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Travessia nº83 - Março de 2026

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Baixo São Francisco é contemplado com projeto de gestão de resíduos sólidos

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Avanço das baronesas volta a chamar atenção em Paulo Afonso

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Confira a entrevista com Fernanda Matos sobre Água e Gênero

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EDITORIAL

O mês de março nos convida a uma reflexão especial sobre o papel das mulheres na sociedade. Mais do que uma celebração simbólica, este período é também uma oportunidade de reconhecer a presença feminina em espaços de decisão, produção de conhecimento e mobilização social — inclusive na gestão das águas.

Água, cuidado e participação

Ao longo da bacia do Rio São Francisco, mulheres desempenham papéis fundamentais na preservação dos recursos naturais, na educação ambiental e na construção de soluções para os desafios do território. São pesquisadoras, gestoras públicas, lideranças comunitárias, agricultoras, professoras e ribeirinhas que, diariamente, contribuem para a proteção do Velho Chico e para o desenvolvimento sustentável de suas comunidades. Por isso, esta edição do Travessia traz uma entrevista especial com a especialista Fernanda Matos, que aborda a relação entre água e gênero, destacando como as políticas de gestão hídrica também precisam considerar as dimensões sociais e humanas que atravessam esse tema.

Além dessa reflexão, o informativo apresenta um panorama de iniciativas e debates que mostram como a gestão participativa das águas se traduz em ações concretas na bacia. Um dos destaques é o projeto voltado à gestão de resíduos sólidos no Baixo São Francisco, que busca estruturar soluções de coleta, reciclagem e compostagem em municípios da região. Trata-se de um esforço importante para reduzir a poluição e melhorar a qualidade das águas do rio.

Complementando essa pauta, também abordamos a importância da separação adequada dos resíduos e da reciclagem, práticas que dependem do engajamento de toda a sociedade e que têm impacto direto na preservação dos rios e na saúde pública.

Outro tema que chama atenção nesta edição é o fenômeno das baronesas no reservatório de Paulo Afonso. A presença dessas plantas

O Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF) realizará, no dia 27 de março, em Belo Horizonte (MG), o VII Encontro de Comitês Afluentes do Rio São Francisco, com o tema “Juntos pelo PIRH-SF”. O evento reunirá representantes de comitês de bacias afluentes para debater e fortalecer a participação dessas instâncias na construção do Plano Integrado de Recursos Hídricos da Bacia do Rio São Francisco (PIRH-SF). A iniciativa busca ampliar o diálogo e a articulação institucional, garantindo que o plano reflita a diversidade territorial e os diferentes usos da água em toda a bacia.

aquáticas é um desafio ambiental recorrente e exige monitoramento constante, além de ações integradas para mitigar seus efeitos sobre os usos múltiplos da água.

O Travessia também apresenta um panorama da carteira de projetos do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, que reúne iniciativas estratégicas voltadas ao planejamento, saneamento, recuperação ambiental e segurança hídrica. Esses projetos demonstram como os recursos da cobrança pelo uso da água retornam à bacia em forma de planejamento qualificado e obras estruturantes.

Por fim, trazemos ainda um breve olhar para a próxima edição da campanha Vire Carranca para Defender o Velho Chico, que mais uma vez mobilizará diferentes regiões da bacia em torno da defesa do nosso rio.

A gestão das águas é, antes de tudo, um exercício coletivo. Exige conhecimento técnico, compromisso institucional e participação social. E, cada vez mais, exige também reconhecer a diversidade de vozes e experiências que constroem esse processo.

Que este mês de março nos inspire a seguir fortalecendo essa construção conjunta em defesa do Velho Chico.

Cláudio Ademar Presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco

Participe, contribua e faça parte deste processo coletivo de fortalecimento da gestão das águas!

SERVIÇO | FIQUE ATENTO

Data: 27/03/2026 Horário: 8:30h às 18h

Local: Auditório do CREA/BH - Avenida Álvares Cabral, nº 1600, Santo Agostinho - BH/MG.

UM RIO. MUITAS MÃOS.

A campanha Vire Carranca 2026 já começa a mobilizar a Bacia com um eixo central claro: fortalecer a integração entre o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco e os comitês das bacias afluentes, reafirmando que a defesa do Rio São Francisco é uma responsabilidade compartilhada em todo o território.

Com o tema “Um rio. Muitas mãos.”, a edição deste ano será realizada em quatro municípios que representam as diferentes regiões da bacia: Paracatu (Alto São Francisco), Érico Cardoso (Médio São Francisco), Juazeiro (Submédio São Francisco) e Canindé de São Francisco (Baixo São Francisco). A escolha estratégica reforça a presença descentralizada do Comitê e valoriza o protagonismo dos afluentes na construção das soluções para o Velho Chico.

Realizado anualmente em 3 de junho, o Vire Carranca marca o Dia Nacional em Defesa do Rio São Francisco, data instituída pelo CBHSF para mobilizar a sociedade, governo e pesquisadores pela revitalização e preservação do Velho Chico. “A data destaca a importância do rio para a integração nacional,

economia e vida de milhões de ribeirinhos, promovendo a campanha Vire Carranca. É um momento de união entre comunidades, gestores, usuários e instituições em defesa do São Francisco. Este ano, queremos reforçar a importância da participação dos Comitês afluentes, principalmente no que se refere à construção do Plano Integrado de Recursos Hídricos”, explica o presidente do CBHSF, Cláudio Ademar.

Mais do que um ato simbólico, a campanha se consolida como um espaço de educação ambiental, diálogo institucional e mobilização popular. A expectativa para 2026 é ampliar ainda mais o engajamento de escolas, universidades, movimentos sociais, órgãos públicos e parceiros locais, fortalecendo a governança participativa e a integração entre os diferentes comitês que compõem o sistema de gestão das águas.

Em breve, será divulgada a programação completa. O que já se sabe é que, neste ano, a mensagem será clara: proteger o Velho Chico exige conexão entre territórios, decisões compartilhadas e muitas mãos trabalhando juntas.

RETROSPECTIVA CAMPANHA VIRE CARRANCA (2014–2025)

2014

2015

2016

2017

2018

2019

2020

2021

2022

2023

Eu Viro Carranca para Defender o Velho Chico Primeira edição, realizada nas quatro regiões fisiográficas: Três Marias/MG, Bom Jesus da Lapa/BA, Juazeiro/BA e Petrolina/PE e Penedo/AL

Somos Todos Chico

Mobilização ampliada com forte participação popular: Lagoa da Prata(MG), Bom Jesus da Lapa/ BA, Juazeiro/BA e Petrolina/PE e Penedo/AL e Propriá/SE

Esgoto Zero

Edição concentrada no Submédio SF (Juazeiro/BA e Petrolina/PE), com foco no saneamento.

Preservação do Cerrado e da Caatinga

Mobilização pela defesa dos biomas como patrimônios nacionais.

Cidades: Pirapora/MG, Ibotirama/BA, Paulo Afonso/BA, Traipu/AL e Propriá/SE.

Eu Amo o Velho Chico

Realizada em Aracaju/SE e Januária/MG, integrada ao II Simpósio da Bacia.

Exposições educativas, participação de escolas e produção do grande letreiro temático.

Sou mais Velho Chico

Atividades nas quatro regiões: Três Marias/MG, Bom Jesus da Lapa/BA, Petrolina/PE e Propriá/AL.

Velho Chico Vivo

Campanha adaptada à pandemia, com forte atuação digital e duração ampliada (cinco meses). Mensagem de resiliência, vida e superação, com foco na saúde do rio e das pessoas. Destaque para reinvenção das estratégias de comunicação e mobilização online.

Velho Chico para Todos

Edição ainda marcada pela pandemia, com mobilização majoritariamente digital. A campanha reforçou a importância da vacinação contra a Covid-19 como ato coletivo de proteção à vida e ao Velho Chico. Webinários, vídeos e ampla atuação nas redes sociais marcaram o período.

O Velho Chico são muitos

Realizada em Pirapora (MG – Alto SF), Ibotirama (BA – Médio SF), Glória (BA – Submédio SF) e Gararu (SE – Baixo SF). O tema destacou a diversidade cultural, social e ambiental da bacia, reafirmando que o rio é feito de muitos territórios e identidades.

Velho Chico: gentes, tradições, vidas

Realizada em Felixlândia (MG), Paratinga (BA), Floresta (PE) e São Brás (AL). A edição histórica celebrou os 10 anos da campanha, valorizando povos tradicionais, ribeirinhos e a cultura sãofranciscana, com intensa mobilização popular.

Velho Chico.

Revitalizar o Rio, preservar riquezas. A campanha ocorreu em São Francisco (Alto), Lapão (Médio), Lagoa Grande (Submédio) e Delmiro Gouveia (Baixo).

A campanha reforçou o debate sobre revitalização, segurança hídrica e participação social, ampliando o diálogo com gestores públicos e instituições regionais.

Vire Carranca. Um grito pelo Velho Chico. Unidos pelo rio da integração

Realizada em Brasília/DF, ampliando o alcance nacional da mobilização. Com programação cultural e institucional, a edição destacou o papel do São Francisco na integração do país e fortaleceu a articulação política e social em defesa do rio.

Texto: Mariana Martins | Foto: João Alves

DO PROJETO DESARQUIVADO ÀS OBRAS ESTRUTURANTES: CBHSF FORTALECE GESTÃO DE RESÍDUOS NO BAIXO SÃO FRANCISCO

O que começou como uma reunião para resgatar um projeto arquivado transformou-se em um dos mais importantes investimentos estruturantes para a gestão de resíduos sólidos no Baixo São Francisco.

Em novembro de 2022, o então coordenador da Câmara Consultiva Regional (CCR) do Baixo São Francisco, Anivaldo Miranda, reuniu-se com representantes do Consórcio de Saneamento Básico do Baixo São Francisco (CONBASF) para discutir a retomada de um projeto voltado à coleta, reciclagem e compostagem de resíduos sólidos na região.

“A nova direção do consórcio nos procurou no sentido de recuperar a memória desse projeto e tentar agora, dentro de uma nova concepção, obter recursos do Comitê para sua execução. É chegada a hora de desarquivar o projeto e fazer uma nova tentativa”, afirmou Anivaldo à época.

A proposta original previa centrais de reciclagem, unidades de transbordo e pátios de compostagem, com foco na redução de resíduos lançados nos cursos d’água e na melhoria da qualidade ambiental da região.

Segundo a então superintendente do CONBASF, Anne Grazielly, a nova gestão assumiu o compromisso de atualizar e readequar o projeto. “Temos o interesse de retomar as relações a fim de dar encaminhamento às novas etapas. O projeto poderá proporcionar a gestão de resíduos de forma eficaz e colaborar com os municípios ribeirinhos”, destacou.

PARCERIA FORMALIZADA E ESTUDOS TÉCNICOS

Em 2023, o CBHSF, a Agência Peixe Vivo (APV) e o CONBASF firmaram Acordo de Cooperação Técnica para viabilizar o financiamento

da infraestrutura necessária. Em 2024, foi firmado Acordo de Cooperação Técnica para elaboração do projeto básico e executivo para as intervenções a serem realizadas na Central de Triagem e na Unidade de Transbordo de Propriá. Em 2025, foi assinada a Ordem de Serviço para elaboração dos Estudos de Concepção e Viabilidade, além dos Projetos Básicos e Executivos para galpões de triagem e unidades de compostagem em três municípios sergipanos: Capela, Monte Alegre e Neópolis.

O investimento de R$ 800.000,00 — oriundo da cobrança pelo uso da água — marca a transição do planejamento para a ação prática.

“Vamos, finalmente, partir para a ação de ordem prática. A consecução desse projeto demandou muito tempo, mas o mais importante é que possamos preservar o Rio São Francisco”, ressaltou Anivaldo Miranda.

As visitas técnicas realizadas em fevereiro de 2025 permitiram avaliar a viabilidade operacional dos terrenos. “Nosso objetivo é proporcionar melhorias com estes projetos e precisamos fazer tudo com cautela, afinal é um investimento com recursos públicos”, afirmou Rosa Cecília, secretária da CCR Baixo SF.

REQUALIFICAÇÃO EM PROPRIÁ: AVANÇO CONCRETO

Paralelamente, o CBHSF aprovou a reforma e requalificação da Central de Triagem e da Unidade de Transbordo de Propriá (SE), com investimento de R$ 3,5 milhões. A estrutura beneficiará mais de 22 municípios de Sergipe e Alagoas.

As melhorias incluem pavimentação completa, pisos de alta resistência, instalação de balança rodoviária, nova rampa de transferência coberta, passarela de segurança,

Ouça o podcast com

sobre o assunto: bit.ly/PodTrav216

estacionamento e ampliação da área da cooperativa de catadores.

Para Lucas Freire, presidente do CONBASF, “essa obra é um divisor de águas para o sistema de gestão de resíduos da nossa região. Estamos garantindo estrutura, dignidade e eficiência”.

ACOMPANHAMENTO E IMPACTO REGIONAL

Em fevereiro de 2026, o Comitê acompanhou o andamento das obras em Propriá. Segundo Rosa Cecília, o empreendimento traz ganhos sociais e ambientais expressivos. “Essa estrutura traz dignidade aos catadores e melhora a logística ambiental. É um projeto que trará benefícios concretos para toda a população do Baixo São Francisco.”

De acordo com o presidente do CBHSF, Cláudio Ademar, iniciativas como essa são fundamentais para a preservação do Velho Chico. “Temos buscado apoiar projetos que reduzam a pressão sobre o rio São Francisco. Investir em coleta seletiva, reciclagem e compostagem significa evitar que resíduos cheguem aos rios e promover benefícios ambientais e sociais para as comunidades da bacia”.

Texto: Mariana Martins com colaboração de Deisy Nascimento | Fotos: Deisy Nascimento
Implantação da Central de Triagem e da Unidade de Transbordo de Resíduos em Propriá
Cláudio Ademar,

DO LIXO AO CUIDADO COM O VELHO CHICO

A forma como as cidades lidam com o lixo tem impacto direto na saúde dos rios. Sacolas plásticas, embalagens e restos de alimentos descartados de maneira inadequada podem ser levados pela chuva até bueiros, córregos e, posteriormente, aos grandes cursos d’água. Por isso, a gestão de resíduos sólidos é considerada hoje uma das estratégias mais importantes para a proteção dos recursos hídricos. O conceito envolve um conjunto de ações que vão desde a separação na fonte, de responsabilidade dos consumidores/ cidadãos, seguida de coleta seletiva e encaminhamento para o reaproveitamento até a destinação final adequada dos resíduos.

A engenheira e pesquisadora Jacqueline Rutkowski, especialista em gestão e reciclagem de resíduos do Instituto Sustentar, explica que a primeira mudança necessária é de percepção. “Costumo dizer que temos o hábito de falar que vamos ‘jogar o lixo fora’. Mas, quando se trata do planeta Terra, esse ‘fora’ não existe. A gente coloca o lixo na porta de casa e alguém dá um destino para ele, mas qualquer lugar para onde vá continua sendo dentro da Terra. Por isso, todo lixo que geramos também gera consequências”, afirma Jacqueline.

Segundo ela, quando o sistema de gestão não funciona de forma adequada, os impactos aparecem rapidamente no ambiente. “Se não há gestão adequada de resíduos, a probabilidade de esse lixo chegar aos rios é muito grande. Ele pode contaminar o solo, alcançar o lençol freático e, com as chuvas e ventos, ser transportado para córregos e rios e daí aos oceanos”, esclarece a pesquisadora.

COLETA SELETIVA E RECICLAGEM

Entre as principais ferramentas para enfrentar esse desafio está a coleta seletiva, que consiste na coleta diferenciada ou seja, em separado dos resíduos recicláveis — papel, plástico, vidro e metal e resíduos orgânicos— do lixo comum. Essa separação permite que os resíduos sejam reaproveitados na indústria por meio da reciclagem, reduzindo o volume de lixo encaminhado aos aterros sanitários e evitando que materiais sejam descartados no ambiente.

No Brasil, cerca de 30% dos resíduos sólidos urbanos são compostos por embalagens recicláveis. Quando bem estruturada, a reciclagem reduz a pressão sobre recursos naturais, diminui o consumo de energia e fortalece cadeias produtivas que geram trabalho e renda, especialmente para cooperativas de catadores.

COMPOSTAGEM:

SOLUÇÃO

PARA O LIXO ORGÂNICO

Outra parcela significativa do lixo urbano é formada por resíduos orgânicos, como restos de alimentos e podas de plantas. Estima-se que esses materiais representem cerca de metade do lixo gerado nas cidades brasileiras.

Em vez de serem enviados para aterros sanitários, esses resíduos podem ser tratados por meio da compostagem, processo que transforma a matéria orgânica em adubo natural, ou pela biodigestão, produzindo um biogás, fonte de energia limpa

Além de reduzir a quantidade de resíduos destinados a aterros, a compostagem contribui para melhorar a qualidade do solo e reduzir o uso de fertilizantes químicos, que tambem poluem os recursos hidricosSegundo Jacqueline Rutkowski, a combinação de reciclagem e compostagem traz benefícios diretos para o meio ambiente. “Quando reduzimos o lixo que chega ao solo e aos cursos d’água, protegemos os ecossistemas aquáticos, evitamos a poluição e reduzimos riscos à saúde pública. A gestão adequada de resíduos é uma aliada direta da preservação dos rios”,

DESTINAÇÃO ADEQUADA E PLANEJAMENTO

Mesmo com reciclagem e compostagem, uma pequena parte do lixo ainda precisa de destinação final adequada. Esses resíduos, chamados de rejeitos, são encaminhados para aterros sanitários, estruturas projetadas com critérios de engenharia para evitar a contaminação do solo e da água.

Especialistas apontam que, quando as etapas de separação e reaproveitamento funcionam bem, apenas cerca de 20% do lixo precisa ser destinado a esses locais.

Para avançar nesse cenário, Jacqueline destaca que o desafio envolve planejamento e participação social. “É preciso estruturar sistemas completos, que incluam coleta seletiva, triagem, reciclagem, tratamento dos resíduos orgânicos e, tudo isso, tendo como base fortes ações de educação ambiental. A gestão de resíduos depende de políticas públicas, investimento e da participação da população.”

BARONESAS AVANÇAM EM PAULO AFONSO E EXPÕEM PROBLEMA ESTRUTURAL NO SÃO FRANCISCO

Texto: Victória Resende/ Fotos: Raphael Tenório

Em Paulo Afonso, no norte da Bahia, a paisagem tem chamado atenção de moradores e visitantes: grandes tapetes verdes cobrem trechos do Velho Chico e escancaram um problema que se arrasta há anos. Popularmente conhecida como baronesa, a Pontederia crassipes — antes classificada como Eichhornia crassipes — tem avançado sobre áreas do rio e se tornado um dos sinais mais evidentes do desequilíbrio ambiental na região.

Para a bióloga e professora Maria Carolina Tonizza, da Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF), a presença da planta não deve ser interpretada como a origem do problema, mas como consequência dele. Segundo a pesquisadora, essas macrófitas aquáticas costumam se proliferar em ambientes com excesso de nutrientes, geralmente provenientes de esgoto doméstico, fertilizantes ou matéria orgânica.

Na cidade baiana, esse processo ganha força por causa de uma característica local: a água represada pelo complexo hidrelétrico da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf). Tonizza destaca que esse tipo de vegetação se estabelece com mais facilidade em áreas de pouca correnteza. “As macrófitas preferem lugares mais parados, que não têm tanta movimentação de água”, explica.

PROBLEMA LOCAL, DIMENSÃO REGIONAL

A situação, no entanto, não se restringe a Paulo Afonso. Presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF), Cláudio Ademar, reforça que a proliferação das baronesas é um fenômeno que atinge outros trechos da bacia, especialmente no Submédio São Francisco.

No caso do município, além das represas, outras condições são especialmente favoráveis para a multiplicação dessas plantas. “Aqui nós

recebemos esgoto doméstico dos municípios da calha do São Francisco e também do Pajeú e do Moxotó”, afirma.

IMPACTOS VÃO ALÉM DA PAISAGEM

Os efeitos desse avanço já são sentidos pela população. A presença das baronesas já provocou prejuízos à piscicultura, afeta atividades econômicas ligadas ao rio e compromete o uso de áreas de lazer, como o Balneário Prainha. Em outros trechos da bacia, a proliferação dessas plantas também está associada a problemas de navegação e abastecimento de água.

Para a advogada e integrante da Câmara Técnica Institucional e Legal do CBHSF, Manuella Vergne, os impactos precisam ser compreendidos para além do campo ambiental. “Do ponto de vista jurídico, a proliferação de baronesas é um efeito ambiental com repercussões socioeconômicas”, diz. Segundo a especialista, o prejuízo recai também sobre trabalho e renda.

Na prática, isso já é sentido por comerciantes locais. Dono de um restaurante na Prainha, Raphael Tenório conta como o avanço dessas plantas afeta o comércio. “Todo o balneário se vê impactado financeiramente. Barracas fecham por não ter mais o lazer do rio e ambulantes desaparecem”, relata.

Ele afirma que, apesar da localização estratégica do estabelecimento, precisou, nos últimos anos, desvincular o negócio da ideia de “barraca de praia”. Entre 2010 e 2020, segundo o comerciante, o faturamento do restaurante chegou a cair até 70% nos períodos mais críticos. O mau cheiro provocado pela decomposição das plantas, a presença de insetos e a dificuldade de usar o rio para o lazer afastam os frequentadores. “Infelizmente, a invasão das baronesas inviabiliza os investimentos turísticos na nossa cidade”, resume.

RETIRADA SOZINHA NÃO RESOLVE

Embora a retirada das baronesas costume aparecer como resposta emergencial ao problema, a medida, isoladamente, não resolve a situação. Tonizza chama a atenção para o fato de que a remoção mecânica combate apenas o efeito visível, sem eliminar as condições que permitem o retorno da planta.

A pesquisadora também alerta para a forma de reprodução dessas macrófitas. “Elas podem se reproduzir de maneira assexuada. Um talo pode virar uma planta adulta”, afirma. Além disso, as plantas deixam sementes no sedimento do rio, formando um banco capaz de garantir novas ocorrências ao longo dos anos.

Na prática, isso significa que, sem interromper a entrada de nutrientes na água, a tendência é de repetição do problema. As plantas podem até ser retiradas da superfície, mas o ambiente continua preparado para recebê-las novamente.

O QUE DIZ O CBHSF

Na tentativa de enfrentar problemas como esse, o CBHSF financiou 115 planos municipais de saneamento para municípios da bacia do São Francisco. Paulo Afonso foi uma das cidades contempladas.

Cláudio Ademar, porém, analisa que os planos, sozinhos, não são suficientes para resolver a questão, mas são essenciais para viabilizar projetos e buscar recursos. “O plano de saneamento é a ferramenta principal para elaborar o projeto executivo e buscar as parcerias junto com o governo dos estados e o governo federal”, explica.

Para o presidente do CBHSF, a saída passa necessariamente por enfrentar a causa da situação. “A solução desse problema passa por menos matéria orgânica jogada no São Francisco”, resume.

COBRANÇA PELO USO DA ÁGUA

SE TRANSFORMA EM OBRAS E PLANEJAMENTO PARA O VELHO CHICO

Os recursos arrecadados com a cobrança pelo uso da água na Bacia do Rio São Francisco estão sendo revertidos em ações concretas de planejamento, saneamento e abastecimento que impactam diretamente a qualidade de vida da população e a saúde do Velho Chico. Sob coordenação do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF), os investimentos contemplam desde a atualização de dados estratégicos até a implantação de sistemas de esgotamento e abastecimento em comunidades urbanas e rurais.

Um dos projetos estruturantes em andamento é a Atualização da Base de Dados do Plano de Recursos Hídricos da Bacia do Rio São Francisco (PRH-SF 2016–2025), com execução em toda a bacia e investimento de R$ 520.596,77. Iniciado em 10 de dezembro de 2024, o trabalho vai qualificar informações técnicas e geoespaciais, modernizar sistemas e o portal de acompanhamento do plano, além de subsidiar o planejamento para o decênio 2026–2035.

A iniciativa também dará suporte ao Sistema de Informações sobre Recursos Hídricos da Bacia (SIGA-SF) e estabelecerá diretrizes para o Plano Integrado de Recursos Hídricos (PIRH), com visão sistêmica e metas articuladas entre o rio principal e seus afluentes. Trata-se de um passo estratégico para fortalecer a governança e a tomada de decisão baseada em dados atualizados.

No campo das obras de saneamento, o CBHSF investe R$ 6.723.836,06 — a fundo perdido — na execução do Sistema de Esgotamento Sanitário de Jequitibá/MG, com contrapartida municipal de R$ 429.181,02. O objetivo é

melhorar a qualidade da água na bacia por meio da implantação, ampliação e adequação de sistemas coletivos de esgotamento, em consonância com o Plano de Aplicação Plurianual 2021–2025.

Ao reduzir o lançamento de esgoto in natura nos corpos hídricos, a obra contribui para a recuperação ambiental, a prevenção de doenças de veiculação hídrica e o fortalecimento da infraestrutura urbana do município.

Na Bahia, duas frentes ampliam o alcance das ações. Em Xique-Xique/BA, nas comunidades rurais do entorno da lagoa de Itaparica, está em execução, desde 7 de julho de 2025, um contrato de R$ 4.099.000,00 para implantação de soluções individuais de tratamento de efluentes domésticos.

Os sistemas foram planejados para serem eficientes, sustentáveis e adaptáveis a longo prazo, considerando características locais como população atendida, uso do solo, atividades econômicas e escassez hídrica. A proposta prioriza tecnologias compatíveis com a realidade das comunidades, com custos adequados, engajamento social e aproveitamento de recursos locais, garantindo sustentabilidade operacional.

Já no povoado de Curralinho, em São Gabriel/BA, está em andamento, desde 5 de novembro de 2024, a execução do Sistema de Abastecimento de Água, com investimento de R$ 6.103.311,66. A obra prevê captação de água subterrânea, tratamento — incluindo dessalinização e sistema convencional — e distribuição, assegurando fornecimento contínuo, seguro e de qualidade à população.

Em uma região marcada pela irregularidade hídrica, a iniciativa representa segurança hídrica, dignidade e melhores condições de saúde para a comunidade.

Os projetos demonstram como a cobrança pelo uso da água — instrumento previsto na Política Nacional de Recursos Hídricos — retorna à bacia em forma de planejamento qualificado, infraestrutura e proteção ambiental. Ao investir simultaneamente em informação estratégica, saneamento e abastecimento, o CBHSF reforça seu compromisso com a revitalização e a gestão integrada do Rio São Francisco, transformando recursos arrecadados em benefícios concretos para quem vive às margens do Velho Chico.

Intervenções realizadas na

Texto: Mariana Martins | Fotos Cedidas pela Agência Peixe Vivo
Central de Triagem e na Unidade de Transbordo de Propriá, com recursos da cobrança pelo uso da água
Sistema de Abastecimento de Água da Comunidade Quilombola de Curralinho, no município de São Gabriel

DOIS DEDOS DE PROSA

Água e Gênero: o protagonismo das mulheres na gestão dos recursos hídricos

Entrevista: Luiza Baggio Foto: Arquivo Pessoal

Em março, o Dia Internacional da Mulher (8) e o Dia Mundial da Água (22) reforçam a conexão entre gênero, sustentabilidade e governança ambiental. As mulheres têm papel fundamental na relação cotidiana com a água, mas ainda enfrentam desafios para ampliar sua participação nos espaços de decisão. Para aprofundar esse debate, conversamos com a pesquisadora Fernanda Matos, que estuda as relações entre gênero, território e gestão da água, destacando a importância dessa perspectiva para políticas públicas mais participativas e sustentáveis.

Ouça a entrevista em: bit.ly/PodTrav217

Presidente: Cláudio Ademar da Silva Vice-presidente: Altino Rodrigues Neto

Secretária: Rosa Cecília Lima Santos

Por que é importante analisar a gestão dos recursos hídricos a partir da perspectiva de gênero?

Durante muito tempo, a gestão da água foi tratada principalmente como uma questão técnica, ligada à infraestrutura, à engenharia e à distribuição de recursos. No entanto, a água também possui uma dimensão social importante, pois organiza a vida cotidiana das pessoas, das comunidades e das atividades produtivas, além de estar presente em práticas culturais e religiosas. Quando observamos o cotidiano das populações, percebemos que homens e mulheres vivenciam a relação com a água de maneiras diferentes.

Em muitas regiões, especialmente em áreas rurais e periféricas, as mulheres estão diretamente envolvidas no abastecimento doméstico, no cuidado com a saúde da família e no uso da água nas atividades diárias.

Por isso, costumam sentir de forma muito concreta os impactos da escassez, da poluição ou das mudanças no regime de chuvas, que afetam suas rotinas, condições de higiene, saúde e carga de trabalho. Incorporar a perspectiva de gênero ajuda justamente a revelar essas desigualdades e a tornar a gestão da água mais sensível às diferentes realidades do território. Como a experiência cotidiana das mulheres com a água pode contribuir para a gestão das bacias hidrográficas?

A relação cotidiana com a água gera um conhecimento que muitas vezes não aparece nos relatórios técnicos, mas que é extremamente relevante para a gestão das bacias hidrográficas. Em muitas áreas rurais, por exemplo, as mulheres acompanham de perto o abastecimento das famílias, o uso da água na produção de alimentos e a qualidade da água consumida. Esse contato permanente com o território faz com que elas percebam rapidamente mudanças ambientais e transformações nas fontes de água, ajudando a compreender como fenômenos mais amplos se manifestam na vida das comunidades. Do ponto de vista das políticas públicas, esse conhecimento pode ser entendido como uma forma de inteligência territorial, construída na prática. Por isso, uma boa governança da água depende do diálogo entre conhecimento técnico e conhecimento vivido no território. Esse reconhecimento já aparece, por exemplo, no Princípio nº 3 da Declaração de Dublin sobre Água e Meio Ambiente, de 1992, que destaca o papel central das mulheres na gestão e proteção da água.

Secretaria do Comitê: Rua Carijós, 166, 5º andar, Centro - Belo Horizonte - MG - CEP: 30120-060 (31) 3207-8500 - secretaria@cbhsaofrancisco.org.br - www.cbhsaofrancisco.org.br Atendimento aos usuários de recursos hídricos na bacia do Rio São Francisco: 0800-031-1607

Notícias do São Francisco

Quais são os principais obstáculos à participação feminina nos espaços de decisão sobre a gestão da água e como avançar?

Os desafios envolvem fatores estruturais, institucionais e culturais. Muitas mulheres ainda enfrentam dificuldades para participar desses espaços devido à sobrecarga de responsabilidades domésticas e de cuidado, além de questões práticas como deslocamento, horários de reunião e falta de redes de apoio. Também existem barreiras institucionais.

A linguagem técnica, o formato das reuniões e as dinâmicas de alguns colegiados podem tornar esses ambientes pouco acessíveis para novos participantes, especialmente mulheres, jovens e representantes de comunidades tradicionais. Além disso, persistem padrões culturais que associam os espaços de decisão ao protagonismo masculino, o que muitas vezes faz com que as mulheres precisem reafirmar constantemente sua legitimidade nesses ambientes.

Avançar exige ações concretas e mudanças culturais, como adaptar formatos de participação, incentivar novas lideranças e fortalecer ambientes institucionais mais inclusivos. Quanto mais diversos forem os espaços de decisão, mais legítima e robusta tende a ser a governança da água.

Como a perspectiva de gênero pode fortalecer as políticas e a gestão da água no Brasil?

A gestão da água enfrenta desafios cada vez maiores, especialmente diante das mudanças climáticas, que têm intensificado secas, eventos extremos e a pressão sobre os sistemas hídricos.

Esse cenário exige políticas públicas mais adaptativas e conectadas às realidades dos territórios. Ampliar a diversidade nos espaços de decisão é um fator estratégico nesse contexto. Quanto mais diferentes forem as perspectivas presentes na construção das políticas, maior será a capacidade de compreender problemas complexos e desenvolver soluções mais eficazes.

A perspectiva de gênero contribui para ampliar esse olhar, reconhecendo diferentes formas de relação com a água, necessidades específicas e conhecimentos construídos no território. No fundo, estamos falando de fortalecer a própria democracia na gestão dos recursos hídricos. Promover a igualdade de gênero não é apenas uma questão de justiça social, mas também uma condição para construir políticas públicas mais resilientes diante dos desafios ambientais do presente e do futuro.

Produzido pela Assessoria de Comunicação do CBHSF – Tanto Expresso comunicacao@cbhsaofrancisco.org.br

Coordenação Geral: Paulo Vilela, Pedro Vilela, Rodrigo de Angelis

Edição e Assessoria de Comunicação: Mariana Martins

Textos: Deisy Nascimento, Luiza Baggio, Mariana Martins e Victória Resende

Fotos: Deisy Nascimento, Fernando Piancastelli, João Alves, Michele Parron, Raphael Tenório

Diagramação: Sérgio Freitas

Impressão: ARW Gráfica e Editora

Tiragem: 4.000 exemplares

Direitos Reservados. Permitido o uso das informações desde que citada a fonte.

DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

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