JORNAL DO COMITÊ DA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO SÃO FRANCISCO / SETEMBRO 2026
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CBHSF leva agenda da água às Eleições 2026
Parceria fortalece educação de indígenas e quilombolas
Confira a entrevista com a Profª Thaís Guimarães sobre Geoparques
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Notícias do São Francisco 02
EDITORIAL Construir hoje o futuro do São Francisco a amplitude da atuação necessária para proteger uma bacia tão diversa quanto a do São Francisco. Em um ano eleitoral, o CBHSF apresenta aos candidatos à Presidência da República e aos governos dos estados da bacia uma agenda estratégica para colocar a água entre as prioridades dos programas de governo. Segurança hídrica, saneamento, revitalização, adaptação às mudanças climáticas e governança precisam ser compromissos permanentes, capazes de ultrapassar mandatos e se consolidar como políticas de Estado.
Pensar o futuro do Rio São Francisco exige planejamento, articulação, investimentos e participação social. Exige, sobretudo, compreender que cuidar das águas significa também cuidar das pessoas, das culturas e dos territórios que delas dependem. Esta edição do Travessia reúne iniciativas que traduzem esse compromisso e mostram
Ao mesmo tempo, seguimos transformando planejamento em ações nos territórios. No entorno do Lago de Sobradinho, em Pilão Arcado, um novo projeto de recuperação hidroambiental vai atuar na proteção da vegetação, conservação do solo, controle da erosão e preservação das águas. No território Pankararu, em Petrolândia, a recuperação das microbacias dos córregos Vargem da Serra e São Bentinho mostra que cuidar da água também significa proteger memória, cultura, autonomia e modos de vida construídos ao longo de gerações. A parceria com o Campus Intercultural Opará/ UNEB reforça outra dimensão fundamental desse trabalho: a educação. Apoiar a formação de povos indígenas e comunidades quilombolas é investir em novas gerações sem perder de vista os conhecimentos tradicionais e a profunda relação dessas comunidades com seus territórios.
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Também olhamos para novas possibilidades de desenvolvimento. No Pajeú, a articulação para a construção de uma proposta de geoparque aproxima municípios, universidades, comunidades e instituições em torno da valorização da geodiversidade e dos patrimônios natural e cultural. É uma discussão que une conservação, educação, turismo e geração de oportunidades e que aprofundamos nesta edição em entrevista com a professora Thaís Guimarães. São ações diferentes, mas que fazem parte de uma mesma visão. Revitalizar o São Francisco vai muito além de intervenções ambientais. É fortalecer comunidades, formar novas gerações, valorizar saberes, preservar patrimônios, promover desenvolvimento sustentável e garantir que a água tenha lugar central nas decisões sobre o futuro. A Bacia do São Francisco é diversa e seus desafios não podem ser enfrentados de forma isolada. Precisamos unir instituições, governos, comunidades, conhecimento científico e saberes tradicionais. É dessa construção coletiva que nasce o São Francisco que queremos deixar para as próximas gerações: um rio cuidado no presente, fortalecido por sua gente e preparado para o futuro. Cláudio Ademar da Silva
Presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco
Notícias do São Francisco 03
ELEIÇÕES 2026: CBHSF LEVA AGENDA DA ÁGUA AOS CANDIDATOS
COMITÊ APRESENTA PROPOSTAS AOS CANDIDATOS À PRESIDÊNCIA E AOS GOVERNOS DOS ESTADOS DA BACIA PARA INCORPORAR SEGURANÇA HÍDRICA, SANEAMENTO, REVITALIZAÇÃO E ADAPTAÇÃO CLIMÁTICA AOS PROGRAMAS DE GOVERNO Texto: Mariana Salazar
O Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF) apresenta aos candidatos à Presidência da República e aos governos dos estados que integram a bacia uma agenda estratégica para inserir a água, a segurança hídrica e a revitalização do São Francisco entre as prioridades das Eleições 2026. A iniciativa reúne dois documentos complementares: uma Carta Aberta aos candidatos e o documento técnico “Compromissos Estratégicos para os Programas de Governo e Planos de Ação – Eleições 2026”. O objetivo é oferecer subsídios para que os desafios da gestão das águas sejam incorporados às propostas das futuras administrações. A agenda considera a importância estratégica do São Francisco, cuja bacia possui cerca de 640 mil km² e reúne aproximadamente 15 milhões de habitantes. Suas águas sustentam abastecimento humano, produção de alimentos, geração de energia, irrigação, indústria, turismo, pesca e conservação ambiental. Ao mesmo tempo, o território enfrenta problemas como degradação ambiental, déficit de saneamento, assoreamento, conflitos pelo uso da água, redução da disponibilidade hídrica e impactos cada vez mais intensos das mudanças climáticas. DEZ COMPROMISSOS COM O SÃO FRANCISCO As propostas do CBHSF estão organizadas em dez compromissos prioritários. Entre eles estão o fortalecimento da governança das águas; a ampliação dos investimentos em revitalização hidroambiental; a universalização
do saneamento urbano e rural; e políticas de segurança hídrica, convivência com o semiárido e resiliência climática. A agenda também contempla o planejamento integrado da bacia; apoio técnico e financeiro aos municípios; ampliação do monitoramento e da produção de dados; uso sustentável da água; fortalecimento da participação social, educação ambiental e comunicação; além da consolidação da revitalização do São Francisco como política de Estado.
de suas bacias afluentes, considerando a interdependência das águas e dos territórios. Entre os objetivos estão a construção de uma base de dados compartilhada, um balanço hídrico de referência para toda a bacia, a gestão integrada de áreas críticas e maior capacidade de resposta a secas, cheias e episódios de contaminação. ÁGUA COMO AGENDA DE DESENVOLVIMENTO
O saneamento recebe atenção especial diante dos impactos do lançamento de esgoto, da disposição inadequada de resíduos e das deficiências de drenagem sobre a qualidade das águas e a saúde da população. Nas áreas rurais, o documento destaca ainda a necessidade de ampliar o acesso ao abastecimento de água e ao esgotamento sanitário.
Ao levar essas propostas ao debate eleitoral, o CBHSF reforça que revitalizar o São Francisco não é apenas uma questão ambiental. Água está diretamente relacionada à saúde pública, segurança alimentar, produção, energia, biodiversidade, desenvolvimento econômico, adaptação climática e redução das desigualdades.
Outro desafio é a adaptação climática. Com aproximadamente 78% da bacia inserida no semiárido, o CBHSF defende políticas permanentes de segurança hídrica, monitoramento, gestão de eventos críticos, recuperação ambiental e convivência sustentável com as características da região.
A agenda defende ainda maior participação de comunidades tradicionais, povos indígenas, quilombolas, juventudes, mulheres e populações vulneráveis nos processos de gestão das águas.
PLANEJAMENTO INTEGRADO PARA A BACIA A construção do Plano Integrado de Recursos Hídricos da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (PIRH-SF) também ocupa posição estratégica nas propostas. O novo planejamento dará continuidade ao PRH-SF 2016–2025, atualizando diagnósticos, cenários e prioridades. A proposta é integrar o planejamento do rio principal ao
Com a iniciativa, o Comitê coloca à disposição dos candidatos e de suas equipes propostas construídas a partir da realidade da Bacia do São Francisco. O princípio é que os desafios do Velho Chico ultrapassam mandatos e exigem continuidade das políticas públicas, investimentos permanentes e cooperação entre União, estados, municípios e sociedade.
Acesse a Carta Aberta e a Agenda Estratégica: bit.ly/ÁguaseEleições2026
Notícias do São Francisco 04
RECUPERAÇÃO HIDROAMBIENTAL NO ENTORNO DE SOBRADINHO RECEBE INVESTIMENTO DE R$ 5 MILHÕES DO CBHSF Texto e fotos: Luiz Hélio
PROJETO APRESENTADO À COMUNIDADE DE PILÃO ARCADO PREVÊ PROTEÇÃO DE ÁREAS, RECUPERAÇÃO DA VEGETAÇÃO E AÇÕES DE COMBATE À EROSÃO NA MICROBACIA DO RIACHO TRANQUEIRA Moradores, pescadores e produtores rurais de Pilão Arcado conheceram, no dia 19 de agosto, as ações que serão desenvolvidas para a recuperação hidroambiental da Microbacia do Riacho Tranqueira, localizada no entorno do Reservatório de Sobradinho. O projeto foi apresentado pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF), em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), a Agência Peixe Vivo e a Fortal Engenharia. Com investimento de R$ 5 milhões e execução prevista ao longo de 30 meses, a iniciativa utiliza recursos destinados à revitalização das bacias dos rios São Francisco e Parnaíba, provenientes das obrigações estabelecidas pela Lei nº 14.182/2021, que autorizou a desestatização da Eletrobras. A legislação estabelece aportes anuais de R$ 350 milhões, durante dez anos, somando R$ 3,5 bilhões para ações de revitalização, conservação e recuperação socioambiental das duas bacias. A apresentação aconteceu na sede da Colônia de Pescadores, no Povoado de Passagem. Além de conhecer as intervenções planejadas, a comunidade teve a oportunidade de dialogar sobre as características e necessidades do território. Participaram do encontro o presidente do CBHSF, Cláudio Ademar; o representante do MMA, Alexandre Resende Tofeti; o presidente da Colônia de Pescadores, Alexsandro dos Santos; e o responsável técnico da Fortal Engenharia, Marco Alan Batista de Castro. Moradores, pescadores, produtores rurais e representantes das instituições parceiras também acompanharam a programação.
PROTEÇÃO DO SOLO, DA VEGETAÇÃO E DAS ÁGUAS As intervenções integram a implantação de Projetos Individuais por Propriedade (PIP), no âmbito do Programa de Proteção, Conservação e Recuperação Ambiental na Microbacia do Riacho Tranqueira. Uma das principais ações será a instalação de 25.814,40 metros de cercamento para proteger áreas ambientalmente estratégicas e favorecer a regeneração da vegetação. Também está prevista a recomposição de 40,88 hectares de vegetação nativa. O projeto inclui ainda 22,36 hectares de cultivo em faixa e 2,62 hectares de pastagem manejada, técnicas que buscam promover o uso mais sustentável das propriedades e contribuir para a conservação do solo. Outra frente importante será o controle dos processos erosivos e o melhor aproveitamento das águas das chuvas. Para isso, serão implantados 490,42 metros de sarjetas de escoamento e 30 caixas de captação, conhecidas como bigodes de contenção. As intervenções incluem ainda seis paliçadas de eucalipto para conter voçorocas, quatro barraginhas de grande porte e quatro lombadas em estradas rurais. O conjunto de medidas busca diminuir o escoamento superficial, conter a erosão, favorecer a infiltração e retenção da água no solo e proteger os cursos d’água da microbacia. Ao longo dos 30 meses de execução, as intervenções serão acompanhadas e a proposta é manter a comunidade envolvida no processo.
A iniciativa beneficia diretamente moradores do Povoado de Passagem, integrantes da Colônia de Pescadores e proprietários rurais da Microbacia do Riacho Tranqueira, aproximando recuperação ambiental, segurança hídrica e participação social. TRADIÇÃO E IDENTIDADE RIBEIRINHA A programação também abriu espaço para manifestações culturais que fazem parte da identidade de Pilão Arcado. O encerramento contou com a apresentação dos Esmoleiros de Pedreira, tradição que reúne fé, música, batuque e dança e é transmitida entre gerações. O artesanato produzido na comunidade também ganhou destaque. Entre os trabalhos apresentados estavam as peças de Janecléia Mariano dos Santos, que há cerca de cinco anos reaproveita escamas de peixe para produzir flores, brincos e outros objetos artesanais. A presença dessas manifestações durante o lançamento reforçou a relação entre a recuperação ambiental e o território onde o projeto será executado, reunindo em uma mesma iniciativa proteção das águas, participação comunitária e valorização dos modos de vida ligados ao São Francisco. Comunidade de Pilão Arcado conhece ações de recuperação hidroambiental na Microbacia do Riacho Tranqueira
Notícias do São Francisco 05
SABERES QUE RESISTEM, EDUCAÇÃO QUE TRANSFORMA
CBHSF FORTALECE PARCERIA E APOIO AO CAMPUS INTERCULTURAL OPARÁ/UNEB AMPLIANDO CAMINHOS E OPORTUNIDADES PARA POVOS INDÍGENAS E COMUNIDADES QUILOMBOLAS COM FOCO NO DESENVOLVIMENTO HUMANO E PRESERVAÇÃO AMBIENTAL Texto e fotos: Luiz Hélio Há lugares onde a educação acontece dentro de uma sala de aula. E há lugares onde a própria terra, o rio, a memória e a resistência também ensinam. No coração de uma região marcada pela beleza e pela força da natureza, o Campus Intercultural Opará, da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), representa uma dessas experiências que ultrapassam os limites de uma universidade convencional. Ali, jovens e adultos de comunidades indígenas e quilombolas encontram não apenas uma oportunidade de chegar ao ensino superior, mas um espaço onde suas histórias, seus saberes e seus territórios têm voz, vez e reconhecimento.
Ali, o ensino superior deixa de ser um sonho distante e passa a fazer parte da vida cotidiana de quem, durante muito tempo, precisou lutar para ter acesso a ele. A parceria entre o Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco e a UNEB chega agora a um novo momento, com obras de ampliação e melhoria da infraestrutura do Campus Intercultural Opará já em andamento. O investimento, de aproximadamente R$ 5 milhões, foi articulado e viabilizado pelo Comitê para fortalecer a estrutura da universidade, ampliar os espaços existentes e oferecer melhores condições para o desenvolvimento das atividades acadêmicas.
É uma experiência única no Brasil: uma universidade que vai ao encontro de populações historicamente afastadas dos espaços acadêmicos e constrói, com elas, uma nova maneira de fazer educação. Foi nesse cenário que representantes do Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco (CBHSF) estiveram no Campus Intercultural Opará, localizada na zona rural do município de Jeremoabo/BA, nesta quinta-feira (21), para acompanhar de perto essa realidade e discutir novos caminhos para o fortalecimento da parceria construída ao longo dos anos.
A ampliação é fundamental para que o Campus possa acolher um número ainda maior de novos alunos e fortalecer uma experiência de formação que já alcança um total de 841 estudantes, em sistema de revezamento por turmas semanais, representando 15 comunidades quilombolas, 12 povos indígenas e 52 aldeias.
Participaram da agenda o presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco, Cláudio Ademar; o coordenador Elias Silva, a secretária executiva Rosa Cecília Santos, além do representante do Ministério do Meio Ambiente, Alexandre Tofetti, o pró-reitor de Infraestrutura da UNEB, João Rocha, a diretora do Campus Intercultural Opará, Floriza Sena; professores, estudantes e integrantes da comunidade acadêmica. Mais do que uma visita institucional, o encontro revelou a dimensão humana de um projeto que nasceu para transformar realidades. No Campus Opará, os estudantes têm acesso à formação acadêmica, recebem bolsa e contam com uma estrutura que lhes permite permanecer no espaço universitário. Há dormitórios, refeitório e alimentação com quatro refeições diárias, criando condições para que alunos que vivem em comunidades distantes dos estados da Bahia e Pernambuco possam estudar, conviver e construir sua trajetória acadêmica.
Mais do que ampliar paredes e espaços físicos, as obras ampliam possibilidades. Cada novo espaço construído significa a possibilidade de receber mais alunos, abrir novas oportunidades de formação e fortalecer uma universidade que chega a territórios historicamente afastados do ensino superior. Entre os novos horizontes está também a implantação do curso de Agronomia com enfoque agroecológico, iniciativa que poderá aproximar ainda mais a formação acadêmica da realidade dos povos e comunidades tradicionais, da agricultura familiar e da preservação ambiental da Bacia do São Francisco. CBHSF amplia parceria com Campus Intercultural Opará
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ÁGUA, MEMÓRIA E TERRITÓRIO: PROJETO FORTALECE COMUNIDADE PANKARARU CBHSF APRESENTA PROJETO DE CONSERVAÇÃO E RECUPERAÇÃO HIDROAMBIENTAL DAS MICROBACIAS DOS CÓRREGOS VARGEM DA SERRA E SÃO BENTINHO, FORTALECENDO A PROTEÇÃO DAS ÁGUAS E DO MODO DE VIDA PANKARARU Texto e fotos: Luiz Hélio
Antes de ser apenas água correndo pelo território, uma bica pode ser memória. Lugar de encontro, cuidado, espiritualidade e transmissão de saberes. Para o povo Pankararu, a água atravessa a história, a cultura, a sobrevivência e a própria identidade de quem aprendeu, ao longo de gerações, a conviver com a terra. Foi com esse significado que a comunidade recebeu, no dia 21 de agosto, na Associação Indígena Taboa Pankararu, no Sítio Brejinho da Serra/Aldeia Taboa, em Petrolândia (PE), a apresentação do projeto de conservação e recuperação hidroambiental das microbacias dos córregos Vargem da Serra e São Bentinho. A iniciativa é conduzida pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF), em parceria com a Agência Peixe Vivo e o Ministério do Meio Ambiente, com execução da Fortal Engenharia. Participaram do encontro representantes das instituições envolvidas, equipe técnica, lideranças e moradores da comunidade. A participação indígena reforça uma premissa do projeto: as ações de recuperação ambiental precisam ser construídas em diálogo com quem vive, conhece e protege o território. A comunidade já havia participado de etapas de diagnóstico e proposição de intervenções, entre elas a revitalização da Bica do Brejinho, a implantação de viveiro de mudas e medidas de controle da erosão. A ÁGUA QUE PERTENCE À HISTÓRIA Na memória das mulheres da comunidade, a bica ocupa lugar especial. Tradicionalmente utilizada para os banhos das mulheres, sua água depois seguia o caminho atendendo aos homens, aos animais e ao território. Hoje, a erosão e as transformações ambientais modificaram essa paisagem.
Recuperar a bica significa, portanto, mais do que recuperar um ponto de água. É reencontrar parte de um modo de vida impactado pela degradação ambiental e pelas mudanças climáticas. Essas transformações também são percebidas na biodiversidade. Abelhas, beija-flores e outros polinizadores tiveram sua presença reduzida, assim como fruteiras tradicionais. A erosão e as alterações do clima afetaram áreas antes utilizadas para agricultura e modificaram formas tradicionais de subsistência. CONHECIMENTO QUE RETORNA PARA CASA Diante desses desafios, a juventude indígena tem papel importante. Jovens que estudaram fora retornam ao território levando conhecimentos e ferramentas que podem se somar aos saberes ancestrais. Desse encontro surgem possibilidades para recuperar não apenas a bica, mas o sistema ambiental que sustenta a comunidade. Entre as iniciativas discutidas estão ações de proteção aos polinizadores e estruturas educativas, como casas de abelhas, associando recuperação da biodiversidade e educação ambiental. A proposta é fazer o conhecimento retornar às aldeias, circular entre as famílias e alcançar as próximas gerações. PRESERVAR AS ÁGUAS É PRESERVAR MODOS DE VIDA No âmbito das ações em defesa da Bacia do Rio São Francisco, o CBHSF já aprovou 53 projetos, que somam mais de R$ 800 milhões em recursos provenientes do Fundo de Privatização da Eletrobras. São investimentos voltados a transformar o planejamento da gestão das
águas em iniciativas concretas de recuperação ambiental e melhoria das condições de vida nos territórios. Para os povos originários, proteger uma microbacia significa também preservar vegetação, animais, agricultura, espaços de importância cultural e conhecimentos transmitidos entre gerações. Para Jana Pankararu, essa recuperação está ligada ainda à possibilidade de fortalecer a autonomia da comunidade, criar alternativas de geração de renda e permitir que os jovens encontrem oportunidades sem precisar romper seus vínculos com o território. UMA CORRENTE QUE NÃO CONHECE FRONTEIRAS A água não reconhece limites. O que acontece em uma nascente alcança o córrego, que se conecta a outros cursos d’água até integrar uma rede maior. Por isso, cuidar das microbacias dos córregos Vargem da Serra e São Bentinho é também cuidar do Rio São Francisco. Ao aproximar ancestralidade e conhecimento contemporâneo, o projeto reforça que a recuperação hidroambiental vai além de intervenções físicas. Recuperar uma bica é recuperar uma lembrança. Proteger uma microbacia é defender possibilidades de futuro. E cuidar do território Pankararu é reconhecer que a preservação do São Francisco também passa pela proteção dos povos, dos saberes e das formas de vida que há gerações mantêm uma relação profunda com suas águas. Porque a água não carrega apenas o futuro. Ela também guarda a memória.
Notícias do São Francisco 07
CBHSF MOBILIZA INSTITUIÇÕES E MUNICÍPIOS PELA CONSTRUÇÃO DO GEOPARQUE PAJEÚ
ENCONTRO EM TRIUNFO (PE) REUNIU PODER PÚBLICO, UNIVERSIDADES, PESQUISADORES, SETOR PRODUTIVO E COMUNIDADES PARA IDENTIFICAR POTENCIALIDADES E DISCUTIR OS PRIMEIROS PASSOS DA PROPOSTA Texto e fotos: Júnior Campos
O Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF) promoveu, nesta quintafeira (13), em Triunfo (PE), uma reunião estratégica para avançar nas discussões sobre a construção de uma proposta para o Geoparque Pajeú. O encontro reuniu representantes de municípios, universidades, poder público, pesquisadores, empresários, profissionais do turismo, comunidades e organizações da sociedade civil. A iniciativa busca identificar e valorizar a geodiversidade e os patrimônios natural e cultural do Pajeú, associando sua conservação a oportunidades de educação, turismo e desenvolvimento sustentável, considerando também a relação do território com a Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco. Participaram da articulação o presidente do CBHSF, Cláudio Ademar da Silva; o coordenador da CCR Submédio São Francisco, Elias Silva; a presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Pajeú, Ângela Maria Santos Schepp; a professora e pesquisadora da Universidade de Pernambuco (UPE) e membro do Comitê, Dra. Thaís Guimarães; e o analista ambiental e geógrafo do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Osmar Barreto Borges. Um dos pontos destacados durante o encontro foi o caráter participativo da proposta. A construção de um geoparque pressupõe envolvimento direto das comunidades e dos diferentes atores que vivem, conhecem e atuam no território. TERRITÓRIO CONSTRUÍDO A MUITAS MÃOS No período da tarde, representantes de Tabira, Betânia, Tuparetama, Calumbi, Carnaubeira da Penha, Mirandiba, São José do Belmonte, Triunfo e Afogados da Ingazeira participaram de uma
dinâmica coordenada pela Dra. Thaís Guimarães. Divididos em grupos, os participantes construíram mapas do território, identificando patrimônios, características e potencialidades que poderão subsidiar a futura proposta. Ao final, os resultados foram compartilhados entre os presentes. A atividade foi estruturada em quatro eixos: Geodiversidade, Geoconservação e Inventário; Turismo, Geoturismo e Desenvolvimento Territorial; Educação, Comunicação, Geoeducação e Participação Social; e Governança, Institucionalidade e Captação de Recursos. O exercício permitiu aproximar a discussão técnica da realidade de cada município, dando aos representantes locais a oportunidade de indicar elementos que consideram estratégicos para o desenvolvimento da iniciativa. A reunião também apresentou experiências brasileiras que podem servir de referência para o Pajeú, entre elas o Geoparque Araripe, no Ceará, reconhecido em 2006 como o primeiro Geoparque do Brasil e das Américas, e o Geoparque Seridó, no Rio Grande do Norte. A proposta do Pajeú, entretanto, deverá partir das particularidades do próprio território, levando em consideração sua geologia, paisagens, patrimônio histórico e cultural, atividades econômicas e, principalmente, a participação das comunidades. UMA CONSTRUÇÃO DE LONGO PRAZO O encontro em Triunfo representa uma etapa inicial de mobilização e não significa o reconhecimento do território como Geoparque Mundial da UNESCO. O caminho até uma eventual candidatura envolve diferentes fases e depende de uma ampla construção coletiva.
Entre os passos necessários estão a estruturação da proposta, a mobilização dos municípios e comunidades, o inventário do patrimônio e a construção de um modelo de governança territorial. Em uma etapa posterior, caso a candidatura avance, o território deverá passar por avaliações técnicas relacionadas tanto ao patrimônio apresentado quanto à estrutura e à gestão existentes. Por isso, a criação de um geoparque é um processo que pode levar anos e depende da capacidade de organização e articulação dos diferentes atores do território. A partir das discussões realizadas em Triunfo e das contribuições apresentadas pelos municípios, a proposta deverá seguir para novas etapas de articulação envolvendo os comitês de bacia, universidades, poder público, instituições ambientais, setor produtivo e comunidades. Mais do que buscar um reconhecimento internacional, a construção do Geoparque Pajeú coloca em discussão uma estratégia de desenvolvimento territorial baseada na valorização das riquezas locais. A proposta é fazer do patrimônio natural e cultural um caminho para fortalecer a conservação, a educação, o geoturismo, a geração de oportunidades e o protagonismo das comunidades.
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DOIS DEDOS DE PROSA
Thaís Guimarães Entrevista: Mariana Salazar Foto: Edson Oliveira
Nesta edição, o Travessia conversa com Thaís Guimarães, professora da Universidade de Pernambuco (UPE/Petrolina), doutora em Geociências pela UFPE e pesquisadora nas áreas de geodiversidade, geopatrimônio, geoconservação, geoparques e turismo sustentável. Líder do Grupo de Pesquisa em Geodiversidade, Paisagem e Patrimônio, Thaís também é membro titular do CBHSF, pela CCR Submédio São Francisco, representando as instituições de ensino e pesquisa. No Dois dedos de prosa, ela fala sobre as articulações para a criação de geoparques em territórios da Bacia do Rio São Francisco, seus benefícios para as comunidades e o potencial dessas iniciativas para unir conservação, educação, valorização do patrimônio e desenvolvimento sustentável.
O que é um geoparque Mundial da Unesco e por que esse modelo é importante para a Bacia do São Francisco? Um geoparque é um território que possui um patrimônio geológico de relevância e que busca utilizar esse patrimônio como base para promover conservação, educação e desenvolvimento sustentável. Mas é importante destacar que um geoparque não se resume às rochas ou aos aspectos geológicos. Ele considera a paisagem de forma integrada, relacionando a geodiversidade à biodiversidade, à história, à cultura, aos modos de vida e à identidade das comunidades que vivem naquele território. Na Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, esse modelo é especialmente importante porque estamos falando de um território de enorme diversidade ambiental, geológica, geomorfológica e cultural. O próprio rio e sua história estão profundamente relacionados à evolução das paisagens e à ocupação do território. Temos cânions, serras, cavernas, geoformas, sítios arqueológicos com pinturas rupestres, fósseis, paisagens fluviais e uma enorme diversidade cultural associada ao São Francisco. Portanto, pensar geoparques na Bacia significa reconhecer esse patrimônio e transformá-lo também em oportunidade de educação, valorização territorial, turismo sustentável, geração de renda e fortalecimento do sentimento de pertencimento das comunidades. Como os geoparques se diferenciam das unidades de conservação? Essa é uma distinção muito importante. Um geoparque não é uma unidade de conservação e não cria novas restrições legais ao uso do território. É um modelo de gestão territorial participativa que envolve poder público, universidades, comunidades, empreendedores e outras instituições. Em seu território podem coexistir áreas protegidas, cidades, comunidades rurais e atividades econômicas. A proposta é justamente conciliar conservação, educação e desenvolvimento, valorizando o patrimônio e criando oportunidades para quem vive na região. Que benefícios os geoparques podem trazer às comunidades da Bacia? Eu diria que um dos principais benefícios é fazer com que as comunidades percebam que aquilo que muitas vezes sempre esteve diante delas, como uma serra, uma geoforma, um cânion, uma nascente, um sítio arqueológico ou uma cachoeira, por exemplo, possui valor científico, educativo, cultural e também potencial para o desenvolvimento local. Quando esse patrimônio é identificado, interpretado e valorizado, surgem possibilidades relacionadas ao geoturismo, à formação de condutores locais, ao artesanato, à gastronomia, à hospedagem, à produção cultural, à educação ambiental e patrimonial e a
Presidente: Cláudio Ademar da Silva Vice-presidente: Altino Rodrigues Neto Secretária: Rosa Cecília Lima Santos
Notícias do São Francisco
Realização
Que aprendizados de Araripe (CE) e Seridó (RN) podem orientar as iniciativas no São Francisco? As experiências do Araripe e do Seridó mostram que um geoparque vai muito além da existência de um patrimônio geológico relevante. É preciso construir governança, identidade territorial, participação comunitária, educação, pesquisa e estratégias de desenvolvimento local. Esses exemplos reforçam também a importância da articulação entre municípios, universidades, comunidades e atividades econômicas. Não basta inventariar geossítios ou elaborar um dossiê: é necessário envolver a população, trabalhar com as escolas, formar atores locais e fortalecer produtos e roteiros, criar estruturas de gestão e fazer com que a população compreenda o geoparque como algo seu. O principal aprendizado é que o geoparque precisa ser construído no território antes de buscar o reconhecimento internacional. O reconhecimento é consequência desse processo, e não seu ponto de partida. Como CBHSF, universidades e municípios estão se articulando para viabilizar esses geoparques? O CBHSF vem atuando na articulação entre universidades, municípios, pesquisadores, gestores e comunidades para identificar territórios com potencial para geoparques e construir essas iniciativas de forma participativa. Atualmente, trabalhamos com territórios que apresentam características e estágios de organização diferentes, como as iniciativas relacionadas ao Sertão do Pajeú, aos Cânions e Lagos do São Francisco e à região de Seabra, cada uma com suas particularidades. As universidades contribuem com conhecimento científico, inventário e formação, enquanto os municípios são fundamentais para incorporar os geoparques às estratégias de desenvolvimento local. O CBHSF, por sua vez, tem a capacidade de integrar esses atores a partir da lógica da bacia hidrográfica. Essa articulação permite compreender o São Francisco não apenas como uma rede de águas, mas como um território formado por paisagens, patrimônio, cultura, memória e pessoas, aproximando a geoconservação da própria missão do Comitê.
Produzido pela Assessoria de Comunicação do CBHSF – Tanto Expresso comunicacao@cbhsaofrancisco.org.br
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Apoio Técnico
pequenos empreendimentos associados ao território. Mas existe um benefício que considero ainda mais importante: o fortalecimento do pertencimento. Antes de apresentar uma paisagem ao visitante, precisamos fazer com que a própria população conheça e reconheça o valor daquele patrimônio. Por isso, escola, educação e participação comunitária são fundamentais. Um geoparque só faz sentido se a população estiver envolvida e se os benefícios chegarem efetivamente às pessoas que vivem naquele território. Um geoparque é feito de pessoas e para pessoas.
Coordenação Geral: Paulo Vilela, Pedro Vilela, Rodrigo de Angelis Edição e Assessoria de Comunicação: Mariana Martins Textos: Júnior Campos, Luiz Hélio e Mariana Salazar Fotos: Edson Oliveira, Júnior Campos, Luiz Hélio Diagramação: Sérgio Freitas Impressão: ARW Gráfica e Editora Tiragem: 4.000 exemplares Direitos Reservados. Permitido o uso das informações desde que citada a fonte. DISTRIBUIÇÃO GRATUITA Acompanhe as ações e os projetos do CBHSF por meio do nosso portal e redes sociais
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