

Expediente
Presidente: Cláudio Ademar da Silva
Vice-presidente: Altino Rodrigues Neto
Secretária: Rosa Cecília Lima Santos
Produzido pela Assessoria de Comunicação do CBHSF, Tanto Expresso Comunicação e Mobilização Social
Coordenação-geral: Paulo Vilela, Pedro Vilela e Rodrigo de Angelis
Coordenação de comunicação: Mariana Martins
Edição: Karla Monteiro
Assistente editorial: Arthur Viveiros
Textos: Arthur de Viveiros; Hylda Cavalcanti; João Alves; Karla Monteiro; Luiza Baggio; Nágela Caldas; Victória Resende
Projeto gráfico: Márcio Barbalho
Diagramação: Albino Papa
Fotos: Arthur de Viveiros; Bianca Aun; Edson Oliveira; Emerson Leite; Fernando Piancastelli; Ildeu NovaisAcervo pessoal; João Alves; João Vitor; Leo Boi; Manuela Cavadas; Marcizo Ventura; Nágela Caldas; NASA; Patrick-BR; Sereias do Rio - Acervo; Shutterstock; TantoExpresso
Ilustrações: Albino Papa
Revisão : Isis Pinto
Impressão: EGL Editores
Tiragem : 3500 exemplares
DISTRIBUIÇÃO GRATUITA
Direitos Reservados. Permitido o uso das informações desde que citada a fonte.
Secretaria do Comitê:
Rua Carijós, 166, 5º andar, Centro - Belo Horizonte - MG CEP: 30120-060 - (31) 3207-8500 secretaria@cbhsaofrancisco.org.br
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SUMÁRIO
Páginas Verdes


Palavra do Presidente



Esporte

20 Perfil Ildeu Novaes



28
Patrimônio Ambiental Futuro Guardado



TECENDO O FUTURO
Em 2026, o nosso Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco (CBHSF) completa 25 anos - duas décadas e meia - de construção, solidificação e amadurecimento. O verbo regente hoje é ‘integrar’, reforçando a trama entre todos os Comitês, de todos os afluentes que compõem a gigantesca bacia do Velho Chico. A palavra ‘afluente’, aliás, em sua raiz linguística, já carrega a ideia de algo que escorre, na direção de outro algo, juntando forças, formando volume: a filosofia da natureza.
Nesta edição, a CHICO traz um pouco da história de cada um dos Comitês em atividade ou em progresso na bacia do São Francisco. São 22 Comitês, fincados em distintas regiões, zelando pela saúde hídrica coletiva. Por falar nisso, em somar para garantir o futuro, a AXIA Energia, antiga Eletrobras, privatizada em outubro de 2025, também chega pregando união. Nas Páginas Verdes, Camila Araújo, vice-presidente de Governança e Sustentabilidade, repete a palavra-chave: ‘integrar’ – para revitalizar.
No passo da integração, outra boa notícia está na reportagem “Futuro Guardado”: o surgimento dos Geoparques, cuja função será justamente integrar cultura e desenvolvimento sustentável. Sem a valorização das populações locais e seus hábitos, afinal, não há caminho. Com quase três mil quilômetros de extensão, cruzando seis estados e Distrito Federal, a bacia do São Francisco é o mundo em que o velho e o novo, o moderno e o arcaico, convivem sob o sol do sertão.
Nas páginas desta CHICO, dois personagens materializam o mundo franciscano. Em “Tempo, Tempo, Tempo”, Ildeu Novais Pinto, aos 101 anos, segue tocando o sino da igreja de Paracatu, carregando a tradição. Segundo “Seu Ildeu”, como é chamado na cidade mineira, o segredo é “comer rapadura”. Já na reportagem “Deixa Chuvê”, a banda Cogulezo, de Pirapora, aterrissou no futuro, encontrando na tecnologia o jeito de fazer a cultura geraizeira cruzar fronteiras intergalácticas.
Boa Leitura!

Assumir a presidência do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF) justamente no momento em que celebramos seus 25 anos é, para mim, motivo de grande honra e responsabilidade. Mais do que um marco institucional, este é um convite à memória e à reflexão sobre tudo o que já construímos — e sobre o que ainda precisamos construir — em defesa do Velho Chico.
Criado por decreto presidencial no dia 5 de junho de 2001, o CBHSF nasceu com a missão de promover a gestão descentralizada, integrada e participativa dos recursos hídricos da bacia do Rio São Francisco. Desde o princípio, foi pensado como um espaço democrático, reunindo poder público, usuários e sociedade civil, garantindo que as decisões sobre a água — esse bem tão essencial — fossem tomadas de forma coletiva e transparente.
Ao longo dessas duas décadas e meia, o Comitê se consolidou como referência nacional. Um dos grandes marcos dessa trajetória foi a implementação da cobrança pelo uso da água, instrumento que permitiu transformar planejamento em ação. Foi a partir desses recursos que o CBHSF conseguiu sair do campo das discussões e avançar para intervenções concretas, que hoje fazem diferença real na vida das pessoas e na saúde da bacia.
São inúmeros os projetos de recuperação hidroambiental espalhados por todo o território do São Francisco. Ações de cercamento e proteção de nascentes, recomposição de matas ciliares, controle de processos erosivos e recuperação de áreas degradadas vêm contribuindo para melhorar a qualidade e a quantidade de água. Esses projetos não apenas restauram o meio ambiente, mas também fortalecem a relação das comunidades com o rio, promovendo um cuidado contínuo com os recursos naturais.
Outro eixo fundamental tem sido o apoio à elaboração de Planos Municipais de Saneamento Básico. Ao auxiliar os municípios na estruturação desses instrumentos, o Comitê contribui diretamente para a melhoria das condições sanitárias, a redução da poluição hídrica e o planejamento sustentável das cidades. Em muitos casos, esse apoio representa o primeiro passo para viabilizar investimentos em saneamento, um dos maiores desafios da bacia. Nos últimos anos, o CBHSF também tem intensificado seus investimentos em saneamento rural, levando soluções adequadas às comunidades do campo, com foco na melhoria da qualidade de vida e na proteção dos recursos hídricos.
Também merece destaque a implantação de viveiros de mudas nativas, que têm papel estratégico na recuperação ambiental. Esses viveiros garantem a produção de espécies adequadas para reflorestamento e envolvem comunidades locais em sua manutenção, gerando renda, conhecimento e pertencimento.
Na região da foz do São Francisco, uma área marcada por desafios específicos, o Comitê tem investido em soluções inovadoras, como a construção de tanques pulmão para dessalinização da água, contribuindo para garantir o acesso à água de qualidade em comunidades que convivem com a salinização. São ações que demonstram a capacidade do CBHSF de adaptar suas estratégias às diferentes realidades da bacia.
O trabalho do Comitê também se estende às comunidades tradicionais, onde a água é mais do que um recurso — é parte da vida, da cultura e da identidade. A construção de sistemas de abastecimento de água, a melhoria de estradas vicinais e outras ações estruturantes têm levado mais dignidade e qualidade de vida a populações historicamente invisibilizadas, como quilombolas, ribeirinhos e comunidades de fundo e fecho de pasto.
Nada disso seria possível sem uma forte articulação institucional. A parceria com a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e com a Agência Peixe Vivo (APV) tem sido fundamental para garantir a execução eficiente dos projetos e o fortalecimento da gestão na bacia. Esse trabalho conjunto assegura que os recursos da cobrança pelo uso da água sejam aplicados com responsabilidade, transparência e foco em resultados.
Outro aspecto que merece destaque é o fortalecimento do diálogo com os Comitês de bacias afluentes. Por meio de encontros periódicos, como os Encontros de Comitês Afluentes, temos avançado na integração entre os territórios, ampliando a participação e construindo uma visão mais conectada da bacia. Esse movimento é essencial, especialmente no contexto atual, em que trabalhamos na construção de um Plano Integrado de Recursos Hídricos que contemple toda a diversidade do São Francisco.
Internamente, o CBHSF se apoia em uma estrutura sólida, onde as Câmaras Técnicas desempenham papel central na qualificação das decisões. São esses espaços que aprofundam debates, analisam propostas e garantem o embasamento técnico necessário para a atuação do Comitê. Já as Câmaras Consultivas Regionais aproximam o Comitê dos territórios, fortalecendo a escuta e a participação local.
Mais recentemente, temos avançado também na busca por novas parcerias e fontes de financiamento, ampliando nossa capacidade de atuação. A aproximação com investidores, instituições e parceiros estratégicos abre novas possibilidades para potencializar projetos e atrair recursos que complementem a cobrança pelo uso da água.
Ao olhar para esses 25 anos, vejo um Comitê amadurecido, que aprendeu com seus desafios e que construiu uma base sólida para o futuro. Mas também vejo que ainda há muito a ser feito. A segurança hídrica, as mudanças climáticas, a recuperação de áreas degradadas e a garantia de acesso à água de qualidade continuam sendo desafios urgentes.
Celebrar este jubileu de prata é, portanto, mais do que comemorar conquistas. É reafirmar um compromisso. Um compromisso com o rio, com as pessoas e com as próximas gerações.
O Velho Chico segue sendo um símbolo de integração, resistência e vida. E o CBHSF, ao longo de sua história, tem mostrado que é possível cuidar desse patrimônio com responsabilidade, diálogo e participação.
Seguimos juntos. Porque um rio dessa grandeza só pode ser cuidado assim: com muitas mãos.
Claudio Ademar da Silva Presidente CBHSF
Por: Hylda Cavalcanti
Arte: Albino Papa
SOB NOVA DIREÇÃO
SOB NOVA DIREÇÃO
Em outubro de 2025, a Eletrobras foi privatizada e, com a renomeação da estatal, surgiu a AXIA Energia. Responsável pelo controle de cerca de 17% da capacidade de geração nacional e de 37% das linhas de transmissão do Brasil, a empresa chega se reposicionando como a maior em energia renovável do Hemisfério Sul. Para atingir os objetivos, pretende contar com a participação da sociedade civil para a gestão de recursos hídricos, principalmente nos projetos de revitalização. Já destinou, desde 2023, mais de R$ 1,5 bilhão na constituição de Fundos Regionais voltados à revitalização das bacias dos rios São Francisco e Parnaíba. Segundo a vice-presidente de Governança e Sustentabilidade da AXIA Energia, Camila Araújo, entrevistada desta edição, a ideia é somar para garantir um futuro para todos.
Privatizada em 2022, a Eletrobras concluiu, em outubro de 2025, um amplo processo de reestruturação e reposicionamento institucional ao adotar a nova marca AXIA Energia.Responsável pelo controle de cerca de 17% da capacidade de geração nacional e de 37% das linhas de transmissão do Brasil, a empresa chega se reposicionando como a maior em energia renovável do Hemisfério Sul. Para atingir seus objetivos, pretende contar com a participação da sociedade civil para a gestão de recursos hídricos, principalmente nos projetos de revitalização. Já destinou, desde 2023, mais de R$ 1,5 bilhão na constituição de Fundos Regionais voltados à revitalização das bacias dos Rios São Francisco e Parnaíba. Segundo a vice-presidente de Governança e Sustentabilidade da AXIA Energia, Camila Araújo, entrevistada desta edição, a ideia é somar para garantir um futuro para todos Páginas Verdes

Como a AXIA vê o futuro ambiental do Brasil? Conseguiremos cumprir as metas previstas pela COP 30 e pelas várias conferências internacionais?
O futuro ambiental do Brasil passa, necessariamente, pela capacidade de equilibrar desenvolvimento com conservação dos recursos naturais. O país tem uma posição privilegiada, com uma matriz elétrica majoritariamente renovável e um potencial relevante de expansão limpa. As metas assumidas são viáveis e exigem coordenação entre governo, setor produtivo e sociedade, além de investimentos contínuos em infraestrutura, inovação e gestão ambiental. No setor elétrico, isso significa não apenas ampliar a geração renovável, mas também garantir a estabilidade do sistema, a segurança hídrica e a integração eficiente dessas fontes.
A AXIA Energia atua nesse contexto com um portfólio, hoje, integralmente renovável e com uma estratégia que integra sustentabilidade às decisões do negócio. Isso envolve desde a operação responsável dos nossos ativos até o desenvolvimento de soluções que contribuam para a transição energética e para o uso mais eficiente dos recursos naturais. No caso das hidrelétricas, em especial, há um papel relevante na gestão dos recursos hídricos e na articulação com os diferentes usos da água. Por isso, o diálogo permanente é fundamental para que as soluções sejam construídas de forma integrada e com visão de longo prazo.
Quando a Eletrobras foi privatizada, em 2022, milhões de trabalhadores aplicaram parte do FGTS em Fundos
Mútuos de Privatização (FMPs). Mas um relatório do Goldman Sachs mostrou que os resultados das ações da AXIA caíram em 2025.
Oscilações de curto prazo fazem parte da dinâmica de mercado e refletem fatores conjunturais. No caso da AXIA Energia, quando se observa a trajetória desde a capitalização, em 2022, o que se vê é um avanço consistente. A empresa passou por um processo relevante de transformação, com foco em disciplina de capital, eficiência operacional e revisão do portfólio, incluindo a alienação de ativos não estratégicos e a consolidação de uma operação hoje integralmente voltada a fontes renováveis. Essa evolução já se traduz em resultados objetivos. Como referência, a ação saiu de cerca de R$ 41 à época da capitalização para mais de R$ 58 ao final de março deste ano, além de uma distribuição expressiva de dividendos ao longo do período, que só em 2025 somou cerca de R$ 8,3 bilhões.
Como a AXIA vê a importância da participação da sociedade civil nas discussões dos projetos a serem desenvolvidos e em desenvolvimento, por meio de Comitês como o CBHSF?
A participação da sociedade civil é parte relevante da gestão de recursos hídricos, especialmente em uma bacia como a do São Francisco, que envolve diferentes usos e realidades regionais. Os Comitês de bacia contribuem para organizar esse processo, trazendo visões locais e ajudando a orientar prioridades. No caso dos projetos de revitalização, essa participação auxilia na identificação de demandas e no acompanhamento das iniciativas, o que tende a aumentar a aderência dos investimentos às necessidades do território.
A AXIA Energia atua nesse contexto a partir do compromisso assumido na nossa capitalização com a constituição de Fundos Regionais voltados à revitalização das bacias dos Rios São Francisco e Parnaíba, com horizonte de dez anos. Desde 2023, nós já destinamos mais de R$ 1,5 bilhão só para esses fundos. A definição e a priorização dos projetos seguem as diretrizes do Governo Federal.
A AXIA Energia venceu, no dia 18 de março, um dos produtos do primeiro Leilão de Reserva de Capacidade na forma de Potência (LRCAP) que vai permitir ampliar a Usina Hidrelétrica Luiz Gonzaga (antiga Itaparica). De quanto será o investimento, qual a expectativa de potência a mais de energia prevista e como está o cronograma da obra?
O investimento previsto é de aproximadamente R$ 1 bilhão, com a construção de uma nova unidade geradora na usina, com entrada em operação prevista para agosto de 2031. Esse tipo de projeto atende à necessidade crescente do sistema elétrico por potência, ou seja, capacidade de responder com segurança nos momentos de maior demanda.
Nesse contexto, as hidrelétricas têm papel relevante, tanto pela flexibilidade operacional quanto pela contribuição para a estabilidade do sistema. Usinas como a Luiz Gonzaga são parte importante de uma matriz elétrica limpa, ao dar suporte ao crescimento de fontes como eólica e solar, que são variáveis.
A ampliação reforça esse papel ao utilizar uma estrutura já existente para aumentar a capacidade de geração com baixo impacto adicional.
Vocês anunciaram que a ampliação representa apenas uma pequena parcela dos projetos de expansão hidrelétrica no portfólio da AXIA. Poderia falar sobre outros projetos previstos, especialmente para o Rio São Francisco?
A ampliação da Usina Luiz Gonzaga está inserida em um ciclo mais amplo de retomada de investimentos da AXIA Energia. Após a capitalização, a companhia elevou seu nível de aportes, com R$ 9,6 bilhões investidos só em 2025 e previsão de investimentos entre R$ 12 e R$ 14 bilhões ao ano para 2026 e 2027, com foco em expansão, reforços e modernização dos ativos. No caso do Rio São Francisco, esse movimento inclui um conjunto relevante de intervenções nas usinas existentes.
A companhia conduz um programa de modernização dos complexos de Paulo Afonso e Sobradinho, além de Xingó e Luiz Gonzaga, com investimentos da ordem de R$ 2,5 bilhões até 2031. As ações envolvem atualização de equipamentos, sistemas de controle e melhorias operacionais, com parte já concluída e outras em andamento. Esse conjunto de investimentos busca aumentar a confiabilidade e a eficiência das usinas e prolongar a vida útil dos ativos. Em uma bacia como a do São Francisco, isso também contribui para uma operação mais estável e integrada ao sistema, aproveitando melhor a infraestrutura já existente.
Em um momento em que se fala na importância de usinas eólicas, hidráulicas e até mesmo com uso da tecnologia atômica, vocês têm insistido que as hidrelétricas são as soluções mais adequadas do ponto de vista técnico e econômico. Por quê?
A matriz elétrica brasileira é reconhecida justamente pela combinação de diferentes fontes renováveis. Eólica, solar e hidrelétrica não competem entre si, mas se complementam, permitindo ao país avançar em uma transição energética com menor emissão de carbono. Nesse conjunto, as hidrelétricas cumprem um papel específico. Além de serem uma fonte renovável relevante, são capazes de gerar energia de forma contínua e com alto grau de confiabilidade. A AXIA tem participação relevante nesse contexto, respondendo por cerca de 17% da geração de energia elétrica do país, e por isso segue, investindo na modernização e na ampliação de seus ativos.
Como vocês veem a questão da degradação das áreas de orla dos rios? Possuem um projeto específico para isso?
A degradação das áreas de orla dos rios é um desafio, especialmente em regiões com ocupação irregular, uso inadequado do solo e pressão sobre os recursos naturais. No caso da AXIA Energia, a atuação se dá em duas frentes principais. A primeira é o cumprimento das condicionantes ambientais associadas aos empreendimentos, que incluem ações em Áreas de Preservação Permanente (APPs), monitoramento ambiental e apoio à fiscalização, em articulação com os órgãos competentes. A segunda frente envolve os Fundos Regionais de revitalização das bacias dos Rios São Francisco e Parnaíba, por exemplo.
A AXIA é responsável por uma parte significativa das linhas de transmissão do Sistema Interligado Nacional (SIN). Quais as principais metas da empresa para aumentar a vida útil e a disponibilidade desses ativos estratégicos, de forma a garantir a segurança energética?
A AXIA Energia conduz um ciclo relevante de expansão e modernização do seu sistema de transmissão. A companhia arrematou lotes em leilões recentes que somam mais de 2.200 km de novas linhas até 2028, com investimentos superiores a R$ 6 bilhões, ampliando a capacidade do SIN. A maior parte desses investimentos está concentrada justamente no Nordeste, permitindo o escoamento da energia gerada por fontes renováveis. Em paralelo à expansão, há um foco contínuo na gestão dos ativos existentes. Isso envolve programas de manutenção, modernização de equipamentos e monitoramento permanente das linhas e subestações, com o objetivo de aumentar a disponibilidade, reduzir falhas e prolongar a vida útil da infraestrutura.
Uma grande preocupação dos ambientalistas é a questão da regulação das vazões do São Francisco. Quais são os planos da AXIA com a ampliação da capacidade das usinas?
A regulação de vazões no São Francisco é realizada de forma coordenada no âmbito do SIN, sob responsabilidade do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), em articulação com os órgãos de gestão de recursos hídricos. As usinas operam seguindo essas diretrizes, que consideram os diferentes usos da água, como abastecimento, irrigação, geração de energia e controle de cheias. A ampliação de capacidade das usinas não altera essa lógica. A operação continua sendo definida de forma integrada, com base em critérios técnicos e nas condições hidrológicas da bacia, buscando equilíbrio entre segurança energética e gestão dos recursos hídricos. A AXIA também contribui por meio de iniciativas estruturantes, como o Acordo de Cooperação Técnica firmado recentemente com a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) para modernização e expansão da Rede Hidrometeorológica Nacional. Com investimento de cerca de R$ 290 milhões dos Fundos Regionais, a iniciativa vai ampliar o monitoramento de chuvas, níveis e vazões, orientando a operação dos reservatórios e a gestão da bacia.
Vocês falam muito sobre compromisso com a sustentabilidade e receberam da Usina Hidrelétrica Santo Antônio, em Porto Velho (RO), a Certificação Internacional do Sistema de Gestão Lixo Zero. Qual a importância desse certificado?
É mais um reconhecimento da consistência das práticas ambientais adotadas pela AXIA Energia. O selo, concedido após auditoria independente com base em norma internacional, atesta a efetividade do modelo de gestão de resíduos implementado. A usina alcançou nível Ouro.
Em janeiro passado, a AXIA Energia lançou uma plataforma pioneira que permite a clientes do Mercado Livre de Energia oferecerem sua energia ao Operador Nacional do Sistema (ONS) nos horários de pico. No que consiste e como funciona essa plataforma?
Essa plataforma que lançamos permite que consumidores do Mercado Livre de Energia participem, de forma estruturada, do chamado mecanismo de Resposta da Demanda. Na prática, isso significa que essas empresas podem, de forma voluntária, reduzir seu consumo em horários de maior demanda do sistema e disponibilizar essa energia para o ONS. Esse mecanismo já existe no setor, mas tradicionalmente é acessível apenas a grandes consumidores. A solução desenvolvida pela AXIA atua como um agregador, reunindo diferentes cargas e viabilizando a participação de um número maior de empresas, inclusive aquelas que, individualmente, não atingiriam o volume mínimo exigido.

RUMO À INTEGRAÇÃ0
Com base no passado, ação no presente e olhar no futuro, o PIRH-SF traduz a gestão das águas em um processo político de pactuação

Como garantir água em quantidade e qualidade em uma bacia que se estende por mais de 2.836 quilômetros, ocupa cerca de 630 mil km² - o equivalente a quase 8% do território nacional -, atravessa seis estados e o Distrito Federal e sustenta a vida de mais de 20 milhões de pessoas? A pergunta mobiliza o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF) e uma rede diversa de instituições, especialistas e comunidades na construção de respostas possíveis para o futuro do Rio São Francisco.
Não há solução simples para um desafio dessa dimensão, claro. Há, no entanto, um instrumento capaz de organizar caminhos, conciliar interesses e projetar cenários sem se limitar a fronteiras geográficas: o Plano Integrado de Recursos Hídricos da Bacia do Rio São Francisco (PIRH-SF). Apresentado durante o Encontro de Comitês Afluentes do Rio São Francisco, com o tema “Juntos pelo PIRH-SF”, o plano, em fase final de consolidação, busca superar a lógica fragmentada que, por anos, tratou os diferentes trechos da bacia de forma isolada
A proposta parte de um princípio simples, mas desafiador. Embora formada por territórios diversos, com realidades ambientais, sociais e econômicas próprias, a bacia funciona como um sistema interdependente, em que decisões locais reverberam em toda a sua extensão. Na prática, isso significa alinhar estratégias, integrar dados e articular ações entre comitês afluentes, órgãos gestores e instituições, construindo uma visão compartilhada do território.
“A bacia do São Francisco é muito heterogênea. Vai de uma região de cabeceiras extremamente chuvosa, em Minas Gerais, passa pelo semiárido e chega à foz, entre Alagoas e Sergipe. São realidades muito distintas. Por isso, construir um plano integrado exige diálogo, pactuação e participação desde o início”, explicou Erik Cavalcanti, da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). Mais do que orientar a gestão, o PIRH também organiza a aplicação de recursos provenientes da cobrança pelo uso da água e amplia a capacidade de atrair investimentos externos. Mais do que plano de gestão, trata-se, portanto, de um instrumento político.



São
PASSADO QUE ENSINA
Antes de projetar o futuro, foi preciso olhar com profundidade para o passado e o presente. A construção do plano começou com um amplo levantamento de dados sobre o Rio São Francisco, reunindo informações acumuladas ao longo dos anos e atualizando bases sobre aspectos socioeconômicos, limites territoriais, geologia, hidrologia e qualidade da água. O desafio foi transformar esse conjunto disperso em um diagnóstico consistente. Uma espécie de diorama da bacia, organizado em camadas que, vistas isoladamente, revelam realidades distintas, mas que, quando observadas em conjunto e de frente, oferecem uma compreensão mais ampla e integrada do território.
A partir desse diagnóstico, foram elaborados relatórios temáticos que aprofundam a leitura do território, abordando desde a proteção ambiental até os usos da água e o balanço hídrico. Mais do que sistematizar informações, esses estudos ajudam a orientar prioridades, metas e investimentos, oferecendo base técnica para que o plano dialogue com a complexidade e os contrastes da bacia.
INTENSO AGORA
O desafio seguinte é garantir que o planejamento se transforme em ação. “O diagnóstico é a fotografia. Depois, projetamos cenários futuros plausíveis. A partir disso, elegemos ações que, uma vez executadas, devem levar aos objetivos definidos”, resumiu Erik Cavalcanti.
É justamente nessa travessia, do papel para a prática, que muitos planos fracassam. Para evitar esse risco, o PIRH aposta em instrumentos que detalham a execução. O manual operativo organiza e hierarquiza as ações, define responsabilidades e estrutura processos, enquanto o Plano de Aplicação Plurianual (PAP) do CBHSF orienta o uso dos recursos. A implementação é acompanhada por indicadores de desempenho, que verificam se as ações estão sendo executadas como previsto, e, em um segundo momento, por indicadores de resultado, que avaliam seus efeitos concretos ao longo do tempo.
Tão importante quanto definir o que o plano deve ser é deixar claro o que ele não pode se tornar. “Não queremos um plano que apenas recorte a bacia e chame isso de integrado, nem uma compilação de planos já existentes”, afirmou Erik.


Por: JOão Alves
Fotos: Arthur de Viveiros
NASA e João Alves

DE RIOS
Conheça os 22 Comitês que, em diferentes regiões do país, costuram a gestão participativa e a preservação dos afluentes do Rio São Francisco
Quantos Josés e Marias cabem no coração do Velho Chico? E, junto deles, quantas culturas, paisagens e histórias atravessam suas águas? Ao longo de 2.800 quilômetros, o rio se desdobra em quatro regiões fisiográficas e abriga 22 Comitês de bacias afluentes. Cada um desses Comitês com suas próprias características, mas todos interligados em uma mesma trama que dá forma e sentido ao que chamamos de bacia do São Francisco.
Não por acaso, os Comitês de bacia foram apelidados de “parlamentos das águas”. Cada Comitê é um espaço onde poder público, sociedade civil e usuários se encontram para decidir os rumos da gestão hídrica. Ali, nesses espaços, se negociam usos, se planejam ações e se compartilha a responsabilidade sobre um recurso essencial.
Diante da extensão continental do Velho Chico, os diferentes Comitês carregam demandas, desafios e identidades próprias, moldadas pelos territórios. Alguns já estão consolidados, outros são obras em progresso.
MINEIRO DE NASCENÇA
Antes de ganhar o Brasil, o Rio São Francisco é, em muitos sentidos, um rio profundamente mineiro. É em Minas Gerais que ele nasce e é, em Minas Gerais, que nascem alguns de seus principais afluentes. Ali, nas montanhas mineiras, a diversidade de paisagens também se revela com mais nitidez.
Dos campos rupestres e serras históricas da região central às chapadas do norte, os Comitês mineiros expressam realidades distintas, conectadas pelo mesmo fio. O Rio das Velhas, por exemplo, atravessa a Região Metropolitana de Belo Horizonte, carregando desafios urbanos, mas também iniciativas de revitalização e conservação. Já no Paraopeba e no Pará, a convivência entre atividade industrial, mineração e produção agrícola impõe dilemas constantes entre desenvolvimento e preservação.

“Nossa bacia abriga as primeiras nascentes que abastecem a calha principal do Rio São Francisco, o que nos confere a responsabilidade vital de garantir qualidade e quantidade de água em todo o seu percurso até o mar. Minha expectativa para o futuro está centrada na mudança de comportamento socioambiental e no sucesso de projetos hidroambientais que são fundamentais para a saúde do rio. O grande desafio é reconhecer o produtor rural como o verdadeiro protagonista e ‘produtor de água’; ele precisa ser valorizado e ter melhores formas de compensação por preservar suas áreas. Somente com essa interação entre todos os segmentos e o envolvimento efetivo da sociedade em ações, os projetos alcançarão o êxito de preservar a vida do Velho Chico para os anos vindouros.”
Lessandro Costa, vice-presidente do CBH dos Afluentes do Alto São Francisco (SF1)
No entorno da represa de Três Marias, a água organiza a vida ao redor do lago, influenciando desde a pesca e o turismo até a geração de energia para o país. Mais ao norte, nas bacias dos Rios Jequitaí e Pacuí, Paracatu e Urucuia, o Cerrado desenha territórios em que a escassez hídrica, a agricultura extensiva e os modos de vida tradicionais caminham lado a lado.
Já os afluentes mineiros do Médio São Francisco revelam uma região de maior fragilidade ambiental, marcada por solos arenosos e rios que resistem ao processo de assoreamento em meio às adversidades climáticas.

“Precisamos de um plano conciso, com ações bem direcionadas para a busca de fontes pagadoras que permitam a recuperação das nossas bacias, que historicamente estão degradadas. O foco deve estar em executar o que está nos planos, principalmente no que tange à recarga do lençol freático, com projetos de construção de barraginhas e adequação de estradas rurais. No curto prazo, isso trará organização; no médio prazo, a otimização dos recursos; e, no longo prazo, o alcance do nosso objetivo principal, a melhoria efetiva da quantidade de água na bacia.”
Tobias Vieira, presidente do CBH dos Rios Paracatu e Urucuia.
BACIAS HIDROGRÁFICAS MINEIRAS
Afluentes do Alto São Francisco
Rio Pará
Rio Paraopeba
Entorno da Represa de Três Marias
Bacia do Rio das Velhas
Rios Jequitaí e Pacuí
Rios Paracatu e Urucuia
Verde Grande
Afluentes Mineiros do Médio São Francisco
Samburá, Ajudas, Mombaça, Bambuí, Piuí, São Miguel, Rio dos Arcos, Santana, Jacaré
Pará, Itapecerica, São João, Lambari, Rio do Peixe, Picão
Paraopeba, Águas Claras, Macaúbas, Betim, Camapuã, Manso
Indaiá, Abaeté, Borrachudo, Canabrava, Marmelada
Cipó, Onça, Bicudo, Curimataí, Rio Pardo
Jequitaí, Pacuí, Riachão, Guavinipã
Paracatu, Urucuia
Verde Grande, Gorutuba, Juramento, Verde Pequeno, Vieira
Acari, Pardo, Pandeiros, Itacarambi, Cochá, Carinhanha
260.698 mil habitantes
733 mil habitantes
1,3 milhões de habitantes
178 mil habitantes
4,4 milhões de habitantes
620 mil habitantes
375 mil habitantes
715 mil habitantes
285 mil habitantes
RESISTÊNCIA BAIANA
Na Bahia, o Rio São Francisco ganha contornos de resistência. É nesse território que o Velho Chico atravessa paisagens marcadas pela força do semiárido, onde a água não é apenas recurso, é persistência, cultura e sobrevivência.
Dos gerais do oeste, onde os Rios Corrente e Grande desenham veredas e chapadas que sustentam tanto a agricultura moderna quanto modos de vida tradicionais, ao sertão mais profundo, a relação com a água revela práticas de sustento. No Rio Grande, um dos maiores da região, o agronegócio convive com comunidades que dependem diretamente dos ciclos da natureza. Já no Rio Corrente, as águas que brotam das nascentes ainda preservam paisagens de rara beleza ecológica, contudo, sofrem com o aumento dos conflitos pelo uso da água.

“O CBH Corrente está localizado no oeste da Bahia, sobre o Sistema do Aquífero Urucuia, em uma região de atividade agrícola bastante significativa e onde já enfrentamos conflitos importantes pelo uso da água. Nossa proposta para o futuro é ampliar a área de atuação do Comitê para abranger áreas que ainda vivem um ‘vazio institucional’, como a bacia do Rio Carinhanha, garantindo ali a gestão participativa. Para falarmos em gestão integrada, precisamos ter os instrumentos implementados e o nosso sistema de governança funcionando; por isso, nosso foco é entender o que já executamos dos planos e avançar na implementação da cobrança, para que a bacia continue amadurecendo com equilíbrio.”
Larissa Cayres, representante do CBH Rio Corrente, durante o evento “VII Encontro de Afluentes”
Mais ao norte, os rios ganham tempo limitado para correr. No Salitre, no Verde e no Jacaré, a Caatinga impõe seu ritmo com rios intermitentes, longos períodos de estiagem e uma cultura moldada pela adaptação. É terra de vaqueiros, de saberes ancestrais e de uma relação íntima com o território. Nas bacias de Paramirim e Santo Onofre, e no entorno do lago de Sobradinho, o rio se amplia. O lago reorganiza a vida em suas margens, da pesca à navegação, da geração de energia às memórias de comunidades deslocadas por sua formação.

"As bacias afluentes são as que alimentam o nosso Rio São Francisco e, se nós não cuidarmos delas, não vamos ter o nosso 'Velho Chico' por muito tempo.
A bacia do Paramirim e Santo Onofre tem uma particularidade: ela é genuinamente baiana e está inserida no semiárido, por isso nosso maior desafio é a escassez hídrica e a convivência com a seca. Minhas expectativas para o futuro dependem de uma gestão compartilhada e do envolvimento das comunidades; quando levamos o conhecimento e fazemos com que as pessoas se sintam pertencentes à bacia, o cuidado com as águas vem naturalmente."
Anselmo Caires, presidente do CBH dos Rios Paramirim e Santo Onofre.
BACIAS HIDROGRÁFICAS BAIANAS
Rio Corrente Rio Grande
Rio Salitre
Rios Paramirim e Santo Onofre
Rios Verde e Jacaré
Lago de Sobradinho
Corrente, Correntina, Formoso, Arrojado, Guará, Mutum
Preto, Branco, de Ondas, de Fêmeas, Grande, São Desidério, Tamanduá
Salitre, Pacuí, Riacho Escurial Paramirim, Santo Onofre Verde, Jacaré, Guariba, Riacho das Pedras Banzuá, Tatauí, Jibóia, Tanque Real, Ouricuri
404 mil habitantes
97 mil habitantes
236 mil habitantes
350 mil habitantes 155 mil habitantes 197 mil habitantes
RESILIÊNCIA PERNAMBUCANA
No sertão de Pernambuco, o São Francisco é uma promessa que se renova. É nesse território de chuvas irregulares que correm afluentes como o Rio Pajeú, símbolo de identidade no semiárido.
A bacia do Pajeú atravessa paisagens de Caatinga, onde a vegetação se adapta ao rigor do clima e os rios seguem o ritmo das chuvas. Mais do que um curso d’água, o Pajeú integra a memória cultural da região, cenário de cantorias e da poesia popular que ajuda a definir a identidade sertaneja.

Além disso, nas cidades ao longo de sua bacia, pequenos produtores e comunidades tradicionais constroem estratégias de convivência com o semiárido, baseadas tanto em tecnologias comunitárias quanto em saberes geracionais.
Nesse contexto, o Comitê de bacia assume um papel central, pois articula diferentes vozes em torno de um recurso limitado e essencial para garantir a permanência no território em suas diferentes frentes.
“O Rio Pajeú é o ‘rio dos pajeús’ e é um rio dos encantados, de uma trajetória gigantesca na história. Ele tem as suas memórias dos povos originários e de como eles olhavam para o rio como um sujeito de direito. O desafio é não só integrar as águas, mas integrar territórios, pessoas e povos originários, para garantir que o rio não leve somente água, mas leve vida, dignidade e equilíbrio para o território. Como o poeta e escritor Nego Bispo falou: ‘sem o envolvimento dessas populações, não há integração’.”
Angela dos Santos, presidente do CBH Rio Pajeú, durante o evento “VII Encontro de Afluentes”.
Pajeú, Pajeú Mirim, Riacho do Navio, Riacho São Domingos
345 mil habitantes
ENTRE SERGIPE E ALAGOAS, A APOTEOSE
Na etapa final de sua andança, o São Francisco deixa de ser apenas rio e se torna encontro. Entre Alagoas e Sergipe, seus afluentes proporcionam um encontro único, moldando paisagens e modos de vida ribeirinhos.
No Rio Piauí, em solo alagoano, a dinâmica se dá na convivência entre a agricultura e comunidades que dependem diretamente da saúde do rio. Cidades históricas, como Penedo, ajudam a contar essa relação antiga com as águas, enquanto a margem sergipana reforça a cultura e a economia que florescem no baixo rio.
Atualmente em fase de reestruturação e composição de sua nova diretoria, o Comitê da Bacia do Rio Piauí projeta um futuro de maior protagonismo e atuação técnica.
Além dos Comitês já mencionados, a bacia do São Francisco também conta com colegiados instituídos mais recentemente, ampliando a gestão participativa das águas em diferentes territórios.
Entre eles estão o Comitê da Bacia Hidrográfica dos Afluentes Goianos Integrados dos Rios Tocantins e São Francisco (CBH AGITOS), criado em 2026 pelo Governo de Goiás; os Comitê da Bacia Hidrográfica do Baixo São Francisco Sergipano e Comitê da Bacia Hidrográfica da Foz do São Francisco Sergipano, instituídos em 2022 e que atuam de forma integrada na região da foz do rio; além do Comitê da Bacia da Região Hidrográfica do Sertão do São Francisco (CBRHSSF), criado em 2021 em Alagoas, fortalecendo a gestão hídrica no semiárido alagoano.

“No Baixo São Francisco, temos uma realidade distinta, com Comitês que ainda não possuem cobrança implementada e planos que precisam de atualização. O Plano Integrado, em construção, será fundamental para o enquadramento dessas sub-bacias que, embora não produzam grandes volumes de água, são vitais por estarem na região estuarina, próximas à foz. A sobrevivência de milhares de pessoas que habitam essas margens depende desse aporte e de um trabalho muito mais integrado entre os órgãos gestores, os Comitês afluentes e o Comitê do São Francisco.”
Maciel Oliveira, Coordenador da Câmara Consultiva Regional (CCR) do Baixo São Francisco
BACIA HIDROGRÁFICADO RIO PIAUÍ
528 mil habitantes
FUTURO

Conhecida como a “capital” do Parque Nacional da Chapada Diamantina, a cidade de Seabra (BA), bem como seu entorno, despontam como possíveis áreas de instalação de geoparque, resultante da articulação do CBHSF
Por: Luiza Baggio
Fotos: Shutter Stock, Patrick-BR e João Vitor

GUARDADO
Geoparques surgem como estratégia inovadora para integrar conservação, cultura e desenvolvimento sustentável na bacia do Velho Chico
A paisagem que envolve a bacia do Velho Chico conta a história do planeta. Seus cânions, serras, grutas, vales e formações rochosas guardam registros de milhões de anos, marcas do tempo que ajudam a explicar não apenas a evolução geológica da Terra, mas também a forma como as populações humanas ocuparam os territórios. Olhando para o São Francisco assim, como um guia da humanidade, surgiu a proposta de criação de geoparques ao longo das margens do rio uma iniciativa estratégica debatida e articulada pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF).
Mais do que um novo “tipo de parque”, os geoparques representam uma mudança de paradigma. São territórios reconhecidos pelo valor de seu patrimônio geológico, que integram, de forma indissociável, conservação ambiental, educação, turismo e desenvolvimento econômico sustentável. Não se trata de isolar áreas, mas de ativar potencialidades. O geoparque não é uma unidade de conservação restritiva, e sim um território vivo, onde as pessoas continuam morando, produzindo e se desenvolvendo, agora com um novo olhar sobre o valor de seu patrimônio natural e cultural.
“A base de um geoparque é o envolvimento da comunidade”, explicou o professor Artur Agostinho de Abreu e Sá, presidente da Global Geoparks Network e docente da Universidade de Trásos-Montes e Alto Douro, em Portugal: “Sem isso, não existe geoparque. É a população que reconhece, valoriza e passa a proteger o seu território. Quando transformamos um território em geoparque, criamos um espaço de aprendizagem permanente, que conecta ciência, educação e desenvolvimento local”.
Na visão integrada, a água ganha protagonismo. Segundo Thaís Guimarães, professora da Universidade de Pernambuco (UPE) e membro da Câmara Técnica de Águas Subterrâneas (CTAS), os geoparques têm um papel estratégico não apenas na conservação do patrimônio geológico, mas também dos recursos hídricos. “Os geoparques partem de uma visão integrada da paisagem, em que a água é entendida como um elemento fundamental da biodiversidade e estruturador do território”, comentou: No caso da bacia do São Francisco, isso é ainda mais relevante, porque o rio não é apenas um recurso natural. Ele faz parte da identidade das populações”.
A ideia, ainda segundo a professora Thaís Guimarães, é fortalecer a relação entre sociedade e natureza, a partir da criação dos geoparques: “O geoparque contribui para fortalecer essa relação ao reconhecer a água como parte do geopatrimônio e ao valorizar os territórios vividos pelas comunidades. Essas populações deixam de ser apenas beneficiárias e passam a ser protagonistas na conservação, na gestão e na transmissão de conhecimentos”.


O Sertão do Pajeú abrange 17 municípios pernambucanos, no semiárido do país. Culturalmente rica, a região possui forte tradição em cordel, pífano, reisado e poetas repentistas
GEOPARQUES FRANCISCANOS
A definição das áreas com potencial para se tornarem geoparques segue critérios internacionais, especialmente os estabelecidos pela Unesco, tais como a relevância geológica, a integridade da paisagem, o potencial educativo e turístico e, principalmente, o envolvimento das comunidades locais. Na bacia do São Francisco, três regiões já despontam como prioritárias nesse processo inicial de estruturação: a região de Seabra, na Chapada Diamantina; o Sertão do Pajeú, em Pernambuco, incluindo municípios como Afogados da Ingazeira e Triunfo; e a região dos Cânions do São Francisco, entre o Submédio e o Baixo curso do rio.
Essas áreas reúnem características singulares, como formações rochosas antigas, cavernas, vales escavados pela dinâmica fluvial e paisagens moldadas ao longo de milhões de anos. Além disso, concentram comunidades tradicionais e apresentam forte potencial para o desenvolvimento do geoturismo e de atividades sustentáveis.
“Estamos trabalhando inicialmente com essas três áreas prioritárias, mas este é um processo em construção”, comentou o presidente do CBHSF, Cláudio Ademar da Silva: “Foi criado um grupo de trabalho que reúne pesquisadores, gestores públicos, sociedade civil e comunidades locais para estruturar essas propostas”.
O que já está sendo feito e por que isso importa
A criação de geoparques na bacia do São Francisco avança, com o CBHSF promovendo reuniões estratégicas, articulando parcerias e incentivando a formação de grupos de trabalho para estruturar os projetos e alinhar os territórios aos critérios internacionais. Para o presidente do Comitê, Cláudio Ademar, essa é uma agenda que dialoga diretamente com o futuro: “Os geoparques trazem uma oportunidade estratégica para a bacia do São Francisco ao integrar conservação ambiental, valorização cultural e desenvolvimento econômico sustentável”.
Na prática, os geoparques se diferenciam das unidades de conservação tradicionais justamente pela abordagem. Não são parques criados por decreto, mas reconhecidos a partir de um processo que envolve planejamento, mobilização social e avaliação internacional. Sua estrutura se apoia em três pilares: conservação, educação e desenvolvimento sustentável. Como explicou Thaís Guimarães: “Os geoparques não são categorias legais como as unidades de conservação. Eles são reconhecidos a partir de um dossiê submetido à Unesco e avaliados no próprio território. E o mais importante, são espaços habitados, onde as comunidades têm papel central.”
Outro diferencial importante dos geoparques é a atuação em rede, conectando territórios em escala global e regional. Do ponto de vista ambiental, contribuem para a conservação do patrimônio geológico e dos recursos hídricos. No campo econômico, impulsionam o turismo geológico, o turismo de base comunitária e a valorização de produtos locais. Já no aspecto social e cultural, fortalecem identidades, ampliando a educação ambiental e promovendo maior engajamento das comunidades.
“Os geoparques representam uma estratégia de desenvolvimento territorial sustentável”, disse Thais Guimarães: “Eles integram conservação ambiental, valorização cultural e oportunidades econômicas, tendo o Rio São Francisco como eixo central dessa transformação.”


Com paisagens impactantes, compostas por vales profundos esculpidos cuidadosamente pelas águas do rio, os Cânions do São Francisco, localizados entre o Submédio e o Baixo São Francisco, são destinos turísticos mundialmente conhecidos
Texto e Fotos: Nágela Caldas
Aos 101 anos, Ildeu Novais Pinto, mineiro de Paracatu, garante: o segredo da longevidade é ter objetivos – e comer rapadura
TEMPO, TEMPO, TEMPO

Para Seu Ildeu, o segredo da longevidade mora no movimento. “Não pode ficar parado. O trabalho é muito importante, ter um objetivo, produzir. Sou aposentado, mas continuo trabalhando todos os dias”
Aos 101 anos, completos em 14 de março, Ildeu Novais Pinto continua cumprindo sua missão: tocar o sino da Igreja do Rosário de Paracatu, cidade no noroeste de Minas Gerais. Há mais de três décadas, ele não falha, desde o dia em que, devoto de São Benedito, decidiu tocar pela primeira vez o velho sino que se encontrava em silêncio. O ritual se repete: subir as escadarias até chegar ao sino e ecoar o chamado para as missas e celebrações. Viúvo desde 2023, após 67 anos de casamento com Eunice de Lourdes, “Seu Ildeu”, como é conhecido em Paracatu, fez família numerosa: seis filhos, sete netos e quatro bisnetos.
“Se quiser vir me visitar, venha com tempo para ouvir as minhas histórias”, avisou. Na longa vida do simpático Ildeu, histórias não faltam. Ainda adolescente já navegava com o pai pelo Rio Paracatu até o Rio São Francisco, em direção a Pirapora, em longas viagens de barco. “Comprávamos mercadorias para vender no varejo em Paracatu. Cada viagem levava uns quinze dias. A barca navegava bem, muita água corria por lá”, disse, recordando-se da abundância do Velho Chico. Ao longo dos anos, ele trabalhou de garimpeiro, comerciante, vendedor de areia e caminhoneiro, transportando cimento para a construção da nova capital, que brotava no Planalto Central: Brasília. Foi ainda agente de saúde na luta contra a malária.
Fosse trabalhando nisto ou naquilo, uma coisa Ildeu nunca perdeu de vista: a fé. “Viver é muito bom. Mas é preciso ter fé na vida e em Deus”. Ele costuma acordar cedo e reserva a primeira hora do dia para as orações. Pede sempre pela família, especialmente pelos filhos, com a intercessão do santo protetor de cada um. “À tarde, rezo por mais uma hora pelas pessoas que me pedem orações e Deus já me ouviu em muitas delas”. Fazendo as contas, ele já viu de tudo, atravessando todos os principais acontecimentos do século 20: a Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria, a Guerra do Vietnã, a Revolução Cubana, a chegada do homem à Lua, a ascensão de regimes autoritários na América Latina. Só rezando.
O centenário de Ildeu foi comemorado no ano passado, numa grande festa na rua de sua casa. A família promoveu um café da manhã regado a afeto e homenagens. Quem foi abraçá-lo recebeu sua receita para se chegar aos 100 anos impressa numa caneca: “Ter fé, trabalhar honestamente, amar a família, caminhar com determinação, compartilhar aprendizados, preservar nossas raízes e comer rapadura”. Além da rapadura, não dispensa uma pizza às sextas-feiras.
Na tarde do encontro com a revista CHICO, em meio a tintas e silêncio, Ildeu trabalhava na restauração de uma imagem de Nossa Senhora, parte do acervo do ateliê da família. Ele mora hoje no centro de Paracatu, mas costuma ir ao sítio da família cuidar dos animais e das plantas. Entre uma atividade e outra, continua vivendo como sempre viveu: em movimento. Gosta de ler, de conversar, usa bem o celular e mantém sua página numa rede social. É aluno do curso de desenho e pintura, promovido pela Casa de Cultura da cidade. Com a vida agitada, tornou-se uma celebridade em Paracatu, já tendo estrelado inclusive campanhas publicitárias.
“Não pode ficar parado. O trabalho é muito importante, ter um objetivo, produzir. Sou aposentado, mas continuo trabalhando todos os dias”, concluiu Ildeu.


As antigas fotos revelam toda a vivência de um homem centenário. A pintura e a fé falam sobre o presente de Ildeu Novais




Por: Victória Resende
Fotos: Acervo Pessoal, Anamauê, Chico Egídio, Flávio, Lucas
CORRENTEZA DE HISTÓRIAS
Entre Juazeiro e Petrolina, mulheres de diferentes gerações transformam a natação no Velho Chico em travessia, memória e pertencimento.

Natação como forma de pertencimento: mulheres de diferentes histórias e idades compartilham as águas do Velho Chico, misturam-se com a paisagem e deixam suas marcas na travessia entre Juazeiro e Petrolina
“Tá fazendo o quê?”, gritou o soldado, de longe, ao avistar Lorena Melo, na Ilha do Fogo. Corria o ano de 2012 e o acesso à ilhota do Rio São Francisco, situada entre Juazeiro e Petrolina, era restrito ao Exército. Ela respondeu, sem hesitar: “Vim colher uma goiaba do pé que eu plantei”. Ao perceber que o homem marchava em sua direção e, antes que ele chegasse perto, saltou na água e fugiu nadando. Paraibana de Soledade, Lorena chegou a Juazeiro em 1984 para assumir um cargo público e, desde então, fincou raízes. Engenheira agrônoma, construiu a carreira defendendo a agricultura familiar e o desenvolvimento sustentável no sertão. Na Ilha do Fogo, além da goiabeira, também plantou um pé de ingazeira e outro de jatobá. Aos 69 anos, nada no São Francisco todos os dias, de domingo a domingo. “Me sinto colada no azul dessa água”, disse, abrindo o sorriso.
Pioneira, Lorena faz hoje parte de um seleto grupo, o “Sereias do Rio”, que reúne mulheres de diferentes idades e histórias para nadar nas águas do Velho Chico. Ao todo, são cerca de 200. Quando ela começou a dar suas braçadas, praticamente não havia mulher se aventurando naquelas águas, porém, aos poucos, outras foram chegando. Entre estas, estava a advogada Alice Rocha, de 31 anos. Acostumada às piscinas, Alice decidira nadar no rio em meio ao luto pela morte do pai, em 2021. No início, queria apenas alcançar a Ilha do Fogo. “Quando a gente fazia os percursos, era eu e um monte de menino”, contou. Passou, então, a gravar vídeos das aventuras e publicar nas redes sociais. As mensagens choveram, de gente querendo aprender a nadar em rio. Das piscinas para o São Francisco, precisa conhecer as manhas. Surgia assim, sem planejamento algum, o Sereias do Rio. “O grupo não é sobre mim”, explicou Alice, fazendo questão de contar como tudo aconteceu de forma orgânica, sem planejamento: “Cada uma está ali fazendo a sua travessia pessoal”.



Numa manhã de sábado, durante um simulado da 4ª Travessia das Sereias, prova de natação em águas abertas exclusiva para mulheres, realizada entre Juazeiro e Petrolina, o propósito do grupo ficou claro. O dia mal havia começado, e muita gente amontoava-se ao redor de três barcos. Dali, iriam todos até a margem oposta do rio, em Petrolina, de onde partiriam as competidoras. O nome que mais se ouvia era o de Alice. Naquela manhã, uma dor forte em um dos braços a impedia de nadar. Ainda assim, permaneceu firme no comando, organizando a saída dos barcos, orientando participantes, puxando conversa e acompanhando o treino de perto. Em certo momento, pediu ao barqueiro: “Vamos parar aqui um pouquinho para esperar Fran”. Ela parecia atenta a tudo. No convívio com o grupo, foi conhecendo a história de cada sereia: há quem a procure para descobrir uma nova atividade, melhorar a saúde, atravessar fases difíceis ou simplesmente vivenciar o rio. Mais do que uma equipe esportiva, o que se formou foi uma rede de incentivo. “As meninas não estão aqui para competir. Estão para apoiar umas às outras”, resumiu.
Entre essas histórias está a de Joelma Henrique, 52 anos. Funcionária pública, ela já nadava em piscina quando começou a fazer a passagem para as águas abertas. No início, contou com a ajuda de um amigo, professor de natação e guarda-vidas. “Nadar em piscina é uma coisa, nadar no rio é outra dimensão”, ressaltou. O convite para nadar com o Sereias do Rio veio depois, feito por uma amiga que já frequentava o grupo. Ali, Joelma encontrou o incentivo que precisava para seguir avançando. “Eu dizia ‘não vou, não consigo’. E Alice falava ‘você consegue’. Ela começou a nadar comigo e fui embora, desabrochando”. Ao falar da própria experiência no rio, Joelma contou também a história da neta, Alícia Dantas, de 8 anos, que se afogou numa piscina aos 2 anos e tinha pavor de água. Hoje, a menina, com a solidariedade e o incentivo das sereias, também está se aventurando nas águas do São Francisco. Aos 6 anos, fez a primeira Travessia das Sereias, em um percurso adaptado de 500 metros. “Tinha gente caminhando nas margens, tinha gente de barco, de caiaque”, contou Joelma, sobre a mobilização do grupo para acompanhar sua neta.
Para Joelma, o que mais emociona não é apenas ver a menina nadando com desenvoltura, mas a construção de memória afetiva. Em um dos treinos, por exemplo, Alícia percebeu que a boia que usava havia virado e se assustou. “Vovó, vou me afogar”, gritou. Joelma, que já tinha notado o problema, a acalmou: “Continua, Alícia, continua”. A menina seguiu até o fim. Mais do que um treino, a cena ficou marcada pela confiança mútua. Joelma também se comove ao lembrar do dia em que Alícia conseguiu nadar até a Pedra da Sereia, ponto no meio do rio, batizado assim pelo próprio grupo. Para muitas, chegar até ali é como um rito de passagem nas águas do Velho Chico. A correnteza estava forte, amigos se aproximaram para ajudar e, quando finalmente chegou à pedra, Alícia repetia, radiante: “Eu sou sereia, eu sou sereia!”.


TERRITÓRIO AFETIVO

Premiado em Cannes e indicado ao Oscar pela atuação no thriller político de Kleber Mendonça Filho, “O Agente Secreto”, Wagner Moura experimentou na infância o processo de apagamento de memória que permeia a trama

À beira do Rio São Francisco, no norte da Bahia, existiu uma cidade chamada Rodelas, que desapareceu sob as águas do lago de Itaparica, forjado para abrigar a Usina Hidrelétrica de Itaparica, rebatizada Luiz Gonzaga. O vilarejo era miúdo, pouco mais de cinco mil habitantes, surgido nos idos do século 19, como entreposto naquela beira da mais importante rota fluvial do país em progresso. Até Rodelas desaparecer do mapa, o Velho Chico ditava o tempo ali: da pesca, das vazantes, das plantações de subsistência nas margens férteis que surgiam nos períodos de seca. O rio não cumpria apenas o papel de embelezar a paisagem, mas servia de rua, mercado, recreio e destino dos viajantes que iam ou vinham.
Em Rodelas, o premiado ator Wagner Moura cresceu. Nascera em Salvador, no ano de 1976, mas, quando ainda era bem pequeno, seu pai, José de Moura, foi transferido pela Empresa Baiana de Água e Saneamento, EMBASA. A vida seguiu entre banhos de rio e futebol de rua. Aos 11 anos, em 1987, ele, enfim, estreou no famoso grupo de teatro amador da cidade, o Guterchaplin. A peça, encenada na praça, era um auto de Natal intitulado “A Profecia”.
Foi justamente nessa época, entre os anos de 1987 e 1989, que o pequeno Wagner viu sua infância atravessada pelo desaparecimento iminente de Rodelas: “Muita vontade de mudar não”, disse ele, num vídeo que circula pelas redes sociais, ao ser entrevistado pela equipe do documentário “O Sertão que virou Mar”: “Porque aqui é o lugar que a gente brinca, a gente conhece tudo. Lá é tudo estranho”.
Mais de três décadas depois, aos 49 anos, aclamado pelo papel no thriller político “O Agente Secreto”, do diretor Kléber Mendonça Filho, um filme que trata exatamente de memória coletiva, Wagner diz que jamais se esqueceu: “Eu estava lá, todo sujo de lama, e chegou um repórter me perguntando o que eu achava disso”. Ao todo, mais de 30 mil pessoas seriam deslocadas. Além de Rodelas, outras cinco cidades desapareceriam do sertão baiano.
O projeto de Itaparica fazia parte do grande projeto de eletrificação do Nordeste, pensado ainda sob a lógica desenvolvimentista do regime militar, que via no Rio São Francisco uma espécie de motor adormecido. A população não entrava nas contas do governo. A água subiu devagar, mas com método: primeiro, as medições; depois, as indenizações discutidas caso a caso; por fim, a retiradaum processo que durou muitos anos e deixou um rastro de disputas judiciais.
A Nova Rodelas foi construída a poucos quilômetros da cidade antiga, em uma área mais alta, fora do alcance do lago formado pela barragem da Usina Hidrelétrica Luiz Gonzaga, ainda na margem baiana do São Francisco. O deslocamento não era grande, porém, tudo mudou – sobretudo a relação com o Velho Chico. Não se tratava mais de um rio corrente, com vazantes e cheias, mas de um lago. A cidade agora possuía um traçado regular, de ruas largas e casas padronizadas. Para Wagner Moura, cuja família também se transferiu para a Nova Rodelas, a velha Rodelas segue sendo o seu “território afetivo”.


A Rodelas de 2026 carrega consigo as diversas heranças do miúdo vilarejo de mesmo nome que desapareceu nas águas do Velho Chico no fim dos anos 1980 - Wagner Moura carrega consigo toda a história e aconchego desse território

Por: Arthur de Viveiros
Arte: Albino Papa
DEIXA CHUVÊ
Na cidade de Pirapora, Norte de Minas, surgiu a inovadora Cogulezo, banda que mistura raiz e psicodelia, com tempero geraizeiro
Pirapora significa “pulo do peixe”, em tupi-guarani. Quando o distrito de Pirapora foi criado, no ano de 1847, o Rio São Francisco era a principal rota de abastecimento do interior de Minas Gerais, que vivia então a efervescência do ciclo da mineração, e o arraial consistia no último ponto navegável do rio, de onde as mercadorias vindas da Bahia saíam a cavalo. Cosmopolita por natureza, Pirapora sempre foi e continua sendo um lugar quente, em que longos períodos de seca são intercalados pela chuvarada de verão. O Velho Chico segue determinando o ritmo local.
Neste cenário, surgiu a Cogulezo. A banda jovem, de inspiração psicodélica, vai atrás da raiz – ou do “pulo do peixe”. O ritmo remete às tradições chamadas de “Barranqueira” e “Geraizeira”. Já tem dois álbuns, três Extended Play (EPs) e três singles. Quem lidera a empreitada é Marcelo Garcia. Mineiro, nascido em 1985, em Pirapora, o músico, segundo ele mesmo, carrega uma tradição de artistas barranqueiros históricos como Geraldo Magella, o ‘Mestre Magella’; Marku Ribas e Ivinho Loppes, e soma a essa herança uma nuance psicodélica.
“Eu sempre achei que o som daqui transcendia e corria poderoso, assim como as águas do rio escorrem até Piaçabuçu, em Alagoas”, disse. “Eu curto demais o nosso som regional, do norte de Minas. Esse meu lado convive com outra vertente pela qual sou hipnotizado, que é o Lo-Fi japonês, ali dos anos 90.
Dessa junção muito doida nasceu a Cogulezo”.
Segundo Marcelo, “a Cogulezo surgiu a partir do livro que venho escrevendo há anos, ‘Ódio de Iratí’. É um conto malassombrado, sobre o rio e suas entidades mitológicas. Junto com a escrita, veio então a vontade de musicar esse texto e acabei descobrindo e revisitando uma vontade antiga: ser repentista, inventar rima. Ou seja, a vontade de escrever sobre o Velho Chico me levou ao ímpeto de cantá-lo”.













HISTÓRIAS DA TERRA
No Spotify, um dos principais serviços de streaming musical do mundo, a banda conta com 26 mil ouvintes mensais e a música mais ouvida no aplicativo, “Deixa Chuvê”, já chega a quase 170 mil plays. A canção fala da chuva que enche as águas do ‘Opará’, denominação dos povos originários para designar o Rio São Francisco, e que embala o amor dos amantes, enquanto os pingos d’água caem sobre as telhas.
“As letras que canto vêm até mim por meio do próprio Velho Chico, das Araras, dos Carcarás, dos Sapos de brejo, das Jararacas, que assombram e encantam o imaginário ribeirinho, do vapor Benjamim Guimarães, que varou essas águas num tempo distante, enfim, a inspiração vem do passado, do mundano, do profano e do sagrado, tudo ao mesmo tempo”, conclui Marcelo.
Em outra música digna de nota, “Tudo Que o Rio Dá”, o encantamento fica por conta de uma viagem de trem, que percorre os 140 km que separam os municípios de Corinto e Pirapora, e que prossegue num vapor até Januária, no extremo norte de Minas Gerais. Enquanto percorre o caminho, o casal retratado avista as pessoas saindo das matas e os pescadores jogando suas tarrafas.
“O Rio São Francisco sempre esteve presente na minha vida, na história da minha família, em cada etapa do nosso desenvolvimento, sustento e caminhada”, comentou Marcelo: “Justamente dessa relação que nascem músicas e canções como ‘Tudo Que o Rio Dá’. O Velho Chico, para a sociedade de Pirapora, é uma entidade viva e poderosa”.
ARTE MULTIPLATAFORMA
No YouTube, principal plataforma de compartilhamento de vídeos, com a ajuda da Inteligência Artificial (IA), a música da Cogulezo ganha um suporte que transporta todo ouvinte para um mundo alternativo e inventivo. Os clipes das canções retratam uma Pirapora psicodélica, amplamente ligada às raízes naturais e folclóricas que sustentam a cidade. Carrancas, peixes, sapos, a Ponte Marechal Hermes, conhecida no município mineiro como ‘Ponte Velha’, e até cangaceiros históricos, como Antônio Dó, ganham vida e compõem as canções e este universo imaginário que preenche a tela e inunda o pensamento.
“No início eu tinha minhas letras, as ideias, um violão, uma mesa para batucar, procurar meus ritmos, e muita Inteligência Artificial. Essa psicodelia de misturar toda a potência digital das ferramentas de IA com toda essa bagagem orgânica, barranqueira, folclórica é o fator principal que está gestando nosso som”, explicou o músico.
Atualmente, Marcelo produz o som da Cogulezo em seu estúdio, com vista para o Velho Chico e para a orla da cidade, local da tradicional ‘Festa do Sol’, movimento que une cultura regional e nacional, valorizando o território. Além disso, da janela é possível avistar o que restou do ‘Xangô’, antiga e tradicional casa noturna, na qual Marku Ribas requebrava, ao vivo e em cores, com suas calças leggings brilhantes. É a partir dessa memória que a banda constrói o futuro.

“Hoje eu estou fazendo música com aqueles que tocaram com Marku Ribas, com aqueles que fizeram as maiores ‘Festas do Sol’, que era basicamente um Woodstock, às margens do Velho Chico, com as bandas nacionais e regionais mais loucas que já existiram, e que perdurou, nesse formato, até meados dos anos 1990”.
Um dos trabalhos mais recentes acontece ao lado do DJ Peninha e de Inácio Loiola, músicos históricos da região, no qual a Cogulezo grava o segundo episódio do projeto “Só um Ensaiozinho”, modelo musical em formato intimista, cujo primeiro episódio recebeu o próprio Loiola, além de Dimel, outro importante nome da música de Pirapora. “Atualmente, a gente vai para o estúdio, quase todo dia, e experimenta, com sons e instrumentos dos mais diversos, para tentar contar um pedacinho da nossa história das Gerais, do Norte de Minas, nosso sertão, nosso Cangaço”.

Na canção que une o velho e o novo, há psicodelia até nas vigas que sustentam a ponte
AFLUENTE TEMPO

Quanta vida cabe no ‘Rio da Integração Nacional’? Imagine a resposta para essa também para seus afluentes. “Braços” que correm, mais tímidos e, às vezes, até intermitentes, mas que são fontes vitais. É no encontro que a força deste chão se faz encontro de águas, de gente, da aridez com a abundância. Por isso, ‘integrar’ é preciso e os afluentes do Velho Chico fazem parte desta bacia e desta gente.
AFLUENTE









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