi o conto pensei na palavra acreditar, ter certeza, ter fé. A esposa acredita que olhando aquele tapete o marido seria capaz de ver através, entender o que não estava ali, o invisível. É ver além dos olhos, ouvir além dos ouvidos, é saber com o coração, é ver/ler o desenho do interior. E o interior pode ser o começo, pode ser o fim. É o que já tem potencial para acontecer, o que já está vivo, mas que só percebemos quando não temos medo. Lembro quando a Marcela contou a história da chave pela primeira vez. Nesse momento entendi que eu estava bordando o meu tapete. E que cada
vez que eu pegasse nesse paninho, eu estaria mentalizando coisas boas para aquelas pessoas e focando cada vez mais naqueles planos. No tempo dos nossos encontros, por um sĂŠrio motivo, tive que retomar minha vida espiritual, parar um pouco, me dedicar um pouco. Passei uns dias cuidando de mim, me fortalecendo. Tomando banho de erva, comendo as coisas certas, acreditando que todas essas coisas seriam capazes de purificar o meu interior.
sintonia A história fala da sintonia do casal que sem palavras se comunica, traduz uma mensagem libertadora. Sobre sintonia, Marcela viveu recentemente uma experiência:
Chovia muito e ninguém queria acordar cedo, o pequeno levantou encorajado a correr para sala e começar o dia, mas o embalo das gotas no telhado de vidro fez o soninho voltar. Reconhecemos o silêncio e cada um em seu canto confiou que um dos outros dois teria levantado e dado ao Zezinho sua dose de alegria matinal com doce mel e fruta. Para nossa surpresa quando um a um de nós três levantou, percebemos que nosso pequeno tinha encontrado conforto nas almofadas do sofá e se estirara ali com seu corpinho de bolota gostoso. Na sintonia das águas habitamos em uma manhã de casa sonolenta.
tapete A mulher deu ao marido um tapete de oração. E como ele foi usado pela Celina?
Tapetes sempre foram coisa da casa dos meus pais na infância. Eu pulava como se fosse amarelinha no desenho de losangos do tapete do corredor. Passava correndo pelo corredor. Mês passado, meu pai me deu dois desses tapetes da casa antiga que estavam com ele e um deles era o da amarelinha! Ele é azul e agora fica no corredor da minha casa e não passo mais correndo pelo corredor mas de vez em quando pulo a amarelinha.
dicionário poético de pontos de bordado pontocário Que pontos sei fazer?
Cada uma de nós fez uma imagem do ponto esco-
Que pontos eu conheço?
lhido e descrito no texto. Essa imagem está ligada
Como ele é feito?
a como o ponto afeta quem borda, ou, de algum
Que imagem configura? Para que é usado? Como aprendi a fazê-lo? Como ele me move? Afeta? Que atributo dar ao ponto? O que ele me lembra? E se fosse possível que? O que o ponto tem para mim? O que eu tenho para ele?
modo, representa uma cena da história “A chave”. O importante para o grupo foi sempre fazer como a mulher do homem preso e confiar que seria possível “perceber o desenho do interior”! Confiar na percepção! “Virar o olho” e ver além do ponto!
sobre bordar
miame
Quando sonhei ser pano / fui agulha. / E morri no sono do gesto / de enrolar o fio. /// E assim me condeno / em livre vício: / no mais derradeiro / eu só vislumbro um início. Mia Couto
Mas, eu não sei bordar…
Agora continua… Faz outra haste, e faz outra vez
Sabe sim! Tudo o que você precisa é não ter medo
tudo de novo… Um atrás do outro.
da agulha. Deixa ela te levar.
Pronto!
Seja agulha, mergulha no pano. Alinhava.
Sabe como se chama este ponto?
Primeiro alinhava.
Ponto haste português.
Deixa a agulha entrar aqui e sair ali…
Agora não quero parar.
Entrar aqui e sair ali…
Continua… Viaja neste ponto…
Agora brinca. Onde a agulha pode ir se não sair ali?
Faz uma haste enviesada e sai na lateral.
Volta?
Agora sobe e passa a agulha por baixo do ponto
Então volta mas ao invés de enfiar a agulha outra
que acabou de fazer, igual ao outro, lembra?
vez no tecido, passa a agulha por baixo do ponto
Cuidado para não pegar o tecido. Vai sair entre
que acabou de fazer.
os dois pontos, bem no meio. Puxa a agulha para
Isto mas cuidado para não pegar no tecido…
formar um nó.
Pega só no ponto anterior.
Se você fizer os pontos bem uniformes e bem
Agora dá outra volta, por baixo deste.
apertados vão ficar como contas. Como um colar.
Vão ficar duas voltinhas.
Mamãe usava esse ponto para bordar nossos
E agora?
nomes. Ela chamava de ponto português. Chamam de palestrina ou nó duplo.
ponto pena
celina
sobe agulha lança linha lagoa formada laçada dada lança linha pro outro lado onda cresce com fio puxado como pode um ponto que escorre servir de pena? é faz de conta pra ensinar criança: só enquanto borda essa água desce depois o que fica é sua própria dança
ponto treliça
joana
Esse é um ponto que me encanta. Para fazê-lo é
uma lona bem dura utilizei esse ponto para preen-
simples. Você escolhe uma forma, e faz o contor-
cher uma área considerável sem ter que furar mui-
no dela com ponto atrás. Depois faz pontos largos,
to o tecido.
enormes, todos na vertical e paralelos (como se no tear esses pontos fossem o urdume). E depois, sem furar o tecido, vai tramando com a agulha da direita para a esquerda, passando com a agulha ora por cima, ora por baixo daqueles pontos largos verticais que você tinha feito no início. Quando chega ao fim do desenho passa a agulha por baixo do contorno do ponto atrás e volta com o mesmo movimento, agora da esquerda pra direita. Repete-se esse processo até cobrir todo o desenho. Esse movimento vai formando um tecido no direito do trabalho. Embora se movimente muito a agulha, o avesso fica do mesmo jeito que estava no início do bordado (praticamente sem avesso). Esse é um ponto muito interessante. Ele é excelente pra fazer desenhos como cestas... Se estiver trabalhando com linha de novelo o resultado é bem rústico. Fica lindo. Uma vez, quando eu bordava
E por que esse ponto me encanta? Gosto muito de pensar no avesso como parte do bordado, tipo 50% mesmo. Gosto de pensar na surpresa que o avesso pode causar... E esse ponto causa muita surpresa porque no direito fica tudo preenchido e o avesso vazio.
ponto haste
carol
verde como quem começa o ponto haste brotou pequenininho dentro do meu coração. foi meu primeiro ponto
ainda tímida e sem jeito
remendou, ficou e pronto:
a sementinha foi brotando;
trouxe paz e vida à mão
lembro até hoje do tecido. devagar mas com firmeza, fui costurando o sonho ao mundo, rodando a barra do vestido mudando feito coisa viva no decorrer do desenho a haste foi virando cerquinha e virando corrente foi se enchendo e preenchendo tudo na fluência do meio de linha e assim fui descobrindo sutilezas e possibilidades bordando sempre o meu carinho: pois ponto de haste é preciso, não pode ser frouxo nem firme; é segurar um passarinho
ponto corrente
carol
o ponto corrente não se arrasta
o ponto corrente até prende
conforme o nome sugere
mas cada elo merece cuidado
se dá até bem rapidinho
pois se acontece de entrar
e é leve
pelo lugar errado ele se desfaz todo,
você enfia a linha na agulha
não tem jeito...
e a agulha no pano depois entra pelo mesmo buraquinho
fica a mão sem saída,
com a linha que fica faz laçadinha,
vai sumindo do pano
por dentro de onde a agulha passa
desfazendo o desenho
para entrar mais adiante,
e todos os planos...
repetindo sem parar ganhando a paisagem como um trem dono de seu tempo
resta começar de novo, na corrente da vida desenho de elos e pontos ritmo de vai e não volta
ponto chavão
fernanda
Busquei no dicionário, por suspeitar que não seja só um aumentativo, o significado da palavra chavão: CHAVÃO – Substantivo masculino 1. Chave grande / 2. molde de metal usado em pastelaria para aplicar enfeites em bolos e massas / 3. molde para marcar a quente / 4. impressão deixada por cunho, molde, marca / 5. modelo adotado pelo senso comum / 6. dito ou frase que se repete abusivamente e que perde, por isso o valor expressivo; chapa, clichê / 7. autor ou obra tomados como modelo / 8. ideia muito óbvia, estereotipada / 9. coisa comum, ordinária; trivialidade. Fiquei espantada ao encontrar definições próximas
Até que eu, ao me deparar com um risco de chave,
a ‘clichê’, ‘trivialidade’, ‘coisa comum’... Espantada
tive a "ideia muito óbvia" de usar em meu bordado o
porque para mim o chavão sempre se aproximou
ponto chavão! Mas como seria isso?
mais do ‘mistério’. Como poderia com um ponto aqui e outro ali escrever acompanhando, quase com precisão, minha letra canhota? Eu tentava e tentava, mas não conseguia! A linha frouxa sempre escapulia, saia de cima do risco ou esticava quando eu tentada dar aquela laçadinha misteriosa que firmaria o pedacinho anterior...
O mistério foi revelado com amor: “Fer, senta aqui que te ensino! É fácil!” Não consigo repetir todas as palavras da Celina, mas fui vendo o risco da palavra amor ser contornado com linha preta sobre um paninho azulado! E de repente aprendi! Como a aprendizagem é misteriosa!
ponto amigão
marcia
Esse ponto é um amigo querido. Aquele que dá um
Em vez de muito entra e sai no tecido formando
abraço e traz a gente pro lugar quando estamos per-
uma linha tracejada e firme, ele é livre, preso ape-
didos. E como todo bom amigo é também um pouco
nas onde realmente importa. Normalmente é for-
irmão e implicante como tal. Quando o fio está lá,
mado por um pontão reto onde as formas se dão
todo soltinho, ele volta pra dar um belisco e o segu-
pelos breves instantes onde essa linha solta se
ra, impedindo seu movimento.
prende ao tecido.
Para fazer esse ponto deve-se espetar a agulha no
Assim como a maioria dos pontos, ele é feito de re-
tecido pelo avesso e entrar pelo direito mais à fren-
petição: vai a frente e volta abraçando uma ou mais
te, formando um pontão. Pelo avesso, volta-se em di-
vezes, e retorna a ir a frente, voltando pra abraçar.
reção ao início do ponto, parando exatamente onde
Mas não é ritmado. Os pontões e os abraços não são
ele precisa ser preso. Então, entra-se do avesso pro
regulares. O entra e sai da agulha não forma um de-
direito, e novamente volta ao avesso, quase no mes-
senho próprio do ponto criado pela repetição e rit-
mo furo onde entrou, abraçando o fio do ponto prin-
mo. Ele interfere pouco no desenho. O resultado são
cipal. Depois, para dar continuidade, deve-se entrar
fios contínuos como o próprio risco.
no mesmo furo onde terminou o primeiro ponto e repetir o processo.
Quando eu crescer quero ser como ele: mais leve, solta, irregular, descompromissada e livre. Esse é o ponto chavão.
ponto atrás
É um ponto medroso... enfiamos a agulha no tecido e volta a aparecer mais na frete... louca para correr, mas quando aparece... morre de medo e volta para o ponto de partida... se esconde, entrando no mesmo lugar que tinha desaparecido, fica com vergonha... fecha os olhos e toma coragem... volta a aparecer lá na frente... Onde estou? Isto não é para mim... aparecer assim... me expondo dessa maneira??? ...nada disso... vai logo correndo novamente aquele lugar em que tinha sumido do mapa... e assim... ela vai e volta, vai e volta... ora toma coregem... ora se arrepende... Assim sou eu... ponto atrás, vou indo aos pouquinhos e quando olho do alto... vejo que está lindo... meu percurso desenhou... criou... e embelezou meu pano.
cecilia
ponto areia
inajah
Vem! É verão. Tem sol. Vamo, vem, corre... / Olha esse movimento, tá vendo? / Eu tento ouvir o barulho do vento, mas ela não para de me chamar... / Me perco olhando o cabelo dela dançar, balançar com cada assopro que vem. / Tira o sapato. Ela diz e pega a minha mão e continua, / Vem, pisa aqui, sente isso no seu pé? / Sente esses pedacinhos? Olha, veio a onda, sente isso no seu pé? / Não dá pra sentir mais os grãos aqui. / E de repente ela continua... / Isso que aconteceu aqui abraça o pé e leva / Puxa pra outro lugar, o pé afunda, e de algum jeito isso leva a gente / Puxa pra dentro, pro fundo... / Fiquei me perguntando: pro fundo de onde? Pra dentro de que? / Fundo do mar? / Dentro da areia? / Dentro e fundo da gente? / Fundo do mar? Fundo da areia? / Fundo de que? De quem? Dentro da gente? É o ponto que faz os grãos. / Os poucos fios de cabelo na cabeça do careca. / Os pelos na perna da menina (que insistem em crescer). / No mapa ele preenche os territórios. / Quando o avião de papel ganha o céu, no rastro que fica, ele está presente. / No corpinho do morango, ele é a semente. / No relógio, ele marca o caminho das horas. / No prato do almoço, ele é o arroz. / No preenchimento da pele, na pinta no dedo da menina, ele é a marca. / No escuro do universo, ele é as estrelas que insistem em brilhar. / Na terra, ele é o que já é flor antes de ser e desabrochar. / Na nuvem carregada do fim de tarde, ele está nas gotas que caem. / É ele que entra e sai do paninho. Fica pequeno e menor ainda. / Fica perto e distante. Troca de cor e continua a preencher. / Ah, areia é o nome dele, na praia ele dá firmeza pra gente ver o mar.
ponto alinhavo
valéria
No começo junto ideias e coisas, como agrego mi-
De traço em traço, subindo ou descendo, em espiral
nhas lembranças.
ou qualquer outra forma que eu queira, caindo ou
Entro, saio, entro novamente, saio, entro de novo, saio e entro, pregueando e unindo ao longo da agu-
suspirando, faço meus oceanos, as chuvas, o céu, as nuvens e o sol e o meu caminho.
lha tudo, passado e futuro e quando saio formo a
O traço não precisa seguir o risco, e por vezes nem
reta do presente.
o risco precisa existir. Espelho-me na sua liberdade
Lembro das pregas e das tentativas que ao final formavam e formam o desejo materializado. Lembro das idas ao passado, vendo minha avó, impecável e inigualável com as agulhas, visando chegar a algum lugar no futuro e as vindas ao presente entre linhas e riscos de bordado que enfeitam minhas vestes que outrora foram feitas pelas matriarcas que me antecederam e que enobrecem a minha linhagem.
e voô com minhas proprias asas.
ponto baobá
marisa
Aos poucos, o exercício de bordar vem me revelan-
inquietei, passei delicadamente os dedos e quando
do seus segredos. Devagarinho, o exercício de bor-
a linha “dobrou” eu, pela primeira vez, o vi. Assim,
dar vem me revelando seus revessos. De uma forma
o bordado se revelou, se desnudou, se insinuou pra
muito delicada, o exercício de bordar vem me reve-
mim de uma forma que eu nunca tinha percebido
lando seus encantos. De ponto em ponto, de linha
antes: ele se abriu, se revelou.
em linha, tecitura em tecitura, o exercício de bordar vem me costurando de dentro pra fora, e eu me sinto desabrochando.
E se no momento em que a gente aprende, uma luz se acende, naquele exato momento, alguma coisa dentro de mim se acendeu, pois eu me percebi não
E os novos caminhos que se abrem, me ativam os
apenas reproduzindo pontos mas inventando, trans-
poros da curiosidade de querer ver, sentir, insistir e
formando, transgredindo, criando um ponto que
sobretudo, imaginar, criar. Então, ao me ver de fren-
não sei se é realmente novo, até porque isto pouco
te com a incerteza sobre que ponto bordar, comecei
me importa, já que o insight fora sentido de ponta
a deixar o próprio ponto me levar e olhando para o
a cabeça: o nascimento de um ponto, que batizei
desenho, perguntar: Que cor o senhor ou a senhora
como Ponto Baobá.
quer que eu os borde? Qual ponto a senhora agulha vai me conduzir no momento? Nesta hora, eu me lembrei das palavras de Marcela: não repuxe muito o ponto, veja, a linha soltinha, ela dobra... Foi então, que ao tentar fazer o ponto “cerquinha”, eu olhei com cuidado, virei do avesso, me
E aí, neste momento de entrega, eu descobri que o “não saber” é o lugar do tesão, o não saber é o lugar fecundo da criação.
Grupo do livro Ana Carolina Videira Cecilia Coelho Celina Kuschnir Fernanda Morais Inajah Cesar Joana Pegado Marcela Carvalho Marcia Martins Marisa Silva Miame Ayres Valéria Coutinho Coordenação Marcela Carvalho
Projeto Gráfico Ana Carolina Videira Celina Kuschnir Fernanda Morais Inajah Cesar Marcela Carvalho Miame Ayres Coordenação do projeto gráfico Celina Kuschnir Agradecimentos Às integrantes do grupo de estudos de bordado (GEB) que participaram do início do projeto: Luisa e Fernanda Cid, Thais, Elisa, Nadine, Sandra, Bela, Marina, Giulia. À Paula e à Eclair pelo perfume do açafrão.
tem em livro...
e na internet...
Julia Goldman Grillo e Nicia Grillo Guerreiro invisível e outros contos do tempo uma Antologia da tradição viva, ed. Jaguatirica.
A. Hampaté Bâ Tradição Viva (forumeja.org.br)
Lygia Bogunda - Feito à mão, ed. Casa Lygia Bojunga. Regina Machado - Arte da palavra e da escuta, ed. reviravolta.
Marcela Carvalho "Do tecer ao texto e vice-versa" (www.maxwell.vrac.puc-rio.br)